domingo, 4 de junho de 2017

PROCURA DA POESIA, A ROSA DO POVO (1945), Carlos Drummond de Andrade



    "Rapazes, se querem que a literatura tenha algum préstimo no mundo de amanhã (o mundo melhor que, como todas as utopias, avança inexoravelmente), reformem o conceito de literatura. Já não é possível viver no clima das obras-primas fulgurantes e ... pobres, e legar ao futuro apenas esse saldo dos séculos. Reformem a própria capacidade de admirar e de imitar, inventem olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o espetáculo novo de que estão participando."

Esse prefácio, escrito em agosto de 1943, depois da batalha de Stalingrado e da queda de Mussolini e definido pelo autor como "exame da conduta literária diante da vida", vale como um verdadeiro manifesto da necessidade de participação do artista no "formidável período histórico em que lhe é dado viver": "Já não tenho medo de escravizar-me à vida", diz o poeta.
A coragem de se situar em face dos acontecimentos implica, portanto, renunciar à "obra-prima fulgurante" e reformar o "conceito de literatura".

“A Rosa do Povo reúne 55 poemas escritos exatamente entre 1943 e 1945, o que parece ser bastante significativo para quem diz, nesse mesmo prefácio, que "a poesia é a linguagem de certos instantes, e sem dúvidas aos mais densos e importantes da existência".

Os temas de “A Rosa do Povo” se entrelaçam, porém nunca se distanciam do realismo social participante.
O questionamento da própria poesia e do fazer poético encaminha-se para sua formulação mais densa: a "ars poética" de "Procura da Poesia", que define os contornos de toda sua obra posterior e baliza as direções da lírica moderna, que o poeta exerceu em seu sentido mais amplo.

Entre as diversas vertentes da obra, encontra-se o poeta de ação, a lírica social e o metalirismo, alternando a solidariedade da palavra poética para com o homem do povo, seu fechamento e a consciência da "crise da poesia".

Nas várias vertentes do livro, a operação metalinguística percorre toda obra contrastando a autonomia versus comunicação que atualiza e ilustra a oposição fundamental do signo poético, e inscreve o poeta na vanguarda mais permanente da modernidade.
    
A leitura dos poemas de “A rosa do Povo” permite verificar a afirmação explícita da crença na possibilidade de atuação da palavra poética sobre a "vida".

O poeta de “A Rosa do Povo” não é exclusivamente o poeta engajado. O lirismo social e político não é uma etapa definitiva de sua criação: o "fracasso" o fascina, mesmo nos momentos em que, se afirma a crença, ou em que se realiza a participação.


 PROCURA DA POESIA 


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo.
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à
linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não perca tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, e algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não aludes o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

“Procura da poesia” é um poema fundamental na obra de Drummond e no Modernismo brasileiro. Trata-se de um metapoema, metalinguagem, eixo fundamental do questionamento do poeta sobre a própria poesia.
O poema apresenta um eu lírico que se dirige, em tom professoral, próprio de quem já refletiu muito sobre o assunto, a um hipotético interlocutor, que escreve (ou pretende escrever) poesia sem refletir sobre o “fazer poético” e sempre empregando verbos no imperativo, na segunda pessoa do singular (“não faças”, “não cantes”, “penetra”, “convive”, “espera”, “não forces”, “não colhas”, “não adules”, “repara”). O interlocutor, no entanto, não tem voz, não contra argumenta, nem aceita.
O eu lírico defende o princípio de que a poesia deva ser impessoal, indiferente às realidades individuais e aos fatos particulares da vida, porque é universal. A poesia não deve ser feita de maneira ingênua, precipitada.
O eu lírico, assim, nos ensina que não se faz literatura apenas falando sobre acontecimentos ou resgatando subjetivamente a infância, ideias, sentimentos ou idealizando:
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”, mas pode vir a ser. Para isso, é preciso penetrar “surdamente no reino das palavras”, “lá estão os poemas que esperam ser escritos”. Ainda não são poemas, porque “estão paralisados”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, logo, Drummond não está propondo uma poesia alheia aos fatos; ele apenas reitera o trabalho com a palavra, matéria-prima do poeta.
Dessa forma, as palavras em estado de dicionário, ou seja, fora de contexto, têm apenas o sentido denotativo, frio e impessoal. Se contemplarmos as palavras atentamente, de perto, perceberemos que cada uma tem mil faces secretas (conotação) sob a face neutra (denotação).
Pode-se dividir o poema em duas partes: a primeira, marcada pelos imperativos negativos, representa tudo o que não deve ser feito por quem pretende escrever poesia. A segunda, marcada pelos imperativos afirmativos, realça o trabalho com a matéria-prima do poeta: a palavra.
Num texto que exalta justamente a palavra, compete ao leitor entender o seu significado no verso e as imagens empregadas pelo poeta; buscar a sua etimologia e a compreensão de seu sentido conotativo, pois é exatamente sobre a palavra e sua carga significativa que reflete Drummond em seu poema, como por exemplo:
- “infenso à efusão lírica”: infenso significa “adverso, contrário”; efusão significa “demonstração clara e sincera dos sentimentos íntimos”; o verso opõe corpo e sentimento.
- “bile”: é o mesmo que “bílis” líquido esverdeado e amargo segregado pelo fígado; em sentido figurado, significa “mau humor, azedume”.
- “elide”: forma do verbo “elidir”, que significa “suprimir, eliminar”; o verso afirma que a poesia elimina as relações entre sujeito e objeto.
- “Teu iate de marfim...esqueletos de família”: nesses versos, temos uma enumeração de posses (observe a força dos pronomes possessivos), numa sequência que abrange desde o objeto mais idealizado (iate de marfim) até o mais material (esqueletos de família); “mazurca” é uma dança polonesa de salão; “abusão” é o mesmo que “erro, ilusão”.
- “ermas”: abandonadas; no verso, significa que as palavras estão sem melodia e conceito.
“Procura da poesia” é uma poesia que fala de poesia. O fazer poético é penetração no reino das palavras, descoberta de suas faces secretas, que se escondem sob a face neutra, aparente, usual.




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