sábado, 1 de abril de 2017

SENTIMENTO DO MUNDO, 1940, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

(ITABIRA-MG, 1902 – RIO DE JANEIRO, 1987)

Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo, 
mas estou cheio de escravos, 
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige 
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu 
estará morto e saqueado, 
eu mesmo estarei morto, 
morto meu desejo, morto 
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram 
que havia uma guerra 
e era necessário 
trazer fogo e alimento. 
Sinto-me disperso, 
anterior a fronteiras, 
humildemente vos peço 
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem, 
eu ficarei sozinho 
desfiando a recordação 
do sineiro, da viúva e do microscopista 
que habitavam a barraca 
e não foram encontrados 
ao amanhecer

esse amanhecer 
mais noite que a noite.


“Sentimento do mundo” é o primeiro poema da obra homônima e inaugura a chegada do poeta à “vida adulta”.
Escrito em primeira pessoa, seu título foi emprestado à identidade da obra e reflete a tomada de consciência de limitações do “eu lírico” e do “outro”, perante as atrocidades do “mundo” e sua história. Dessa forma, o “sentimento do mundo” é o jogo entre a subjetividade e a objetividade, “o eu” e o “mundo”, que estabelece uma intencionalidade ambígua e incompleta entre os termos. Essa intencionalidade constitui uma distância intencional, isto é, a composição de imagens que ora nasce de um, ora de outro, por espelhamento ou reversão.
Na primeira estrofe o eu lírico apresenta um dualismo que resulta num grande conflito existencial: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, analisando a condição do ser humano diante das dilacerações e injustiças de seu tempo. Em seguida, afirma que apesar de impotente diante os acontecimentos históricos, “mas estou cheio de escravos,/minhas lembranças escorrem/e o corpo transige/na confluência do amor”, o que aparentemente se opõe à consciência de conhecer a dor alheia, pois suas lembranças se perdem e o corpo cede.
É preciso que se observe, no entanto, que a revelação de estar “cheio de escravos” aparece após uma adversa, uma oposição produzida pela conjunção “mas”. Note-se também que o advérbio “apenas” parece estar, no conjunto significativo do poema, apontando para outros anseios, como os de responsabilidade, traduzidos por ele; talvez condescendência, talvez autocrítica.
A segunda estrofe parece construir-se em torno da ideia do despertar, que não é tematizada abertamente, mas encontra reforço na metáfora do amanhecer e no momento do eu lírico levantar-se (se der conta da alienação). O despertar, obviamente, remete ao momento ainda difuso – como na transição entre o sono e a vigília – de tomada de consciência desse eu em relação à nova realidade social com que se defronta, enfim, o futuro.
Como de praxe, esse despertar é experimentado como algo tardio e, por isso mesmo, com uma boa dose de remorso, levando ao pedido de perdão. Esse pedido, aliás, representa a primeira retratação (no duplo sentido do termo) de seu individualismo e da culpa social.

Na terceira estrofe, o quadro geral da alienação reinante na realidade com que se depara, soma-se ainda a alienação do próprio eu lírico, que marcha sem rumo numa cidade-labirinto, preso em seus percalços, sua decisão e ação tardias, e o total despreparo para a luta, a ponto de não saber sequer da existência de uma guerra e, portanto, não dispor do básico para enfrentá-la – o que parece, no fim das contas, comprometer irremediavelmente o alcance de seu empenho solidário às vítimas esquecidas, ás agonias obscuras, á dimensão secretamente humana do processo social.
A pessimista visão de mundo que se justapõe à esperança da revolução e da utopia é sombria e denuncia-se com as mortes do céu e do próprio eu lírico e, apesar da ajuda incompleta dos companheiros de vida (“os camaradas”), o poeta pede humildemente desculpas. Assim, a dor é o “Sentimento do Mundo”; dor de todos os homens e que se concentra em um só: o eu lírico.
As imagens como “céu morto e saqueado”, “corpos não encontrados” e “morto meu desejo” revelam uma atmosfera de perplexidade e terror.
Na quarta estrofe, a presença de pessoas aparentemente de diferentes origens (um sineiro, uma viúva e um microscopista) numa mesma barraca indica que o terror da guerra está instaurado no local e que todos buscaram alguma maneira de fugir e acabaram se unindo na necessidade. O poema generaliza a sensação de medo e a necessidade da fuga ao mencionar três figuras tão marcantemente distintas uma da outra. O sineiro pode se associar à solução religiosa, cujo fracasso é representado por sua morte, soluções que apontam para um futuro (a vida eterna, o céu etc.). A viúva representa a consequência da solução militar e sua morte, além de se associar ao passado (marido perdido, condição de casa que ficou para trás). O microscopista representa a solução proposta pela morte da ciência, além de se associar ao presente, à tentativa desesperada de compreendê-lo e mergulhar nele, com a lente de um microscópio. Portanto, as três personagens têm laços entre si, e representam fracassos de iniciativas humanas, e perspectivas terríveis para o presente, o passado e o futuro.
A imagem final do texto “esse amanhecer” e “mais noite que a noite” não traz nenhuma perspectiva positiva. Trata-se de um amanhecer que não revela esperança ou qualquer tipo de alívio, mas apenas a continuidade da noite, ainda piorada, uma vez que ele se revela “mais noite que a noite”. Cabe ressaltar ainda que o poema gera uma quebra de expectativa, considerando que o dia deveria trazer luz novas possibilidades e não é o que o poema sugere.





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