sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A INGAIA CIÊNCIA, CLARO ENIGMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A INGAIA CIÊNCIA, CLARO ENIGMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
TERCEIRO POEMA DA PRIMEIRA PARTE

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estrela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

TÍTULO:

·        A PALAVRA “INGAIA” ADJETIVO DE “CIÊNCIA” NÃO ESTÁ DICIONARIZADA.
·        O POETA CRIOU O TERMO A PARTIR DO ADJETIVO “GAIO”, DE ORIGEM PROVENÇAL, QUE SIGNIFICA “ALEGRE”, “JOVIAL” E ACRESCENTOU O PREFIXO LATINO “IN”, QUE É MARCA DA NEGAÇÃO, LOGO: “INGAIA” PODE SIGNIFICAR TRISTE, INFELIZ OU VELHA PARA QUALIFICAR “CIÊNCIA”, PORTANTO: “INFELIZ CIÊNCIA”.

·        A RELAÇÃO DO TÍTULO COM O POEMA SERIA: INFELIZ CIÊNCIA COMO UM CONHECIMENTO PROFUNDO ADQUIRIDO COM A MATURIDADE QUE TORNA O HOMEM INFELIZ. ASSIM, QUANDO O HOMEM ATINGE À MATURIDADE (Á COMPREENSÃO PROFUNDA DA REALIDADE), ESSA SABEDORIA O TORNA INFELIZ, POIS MOSTRA O MUNDO COMO UM “CÍRCULO VAZIO”, UMA “CELA”, DESTRUINDO-LHE O “SONHO DA EXISTÊNCIA”.

·        OUTRO SIGNIFICADO PARA A EXPRESSÃO “GAIA CIÊNCIA”, FAZ ALUSÃO AO NASCIMENTO DA POESIA MODERNA NA PROVENÇA DURANTE O SÉCULO XII.
·        O PROVENÇA ERA A LÍNGUA USADA PELOS TROVADORES DA LITERATURA MEDIEVAL.

FORMA:

·        SONETO

·        VERSOS DECASSÍLABOS HERÓICOS

·        O registro do poema é ERUDITO, elegante, com termos como “glacialidade”, “estela” (coluna mortuária) e inversões como “agudo olfato”, “que o mundo converte”.

·        RIMAS COM NASALIZAÇÃO: “prenda”, “oferenda”, “venda”, “estenda”, “quebrantos”, “encantos” que alongam, arrastam a sílaba assim como a maturidade, a velhice, a decadência se arrasta.


A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela, (estrela)

PRIMEIRA ESTROFE:

·        O primeiro verso “A madureza, essa terrível prenda”: “PRENDA” SIGNIFICA OBJETO QUE SE DÁ A ALGUÉM COMO UM AGRADO; MIMO; DÁDIVA; PRESENTE.

·        “MADUREZA” SIGNIFICA MATURIDADE.

·        ASSIM, NA EXPRESSÃO “TERRÍVEL PRENDA” FORMA UM PARADOXO, POIS O SUBSTANTIVO PRENDA, É QUALIFICADO POR UM ADJETIVO QUE CONTRARIA SUA SIGNIFICAÇÃO POSITIVA.

·        O POETA DÁ O PESO E A MEDIDA DA “MADUREZA” (IDADE MADURA), COMO UMA HABILIDADE QUE “ALGUÉM NOS DÁ”, E NO PRONOME QUE INDEFINE ESSE SER QUE NOS ENTREGA TÁL DÁDIVA, QUE PODEMOS CONSIDERAR UM PRÊMIO ADQUIRIDO PELA PRÓPRIA EXISTÊNCIA VIVIDA.

·        ESSA MATURIDADE “TIRA O SABOR”, QUER DIZER, NÃO NOS DEIXA SURPREENDER COM FACILIDADE, EIS QUE SE PERDE O PALADAR DIANTE DO NOVO, DEIXA DE SER NOVIDADE.
·        “SOB A GLACIALIDADE DE UMA ESTELA”, SOB A FRIEZA, QUASE GÉLIDA DE UMA “ESTELA”, PEDRA OU “ESTRELA”, OU SEJA, DIANTE DA FRIA CERTEZA DA MORTE, DA FINITUDE DA VIDA, MAIS UMA REFERÊNCIA ETÉREA DO POETA QUE NOS REMETE A INSIGNIFICÂNCIA DO HOMEM PERANTE O UNIVERSO.
·        É INTERESSANTE NOTAR COMO O EU-LÍRICO SE OMITE DE DIZER QUEM “NOS DÁ” A TERRÍVEL PRENDA: DEUS, A VIDA, O ACASO, O DESTINO, NÃO IMPORTA; PARA O SUJEITO POÉTICO QUE VIVE NA MODERNIDADE, O PROBLEMA FILOSÓFICO NÃO É DE ONDE VEM A MADUREZA E SIM COMO VIVER COM ELA.


a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

SEGUNDA ESTROFE:

·        O POETA UTILIZA O RECURSO POÉTICO DO CAVALGAMENTO OU ENJAMBEMENT, EM QUE A SINTAXE DA ORAÇÃO NÃO SE COMPLETA NUM VERSO E PASSA PARA O PRÓXIMO, QUANDO UM VERSO CAVALGA SOBRE O VERSO SEGUINTE.
·        O ENCOBRIR OS OLHOS COM UMA VENDA, QUE TIRA A VISÃO DE LIBERDADE DA “JANELA”.

·        A CLAUSURA IMPOSTA PELA IDADE, PELOS LIMITES DO TEMPO E DA PRÓPRIA NATUREZA FÍSICA “O MUNDO SE CONVERTE NUMA CELA”.

·        A MADUREZA ASSUME UMA IDENTIDADE ANIMÍSTICA E SUA APATIA É COMPARADA A UM CÍRCULO VAZIO DE EXTENSÃO INFINITA QUE TRANSFORMA O MUNDO EM CELA.
·        É FEITA A RESSALVA QUE, MESMO QUE A IGNORÂNCIA (A “VENDA”) IMPEÇA O DELEITE PELO MUNDO (“A SURPRESA DA JANELA”), O CONHECIMENTO MADURO ROUBA-O DE INTERESSE.


A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

TERCEIRA ESTROFE:

·        NOVO ENJAMBEMENT

·        A MADUREZA SABE O QUANTO CUSTA CADA MOMENTO OCUPADO SEJA AMANDO, SEJA SE DESOCUPANDO, OU SOFRENDO E NÃO PODE IR CONTRA ESSAS EXPERIÊNCIAS PRÓPRIAS DO SER HUMANO E QUE NORMALMENTE O FAZEM AMADURECER.

·        A VIDA É REPRESENTADA METONIMICAMENTE POR “AMORES, ÓCIOS, QUEBRANTOS (PAIXÕES, INDIFERENTES E RUINS), A RESPEITO DAS QUAIS A MADUREZA – EM OUTRA METONÍMIA, REPRESENTADA POR SENTIDOS AGUÇADOS E MÃO DESENCANTADA – CONHECE BEM DEMAIS AS CONSEQUÊNCIAS (O “PREÇO EXATO”).


e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

QUARTA ESTROFE:

·        ENJAMBEMENT

·        CONTINUANDO A IDEIA DE QUE NADA PODE TAMBÉM CONTRA A PRÓPRIA MADUREZA, E CONTRA O APERFEIÇOAMENTO DOS SENTIDOS “O AGUDO OLFATO”, “O AGUDO OLHAR”, “A MÃO LIVRE DE ENCANTOS”, QUE TRABALHAM A NOSSO FAVOR PELO APURO DE SUAS HABILIDADES NÃO NOS DEIXAM ENGANAR FACILMENTE, E QUE POR FIM “SE DESTROEM NO SONHO DA EXISTÊNCIA”, PORQUE CAMINHA-SE INEVITAVELMENTE PARA O FIM.
·        E ESSA É A MAIOR CERTEZA QUE A MADUREZA “ESSA TERRÍVEL PRENDA” NOS DÁ.

ANÁLISE:
·        POESIA METAFÍSICA DE REFLEXÃO SOBRE A ESSENCIALIDADE DO SER HUMANO, QUE INCLINA PARA UM EXISTENCIALIMSO NIILISTA.
·        O POEMA QUESTIONA O SABER DA “INGAIA CIÊNCIA”, CUJA CLARIVIDÊNCIA DESENCANTADA IRONICAMENTE SE DESTRÓI A VIDA: “NO SONHO DA EXISTÊNCIA”.
·        A IDEIA DE MADUREZA CONTÉM A IDEIA DE DISSOLUSÃO, POIS QUE TAMBÉM FISICAMENTE É O AMADURECIMENTO DA MATÉRIA QUE SE DILUI E SE TRANSFORMA.
·        ASPECTO POSITIVO: O ACÚMULO DE EXPERIÊNCIAS. NEM TUDO SÃO PERDAS, POIS ALGO FICA, ALGO SE GANHA. QUEM SABE A CERTEZA DAS INCERTEZAS, A LUCIDEZ DIANTE DAS ADVERSIDADES E DOS MOMENTOS DE PRAZER.
·        CONCEITO DO ETERNO RETORNO. A VIDA É FINITA, QUE SEMPRE TENDE A DESREALIZAÇÃO, À TRISTEZA.
·        TAMBÉM O ARGUMENTO MUDA NA PASSAGEM DOS QUARTETOS PARA OS TERCETOS. ATÉ ENTÃO, A MADUREZA APRECIA COMO UMA FORÇA TERRÍVEL CONTRA OS HOMENS. A PARTIR DO VERSO 11, ELA PASSA A SER TERRÍVEL CONTRA SI MESMA – NÃO É MAIS APENAS INOCÊNCIA OU O EU-LÍRICO QUE SOFREM COM A MADUREZA, MAS ELA PRÓPRIA: “NADA PODE CONTRA SUA CIÊNCIA”. E MAIS, NA CONCLUSÃO, A MADUREZA SE DESTRÓI “NO SONHO DA EXISTÊNCIA”.
·        PRIVADO DA CERTEZA APÁTICA QUE ATÉ ENTÃO A MATURIDADE LHE TROUXERA, O EU-LÍRICO DESCOBRE-SE AGORA DISSOLVIDO EM UMA EXISTÊNCIA SEM SIGNIFICADO: UM SONHO VAZIO.
·        O POEMA É COMPARÁVEL COM OS MITOS DE QUEDA, COMO O GÊNESS BÍBLICO OU O ROUBO DO FOGO PELO PROMETEU GREGO – MITOS EM QUE O CONHECIMENTO APARECE COMO UM PRESENTE OU OFERTA COM CONSEQUÊNCIAS DOLOROSAS E INEVITÁVEIS. O POEMA NÃO BUSCA PROXIMIDADE COM OS MITOS EXPLICITAMENTE; PORÉM, ELE TOCA O SIMBÓLICO AO EMPREGAR.
·        DRUMMOND DIALOGA COM NIETZSCHE EM “INGAIA CIÊNCIA”, UM POEMA QUE TRATA DOS MESMOS PROBLEMAS EXISTENCIALISTAS ENFRENTADOS PELO FILÓSOFO ALEMÃO, MAS DRUMMOND SITUA-SE NO TOM PRECISAMENTE OPOSTO AO NIETZSCHE, “GAIA CIÊNCIA”, TEMA DE UM DE SEUS TRATADOS DE FILOSOFIA, NO QUAL EMPREGA-O PARA DESCREVER NÃO APENAS A POESIA, MAS A PRÓPRIA ATITUDE ENÉRGICA E “DANÇANTE” DOS CAVALEIROS-CANTORES PROVENÇAIS, ELEITA POR ELE COMO UMA ESPÉCIE DE NOVA MORAL CONTRA O NIILISMO.


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