sexta-feira, 8 de julho de 2016

“Pede o desejo, Dama, que vos veja”, Camões

Pede o desejo, Dama, que vos veja,
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa a qual natural seja
Que não queira perpétuo seu estado;
Não quer logo o desejo o desejado,
Porque não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afeito em mim se dana;
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,

Assim o pensamento (pela arte
Que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.


Na PRIMEIRA ESTROFE é estabelecida a proposta do poema: o “eu-lírico” afirma que o desejo pede que ele veja sua dama, mas que (o desejo) está enganado porque a fineza e a pureza do amor o impedem de saber o que realmente quer. Sabe também que, para não faltar, o desejo não pode obter o desejado.

O sentimento tão físico de desejar se transforma em platônico e não sendo concretizado é condição para que o amor seja eterno.

Existe, então, o conflito entre o espiritual e o carnal quando o eu-lírico expõe a sua condição terrena e humana.
O amor e a referência à mulher são levados para o sentimento platônico, como pode se observar na primeira estrofe “É este amor tão fino e tão delgado”, porém também existe a contrariedade da condição humana em “que vai tomar de mim, terrestre [e] humana”, características que dão força dramática ao poema.

Durante todo o tempo existe o conhecimento do que seja eterno e também a contrariedade do desejo físico, num questionamento que exprime também a força intelectual do poema.

De início, é bastante puro o desejo expresso de ver, mas a insistência com que aparece este substantivo e seus cognatos (desejo, deseja, desejo, desejado, desejar) acompanhado de o verbo pedir (três vezes) cria o tom do desejo obsessivo que arde por transformar "este amor tão fino e tão delgado" em "baixeza".

Sabe ainda que este puro afeto se contamina do que o amante tem de humano e terrestre, levando-o a "pedir esta baixeza" que é ainda vê-la, com um ver que perdeu a pureza inicial.

A SEGUNDA ESTROFE vem explicar, por meio dum silogismo, qual é o caráter do desejo: parte da proposição de que nada natural não quer perpétuo estado, ou, mais claramente, tudo o que é natural pretende-se perene, portanto o desejo não quer o desejado para que se mantenha sempre desejando. Daí deduzimos que o desejo é natural e que o objeto desejado deve ser necessário e inalcançável para que o primeiro exista e mantenha-se eterno.

O PRIMEIRO TERCETO, iniciado pela adversativa, vem indicar que, embora o eu-lírico saiba que o desejo, como cousa natural, pretende-se eterno, nele isto não se aplica.

É introduzido um cotejo que será encerrado no ÚLTIMO TERCETO do poema: assim como a grave pedra, a ciência, o pensamento, a filosofia, deseja o centro da natureza, o pensamento, ou desejo dele, pediu que ele fosse vê-la porque ele é uma criatura terrestre, humana.
Assim, deixa claro no final, que a parte responsável pelo ultraje de galantear a moça é sua parte humana, vulgar, vil. Daí o adjetivo “baixeza” qualificando o homem em relação a “senhora”, marcando a superioridade da mulher. Camões de vale do pacto de vassalagem, tão caro à poesia trovadoresca e ainda mundo agraciado por poetas e leitoras do mundo todo.

A parte “terrestre [e] humana” à qual a personagem-sujeito se refere está ligada diretamente à prática, embora tenha demonstrado anteriormente que tem domínio sobre os princípios teóricos, contemporâneos ao poema, que pregam a procura pela manutenção eterna do que é natural.

É deste modo que a análise proposta no poema procurar distinguir teoria e prática, diferenciando o pensamento e a ação.
Sob o ponto de vista da teoria, que crê na cousa natural querer perpétuo seu estado, a ação, que leva o “eu-lírico” à concretização do desejo, vendo a Dama, é caracterizada como “baixeza”.

É interessante observar que, embora, sob a perspectiva do plano dos princípios o ato de vê-la seja apontado como baixeza típica do humano, o “eu-lírico” faça questão de assumir sua “falha” e demonstrar, ao final do poema como aquela teoria não serve de nada ao ser terrestre e humano.

Desta maneira, fica evidenciado no poema em questão que apesar de coexistirem, o carnal e o espiritual, a estância prática, humana e carnal é privilegiada por Camões, em detrimento da teórica, sobre-humana e idealizada.

Duas forças opostas atuam sobre o amante: a lúcida consciência de que o desejo se mata ao realizar-se - tal como a esperança, o desejo só existe in fieri - e a incapacidade de resistir ao apelo do amor, que o atrai tão inevitavelmente como o centro da Terra atrai a pedra lançada.

CONCLUSÃO:

O verbo, no início, está no presente: "Pede [...] que vos veja.", mas um presente que contém em si embutido um futuro - se pede é porque ainda não a viu, mas possivelmente a verá -; no fim, está no passado - em que também se embutiria um futuro que não se sabe se se realizou - "foi pedir".  Assim, o soneto pode ser lido indefinidamente, recriando a obsessiva busca da realização amorosa, que não se efetua, pois, ao tentá-la, o amante a sente e qualifica como baixeza.

O soneto é estruturalmente cíclico. O primeiro e o último versos repetem-se quase integralmente: "Pede o desejo, dama, que vos veja", e: "Foi, Senhora, pedir esta baixeza". O mesmo verbo principal, o mesmo locutor, a mesma alocutária. Muda, porém, o sujeito, muda o tempo do verbo. No v.1, é o desejo o agente; no v. 14, é o pensamento, o que agrava a responsabilidade do amante-sujeito lírico, consciente de que pede e do que pede.

No soneto, como vimos, há um sentimento de culpa excessivo, pois que o máximo do desejo está - pelo menos no nível do explícito - em ver. Não é isso que encontramos nas supracitadas canções. Em ambas o Poeta, ainda que seja por um momento, é arrastado a um desejo mais forte que o de apenas ver o objeto amado.

O EU-lírico afirma que o Amor está enganado pois ele existe em maior quantidade no desejo. E assim o poeta traça uma tensão: não conseguiria resistir ao desejo de pedir uma retribuição amorosa em relação à ideia de amar só em pensamento.



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