terça-feira, 3 de maio de 2016

RETIRANTES, 1944, CANDIDO PORTINARI



                           Candido Portinari (1903-1962)

"Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu auto-retrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo."

Candido Portinari

I – VIDA:

   Candido Portinari nasceu no dia 29 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodósqui, no Estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebeu apenas a instrução primária. Ainda criança manifestou sua vocação artística e iniciou-se no mundo artístico como ajudante dos restauradores da igreja de sua cidade.
   Aos quinze anos de idade foi para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1928 conquista o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro da Exposição Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica. Vai para Paris, onde permanece durante todo o ano de 1930.
  Longe de sua pátria, saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas o povo brasileiro e a realidade local, superando aos poucos, sua formação acadêmica e fundindo a ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista técnico-expressivas.
  A estada na Europa, entre 1928-30, trouxera-lhe as condições fundamentais para a superação da atitude artística convencional. Duas fontes plásticas distintas marcariam, sobretudo sua obra: a contemporaneidade parisiense e a pintura italiana do Quatrocento.  Passa a lecionar na Escola Nacional de Belas Artes, recebendo a nomeação de “pintor nacional” durante o governo de Getúlio Vargas.
   Em 1935 obtém seu primeiro reconhecimento no exterior, a Segunda menção honrosa na exposição internacional do Carnegie Institute de Pittsburgh, Estados Unidos, com uma tela de grandes proporções intitulada Café, retratando uma cena de colheita típica de sua região de origem e inicia seus trabalhos inspirados no movimento muralista mexicano (Movimento Rodoviário, na Via Dutra; Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro; Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York; Fundação Hispânica na Biblioteca do Congresso, em Washington). Estes trabalhos, como conjunto e como concepção artística, representam um marco na evolução da arte de Portinari, afirmando a opção pela temática social, que será o fio condutor de toda a sua obra a partir de então. Companheiro de poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, Portinari participa da elite intelectual brasileira numa época em que se verificava uma notável mudança da atitude estética e na cultura do país: tempos de Arte Moderna e apoio do mecenas Getúlio Vargas que, dentre outras qualidades soube cercar-se da nata da intelectualidade brasileira de seu tempo.
   Na década de 40, dedica-se a um expressionismo de caráter social com a série Emigrantes (1944, acervo do MASP) e os painéis e azulejos da Igreja Pampulha (BH/MG).
   PORTINARI foi muito criticado por “deformar” suas figuras humanas. No início da década de 1940, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, era acusado de antinacionalista por retratar os trabalhadores com braços e pernas desproporcionais, como se sofressem de elefantíase. Mesmo ao filiar-se ao PC, o artista não se vinculou ao Realismo Socialista ou a outras soluções de caracterizada natureza política. Na verdade, as telas de PORTINARI são verdadeiro hino de louvor àquelas pessoas, como nos explica o pintor:

   “Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história.
   Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muitos e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito. Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um corpo franzino e doente. Pés cheios de nós que expressavam alguma coisa de força, terríveis e pacientes”.
  
   PORTINARI recriava a realidade, potencializando uma maneira particular de ler o mundo ou mesmo dando corpo a uma outra verdade.
   O artista dialetizou aqueles poderosos elementos de linguagem na interpretação plástica do ambiente nativo. Valeu-se de uma imaginação coordenadora que, em parte essencial de sua obra, enfatiza as características antropológicas e as condições sociais do povo brasileiro.
   PORTINARI chocava e ao mesmo tempo interessava pela versatilidade dos recursos técnicos, iconográficos e expressivos.
   Em 1941, Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, com temas referentes à história latino-americana.
   De volta ao Brasil, realiza em 1943 oito painéis conhecidos como SÉRIE BÍBLICA, fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 2ª Guerra Mundial. Em 1944, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, inicia as obras de decoração do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, destacando-se o mural São Francisco e a Via Sacra, na Igreja da Pampulha.
   A escalada do nazi-fascismo e os horrores da guerra reforçam o caráter social e trágico de sua obra, levando-o à produção das séries RETIRANTES e Meninos de Brodósqui, entre 1944 e 1946, e à militância política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidatando-se a deputado, em 1945, e a senador, 1947. Ainda em 1946, Portinari volta a Paris para realizar sua primeira exposição em solo europeu, na Galerie Charpentier. A exposição teve grande repercussão, tendo sido Portinari agraciado, pelo governo francês, com a Légion d!Honneur. Em 1947 expõe no salão Peuser, de Buenos Aires e nos salões da Comissão nacional de Belas Artes, de Montevidéu, recebendo grandes homenagens por parte de artistas, intelectuais e autoridades dos dois países.
   A partir de 1948, Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, onde pinta painéis com temas históricos: o painel Primeira Missa no Brasil, 1948, encomendado pelo banco Boavista do Brasil e em 1949 executa o grande painel Tiradentes, – hoje no Memorial da América Latina em SP.
   Na década de 50, nosso modernismo passa a explorar a vertente abstracionista, indo além do expressionismo de Portinari (que os jovens pintores achavam superado).
   Em 1952, atendendo a encomenda do Banco da Bahia, realiza outro painel com temática histórica, A chegada da família real à Bahia e inicia os estudos para os painéis Guerra e Paz, oferecidos pelo governo brasileiro à nova sede da Organização das Nações Unidas. Concluídos em 1956, os painéis, medindo cerca de 14x10 m cada - os maiores pintados por Portinari - encontram-se no "hall" de entrada dos delgados de edifício-sede da ONU, em Nova York. Em 1955, recebe a medalha de ouro concedida pelo Internacional Fine-Arts Council de Nova York como o melhor pintor do ano. Em 1956, Portinari viaja a Israel, a convite do governo daquele país, expondo em vários museus e executando desenhos inspirados no contado com recém-criado Estado Israelense e expostos posteriormente em Bolonha, Lima, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Neste mesmo ano Portinari recebe o Prêmio Guggenheim do Brasil, a Menção Honrosa no Concurso Internacional de Aquarela do Hallmark Art Award, de Nova York.
   Expõe em Paris e Munique em 1957. É o único artista brasileiro a participar da exposição 50 ANOS DE ARTE MODERNA, no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, em 1958. Como convidado de honra expõe 39 obras em sala especial na I Bienal de Artes Plásticas da Cidade do México, em 1958. No mesmo ano ainda, expõe em Buenos Aires. Em 1959 expõe na Galeria Wildenstein de Nova York e, juntamente com outros grandes artistas americanos como Tamayo, Cuevas, Matta, Orozco, Rivera, participa da exposição COLEÇÃO DE ARTE INTERAMERICANA, do Museu de Bellas Artes de Caracas.
   Em janeiro de 1962 sofreu nova intoxicação por chumbo, que já o atacara em 1954. Adoecido, não mais se recuperou. Nessa época, preparava uma grande exposição, com aproximadamente duzentas obras, a convite da prefeitura de Milão. Em 6 de fevereiro, Portinari morreu, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava, mas cumprindo a promessa de homenagear a sua terra e o seu povo, através da sua arte.

   "Daqui fiquei vendo melhor a minha terra. Fiquei vendo Brodowski como ela é".

II – CARACTERÍSTICAS:

   Em sua obra percebe-se a apropriação de diversas estéticas, desde o renascimento (os planos e a perspectiva) até o cubismo (a superfície chapada e a geometrização das formas, numa figuração impactante, participante do processo social e também da constituição de uma arte e de um imaginário moderno brasileiro).

  “Eu sempre parto de uma composição abstrata para chegar a uma arte figurativa. Penso primeiro em linhas planas e cores, mas em função de um tema que tenho em mente – é claro, portanto, que estes dois atos têm íntima relação”

   Segundo Jorge Amado: “Portinari nos engrandeceu com sua obra de pintor. Foi um dos homens mais importantes do nosso tempo, pois de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pincéis, ele tocou fundo em nossa realidade. A terra e o povo brasileiro – camponeses, retirantes, crianças, santos e artistas de circo, os animais e as paisagens – são a matéria com que trabalhou e construiu sua obra imorredoura. ”
  
  Portinari não pertenceu à primeira geração modernista, nem, a rigor, começou como um artista moderno. No mesmo ano em que se realizava a Semana de Arte Moderna, em 1922, era, muito jovem, premiado no Salão Nacional de Belas Artes, um reduto do tradicionalismo. Só em 1931, de volta ao Brasil após dois anos na Europa, expôs no Rio de Janeiro as primeiras obras que indicavam sua necessidade de renovação, tanto temática quanto estilística. Sofreu então certa influência dos muralistas mexicanos, que aparece em Café, uma de suas primeiras grandes telas de conteúdo social. Era homem de esquerda - pertenceu ao Partido Comunista - e artista engajado, e consagrou sua obra à denúncia das mazelas do País subdesenvolvido que existia a seu redor. Um pouco influenciado também pelas fases mais dramáticas de Picasso, realizou em meados dos anos 40 obras excepcionais, como Menino Morto e Enterro na Rede. Fazem parte de uma vasta série sobre os retirantes - os emigrantes da região Nordeste do Brasil que, assolados pela seca, abandonam suas terras em busca de melhores condições de vida, sem sucesso.

   Portinari de volta ao Brasil, já sem os traços acadêmicos, mas também sem o radicalismo dos artistas vanguardistas, acabou sendo eleito pelos protagonistas do movimento modernista local (Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e outros); como principal motor para a constituição de uma arte moderna no Brasil: uma arte que tentava distanciar-se das convenções da Academia, mas atenta para não se 'perder' na abstração ou em outros 'excessos' vanguardistas".
Portinari foi um artista muito dotado, um grande desenhista, um grande colorista, dono de uma técnica impecável. Justamente por isso, às vezes o acusam de um tradicionalismo disfarçado. A acusação é excessivamente rigorosa. Sua posição hoje é a de um mestre fundamental, mesmo que sem o grau de inventividade de linguagem ímpar, como o de Volpi.

III – OBRA:

                                   “RETIRANTES” (1944)


    “Candido Portinari (1903-1962) tem sua obra caracterizada por um grande diálogo com o movimento muralista mexicano, esse marcado por grande carga de crítica social, num momento em que o modernismo se polarizava entre o abstracionismo e o figurativismo.
   Dentro dessa segunda corrente, Portinari irá encarnar um “pólo brasileiro” da pintura do século 20 no país, ao retratar especialmente trabalhadores rurais, como na obra “Retirantes” (FGV-Direito)”.

            Deus de Violência

Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos
Doloridos como fagulhas de carvão aceso

Corpos disformes, uns panos sujos,
Rasgados e sem cor, dependurados
Homens de enorme ventre bojudo
Mulheres com trouxas caídas para o lado

Pançudas, carregando ao colo um garoto
Choramingando, remelento
Mocinhas de peito duro e vestido roto
Velhas trôpegas marcadas pelo tempo

Olhos de catarata e pés informes
Aos velhos cegos agarradas
Pés inchados enormes
Levantando o pó da cor de suas vestes rasgadas

No rumor monótono das alparcatas
Há uma pausa, cai no pó
A mulher que carrega uma lata
De água! Só há umas gotas — Dá uma só

Não vai arribar. É melhor o marido
E os filhos ficarem. Nós vamos andando
Temos muito que andar neste chão batido
As secas vão a morte semeando.

                                   In: PORTINARI. “: o menino e o povoado, aparições, a revolta, uma prece. Pref. Manuel Bandeira. Nota biogr. Antonio Callado, Rio de Janeiro:J.Olympio, 1964.

  Retirantes, de 1944, é uma obra vinculada ao neorrealismo na medida em que se engaja na denúncia do fenômeno da imigração nordestina. O aproveitamento da técnica expressionista é a característica mais marcante nessa série (há uma série de quadros sobre o tema), muito embora em sua poética perceba-se a convergência de várias outras.
  Retirantes faz parte do ciclo que se impregna de forte e inconfundível atmosfera. Nós a respiramos na sua cor arroxeada predominantemente, demonstração do estímulo que o ambiente físico exerce no espírito e nos sentidos do artista.
   À realidade intensa da terra ele relaciona figuras e coisas como componentes inseparáveis. Faz isso com sentido estrutural do espaço, assimilado do racionalismo da Renascença. No enérgico porte e delineamento formal das figuras serenas, vemos os mesmos pontos de origem, todavia intumescidos pela presença de localizadas deformações expressionistas.
   PORTINARI vai direto ao encontro da vida popular, demonstrando, desde logo, consciência crítica ao abordar temas em que acentua as pesadas condições de trabalho do camponês.
   A objetividade de sua observação não exclui o prazer poético dos distanciamentos oníricos que precederam o “approach” surrealista.
    De Cândido Portinari pode-se dizer que é o mais moderno dos antigos.
   O impacto da descoberta de Guernica de Picasso, levara-o a um Expressionismo exasperado na caracterização trágica do homem. Exemplo da absorção picassiana encontra-se na tela Retirantes, que trata de condições sub-humanas de existência no Brasil.
   Esta recuperação cultural é comum no passado e no século XX. As recorrências de PORTINARI passavam por decidido poder catalisador, amalgamando-se às introspecções do autor e sua funda empatia com as próprias origens rurais e o clima da vivência.
   A determinação do artista está, numa larga margem, colocada na exaltação da humanidade a que se sente pertencer ou a que é solidário. O inconformismo e a rebeldia próprios dos emigrantes que traziam no sangue a luta ancestral do camponês pelo direito da terra deviam insuflar-lhe a temática a assumir.
    Até hoje a avaliação exata de PORTINARI, artista de importância ímpar no meio, o que é preciso reconhecer em voz alta, sofre os percalços da polêmica que o envolveu desde os tempos em que os círculos governamentais da Revolução de 30 e do Estado Novo reiteravam-lhe uma preferência declarada.
   Valeu-lhe isso a fama de “pintor oficial” e, pior ainda, a de artista ligado a uma ditadura das mais repressivas, o que provocou acirrada disputa entre seus defensores e detratores (portinaristas e antiportinaristas).
   Não se pode negar, entretanto, que era ele um “indisposto a transigências”, como a propósito do seu comportamento, definiu o insuspeito Graciliano Ramos.
   A análise de sua obra, descontados prejuízos como os que envolvem parte de sua retratística, assegura-nos a certeza da fidelidade mantida pelo pintor aos valores plásticos, argamassados com independência na vinculação resoluta com os conteúdos sensíveis da realidade do homem em luta pela sobrevivência.
   Diante da obra de Portinari, vemos a paisagem, pisamos o chão; vemos seus trabalhadores e sua pobreza - não descritos com aflição, descritos. E descritos com amor. Não amor pela miséria e o trabalho incessante e sim amor por mulher, homem, criança - que, ricos ou pobres, são para ele objeto de amor. Ele os retrata com plena aceitação. “Bem-aventurados os humildes” é o que parece dizer, do fundo do coração. E sem as condições em que vivem em sua terra brasileira nada tem, pelo que vemos, de invejável herança, a vida que levam, pela bondade que deles se exala, vale a pena ser vivida.
   A dignidade que o artista confere ao trabalhador, o destaque que dá ao personagem popular, enfim, todos aqueles assuntos que ele abordou não podiam ser negados por um poder para quem a questão social (mesmo que dentro de uma ótica populista) constituía uma das bases de sua política. Está no homem o seu interesse e não no procurar um estilo próprio.
   Portinari produziu suas obras experimentando procedimentos pictóricos de artistas antigos e contemporâneos, sempre acrescentando a cada um desses “experimentos” soluções de forte cunho pessoal, que ainda aguardam um entendimento mais profundo.
   De acordo com os críticos, poucos foram os momentos em que Portinari se libertou da preocupação naturalista reinventando a figura humana. Sua visão aponta sempre para o aprofundamento do tema surgindo em muitos casos a intensidade dramática tentando conquistar uma imagem moderna.
   Portinari com sua arte voltada para o povo ampliou a contribuição da cultura brasileira para a humanidade. Ele foi um grande guerreiro que superou a rigidez acadêmica e levou um pouco do nosso país ao mundo com sua temática, cheia de brasilidade.
   Gerar espaço, cor, formas é muito mais um desejo de atualização do que aprofundamento artístico de Portinari.
   A proposta de Portinari é real para o seu tempo, sua estrutura e identidade com seu país.

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