sábado, 5 de março de 2016

“O LIVRO E A AMÉRICA", CASTRO ALVES

“O livro e a América”

                                                    Ao grêmio literário


Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... co'os firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"


"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"


Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou...


Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
 

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...


A poesia social de Castro Alves é caracterizada pelo discurso retórico; uso exagerado de hipérboles e antíteses; acúmulo sucessivo de metáforas; movimento, com o objetivo de demonstrar concretamente o ritmo da luta da humanidade em busca da liberdade; e impressionante capacidade de comunicação. A poesia, portanto, perde terreno para a propaganda política. Pragmático, o poeta usa a poesia para levar o leitor à ação, para transformar e não só para deleitar. Esse comprometimento faz a poesia se aproximar do discurso, incorporando a ênfase oratória e a eloquência.
De teor metalinguístico, declamativo e pendor social, um de seus símbolos mais frequente é a imagem do condor dos Andes, pássaro que representa a liberdade da América. 
O poeta "condoreiro" tem um papel messiânico e afinado com o seu momento histórico, para tanto, a poética deve se identificar profundamente com o ritmo da vida social e expressar o processo de busca da humanidade por liberdade.
Castro Alves defende o mundo moderno, o “trem de ferro”, rejeitando o paganismo, a violência e a tirania: “Filhos do séc’lo das luzes”, para as quais a grande arma é o saber – o livro que ilumina os homens, mostrando-lhes o caminho da verdade e da justiça.
Seus olhos estão voltados para a multidão, para as relações livres de trabalho, onde não havia mais lugar para a cultura ultrapassada e a escravidão - “caboclos nus”.
Nesse poema, o poeta exalta não apenas a Colombo, o descobridor do Novo Mundo; mas, também, a Guttenberg, o descobridor da cultura que segundo o poeta, criou o papel civilizador do progresso, da imprensa, do saber, à qual cabe construir o futuro e clama aos iluminados para iluminá-la.
Nesse poema, o autor exalta Cristóvão Colombo, navegador e explorador europeu, direcionado por Jeová (Deus no Antigo Testamento), responsável por liderar a frota que alcançou o continente americano em 12 de outubro de 1492, sob as ordens dos reis católicos de Espanha, no chamado descobrimento da América. 
Deus ordena ao novo mundo que marche, mas como se perguntasse mais a si próprio do que ao Senhor, ele se questiona como deve marchar: como a Grécia, construindo muitos templos de mármores a muitos deuses; como Roma, guerreando e dominando, ou como a Alemanha, tiranicamente?
E em resposta, obtêm que no lugar de armas; o livro, que conquistará o mundo inteiro. Além de sugerir que pode ser significativa á coincidência da descoberta da América (Colombo) ter acontecido no mesmo século da invenção da imprensa (Guttenberg), aponta a América, “ninho entre os palmares” como a pátria da imprensa, o lar do livro. 

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