quarta-feira, 10 de junho de 2015

UBIRAJARA – “LENDA TUPI”, JOSÉ DE ALENCAR (1874)


I – INTRODUÇÃO:

Advertência:

   “Este livro é irmão de Iracema.
   Chamei-lhe lenda como ao outro. Nenhum título responde melhor pela propriedade, como pela modéstia, às tradições da pátria indígena.
Quem por desfastio percorrer estas páginas, se não tiver estudado com alma brasileira o berço de nossa nacionalidade, há de estranhar entre outras coisas a magnanimidade que ressumbra no drama selvagem a formar-lhe o vigoroso relevo.
   Como admitir que bárbaros, quais nos pintaram os indígenas, brutos e canibais, antes feras que homens, fossem susceptíveis desses brios nativos que realçam a dignidade do rei da criação?
   Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, senão de todo o período colonial, devem ser lidos à luz de uma crítica severa. É indispensável sobretudo escoimar os fatos comprovados, das fábulas a que serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espíritos acanhados, por demais imbuídos de uma intolerância ríspida.
   Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de séculos, queriam esses forasteiros achar nos indígenas de um mundo novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de idéias e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que eles mesmos provinham de bárbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os selvagens americanos.“ (Alencar, José de. Ubirajara. SP:Ática, 1977, p.11)

   É fundamental perceber que, nessa obra, tão importante quanto à narrativa propriamente dita é o “subtexto”, composto pela “advertência” (uma espécie de prefácio) e por inúmeras notas explicativas do autor.
   Tanto na advertência quanto nas notas, Alencar tem a preocupação de apresentar um suporte teórico acerca dos costumes dos povos nativos. O romancista faz severas críticas aos historiadores, cronistas e viajantes da era colonial, que pretendiam “achar nos indígenas do mundo novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de ideias e costumes”.

A obra “Ubirajara” (1874) compõe a trilogia indianista de José de Alencar, ao lado de “O guarani” (1857) e “Iracema” (1865), diferenciando-se das outras duas obras pelo fato de a sua narrativa se passar num Brasil pré-cabralino, isto é, antes da chegada dos colonizadores portugueses. 
Em sua obra indianista, o escritor se propõe a pesquisar a identidade nacional, resgatando a história daqueles que primeiro habitaram o Brasil: o índio integrado à vida natural, símbolo de autenticidade e pureza e, desmistificar a imagem negativa que os índios passaram a ter a partir dos relatos dos cronistas coloniais. A crítica de Alencar encerra, contudo, um profundo paradoxo: se, de um lado, o escritor critica a forma preconceituosa e depreciativa como os colonizadores julgaram os aborígenes, de outro, ele tinge os índios com seus próprios valores, atribuindo-lhes uma moralidade e uma ideia de honra que é própria da visão de mundo do branco europeu. Influenciado pela valorização dos cavaleiros medievais criados pelo Romantismo europeu, Alencar faz com que a personagem principal de seu livro, isto é, o próprio Ubirajara, seja caracterizada por uma superioridade imanente que se sobrepõe a tudo e a todos, dando-lhe, inclusive, um estatuto de herói épico.
Essa defesa do índio por Alencar em “Ubirajara”, além da advertência, se dá também na série de notas explicativas que acompanham o texto. Tais notas possuem um duplo papel: primeiro, servem para dar verossimilhança à visão que o autor apresenta do índio brasileiro; segundo, funcionam como suporte antropológico a essa visão. O segundo papel esclarece de que tratam as notas em sua maior parte: da cultura dos índios, de suas relações sociais e com a natureza, com base nos escritos de vários estudiosos dos indígenas, desde a chegada dos portugueses ao continente americano.
“A visão que tem Alencar da sociedade indígena é, pois, calcada na sua própria atitude ideológica dentro da sociedade brasileira do Segundo Reinado. Ambas as sociedades se apresentavam solidamente estruturadas, fechadas em valores de chefia (poder), nobreza (coragem) e glória (feitos guerreiros)”, segundo o crítico Silviano Santiago.
José de Alencar, um profundo estudioso da civilização nativa, ressalta três teses fundamentais que necessitavam ser contestadas:
  • versão da promiscuidade sexual: o autor rebate tal tese, alegando que a organização familiar dos índios era apenas diferente da dos europeus. Ele explica que a poligamia não poderia ser entendida como costume imoral, pois na verdade existia um rigor muito grande na questão da virgindade. Para ilustrar isso, na nota explicativa, o autor justifica o uso de uma liga vermelha (tapacorá) usada somente pelas virgens: “quando a menina atingia a puberdade, depois de sua purificação, (...) a mãe punha-lhe nas pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, de três dedos de largura, e tecida no próprio lugar, de modo que uma vez fechada, não era mais possível tirá-la.”
  • a traição entre os índios: segundo Alencar, a traição entre os indígenas só aconteceu após o processo de aculturação.
  • os rituais da antropofagia: ao contrário da crença dos cronistas, que entendiam a antropofagia como um sinal de gula ou de vingança, o romancista ressalta o caráter de ritual, em que “o selvagem americano só devorava ao inimigo vencido e cativo na guerra”, de forma que os restos do inimigo tomavam-se uma espécie de hóstia sagrada que fortalecia os guerreiros”. Os índios acreditavam que, ao comer a carne do guerreiro inimigo, estariam adquirindo todas suas qualidades, operando uma “transfusão de heroísmo”.

II - FOCO NARRATIVO:

      A história é narrada em terceira pessoa, por um narrador onisciente que vai compondo um rico painel dos costumes da sociedade indígena. Além desse narrador onisciente, é possível ainda detectar a presença de outro narrador, isto é, o das notas explicativas que acompanham o romance – um “narrador histórico”, como denominou a crítica Mirhiane Abreu.

III – TEMPO:

   O tempo é cronológico e remonta a ação ao século XV, o que pode ser determinado pela ausência do homem branco, no Brasil.

IV – ESPAÇO:

A ação se desenvolve ás margens dos rios Tocantins e Araguaia.
A narrativa apresenta a natureza selvagem como espaço privilegiado, com a maior parte das ações desenvolvendo-se na região interior e selvagem de um Brasil primitivo e edênico. Por meio de adjetivações, a paisagem mostra-se sempre exuberante, grandiosa. Também não faltam ao texto as referências aos costumes dos índios, assim como as citações dos objetos e ornamentos usados por eles.

V – LINGUAGEM:

O autor recria um mundo lendário e poético. Encontra-se nesse romance a tentativa de reproduzir a força poética natural da fala dos indígenas, plena de comparações e personificações. Há o claro objetivo de conferir maior credibilidade à sua história, por meio da utilização abundante de palavras em tupi, a língua aborígene.
Outra característica a ser notada é o fato de que, no uso do discurso direto, os índios nunca usam a 1ª pessoa do singular (“eu”). Eles chamam a si mesmos pelo seu nome, em 1ª pessoa. Ademais, após o nome, sempre há expressões explicativas que funcionam como uma espécie de sobrenome: Ubirajara, senhor da lança; Araci, estrela do dia; Jandira, sorriso de mel, etc. E o chamado epíteto, recurso próprio às epopéias antigas, em que os atributos mais expressivos da personagem são acoplados ao seu nome, o que a valoriza e provoca admiração no leitor, além do efeito poético que produz.
Entre as figuras de linguagem presentes na narrativa, as mais abundantes são:
  • Comparação: “... e despediu-se dela como a jaçanã que deixa a moita para habitar o ninho do amor.”
  • Metonímia: “... encostou-se à porta da cabana: seus olhos impacientes chamavam Ubirajara.”
  • Prosopopéia: “... como não esconde sua flor juquiri que o rio beija.”
Convém ressaltar que a comparação, ao mesmo tempo em que, nos diálogos supre a pobreza vocabular do indígena, compõe também a “cor local”, bem como representa o espelhamento mútuo entre homem e natureza no mundo primitivo. Aliás, os recursos poéticos na prosa indianista de Alencar, inspirado na pureza e grandiosidade inquestionáveis da natureza, transferem para suas personagens essas mesmas qualidades.

VI – PERSONAGENS:  

No processo de caracterização das personagens de seu livro, Alencar procurou ter um cuidado todo especial, sobretudo com a escolha dos nomes das personagens principais, pois tais nomes refletem diretamente a personalidade das personagens.

UBIRAJARA: jovem índio Araguaia.
Simboliza o mito do “bom selvagem” propagado pelo francês Rousseau. Extremamente idealizado, representa o bem e a justiça, é forte, ágil, inteligente.
O herói ao longo do livro muda de nome por três vezes. Tais mudanças estão de acordo com a situação vivida por ele em cada momento da narrativa. Inicialmente, é Jaguaré (“jaguar, onça”), o grande caçador da floresta; depois, Ubirajara (o “senhor da lança”), seu nome de guerreiro, e chefe dos Araguaias; por fim, usa o nome de Jurandir (“o que veio trazido pela luz”) enquanto é hóspede dos Tocantins.

ARACI: “A grande estrela do dia”.
Filha do grande chefe tocantim, Itaquê, por quem Ubirajara se apaixona e que para conquistá-la é obrigado a lutar e vencer todos os seus pretendentes Tocantins.

JANDIRA: “Que fabrica mel”, “Sorriso de mel”.
Virgem Araguaia, filha de Majé, e noiva prometida a Ubirajara. Desprezada pelo herói, Jandira tenta matar Araci, porém Ubirajara não somente impede o crime como também torna Jandira escrava de Araci.

POJUCÃ: “Eu mato gente”.
Guerreiro Tocantim, filho de Itaquê e irmão de Araci, que é vencido por Ubirajara.

CAMACÃ: chefe dos Araguaias e pai de Ubirajara.

ITAQUÊ: chefe dos Tocantins.

JACAMIM: mulher de Itaquê.

CANICRÃ: chefe dos Tapuias..

PAHÃ: filho mais novo de Canicrã, foi ele que, com suas setas precisas, cegou Itaquê.


VII – ENREDO:

A trama narrativa desenvolve-se linearmente, isto é, em sequência cronológica, composta por nove capítulos, cujo título enuncia o assunto central de cada um: o caçador, o guerreiro, a noiva, a hospitalidade, servo do amor, o combate nupcial, a guerra, a batalha, a união dos arcos. Mas três momentos são cruciais: a transformação do caçador em guerreiro, em que Jaguarê se transforma em Ubirajara, senhor da lança; a cena da hospitalidade da nação tocantim, em que Ubirajara se apresenta como Jurandir; a batalha final, quando se dá a união das duas tribos: Araguaia e Tocantim, e o jovem torna-se o grande chefe da nação Ubirajara.


I. O CAÇADOR


   “Pela margem do grande rio caminha Jaguaré, o jovem caçador.
   O arco pende-lhe o ombro, esquecido e inútil. As flechas dormem no coldre da uiraçaba.
   Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando do caçador.
   Jaguarê não vê o tímido campeiro, seus olhos buscam um inimigo capaz de resistir-lhe ao braço robusto.
   O rugido do jaguar abala a floresta; mas o caçador também despreza o jaguar, que já cansou de vencer.
   Ele chama-se Jaguaré, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fogem espavoridos quando de longe o pressentem.
   Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrível para vencê-lo em combate de morte e ganhar nome de guerra.
   Jaguarê chegou à idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela glória do guerreiro.
   Para ser aclamado guerreiro por sua nação é preciso que o jovem caçador conquiste esse título por uma grande façanha.
   Por isso deixou a taba dos seus e a presença de Jandira, a virgem formosa que lhe guarda o seio de esposa.
   Mas o sol três vezes guiou o passo rápido do caçador através das campinas, e três como agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.
   A sombra vai descendo da serra pelo vale e a tristeza cai da fronte sobre a face de Jaguarê.
   O jovem caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba, mais rija que o ferro.
   Nenhum guerreiro brandiu jamais essa arma terrível, que sua mão primeira fabricou.
   Lá estaca o jovem caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.
   O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer longe nas cavernas da montanha.
   Respondeu o ronco da sucuri na madre do rio e o urro do tigre escondido na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao desafio do caçador.
   Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no grosso tronco da emburana.
   A copa frondosa ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, e o tronco gemeu até á raiz.
   O caçador repousa à sombra de sua lança.”  
     
Nesse capitulo é apresentado o jovem Jaguarê, caçador da tribo Araguaia, que aspirava à conquista da fama de guerreiro imbatível. Ele está no meio da mata, procurando novos desafios.
Durante três dias, o índio busca essa oportunidade, porém, não ocorre, pois quem ele encontra é a belíssima virgem Araci, “estrela do dia”, filha de ltaquê, chefe da nação tocantim, que desperta imediatamente o interesse do caçador.
Nesse encontro, eles mantêm um breve diálogo e ela lhe diz que:

O mais forte e valente [guerreiro] me terá por esposa.”

Jaguarê não se alista, mas pede que ela mande pretendentes para combatê-lo.
Araci parte.
Jaguarê prossegue em sua busca e ao cruzar com Pojucã, guerreiro Tocantim, trava uma luta titânica na qual o Araguaia sai vencedor.
Enquanto o corpo de Pojucã tombava, cravado pelo dardo, Jaguaré soltou um grito triunfante:

   “ – Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencível que tem por arma a serpente”.


II. O GUERREIRO


    Como era costume entre os povos primitivos, Pojucã segue como prisioneiro de guerra para a nação Araguaia onde seria executado nos rituais antropofágicos.
   A taba dos Araguaias está em festa. Os velhos e os guerreiros estão no centro da taba, de frente para o grande arco da nação Araguaia, enfeitado nas pontas com as penas vermelhas da arara. É a insígnia do chefe dos guerreiros, a qual Camacã, pai de Jaguaré, conquistou na mocidade e ainda conserva, pois ninguém ousa disputá-la. De longe, as mulheres assistem, pois não podem participar da festa guerreira. Entre elas está Jandira, cujos negros olhos não se cansam de admirar Jaguarê, agora Ubirajara, seu futuro senhor.
   Com este feito heróico, Jaguarê torna-se o guerreiro Ubirajara, “senhor da lança”, e herda de seu pai, Camacã, o posto de chefe dos índios Araguaias.

   “Quando parou o estrondo da festa, avançou Camacã, o grande chefe dos Araguaias, alcançou o arco da nação, e caminhou para Ubirajara.
   - Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco da nação Araguaia, que deve estar na mão do mais possante.”

   Ubirajara ergueu o grande arco, e a corda zuniu como o vento na floresta. Os cantores celebraram os grandes feitos da nação Araguaia, e as mulheres entram com vasos cheios de cauim.

   “Jandira suspirou; ela era virgem, e como suas companheiras, não podia aparecer na festa dos guerreiros. Sentiu não ser já esposa, para ter o orgulho de encher de vinho espumante, por ela fabricado, a taça do seu herói e senhor.”


III. A NOIVA



   “Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos olhos negros.
   Seu canto foi o primeiro que saudou o nascer do dia e acordou em seu ninho a viuvinha.
   A doce filha de Majé, saltou da rede que embalara os sonhos castos da virgem e despediu-se dela como a jaçanã que deixa a moita para habitar o ninho do amor.
   A virgem araguaia acreditava ter dormido a última noite na cabana paterna, que essa manhã ia trocar pela cabana do esposo.”

   Jandira preparou-se, mas transcorreu todo o dia, veio á noite e Ubirajara não apareceu. Ela, então, sai em busca do noivo que a esquecera.
   No mais escuro da mata, vagava Ubirajara que tinha sonhado com Araci, que lhe disse:

   “ – Jaguarê, jovem caçador, tu dormes descansado enquanto os guerreiros Tocantins se preparam para roubar a virgem de teus amores. Ergue-te e parte, se não queres chegar tarde.”

Jandira encontra Ubirajara e é interrogado pela noiva sobre o que havia acontecido, o guerreiro responde:

   “ – Filha de Majé, doce virgem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara escolha uma esposa; nem ele sabe ainda qual o seio que Tupã destinou para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias.”

E acrescentou:

   “ – Jandira é Ubirajara não podia achar para si uma esposa mais fiel; nem para seus filhos outra mãe tão fecunda. Mas a noite desceu em sua alma. Só a estrela do dia pode restituir-lhe a alegria que o abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a sua formosuraa mai bela das virgens araguaias. Seu amor fará a ventura de um guerreiro valente.”

Enquanto isso, Pojucã senta-se pensativo e triste à porta da cabana. Está preocupado, pois teme que Ubirajara lhe recuse uma morte gloriosa e o retenha prisioneiro.
Ubirajara, então, explica-lhe seus planos:

   “ – Ubirajara não recusa ao bravo chefe Tocantim, seu terrível inimigo, o suplício, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Ele esperava que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucã possa, no último dia de combate, sustentar a fama de seu nome, e a glória de um varão que só foi vencido por Ubirajara.”

Como era costume dos Araguaias, o prisioneiro deveria receber “a mais bela e a mais ilustre de todas as virgens da taba, para que ela conserve o sangue generoso do herói inimigo e aumente a nobreza e o valor da nação.”
Ubirajara escolhe Jandira para ser a “esposa do túmulo”. Jandira, sabendo que sua recusa pode significar a morte, resolve fugir. Sozinha na mata, a virgem Araguaia entoou uma canção triste:

Fui Jandira, a linda abelha, que fabricava favos de cera para enchê-los de mel saboroso. Agora arrancaram-me a minhas asas com que eu voava pela campina colhendo o pó das flores e secou a doçura do meu sorriso. (...)”
    
Em seguida, o herói segue para a nação Tocantim.

                                                                                             
IV. A HOSPITALIDADE

      Lá ele é recebido com todas as honras de hóspede ilustre. Os índios acreditavam que um hóspede era um enviado de Tupã.
   “Ubirajara passou entre os guerreiros e dirigiu-se à cabana mais alta que ficava no centro da ocara”, onde morava o grande chefe, que o recebeu com amabilidade.
Assim, seguindo as tradições, Ubirajara senta-se na taba do chefe ltaquê junto com os mais bravos guerreiros e os anciões para fumar cachimbo, compartilhado entre todos os presentes.
Como “a lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao estrangeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação”, Ubirajara passa a ser chamado de Jurandir, “aquele que veio trazido pela luz do céu”.
   “Neste momento, Araci, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras e caminhou para a cabana.”
A virgem logo reconheceu o caçador Araguaia e “adivinhou que ele viera à cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros Tocantins. (...) A lei da hospitalidade proibia à virgem revelar o segredo do estrangeiro, só dela sabido.”
Depois de ter sido recebido com todas as honras, Jurandir pede ao grande chefe ltaquê que lhe conceda Araci como sua esposa. O chefe tocantim aceita e Jurandir, conforme as tradições daquele povo, deixa sua condição de estrangeiro para pertencer à “oca de ltaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar para o pai de sua noiva”. Além disso, ele deveria disputar com os outros guerreiros Tocantins a posse de Araci.
A festa na cabana de Itaquê só terminou à noite e como “o rito da hospitalidade, entre os filhos da floresta, manda que se dê ao estrangeiro amigo tudo que deleita o guerreiro”, várias moças vieram oferecer sua beleza para que Jurandir escolhesse uma para partilhar sua rede na cabana hospedeira.
Jurandir afirma que “não veio à cabana de Itaquê para gozar do amor de uma noite; ele veio buscar a esposa que há acompanhá-lo até a morte”.

 V. SERVO DO AMOR


Assim fez o guerreiro apaixonado, mas uma visita inesperada vem temperar a vida do par romântico.
Numa tarde, Jurandir reconhece na floresta o rastro de Jandira. Araci entrou na floresta, pois “precisava de plumas vermelha para o cocar que ela tecia em segredo”. Quando se preparava para atingir a arara, Araci escutou um rumor; “Jurandir estava perto dela e segurava o braço de uma mulher, que ainda tinha na mão a macana (espécie de tacape) afiada.”
Araci imediatamente reconheceu a virgem Araguaia pela faixa de algodão entretecida de penas. O guerreiro diz para Jandira que ela irá morrer por ter tentado “matar a virgem que Jurandir escolheu para esposa”.

Nesse instante, Araci intervém:

   “ – A virgem Araguaia ameaçou a vida de Araci; ela lhe pertence”.

Então, Jurandir amarra Jandira e faz dela escrava de Araci:

 “ - Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ela tem a astúcia da serpente e seu veneno.”
O guerreiro então atou as mãos de Jandira e entregou-a, como escrava, à Araci. As duas virgens ficaram sozinhas na floresta. Araci diz à rival que, quando não possuir mais a beleza, ela consentirá que Jandira durma na rede do guerreiro.
Jandira responde dizendo que jamais ofereceria sua rede de esposa “e aquela que recebesse o amor de se seu guerreiro morreria por sua mão”.
Araci explica então que “ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande chefe do Tocantins está cheia de servas, mas seu amor nunca abandonou a esposa”.
Araci então propõe que Jandira se torne sua irmã e também dê um filho a Jurandir. Araci liberta Jandira, mas essa não aceita, pois:

 “ – A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ela rejeita a liberdade dada por ti. Araci pode ser preferida; porém, não será mais generosa do que a filha de Majé.”

VI. O COMBATE NUPCIAL


Chega o dia em que os guerreiros devem combater para conquistar Araci.
Durante os rituais de combate, a noiva canta:

Araci ama o mais forte e mais valente. Ela pertencerá ao vencedor que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da esposa.”

Além de Jurandir, há vários principais pretendentes que desejam a virgem Tocantins: Pirajá, “o grande pescador e senhor dos peixes do rio”; Araribóia, “a grande serpente da lagoa”; Cauatá, “o corredor da floresta”; Cori, “o altivo pinheiro”.
Jurandir passa por provas de força e astúcia, vencendo a todos os guerreiros. Então o chefe Tocantim lhe diz:
“ - Quando o estrangeiro chegou à cabana de ltaquê, ninguém lhe perguntou quem era e donde vinha. (...) Mas agora o estrangeiro saiu vencedor do combate do casamento e conquistou uma esposa na taba dos Tocantins. É preciso que se faça conhecer.”

VII. A GUERRA


Jurandir esclarece sua identidade:
   “ - Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do grande Camacã, cujo sangue me gerou. Se quereis sabei por que tomei este nome, ouvi a minha maranduba [história] de guerra.”
Em seguida, relata sua batalha contra Pojucã e afirma que partiria no dia seguinte para assistir ao combate final de seu prisioneiro. A revelação causa um grande mal-estar entre os Tocantins, já que Pojucã, na verdade, era filho de Itaquê e Jacamim e, irmão de Araci.
Impedido de vingar seu filho, uma vez que Ubirajara era seu hóspede, Itaquê ordena que o herói deixe sua taba. Ele, então, ouve do chefe tocantim a declaração de guerra:
   “ - Parte. O sol que viu o estrangeiro na cabana hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o nandu, partirão para levar-te a morte”.
 Na partida Araci deseja acompanhá-lo, mas o jovem afirma que jamais trairia o chefe ltaquê, além de não ter rompido a sua liga, isto é, a marca de sua virgindade. Ela, portanto, deveria esperar na cabana onde nasceu pela batalha final.
Ubirajara volta à sua tribo e liberta Pojucã para que ele possa lutar ao lado de seu povo. Os Araguaias, então, liderados por Ubirajara, seguem para atacar os Tocantins, mas  encontram os Tapuias, que por uma questão antiga de vingança tinham o direito de atacá-los primeiro.
O guerreiro Araguaia envia um mensageiro aos Tapuias. Assim diante do chefe Tapuia Canicrã, o enviado de Ubirajara, Murinhém, diz:
   “ – Ubirajara te mande que encostes o tacape da guerra. A nação Tocantim aceitou sua flecha de desafio, e ele não consente que ninguém combata seu inimigo, antes de o ter vencido”.
Ubirajara aceita que Tocantins e Tapuias lutem entre si, não antes alertar a todos sobre a segurança de Araci que ficará na cabana sob a guarda do herói e quem ousar penetrar na cabana “sofrerá a morte vil do covarde”.

VIII. A BATALHA

Os dois povos arremetendo travam a batalha. Itaquê acha-se em frente de Canicran. Ambos se buscam dez vezes; vencedores ambos, nenhum vencido.
   “Era preciso que um deles morresse para que o vencedor encostasse o tacape do combate e desse repouso à sua nação para reparar os estragos da guerra.”
A briga entre os dois chefes prosseguia até que Itaquê desfechara um poderoso golpe, fazendo com que tanto o tacape quanto o escudo de Canicrã se espedaçassem em suas mãos, deixando-o à mercê de Itaque. Nesse momento, Pahã, filho mais novo de Canicrã e exímio atirador de flechas, dispara duas setas que varam os olhos de Itaquê.


   “Foi então que Itaquê soltou o rugido pavoroso que fez tremer a terra. (...) Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor. A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicrã, a esquerda entrou pela boca do Tapuia e travou-lhe o queixo. Separaram-se os braços do guerreiro cego, e a cabeça de Canicrã abriu-se como um coco que se fende pelo meio. Agitando no ar o crânio sangrento como um maracá de guerra, Itaquê arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fugia. Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um Tapuia”.
Ubirajara acompanhou o embate dos chefes, lamentando o fato de que dos dois guerreiros não restasse nenhum para enfrentá-lo.
O herói então chama um jovem caçador Tubim e pede-lhe que faça Pahã prisioneiro. Por esse feito, Tubim recebe de Ubirajara o nome de Abeguar, “senhor do vôo”.
Na manhã seguinte, Ubirajara enviou Pahã até a aldeia Tocantim.
   “Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Pahã, o filho de Canicrã. Ele te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão terrível. Faze do curumim Tapuia um mancebo Tocantim; e ele será a luz dos teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o caminho da guerra”.
   Itaquê, no entanto, prefere conceder liberdade ao jovem Tapuia.
   Diante da cegueira de Itaquê, era necessário eleger um novo chefe que pudesse empunhar o arco da tribo e guiá-la na guerra contra os Araguaias. Questionado pelos anciões, o velho chefe ergueu-se e alcançando o grande arco dos Tocantins abraçou-se a ele e falou-lhe:

   “Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javari, ele pensava que só a morte o separaria de ti, para transmitir-lhe a um guerreiro de seu sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente, que não sabe onde vai.
   Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. Era a lágrima que a desgraça lhe deixara.”
Os guerreiros Tocantins mais valentes se apresentaram; muitos conseguiram vergá-lo, mas a sete não partiu. Então Itaquê chamou seu filho Pojucã que conseguiu vergar o arco, e lançar a seta, mas “não era, porém, aquele o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante”.

IX. UNIÃO DOS ARCOS


 “Os tapuias voltaram; com ele vinha Agniná à frente de sua nação, para vingar a morte de Canicrã, seu irmão.”
   A solução do problema foi dada por Itaquê.
   “ – A voz o coração diz ao neto de Tocantim que a glória da nação que ele gerou não se pode extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo seio de Araci, se unirá a outro sangue generoso para brotar maior e mais ilustre”, isto é, Ubirajara.
   Itaquê conduzido por Araci propõe a Ubirajara:
   “ – Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra à taba dos tocantins para conquistar Araci, a filha de minha velhice. Por teu heroísmo, e ainda mais pela nobreza com que restituísse a liberdade a Pojucã, tu merecias uma esposa do sangue de Tocantim. (...) Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por teu heroísmo uma esposa e uma nação”.
(...)
Ubirajara travou do arco de ltaquê e desdenhando fincá-lo no chão, elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.
O semblante de ltaquê remoçou, ouvindo o zunido que recordava-lhe o tempo de seu vigor. Era assim que ele brandia o arco outrora, quando as luas cresciam aumentando a força de seu braço.
O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para ele mais doce harmonia do que essa.
Ubirajara largou o arco de ltaquê para tomar o arco de Camacã. A flecha Araguaia também partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava a terra.
As duas setas desceram trespassadas uma pela outra como os braços do guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade.
Ubirajara apanhou-as no ar:
- Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão poderosa como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na glória e formarão uma só, que há de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios, montes e florestas.
O chefe dos chefes ordenou que três guerreiros araguaias e três guerreiros tocantins ligassem com o fio do crautá as bastes dos dois arcos. Quando o arco de Camacã e o arco de ltaquê não fizeram mais que um, Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou às nações:
- Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gêmeas, como as duas nações, e voam juntas”.
Em seguida, Ubirajara dirige-se à Araci:
   “ – Araci, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara, que te conquistou pela força de seu braço. Agora que é senhor, ele espera a tua vontade.
A formosa virgem rompeu a liga vermelha que lhe cingia a perna e atou-a ao pulso de seu guerreiro. Ubirajara tomou a esposa aos ombros e levou-a à cabana do casamento. O jasmineiro semeava de flores perfumadas a rede do amor”.
Ubirajara escolheu mil guerreiros Araguaias e mil guerreiros Tocantins, partiu ao encontro dos Tapuias e triunfou vitoriosamente contra os inimigos. Em seguida, bradou:
   “ – Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencível que tem por arma uma serpente. Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a terra, como o vento do deserto”.

Desse dia em diante nunca mais um tapuia pisou as margens do grande rio.

   “Ubirajara voltou à cabana, onde o esperava Araci.
   A esposa despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo. (...) Enquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o herói repousava na rede, Araci foi ao terreiro e voltou conduzindo Jandira pela mão.
   - Jandira é irmã de Araci, tua esposa. Ubirajara é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas nações. Ele deve repartir seu amor por elas, como repartiu sua força.”
   Ubirajara abraçou Araci e Jandira e disse:
   “ – Araci é a esposa do chefe tocantim; Jandira será esposa do chefe Araguaia; ambas serão as mães dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes e o senhor da floresta.
   As duas nações, dos Araguaias e dos Tocantins, formaram a grande nação dos Ubirajaras, que tomou o nome do herói.
   Foi esta poderosa nação que dominou o deserto.
   Mai tarde, quando vieram os caramurus, guerreiros do mar, ela campeava ainda nas margens do grande rio”.
     
      

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