domingo, 3 de maio de 2015

ANGÚSTIA, GRACILIANO RAMOS

Capa da 1º Edição

I – AUTOR:

GRACILIANO RAMOS (Quebrângulo, Alagoas, 1892 – Rio de Janeiro, 1953)

“Graciliano Ramos é um retratista sem fundo. Tudo nele se concentra no que é o homem, no que é a tragédia de ser homem. Os seus romances, por esta maneira, ganharam em profundidade, em análise sem piedade, sem síntese desesperada.” (José Lins do Rego)

 “Representa, em termos de romance moderno brasileiro, o ponto mais alto da tensão entre o eu do escritor e a sociedade que o formou. Cada personagem projeta as faces angulosas da opressão e da dor, cada obra é uma ruptura. Escrevendo sobre o signo dialético por excelência do conflito, Graciliano Ramos compôs uma série de romances cuja descontinuidade é sintoma de um espírito pronto à indagação, à fratura, ao problema. Isso explica a disparidade da linguagem. Cada romance é um questionamento novo, que propõe uma linguagem adequada. (Alfredo Bosi)

Nasceu em Quebrângulo (Alagoas) e mudou-se para Maceió, onde concluiu seus estudos secundários. Transfere-se para o Rio de Janeiro e em seguida, retorna a Alagoas (Palmeiras dos Índios), dedicando-se ao jornalismo e à política.
Em 1928, foi eleito prefeito da cidade e em 1933, é nomeado diretor de Instrução Pública, sendo demitido por motivos políticos.
Preso por atividades subversivas sem, contudo, ter sido acusado formalmente percorreu vários presídios durante um ano, sofrendo muitas humilhações.
Em 1945, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Em 1952 viaja para os países socialistas do Leste Europeu.
Faleceu no Rio de Janeiro.

Para Antônio Candido, “ANGÚSTIA” é o livro mais complexo de Graciliano Ramos no que diz respeito aos recursos técnicos utilizados. Nessa obra, a percepção da realidade transcende o naturalismo: a realidade é captada em fragmentos e é deformada pelas disposições mórbidas de um narrador, Luís da Silva, que é o protagonista do romance. Dessa forma, a narrativa se estilhaça e converge para três planos: a realidade objetiva; a evocação do passado; a realidade deformada pela visão subjetiva do narrador. A realidade objetiva é captada por meio da descrição, em que se percebe alguma saliência naturalista, mas a subjetividade do narrador invade a narrativa o tempo todo, deformando essa mesma realidade a partir de uma linguagem expressionista, uma atmosfera de pesadelo e alucinação; os sentidos se confundem através das mais variadas associações (ruídos, visões, lembranças).
Em “ANGÚSTIA”, o autor profunda certos aspectos que já estão presentes em seus romances anteriores (“Caetés” e “São Bernardo”), como a tensão entre o ser e o meio social, porém, a tensão e a ruptura entre a realidade subjetiva do narrador Luís da Silva e a realidade que lhe é exterior chega ao paroxismo. Por trás da máscara social de Luís da Silva, um simples funcionário público com veleidades intelectuais (é um escritor e possui alguns manuscritos guardados), vai como que se desnudando, por meio de seu próprio relato, o seu universo interior: ou seja, por trás do ser social, preso às convenções e às aparências, há um ser subterrâneo, selvagem, preso aos instintos e desejos mais profundos. Esse ser subterrâneo vai aos poucos dominando Luís da Silva e Intensificando um sentimento de abjeção que ele sente com relação aos outros e a si mesmo, até chegar às vias do homicídio e do aniquilamento moral e social.
Luís da Silva é um indivíduo frustrado, tímido, solitário e impotente. Impossibilitado de adaptar-se a um meio social que o enoja e o deprime. Julião Tavares, seu rival, é o seu contrário: ousado, rico, galanteador, respeitado socialmente.
Há, entre essas duas personagens, uma espécie de jogo de espelhos: Julião Tavares encarna a metade que falta a Luís da Silva. Essa identificação às avessas desarticula ainda mais os fios tênues do universo mental de Luís da Silva. Chega a um ponto em que, morbidamente, Luís da Silva se vê esmagado pela presença cada vez mais onipotente de seu rival, como se Julião Tavares preenchesse o próprio espaço que lhe cabe no mundo:

“Derrama-se no bonde (Julião Tavares) e, se alguém lhe tocava as pernas, desenroscava-se com lentidão e lançava ao importuno um olhar duro. Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade, sentava-me com uma das nádegas”.

Diante de uma crescente mistura de repulsão, nojo e secreta inveja, vai amadurecendo, no subconsciente de Luís da Silva, o impulso de matar e destruir. Até que Luís da Silva chega às vias de fato e estrangula seu rival. Segundo Antônio Cândido, a cena do assassinato configura-se como um dos momentos mais impressionantes da prosa contemporânea no Brasil. Com grande domínio sobre as técnicas de narrativa, o autor mistura, nessa cena, devaneio, deformação subjetiva, associação insólita de ideias e estados anímicos, articulando sempre as evocações do passado ao presente sombrio e desesperador.
Simbolicamente, o assassinato surge como uma espécie de necessidade de reequilíbrio: para o protagonista, não havia como viver à sombra daquela sua projeção às avessas. Para Luís da Silva, não havia como voltar atrás, ele teria que ir até o fim nessa luta contra o outro: luta essa que, na verdade, era uma luta contra si mesmo.
Em “ANGÚSTIA”, portanto, a problemática interna da personagem se sobrepõe à realidade objetiva.
As pessoas, o ambiente e os objetos se dissolvem em uma realidade de contornos pouco nítidos: há escuridão, há névoa, sons que se dispersam e se associam em um embaralhar de lembranças e sensações.
O narrador guarda dos acontecimentos apenas fragmentos, pedaços de realidade. Em seus devaneios, há constantes alusões a bichos: cobras, que surgem de suas evocações do passado, funcionam como espécie de símbolo de seus impulsos de morte e frustração sexual; os ratos, que habitam aos montes a casa do protagonista, associam-se ao sentimento de repulsa que a personagem nutre por si mesmo e pelos outros. Os sons e as imagens ligadas ao presente e ao passado se entrecruzam, em um embaralhamento dos sentidos. De sua casa, a personagem ouve os ruídos que vêm da rua ou das casas vizinhas, vozes, lamentos, barulho de objetos, água escorrendo.
Enfim, “ANGÚSTIA” é uma profunda sondagem dos elementos mais recônditos da alma humana. É, através dessa sondagem, que o autor nos coloca diante das contradições do homem no mundo contemporâneo, oprimido por uma sociedade em que os valores humanos se deterioram em prol do lucro e do progresso material.     


III - FOCO NARRATIVO:

 “ANGÚSTIA” é um romance de confissão, escrito em primeira pessoa de elevada complexidade, permeada pelo fluxo de consciência do narrador, Luís da Silva, personagem-protagonista, que recupera, distante dos acontecimentos, todo o seu passado; suas origens sertanejas, passando pelas dificuldades iniciais na cidade até a colocação como funcionário público; seu envolvimento com Marina e Julião Tavares e, finalmente,  a necessidade da confissão, o desfecho trágico que não altera seu estado de angústia.
O monólogo interior desenvolvido pelo narrador ocorre por meio de fragmentos do seu passado misturado aos fatos do presente, resultando num entrelaçamento entre passado remoto e próximo, deformados pelo estado psíquico da personagem, em uma avalanche de imagens e associações inusitadas: como já foi apontado acima, os fatos, os objetos, as pessoas e os ambientes são distorcidos pela visão doentia do narrador.
Sobre a forma que essa técnica é explorada nesse romance, diz Antônio Cândido, comparando-o com os livros anteriores de Graciliano Ramos, também escritos em primeira pessoa:

“Para sugerir esse mundo atroz, Graciliano modifica a técnica anterior. Como em “Caetés” e “São Bernardo”, a narrativa é na primeira pessoa; mas só aqui podemos falar propriamente em monólogo interior, em palavras que não visam interlocutor e decorrem de necessidade própria. Nos dois primeiros, há separação nítida entre a realidade narrada e a do narrador, mesmo quando em “São Bernardo” este se impõe à narrativa; em ambos, os figurantes são respeitados como tais e as cenas apresentadas como unidades autônomas. Em “Angústia”, o narrador tudo invade e incorpora à sua substância, que transborda sobre o mundo.”

“ANGÚSTIA” não conta propriamente uma história; antes, constrói uma personalidade intimista e singular, cujo desenho ocupa a atenção central do romancista. Enfim, nesse romance, o narrador se sobrepõe à realidade e abre as comportas do seu universo interior. Esse transbordamento do estado psicológico do narrador imprime ao romance uma atmosfera de pesadelo. Daí o aspecto fragmentário da narrativa: as imagens e as analogias insólitas que povoam os devaneios do narrador se repetem, tornando a narrativa enviesada, cheia de idas e vindas.
Esse recurso é considerado riquíssimo, pois, além de possibilitar a problematização dos tópicos adotados, não delimita com precisão os contornos da própria história, gerando obra imprecisa e equívoca.
Por essa perspectiva, é possível duvidar das afirmações de Luís da Silva, até mesmo da veracidade do crime que alega ter cometido. A posição dúbia do narrador admite a hipótese que se trata de pesadelos por desejos que não consegue realizar, confundindo realidade dos fatos com delírios como se os supostos acontecimentos brotassem da escrita do narrador, que não só simula os fatos de sua vida, mas também encena a redação do livro que os inventa.

“Há nas minhas recordações, estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa. Penso nelas com indiferença. Certos atos aparecem inexplicáveis”.

IV - TEMPO:

Podemos dividir a narrativa em três tempos: tempo cronológico, o tempo psicológico e o tempo histórico.

TEMPO CRONOLÓGICO:

Sob o ponto de vista do tempo cronológico, os fatos que motivam a narrativa de Luís da Silva transcorrem no intervalo de um ano. Durante esse intervalo de tempo, Luís da Silva conhece Marina; apaixona-se; perde a namorada, que começa um romance com Julião Tavares; e, finalmente, comete o crime. Pertencem a esse presente a sua vida de funcionário público que faz bicos para sobreviver, conformado com seu destino medíocre, as relações com os vizinhos da Rua Macena, com os amigos Moisés e Pimentel, com os transeuntes dos cafés e ruas frequentados pelo narrador.

“Foi entre essas plantas que, no começo do ano passado, avistei Marina pela primeira vez, suada, os cabelos pegando fogo”.

É justamente a partir desse episódio que o narrador começa a contar a sua história, pelo menos no que se refere aos acontecimentos cruciais da narrativa. Sob esse mesmo viés de análise, é possível constatar que Luís da Silva começa a narrar a sua história trinta dias após o restabelecimento de seu estado febril causado pelo crime.

“Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente”  
“Em janeiro do ano passado...”        

Ou seja, nas primeiras páginas do romance, o narrador refere ao período que lhe está mais próximo do momento em que narra a história. Só depois, a partir da cena em que ele conhece Marina, o narrador retorna aos acontecimentos que motivaram o seu relato, embora as lembranças da infância e da juventude irrompam em todo o transcorrer da narrativa.

TEMPO PSICOLÓGICO:

Os fatos do passado dizem respeito a sua infância na fazenda do avô, sua mudança para a vila com o pai, sua experiência como professor cigano pelas fazendas do interior, o período no exército, o início da carreira de revisor e escritor mendicante na cidade grande, morando na rua ou em pensões baratas, e, finalmente, a colocação como funcionário público, que lhe dá uma estabilidade precária.
Há o uso da técnica de flashback para recuperar todas essas lembranças, que possuem cargas negativas, devido, também ao estado de desorientação interior em que está o narrador no momento em que conta sua história.  Apesar disso, o narrador afirma: “busco refúgio no passado”. Isso ocorre porque o passado, nesse sentido, corresponde a um momento de certa segurança perdida após os trágicos acontecimentos que sucederam em sua vida.
O clímax entre passado e presente ocorre quando a atemporalidade domina a narrativa, como afirma: “Mas no tempo não havia horas”.

TEMPO HISTÓRICO:

A narrativa de Luís da Silva faz uma série de referências ao contexto histórico-social em que acontece o presente e o passado.
A decadência do avô, antigo senhor de escravos, refere-se ao período de modernização do sistema produtivo, ocorrido no Brasil no final do século XIX, que teve como consequência o declínio de setores ainda ligados à produção artesanal, como a produção de açúcar nos engenhos.
A constante lembrança de cangaceiros nos remete ao fenômeno do chamado “banditismo social”, ocorrido entre 1870 e 1940, tal fenômeno, típico do Nordeste, foi motivado, entre outros fatores, pela miséria decorrente da seca e pelos conflitos entre famílias, ocasionados em função da lei da herança.
Por fim, as personagens Julião Tavares e Moisés representam o embate de tendências ideológicas no Brasil durante a década de trinta: Julião Tavares representa o “beletrismo” e a retórica nacionalista, resquício ainda dos ideais positivistas que nortearam os primeiros anos da República; Moisés representa a entrada das ideias socialistas em certos meios sociais, sobretudo no proletariado urbano e em setores intelectuais. Ademais, o fato de Moisés sentir-se constantemente perseguido pela polícia é uma referência direta aos conflitos entre os socialistas e o governo Vargas, a chamada Intentona Comunista, em 1935; as várias prisões de pessoas consideradas “subversivas”, entre 1937 e 1945.
O conturbado ambiente político da época, marcado pela oposição radical entre esquerda comunista e direita fascista, aparece também na consciência culpada de Luís da Silva pelo seu trabalho de intelectual a serviço das oligarquias nordestinas do interior nordestino (os artigos que ele escrevia de encomenda).

Conclui-se que em “ANGÚSTIA”, não obstante as constantes evocações do passado, o tempo faz um movimento circular, ou seja, a noção de tempo não obedece ao padrão lógico de continuidade temporal.
Essa tendência a estilhaçar o tempo e a não obedecer aos padrões lógicos de percepção temporal é muito comum ao romance contemporâneo. Muitos veem essa tendência como um reflexo do mundo moderno: segunda tal concepção, com o avanço das tecnologias e da sociedade de consumo, o homem perdido a sua identidade com o mundo, resultando em uma percepção conturbada e caótica de tempo e espaço.


V - ESPAÇO:

Os espaços da narrativa alternam-se entre os do presente e os do passado.
Luís da Silva mora no subúrbio de Maceió, em um casebre de aluguel, na rua do Macena, próximo a uma usina elétrica, em meio social pobre e decadente.

“Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de pescadores, as chaminés dos navios, longe”.

“Tudo feio, pobre, sujo. Até as roseiras eram mesquinhas; algumas rosas apenas, miúdas. Monturos próximos, águas estagnadas, mandavam para cá emanações desagradáveis”.

Este espaço é um minuciosamente descrito: a sala onde Luís trabalha e recebe os amigos e visitas; o quarto onde se angustia com os barulhos vindos da casa vizinha, resultado das noites de sexo ardente praticado pela vizinha Dona Rosália com seu marido inconstante; o banheiro, onde se dedica as fantasias de glória literária, enquanto espia e escuta os longos banhos de Marina.
Dentro da casa, principalmente na sala, lugar de reflexão para o protagonista, habitam, escondidos pelos armários e buracos das paredes, os ratos, corroendo aos poucos os livros de Luís, impedindo cada vez mais o seu trabalho e o seu sono, como a angústia, que vai corroendo sua tranquilidade, sua estabilidade, destruindo sua dedicação à literatura como forma de sustento ou lazer. Há também o velho cano enferrujado em um canto, uma entre tantas imagens a lhe lembrar uma corda estirada que serve para enforcar, ou um porrete que serve para machucar violentamente.
Merece destaque a descrição do cenário dos encontros entre Luís da Silva e Marinas: “De tudo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição no lixo”.
Esta e outras descrições beiram o expressionismo, distorcendo o real de modo que ele demonstre o interior, as emoções profundas do indivíduo em estado de tensão. A descrição acima, por exemplo, está impregnada da decadência interior de Luís da Silva e de sua visão negativa do sexo, que vai se firmando ao longo da narrativa. Além, das ruas e cafés de Maceió, a repartição pública onde Luís da Silva se sente oprimido pelo trabalho.

Os espaços do passado são a casa de fazenda do avô, a preta Quitéria, o poço da Pedra, a vila sertaneja onde viveu da morte do avô até na morte do pai, a pensão barata de Dona Aurora.

“Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato, envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. (...) Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas”.
 
O contraste entre os espaços do passado (mundo rural) e do presente (mundo urbano) sugerem também outra temática para o livro: a do sertanejo desarraigado, desejoso da estabilidade proporcionada pelo mundo agrário, marcada pelo constante movimento, no qual Luís da Silva não consegue se identificar. Provas disso são a repetição obsessiva dos mesmos espaços nas memórias da infância, o que contribui também para a sensação de monotonia presente no texto e a tendência do protagonista de se dirigir constantemente aos bairros mais periféricos da cidade, como a demonstrar o desejo de voltar ao interior de onde veio.


VI - LINGUAGEM:

Segundo o crítico Ivan Teixeira:

“O romance “Angústia” possui estrutura de autobiografia, podendo também ser entendido como uma espécie de diário íntimo, com notável progressão no andamento do assunto: origina-se na alucinação decorrente do ciúme e da ideia do crime, passa pela reconstituição de seus motivos, até chegar, sempre por meio da memória afetiva, ao crime propriamente dito. Essa ordem decorre da racionalização da leitura, que seleciona, corta, ata, intercala e reata, porque vê tudo de fora, depois que tudo foi vivido e relatado pela personagem em desespero. Mas “ela própria, que sentiu intensamente os acontecimentos que narra, não consegue organizá-los de maneira coerente. Para ela, tudo é confuso e caótico, porque, ao falar, ainda se encontra emocionada com o que fala”.

O excessivo jorro de palavras, repetições, associações a partir de pequenos detalhes, porém, surgem ao leitor como um caos organizado, que torna o material inteligível e lhe dá uma unidade. Além do mais, esse estilo é perfeitamente adequado aos objetivos do romance, que leva às últimas consequências a técnica da narrativa em primeira pessoa, abrindo todas as portas do inconsciente da personagem e, por outro lado, mimetizando o caos interior, o tumulto psicológico do narrador. Daí, então, uma linguagem carregada nas tintas, fragmentária, pontuada de analogias e imagens que tendem ao insólito e ao inusitado: como as associações de cobras ou de canos com cordas. Todas essas imagens e analogias aludem, geralmente, à ideia de morte, de assassinato, de aniquilamento, de sublimação.
Não obstante, permanecem, nesse romance, vários traços estilísticos dominantes em todas as obras de Graciliano Ramos. Há uma preferência pelos períodos curtos, pelas frases enxutas. Há também, um uso muito reduzido de adjetivos. Há, ainda, o aproveitamento da oralidade, do registro coloquial, dura e fria.
Quanto aos tempos verbais, há, na primeira parte, o predomínio do presente, substituído, ocasionalmente, pelos pretéritos perfeito e imperfeito do indicativo, nas passagens em que irrompem as lembranças do narrador. Isso se deve ao fato de que, nessa primeira parte do relato, o narrador se refere a fatos que são concomitantes à produção da narrativa e, portanto, posteriores aos acontecimentos cruciais da história, relatados depois.
Como impera no romance o fluxo de consciência, há pouco espaço para o discurso direto. Geralmente, o narrador invade o discurso direto e narra ele mesmo o que dizem as outras personagens, misturando as suas palavras às palavras dos outros, em uma espécie de discurso indireto livre contaminado pelo fluxo de consciência.
O crítico José Paulo Paes chamou a atenção para a maneira como se dá a transição entre a narrativa dos fatos do presente e o registro das memórias que vem à tona:

“A transição entre o agora e o outrora se faz o mais das vezes por meio da metonímia, como nas fusões cinematográficas: um objeto, uma pessoa ou uma palavra que faça lembrar a Luís da Silva determinada passagem da sua infância desencadeia de pronto o processo rememorativo”.

VII - PERSONAGENS:

As personagens de “ANGÚSTIA” são seres sem perspectivas e entorpecidos pela vida. No transcorrer da narrativa, vai surgindo uma galeria enorme de tipos humanos que povoam o cotidiano e as lembranças do narrador, que sente uma profunda abjeção por si mesmo e pelos seres que o cercam, vistas em seu relato quase reduzidas à animalidade. Por isso, os seres humanos são geralmente associados ao que há de mais instintivo e torpe: à sexualidade, à escatologia, à luta brutal pela sobrevivência, ao orgulho, à miséria e à morte. 

Dentre essas personagens, podemos citar: o avô, Trajano Vieira de Aquino; o pai, Camilo Pereira da Silva; a preta Quitéria, antiga escrava e criada de seu avô; a avó, sinhá Germana; o vendeiro, Mestre Domingos, antigo escravo do avô; mestre Antônio Justino, o professor; o velho Acrísio; Padre Inácio; Seu Evaristo; Rosenda; cabo José da Luz; o jagunço José Baia; o cangaceiro Fabrício; Dona Aurora, proprietária da pensão em que Luís da Silva morara em sua juventude; Marina; Julião Tavares; D. Adélia e S. Ramalho, pais de Marina; Pimentel, amigo na repartição pública; Moisés das prestações; Seu Ivo; Vitória, a criada de Luís da Silva; as vizinhas D. Mercedes e D. Rosália; Lobisomem, o novo vizinho, e suas três filhas; a mulher da Rua da Lama; D. Conceição; Seu Batista; D. Maria Teresa; Teotoninho Sabiá; Carcará; Doutor Juiz de Direito; Joaquim Sabiá; as três velhas “formiguinhas” (que viviam a remexer a terra do seu jardim cheio de roseiras); André Laerte (barbeiro): Filipe Benigno (comerciante).

LUÍS PEREIRA DA SILVA: neto de um decadente senhor de engenho e filho de um pequeno comerciante falido; depois da morte do pai, vaga por fazendas do interior ganhando a vida como alfabetizador, até chegar à cidade grande, onde sobrevive de esmolas e pequenos trabalhos como revisor. Enfim, consegue um emprego público que lhe garante uma renda mínima para sobreviver.
Luís da Silva vive em um mundo fechado, é introvertido, de personalidade marcada por recalques e complexos de inferioridade, que o leva a subestimar-se sempre, sente-se um fraco, impotente, vencido. A autoanálise depreciativa faz com que ele vá se afastando de tudo e vivendo cada vez mais do passado e da sua imaginação, principalmente do sonho impossível de ser um grande literato. A evasão é uma forma de compensação da realidade que não consegue encarar.
Sua narrativa é uma maneira de tentar amenizar a consciência culpada e angustiada por um crime que cometeu (o assassinato de Julião Tavares), após se envolver com a vizinha Marina, uma expiação do erro. Apresenta-nos a sua vida como um mosaico cujos fragmentos justificariam de diversas maneiras o crime que cometeu. É como se ele estivesse submetido a um destino trágico, que determina sua maneira de ser e de agir; daí sua associação, ao final da narrativa, ao cangaceiro JOSÉ BAÍA: criminoso, violento, mas boa pessoa. O crime, apresentado como uma quase necessidade em sua vida, não resolve a realidade que ele não consegue enfrentar, pelo contrário, só faz potencializar a sensação de angústia.

TRAJANO PEREIRA DE AQUINO CAVALCANTE: é o avô de Luís da Silva. Antigo senhor de escravos, aparece nas recordações do narrador como um fazendeiro decadente, entregue à bebida e, pouco antes da morte, meio caduco, imaginando a presença da esposa, sinhá Germana, já morta. Mas, segundo o narrador, antes de sua decadência, fora um homem corajoso e valente, respeitado até pelos cangaceiros.

SINHÁ GERMANA: avó, esposa de Trajano. Representa as mulheres resignadas e submissas do mundo agrário do passado, em contraposição a mulheres mais independentes, pouco submissas, como Marina.

CAMILO PEREIRA DA SILVA: pai de Luís da Silva. Herdeiro da decadência de Trajano Pereira, surge nas lembranças do narrador como um homem indolente, deitado na rede, cortando palha de milho para cigarros e lendo a história de Carlos Magno e seus cavaleiros.

QUITÉRIA: cozinheira da casa da fazenda.

MOQUECA: cachorra da fazenda.

AMARO: vaqueiro da fazenda, cuja destreza era admirada pelo menino Luís.

DONA AURORA: dona de uma pensão barata onde Luís da Silva viveu em tempos difíceis. O protagonista foi assediado pela neta de Dona Aurora em uma ida ao cinema, mas não conseguiu se entregar à sedução por não conseguir tirar da cabeça o dinheiro que gastava na brincadeira estúpida de convidar a velha e a moça para o passeio.

DAGOBERTO: colega de quarto de Luís na pensão, estudante de medicina. A maneira intrometida como ele tomava conta das camas para seus estudos de anatomia, exigindo a atenção de Luís, é um exemplo da incapacidade do narrador de fazer frente às mínimas imposições em sua vida.

MARINA: vizinha de Luís da Silva, moça pobre, vaidosa, ambiciosa e fútil, que explora a fraqueza da mãe e a incapacidade do pai de controlar as mulheres da casa.

“...era uma sujeitinha vermelhaça, de olhos azuis e cabelos tão amarelos que pareciam oxigenados”.

Sonha casar com véu e grinalda, uma casa cheia de tapetes, um namorado de smoking, e admira a elegância afetada e decadente de D. Mercedes, uma mulher que, segundo o narrador, “passa os dias, olhando-se ao espelho e polindo as unhas, metida num pegnoir de seda, e quando mergulha na banheira, sente-se de longe o cheiro da água-de-colônia”. 
Marina namora Luís até que aparece em sua vida Julião Tavares, que a seduz facilmente com os luxos que pode proporcionar. Depois de engravidar, é abandonada pelo amante e faz aborto.

DONA ADÉLIA: mãe de Marina, mulher que já fora bonita, atraente, cobiçada pelos homens, “corada, risonha, de carnes enxuta, era um mulherão”, agora reduzida a “um caco”, acabada pelos serviços domésticos e pelos desgostos que a vida lhe traz:

 “D. Adélia, bamba, a voz sumida, os olhos assustados, parecia viver escondendo-se”.

Toma sempre o partido da filha, incapaz de se lhe opor. Acaba por assistir à decadência também da filha, que ao final adota sua postura resignada, cabeça baixa, olhos sem vida.

SEU RAMALHO: pai de Marina, “um sujeito calado, sério, eletricista da Nordeste”, usina próxima à rua do Macena. É um homem duro, desiludido, entorpecido pela vida. Arrebentado pelo trabalho, não consegue convencer a mulher e a filha da precariedade de suas condições e da impossibilidade de lhes dar o luxo que a filha praticamente exige. Inicialmente, trata com reservas o vizinho Luís da Silva, depois acaba fazendo amizade e passa horas conversando com ele, contando histórias, relembrando o passado. É um conformado com a miséria de sua existência.

JULIÃO TAVARES: filho de ricos comerciantes de Maceió, patriota fanático, de ideologia conservadora, é visto por Luís da Silva como uma figura quase asquerosa, com seu corpo arredondado e bem vestido de burguês ocioso e sua voz pastosa. Praticamente invade a vida de Luís da Silva, após um esbarrão numa noite de evento cultural. Com Marina, dedica-se a uma de suas atividades favoritas: desonrar moças pobres e bonitas e, depois, abandoná-las, sempre protegido pelo poder que o dinheiro do pai lhe confere.

DR. GOUVEIA: proprietário da casa onde mora Luís da Silva. À medida que o destino do protagonista se encaminha para a tragédia, torna-se uma fonte de preocupação, uma vez que o locador não consegue arranjar dinheiro para saldar a dívida do aluguel.

MOISÉS: um dos poucos amigos de Luís da Silva, judeu que não nasceu para a exploração comercial, prova disso é o fato de evitar o amigo para não ter de lhe cobrar uma dívida de prestações, trabalha para um tio, vendendo roupas e tecidos. Comunista, é perseguido a certa altura da narrativa pela polícia.

PIMENTEL: amigo de Luís da Silva, jornalista que trabalha para os poderosos da política, mudando seus textos de acordo com os desejos deles. Arranja para Luís da Silva alguns bicos com que ele complementa seu salário, em geral, escrever textos de encomenda para coronéis do interior envolvidos em disputas políticas.

VITÓRIA: empregada de Luís da Silva, é uma velha quase surda, cujo mundo se reduz a conversas incompreensíveis com o papagaio da casa e à obsessão pelo salário que enterra sempre ao pé da mangueira do quintal, onde guarda uma miséria e inútil fortuna.

SEU IVO: mendigo viajante, aparece e desaparece das casas onde o recebem, dando-lhe cachaça e comida. Tem o hábito de roubar coisas de uma casa para presentear outra. É ele quem traz para Luís da Silva a corda com que o protagonista cometerá seu crime.

DONA ROSÁLIA: vizinha, o marido viaja muito e aparece pouco, mas, quando isso acontece, o casal dedica-se a longas noites de atividade sexual, o que exaspera Luís da Silva.

ANTÔNIA: empregada de Dona Rosália, é uma morena sensual, sempre vítima de ilusões amorosas, volta e meia deixa a casa da patroa para tentar a sorte com algum homem, que a explora e espanca. Quando abandonada ou cansada, volta ao trabalho.

DONA MERCEDES: vizinha, espanhola que recebe, às vezes, em casa, um amante rico, o que provoca a ira e a inveja de algumas mulheres da rua.

LOBISOMEM E SUAS FILHAS: vizinho velho, barbudo e encolhido, que se mudou para a rua do Macena com três filhas ruivas, sujas e malvestidas. Os hábitos reclusos da família levantam suspeitas e atiçam a curiosidade da vizinhança.

A PROSTITUTA MAGRA E DOENTE DO HELVÉTICA, A DATILÓGRAFA DE OLHOS VERDES: são tentativas frustradas de Luís da Silva para afastar sua atenção de Marina.


VIII - RESUMO DO ENREDO:


Levantei-me há trinta dias, mas algumas sombras de visões ainda me perseguem. Os vagabundos na rua me amedrontam, nas livrarias, julgo ver expostos os rostos dos autores no lugar dos livros, como se estivessem se prostituindo. Minhas mãos tremem. Na repartição, não consigo trabalhar; a cara balofa de Julião Tavares está sempre por cima dos originais na máquina de datilografar. Em casa, tento escrever um artigo para o jornal, enquanto Vitória resmunga na cozinha, mas o tempo passa e só faço rabiscar o nome de Marina e combinações de letras do seu nome: mar, rima, arma, ira. Traço rabiscos pelo papel, enquanto divago. Penso nos políticos e comerciantes ricos, gente besta que me faz encolher. Não consigo pagar o aluguel ao monstro do Dr. Gouveia, nem as outras dívidas. E sempre a imagem daquela coisa amarela, balofa, que é a cara de Julião Tavares. Enfim, tudo se mistura de repente, minha mão se imobiliza sobre o papel, a tinta da caneta faz um borrão, e as imagens desaparecem, fico vazio.
Não aguento mais esta vida monótona da repartição. Quando chega minha hora, tomo o bonde e a imaginação viaja. Penso no meu cadáver amarelo, magérrimo, no meu enterro. Tais imagens sempre lembram Julião Tavares. Olho para a rua: do lado direito, casas de gente rica, do esquerdo, mar e navios. Há quinze anos, morava na pensão de estudantes de D. Aurora, o meu quarto cheirava a gás, meu companheiro Dagoberto espalhava os ossos sobre a cama para estudar anatomia. No fim da linha, o bonde topa com a miséria. Na volta, os fundos do Tesouro, onde trabalho, vida de sururu, ordenado mixo. Rua do Comércio, reconheço pessoas que me conhecem, muitos me desgostam. O bonde roda para oeste, sinto-me voltando para o interior de onde vim.
Meu avô Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva decaía, esclerosado. Zanzava quase em roupas de baixo pela vila, bebia e jogava até ser socorrido por um ex- escravo de respeito, mestre Domingos. Nos últimos tempos, chamava sempre pela minha avó morta, Sinhá Germana, que terminou seus dias xingando escravas que não existiam. Meu pai, Camilo Pereira Silva, manzanzando na rede, picava fumo, lia o Carlos Magno e sonhava com a vitória na política. O vaqueiro Amaro, a cachorra Moqueca, Quitéria na cozinha, e eu brincava sozinho. Sempre brinquei sozinho, mesmo quando meu avô morreu e fomos morar na vila.
Na escola, aprendi o catecismo e os verbos. O tempo passava devagar, quando acabava a aula, eu brincava sozinho.
Enquanto emendo um artigo que Pimentel me obrigou a escrever, uma chuva azucrinante, espécie de neblina pegajosa me arrasta de novo ao passado.
Quando eu era pequeno, esperava ansioso a chuva, gostava de ver tudo desaparecer sobre a água.
Imagino Marina se banhando ali no quintal vizinho, a ideia do seu corpo nu, arrepiado, bole comigo. Eu gostava de me lavar na chuva; montava no cavalo e ia mergulhar no poço da Pedra. Meu pai gostava de me jogar no fundo e puxar quando me sentia afogar. Penso em fazer o mesmo com Marina, sufocá-la aos poucos por um dia inteiro dentro da água. As lembranças começam a se confundir na minha cabeça, vagos indícios que a imaginação completa: os sermões de Padre Inácio, Seu Evaristo enforcado, Mestre Justino e a escola triste, três velhas formiguinhas do outro lado da rua, cuidando de suas roseiras. A primeira vez que vi Marina, ela também cuidava das suas plantas, suada, cabelos pegando fogo.
Lá estão novamente gritando os meus desejos. Um arrepio percorre minha espinha. Meu pai cochilava no balcão, eu sentia um silêncio enorme, de repente ouvia vozes que não sabia de onde vinham. Vozes monótonas, um queixume, um clamor que tomava conta do mundo, saindo das paredes, dos móveis. De onde viriam? Vou misturando coisas atuais a antigas.
Meu pai morreu quando eu tinha 14 anos. Cheguei da escola e encontrei a casa tomada: Padre Inácio, cabo José da Luz, o velho Acrísio, Rosenda lavadeira. Ninguém me disse nada. Passei o dia zanzando pela casa e quintal, pensando no que tinha sido e seria minha vida, sentia frio e pena de mim mesmo. E fome. Adormeci encostado ao muro do quintal. Rosenda me acordou com uma xícara de café, quando o corpo de meu pai estava saindo para o cemitério. Comecei a chorar, não pelo meu pai, mas pela xícara de café. Até hoje, que me lembre, nada me sensibilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa de Rosenda que me despertava. No dia seguinte, os credores foram entrando sem cerimônia. Fiquei sozinho, com medo, pensando no cadáver do meu pai, inchado, verde, com pedaços ficando pretos.
Seu Ivo vem me visitar, fica conversando com Vitória na cozinha. Refugio-me no quarto, no passado, mas não sou o mesmo daquele tempo. Sou um molambo estragado pela cidade. Enquanto fumo, as figuras vêm: o barbeiro André Laerte e o negociante Filipe Benigno discutindo. Seu Batista passeia na calçada. D. Conceição, mulher de Teotoninho Sabiá. Carcará gargalhando. O Doutor Juiz de Direito contando casos ao Vigário. Cabo José da Luz cantando tristezas à porta do quartel. O sino da Igrejinha. Não. É o relógio da sala de jantar batendo oito e meia. Apresso-me para estar na repartição às nove. Paro sobressaltado, não tenho consciência dos meus movimentos; está claro que meu desarranjo é interior. Por fora sou um cidadão comum: Luís da Silva, pobre diabo que vai para o trabalho maçador. Sinto-me imóvel na rua como o cadáver do meu pai apodrecendo debaixo da terra. D. Conceição, e as meninas dela, D. Maria e Teresa, vinham me consolar, oferecer-me comida. Agradecia e me retraía, como animal acuado. A alma do meu pai pagava as penas da preguiça no purgatório. Um dia, resolvi desertar para terras distantes, peguei minha trouxa e os livros da escola. Começo a me apressar para não perder a hora do ponto. Luís da Silva, a caminho da repartição, lesando, pensando em defuntos.
Este mês fiz um sacrifício e dei cem mil-réis ao Moisés. Precisava pagar ao judeu uma parte da dívida pelos panos caros que comprei para Marina. É meu amigo, péssimo cobrador, trabalha para o tio, este sim, judeu verdadeiro. Quando lhe dei o dinheiro, declarou saldada a dívida. Agora podíamos nos sentar na mesa de entrada do café e conversar.
Gosto do café. Fico reparando nos grupos, médicos, advogados, comerciantes, funcionários públicos, literatos, desembargadores.
Meu olhar é para eles, enquanto escuto Moisés, inteligente, comentar as notícias do jornal e pregar a revolução, até que entra o chefe de polícia e ele se cala, acovardado. Quando aparece Dr. Gouveia, chamo Moisés para sair. Sentamo-nos num banco da Praça Montepio. Sinto-me incomodado pelos casais que se esfregam nos bancos do centro. Cachorrada!
Meu amigo fala da perseguição aos judeus na Europa. Deve ser mentira, conto-lhe da miséria aqui mesmo. Minha história: viajando de fazenda em fazenda, professor cigano, ensinando as primeiras letras; depois a vida de caserna; tempos depois, os olhos queimando em trabalhos de revisão. E coisas que não conto: a humilhação pedindo esmolas como escritor, a peregrinação em busca de um pistolão em Maceió; enfim me encostaram na repartição.
Eu obedecia a tudo, ia roendo meu osso com ódio, tão diferente do meu avô, que até enfrentara Doutor Juiz de Direito para libertar cangaceiro do bando de Cabo Preto. Moisés não se interessa por esta história. A ele agrada falar sobre a seca, o sofrimento dos sertanejos de onde vim. Tento me lembrar das secas, mas a verdade é que não sofríamos: meu avô caducava, meu pai lia “Carlos Magno”, minha avó morrera, o resto do povo da fazenda era bruto demais, insensível demais para sofrer, iam se virando. Minhas dores viriam depois.
A minha criada Vitória tem uns cinquenta anos. É feia que dói, tem pelancas no pescoço, muitos pelos no buço e verrugas escuras. É meio surda. Tenta ensinar o papagaio mudo a falar. Diverte-se lendo no jornal as notícias dos navios que chegam e partem. Quando chega a data do pagamento, excita-se, passa a esgaravatar o chão perto do canteiro das alfaces, onde enterra seu dinheiro, fazendo contas intermináveis. Volte e meia, somem alguns níqueis que deixo nos bolsos, até mesmo, uma vez, uma nota alta que estava na carteira. Daí a pouco, reaparecem.
Em janeiro do ano passado, a vida corri bem. Quinhentos mil-réis de ordenado, setecentos, com uns bicos. Não devia a ninguém, os chefes me toleravam, os amigos apareciam de vez em quando.
Estava eu uma tarde lendo um livro ruim na espreguiçadeira do quintal quando percebi um vulto se mexendo no quintal. Não era a senhora idosa que lá morava. Que teria acontecido a ela? Morrera, disse-me Vitória mais tarde.
O vulto era uma moça vermelhaça, olhos azuis e cabelos amarelos que doíam. Muito poético, a lambisgóia que parecia estar em todos os lugares do quintal ao mesmo tempo. Essas coisas de mulher não me interessavam.
Tenho trinta e cinco anos, sou tímido e muito feio.
No passado, atracara-me com uma rapariga desbragadíssima do Cavalo-Morto, depois com uma alemãzinha bonita e jeitosa que encontrara na rua, Berta. Mas a minha vida sempre fora alimentar o rato que me roía por dentro.
Uma vez, fizera a burrice de convidar D. Aurora e a neta para um cinema. Arrependi-me no caminho, fazendo as contas do bonde, da entrada, do refresco depois. A moça abriu o leque das pernas e botou a minha entre as dela, mas eu só fazia pensar no dinheiro desperdiçado.
À noite, não conseguia prestar atenção em Pimentel e Moisés.
No dia seguinte, sábado, a moça estava lá novamente, acompanhada de uma mais velha que parecia parenta, atrapalhando a minha leitura. Perua, unhas pintadas, o pernão aparecendo.
Vitória não sabia quem eram.
Passei a noite imaginando cenas terríveis com ela. Levantei aperreado; passei uma semana murcho, pensando em safadezas.
Moro na Rua da Macena, perto de usina elétrica. Cento e vinte mil-réis mensais de aluguel. Mas, para minha história, o que interessa é o quintal. Lá, debaixo da mangueira me sentava todas as tardes para ler. À direita há um muro; a vizinha, D. Rosália, é antipática, amarela e muito faladora. À esquerda há a cerca e o quintal onde vi Marina. Há nele um mamoeiro, roseiras mesquinhas, um monte de lixo, água estagnada. Tornei-me amigo da rapariga, que era definitivamente estúpida, imbecil, safada: unhas e beiços pintados, preguiçosa, admirava os homens de smoking e D. Mercedes, uma espanhola vizinha que recebia o amante à noite, só lia os romances comoventes da biblioteca das moças.
Mesmo assim conversávamos, às vezes, até a noite chegar. Vitória xingava-a pelos cantos: “Peruinha, cabritinha descarada, franguinha assanhada!”
Eu entrava e ficava passeando pela casa, volta e meia chegava à janela e olhava para a esquerda. Tinha três contos de economia no banco, dava para casar. “Mas Marina, sinceramente, era Rua da Lama total. Deixe de besteira, Seu Luís.”
Por aquele tempo, apareceu-me Julião Tavares. Filho de um dos comerciantes de Tavares & Cia, gente rica e influente.
Esbarrei com ele em uma festa no Instituto Histórico; era patriota ao extremo, reacionário e católico.
Tentei fugir dele, mas foi se imiscuindo em minha vida e me afastando dos amigos.
Minha rotina era escrever. No passado, compusera umas duzentas páginas de sonetos, quando métrica e rima valiam alguma coisa. Um dia, vendi uma página a um colega de pensão, hoje elas são menos de cinquenta, e o preço baixou de cinquenta para dez mil-réis. Trabalhava para um jornal, à noite, escrevendo artigos de encomenda para chefes políticos do interior; artigos complicados, cheios de adjetivos doces ou amargos que me enjoam. Pimentel, Moisés e Seu Ivo apareciam em casa, mas não incomodavam, ficavam quietos no seu canto. Este é um mendigo mal-educado, que viaja pelo estado inteiro, entra na casa de todos, arranja comida e não agradece. Julião veio bagunçar esta rotina; era impossível trabalhar com ele por perto.
Antes, éramos eu, Moisés, Pimentel, Seu Ivo e Vitória. Não havia discórdia em nossas discussões, as expansões eram francas. Mas Julião Tavares era intragável: gordo, bem vestido, perfumado e falador; uma amabilidade toda na casca. Tudo nele era postiço, tudo dos outros. E passou a me perseguir durante semanas, na repartição, no cinema, no jornal, no café. Ele e sua voz antipática louvando o Brasil, os fabulosos poetas alagoanos, a perícia do pai em juntar dinheiro.
Agora eu conhecia D. Adélia, mãe, e Seu Ramalho, pai de Marina. Certo dia, conversando com a velha sobre a carestia, ela me pediu que arranjasse um emprego para a filha, coitado de mim! Seu Ramalho chegou e recriminou a mulher. Não gostava da filha; achava que aquela não daria para nada, quem se casasse com ela faria negócio ruim. Enquanto conversávamos, passou rebolando Antônia, criada de D. Rosália. Volta e meia a coitada arrumava os trapos e seguia algum homem. Era uma ingênua, meio selvagem, tinha grande necessidade de machos e sempre se estrepava. Mas a patroa a recebia de volta, porque as crianças eram doidas por ela. Antônia trazia-me sentimentos bons.     
O calor era grande. Abri uma janela. Avistei uma mulher que lavava garrafas e um homem triste que enchia pipas. Pensava em D. Mercedes e seu amante, um figurão caloteiro, que vivia das aparências, arranjado no Estado. Aquilo me deu raiva. Peguei o livro e fui me deitar na espreguiçadeira, debaixo da mangueira. Semicerrei os olhos, aborrecido. Passei uma semana arranjando colocação para Marina, só consegui um emprego de cem mil-réis numa loja de fazendas. D. Adélia lavava roupa e tossia. E eu ali, esperando minha franguinha aparecer. Devia estar se raspando os sovacos, as sobrancelhas, ou então pintando as unhas. De repente ela apareceu no meu campo de visão, com aquele risinho cochichado, como um rato, “chi, chi, chi”. Ia e vinha pelo quintal, oferecia a bunda apertada na saia justa, o pernão moldado pela meia de seda. E aquilo prestava?
Quando ela foi se aproximando da cerca, senti uma espécie de desmaio, o livro caiu, sentei-me e ela riu. Espantei os pensamentos ruins da cabeça. Falei a Marina do emprego, o seio querendo pular do decote. Ela fez muxoxo, mas agradeceu mesmo assim. Peguei-lhe na mão, escurecia. Mordi-lhe a mão, o pulso, o braço, abracei, beijei-lhe a boca, minhas mãos corriam pelo seu corpo, um peito escapou da roupa. Ela se recompôs, assustada. Expliquei que lhe queria bem, que podíamos nos encontrar mais tarde. Seu Ramalho gritou pela filha. Falei em casamento. Gostava dela. Ela amarrar uma pedra no pescoço e mergulhar.
Uma família esquisita veio morar na nossa rua. Um velho barbudo e encolhido, três moças amareladas e sujas, malvestidas, ruivas e arrepiadas. Não se relacionavam com ninguém. A vizinhança se alvoroçou. D. Mercedes garantiu que as moças eram filhas e amantes do velho. Não havia provas, mas a história pegou. Passaram a chamá-lo de Lobisomem. Aquela história me enervava. Nem mesmo nos meus encontros com Marina, à noite, estava livre dos comentários. Além disso, lembrava-me de um caso da vila, um cearense cheio de feridas, saído da prisão, que foi pedir esmola na rua das putas. Um dia encontraram o homem abrindo as pernas da filha, de onde corria sangue. Encheram o coitado de pancada e ele confessou que havia desvirginado a menina. Foi condenado. Anos depois, os médicos descobriram que a menina era virgem; o velho estava tentando curar um corrimento da filhinha com remédios brutos da medicina sertaneja, quando o pegaram, confessou para não apanhar mais. Julião Tavares achava a história “natural, a justiça não é infalível”.
Marina defendia com unhas e dentes a sua virgindade. Com o tempo, acabei por aceitar os seus defeitos. Queria que eu lhe pedisse a mão, queria casar. Eu tinha boa vontade, mas me aborrecia o discurso a Seu Ramalho, a ideia de decorar casa, fazer convites com letras douradas, alugar carro, postar-me diante do juiz e do padre. Talvez os três contos voassem. Eu queria arranjar tudo com simplicidade.
No outro dia, retirei quinhentos mil-réis do banco e entreguei a Marina para que começasse a comprar os panos, a roupa branca. Saindo de casa, a primeira pessoa conhecida que encontrei na rua foi Julião Tavares. Senti um estremecimento desagradável, fingi não vê-lo. Depois da repartição, comprei um bilhete de loteria do cego do café. Se tirasse uns cem contos, faria uma casa no alto do Farol, com vista para a lagoa, as paredes enfeitadas com quadros a óleo, o chão forrado de tapetes, a cama com colchão de paina, colcha de bordado fino.
Com o dinheiro, Marina comprou calças e camisas de seda, quase nada. Dei-lhe mais, pedindo economia. Meu dinheiro no banco foi-se embora. De lembrança, comprei-lhe um relógio-pulseira e um anel. Saí da joalheria falido, vinte mil-réis no bolso e uma satisfação maluca. Ao chegar em casa, recebi um choque: Julião Tavares, à janela da minha casa, pregava os olhos em Marina do outro lado, e ela correspondia.
Entrei uma fera em casa, não ouvia sequer a fala mole e engordurada daquele sujeitinho. Comecei a andar pela sala, olhando para o chão, como é de meu costume. Na fazenda, eu gostava de atirar pedras nas cobras, até esmaga-las. Um dia, uma cascavel se enrolou no pescoço do velho Trajano. Na rua, os calceteiros consertavam o calçamento. Lembrei-me de cruzes à beira das estradas, por onde andara; sempre a mesma história: "um “sujeito que namorou a noiva de outro”. Olhei para Julião, vi o seu pescoço estirar-se, os ossos se afastarem, os beiços se entreabrindo, roxos, intumescidos, a língua escura, os dentinhos de rato. Julião levantou-se e saiu.
Bebi uns tragos de aguardente, não quis jantar. Saí, fui ao jornal, entrei para uma sala de projeção, mas não via o filme. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba. Encontrei Moisés à saída. Às onze horas, estava no Helvética, bêbado. Chamei uma rapariga magra e feia para sentar-se comigo. Paguei-lhe o lanche e fomos para a casa dela, na Rua da Lama. No quartinho sujo, pensava no dinheiro gasto, sentia o veludo da caixinha de joias nas minhas mãos dentro do bolso. A rapariga era mesmo feia, acabada, uma infeliz. Como pudera me deixar enganar tanto? Melhor assim: perdera o dinheiro, mas conservara a liberdade. A moça não quis receber, não tínhamos feito nada. Insisti com raiva, dei-lhe dez mil-réis, só me sobraram quatro.
A princípio, Marina me convenceu de que eu não tinha razão, tinha era falta de confiança. Não queria ser injusto, não tinha provas e as aparências enganam...
Sufoquei o seu choro com as joias; ficou tão feliz que cheguei a estranhar a repentina mudança. Mas não quis marcar o casamento, desculpava-se que ainda faltavam coisas. Fiz a lista, comprei do mais barato, a prestação com o tio de Moisés. Quando lhe levei os trapos, nem quis vê-los direito, ficaram jogados sobre a cadeira.
Ela sequer usava o relógio e o anel que lhe dera na véspera. Provavelmente estava longe, pensando no homem que lhe daria tudo aquilo que eu nunca poderia dar. Lembrei-me de cenas do meu passado miserável, da pobre mulher da Rua da Lama. Prostituição pior era se casar por dinheiro. Levantei-me e fui embora.
Por que Marina não procedeu com franqueza? Eu teria sofrido despeito, mas não seria esta miséria, recordação de coisas mesquinhas. De todo aquele romance, guardo na memória o cisco, a água empapando a terra, urubus na mangueira farejando ratos mortos no lixo amontoado no quintal. Tão morno, tão chato!
Não se falou mais em casamento.
Marina foi se desembaraçando de mim aos poucos. À tarde, me embromava; pela manhã, plantava-se na janela e se enxeria com Julião Tavares. Comentei o escândalo com D. Adélia, para tortura-la, mas a velha era uma coitada. Eu devia era mudar de casa. Como trabalhar com o barulho inconveniente dos ratos devorando o guarda-comidas e os meus livros? Eram em número cada vez maior, uma chiadeira infernal, e cada vez mais atrevidos, vinha roer minhas sandálias. À noite, havia também o barulho da rede de Marina rangendo, talvez ela estivesse nua, por causa do calor. Nenhum romance conseguia me livrar do tormento. Ela devia pensar nas banhas de Julião, inútil, preguiçoso, discursador.
Em um mês, éramos inimigos. Tentei reparar em outras mulheres na rua. Até cheguei a me interessas por uma datilógrafa de olhos verdes de gato, com quem cruzava sempre na rua, mas ela sumiu por uns tempos.
Julião metera-se na casa, contra a vontade de Seu Ramalho. À noite, levava presentes para as mulheres, embrulhos, latas, talheres. Eu ouvia as risadas, as conversas, os discursos pastosos do canalha.
A vizinhança já comentava. Punha-me a passear pelo corredor, olhando para a biqueira dos sapatos e para um cano que vazava, esticado como uma corda, rente à parede. A voz de toicinho cru de Julião Tavares atravessava as paredes e me atormentava. Mas me concentrava era nos silêncios dos jantares; que indecências não estariam praticando? Tentava pensar em outras coisas: os crimes depois da revolução de 30, Moisés desaparecido por causa da perseguição, Seu Ivo que me furtara uns pratos, a datilógrafa de olhos verdes que sumira, a menina da Rua da Lama que fora parar no hospital. Mas a voz oleosa me perseguia, a gordura se derramava pelas paredes. Era preciso dar cabo dela. Mexia-me, tossia. E olhava com insistência para o cano ao pé da parede, capaz de rebentar a cabeça de um homem, mas aquele, estirado, mais parecia uma corda.
Aos domingos, iam ao cinema, juntos, de braços dados. A vizinhança povoava as janelas para vê-los e comentar o passeio. Meu pensamento ia junto com eles, Marina e Julião Tavares se esfregando pelo caminho; na sala de espera...Escurecia, eu me debruçava na janela. O vento gemia nos arames da companhia de eletricidade da Nordeste. Onde andaria a datilógrafa de olhos agateados? Sonhava em encontrar e proteger aquela moça, constituir família. Eu devia acabar com aquela maluqueira e ir para a farra. Seu Ramalho vinha puxar conversa. Eu ouvia os arames e pensava em cordas. A literatura para políticos da roça escasseava, eu precisava beber e me endividava cada vez mais. Mas em que eu pensava mesmo era na miséria antiga. A fome, a humilhação, os devaneios. A noite passava, os arames balançavam como cordas. Lembrava-me da pensão de D. Aurora. Àquela hora, o Capitólio esvaziava, mas Julião Tavares e Marina demoravam, era tarde. Seu Ramalho brigava com D. Adélia, que chorava e arrumava desculpas esfarrapadas para defender a filha. Que diabos fazia eu ali, debruçado à janela, fumando?
O marido de D. Rosália era um caixeiro-viajante, moreno e calvo, que andava sempre no interior. Quando chegava, Antônio vinha avisar, então era uma semana ou pouco mais em que o casal vivia excitado. Era um amor ruidoso, indiscreto, que não me deixava dormir. Antes da minha cabeçada com Marina, eu simplesmente me arrumava e saía. Mas agora não conseguia arredar pé de casa. Passava o tempo pensando em me reconciliar com ela.
Que me importa que tivesse sido de outro? Aquilo tinha sido um erro, mas todos erram. Não se faziam mais mulheres como Sinhá Germana, que havia sido somente de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que a amava como um bruto. Se ela voltasse, esquecida de Julião Tavares, poderíamos ser felizes. À noite, D. Rosália e o marido resfolegavam, atiravam-se um sobre o outro no quarto paredes-meias com o meu. Eu não conseguia dormir, esfregava-me no colchão cheio de pulgas. Tentava pensar em várias coisas e em nenhuma ao mesmo tempo. A guerra na Europa, Moisés se ocultando com medo da polícia, os discos novos que D. Mercedes comprara, onde andaria Seu Ivo, as botinas cambadas do Lobisomem.
Tentava relaxar, transformar-me em um espírito boiando, livre da matéria. Tapava os ouvidos, mordia os lençóis. Tudo em vão. Um menino começava a chorar, urinava na cama, ouvia-se o som das gotas no chão. D. Rosália ralhava, o homem respirava arquejante, esperando o corpo da mulher se atirar de novo. Eu acendia mais um cigarro. Só um corpo boiando como o espírito de Deus sobre as águas. Quantas horas duraria aquilo ainda? Resfolegavam como porcos.  Sentava-me na cama, queria chorar. Queria sufocar aquele homem que estertorava no quarto ao lado.
Queria apertar o seu pescoço, penetrar os meus dedos em sua carne, até que ele se imobilizasse, depois das convulsões e estremecimentos. Não me lembrava de Julião Tavares. Desejava apenas matar um homem que me roubava o sono.
À noite, Seu Ramalho e eu colocávamos as cadeiras na calçada e conversávamos. D. Adélia já antipatizava comigo. O velho contava histórias do seu passado: a mulher bonita de verdade no casamento; a primeira viagem no trem que descarrilou no caminho; o sarampo de Marina, antes tivesse morrido, não dava desgosto à família. Atacávamos então as mulheres de hoje, estragadas pela falta de religião e pelos beijos de língua do cinema. Contávamos causos horríveis de antigamente, vingança medonhas por causa de mulher. A grande história de Seu Ramalho era de um moleque de bagaceira que arrancara os tampos da filha do senhor de engenho. O cabra fora amarrado e torturado de faca a noite toda. De madrugada, arrancaram os quibas dele e enfiaram garganta abaixo, então cortaram-lhe a veia do pescoço. Enquanto Seu Ramalho contava, formava-se na minha mente a visão de uma figura nua e preta no calçamento da rua, toda retalhada, sem beiços, o sangue escorrendo. Seu Ramalho partia para o seu turno na usina elétrica, a figura no calçamento ia se tornando branca e balofa, o sangue estancava, as feridas saravam. Marina devia estar descansando na rede que rangia, deitada de bruços, as pernas abertas por causa do calor. Uma corda estava amarrada no pescoço branco da figura estendida na sarjeta, o laço via se apertando, ele arquejava, os olhos abotoados, a cara roxa, dentes à mostra.
Quando a companhia lírica chegou à cidade, eu estava arrasado de dívidas. Não me sobrava ânimo para voltar às coisas do jornal, liquidar as contas, equilibrar a vida. Nunca me interessei por música, mas no dia da estreia um rebuliço tomou conta da casa de Marina. À noite, ela entrava em uma limusine onde estava Julião Tavares, o carro partia deixando um cheiro de gasolina e perfumes. Durante cinco dias a cena se reproduziu. Eu saía de casa, andava à toa, tomava chuva fina da Praça dos Martírios, subia a Ladeira Santa Cruz e tentava me misturar aos vagabundos que tomavam cachaça. Inútil. Eu não era um deles nem era aceito por eles. A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Minhas misérias ficaram no passado, agora eu era um parafuso insignificante na máquina do estado. Recolhia-me ao canto mais escuro e ficava reparando nas figuras do boteco, então o passado retornava: meu susto ao descobrir o tamanho das ruas da vila, as brincadeiras dos meus companheiros, alunos de Mestre Antônio Justino, das quais eu não participava porque meu pai não deixava; eu não passava de um menino grande, besta e envergonhado. Levantava-me meio bêbado, desconfiado de tudo que me rodeava. Insuportável.
O último dia foi medonho. Quando a limusine saiu, minha falta de desejo misturou-se à carteira completamente vazia. A camisa de Julião Tavares brilhava e não amarrotava, ele era duro como um osso engessado, o espinhaço aprumado, olhava em frente com segurança. Minha camisa estufava no peito, quando caminho, abaixo a cabeça, não há jeito de minha espinha ficar direita. Mas sou um bípede! Que se danem os três meses de aluguel atrasado ao Dr. Gouveia, se cruzar com ele, finjo não vê-lo; também não me curvaria ao Secretário ou ao Governador. Já comi toicinho com mais pelo! Que será do meu futuro, quando a revolução proletária chegar? “Camarada Luís da Silva, você escreve um artigo defendendo o imperialismo. Você elogiava os políticos safados do interior, os prefeitos ladrões. Onde está o dinheiro que essa gente lhe deu?” Sabia lá! Não tinha mais dinheiro. E o que eu queria era poder ir também ao teatro. Mas precisava de um empréstimo. Por que Moisés ou Pimentel não apareciam? O pagamento estava próximo. Julião Tavares seria enforcado quando viesse a revolução. Marina ia trabalhar no Asilo das Órfãs. O que eu precisava era de vinte mil-réis. O espetáculo devia estar começando. Lembrei-me das nossas entrevistas no quintal à noite, Marina quase sem roupa, curvada, cobrindo os peitos com as mãos. Ali perto da raiz da mangueira, ao pé da cerca, Vitória escondia os seus cobres, sua fortuna. Tempo sem fim à janela olhando os carros. Precisava de dinheiro.
Vitória preparou o café e foi deitar-se A plateia devia estar quase cheia. Afinal Vitória enterrava o meu dinheiro, que roubava, mas é certo que depois devolvia.
Decidi-me ir pisar a terra que Marina havia pisado, encostar-me ao tronco da mangueira onde ela estivera nua, enrolada na escuridão, torcendo-se por causa dos meus beijos por todo o seu corpo, o corpo todo coberto de carocinhos miúdos como pontas de alfinetes. Eu rangia os dentes, pisava com força o chão que escondia o tesouro de Vitória.
Os olhos de um gato brilhavam na escuridão, redondos e fosforescentes. Uma ação indigna. Procurava afastar essa ideia do pensamento. Marina se mostrava e mostrava a roupa e o lorgnon no teatro, provavelmente estaria amolada com o espetáculo. As minhas mãos encontraram-se esgaravatando a terra, enquanto os olhos do gato cresciam assustadoramente sobre mim. Que diabos, o dinheiro foi feito para circular. Depois eu devolveria tudo, em dobro. Sentia-me um estúpido, não parava de cavar, os olhos do gato cresciam. Tinha quase certeza de que, se fosse ao teatro, Marina voltaria para mim.
Estava decidido. Aprofundei a cova até topar com as moedas. Havia de todos os tipos. Apanhei um punhado de mil-réis, vinte mil-réis e duas libras esterlinas.
Um roubo, mas devolveria tudo em dobro. Fui ao banheiro, lavei as mãos, saí para a rua secando-as no lenço, as mãos cheirando a azinhavre, sujas de terra. Porcaria.
Levei o desespero a uma alma que vivia sossegada. Quando recebi o ordenado, repus o dinheiro de Vitória, cento por cento, cinquenta e dois mil-réis e as duas libras esterlinas. Paguei o salário dela. Como todos os meses, começou a agitação para enterrar as suas moedas. Mas ela desconfiou, desenterrou tudo, passou a noite contando e recontando o dinheiro; a diferença roubara-lhe o sono. Não conversava mais com o papagaio. Estava mais velha e muito bamba, as covas estavam revolvidas e mal cobertas. Seu céu havia sido violado.   
As visitas de Julião Tavares foram escasseando e a alegria ruidosa de Marina aos poucos desapareceu.
Uma tarde, encontrei-a engulhando junto ao mamoeiro, feia, amarela, torcendo-se, tentando vomitar, cuspindo à toa na roupa.
Um acidente dissipou a fumaça dos meus olhos. Caminho como um cego, sem nada ver ou ouvir. Estou constantemente esbarrando em gente nas calçadas, quase sendo atropelado por choferes na rua. Quando isso acontece, minha reação é de vergonha. “Pedrão! Perdão!”
A multidão me é hostil e horrível, à noite, na cama, me assombram os pensamentos confusos. Entre a Rua 1º de Março e do Comércio, tive uma colisão feia, a aba do meu chapéu feriu-lhe a testa ou olho. Afastei-me para deixá-la passar, mas o vulto da mulher gorda, amarela, malvestida, pés sujos e inchados, com uma barriga monstruosa, agressiva, não me saía da cabeça. A princípio, dei risada, era mesmo de espantar a coragem da mulher, andar por ali com aquela criança pronta para nascer. Depois tive pena, seria uma coitada de subúrbio, iria parir sem a ajuda de ninguém senão dos vizinhos que a amaldiçoariam, o marido não se importaria, levantar-se-ia três dias depois e trabalharia o tempo todo com a criança pendurada ao corpo. Aos poucos, o vulto da mulher foi se transformando e a imagem de Marina formou-se nítida em minha cabeça, com a mesma barriga. Se encontrasse Julião Tavares naquele dia, um de nós teria ficado estirado na rua.
De manhã, costumo ficar duas horas sentado no cimento do banheiro, nu, fumando. Nestes momentos, dão-se grandes revoluções na minha vida: tomado de megalomania, escrevo um livro notável, que provoca amor e ódio dos críticos, torno-me famoso. Isto me irrita, pois passo o resto do dia com a cabeça no mundo da lua, sem fazer nada direito.
O banheiro da casa do Seu Ramalho é separado do meu por uma parede estreita. Posso distinguir com facilidade as pessoas que se banham lá. Mesmo depois que Marina brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele momento e dedicar a ele uma atenção concentrada. Era capaz de distinguir cada momento do seu banho ruidoso, alegre, estabanado. Agora estava reservada e silenciosa. Cuspia, soluçava, chorava, lamentava-se, rogava a Deus e aos santos. Eu sentia raiva, aborrecimento, piedade e nojo. Assim como a imagem da barriga crescendo, enorme, não me saía da cabeça, ela também devia sentir os pés e os seis inchando, as formas da criança comprimindo seu corpo.
D. Adélia veio dar pancadas à porta, provavelmente já desconfiava, mas não queria acreditar em infelicidade sem remédio. Marina pôs-se a lavar e cantar uma cantiga rouca, estrangulada, medonha. Não adiantou, a mãe obrigou-a abrir. Ficaram as duas cara a cara, depois de um silêncio, Marina pôs-se a chorar e entregou tudo. A velha lamentou, mas a filha arremetia contra a mãe, arfando, despejando sobre ela sua infelicidade. D. Adélia quis se impor: “Me respeite, Marina”.
Mas como respeitar aquela coitada que um dia fora jovem e bela, mas que a vida transformou numa bola de sinuca jogada para lá e pra cá, escangalhada, uma desgraça que arrastava seus medos pelo mundo, que sofria pelo resto de dignidade que possuía? As duas choravam, eu queria chorar também, pela sorte delas e pela minha.
Nem uma única vez elas aludiram a Julião Tavares: as duas mulheres eram fatalistas e queixavam-se da sorte. Isto me revoltava; era evidente que Julião Tavares devia morrer, e esta ideia entrava-me na cabeça como um prego atravessando os miolos, dor terrível inutilizando as minhas ideias.
D. Adélia e Marina estavam, aos meus olhos, justificadas. Mas Julião Tavares merecia morrer. Os músculos de mestre Domingos eram do meu avô, mesmo depois de 88. Muitos negros fortes rondavam a nossa casa, filhos dele com as escravas que tinham se ido da casa, exceto Quitéria, que continuou a parir filhos que interessavam ao meu avô, mesmo não sendo mais seus. Mesmo decadente, Trajano impunha respeito aos cangaceiros e aos proprietários vizinhos. Lembrava-me disso e sentia vergonha, os meus muques eram reduzidos, não tinha força nem ânimo, só sabia obedecer.
Pensei na cascavel que se enrolara no pescoço do velho Trajano. Quando ela se desenroscou, meu pai Camilo a matou, Quitéria jogou-a longe. Quitéria estava morta, os filhos dela e de outras pretas começavam a desacatar os descendentes do antigos, em bandos que aterrorizavam o interior do Nordeste.
Seu Ivo apareceu aqui em casa, faminto, meio nu e meio bêbedo. Trouxe-me de presente uma peça de corda que achou na rua. De início, achei aquilo um despropósito e quis recusar o presente. Insultei, mesmo Seu Ivo e fiquei zanzando pela casa, ou em volta da mesa, enquanto ele comia. Eu estava perturbado, um desconchavo nos modos e nas ideias. Seu Ivo comeu tudo e foi cochilar acocorado junto à parede, perto do cano d’água. Recordei-me da morte de Fabrício, cangaceiro compadre de meu pai; fugi de casa e fui ver o corpo na cadeia pública. Nunca um defunto me causaria tão viva impressão quanto aquele – eu veria muitos depois. Marina balançava-se na rede, sentei-me à mesa e aproximei a mão da corda.
Na vila eu vira muitos defuntos acabados a tiro e faca, trazidos para a delegacia. O povo juntava para ver o cortejo. Depois do morto, vinha o assassino, imobilizado, os braços amarrados ao tronco, como um bicho, ventas franzidas, mordendo os beiços, dando puxões na corda e grunhindo. Se fosse um ladrão de cavalos, um ladrão miúdo, apanharia com cipó no lombo, até sangrar, mas um criminoso de morte merecia consideração e admiração. Vitória tirou o prato, olhei de novo para a corda. Quando eu era pequeno, ficava trepado no último pau da porteira, torcendo para as laçadas de Amaro, que sempre conseguia prender o animal, com uma habilidade impressionante. Seu Evaristo era um homem muito velho, tinha vivido em boas condições, mas aos setenta anos passava necessidades. Andando, curvava-se de fraqueza, precisava abraçar-se à mulher para diminuir o frio à noite. Uma comissão da vila arranjou-lhe uma subscrição. Ele, orgulhoso, plantou uma rocinha no quintal e dispensou o dinheiro assim que terminou o inverno. Depois veio de novo a privação. Um dia, sem conseguir trabalho, foi até Seu José Inácio pedir esmola. O dono da padaria estava zangado naquele momento, tratou-o brutalmente, do que depois se arrependeu. Seu Evaristo pegou o pão velho que Seu José Inácio lhe deu, levou-o para a sua velha roer. Quando ela se deitou, passou a mão na corda. Seu corpo magro amanheceu pendurado em um galho de carrapateira. Eu não consegui chegar muito perto, assustava-me aquele corpo balançando, suspenso por uma corda fininha, como aquela sobre a mesa, ao alcance da minha mão. Peguei-a, enrolei e botei no bolso. Fui acordar Seu Ivo e colocá-lo para fora.
Julião Tavares entrava no café. Eu afetava desprezo e ficava olhando sua cara refletida no espelho, riscada pelas letras brancas nele pintadas. Tentava me distrair embaralhando as letras e criando palavras novas, hábito de que não consigo me libertar. Depois que Julião Tavares desapareceu, passei a seguir Marina pelas ruas, tinha certeza de que ela ia se encontrar com ele, mas isso não acontecia. Seguia-a, sentindo-me seguido por Julião. Minhas mãos apertavam a corda que ficara no meu bolso. O Doutor Chefe de Polícia estava no café. Meu desejo era passar a corda pelo pescoço de Julião Tavares. Que me podia acontecer? Medo da prisão? Minha vida lá não seria pior, exceto pela sujeira: tenho horror à sujeira, às grades pretas e sujas, ao bolor e cheiro horríveis. Se me dessem água, tudo poderia suportar. Medo de Julião Tavares? Não, ele estrebucharia um pouco, mas seu corpo balofo ficaria roxo em cima do mármore da mesa, com a língua para fora. Medo da opinião pública? Não há opinião pública, há pedaços de opiniões contraditórias, manipuladas por jornalistas como Pimentel, como Luís da Silva. Mas com certeza temia tudo isso, estava no meu sangue, que não preservara a força dos meus antepassados sertanejos.
O guarda-civil não me bateria, apitaria, pois é um covarde. Se o guarda-civil fosse corajoso, estaria pelo interior combatendo os sertanejos que espalhavam a desordem e aterrorizavam. Se precisasse atirar contra grevistas faria-o tremendo. Assim como eu sapeco minha literatura de encomendas, constrangido, sabendo que pratico safadeza. Julião Tavares era uma figura importante demais, um sujeito que fazia receio matar.  
Nas horas de serviço, conseguia distrair-me. Na repartição, movemo-nos como peças de um relógio cansado. Tudo era vagaroso e sonolento. Na hora do almoço, saía para a rua e as pessoas esbarrando-se sugeriam-me que a cidade estava em cio. Aterrorizava-me pensando no que podia ter acontecido durantes aquelas três horas em que passara fechado no serviço. Ia para casa, fingia comer alguma coisa, abalava para a rua. No café, sentava-me no meu lugar, pedia um maço de cigarros e conversava com Pimentel e Moisés, que vinha com a mesma história da literatura como instrumento de propaganda política. Aquilo me enervava. Enfiava a mão no bolso do paletó e encontrava a corda. Onde seu Ivo arranjara aquilo? Precisava jogá-la fora. Pimentel não discordava de nada. Eu estava lesado, mas às vezes tinha ganas de enforcar Moisés com a corda. A tranquilidade era pouco a pouco substituída por uma inquietação que me tornava brutal com os companheiros. Instabilidade, ruína, o mundo perdido. Levantava-me, ia até a Rua do Macena, entrava em casa, demorava-me até perceber sinais da presença de Marina. Voltava ao café. Se não encontrava Julião Tavares, saia pelas ruas, a procurá-lo.
Marina caminhava depressa, voltava-se como se estivessem seguindo-a, escondia-se; quase a perdi de vista. Entrou em um bairro que era uma desgraça, casas sujas, mato nas calçadas e maloqueiros aqui e ali. “Proletários, uni-vos”, estava escrito em uma das casas, sem vírgula ou traço, o que me irritou profundamente; se viesse a revolução, bárbaros que escreviam assim acabariam comigo. Marina parou diante de uma casinha baixa, a placa dizia: “Albertina de tal, parteira diplomada. Entrei em uma bodega e esperei. Tentei puxar conversa com o homem da venda sobre as pichações; de nada adiantou.
A placa da casa era velha e amassada. D.Albertina faria a operação para restabelecer as regras de Marina. Como seria ela? Magra, pálida, correta, educada. Pensei na humanidade ficando pulha, nos meus parentes, D. Adélia e Seu Ramalho gemendo a vida, brigando por causa da filha. D. Albertina podia ser uma velha gorda, mole, sem diploma nem prática, mal-educada, nojenta, resmungona, machucava brutalmente o corpo de Marina com a mão de unhas sujas.
Paguei a conta do bar e comecei a explicar para o homem da venda o que queriam dizer as pichações, o filho de Marina e Julião Tavares não nasceria, não viria ao mundo para sofrer como tantos outros.
A porta abriu-se e Marina saiu. Atravessei a rua e cheguei-me a ela. Estava calor, a areia era muito fofa. “Faz favor?”, disse pela segunda vez e ela parou um instante. Tentei conversar, mas ela apressou o passo, insultei-a: “Puta!”, disse várias vezes. Dizia-lhe o insulto, mas estava cheio de piedade. Não sentia cólera, o que sentia era desgosto. Insultei-a ainda muitas vezes, incitava-a a caminhar mais depressa na areia fofa. Nada se fixava no meu espírito. Imagens do passado, da minha rua, Marina nua. Insultei-a outras vezes, ela me pediu que a deixasse. Imaginei-a sendo julgada pelos seus atos. Mas ela seria absolvida, seu caso não era importante, teriam pena dela.
Entramos na cidade e separamo-nos. Imaginei que ela se ia juntar com o amante.
Descobri por acaso que Julião Tavares tinha feito nova conquista. Imaginei exasperado que seria a datilógrafa de olhos verdes. Eu a via grávida, apelando aos serviços de D. Albertina. Julião Tavares andava depressa, com espalhafato. Enraivecia-me com os sorrisos que as pessoas, por subserviência lhe distribuíam pelas ruas. Que fim teria levado seu Ivo, sempre pedindo, furtando, bebendo pelos caminhos que corria em fazendas e povoados. Eu apalpava a corda que ele me dera, repousando no fundo do bolso do paletó. Lembrava das noites que Julião Tavares me roubava com sua voz mole. Enfim, descobri a sua nova amante, uma criaturinha sardenta que trabalhava em uma loja de miudezas. Em breve estaria de barriga, visitando D. Albertina. Julião lhe daria algum dinheiro para calar-se, e receberia um sermão de seu pai.
A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Julião chegava alta noite. A ligação durou pouco, não chegou a despertar suspeitas. Julião saía e caminhava pelos cantos escuros. Tinha um jeito de andar, de sentar-se no bonde, de falar que me davam a impressão de que tudo em roda era dele. Julgava-se superior por ter deflorado várias meninas pobres, imaginava-se dono delas. Mas Marina não era dele, ela valia o que tinha valido antes de engravidar. Inútil querer acreditar nisto. Ela tinha descido, caído, habituava-se a esgueirar-se, pedir desculpa, no futuro seria um trapo como D. Adélia.
Fui até o fim da linha do bonde, parei com se não tivesse mais corda. Sentia-me cansado, mas era como se uma vontade estranha me obrigasse a andar. Tomei o caminho de volta, para espreitar a saída de Julião Tavares. Dei pela falta de cigarros, as bodegas estavam fechadas, só a corda no meu bolso. Idiota! Besta!
Seriam duas horas e neblinava. Lembrava-me do cangaceiro Cirilo da Engrácia, cuja foto vira nos jornais, pendurado pelo pescoço a um pau. Perto da casinha, vi um vulto tomar o caminho dos trilhos da estrada de ferro. Via-o andando, Julião Tavares parecia um balão de São João perdido na poeira de água. Lembrei-me das festas da minha infância na fazenda. Apressei-me para segui-lo, em breve ele estaria na cidade, em lugares iluminados, em segurança. Meu cansaço desaparecerá. Ele andava sossegado, com segurança. Eu sentia um desespero de fumar. Se me encontrasse com Julião de dia, eu me encolheria e me afastaria como um bicho inferior. Mas agora era diferente, minha raiva crescia, como a de um cangaceiro emboscado.
Como José Baía, cangaceiro amigo de meu avô que me contava histórias de onças no alpendre de casa.
Senti fraqueza e saudade. Onde estarás, José Baía? Queria gritar e avisar Julião Tavares do perigo, mas não conseguia. Sua tranquilidade pelo caminho me encolerizava; então eu não era nada? Eu era um homem! Por que ele não fugia? Em vez disso, parou e acendeu um cigarro, aquilo me endoidecia. Não conseguia me livrar dos instintos ruins. Pensei em José Baía preso por detrás de grades negras e pegajosas.
Retirei a corda do bolso e em alguns saltos silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isso é absurdo, é incrível, mas realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, ele debateu-se. O homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Uma alegria enorme encheu-me. Tudo em volta era insignificante. Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam me convencido de que só podia me mexer pela vontade dos outros; todo o meu passado virou fumaça.
Julião Tavares estrebuchava, caía nas folhas secas do chão. Eu tinha os braços doídos e as mãos cortadas. Veio-me a lembrança de Seu Ivo. Larguei o corpo, que foi bater numa cerca. Que horas seriam? Necessário continuar a marcha. Mas o que faria com o corpo? Agucei o ouvido. Só o zunzum dos mosquitos. Queria ver o resto do corpo. Era inconveniente ficar ali. Devia ir me deitar; ouvir os urros do marido de D. Rosália, que estava em casa. Quitéria dizia: “Matos têm olhos, paredes têm ouvidos”. Se viesse alguém? Como seria meu julgamento? Sentia meu suor aumentar na friagem. Seu Evaristo, José Baía, Cirilo da Engrácia vinham-me à cabeça. Meus dentes batiam e faziam barulho. Comecei a cavar com as mãos uma cova para Julião Tavares, mas a ideia me pareceu disparatada. Tive um lampejo: amarraria a corda ao pescoço do morto e o deixaria pendurado em um galho, como suicida. O trabalho de erguer o corpo foi penoso e enjoava-me. Os jornais dariam tarjas grossas para falar no suicida. O enterro seria complicado e disputado. Haveria discursos no cemitério. Colunas de mármore no túmulo. Apareceram vozes na estrada ou eu estava tresvariando? As grades da cadeia são tão imundas que a gente não pode tocar. Eu ofegava e falava alto, desesperado. Homens e mulheres se aproximavam, vinham da farra. Alguém esbarrou no corpo de Julião, mal estirado no escuro, debaixo da árvore, com os pés ainda no chão, e pediu desculpas. Eu puxava a corda com força, minhas mãos feriam. Trinta anos de prisão. O corpo de Julião Tavares balançava como o de Seu Ivo, quando bebia. Comecei a repetir para mim mesmo: “Não há perigo, nenhum perigo”. Com um esforço desesperador; consegui suspender o corpo. Escorreguei pela árvore arranhando-me no tronco. Caí sobre as folhas secas. A ideia do perigo que corria me desesperou, comecei a chorar e soluçar. Onde colocara o meu chapéu? Saí dali amparando-me à cerca. Não conseguia correr. Estava certo de que homens e mulheres me acompanhavam. Reuni forças para correr; uma carreira bamba e trôpega, a boca aberta, contrações na carne enregelada. Corria e chorava. Meu chapéu tinha ficado pelo caminho? Trinta anos de cadeia. Insuportáveis os zumbidos e as ferroadas das carapanãs. Tropecei e parei. Para onde estava indo?
Topei com um vagabundo num bueiro. Não senti medo. Mendiguei um cigarro. Queria chegar em casa e embriagar-me. Tentei conversar; mas o vagabundo ignorou-me. Entrei na Rua do Apolo. Minha calça estava rasgada na altura do joelho, a roupa preta suja de limo e terra, as mãos pretas de limo, terra e sangue. Marchava para a casa, mas ela não chegava. Se alguém me visse, alguma testemunha, estaria perdido. Um bom advogado me salvaria, mas eu não tinha dinheiro para contratá-lo. Pensei em voltar todo o caminho, aceitar as grades pretas e sujas. Tudo se sumiu quando cheguei em casa. Estava sujo como um porco. Lavei as mãos lentamente, porque doíam muito. Bebi um gole de aguardente e fui me lavar no tanque. Pisava como um gato. Precisava dormir, recompor-me. Continuei a beber, atordoado. O relógio bate, acho que três pancadas. Tudo que eu avistava estava enevoado. Fechei os olhos, um rumor enchia-me os ouvidos. Impossível dormir. Tentei limpar as unhas sujas de terra. Tentei encaminhar o pensamento para outras coisas: minhas dívidas, um artigo que Pimentel me pedira. O Lobisomem de sapatos novos, D. Rosália e o marido. Dar uns cobres do salário para Moisés. Bebi o resto de aguardente. O estômago recusou. Encostei-me à mesa para não cair. Suava frio. Alguém batia à porta. Quem poderia ser? O relógio bateu meia hora, depois quatro. Levantei-me, arrastei-me até o quarto e tombei na cama, pesado, como um morto.
No dia seguinte, amanheci com febre. Mandei Vitória telefonar à repartição, levar a roupa suja à lavadeira. Desfiei a gravata da noite anterior e joguei-a no quintal. Cortei as unhas e limpei as mãos feridas. Tudo corria como sempre na rua. Sentei-me à janela fechada e pus-me a espiar o movimento da rua. Desejei ver Seu Ivo. A mulher das garrafas e o homem que enchia dornas trabalhavam. Espiavam-me? Observava a rua pelas gretas da janela. Sentia uma sede horrível, mas não tinha forças para ir até a moringa. As coisas ferviam em minha cabeça. Biqueiras de sapatos apareciam na rua, viriam em direção à minha porta? Fui escovar a calça rasgada e o paletó. Pensava no bacalhau que serviam na prisão. Não precisariam me apertar muito para que eu confessasse. Na prisão, escreveria um livro, seria considerado. A rua agora estava tranquila, mas em outra rua havia lágrimas, desespero e cabelos arrancados. Algumas pancadas na porta. Estava perdido. Arrastei-me até ela, mas era apenas um mendigo, que enxotei irritado. Mendigos canalhas e preguiçosos, safados. Voltei para a mesa. Aguardaria outras pancadas, até que chegasse a polícia. Por que demoravam tanto? Por que me torturavam? Na prisão, escreveria um livro. Como Vitória se demorava! Meu pescoço doía, a cabeça tombou num cochilo. Tinha sede, arrastei-me até a moringa e bebi alguns copos de água. Rumor de carapanãs e tropel de cavalos enchiam-me a cabeça. “Sou uma pessoa muito hábil”, repetia em voz alta. Idiotice. Não passava de um homem que dizia “Perfeitamente” a tudo, toda a vida. Olhei a garrafa de aguardente vazia. Da casa de Seu Ramalho, vinha um rebuliço. Mas eu não tinha nada a ver com aquilo. Vitória voltou, mas isso não importava. Precisava me trancar, enrolar-me nos lençóis, até a febre passar. As telhas dançavam. “Não fui eu”, gritei recuando e tropeçando na cadeira. Um frio agudo percorreu-me a carne. Os braços e as mãos doíam-me. Vitória cortava carne em cima da mesa preta da cozinha. A mesa do necrotério. As minhas mãos em carne viva. “Vitória, vou deitar-me, estou sem fome. Dê a comida a algum maloqueiro. Estou muito doente”.
Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão, longe de tudo. O tempo do dia se via que passava pela réstia de sol que caminhava pelo quarto. À noite, eu escorregava nos silêncios, mergulhava neles, afundava, boiava, tentava me manter à tona. O som de uma vitrola me remetia às cantigas de ninar de minha mãe. De repente, eu via uma lagartixa desprecatando da parede. Lembrava-me de figuras irreconhecíveis curvadas sobre a cama. Um homem sem rosto, sentado na cadeira, falava muito e me incomodava. Certamente eu dizia coisas sem nexo. Caía em um buraco ao pé de uma cerca, descia e subia por ele flutuando entre flores que choviam silenciosamente. Esforçava-me por abrir os olhos. Havia um livro sobre o colchão. Chorava, batia com a cabeça no ferro da cama, minhas mãos compridas e sujas cicatrizavam. Dagoberto, a sentinela do Palácio do Governo, Amaro vaqueiro, cabo José da Luz – todos dançavam à minha frente. Provavelmente Moisés deixara aquele livro sobre o colchão. O cego dos bilhetes de loteria, a mulher da Rua da Lama, o Lobisomem, Antônia, Rosenda. Todos se confundiam. O livro era incompreensível, talvez escrito por um, por vários chineses. A cadeira suja de poeira, a roupa suja de poeira. Queria levantar e vestir-me. Um nome estranho. Quem o havia dito? Fernando Inguitai. Não queria comer, só queria água. Ficava suando e arquejando debaixo das cobertas. O barulho do descaroçador de algodão, da prensa. O corpo morto do meu pai, a batina de Padre Inácio, o capote do velho Acrísio, o vestido vermelho de Rosenda, as carapanãs enchiam-me a cabeça. Onde tinha ouvido aquele nome de Inguitai? Morria de sede. O contínuo velho da repartição, D. Adélia, Albertina de tal. Os caibros engrossavam, havia letreiros velhos e novos. Onde estava a minha roupa? Queria sair pelas ruas, ler jornais, beber cachaça. Seu Ivo viera me visitar. Viera? O homem na sala esperava paciente que me restabelecesse. Tentava levantar-me. Um estremecimento, uma queda. O espírito de Deus boiava sobre as águas. Os caibros retorciam e desciam sobre mim como cobras. A vitrola cantava: “Fernando Inguitai”. Os reisados cantavam defronte à casa de Seu Batista que não abria. O zumbido das carapanãs. “Água, Vitória”. Seu Ivo se acocorava a um canto. Pimentel não aparecia? Os reisados realizavam a função, depois iam arrastar enxada no eito. Quem se chamava Fernando Inguitai? As cascáveis e jararacas do poço da Pedra e aquela que se enroscou no pescoço do meu avô. Ria-me como um idiota. Encontrões na porta do Instituto Histórico e Geográfico. O cego com o cajado gritava o número de loteria: 16.384. Moisés lia alguma coisa. Passavam chineses armados à minha frente. Os ratos do armário roíam o disco da vitrola que dizia baixinho: “Fernando InguitaI”. Moisés lia para mim, bom amigo. Eu dizia coisas sem nexo, arrependia-me. Ele me tomaria por criança. Mas por que esbugalhava os olhos para mim? Moisés levantava-se, mas eu não queria que ele fosse embora. Acabaríamos rompendo. Eu batia os dentes. As paredes estavam cobertas de letreiros de piche, as letras moviam-se. Ameaças de greve, legendas subversivas incontáveis. Algumas como cobras de olhinhos miúdos e chocalhos. A mulher que lavava garrafas e o homem que enchia dornas, a datilógrafa de olhos esverdeados, as filhas do Lobisomem, Antônio, a mulher da Rua da Lama. Um choro longo subia e descia: “Que será de mim? Valha-me Nossa Senhora”. Um moleque torturado pelo senhor do engenho. O cego dos bilhetes: 16.384, Cirilo da Engrácia. Alguém pedindo para afastar a cadeira. O paletó e a calça cor de piche. Um ventre enorme na parede. O dono da bodega, triste. Uma rapariga pintada de vermelho espalhava um cheiro esquisito. Passos na calçada. Quem ia entrar? Quem tinha negócio comigo àquela hora? Vitória devia fechar as portas e despedir o hóspede que estava na sala. Mas Vitória contava moedas. Rosenda, cabo José da Luz, Amaro vaqueiro, o reisado, vagabundo diversos, tudo estava na parede, fazendo um zumbido de carapanãs. José Baía acenava-me de longe, sorrindo, chamando. Começava uma marcha, no que era seguido pela multidão que fervilhava na parede, vinham deitar-se na minha cama. Quitéria, sinhá Terta, o cego dos bilhetes, o contínuo, cangaceiros e vagabundos. Fernando Inguitai vinha deitar-se na minha cama. “José Baía, há que tempo!”. Crianças corriam em torno da barca, acomodavam-se todos. 16.384. Um colchão de paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante e não queria molestar ninguém. Íamos descansar. Um colchão de paina.            
    
IX - ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA:

ROMANCE PSICOLÓGICO:

“ANGÚSTIA” pode ser enquadrado na vertente do chamado “romance de sondagem psicológica”.
Luís da Silva propõe-se a contar sua história realizando uma viagem interior em busca das raízes de sua história e de seus problemas. Seu estado de desorientação psíquica leva-o a construir um autorretrato como mosaico de fragmentos confusos: sua história é contada, embaralhando ideias, criando uma confusão entre a realidade palpável e o mundo da memória e da fantasia, o resultado é um caos cronológico e ideológico que revele bem a inquietação do seu espírito. Um exemplo da narrativa que vem confirmar a propriedade do título é a frequência com que Luís da Silva é assaltado por imagens que lembram afogamento (as brincadeiras com o pai no poço da infância) ou sufocamento (a cascavel enrolada no pescoço do avô, o corpo enforcado do velho da vila, o retrato do cangaceiro morto pelo volante, o moleque sufocado com seus próprios testículos pelo senhor de engenho etc.). Cada vez mais acuada pelo sentimento do ciúme e por um opressivo complexo de inferioridade construído ao longo de sua vida miserável, a consciência do protagonista passa a deformar negativa e progressivamente o mundo à sua volta. Desesperado, ele só enxerga uma maneira de se livrar do estado de angústia que ameaça assustadoramente seu sistema nervoso: matar Julião Tavares. Essa ideia fixa toma conta de sua mente e ele acaba por colocá-la em prática de maneira impulsiva e desorientada.
No entanto, a execução do crime não o livra dos seus fantasmas. Pelo contrário: a realidade não melhora e ele agora precisa lidar com a consciência culpada pelo seu ato. Pode justificar-se apelando para o seu passado sofrido e para o fato do crime ter sido cometido, afinal de contas, por amor. Como José Baía, o cangaceiro que lhe contava histórias na infância, e cuja lembrança o assalta constantemente durante o ápice da sua história, principalmente durante o delírio final, Luís da Silva se revela assassino, sim, mas “bom sujeito”. A violência que suportou ao longo de sua vida marcada pela presença constante da miséria e da morte ele descarrega agora em um momento de descontrole justificado. Enfim, ao fazermos a análise da história de Luís da Silva e de sua personalidade, por meio de sua própria narrativa, vemos emergir uma “psicologia do pessimismo” para explicar o ser humano.

ROMANCE SOCIAL:

Se atentarmos para as causas dos problemas que levam à situação-limite vivida por Luís da Silva, veremos que elas podem ser resumidas à sensação de inferioridade social e ao medo da privação das condições para sobreviver dignamente. O seu passado miserável, a ameaça constante de dívidas a ser pagas ou que podem surgir a qualquer momento, o rancor social por ser “vítima” da decadência de uma família outrora rica e poderosa, tudo isso contribui para que ele se sinta sempre acossado, oprimido.
Julião Tavares, que lhe rouba a namorada graças à condição social privilegiada, aparece como uma encarnação, concretização de todas as opressões sofridas no plano afetivo, psicológico e social. A obsessão por eliminá-lo está, então, justificada. Não é por acaso que o narrador afirma: “Julião Tavares era uma sensação”. A própria concretização da sensação de angústia: um sujeito que incomoda Luís da Silva, que aparece em sua vida sem ser chamado, que a desestrutura por completo. Matá-lo é vingar-se, é descarregar o seu ódio à sociedade, resolver o seu complexo de inferioridade. Daí o crime ser praticado de forma repentina e automática, como uma descarga de recalques e estigmas dos quais era preciso se livrar.
A temática social está presente de outras formas no livro. Basta lembrar a consciência culpada de Luís da Silva por ser um intelectual que veio da miséria e que traí a sua classe vendendo seus artigos para coronéis da política nordestina. Um dos seus dramas íntimos é sentir-se um distanciado do povo, do qual já fez parte um dia. Há também o comunismo palavrório de Moisés que, mesmo defendendo a “arte engajada” em favor da revolução, tem entre seus amigos Pimentel e Luís da Silva, dois intelectuais “vendidos ao sistema”.

DETERMINISMO:

A trajetória de Luís da Silva aparece como resultado de um “determinismo trágico”. Ele nos apresenta o seu crime como resultado de força que o dominaram e o dirigiram para um destino do qual seria impossível escapar.
O determinismo biológico está presente, por exemplo, na sua fixação por Marina: o que sente por ela ultrapassa, desde o início, qualquer racionalidade ou controle. É, na verdade, uma posse. Ao se referir ao seu sentimento de inferioridade social, Luís da Silva lança mão da imagem do seu corpo de cabeça baixa e espinha curva. Para exemplificar a degradação que vai tomando conta do seu ser, equipara-se a bichos (rato, sabiá, ratuína, sururu, coruja); é um animal acuado, desesperado. Como afirmou a crítica Sonia Brayner: “A descrição fenomenológica de uma consciência que beira a anormalidade, emparedada em suas obsessões, retoma a visão determinista do naturalismo agora em um novo espaço, o do inconsciente”.
O uso do determinismo pode ser fruto de um desarranjo psíquico ou bem construída justificativa do narrador para o seu crime. Aliado às imagens que perseguem Luís da Silva (como as de pessoas enforcadas ou sufocadas) e a fatos que não lhe parecem ocorrer por coincidência (como a corda trazida por Seu Ivo de presente), esse determinismo encaminha a narrativa para sua dimensão trágica: o protagonista age automaticamente, arrastado para o crime por forças maiores do que ele (mesmo as vozes do passado parecem incitá-lo a agir, minando suas resistências em se encaminhar à direção ao ato que não quer praticar). Luís da Silva apresenta-se como um “doente da vontade”.
A narrativa vai num crescendo dramático até a morte de Julião Tavares. Afinal, ele merecia, precisava morrer: o crime é uma “missão”, é catarse, purgação, destino: “Acervo genético e ambiente se conjugam numa só força a impeli-lo para a frente, a ponto de nos deixar a impressão de que o homem será a projeção da ideia obsedante; realizá-la, a qualquer custo, eis aí sua missão, e assim o fará, conquanto sacrifique a própria personalidade, aparentemente dessorada de seu conteúdo energético após a prática do ato.” (Massaud Moisés)
E qual a consequência da realização dessa “missão”? “Liberto da energia, que era a motivação dos seus caracteres, Luís da Silva será unicamente a lembrança do que foi e do que fez, não só pela angústia aterradora, mas porque essa se produziu muito intensamente numa camada profunda do seu “eu”, de forma a não lhe restar outra alternativa, senão viver a recordação dos minutos que culminam na apoteótica realização de suas faculdades viris. Sua angústia é quase a consequência do complexo de culpa que o assalta, por sentir o inócuo do esforço praticado. Se culpa tem de alguma cousa, ele se fez o próprio algoz, visto outrem ignorar os motivos remotos de sua consciência na prática do crime inútil. O desespero é mais causado pela sensação de inutilidade experimentada ante o que supunha decisivo para sua vida interior.” (Massaud Moisés)

    


          

       
    





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