sábado, 20 de setembro de 2014

MANOEL DE BARROS: VIDA E OBRAS



“Meu fado é de não entender quase tudo,

Sobre o nada eu tenho profundidades”

I – VIDA:

“...um dos mais doces privilégios dos poetas:
            exercer idiotices.”

MANOEL Wenceslau Leite de BARROS, entortador de palavras, poeta que tem um abridor de amanhecer, nasceu em Cuiabá-MT, em 19 de dezembro de 1916 e mudou-se para Corumbá-MS, onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense.
Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu livremente, em uma fazenda no Pantanal. No derradeiro texto do “Livro das Ignorãças”, 1993, “Retrato falado”, Manoel confessa:

“Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
  Aves, pessoas humildes, árvores e rios.
  Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos.”

Estudou num colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Aluno medíocre que descobriu o prazer pela literatura através dos textos do padre Antônio Vieira:

“A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança. [...] descobri que servia era pra aquilo: ter orgasmo com as palavras”.

Aos dezoito anos, entrou para a Juventude Comunista e escreveu o seu primeiro livro, “Nossa Senhora de minha escuridão”, que embora não fora publicado, salvou-o da prisão. Manoel havia pichado “Viva o Comunismo” numa estátua. A polícia foi buscá-lo na pensão onde morava. A dona da pensão o defendeu, afirmando que o menino era um poeta e que havia até escrito um livro. O policial pediu que provassem, em seguida, levou o rascunho de “Nossa Senhora de minha escuridão” e deixou Manoel livre.
Quando Luiz Carlos Prestes foi libertado, após dez anos de prisão, Manoel esperava uma represália do líder contra o que os jornais comunistas chamavam de “o governo assassino de Getúlio Vargas.”
No entanto, após ouvi-lo apoiando Getúlio, o mesmo Getúlio que entregou sua mulher, Olga Benário, aos nazistas, decepcionou-se profundamente com o Partido.

“(...) Não aguentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal".

Manoel ficou pouco tempo no Pantanal. A ideia de se tornar fazendeiro ou trabalhar num cartório local não o convenciam e o poeta viajou ao exterior. Passou um tempo na Bolívia e no Peru e, depois seguiu para Nova York, onde morou um ano.


Fez curso sobre Cinema e sobre Artes Plásticas no Museu de Arte Moderna. Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh, Braque reforçaram a sua busca de liberdade.
Entendeu então, que “uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva” e sentiu que “os delírios são reais em “Guernica”, de Picasso”.
Sua poesia sofreu, na época, influências de quadros e filmes: Chaplin por sua despreocupação com a linearidade; Fellini; Akira Kurosawa, Luis Buñuel e, entre os mais novos, o americano Jim Jarmusch.
De volta ao Brasil, conheceu a mineira Stella, no Rio de Janeiro e casaram-se em três meses.  Tiveram três filhos, Pedro, João e Marta e, até hoje Manoel a chama de “guia de cego”, pois quando a conheceu, o poeta-advogado estava totalmente desorientado.
Em 1949 retornou para o Pantanal, para tomar conta da fazenda deixada pelo pai.
Manoel de Barros, embora tenha vivido em metrópoles da América e da Europa, a matéria prima de sua obra circunscreve-se ao chão pantaneiro.

II – OBRAS:

Manoel de Barros publicou o seu primeiro livro de poemas em 1937, “Poemas concebidos sem pecado” concebido artesanalmente por vinte amigos, numa tiragem de vinte exemplares e mais um, que ficou com ele.
Depois vieram outros, entre os quais, “Compêndio para uso dos pássaros” (1961), “Gramática expositiva do chão” (1969), “Livro de pré-coisas” (1985), “O guardador de águas” (1989), “Concerto a céu aberto para solos de ave” (1991), “O livro das ignorãças” (1993), “Livro sobre nada” (1996) e “Retrato do artista quando coisa” (1998).
Pelos títulos das obras, o leitor percebe a afinidade entre o poeta e o chão, entre o poeta e a ave, entre o poeta e a natureza, entre o poeta e as coisas, enfim, entre o poeta e ...o nada.
A poesia de Manoel de Barros passou a ser amplamente conhecida a partir da década de oitenta, embora ela já tenha tido o reconhecimento de Mário de Andrade e de Guimarães Rosa desde a década de quarenta, que comparou os textos de Manoel a um “doce de coco”.
Millôr Fernandes postou as poesias de Manoel de Barros, em suas colunas nas revistas “Veja”, “Isto é” e no “Jornal do Brasil”, afirmando que a obra do poeta era “única, inaugural, apogeu do chão.” Enquanto que, o escritor João Antônio declarou que a poesia de Manoel vai além: “tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro.”
Outros fizeram o mesmo, entre eles: Fausto Wolff, Enio Silveira e Rubem Alves. Segundo Geraldo Carneiro: “Viva Manoel violer d’amores violador da última flor do Lácio inculta e bela. Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica”.
Também críticos debruçaram sobre o texto manuelino, como Berta Waldman, Lúcia Castello Branco e Renato Nésio Suttana, que escreveu uma dissertação sobre a “poética do deslimite” de Manoel.
 Manoel de Barros foi também comparado a São Francisco de Assis, pelo filólogo Antônio Houaiss, “na humildade diante das coisas. (...)”
Manoel, o tímido Nequinho, se diz encabulado com os elogios que "agradam seu coração".
Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, em quase a sua totalidade, sob o título de “Gramática expositiva do chão.”
Manoel foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas”, em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”.
Em 1969 recebeu o “Prêmio Fundação Cultural do Distrito Federal”, pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o “Livro sobre nada” recebeu o “Prêmio Nestlé”, de âmbito nacional.
Em 1998 recebeu o “Prêmio Cecília Meireles” (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.
Hoje Manoel de Barros é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil.
O poeta afirma que o anonimato foi “por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem frequentei rodas, nem mandei um bilhete.
Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade, no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje”.
E, conclui que não perdeu o orgulho, mas a timidez parece cada vez mais diluída. Ri de si mesmo e das glórias que não teve.
“Aliás, não tenho mais nada, dei tudo para os filhos. Não sei guiar carro, vivo de mesada, sou um dependente”. [...] Os rios começam a dormir pela orla, vaga-lumes driblam a treva. Meu olho ganhou dejetos, vou nascendo do meu vazio, só narro meus nascimentos.”

OBRAS:
1937 — Poemas concebidos sem pecado
1942 — Face imóvel
1956 — Poesias
1960 — Compêndio para uso dos pássaros
1966 — Gramática expositiva do chão
1974 — Matéria de poesia
1982 — Arranjos para assobio
1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros)
1989 — O guardador das águas
1990 — Poesia quase toda
1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves
1993 — O livro das ignorãças
1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery)
1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes)
1999 — Exercícios de ser criança
2000 — Ensaios fotográficos
2001 — O fazedor de amanhecer
2001 — Poeminhas pescados numa fala de João
2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros)
2003 — Memórias inventadas - A infância (Ilustrações de Martha Barros)
2003 — Cantigas para um passarinho à toa
2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros)


III - CARACTERÍSTICAS


Numa entrevista concedida a José Castello, do jornal “O Estado de São Paulo”, em agosto de 1996, ao ser perguntado sobre qual sua rotina de poeta, respondeu:

“Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo “lugar de ser inútil”. Exploro há sessenta anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc.
Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler “Vozes da Origem”.
Gosto de coisas que começam assim: “Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem”. Está no livro “Vozes da Origem”, da antropóloga Betty Midlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais.
Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.”



 Manoel de Barros conta com uma consistente fortuna crítica, mas o melhor comentário sobre sua poesia é fornecido por “ele próprio”, seja em entrevistas, seja nos versos que escreveu – metapoéticos, “desexplicando” o próprio trabalho literário.
Segundo ele, “ao poeta faz bem desexplicar”, ou melhor, o entendimento de sua poesia não passa pelo crivo cerebral, pois “não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico”. E, num “despoemamento”, sintetiza sua concepção de uma pedagogia para o entendimento poético:

Para entender nós temos dois caminhos: o da sensibilidade que é o entendimento
Do corpo;
E o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender, mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser uma árvore.

A matéria prima da obra de Manoel de Barros é a “desarrumação”. No “Livro sobre nada”, ele escreve:

“A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto
  Que ela expresse nossos mais fundos desejos.”

Assim como o espaço do Pantanal é semovente, primitivo, fluído, em permanente decomposição e renovação, a poética de Manoel de Barros é uma decomposição lírica,
 estruturada por uma escritura fervilhante, vital, em que morte e vida pulsam, pululam, ululam e silenciam elementos do mundo vegetal, animal e mineral, como se lê no “Livro das Ignorãças”:

Para entrar em estado de árvore é preciso
Partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer
Em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
O mato sair na voz

Hoje eu desenho o cheiro das árvores. (I-IX)

Adoecer de nós a Natureza
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin). (I-XI)

Renato Nésio Suttana, analisando a obra do poeta, estabelece que, em sua “desarrumação”, ocorrem as noções entrelaçadas de repouso e mobilidade, promiscuidade e fecundidade, intransitividade e gratuidade.
Seus poemas são realizados através da técnica da colagem, “que impede que o texto se organize de modo discursivo, desestabilizando conexões do tipo lógico”. Assim, termos como “desvio”, “desarranjo”, “erro”, associados a elementos da semântica do “ínfimo”, do “restolho”, do “insignificante”, facilitam a inserção do leitor no mundo poético manoelino, com suas personagens fantásticas, como Felisdônio, Ignácio Rayzama, Rogaciano, Apuleio, Bernardo e Andaleço, bugres que andam em desvios, como o poeta escreve, desviando da trilha do senso comum.

Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
Estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
E os araticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma. (III-VI)

Mário de Andrade já dizia que “só pode errar quem conhece o certo”. Manoel de Barros, grande conhecedor da língua portuguesa, entende que a poesia mora nas transgressões semânticas e sintáticas:

1. Usa símiles surpreendentes.

Meu ser se abre como um lábio para moscas. (II-1.7)

2. Recorre a paradoxos.

Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios. (I-1)

3. Propõe conceitos poéticos em que o tempo se alucina na relação entre flora e fauna.

No Tratado das Grandezas do ínfimo estava
Escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
E quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
E quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras. (I-IV)

4. Intertextualidade com gênios da pintura, divinizando natureza e arte.

Um girassol se apropriou de Deus foi em
Van Gogh. (I-VIII)

5. A metalinguagem será um expediente constante, relacionando “criança”, “poeta” e “delírio”.

A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
Verbo, ele delira. (I-VII)

6. A metapoesia convoca lírios para as figuras de linguagem.

Dobravam-se lírios para os meus tropos. (III-XIII)

7. A poética do defeito relaciona vegetal e animal.

Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode
Modificar os seus gorjeios. (I-XII)

8. A concretização do abstrato bem como a proximidade entre o “sublime” e o “grotesco” lembram o Barroco.

Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o
Abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de
Um primal deixe um termo erudito. Aplique na
Aridez intumescências. Encoste um cago ao
Sublime. E no solene um pênis sujo. (I-XV)

9. A “volúpia” com a palavra, com as imagens, erotiza a poética manoelina.

Entra um chamejamento de luxúria em mim:
Ela há de se deitar sobre meu corpo em toda
A espessura de sua boca! (I-XVI)

(...) Sonhava-se muito com pererecas e com mulheres. (III-X)

10. A arte de “desnomear” cria inesperados efeitos semânticos.

Rede era vasilha de dormir. (III-III)

Me mantimento de ventos. (II-3.5)

11. A enumeração caótica reúne objetos díspares, de configuração surrealista. Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade.
Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo.

Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios – e
1 esticador de horizontes. (III-XI)

Extremamente sensorialista, os sentidos estão sempre convocados, muitas vezes misturados.

Conheço de palma os dementes de rio. (III-II)

(...) Era uma voz pequena e azul. (III-IV)

Diviso ao longe um ombro de barranco. (II-3.6)

Um perfume vermelho me pensou. (II-3.5)

  




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