sábado, 12 de outubro de 2013

MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR, OSWALD DE ANDRADE


“o primeiro cadinho de nossa prosa nova”

                                                                                               Oswald de Andrade

   Segundo romance publicado pelo autor, “Memórias sentimentais de João Miramar” é considerado um marco na prosa modernista brasileira.
   Redigido entre 1916 a 1923, publicado em 1924 é dedicado a Paulo Prado e Tarsila do Amaral e com capa desta última, inaugurando o que ficou estabelecido como “estética do fragmentário”, pela impossibilidade de uma leitura tradicional e linear da história.
   Estruturado em 163 episódios-fragmentos (capítulos-instantes, capítulos-relâmpagos, capítulos-sensações) numerados, tem por personagem principal João Miramar, pseudônimo com o qual Oswald assinava suas colaborações nos diários de sua garçonière.
    O crítico Antonio Cândido apresenta-nos uma síntese da obra: “Memórias sentimentais de João Miramar, sobre ser um dos maiores livros da nossa literatura, é uma tentativa seríssima de estilo e narrativa, ao mesmo tempo que um primeiro esboço de sátira social. A burguesia endinheirada roda pelo mundo o seu vazio, as suas convenções, numa esterilidade apavorante. Miramar é um humorista pince sans rire, que procura kodakar a vida imperturbavelmente por meio de uma linguagem sintética e fulgurante, cheia de soldas arrojadas, de uma concisão lapidar”,
   Utilizando de uma técnica inovadora de composição: estilo telegráfico, metáfora lancinante, eliminação das regras de pontuação, neologismos, galicismo, paródia, sátira social, “palavras em liberdade”, simultaneísmo, imagística sonoro-visual, monólogo interior, técnica cinematográfica etc, o autor mescla prosa, poesia, piadas, cartas, diários, trechos de crônicas jornalísticas, amalgamado à ficção.
   O que importava ao Oswald leitor dos futurista e profundamente afetado pela técnica do cinema era a colagem rápida de signos, os processos diretos, “sem comparações de apoio”, BOSI, Alfredo.


   A “história” começa na infância do protagonista, percebida pela linguagem infantil utilizada nos primeiros capítulos.

1.     O Pensieroso

Jardim desencanto
O dever e procissões com pálios
E cônegos
Lá fora
E um circo vago e sem mistério
Urbanos apitando nas noites cheias
Mamãe chamava-me e conduzia-me para dentro do oratório de mãos grudadas.
- O Anjo do Senhor anunciou à Maria que estava para ser a mãe de Deus.
Vacilava o morrão do azeite bojudo em cima do copo. Um manequim esquecido vermelhava.
- Senhor convosco, bendita sois entre as mulheres, as mulheres não têm pernas, são como o manequim de mamãe até embaixo. Para que pernas nas mulheres, amém.

Notamos já de início dados autobiográficos nesse primeiro flash: a infância, o aconchego familiar; a religiosidade materna que obrigava Oswald a constantes orações diárias; a descoberta do circo, fatos marcantes em sua memória, que irão acompanhá-lo em sua ironia, humor, paródia, como carnavalização da vida, levando o autor sentir-se “um palhaço da burguesia”; a dialética entre o patriarcalismo agrário e o início da tecnologia urbana, que o autor vivenciou em sua infância e o temor a Deus versus o erotismo já latente.

4. Gatunos de crianças

O circo era um balão aceso com música e pastéis na entrada.
E funâmbulos cavalos palhaços desfiaram desarticulações risadas para meu trono de pau com gente em redor.
Gostei muito da terra da Goiabada e tive inveja da vontade de ser roubado pelos ciganos.

A ideia do circo como expressão de liberdade, de vida, de luzes e alegria.
A sensação de sentir-se rei (“trono de pau”) demonstra a euforia da personagem em rebelar-se ao convencionalismo, às regras, às determinações consideradas “civilizadas” e fruir para o imediato, o novo, o anárquico.
Oswald de Andrade em seu livro de memórias afirma: “Como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades. Como poucos, eu amei a palavra Liberdade e por ela briguei.”

8. Fraque do Ateu

Saí de D. Matilde porque marmanjo não podia continuar na classe com meninas.
Matricularam-me na escola modelo das tiras de quadros nas paredes alvas escadarias e um cheiro de limpeza.
Professora magrinha e recreio alegra começou a aula da tarde um bigode de arame espetado no grande professor Seu Carvalho.
No silêncio tique-taque da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza.
Nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno.

Na sequência dos episódios, o protagonista atinge sua fase escolar e é primeiramente matriculado em uma escola mista, a de D. Matilde (episódio 5) e em seguida (episódio 8), tem uma breve passagem na “escola modelo.”
Oswald frequentou a Escola Modelo Caetano de Campos e foi transferido para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo após o comentário de um professor, que: “Deus é a natureza”. Os pais chocados com tal heresia, o transferiram imediatamente.
Adolescente, João Miramar demonstra inclinações à boêmia, aventuras, viagens e a uma vida desregrada.

29. Manhã no Rio

O furo do ambiente calmo da cabina cosmoramava pedaços de distância no litoral.
O Pão de Açúcar era um teorema geométrico.
Passageiros tombadilhavam o êxtase oficial da cidade encravada de crateras.
O Marta ia corta a Ilha Fiscal porque era um cromo branco mas piratas atracaram-no para carga e descarga.

Miramar narra a sua primeira viagem à Europa, a bordo do navio Marta.
Importante retomarmos a biografia do autor: em fevereiro de 1912, aos 22 anos de idade, Oswald embarca pela primeira vez à Europa, no navio Martha Washington.
A partir desde fragmento, o romance adquiriu uma espécie de Diário de Viagem (Crônicas de navegações).
Nos capítulos seguintes, encontramos descrições sobre cidades, paisagens, roteiros de viagens enfatizando a urbanização e cosmopolização das grandes cidades.

32. Rolah

Uma bola de vidrilhos rodava atrás de uma cabeça loura.
A bola dava gritos e chamava-se Madama Rocambola.
Entravam às oito infalíveis horas fazer na sala do pequeno almoço proveitosa degustação. E Rolah trazia ao meu céu de cinema um destino invencível de letra de câmbio.

33. Veleiro

A tarda tardava, estendia-se nas cadeiras, ocultava-se no tombadilho quieto, cucava té uma escala de piano acordar o navio.
Madama Rocambola mulatava um maxixe no dancing do mar.
Esquecia-me olhando o céu e a estrela diurna que vinha me contar salgada do banho como estudara num colégio interno. Recordava-me dos noivados dormitórios das primas.
Uma tarde beijei-a na língua.

Nesses episódios deparamos com a revelação do amor. O despertar dos sentimentos provocados por Madama Rocambola mudará o rumo dos objetivos do protagonista.
A moça “mulatava um maxixe no dancing do mar”, faz alusão a seu dom de atriz e bailarina, como também, à sua expressão corporal, o sensualismo.
Interessante lembrar que na viagem de Oswald rumo à Europa (1912), o autor conheceu e apaixonou-se  por Landa Kosbach (Carmen Lídia), bailarina de onze anos de idade que viajava com a avó para estudar dança na Europa.
Mais tarde, Landa e sua avó, ao regressarem ao Brasil, serão hóspedes na casa de Oswald e Kamiá, ocasionando brigas ciumentas entre o casal, que culminou em separação.

41. Vaticano

Raffaello Sanzio d’Urbino
Ventania
Muitos lençóis
E rabanadas esportivas de profetas
Bento que Bento
Frades no Pincio
Na boca do forno
Fornarina
- Faremos todos com muito desgosto o que seu mestre mandar.
- Cada qual pinte assim que nem Raffaello.
E a ventania pegou nos Berninis empetecados para o assombro educado das manadas Cook.
- It is very beautiful!
Mas São Francisco não acreditaria nas transfigurações bem desenhadas.

47. Soho Square

Picadilly fazia fluxo e refluxo de chapéus altos e corredores ingleses duros para música e talheres de portas móveis e portas imóveis.
Elevadores klaxons cabs tubes caíam de avião na plataforma preta de Trafalgar.
Mas nosso quarteirão agora grupava nas calçadas casquettes heterogêneas penetrando sem nariz no whisky dos bars.
Bicicletas levantavam coxas velhas de girls para napolitanos vindos da Austrália. E Isadora Duncan helenizava operetas no Hipódromo.

A viagem é interrompida pela doença da mãe, trazendo o protagonista de volta ao Brasil.

56. Órfão

O céu jogava tinas de água sobre o noturno que me devolvia a São Paulo.
O comboio brecou lento para as ruas molhadas, furou a gare suntuosa e me jogou nos óculos menineiros de um grupo negro.
Sentaram-me num automóvel de pêsames.
Longo soluço empurrou o corredor conhecido contra o peito magro de tia Gabriela no ritmo de luto que vestia a casa.

Oswald de Andrade viajava quando recebeu a notícia da enfermidade de sua mãe. Retornou a São Paulo, porém não a tempo de encontrá-la viva. Sobre esse episódio, o autor declarou: “Estava tudo acabado. Fechava-se brutalmente o ciclo maravilhoso que, desde a primeira infância, defendiam os braços pequenos e gordos da fada de minhas noites e dias. Haviam-se fechado os olhos azuis para cuja aflita vigilância tinham-se aberto os meus.”

57. Hinterland.

A Estação da Luz estacou na quinta manhã com embarques esportivos para disputas foot-bolares de cores vivas nos estádios.
Matutos matutinos pullmavam civilizações.
E meus olhos morenos procuravam almoçar os olhos de prima Célia. A laparotomia da adolescência cortara-lhe rentes bochechas com próteses minúsculas de seios e maneiras de caça presa com cachos.
O mato despencava hangars viários e aleguais na linha.

60. Namoro

Vinham motivos como gafanhotos para eu e Célia comermos amoras em moitas de bocas.
Requeijões fartavam mesas de sequilhos.
Destinos calmos como vacas quietavam nos campos de sol parado. A vida ia lenta como poentes e queimadas.
Um matinal arranjo desenvolto de ligas morenava coxas e cachos.

Nesse episódio conhecemos a mulher (prima Célia) com qual Miramar irá casar-se.

62. Comprometimento

O Ford levou-nos para igreja e notário entre matos derrubados e a vasta promessa das primeiras culturas.
Jogaram-nos flores com bênçãos e sinos tilintintaram.
A lua substituiu o sol na guarita do mundo mas o dia continuou tendo havido entre nós apenas uma separação precavida de bens.

Miramar casa-se com sua prima Célia, filha da tia Gabriela.
Tia Gabriela e suas primas Cotita e Nair, viajam à Europa ao encontro de Pantico, que está num colégio interno.
Miramar conhece o ilustre escritor Machado Penumbra e o poeta Sr. Fíleas que irão engrossar suas reuniões culturais ao lado de sua esposa e o médico Dr. Pepe Esborracha.
Chegam notícias sobre a família em Paris: o desfrute da companhia do Sr. José Chelinini, os lugares visitados e a saída de Pantico do colégio.

75. Natal

Minha sogra ficou avô.

Em seguida somos informados que nasceu Celiazinha.
Carta enviada por Nair a Célia, informando que a irmã Cotita, dedicou uma foto sua ao Sr. José Chelinini com os seguintes dizeres: “Se não for sua, serei de Deus!”
Acrescenta que essa vulgaridade é devida ao cinema, muito em moda na época.

82. Tática

Os jornais noticiaram de repente que acossada pela conflagração achava-se em Pernambuco a bordo do Darro a jovem estrela cinematográfica Mlle. Rolah.
Até ontem a ala esquerda dos aliados fazia recuarem quase que desordenadamente as tropas invasoras numa distância de 70 quilômetros enquanto Joffre Rolah e a ala direita formavam ângulo em Verdun com as tropas de leste cobrindo-as assim contra um envolvimento do Darro

A volta de Mlle. Rolah ao Brasil, a guerra e o casamento de D. Gabriela com o Conde José Chelinini mudarão os rumos da vida do herói.

95. Promessa Pelada  

Agora todas as manhãs, eu surgia esperá-la na sala de visitas.
Ela demorava-se mas descia rápida e atirava-se contra minha boca sensual e medrosa.
Falávamos alto para disfarçar. Ela corria os dedos pelo teclado fazendo ressoar uma escala vadia pela casa.
Uma vez olhou-me muito, deixou o tamborete e num gesto esbelto descobriu-se toda levando até os ombros o ligeiro roupão em que se envolvia.
E branca e nua dos pequenos seios em relevo às coxas cerradas sobre a floração fulva do sexo, permaneceu numa postura inocente de oferenda.
Miramar passa a ter uma relação adúltera com Mlle. Rolah. Transfere a amante e sua mãe para Santos e afasta-se de sua esposa e filha.

100. Rabo-Levas

“Joãozinho
Depois que tu partistes a Celiazinha estava um pouco abatida, caiu doente com resfriado. Há seis dias que o Dr. Pepe Esborracha vem vê-la todos os dias no Ford de Pindobaville. Felizmente já sarou porque os remédios foram muito acertados. Ele é muito bom médico.
Por conselho do Dr. Pepe Esborracha, mandei aviar as receitas na cidade por confiar mais na farmácia do Furquim boticário.
Por aqui, nos Bambus, sempre o mesmo.
Não se esqueça de me trazer novos romances. Já acabei de ler o Primo Basílio que muito me fez chorar. O Dr. Pepe Esborracha emprestou-me Les civilisés e prometeu trazer outros livros quando ele vier. Veja se achas na livraria Garraux a Arte de Bem Escrever do Padre Albalat e La garçonne que dizem que é muito bonito e são as últimas novidades de Paris.
Não se esqueça de todas as minhas outras encomendas e traga também um par de sapatos de lona branca para Celiazinha. Vai a medida do pé. Temos tido muito calor nestes dias. Por que é que não me escreves? Veja se vem logo. Abraça-te e beija-te,

                                                                                   Tua Célia”.

Miramar na época tornara-se sócio de uma “Grande Empresa” cinematográfica e tinha aplicado grande parte de sua herança. Célia conheça a reclamar das ausências do marido, sempre em Santos...e das despesas que a Grande Empresa estava custando.

129. Ato III. Cena 1

Na preguiça solar da mesma sala grande onde fôramos felizes casais, Célia e a cadeira de balanço choravam como um tango.
- Já viu sua filha como está grandinha?
- Já.
- Nem se importa mais com ela. Ela teve sarampo e gripe. Quase ficou com o olho torto. (Um silêncio cheio de moscas.) Diga a verdade! Recebi uma carta anônima contanto tudo. Não há nada mais triste do que ser enganada. Você está apaixonado por essa atriz, Joãozinho! Conte tudo. Acho você envelhecido, preocupado, com cara de viciado, Joãozinho!

Os episódios seguintes retratam as festas populares de carnaval, os bailes, as fantasias e os piores tempos de Miramar: sua falência, o divórcio e o abandono de sua amada.

143. Mobilização

Higienópolis encheu-se às cornetadas da falência e desonra. Meu folhetim foi distribuído grátis a amigos e criados. E a tia Gabriela sogra granadeira grasnou graves grosas de infâmias.
Entrava doméstico para comer e dormir longe de Célia. Os criados eram garçons de restaurante.

144. Groggy

Mas três contos de réis de resto da última reforma conciliada entraram em Perdizes no entardecido roxo.
A sala antiga de papel antigo e piano parara uma cantiga antiga.
O falsete empapuçado de Madama Rocambola remexeu uma bolsa suja e apresentou-me um trecho de papel. Era o amarrotado fora definitivo de Rolah, a cheia de gigolôs.
- Ela bem dizia que o Sr. nunca que acabava de dar os cinquenta contos.

Seguem as mortes de Britinho, emboscado no sertão, de D. Gabriela e de Célia, e o casamento de Nair com o filho do gigante Bretas do Rio.

156. Batem sinos por D. Célia

“Faleceu anteontem, na fazenda dos Bambus, comarca de Pindobaville, na juvenil idade de 28 anos, sucumbido a uma terrível pneumonia, a Exma. Sra. D. Célia Cornélia da Cunha.
A extinta que era filha do saudoso paulista Coronel Belarmino Elesbão Arruda da Cunha e da falecida Sra. Condessa Gabriela Chelinini, foi sempre figura de relevo na nossa sociedade e primava por seus dotes de espírito e coração, sendo muito estimada no largo círculo de suas relações.
Era cunhada do distinto capitalista carioca Sr. Carlos Bretas, irmã do Sr. José Elesbão da Cunha, comerciante em Antuérpia, das Sras. D.Nair da Cunha Bretas e D.Maria dos Anjos da Cunha Meireles e prima do nosso eloqüente confrade e ilustre geógrafo, Dr. Pôncio Pilatos da Glória.
Foram baldados todos os recursos da ciência médica para salvá-la.
Pêsames à distinta família enlutada.”

Miramar busca a sua filha Celiazinha, agora milionária e passam a viver juntos em São Paulo, na Praça do Arouche.
A obra termina com o amadurecimento de Miramar que, retrospectivamente, redige as Memórias que o leitor está lendo.

Análise crítica:

O prefácio da obra, na verdade um pseudoprefácio,  intitulado “À Guisa de Prefácio” e assinado por Machado Penumbra, “faz a apresentação do livro em estilo empolado e arrebicado, recheado de clichês acadêmicos, num contraste gritante com o estilo do próprio autor, João Miramar-Oswald.”
“Torna-se lógico que o estilo dos escritores acompanhe a evolução emocional dos surtos humanos. Se no meu foro interior um velho sentimentalismo racial vibra ainda nas doces cordas alexandrinas de Bilac e Vicente de Carvalho, não posso deixar de reconhecer o direito sagrado das inovações, mesmo quando elas ameaçam nas suas mãos hercúleas o ouro argamassado pela idade parnasiana. VAE VICTIS!”
“Esperemos com calma os frutos dessa nova revolução que nos apresenta pela primeira vez o estilo telegráfico e a metáfora lancinante.”
“O fato é que o trabalho de plasma de uma língua modernista, nascida da mistura do português com as contribuições das outras línguas imigradas entre nós e contudo tendendo paradoxalmente para uma construção de simplicidade latina, não deixa de ser interessante e original. A uma coisa apenas oponho legítimos embargos – é a violação das regras comuns da pontuação. Isso resulta em lamentáveis confusões, apesar de, sem dúvida, fazer sentir “a grande forma da frase”.

Nesses fragmentos do prefácio de Machado Penumbra já podemos notar as intenções da obra: uma paródia linguística e estilística; “mostrar  artificialismo de uma linguagem anacrônica”( São Paulo de 1912, época em que se passa o Miramar, era uma província, o que não retira a atualidade da sátira, pois até hoje, a linguagem culta-acadêmica é vista como forma de status e intelectualidade) através episódios que assemelham-se mais a sequência de um filme do que a capítulos de romance.
Além da paródia, Miramar apresenta uma crítica social, ao pedantismo de uma burguesia endinheirada que circulava pelos salões literários, cafés e livrarias nas ruas de São Paulo. De característica acaciana, os personagens de Miramar são movidos “dentro de um mesmo círculo vicioso de alienação”.
“Memórias sentimentais de João Miramar” é uma sátira social que mistura vários estilos e uma forte crítica à sociedade, fazendo dessa obra um grito de vanguarda.
Oswald em viagem à Europa (1912) empolgou-se com o Futurismo de Marinetti.
O Manifesto” anunciava as “palavras em liberdade”, a “destruição da sintaxe”, a “imaginação sem fios”, a demolição de “museus e bibliotecas” etc, e no prefácio de Miramar, Machado Penumbra afirma que: “Há além disso, nesse livro novo, um sério trabalho em torno da “volta ao material” – tendência muito de nossa época como se pode ver no Salão de Outono em Paris”, referindo-se a primeira exposição coletiva dos pintores cubistas (1911), ao simultaneísmo (apresentação de fragmentos justapostos da realidade, numa tentativa de captá-la na sua totalidade; a ênfase no estilo fragmentário e sintético do texto; a imagística sonoro-visual; as descrições em linha geométrica e o cubo-futurismo plástico-estilístico dos trechos da obra.
Haroldo de Campos, Metalinguagem (“Estilística Miramarina”), Editora Vozes, Petrópolis, 1967, apresenta duas fases da evolução modernista de Oswald nas artes visuais:”1º., a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Mallarmé, Rodin e Debussy até agora; 2º., o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva”...”O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa”...”Substituir a perspectiva visual e naturalista, por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua”...”Nossa época anuncia a volta ao sentido puro. Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz”...”Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres”.


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