quinta-feira, 18 de julho de 2013

DESMUNDO, ALAIN FRESNOT


“DESMUNDO”, 2003, filme de Alain Fresnot é surpreendente pelo modo e pela forma que se apresenta ao espectador. Esteticamente comovente, é plasticamente belo e agressivo; envolvente e rude ao extremo. Trata-se de um recorte histórico de um Brasil de 1570, mostrado de uma maneira como nunca foi mostrado: ficcional e verossímil, beirando ao épico e com traços intimistas desmascarando a mentalidade brasileira do século XVI.  
   A fábula tem como fio de prumo a história de algumas órfãs, enviadas pela Rainha de Portugal, com o objetivo de desposarem os primeiros colonizadores. A partir desse núcleo, Alain Fresnot inseriu um realismo grandioso através da plasticidade das imagens e do fluxo da memória, respeitando a diversidade linguística quinhentista: o hebraico, o nagô e o tupi explorados com naturalidade.

   O filme nascido do livro homônimo de Ana Miranda, lançado em 1996, pela editora Companhia das Letras, é um contraste de gênero até então explorado por Fresnot.
   O diretor manteve o tom antigo do texto de Ana Miranda, transformando os diálogos em 30 páginas de português arcaico fornecido pelo professor de linguística da USP Helder Ferreira sob a supervisão de Heitor Megale.

   “O argumento trabalhava a dualidade entre ser íntimo, pequeno, e ao mesmo tempo um fiel espelho do século XVI, de início da colonização. Isto me interessou de cara. [...] Depois de minhas duas comédias (“Lua Cheia”, 1989 e “Ed Mort”, 1997) em que trabalhei com personagens-funções, estava enjoado. Queria personagens que levassem a ação dramática”, afirma Fresnot.

   O filme retrata o Brasil em seu passado português: as explorações e os massacres indígenas pelos jesuítas; a preocupação em garantir a pureza racial dos descendentes de portugueses e a moralidade local; o despudor religioso dos nativos ou seu canibalismo; os maus hábitos nativos; a grosseria dos gestos locais e a sujeira das cabanas.
   O enredo centraliza-se em Oribella, uma portuguesa de treze anos, órfã que vem ao Brasil por imposição e se casa com Francisco Albuquerque, homem rude e grosseiro. Afastada de sua terra natal, de seus sonhos, de sua religiosidade, de seus costumes, a protagonista se choca com a realidade nua e crua apresentada pela nova terra. Fundindo o tempo cronológico e o psicológico dessa adolescente, o filme recupera o significado de ser mulher e o livre arbítrio de decidir a sua vida.
   A narrativa é parcial, a trama se desenrola a partir do ponto de vista de Oribella. Sua travessia é de horror, sofrimento e de intimidade.   Sua luta é individual e subjetiva, centraliza em seu “eu”, na “não aceitação” do seu destino e na luta por sua liberdade. Consciente de sua função como mulher nessa terra selvagem, a personagem se rebela contra o que lhe é imposto, tentando manter a sua dignidade, dividida entre o seu sonho (Portugal - utópico e espiritual, embora não lhe oferecesse muito), versus a sua realidade (Brasil - real e carnal, a nova terra que havia roubado o que ela tinha de mais precioso: o seu passado).
   Durante sua trajetória, Oribella defrontará com pessoas estranhas e repugnantes. Além de seu marido que terá que se submeter sexualmente; uma cunhada doente; uma sogra que se assemelha a uma bruxa e uma índia que a alimenta, mas não conseguem se comunicar. Sua única saída é fugir daquele “inferno” e em uma de suas fugas Oribella encontra proteção e amor em um cristão-novo, Ximeno.
  A direção de arte do filme foi assinada por Adrian Cooper, que ficou com a tarefa de recriar uma vila inteira (casas, comércios, igreja, ruas lamacentas), o que não foi uma tarefa fácil, visto que são poucas as fontes de pesquisa e as imagens que retratavam o Brasil daquela época, voltam-se com exclusividade aos temas religiosos.
   Os métodos para construção do cenário, figurinos e do espaço interno doméstico contou com a ajuda de uma pesquisadora portuguesa que tinha acesso ao arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa.
  
   


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