sábado, 2 de março de 2013

CAPITÃES DA AREIA, JORGE AMADO: AUTOR E ESTRUTURA DA OBRA


Por que Jorge é amado?

Suas esplêndidas histórias retratam de maneira comovente o nosso país e o nosso povo, com uma universalidade capaz de encantar leitores de todo o mundo. (Rubem Fonseca)

Em Jorge, a arte de fazer-se amar era espontânea, nunca premeditada. (José Saramago)

Jorge é um dos inventores do povo brasileiro. (Caetano Veloso)

Jorge ama e nos leva a amar suas personagens. (Chico Buarque)

I – AUTOR:

   Filho de João Amado de Faria e de D. Eulália Leal, Jorge Amado de Faria nasceu no dia 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna - Bahia. Com apenas dez meses, vê seu pai ser ferido numa tocaia dentro de sua própria fazenda. No ano seguinte uma epidemia de varíola obriga a família a deixar a fazenda e se estabelecer em Ilhéus. Em 1917 a família muda-se para a Fazenda Taranga, em Itajuípe, onde seu pai volta à lida na lavoura de cacau.
   Em 1918, já alfabetizado por sua mãe, Jorge retorna a Ilhéus e passa a frequentar a escola de D. Guilhermina. No ano de 1922 cria um jornalzinho, "A Luneta", que é distribuído para vizinhos e parentes. Nessa época vai estudar em Salvador, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. Dois anos depois, seu pai vai levá-lo até o colégio após as férias. Despedem-se e Jorge, ao invés de entrar nele, foge. Viaja por dois meses até chegar à casa de seu avô paterno, José Amado, em Itaporanga, no Sergipe. É matriculado no Ginásio Ipiranga, novamente como interno. Conhece Adonias Filho e dirige o jornal do grêmio da escola, "A Pátria".     Pouco tempo depois funda "A Folha", que fazia oposição ao primeiro. No ano de 1927, passa para o regime de externato e vai morar num casarão no Pelourinho. Emprega-se como repórter policial no "Diário da Bahia". Pouco depois vai para o jornal "O Imparcial". Uma poesia de sua autoria, "Poema ou prosa", é publicada na revista "A Luva". Conhece o pai-de-santo Procópio, que o nomeará Ogã (protetor), o primeiro de seus muitos títulos no candomblé.
   Reúnem-se em torno do experimentado jornalista e poeta Pinheiro da Veiga os integrantes da Academia dos Rebeldes. A Academia fazia oposição ao grupo Arco & Flecha e pregava, no dizer de Jorge Amado, "uma arte moderna sem ser modernista". Os trabalhos de seus integrantes são publicados nas revistas, "Meridiano" e "O Momento", ambas fundadas por eles.
   Em 1929, começa a trabalhar em “O Jornal” onde publica, sob o pseudônimo de Y. Karl, a novela "Lenita", escrita em parceria com Dias da Costa e Edison Carneiro, que assinavam como Glauter Duval e Juan Pablo.
   No ano seguinte transfere-se para o Rio de Janeiro para estudar. Conhece Vinicius de Moraes, Otávio de Faria e outros nomes importantes da literatura. "Lenita" é editada em livro por A. Coelho Branco Filho, do Rio de Janeiro.
   Aprovado, entre os primeiros colocados, na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, em 1931, Jorge vê publicado pela  Editora Schmidt seu primeiro romance, "O país do carnaval", com prefácio de Augusto Frederico Schmidt e tiragem de mil exemplares. O livro recebe elogios dos críticos e torna-se um sucesso de público.
   No ano de 1932, conhece José Américo de Almeida, Amando Fontes, Rachel de Queiroz (através de quem se aproxima dos comunistas) e Gilberto Freyre. Sai a segunda edição de "O país do carnaval". Aconselhado por Otávio de Faria e Gastão Cruls, desiste de publicar o romance "Rui Barbosa nº. 2"; para eles, o livro não passava de uma cópia de "O país do carnaval". Viaja para Pirangi, na Bahia; impressionado com a vida dos trabalhadores da região, começa a escrever "Cacau". A Ariel Editora, do Rio, em 1933, publica "Cacau".
   Jorge tem acesso, através de José Américo de Almeida, aos originais de "Caetés", romance de Graciliano Ramos. Empolgado com o talento do escritor alagoano, viaja para Maceió só para conhecê-lo, iniciando uma amizade que duraria até a morte de Graciliano. Conhece também José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Torna-se redator ­chefe da revista "Rio Magazine". Casa-se em dezembro, em Estância, Sergipe, com Matilde Garcia Rosa. Juntos, eles lançam, pela Schmidt, o livro infantil “Descoberta do mundo”.
   Em 1934, publica — também pela Ariel — o romance "Suor".
   Escreve em "A Manhã", jornal da Aliança Nacional Libertadora, pelo qual cobre a viagem do presidente Getúlio Vargas ao Uruguai e à Argentina. "Cacau" é publicado pela Editorial Claridad, de Buenos Aires. Neste mesmo ano "Cacau" e "Suor" seriam lançados em Moscou. Conclui o curso de Direito. Lança "Jubiabá" pela José Olympio Editora. 
   Sofre sua primeira prisão em 1936, por motivos políticos: acusado de participar do levante ocorrido em novembro do ano anterior em Natal — chamado de "Intentona Comunista” — é detido no Rio. Publica “Mar morto”, que recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras.
  Jorge Amado termina de escrever Capitães da Areia a bordo de um navio a caminho do México, durante uma viagem pela América Latina e pelos Estados Unidos. Enquanto isso, no Brasil, Getúlio Vargas instituía o Estado Novo. Na volta ao país, em novembro de 1937, o escritor foi preso novamente, agora em Manaus pela polícia do novo regime.   
   Seus livros, considerados subversivos, são queimados em plena Salvador por determinação da Sexta Região Militar. Segundo as atas militares, foram queimados 1.694 exemplares de "O país do carnaval", "Cacau", "Suor", "Jubiabá", "Mar morto" e "Capitães da areia".
   Liberto, em 1938, o escritor é mandado para o Rio. Muda-se para São Paulo, onde reside com Rubem Braga. Depois vai para a Bahia e em seguida, Sergipe; onde imprime uma pequena edição do livro de poemas “A estrada do mar”, que distribui para os amigos. Retorna ao Rio no ano de 1939. Exerce intensa atividade política, em decorrência das torturas de presos e a desarticulação do Partido Comunista. Torna-se redator-chefe das revistas Dom Casmurro e Diretrizes. Inicia colaboração com a revista Vamos ler; que manterá até 1941. Compõe, com Dorival Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata "Beijos pela noite".  Diretrizes publica o primeiro capítulo de "ABC de Castro Alves", em 1940, e edita também, em forma de folhetim, a novela "Brandão entre o mar e o amor", iniciada por Jorge Amado e continuada por José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. Trabalha no jornal Meio-Dia.
   Publica em Buenos Aires "A vida de Luís Carlos Prestes", em 1942. Embora editado em espanhol, o livro é vendido clandestinamente no Brasil. Volta ao país, mas é preso ao desembarcar em Porto Alegre. De lá é enviado para o Rio. Não permanece, porém, na então capital federal: a polícia decide despachá-lo para Salvador, onde fica confinado.
   O ano de 1943 é o marco de sua volta às páginas de O Imparcial assinando a seção "Hora da guerra" e escrevendo pequenas histórias na coluna "José, o ingênuo", que reveza com o jornalista e escritor baiano Wilson Lins. Sai "Terras do sem fim", seu primeiro livro a ser vendido livremente após seis anos de censura.
   Em 1944, a pedido de Bibi Ferreira escreve a peça "O amor de Castro Alves", mas a companhia teatral da atriz é desfeita antes da encenação. Lança "São Jorge dos Ilhéus". Desquita-se de Matilde.
   Participa, em janeiro de 1945, na condição de chefe da delegação baiana, do I Congresso de Escritores, em São Paulo. O encontro termina com uma manifestação contra o Estado Novo. Jorge é preso por um breve período juntamente com Caio Prado Jr. O Barão de Itararé apresenta o romancista a Zélia Gattai na Boate Bambu, durante jantar em homenagem aos participantes do Congresso de Escritores. Sai no Brasil "A vida de Luís Carlos Prestes", rebatizado de "O cavaleiro da esperança". Em julho, passa a viver com Zélia. No mesmo mês participa ao lado do poeta chileno Pablo Neruda (que em 1971 ganharia o Nobel de Literatura), do comício de Luís Carlos Prestes no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Lança "Bahia de Todos os Santos". É eleito, com 15.315 votos, deputado federal pelo PCB. Publica o conto "História de carnaval" na revista O Cruzeiro. "Terras do sem fim" sai pela respeitada editora A. Knopf, de Nova York.
   No ano seguinte assume o mandato na Assembléia Constituinte e passa a residir no Rio de Janeiro. Várias de suas emendas, como a da liberdade de culto religioso e a que dispõe sobre direitos autorais, são aprovadas. Lança "Seara vermelha", "Homens e coisas do Partido Comunista". Entusiasmado com a leitura de "Jubiabá", chega à Bahia o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger, que acabaria se radicando em Salvador e se tornando um dos amigos mais íntimos de Jorge Amado.
   Publica, em 1947, pela Editora do Povo, do Rio de Janeiro, "O amor de Castro Alves". É um ano de vários acontecimentos na área do cinema para o escritor: a Atlântida compra os direitos de "Terras do sem fim"; ele escreve os diálogos do filme "O cavalo número 13", uma produção de Fernando de Barros e ainda o argumento de "Estrela da manhã", que seria dirigido por Mário Peixoto, encarregado também do roteiro (o filme acabou sendo feito, mas não por Peixoto). Nasce, no Rio de Janeiro, o filho João Jorge.
   Com o cancelamento, em janeiro de 1948, do registro do Partido Comunista, o mandato de Jorge Amado é cassado. Sem assento na Câmara Federal e tendo seus livros considerados como "material subversivo", o escritor, ainda no mês de janeiro, parte em exílio voluntário para Paris. Em fevereiro, sua casa no Rio é invadida por agentes federais, que apreendem livros, fotos e documentos. Por motivos políticos, em 1950, o governo francês, expulsa Jorge Amado e sua família do país. O escritor, Zélia e João Jorge passam a residir em Dobris, Tchecoslováquia, no castelo da União dos Escritores. Realiza viagens políticas pela Europa Central e União Soviética. Escreve "O mundo da paz", livro sobre os países socialistas.
   No ano seguinte, escreve o romance tripartido "Os subterrâneos da liberdade" (Os ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel). Sai no Brasil, pela Editorial Vitória, do Rio, o livro "O mundo da paz" pelo qual Jorge Amado seria processado e enquadrado na lei de segurança. Vai à China e à Mongólia, em 1952. Volta ao Brasil com a família fixando residência no apartamento de seu pai, no Rio de Janeiro. Responde ao processo por "O mundo da paz". O juiz responsável pelo caso arquiva o processo, dizendo que o livro "é sectário e não subversivo". Com a aprovação, nos Estados Unidos, da lei anticomunista, o escritor é proibido de entrar naquele país; seus livros também são vetados por lá.
  O romance "Os subterrâneos da liberdade" é lançado em três volumes, em 1954. A trilogia provoca uma dura reação dos trotskistas brasileiros, gerando polêmica com o jornalista Hermínio Sacchetta (o "Abelardo Saquilá" do romance). Sai em Portugal, pela Editorial Avante, um folheto de seis páginas assinado por Jorge Amado e Pablo Neruda, cujo objetivo era contribuir para a libertação do líder comunista Álvaro Cunhal e marcar posição contra o salazarismo.
  É lançada, pela Ricordi Brasileira, em 1956, a partitura de "Não te digo adeus", com letra de Jorge Amado e música do músico e maestro amazonense Cláudio Santoro. Assume no Rio a chefia de redação do quinzenário Para-todos, ao lado do irmão James, de Oscar Niemeyer e Moacir Werneck de Castro, dentre outros.  Viaja ao Oriente ao lado de Zélia, Pablo e Matilde Neruda, em 1957. "Terras do sem fim" é lançado em quadrinhos. Carlo Ponti, cineasta italiano, compra os direitos de "Mar morto"; mas o filme não chega a ser realizado. Conhece a mãe-de-santo Menininha do Gantois, a quem ficaria ligado até a morte dela, ocorrida em agosto de 1986.
  Na tranquilidade de Petrópolis, em 1958, escreve "Gabriela, cravo e canela". Sai o disco "Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela", trazendo leituras de Jorge Amado e música de Dorival Caymmi.
  Por unanimidade, é eleito, no dia 6 de abril de 1961 para a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, que pertencia a Otávio Mangabeira. No mesmo mês estréia na TV Tupi do Rio de Janeiro a adaptação de "Gabriela". Saí "Os velhos marinheiros", livro que comporta as novelas "A morte e a morte de Quincas Berro D’água" e "A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso". É eleito membro do Conselho da Presidência do Pen Club do Brasil. O presidente Juscelino Kubitschek convida-o para ser embaixador do Brasil na República Árabe Unida; o escritor recusa o convite.
  "O cavaleiro da esperança" é apreendido pela polícia, em 1963. Lança "Os pastores da noite", em 1964.
   No ano seguinte, publica o conto "As mortes e o triunfo de Rosalinda" na antologia "Os dez mandamentos", da editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro.
   O escritor chega aos mil autógrafos no lançamento de "Dona Flor e seus dois maridos", na livraria Civilização Brasileira, em Salvador.
   A União Brasileira de Escritores, presidida por Peregrino Jr., apresenta em Estocolmo a candidatura formal de Jorge Amado ao Prêmio Nobel de Literatura, em 1967, embora o escritor a recuse.
  No ano de 1968 lança "Tenda dos milagres", Jorge dizia ter sido este seu melhor romance. Recebe em São Paulo o Prêmio Juca Pato - 1970, da União Brasileira de Escritores, como "Intelectual do Ano". Estréia o filme "Capitães da areia", produção americana dirigida por Hall Bartlett.
 Estréia no cinema "Dona Flor e seus dois maridos", de Bruno Barreto, com Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. Na Bahia, começa a escrever "Tieta do Agreste".
   No ano seguinte, cercado de intensa campanha publicitária, é lançado no Rio o romance "Tieta do Agreste", que Jorge Amado concluíra em Londres. Estréia "Tenda dos milagres", filme de Nelson Pereira dos Santos. Interpreta um dos apóstolos de Cristo na cena da "Última Ceia" do filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha. A casa onde o escritor viveu em Ferradas é tombada pela Prefeitura de Itabuna. Grava no Rio, para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, trechos de seus romances "Os pastores da noite" e "Tereza Batista cansada de guerra".
   Em 1978, Glauber Rocha realiza documentário abordando a obra de Jorge Amado. Sai "Farda fardão camisola de dormir", em 1979. A revista Vogue Brasil dedica um número a Jorge Amado, que escreve o texto "O menino grapiúna", onde conta reminiscências da época em que viveu na região cacaueira. Daí surgiu à idéia de "Tocaia Grande", que falaria do nascimento e desenvolvimento de uma cidade naquela área. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. É condecorado como Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada pelo presidente português Ramalho Eanes.
  "O menino grapiúna" é lançado numa edição não-comercial, em 1981. Em 1984, publica "Tocaia Grande". Tenta retomar "Bóris, o vermelho", mas o deixa de lado para escrever "A guerra dos santos", título original do romance que se chamaria "O sumiço da santa".
  Toma posse na Academia de Letras da Bahia (cadeira 21), em 1985. Recebe o título de Grão-Mestre da Ordem do Rio Branco, no grau de Grande Oficial, oferecido pelo governo brasileiro. Participa do Festival de Cinema de Cannes. É homenageado pelo Centro Georges Pompidou, de Paris, onde se realiza um debate sobre sua obra. Estréia na Rede Globo a minissérie "Tenda dos milagres". Lança, pela Berlendis & Vertecchia, de São Paulo, "O capeta Carybé", sobre o artista plástico argentino, nascido Hector Julio Páride Bernabó, seu amigo desde os anos 50, quando se instalou na Bahia.
   Inaugurada, no dia 7 de março de 1987, a Fundação Casa de Jorge Amado, que passa a desenvolver intenso trabalho de preservação e divulgação da obra do escritor. O símbolo da Casa é um exu desenhado por Carybé, que já vinha aparecendo nas edições dos livros de Jorge Amado. Segundo o escritor, exu é um deus dos mais importantes nas religiões fetichistas; se elas admitissem a existência do diabo, ele seria o diabo. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Lumière, da cidade francesa de Lyon.     Paralelamente a "Bóris, o vermelho", escreve "Navegação de cabotagem", relato memorialístico, em 1991. Estréia na Rede Globo, em 1992, a minissérie "Tereza Batista" (com adaptação de Vicente Sesso, direção de Paulo Afonso Grisolli e Patrícia França no papel-título). Publica "Navegação de cabotagem". Uma série de eventos comemora os 80 anos do escritor. Para festejar a data, a Fundação Casa de Jorge Amado publica o livro "Jorge Amado: 80 anos de vida e obra", organizado por Maried Carneiro e Rosane Canelas Rubim.
  Publica, em 1994, no Brasil, "A descoberta da América pelos turcos". Começa a escrever um romance provisoriamente intitulado "A apostasia universal de Água Brusca", que focaliza a luta pelo poder entre a igreja e os coronéis do sertão baiano.
   Em maio de 1996, o escritor sofre em Paris um edema pulmonar. Depois de dez dias de internação, recebe alta e viaja para Salvador. Estréia "Tieta do Agreste", filme de Cacá Diegues, que também assina o roteiro, ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Antonio Calmon. Em outubro, é submetido a uma angioplastia. A operação mobiliza atenções do país inteiro e é coroada de pleno êxito. Na saída do hospital o escritor anuncia que retomará "brevemente" seus projetos literários.
    O romance "Tieta do Agreste" é escolhido como tema do carnaval de Salvador, em 1997. A editora Record lança "Milagre dos Pássaros", livro com conto ainda inédito no Brasil.
   No Salão do Livro de Paris, em 1998, é uma das principais atrações e recebe o título de Doutor Honoris Causa na Sorbonne. Em maio de 1999, é hospitalizado para fazer exames de rotina e tratar de um mal-estar digestivo.  Em junho, a Fundação Casa de Jorge Amado lança o livro "Rua Alagoinhas 33, Rio Vermelho", sobre a casa em que o autor vivia e sobre seu cotidiano.
   Cada vez mais recluso, face aos seus problemas de saúde, comemora em agosto de 2000, com poucos amigos e a família, seus 88 anos. Vivia deprimido por se encontrar quase sem enxergar, sob dieta rigorosa, privando-se do que muito gostava: de escrever, de ler um bom livro e de um bom prato.
   No dia 21 de junho de 2001, Jorge Amado é internado com uma crise de hiperglicemia e tem uma fibrilação cardíaca. Após alguns dias, retorna à sua casa, porém, em 06 de agosto volta a se sentir mal e falece na cidade de Salvador às 19,30 horas. A seu pedido, seu corpo foi cremado e suas cinzas foram espalhadas em torno de uma mangueira em sua residência no Rio Vermelho.
Capitães da Areia revelava-se então um livro profético: o escritor vivia história similar à do protagonista Pedro Bala, que acaba perseguido e detido por ter se tornado militante proletário? Quando publicado, o livro foi considerado subversivo e teve inúmeros exemplares apreendidos e queimados pela polícia em praça pública. Jorge Amado recebeu a notícia na cadeia.
     O livro ganharia nova edição apenas em 1944. Desde então, tem sido o romance mais editado de Jorge Amado: já ultrapassou a marca de cento e vinte edições em português e foi publicado em mais de quinze países.
     A narrativa ganhou versão em quadrinhos e foi adaptada para teatro e cinema. O filme The wild pack (1971), dirigido pelo americano Hall Bartlett, teve cenas rodadas em Salvador. Na TV, Capitães da Areia virou minissérie da Rede Bandeirantes em 1989, com direção de Walter Lima Jr.

 II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

PANORAMA BRASILEIRO:



   No Brasil, 1930 marca o ponto máximo do processo revolucionário, ou seja, é o fim da República Velha, do domínio das velhas oligarquias ligadas ao café e o início do longo período em que Vargas permaneceu no poder.
   A eleição de 1º de março de 1930 para a sucessão de Washington Luís representava a disputa entre o candidato Getúlio Vargas, em nome da Aliança Liberal, que reunia Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, e o candidato oficial Júlio Prestes, paulista, que contava com o apoio das demais unidades da Federação. O resultado da eleição foi favorável a Júlio Prestes; entretanto, entre a eleição e a posse, que se daria em novembro, estoura a Revolução de 30, em 3 de outubro, ao mesmo tempo que a economia cafeeira sente os primeiros efeitos da crise econômica mundial.
   A Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas a um governo provisório, contava com o apoio da burguesia industrial, dos setores médios e dos tenentes responsáveis pelas revoltas na década de 1920 (exceção feita a Luís Carlos Prestes, que, no exílio, havia optado claramente pelo comunismo). Desenvolve-se, assim, uma política de incentivo à industrialização e à entrada de capital norte-americano, em substituição ao capital inglês.
   Uma tentativa contra-revolucionária partiu de São Paulo, em 1932, como resultado da frustração dos paulistas com a Revolução de 30: a oligarquia cafeeira sentia-se prejudicada pela política econômica de Vargas; as classes médias e a burguesia temiam as agitações sociais; e, para coroar o descontentamento, Vargas havia nomeado um interventor pernambucano para São Paulo. A chamada Revolução Constitucionalista explodiu em 9 de julho, mas não logrou êxito. Se Guilherme de Almeida foi o poeta da Revolução paulista, tendo produzido vários textos ufanistas, Oswald de Andrade foi seu romancista crítico, como atesta seu livro Marco zero - a revolução melancólica.
   Ainda em 32, a ideologia fascista encontra ressonância no nacionalismo exacerbado do Grupo Verde-Amarelo, liderado por Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira. Ao mesmo tempo crescem no Brasil as forças de esquerda. Em 1934, elas formam uma frente única: a ANL - Aliança Nacional Libertadora. Tornam-se frequentes os choques entre a extrema-direita e os membros da ANL, até que o governo federal manda fechá-la, por "atividade subversiva de ordem política e social", em julho de 1935. Entretanto, na clandestinidade, a ANL tenta uma revolução, em novembro desse mesmo ano, "contra o imperialismo e o fascismo" e "por um governo popular nacional revolucionário". Os revoltosos previam uma rebelião militar imediatamente acompanhada por revoltas populares, mas o movimento não foi além de três unidades militares, logo derrotadas; milhares de pessoas foram aprisionadas, e o governo obteve um pretexto para endurecer o regime.
   Getúlio Vargas, auxiliado pelos integralistas, inicia sua ditadura em 10 de novembro de 1937. O chamado Estado Novo será um longo período antidemocrático, anticomunista, baseado num nacionalismo conservador e na idolatria de um chefe único: Getúlio Vargas. Essa situação se prolongará até 29 de outubro de 1945, quando, pressionado, Getúlio renuncia.
  Tudo isso, formou um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social, verdadeiro documento da realidade brasileira, atingindo um elevado grau de tensão nas relações do indivíduo com o mundo. Como relata os historiadores acima citados, o painel brasileiro dos anos 30, passava por uma transformação político-social, dando espaço para uma literatura engajada, de denúncia social e documental do verdadeiro retrato do Brasil.

III – CARACTERÍSTICAS:

   Envolvidos com a crise econômica e política da época, a segunda geração modernista, ocupou-se com a discussão e a retratação da realidade brasileira gerada pela ditadura que se instalou no Brasil com Getúlio Vargas e as relações entre o homem e o mundo.
   
   “Em 30 nós vivemos o problema do realismo, ou neo-realismo, socialista ou não, bem como a incorporação daquilo que as vanguardas do decênio anterior tinham proposto como inovação. Vivemos um grande surto do romance, ligado aos pontos de vista opostos na moda pela sociologia e a antropologia, como um triunfo do social contraposto às tendências espiritualistas e religiosas. Houve dilaceramentos e disputas, com a formação de um antipólo metafísico e as mais rasgadas polêmicas que marcaram todos nós.” Antonio Candido, Companhia das Letras, 1993

   A prosa de 1930 é chamada de Neo-Realismo pela retomada de alguns aspectos do Realismo- Naturalismo, contudo, com características particulares preservadas. 
   A literatura estava voltada para a realidade brasileira como forma de manifestar as recentes crises sociais e inquietações da implantação do Estado Novo do governo Vargas e da Primeira Guerra Mundial.
   Os romancistas observam com olhos críticos a realidade brasileira, as relações entre o homem e a sociedade. Pelo fato dos romancistas deste período adotar como componente o lado emocional das personagens, faz com que esta fase se diferencie do Naturalismo, onde este item foi descartado.
   O segundo tempo modernista é marcado pela consolidação das propostas da fase heróica (1922) ao mesmo tempo pelo afastamento do seu radicalismo.
   Os autores dessa época adotaram um modernismo mais moderado, voltado para a realidade social e espiritual do Brasil.
   A prosa modernista da segunda geração desenvolveu-se em duas tendências: o romance regionalista do Nordeste e o romance psicológico ou intimista.

   JORGE AMADO, em largos painéis coloridos, retrata o regionalismo nordestino, mostrando a desgraça e a opressão do negro, do pobre e do trabalhador, nas zonas cacaueiras e urbanas da Bahia. Através desses tipos marginalizados, apresentados com humanidade, simpatia calorosa e um vivo senso do pitoresco, analisa toda uma sociedade.
  Um grande expoente do Modernismo, sua maturidade literária se revela na capacidade de mesclar realismo e romantismo, lirismo poético e documento em sua narrativa, cuja linguagem explicita o falar de um povo e cuja ideologia se sobrepõe na forma de uma necessidade premente de justiça social. O caráter político e revolucionário das obras iniciais não se encontra nos romances pós década de 50, o que tem feito, críticos dividirem sua obra em diferentes temáticas:

- O Romance Proletário que retrata a vida rural e citadina de Salvador, com forte apelo social. Incluem-se nesse tipo: Suor, O País do Carnaval e Capitães da Areia;

- O "Ciclo do Cacau" tem como temas os latifúndios da região cacaueira e as lutas que, em tom épico, retratam a ganância dos coronéis, a exploração do trabalhador rural. Pertencem a esse ciclo: Cacau, Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus;

- A Pregação Partidária é constituída por um grupo de escritos de cunho político: O Cavaleiro da Esperança e O Mundo da Paz.

- A última fase se compõe de Depoimentos Líricos e Crônicas de Costumes e se inicia com Jubiabá e Mar Morto, cujos temas giram em torno das rixas e amores marinheiros.Consolidam-se com Gabriela, Cravo e Canela que, mesmo tendo Ilhéus e problemas políticos, como pano de fundo, tende mais para crônica amaneirada de costumes.
   Para Bosi, a ideologia que permeia as obras de 30 e 40 foi abandonada. A partir daí, tudo se dissolveu "no pitoresco, no saboroso, no apimentado do regional".

IV – OBRA: CAPITÃES DA AREIA

4.1 – ESTRUTURA:

   Capitães da areia é diferente dos demais romances de Jorge Amado não apenas por causa da temática, mas também em virtude de sua estrutura sui generis. A rigor, podemos dizer que o romance não tem propriamente um enredo. É aí que reside sua modernidade, pois o autor rompe com a tradição do romance convencional, que supunha rigorosa organização dos fatos e relações de causa e efeito entre os eventos.          
   Capitães da areia é montado por meio de quadros mais ou menos independentes, que registram as andanças das personagens pela cidade de Salvador. Mas não só: ao lado da narração propriamente dita, Jorge Amado intercala também notícias de jornal, bem como pequenas reflexões poéticas. A força da narrativa advém do enredo solto, maleável, que parece flutuar ao sabor das aventuras dos pequeninos heróis.
   De acordo com a teoria da literatura, há vários tipos de romance e os mais conhecidos são os de ação e de personagem. Capitães da areia pertence ao segundo tipo, porque, mais do que desenrolar uma ação, privilegia a existência, a movimentação de diferentes tipos sociais. Dessa maneira, Jorge Amado monta uma galeria bastante ampla de figuras que irão compor o quadro social de uma comunidade.
   O fato de o escritor se prender às personagens e de montar os quadros soltos não implica, contudo, que o romance deixe de ter uma estrutura mais ou menos organizada. Pelo contrário, é possível perceber uma linha conduzida, ainda que de maneira tênue, por Pedro Bala, que organiza o grupo, determina-lhe a ação, graças à sua coragem e aos seus princípios, e que será uma das únicas personagens a fugir da alienação (juntamente com o Professor e Pirulito).
   Outro aspecto que chama a atenção, no que diz respeito à estruturação da narrativa, é a divisão em partes do romance. Ao todo, são três, subdivididas em capítulos ora mais longos, ora mais curtos, precedidas de um pequeno prólogo de caráter jornalístico, que caracterizam e mostram diversas visões sobre o caso.

1. Prólogo – “Cartas à Redação”:

   Jorge Amado utiliza o recurso do prólogo para criticar indiretamente os poderosos por meio da linguagem, examinada em diferentes níveis. Assim, a escrita redundante, grandiloquente das autoridades contrasta com a da mulher do povo. Ao mesmo tempo, o tom da reportagem parece colaborar para a feição realista do romance, como se o narrador quisesse dar a impressão para o leitor de que o que vai contar é absolutamente verdadeiro.

2. 1.ª parte – “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, formada de onze capítulos:

  Conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães da Areia (o grupo chegava a quase cem, morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes).

  3. 2.ª parte – “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos”, formada de oito capítulos:
Sub-titulada de "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", relata a história de amor que surge quando Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia". Apesar de inicialmente os garotos tentarem violenta-la, Dora vira uma espécie de mãe para eles. "Canção da Bahia, Canção da Liberdade".

4. 3.ª parte – “Canção da Bahia, canção da liberdade”, formada de oito capítulos:
Mostra a desintegração dos líderes.

4.2 - ESPAÇO:

   O espaço em Capitães da areia tem função capital, pois não só determinará o comportamento das personagens, como também quase chega a se constituir numa personagem, com vida própria. Como determinante, divide-se em diferentes segmentos. O mais amplo deles será obviamente a cidade da Bahia, com todos os seus recantos, limitada pelo mar. Outros espaços poderiam ser considerados, como a cidade do Rio de Janeiro, a cidade de Ilhéus e o sertão, contudo, têm eles valor secundário, porque são apenas referidos pelo narrador (é para lá que vão o Professor, o Gato e o Volta-Seca, respectivamente).
   Na cidade da Bahia, destaca-se de maneira evidente o trapiche, onde moram as crianças. É nele que os meninos abandonados encontram abrigo contra as intempéries e contra os inimigos. Situado na areia, junto ao mar, constitui um espaço de ninguém, e o fato de ter servido no passado como armazém e agora como o lar dos meninos de rua serve para ilustrar um desvirtuamento de função e a condição de marginalidade das crianças. Isso porque ele, ao mesmo tempo, pertence e não pertence à cidade que parece querer evitar os desvalidos da sorte, condenando-os a viver num espaço semidestruído, abandonado, que serve de pousada para ratos e cães, assim descritos pelo narrador:
    O mesmo se pode dizer de algumas casas onde moram os burgueses e que se caracterizam pelo grandioso:

   O 611 era uma casa grande, quase um palacete, com árvores na frente. Numa mangueira, um balanço onde uma menina da idade de Dora se divertia. [...] (p. 159)
      
   O efeito de contraste acentua nitidamente as diferenças sociais, a marginalização dos desprotegidos. Observe-se, neste fragmento, tal ideia, mediante a engenhosa utilização da metonímia:

   [...] As luzes se acenderam e ela achou a princípio muito bonito. Mas logo depois sentiu que a cidade era sua inimiga, que apenas queimara os seus pés e a cansara. Aquelas casas bonitas não a quiseram. [...] (p. 161-2)

   As cidades e as casas, metonimicamente, substituem as pessoas, pois são estas que rejeitam Dora. O narrador utiliza-se desse expediente para mostrar que o espaço, além de determinante, pode se constituir também numa extensão das pessoas. A miséria das crianças é, desse modo, representada pela pobreza do trapiche que, no entanto, tem a vantagem de ser um espaço aberto e receptivo, enquanto as mansões, geralmente cercadas por grades, seriam um espaço desumano, porque confina as pessoas e impede a entrada de quem não pertence ao mesmo círculo de seus habitantes.
   Mas outro espaço é fundamental na composição do romance: a cidade como um todo. Pelo fato de a obra ter como pano de fundo o cenário urbano, ele se transforma num mistério e atiça o desejo de conquista das crianças. Em outras palavras, a cidade simboliza todos os sonhos e desejos, por isso funciona como espaço físico e espaço psicológico dentro de Capitães da areia.

4.3 – TEMPO:

   O tempo, relativamente extenso, mas impreciso, compreende um retalho da vida dos meninos, desde a infância até a maturidade. Contudo, o leitor tem a oportunidade de conhecer com mais intensidade o tempo da adolescência, já que o tempo da infância das crianças comparece por meio de analepses (retorno ao passado), fórmula de que o narrador lança mão para mostrar a formação delas e as razões do desamparado no presente. Grosso modo, acompanhando-se a trajetória de Pedro Bala, a personagem principal, poder-se-ia dizer que Capitães da areia tem como espaço de tempo de três a quatro anos, suficientes para a transformação do menino ladrão em líder proletário, engajado num movimento revolucionário.
   De maneira cronológica, pois há nítida ordenação dos acontecimentos, numa sequência rigorosa de passado e presente. Os breves intervalos em que ocorrem as analepses acabam por não perturbar a ordem temporal, porque o narrador separa claramente os fatos presentes dos fatos pretéritos.
  Outro aspecto sobre o qual valeria refletir é o seguinte: as noites predominam sobre os dias, como se as personagens vivessem uma aventura noturna por excelência. Por que a predominância da noite? Em primeiro lugar, porque a noite vai representar o momento de mistério, de inspiração poética. Em segundo lugar, porque representa o momento privilegiado em que os Capitães da Areia agem, em oposição ao dia claro, quando os burgueses estão em plena atividade.

4.4 – FOCO NARRATIVO:

   Jorge Amado usa sistematicamente a terceira pessoa do discurso: “João Grande vem vindo para o trapiche” (p. 23); “Pedro Bala, enquanto subia a ladeira da Montanha, revia mentalmente seu plano” (p. 93) etc. Ao se utilizar da terceira pessoa, a voz que narra tem a vantagem de poder acompanhar a multidão de personagens, deslocar-se de uma para outra, porque possui a onisciência, ou seja, nesse caso, “o narrador configura-se como um autêntico demiurgo que conhece todos os acontecimentos na sua trama profunda e nos seus últimos pormenores, que sabe toda a história da vida das personagens, que penetra no âmago das consciências como em todos os meandros e segredos da organização social A focalização deste criador onisciente é panorâmica e total.”
   Não é difícil verificar que o narrador de Capitães da areia tem a plena liberdade de distanciar-se ao máximo das personagens, quando adota uma visão panorâmica. São frequentes no romance os momentos em que ele privilegia o espaço amplo da cidade:

   A grande noite de paz da Bahia veio do cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas. [...] (p. 22)

   O narrador reina soberano sobre toda a cidade, a ponto de enumerar diferentes construções e objetos, desde os que estão no mar até os que estão dentro da cidade.
   Outro recurso de que se serve Jorge Amado é o de fazer com que o narrador principal ceda a voz a narradores secundários por meio de personagens que contam os fatos, como neste trecho:

   Gato contou que a solteirona era cheia do dinheiro. Era a última de uma família rica, andava pelos quarenta e cinco anos, feia e nervosa. Corria a notícia de que tinha uma sala cheia de coisas de ouro, de brilhantes e jóias acumuladas pela família através de gerações. [...] (p. 224)

   Mas Jorge Amado pode também criar um narrador todo especial, frio e pretensamente objetivo, quando traz para o romance, textos jornalísticos, principalmente no início do relato. Esse tipo de voz cria nítido contraponto com a voz apaixonada, lírica, do narrador, que acompanha de perto a vida das crianças. Com isto, não é difícil perceber que o narrador jamais é neutro, pois toma evidente partido ao assumir diferentes posturas narrativas, dependendo de que o alvo de sua atenção sejam as crianças ou os burgueses.
   Não é à toa que Jorge Amado tenha produzido uma obra que reflete os princípios ideológicos da esquerda (o autor pertencia na época aos quadros do Partido Comunista). O enfoque em terceira pessoa impregnado de humanidade, a visão épica, a crítica ostensiva e indignada aos poderosos, a aderência aos humildes, a compreensão apaixonada dos dramas humanos somente servem para atestar a sua consciência de artista participante.

4.5 – LINGUAGEM:

    Jorge Amado pertence a uma geração de escritores comumente conhecida como “regionalista”. A principal característica de estilo dessa geração foi a de contrapor uma linguagem mais espontânea, coloquial, popular, à linguagem rara, escolhida, herdeira dos vícios parnasianos e representativa da classe social dominante.
   Jorge Amado não foge à regra: seu estilo prima pela espontaneidade, que é atingida graças à fuga da sintaxe de origem portuguesa e à imposição de uma sintaxe “brasileira”, por assim dizer. Capitães da areia transforma-se assim num repositório de linguagens populares, pois o escritor consegue registrar com maestria as falas de diferentes camadas sociais.
   Outra marca estilística típica de Jorge Amado é a sem-cerimônia com que se utiliza de termos chulos, frequentemente extirpados da língua oficial ou ocultados por meio da linguagem eufemística.
   Mas essa “popularização” da linguagem não se dá somente no plano dos diálogos, porquanto o narrador também assimila um modo de falar mais natural, mais simples. E isso é conseguido com o uso sistemático da frase curta, incisiva, econômica.
   Outro recurso de que se serve Jorge Amado para conseguir um efeito natural, espontâneo, é a repetição de uma palavra ou expressão, ao longo de um parágrafo, que acaba por ter um surpreendente efeito plástico, musical:

   A revolução chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche. É uma voz poderosa dentro dele, poderosa como a voz do mar, como a voz do vento, tão poderosa como uma voz sem comparação. Como a voz de um negro que canta num saveiro o samba que Boa-Vida fez:

Companheiros, chegou a hora...

    A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa  a cidade, que parece vir dos atabaques que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes, onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros. Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães da Areia. Uma voz que vem das filhas-de-santo do candomblé de Don’Aninha, na noite que a polícia levou Ogum. Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do reformatório e do orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador para não se entregar: Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura. Que vem dos quadros de Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: companheiro. [...] (p. 252-3)

   A palavra “voz” reiterada várias vezes no texto é que serve para fundir diferentes consciências que integram o mundo de Pedro Bala. Para sugerir uma sinfonia de vozes que chama a personagem para cumprir seu destino, Jorge Amado serve-se da repetição do termo, mas procurando dar-lhe diferentes inflexões. Esse recurso pode também conseguir um efeito contrário ao da exaltação, servindo para reforçar uma idéia de negatividade:

   A vitalina o espera para o amor. Está como uma esposa  a quem o marido abandonasse. Chora e se lastima. Seu amor não vem, ela também precisa de amor; como todas essas moças que passam de vestidos bonitos na rua.
   Mas o roubo a enfurece. Porque pensa que Sem-Pernas só a amou nas noites longas de vícios para a furtar. Sua sede de amor é humilhada. É como se houvessem cuspido na sua cara, dizendo que era por causa da sua feiúra. Chora, não geme mais uma canção de amor. Se sente com coragem para estrangular o Sem-Pernas se o encontrasse. Porque burlaram do seu amor, da sede de amor que está no seu sangue. A sua desgraça é mais completa porque durante uma semana foi plenamente feliz com as migalhas de amor. Rola no chão com um ataque. (p. 228)

   Aqui se salienta a repetição da palavra amor – desse modo, o vocábulo que tem um sentido positivo passa a ter um sentido negativo dentro do contexto. A sua repetição só faz acentuar o seu contrário, a ausência de um bem inestimável.
   Mas, no trecho citado, outra peculiaridade do estilo de Jorge Amado nos chama a atenção: o uso do verbo no presente do indicativo que serve para criar cenas de maior força dramática, porque o fluxo narrativo repentinamente se interrompe para o registro da intimidade das personagens. Infere-se desses traços do estilo de Jorge Amado, além da tentativa de registro da linguagem popular, a busca da poeticidade, como se o escritor, mais do que se simplesmente documentar um caso social, procurasse transmitir ao leitor uma aproximação afetiva com a terra baiana. São freqüentes os momentos em que o narrador interrompe a narrativa para falar da cidade misteriosa que ama ou mesmo da natureza:

   [...] Os sinos já não tocam as ave-marias que às seis horas há muito que passaram. E o céu está cheio de estrelas, se bem a lua não tenha surgido nesta noite clara. [...] (p. 22)
   Nem parecia um meio-dia de inverno. O sol deixava cair sobre as ruas uma claridade macia, que não queimava, mas cujo calor acariciava como a mão de uma mulher. No jardim próximo, as flores desabrochavam em cores. Margaridas e onze-horas, rosas e cravos, dálias e violetas. Parecia haver na rua um perfume bom, muito sutil, [...] (p. 100)

   As imagens poéticas sempre presentes evitam a simples e objetiva descrição de um mero cenário, porque elas acabam por humanizá-lo. Com o recurso do lírico, Jorge Amado consegue realizar a plena interação entre o mundo das personagens e o espaço em que elas vivem. Com isto, ele altera o sentido de propriedade: são os pobres, os deserdados da sorte que possuem a cidade mágica da Bahia, porque só eles é que são capazes de admirar sua beleza secreta, seus mistérios e responder à sua voz, ao passo que, para as classes elevadas, a cidade não passa de um espaço físico, frio e desumanizado, onde exercem seu falso domínio.



 4.6 – PERSONAGENS:


As personagens num romance compreendem geralmente uma principal, as secundárias e aquelas que funcionam apenas como pano de fundo. No caso de Capitães da areia, logo de início descobrimos que Pedro Bala será o herói de toda a narrativa, não só porque é o primeiro a ser apresentado, mas também porque o narrador lhe acentua as naturais características de chefe, de líder. Além disso, ainda que não participe de todas as cenas, Pedro Bala irá se constituir numa espécie de linha condutora de todo o romance, servindo, assim, para dar unidade aos diversos quadros. Evidentemente, seu sucesso final serve para coroar de maneira simbólica a busca de todas as crianças, como se ele representasse, com sua vitória final, uma espécie de núcleo, ao realizar os desejos, os sonhos dos indivíduos marginalizados da cidade. Como coadjuvantes (ou personagens secundárias), encontramos João Grande, Sem-Pernas, Pirulito, Professor, Boa-Vida, Gato, Barandão, Altino, Volta Seca, padre José Pedro, Dora, Fuinha, Querido-de-Deus, João de Adão etc., uns com maior, outros com menor importância dentro do romance, de maneira que até seria possível pensar numa classificação, no que diz respeito ao modo de atuar das personagens da narrativa. Como o destaque é dado às crianças, as pessoas que vivem na cidade (burgueses, padres, à exceção do padre José, policias etc) terão participação menor no enredo, mas ainda assim são fundamentais, porque ajudam na caracterização do todo social.
   As personagens de Capitães da areia, quanto à sua concepção, poderiam ser classificadas como planas, pois “são construídas ao redor de uma única idéia ou qualidade”, segundo E. M. Forster (1969, p. 54). Com efeito, as personagens criadas por Jorge Amado não nos causam surpresa alguma ao longo do romance, porque têm uma ou duas características de que as outras são decorrentes. Pedro Bala é valente e ativo e, em razão disso, torna-se o líder do grupo, pautando todas as ações por essas qualidades essenciais. Ele jamais oscila ou vacila – na realidade, esta personagem representaria a concretização de uma virtude essencial que as demais crianças trariam embrionária dentro de si, e que, ou não teriam oportunidade de desenvolvê-la, ou acabariam por fazê-lo num grau inferior. É justamente por isso que Pedro Bala é a personagem principal.
   Quanto às demais personagens, na ordem em que aparecem, são descritas de acordo com uma característica física, uma psicológica e com a função que exercem no grupo.
   Uma das únicas pessoas de fora aceita pelo grupo, o padre José Pedro caracteriza-se pelo autêntico sentimento cristão. Desse modo, diferencia-se radicalmente do resto do clero da cidade e, por isso, é aceito pelos Capitães da Areia. Ele representa uma religião mais primitiva, voltada para os pobres, os humildes, longe do luxo dos cultos e das devoções beatas:
   Para acentuar o aspecto “plano” de suas personagens e dar-lhes a categoria de tipos Jorge Amado serve-se engenhosamente dos apelidos. Os meninos são identificados pelo cognome extraído de uma qualidade ou de um defeito físico ou psicológico. O narrador, portanto, acaba por se utilizar da figura da metonímia, ou seja, a parte representando o todo, como se a qualidade ou o defeito principal de cada personagem se estendesse e dominasse todo o indivíduo, servindo-lhe de emblema e, em muitos casos, determinando-lhe toda a ação. Pedro Bala tem esse apelido porque o pai morreu a tiro nas ruas da cidade. A bala que ele carrega no nome é que estabelecerá a ligação entre suas ações e as do pai, e que fará com que ele descubra, no final do romance, o seu destino como autêntico líder. João Grande, por sua vez, ganha o apelido devido à estatura, o Sem-Pernas, pelo defeito físico, o Professor, por seu intelecto, o Gato, em razão de sua agilidade, e o Boa-Vida, devido à preguiça, a malandragem.
   Mas os apelidos têm outra função, além de indicar, logo de início, o modo de ser de cada personagem. Constituem como que uma distinção pessoal dos membros do grupo em relação aos demais habitantes da cidade. Não é difícil observar que enquanto todos os membros dos Capitães da Areia são apelidados, as pessoas que não pertencem a eles, com exceção do Querido-de-Deus, apenas possuem nomes próprios. Esse fato serve para acentuar a ideia de que os Capitães da Areia formam um grupo fechado, a que têm acesso somente aqueles a quem as crianças respeitam e amam.
   Fora isso, as personagens têm nomes muito comuns: José, João, Pedro, Dalva etc., o que atesta a origem e condição humilde delas. Mas entre todos os nomes, dois deles se destacam exatamente pela sua carga simbólica: a de Pedro e o de Dora. O nome Pedro tem relação com pedra e representa a fortaleza, o caráter consistente do herói. Dora, por usa vez, lembra “dourado”, “ouro”, e tem relação metonímica com seus cabelos e no próprio nome. Ela terá um papel fundamental na formação dos meninos do trapiche, despertando neles os sentimentos, os afetos reprimidos. Pedro Bala, por exemplo, terá sua fortaleza contaminada pela afetividade, pela luminosidade de Dora. Somente por meio do amor é que terá oportunidade de fazer nascer em si à consciência social.
   Quanto às demais personagens, ou são reconhecidos simplesmente pela profissão que exercem (padre, polícia, bedel etc.), ou têm nomes vulgares. Contudo, para algumas delas, o narrador utiliza-se de um expediente muito comum que é o de identificá-las por meio de um objeto, o emblema da riqueza, da prepotência etc. É o caso, por exemplo, de um homem que bate no Professor e que é identificado pelo uso de um sobretudo.
    A estupidez, a falta de humanidade do homem passa, então, a ser representado pela veste, um índice não só de seus status, de sua posição social, como também da sua inadequação ao meio em que vive, pois o capote seria mais adequado a um clima frio ou temperado. É por isso que o Professor elegerá o “sobretudo”, símbolo da arrogância burguesa – ao roubá-lo do homem, acaba por criar um símbolo que o perseguirá vida afora.
   Esse expediente narrativo será retomado em outras passagens, como naquela em que uma velha senhora recrimina o padre José por ele estar em meio às crianças. Neste caso, a prepotência, a desumanidade da mulher será representada por um lorgnon (palavra de origem francesa que designa um tipo de óculos, sem hastes, montado numa armação com um cabo), pois, além de ser um objeto de luxo, indicando a classe social superior da senhora, é também um símbolo irônico de seu modo azedo de analisar criticamente a realidade

“E o lorgnon da velha magra se assestou contra o grupo como uma arma de guerra” (p. 72).

   Em outros momentos, a personagem comparece indiretamente por intermédio de seu discurso, como acontece na carta que o diretor do reformatório dirige à redação do Jornal da Tarde, tratando dos menores abandonados:

   Tenho acompanhado com grande interesse a campanha que o brilhante órgão da imprensa baiana, que com tão rútila inteligência dirigis, tem feito contra os crimes apavorantes os “Capitães da Areia”, bando de delinquentes que amedronta a cidade e impede que ela viva sossegadamente. (p. 13)

   Expressões como “brilhante órgão da imprensa baiana”, uma antonomásia (a indicação de um objeto por sua qualidade, no caso, o Jornal da Tarde), e “rútila inteligência” e o uso de pronomes vós (“dirigis”) atestam o formalismo, a afetação de quem escreve e são evidentemente índice de um caráter. O mesmo se pode dizer das falas em que a escolha do vocabulário determina a classe social da personagem, como nos exemplo abaixo:

   - O senhor não se envergonha de estar nesse meio, padre? Um sacerdote do Senhor? Um homem de responsabilidade no meio desta gentalha... (p. 72)
   - Tu vai longe, menino. Tu pode enricar com essas treitas. (p. 46)

   No primeiro exemplo, quem fala é uma velha senhora, e expressões como “sacerdote do Senhor” e “gentalha” denunciam sua classe social e sua desumanidade, pela maneira depreciativa com que vê os pobres. Já no segundo exemplo, o uso do pronome “tu” (segunda pessoa), com os verbos “poder” e “ir” na terceira, a utilização de palavras como “enricar” e “treitas”, apontam a origem social humilde da personagem. Mas não só isso a afetividade com que frase é enunciada dá amostras de um caráter bom e generoso.




Um comentário:

Anônimo disse...

Boa Noite,
Li, deliciada, esta postagem...que me trouxe à memória os tempos de leitura de obras de Jorge Amado. "Capitães da Areia" foi um marco da juventude. Obrigada.