segunda-feira, 26 de novembro de 2012

OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER (1774), GOETHE



I – AUTOR: JOHANN WOFGANG VON GOETHE


“Quando alguém olha para o meu livro, tenho sempre a impressão de que me cortam em dois”.

Goethe nasceu em Frankfurt, filho de uma família de posses. Recebeu uma excelente educação, com ênfase nas línguas estrangeiras, na literatura e nas artes. Encontrou-se com o filósofo Johann Gottfried Herder, em Estrasburgo. O entusiasmo pela natureza que Herder demonstrava, bem como o seu conhecimento da história e sua oposição ao racionalismo e à artificialidade na literatura, impressionaram-no profundamente. Sob a influência de Herder, Goethe veio a encarar a naturalidade, a sinceridade e a simplicidade como as principais virtudes de qualquer arte.
Poeta, romancista e teatrólogo, Johann Wolfgang Von Goethe está entre os mais influentes e importantes escritores da moderna literatura europeia.
Goethe foi, igualmente, pensador e cientista. Sua vasta obra compreende, além das inúmeras peças dramáticas, como o célebre “Fausto”, romances, contos, poesia lírica, cartas e descrições de viagens, assim como estudos de ciências humanas e naturais, em que se destacam a “Teoria das cores” e a “Metamorfose das plantas”. Com seu pensamento e arte, influenciou a cultura de toda uma época. Todos os grandes nomes deste período estiveram envolvidos nesse processo.
Goethe e Weimar, cidade em que passou os anos mais produtivos de sua vida, podem ser citados, de um só fôlego, como sinônimos do classicismo alemão. Uma contribuição de peso para a história da cultura ocidental. A amplitude e a originalidade de suas obras literárias e a diversidade de seus interesses intelectuais fazem dele a principal figura das literaturas clássica e romântica alemãs.
Em 1772, Goethe, advogado recém-formado, chega a Wetzlar para estagiar e conhece em um baile Charlotte (Lotte) Buff, noiva de Christian Kestner. Apaixona-se pela moça e se torna amigo do casal, chegando a lhes comprar o anel de noivado. Suas inclinações não são correspondidas e retorna abruptamente para Frankfurt.
Em setembro, em sua viagem de volta, hospeda-se na casa de uma amiga de sua mãe, Sophie de la Roche que escrevera, em 1771, um romance epistolar “A senhorita de Sternheim” e lá conhece sua filha Maximiliane.
Goethe troca intensa de correspondência com Lotte e Kestner que o informa do suicídio de seu colega desde os tempos de estudante em Leipzig, Carl Wilhelm Jerusalém. O também jovem jurista Jerusalém, sensível e dotado de talento artístico, sentia-se infeliz por ser não ser reconhecido profissionalmente e também por estar perdidamente apaixonado por uma mulher casada. Após tomar emprestado um par de pistolas de Kestner, põe fim à vida.
Em janeiro de 1774, Maximiliane, agora casada com um comerciante bem mais velho e infeliz, muda-se para Frankfurt e passa a frequentar a casa de Goethe que se apaixona pela jovem sem esperanças.
No mês seguinte, aos 25 anos de idade, sofrendo com a notícia do suicídio de Jerusalém e após passar pela sua segunda grande decepção amorosa em um curto intervalo de tempo, Goethe encerra-se em seu quarto em “uma solidão completa” e escreve em menos de quatro semanas, “de modo bastante inconsciente e como um sonâmbulo”, seu maior sucesso de público: “Os sofrimentos do jovem Werther”. Escreve de um só fôlego, “sem haver antes lançado sobre o papel nenhum plano de conjunto, nem tratado qualquer de suas partes”. Poucos meses depois de terminado, o romance é impresso sem alterações e lançado na Feira do Livro de Leipzig, sendo logo em seguida proibido em várias regiões por “ameaça à moral”.
A gênese da obra pode ser acompanhada através do relato detalhado que Goethe faz em sua obra autobiográfica, “Poesia e verdade”, na qual informa sobre a estreita relação com o narrado em Werther e os fatos de sua própria vida, além de fornecer dados sobre a repercussão “prodigiosa” no público e catártica em si mesmo:

“Como depois de uma confissão geral, eu me sentia de novo na posse de minha liberdade e minha alegria, e com o direito de começar uma nova vida”. 

O livro surpreendeu e encantou ao mesmo tempo, pela força dramática com que é descrito o personagem, digno de integrar a galeria construída por Shakespeare ou ao lado das figuras imorredouras criadas pela tragédia grega. Werther passou desde então a tipificar o herói romântico, embora se discuta se Goethe integraria de fato o romantismo, considerando o conjunto de sua obra. A repercussão do trágico final do protagonista Werther provocou uma comoção geral entre os jovens e içou conhecida por Mal do Século. Logo ocorreram suicídios idênticos, assaltados pelas desilusões e pela maneira de encarar a própria existência, a morte surgia como solução, alívio almejado pelos jovens. Goethe fica conhecido na Europa inteira, nos meios cultos do Novo Mundo e até no Oriente, graças ao “caso Werther”. Mas, apesar da fama, restou-lhe uma lembrança amarga do livro, condenado por todos aqueles que entendiam a vida como luta e conquista e não como renúncia e fuga, e pela Igreja, que o colocou no Índice dos Livros Proibidos. Esse herói romântico tornou-se um mito, tanto que o seu autor preocupado com a repercussão negativa de sua obra fez um apelo aos leitores:

“Se homem e não me sigas”.

Goethe perante esse contexto sente-se amargurado, afinal, Werther não havia existido verdadeiramente: era apenas uma personagem da sua criação.

“Onde eu me sentia liberto e aliviado, porque havia transformado a realidade em poesia, meus amigos se enganaram, acreditando que se devia transformar a poesia em realidade.”

Werther é simultaneamente a expressão de seu tempo e a indicação do fim de um ciclo. Em novembro do ano seguinte, Goethe parte para Weimar encerrando uma fase tormentosa:

“Estou tão cansado de andar para diante e pra trás! / Para que tanta dor, tanto prazer desfeito?/ Doce paz, / Entra, ai! Entra no meu peito!”.

Nessa cidade se tornaria a figura central da literatura alemã. Mas, a sombra de Werther sempre o acompanhara e volta à cena cinquenta anos depois de vir a público. Por ocasião da edição comemorativa do jubileu de sua obra, como que num ato de resgate da força viril de juventude, Goethe apaixona-se pela jovem adolescente de 16 anos Ulrike von Levetzow e tem seu pedido de casamento recusado. Ao escrever a poesia “A Werther”, novamente tem a oportunidade de transformar a dor da paixão em uma obra literária:

“O que não vivi e o que não me atormentou e comoveu, isto também não poetizei, nem pronunciei”.

O senhor septuagenário dialoga com o jovem e eterno apaixonado, Werther:

“Mais uma vez ousas, sombra tão pranteada / Surgir à luz do dia”.

Goethe faleceu em 1832, aos 82 anos de idade.

II – Contexto histórico social e o Romantismo:

Precursor do Romantismo, Rousseau foi o primeiro filósofo a dar destaque ao culto á natureza e à emoção em oposição da razão; desconfiando da ciência e recusando o racionalismo exacerbado dos pensadores da Ilustração.
Rousseau cria a hipótese dos homens em estado de natureza, vivendo sadios, bons e felizes enquanto cuidam de sua própria sobrevivência, até o momento em que é criada a propriedade, resultando na desigualdade entre os homens, na diferenciação entre o poderoso e o fraco, o senhor e o escravo e a predominância da lei do mais forte. O homem passa a ser corrompido pelo poder e esmagado pela violência e aquilo que é natural do homem; os instintos, os sentidos, as emoções, os sentimentos, a autenticidade e a razão se transformam em perigo e maldade.
A procura de um novo fazer literário, mais verdadeiro e expressivo era o lema daqueles jovens que se reuniam para discutir e fazer a nova literatura, que se configurará no movimento denominado de Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), mesmo título da peça de 1776 de um dos integrantes do grupo em torno do jovem Goethe, Maximilian Klinger.
A questão central gira em torno dos novos valores que esta geração tenta estabelecer a partir de suas produções literárias, nas quais conceitos como amor, fantasia, sentimento, morte, liberdade e natureza ocupam o lugar central.
O Romantismo, partindo da Inglaterra e da Alemanha, se alastrou e influenciou escritores de muitos outros países. Surgiu no rescaldo da Revolução Francesa e em meio à euforia produzida pela Revolução Industrial.
O ROMANTISMO, enquanto visão de mundo foi uma reação aos valores éticos e intelectuais ilustrados e clássicos, assim como aos fatos históricos mais marcantes da virada do século XVIII para o século XIX. Nesse sentido, a visão de mundo romântica surge mais como uma reação ao novo que como a proposição de algo diferente. Todo valor que ela elege é sempre em oposição a outro que pretende negar.
Em termos de história das ideias, nessa época a Alemanha estava em plena tentativa de inserir-se no contexto da discussão intelectual europeia centrada no delineamento do ideário do Iluminismo. Enquanto Gottsched procurava na imitação dos clássicos franceses a solução para a modernização do teatro alemão, Lessing procurava na fusão de ideias dos antigos gregos com os modernos ingleses a criação do teatro burguês alemão. Esses jovens literatos, seguindo o modelo da Empfindsamkeit (Sentimentalismo), no qual se cultuava a amizade e o sentimento de união íntima e pessoal com Deus viam como contraposição ao artificialismo barroco e cortesão o ir além do uso exclusivo da razão e, propunha uma valorização da expressão dos desejos individuais como forma de se instituir um modo mais natural de se viver. Muito embora a proposta de Lessing de instituição de uma literatura burguesa fosse uma atitude revolucionária, faltava para eles ainda a liberdade de não se submeter ao mundo do trabalho. Diz Werther:

“E és tu o único culpado disso, tu quem me introduziste nestas funções e que me pregaste a atividade. Atividade!”.

Se a instituição do novo paradigma reside na substituição da estrutura de valor pela função que se exerce na sociedade, faltava ainda aquilo que tornaria o sujeito racional um indivíduo: a realização livre de seus desejos e inclinações. Este era o dilema de Werther: um ser “deslocado” que enfatizava a potência do sentir e se via completamente perdido, caso não conseguisse viver de modo absoluto sua paixão, esta era a única possibilidade de não se colocar limites à imaginação criadora.
A publicação de Werther teve uma repercussão inédita. De um só golpe, a Alemanha alcançava um lugar de destaque no âmbito das discussões estético-literárias na Europa. Era á saída do ensimesmamento a que fora relegada pela Reforma luterana que interrompeu seu diálogo mais estreito com as nações mediterrâneas e consequentemente com os frutos do Renascimento.
“E assim, nós, os alemães, ficávamos cada dia mais descontentes. (...) Seguíamos ao acaso mil caminhos desviados e tortuosos, e era assim que se preparava de diversos lados essa revolução literária da Alemanha (...)”, diz Goethe, que foi, ao lado de Herder, Schiller e outros, uma das figuras centrais do movimento.

Com um verdadeiro furor, as pessoas liam em grupos ou sozinhas, decoravam trechos e os declamavam, dezenas de críticas surgiam em revistas e jornais, além de ter sido modelo para outros livros e rapidamente traduzido em várias línguas. Mas sua aceitação não era unanimidade, era também motivo de troça pelo seu tom de exaltação apaixonada, do que é exemplo a versão parodística de Friedrich Nicolai: “As alegrias do jovem Werther”.

Apesar dos clamores da Igreja, a obra de Goethe havia se transformado em moda e culto não só em termos de vestimenta com os rapazes trajando-se à la Werther de calça e colete amarelos com botões de metal e jaqueta azul, como também se faziam peregrinações ao túmulo de Jerusalém. Uma verdadeira febre de Werther (Wertherfieber) alastrou-se pela Europa com vários casos de suicídio inspirados pela obra: a presença sombria de Werther era notada nas pessoas encontradas mortas abraçadas com um exemplar do livro.

III – Características:

À razão, o Romantismo opôs o sentimento, à mente o coração, à ciência a arte e a poesia, ao materialismo o espiritualismo, à objetividade a subjetividade, à filosofia ilustrada o cristianismo, ao corpo e à matéria o espírito, ao equilíbrio a expansão e o entusiasmo, aos valores universais os particulares e exóticos, ao estático e permanente o movimento...Ela também foi profundamente crítica: a partir da visão idealizada do indivíduo como ser original e singular, em essência dotado de gênio e liberdade, questionou o processo de alienação a que teria de sujeitar-se ao aceitar as novas formas de vida imposta.
A valorização do sentimento e da emoção leva o autor romântico a explorar o subjetivismo e até mesmo a egolatria, aspectos que produzem uma literatura de tom intimista e confessional. O romântico julga-se centro do universo e o ego representa seu grande pólo de interesse, a ponto de ver na natureza e no universo mero projeções de seu mundo interior. Quebrando os padrões clássicos, a arte deveria ser expressão da emoção, intuição e inspiração, de vocabulário simples, de liberdade formal, cheia de descrições minuciosas com emprego constante de metáforas e comparações. Fazia uso da fantasia e sentimentalismo, a impulsividade, além do mistério, solidão, o conflito interior e a morte.


IV – Temática:

"Os sofrimentos do jovem Werther", de Goethe, é uma obra literária essencialmente psicológica. Considerada por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, é uma das primeiras obras do autor, de tom autobiográfico, ainda que Goethe tenha cuidado para que nomes e lugares fossem trocados e, naturalmente, algumas partes fictícias acrescentadas, como o final.
Dois anos antes da publicação do livro, o autor conhecera Charlotte Buff e não escapou à atração dessa mulher, que, sendo comprometida, não correspondia aos seus sentimentos. Enquanto escrevia “Os sofrimentos do jovem Werther”, foi Charlotte que lhe serviu de modelo para a personagem feminina do romance. Mas a obra se radica também em outro fato: o espanto causado pela morte de um colega da Universidade de Leipzig, que se suicidou para escapar a uma paixão sem esperança.
A referida obra é, portanto, o fruto de uma experiência real e dolorosa, transfigurada através da imaginação. Goethe produziu uma obra de arte a que deu como conteúdo, as suas próprias aflições e seus tormentos, os seus próprios estados de alma, procedendo como todo poeta lírico que, ao procurar aliviar o coração, exprime aquilo de que é afetado enquanto sujeito. Graças a isso, o que era interior imobilidade acha-se livre e transforma-se num objeto exterior de que a pessoa se libertou. Do mesmo modo as lágrimas servem de derivativo à dor do que, por assim dizer, se esvai através delas. Como ele mesmo o disse, Goethe escreveu o Werther para se libertar da angústia íntima, e conseguiu-o.
A obra apresenta duas temáticas principais: o amor romântico e o conflito entre indivíduo e sociedade.

V – Foco narrativo:

O romance é apresentado em forma epistolar monofônico (cartas onde só se “ouve” a voz de Werther), escrito em primeira pessoa e com poucas personagens, tem as características ideais para que o autor atinja o seu objetivo: o de conduzir o leitor tornando-os cúmplices por toda a sua visão do mundo e por todo o sofrimento do jovem protagonista.
A intimidade com a qual o leitor acompanha o nascimento do estado de paixão difere de qualquer outro romance anterior, no qual se tenha usado o recurso de exposição de cartas. Este gênero de romance estava em voga e já havia sido usado com sucesso na Inglaterra por Richardson (Pamela, 1740; Clarissa, 1748) e na França por Rousseau (A nova Heloísa, 1761), mas são, segundo Paul Kluchkohn, pálidas expressões da força do amor, se comparadas à pujança do texto de Goethe.
Werther é o narrador onisciente e através de notas de rodapé, afirma que nomes e lugares foram trocados, porém na segunda parte do livro o editor assume a narrativa no intuito de transmitir para o leitor as visões das outras personagens e assim fazer esclarecimentos necessários, que ajudam a compreender o desenrolar da história.
A coletânea de cartas ao seu amigo Wilhelm não oferece ao leitor a contraparte, mergulhando-se única e exclusivamente no mundo de um só “Eu”, o de Werther. Tudo o que se vê e se percebe é unicamente filtrado pelo íntimo da personagem, o que acentua o perfil psicológico da narrativa. Gostando ou não do modo como se apresentam e se interpretam as situações, essa é a única possibilidade que é dada ao leitor, com o qual se forma uma forte aliança, deixando-o em sintonia com os embates travados no íntimo da personagem. É uma afirmação contínua do primado da subjetividade em relação ao mundo exterior tanto em termos de conteúdo como na forma. Desse modo, pode ser revelada a verdadeira natureza interior de forma imediata.

VI – Estrutura:

A própria origem obscura do nome da personagem que intitula o romance de Goethe permite que se faça uma associação livre com o significado da palavra que está na raiz do nome. “Wert” em alemão significa valor ou valoroso e a terminação “-er” indica o grau comparativo, o que leva ao entendimento do nome “Werther” como “aquele que é mais valoroso do que”.
Essa acepção pode resumir o próprio enredo da obra que vai muito além de uma mera expressão das dores de amor de um apaixonado infeliz: a discussão sobre valores.
A arte influenciava diretamente a vida das pessoas. Invertendo-se a mão, passava-se a imitar a arte. O homem criava afinal um mundo só seu – a literatura não representa o mundo, é algo em si mesma. Nesse sentido, pode-se entender Werther como um METATEXTO, no qual um livro se constrói em diálogo com outros. Werther é um jovem que forma sua individualidade através da leitura: Homero, Ossian (James Macpherson), Klopstock e Lessing não são mencionados por acaso. Através deles, constrói-se o diálogo INTERTEXTUAL que forma uma nova maneira de ver o mundo: pelos olhos em brasa do coração.
Pode-se dividir a obra em duas partes:

PRIMEIRA PARTE: o encontro de Carlota com Werther; a forma como se encadeiam os fatos; o apego de Werther com Carlota; a intensificação desta paixão que ao decorrer do tempo, torna-se obsessivo e cada vez mais inatingível, fato que se agrava com a chegada do noivo dela, Alberto. Essa primeira parte termina com a despedida de Werther, que foge deste atormentado triângulo amoroso.

SEGUNDA PARTE: descreve o conflito existente entre o indivíduo e a sociedade. Werther se revolta com as desigualdades sociais e se frustra com as limitações de uma vida destinada ao ofício, à subordinação e à racionalidade.
Percebe-se a completa incapacidade que o protagonista possui de aceitar as convenções sociais e os limites do real.
As qualidades negativas de Werther são desenvolvidas nessa segunda parte, agravando-se principalmente no retorno ao convívio com Carlota e com a frustração de não conseguir o amor que tanto almeja. O herói romântico torna-se cada vez mais deprimido, isolado e obcecado pela morte, o que decorrer no trágico final dado pelo seu suicídio.

VI – Espaço:

Não é possível determinar se o espaço utilizado nesta obra é realístico ou ficcional. O autor afirma ter, intencionalmente, ocultado os nomes das localidades a fim de preservar-lhes de todo e qualquer constrangimento que isto pudesse lhes causar.
A natureza, que ecoa seus sentimentos e espelha a sua alma, é seu grande refúgio e fortaleza quando a realidade lhe é insuportável. Nesse sentido, a natureza assume um papel de destaque nos textos românticos. Mais do que mero cenário, ela geralmente interage com as personagens, podendo espelhar o estado de espírito delas. Assim a natureza descrita com riqueza de detalhes em “Os sofrimentos do jovem Werther” pode ser interpretado sob a ótica de um jogo de forças contrárias que constituem os movimentos distintos das duas partes do livro.
O espaço psicológico também pode ser percebido na obra, talvez não com tanta clareza como o físico, porém deve ser mencionado.

PRIMEIRA PARTE:

A primeira força que o impulsiona num movimento ascendente é percebida através da leitura positiva do mundo. A cidade de Walheim, que Werther escolheu para dar continuidade aos seus trabalhos artísticos, no caso, a pintura, era totalmente bucólica, o campo onde se via uma grande extensão de um manto verde; as árvores centenárias, a simplicidade da vida camponesa, o luar, o sol ao entardecer.
No início da primeira carta, Werther escreve:

“Uma serenidade maravilhosa inundou toda a minha alma [...]. Estou só e entrego-me à alegria de estar vivendo nesta região [...]. Estou tão feliz, meu bom amigo...”

O protagonista encontra em seus arredores um “santuário”, a natureza em primavera, que nele desperta um sentimento de culto ao divino: “tudo o que me cerca parece um paraíso”, representando uma volta à idade do ouro, anterior ao pecado original.
Inspirado em Rousseau, no conceito do “bom selvagem”, em que tudo o que há de mais puro e valioso encontra-se presente nos primitivos que ainda não foram corrompidos pela sociedade.
Werther é apaixonado pela inocência das crianças, dos homens “naturais”, “da gente humilde do lugar”, com seus “costumes patriarcais”, exemplos de uma humanidade ancestral, original e mais verdadeira.
As crianças e Werther tinham uma relação de grande afinidade. Embora toda a Idade Média julgasse as crianças, "adultos em miniatura", com o Romantismo e notadamente para Werther, elas ganharam uma nova conotação: são seres puros possuidores de todas as qualidades que tornam uma pessoa boa e todos os homens deveriam buscar nelas o modelo ideal de vida.

"As pessoas simples deste lugar já me conhecem, e gostam de mim, particularmente as crianças."

Em algumas cartas adiante, depois de despertada sua paixão por Carlota, retrata como um amor sem barreiras convencionais, por isso “natural”.
Na figura de Alberto tem-se seu antagonista, o representante do mundo do encaixe às normas burguesas de funcionalidade.

SEGUNDA PARTE:

Já no segundo livro, a força tem movimento ascendente, narrando como se sente deslocado em meio à nobreza repleta de “gente estúpida” com suas “odiosas distinções sociais”.
Werther era um profundo observador da hierarquia social e repudiava a prepotência da alta aristocracia, que mantinha longe de si o povo com medo de se tornar impura; detestava também a essência burguesa carregada de formalidades, que buscava insana e desmedidamente o poder, entremeada de ignorância e preconceito.
Werther insatisfeito encontra grande prazer na tristeza, na dor e na solidão.

"Toda a atração e sensibilidade pela natureza viva - que alimentava e aquecia meu coração, transformando o mundo à minha volta num paraíso cuja força benigna me perpassava por inteiro - tornaram-se agora para mim um tormento insuportável, que me persegue por toda parte."

"Do mesmo modo como a natureza declara agora o outono, também dentro e em volta de mim o outono se manifesta. As minhas folhas amarelecem, e as folhas das árvores vizinhas já caíram."

Cansado do artificialismo, ressurge a vontade de voltar a estar ao lado de Carlota, mas em seu regresso encontra uma natureza outonal, com folhas a cair revelando uma paisagem nua, e que nas tempestades demonstrava sua capacidade destruidora.
Assim também iam pouco a pouco morrendo as esperanças de Werther e despertando em seu íntimo a convicção pelo ato suicida.

“Somente o túmulo poderá libertar-me desses tormentos.”


VII - Tempo:

4 de maio de 1771- 20 de dezembro de 1772.


VIII - Personagens:

Werther, o protagonista e os secundários: Carlota, Alberto, Wilhelm, bailio, Sr. Schmidt, Frederica e muitos outros nomes que aparecem abreviados, mudados, cujo intuito é para não comprometer os envolvidos e também para manter respeito e sigilo, sendo este ato esclarecido no rodapé de algumas páginas.


IX – Resumo do enredo:


A obra inicia-se com o esclarecimento do narrador a respeito de que se tratará:

Juntei cuidadosamente tudo quanto me foi possível recolher a respeito do pobre Werther, e aqui vos ofereço, certo de que mo agradecereis. Sei, também, que não podereis recusar vossa admiração e amizade ao seu espírito e caráter, vossas lágrimas ao seu destino. E a ti, homem bom, que sentes as mesmas angústias do desventurado Werther, possas tu encontrar alguma consolação em seus sofrimentos! Que este pequeno livro te seja um amigo, se a sorte ou a tua própria culpa não permitem que encontres outro mais à mão!

4 de maio de 1771

O jovem Werther começa a escrever suas cartas ao amigo Wilhelm, relatando sua chegada a um vilarejo alemão. Gostara do ambiente e do ar que se respirava; sentia-se cômodo e atraído pelas impressões sublimes daquela natureza campestre, cuja beleza era comparável somente à transparência de conduta observada naquela gente humilde.
Talentoso pintor e com o propósito de desenvolver a aprimorar sua vocação, além de cuidar dos negócios que sua mãe o incumbiu, Werther sentiu “minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com a das doces manhãs primaveris que procuro fruir com todas as minhas forças.”

Maio, 12

“Nos arredores da vila encontra-se uma fonte para a qual, como Melusina e suas irmãs, me atrai uma espécie de enfeitiçamento. [...] Vejo as moças que saem da vila para buscar água, a mais inocente e a mais necessária das tarefas, outrora praticada pelas próprias filhas dos reis.”

Maio, 15

Ultimamente, ao vir à fonte, aí encontrei uma jovem criada que havia depositado o seu pote no ultimo degrau, aguardando uma companheira que a ajudasse a pô-lo à cabeça. Desci e perguntei-lhe, encarando-a: "Quer que a ajude, minha filha?" Ela ruborizou-se: "Oh! não, senhor". 

Maio, 17

“Há dias, encontrei um jovem de nome V..., caráter franco e fisionomia radiante de felicidade. [...] Quando soube que eu desenho muito e conheço o grego (duas coisas que são tidas aqui como fenomenais), procurou ligar-se a mim, desdobrando uma grande erudição, de Batteux a Wood, de Piles a Winckelmarin. Fiz também relações com um excelente cidadão, cordial e franco: é o bailio do príncipe. Dizem que é um prazer vê-lo no meio dos seus nove filhos. Louvam, sobretudo, a sua filha mais velha. Ele convidou-me a conhecê-la e eu fui fazer-lhe uma visita. Moram num pavilhão de caça pertencente ao príncipe, distante daqui légua e meia. Para lá se transferiu o bailio depois da morte da esposa, porquanto permanecer na vila, e na própria casa onde ela expirou, tornou-se para ele extremamente penoso.”

Maio, 22

“Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são precisamente aqueles que vivem, dia a dia, como as crianças...”

Maio, 26

A uma légua, mais ou menos, da vila, há uma aldeia chamada Wahlheim...
Numa bela tarde, sentando embaixo das tílias, Werther notou um menino de quatro anos, mais ou menos. Sentado no chão, sustentava sobre as pernas, de maneira a servir-lhe de cadeira, um bebe de seis meses. Sentindo-se atraído por essa cena fraternal, Werther desenhou-o, juntando-lhe a sebe próxima, algumas rodas de trole, partidas, tudo com muita realidade.

Maio, 27

A mãe é filha do mestre-escola e seu marido tinha partido à Suíça para receber a herança de um primo e ainda, não havia mandado notícias.

Maio, 30

Werther conheceu um jovem camponês que lhe contou que trabalha para uma viúva, que o trata bondosamente.

"Ela já não é moça", disse-me, "e, tendo sido muito infeliz com o marido, não quer mais casar-se."
“Sentia-se claramente, através dessas palavras, quanto ele a acha bela e sedutora, e deseja que ela o escolha para apagar a lembrança dos maus tratos sofridos com o seu primeiro esposo!”

Junho, 16

Werther justifica a ausência de suas cartas: conheceu alguém que tocou o seu coração.

“Uma alma tão serena e tão cheia de vida e energia! (...) Que maravilha para a minha alma tê-la visto em meio da algazarra das crianças, seus oito irmãozinhos! “
Os jovens daqui organizaram um baile no campo. Aceitei o convite que me foi feito, oferecendo-me como cavalheiro a uma jovem da vila, boa e bonita, mas insignificante quanto ao mais. Combinou-se que eu arranjasse um carro para levar à festa a minha dama e uma sua prima, e, de passagem, apanhássemos Carlota S ..., a filha do bailio.
- O senhor vai conhecer uma linda criatura - disse a minha companheira, quando nos dirigíamos, através do bosque imenso e bem cuidado, para o pavilhão de Caça. E a prima acrescentou:
Não vá apaixonar-se. - Por que? - respondi eu. - Porque ela já está prometida a um belo rapaz.
Ele está de viagem, a fim de regularizar os seus negócios, pois acaba de perder o pai. E também para arranjar um bom emprego. Tudo isso deixou-me indiferente.
Eu havia apeado quando apareceu uma criada para pedir-nos que esperássemos um pouco, pois "a Srta. Carlota" não tardaria. Atravessei o pátio que conduz a uma bela casa e, ao pisar a soleira, deparei com um dos quadros mais encantadores jamais visto em minha vida. No vestíbulo, seis crianças, de dois a quinze anos, se alvoroçavam em torno de uma jovem bem proporcionada, de talhe médio, metida num singelo vestido branco adornado de nós cor-de-rosa nas mangas e no corpete. 



Ela cortava um pão preto em fatias circulares, entregando-as alegremente a cada criança, de acordo com a sua idade e apetite! Cumprimentei-a timidamente; minha alma estava inteiramente presa do encanto do seu rosto, da sua voz, das suas maneiras.”

Durante o caminho para o baile, falaram sobre literatura e sobre o prazer da dança.
Os dois senhores, Audran e N. N, cavalheiros de Carlota e da prima, vieram receber-nos no portão.
Carlota e seu par começaram uma inglesa. Werther convidou-a para a segunda contradança e ela concedeu a terceira.

“Wahlheim, para falar francamente, jurei a mim mesmo que, se amasse uma jovem e tivesse qualquer direito sobre ela, preferia fazer-me matar a consentir que ela valsasse com outro, você me entende.”

Durante a dança, uma senhora sorriu para Carlota e, ameaçando-a com o dedo, pronunciou duas vezes, intencionalmente, o nome de Alberto.

“- Se não é indiscrição, quem é esse Alberto? - perguntei a Carlota.
Alberto, um belo rapaz, é meu noivo faz pouco tempo.”

Antes de findar a dança, os relâmpagos e os trovões abafaram a música.  
Carlota preocupou-se em arranjar as cadeiras em círculo, pedindo a todos que se sentassem e propõe uma brincadeira para distraí-los.

Junho, 19

Depois do baile, Werther deixou-a em sua casa e pediu que permitisse ir vê-la naquele mesmo dia. Ela consentiu e a partir desse momento, “o sol, a lua e as estrelas podem continuar a brilhar, sem que eu dê por isso. Não sei mais se faz dia ou noite; o universo inteiro não mais existe para mim.”

Junho, 21

“Meus dias de felicidade são como os que Deus reserva aos seus santos.”

Junho, 29

“Sim, meu caro Wahlheim, não há nada no mundo que me interesse tanto como as crianças. Quando as observo, noto nesses pequenos seres o germe de todas as virtudes, de todas as faculdades que um dia lhes serão tão necessárias.”

Julho, 1

Werther acompanha Carlota em visita ao pastor de St...

“As belas nogueiras que nos forneciam uma sombra tão agradável, o velho, cheio de animação, posse a contar-nos a sua história, embora arrastasse um pouco a língua, com dificuldade.”

Nesse momento, chegam Frederica, a filha do pastor e o Sr. Schmidt, um homem bem educado, mas taciturno, que não quis participar da conversação.
Depois de um passeio pela redondeza, a conversa incidiu sobre as alegrias e as tristezas do mundo. Werther aproveitou a ocasião para discursar sobre o mau humor:
Enquanto falava, Carlota sorriu e Frederica deixou cair uma lágrima.

Julho, 6

Werther narra seu passeio pela fonte em companhia de Carlota, Mariana e Amélia.

Julho, 8

“Eu buscava os olhos de Carlota, mas, ai de mim, eles iam de um lado para outro, sem pousar em mim, que ali estava sentindo outro pensamento que não fosse para ela! Meu coração mil vezes lhe repetia adeus, e ela não me via!”

Julho, 10

“A triste figura que eu faço quando se fala dela numa roda! Você precisava ver-me! E, melhor, quando me perguntam se ela me agrada!”

Julho, 11

A senhora M ... está muito doente e Carlota está sofrendo com isso.
O velho M ... é um homem incrível, de uma avareza sórdida. Há dias, quando o médico a desenganou, ela mandou chamar o marido, em presença de Carlota, e disse-lhe:

"É preciso que confesse a você uma coisa que poderá, depois da minha morte, causar embaraços e aborrecimentos. Até aqui, governei a casa com a ordem e economia que me foram possíveis; mas há de perdoar-me por tê-lo enganado durante trinta anos. No começo do nosso casamento, você fixou uma soma muito módica para todas as despesas. Quando nosso trem de vida aumentou, pois as nossas relações se multiplicaram, não me foi possível convencer você a aumentar, na mesma proporção, o que continuou a entregar-me todas as semanas: numa palavra, você sabe que exigiu de mim que fizesse face às despesas, já consideráveis, com 7 florins por semana. Eu os recebia sem reclamar; cada semana, porém, eu mesma retirava o excesso para cobrir a receita, porque ninguém ia suspeitar que sua mulher fosse capaz de roubar a sua própria caixa.”

Julho, 13

“Não, eu não me engano! Li nos seus olhos negros um verdadeiro interesse por mim e pela minha sorte. Sim, eu sinto que meu coração pode crer que ela... Ousarei, poderei pronunciar estas palavras que resumem o paraíso?... Eu sinto que ela me ama! [...] E, no entanto, quando ela, com tanto calor e afeto, fala do seu noivo... é como se eu fosse um homem despojado de todas as honrarias e dignidades, e ao qual arrebatassem a própria espada, fogo, e uma força secreta impulsiona-me de novo.”

Julho, 18

“Wahlheim, que seria, para o nosso coração, o mundo inteiro sem amor? O mesmo que uma lanterna mágica apagada!”
Werther não pode ir visitar Carlota, mas mandou seu criado e só o fato de “pensar que os olhos de Carlota tinham pousado em seu rosto, nas suas faces, nos botões da sua libré, no seu colete, fez com que ele se tornasse para mim tão precioso, tão sagrado!”

Julho, 19

“Vou vê-la!”
Julho, 20
“Não me conciliei ainda com a ideia de acompanhar o embaixador... Jamais pude gostar da subordinação; além do que, todos nós sabemos tratar-se de um homem muito desagradável.
Segundo diz você, minha mãe deseja que eu me ocupe de alguma coisa; isso me fez rir. Não estou eu, então, ocupado neste momento?”

Julho, 24

“Você insiste tanto para que eu cuide do meu desenho (...) minha faculdade, expressão é tão fraca, tudo flutua e vacila de tal modo diante de mim, que não posso fixar nenhum contorno. Três vezes comecei o retrato de Carlota, três vezes fiquei envergonhado, tanto mais quanto, até há bem pouco tempo, eu podia surpreender-lhe os traços com muita felicidade. Desenhei, afinal, a sua silhueta, e é preciso que isto me baste.”

Julho, 25      
  
“Sim, querida Carlota, ocupar-me-ei de tudo, darei todos os seus recados; não tema enviar-me novas incumbências, sempre e sempre!”

Julho, 26
“Tomei, já, várias vezes, a resolução de não ir vê-la tão amiúde. [...] Quando chega o dia seguinte, sempre encontro qualquer motivo imperioso para lá ir e só dou acordo de mim junto dela. Ou então, é ela quem diz, à noite: "Você virá amanhã, não?"
Julho, 30

“Alberto está de regresso e eu quero partir. Quando ele fosse o melhor, o mais nobre dos homens, de maneira que eu me reconhecesse inferior a ele sob todos os pontos de vista, ainda assim não suportaria vê-lo, com os próprios olhos, possuidor.”

Ele é um homem amável, inteligente e trata Werther com estima e atenção.

“Antes de Alberto chegar, eu já sabia tudo quanto sei agora: que não posso alimentar qualquer pretensão a respeito dela, e não tinha nenhuma ... pelo menos até o ponto em que é possível não desejar nada em presença de tantas seduções. E, no entanto, o imbecil que eu me tornei arregala os olhos porque o outro chegou para arrebatar a sua bem-amada! [...] Espero o momento em que ele está ocupado e sigo rapidamente para lá, sentindo, apesar de tudo, uma grande felicidade quando a encontro sozinha.”

Agosto, 8

Meu caro Wahlheim, não creia que me referi a você quando disse que acho intoleráveis as pessoas que exigem de nós resignação ante o irremediável.
Eis o que você me disse:

"Ou você tem alguma esperança de obter Carlota, ou não tem. Assim, no primeiro caso, faça todo o esforço para realizar essa esperança e chegar ao cumprimento dos seus votos; no segundo, tome uma resolução viril, procurando livrar-se de um sentimento funesto que consumirá inevitavelmente todas as suas forças.
Pode-se, acaso, exigir de um desgraçado, cuja vida se extingue pouco a pouco sob a ação surda e lenta, mas irresistível, da doença, que ponha termo imediatamente aos seus sofrimentos com um golpe de punhal? O mal que consome as suas forças não lhe retira ao mesmo tempo a coragem de suicidar-se?”

Agosto, 10

“Fazer parte da mais encantadora das famílias; amado pelo velho pai como um filho, pelos filhos como um pai; amado por Carlota e por esse excelente Alberto, que não perturba nunca a minha felicidade com um capricho, com uma falta de atenção, envolvendo-me numa amizade tão sincera que, depois de Carlota, não creio que estime a mais ninguém, tanto quando me estima! ... Wahlheim, como nós nos entendemos, passeando juntos e conversando a respeito de Carlota! Nunca se imaginou nada mais ridículo do que esta situação, e no entanto, as lágrimas nos vem muitas vezes aos olhos. Quando ele me fala da mãe de Carlota e conta como, em seu leito de morte, confiou os cuidados da sua casa e das suas crianças à filha; como, a partir desse momento, Carlota se animou de um espírito inteiramente novo e tornou-se, por sua solicitude de dona de casa e por sua gravidade, uma verdadeira mãe; como não houve mais um só minuto, do seu tempo, que não o consagrasse a um carinho, a algum trabalho pelos seus, sem perder, entretanto, a alegria e o humor fácil!
Não sei se escrevi a você dizendo que Alberto deverá permanecer aqui e vai obter do tribunal, onde é muito estimado, um ótimo lugar. Não conheço quem se lhe compare em ordem e assiduidade ao trabalho.”

Agosto, 12 

Numa tarde, Werther foi despedir de Alberto, pois ia fazer uma excursão a cavalo pela montanha e passeando pelo quarto, descobriu as suas pistolas. Pediu-as emprestadas e Alberto explica-lhe que estavam descarregadas, depois de um tiro acidentalmente feriu uma criada. 
Werther apontou o cano da pistola à fronte, abaixo do olho direito e Alberto perguntou-lhe o que significava esse ato e completou:

“- Não posso imaginar como um homem seja bastante insensato para estourar os miolos; esta única ideia me inspira uma verdadeira repulsa.
- Por que é que os homens - gritei - não podem falar de uma coisa sem logo declarar: Isto é insensato, aquilo é razoável, aqueloutro é bom, isso aí é mau"?

Ambos expõem seus pontos de vistas: Alberto vê o suicídio como fraqueza e crime; enquanto que, Werther defende a ideia de que “a natureza humana é limitada: ela suporta a alegria, a tristeza, a dor, até certo ponto; se o ultrapassar, sucumbirá. A questão não é saber, pois, se um homem é forte ou fraco, mas se pode aturar a medida de sofrimento, moral ou físico, não importa, que lhe é imposta. Neste caso, acho tão absurdo dizer que um homem é covarde por haver dado cabo da própria vida, como seria absurdo chamar de covarde o que corre de uma febre maligna.”

Em seguida, Werther narra a história de uma camponesa que se suicidou após ter sido abandonada por seu amado. Alberto responde-lhe que se tratava de uma jovem simplória, levando Werther retrucar que “o homem é sempre o homem”.
Agosto, 15
Werther continua frequentar a casa de Carlota. Brinca com as crianças e conta-lhes histórias.

Agosto, 18

“Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças?”

Agosto, 21

Werther sonha ter Carlota em seus braços e quando desperta, chora cheio de amargura.

Agosto, 22

“Não tenho mais imaginação, nem sentimento da natureza, e os livros só me inspiram tédio. [...] Não é de hoje que o ministro se mostra meu amigo; há muito tempo aconselha-me a seguir uma profissão qualquer.”

Agosto, 28

“Sendo hoje dia do meu aniversário, pela manhã recebi um pequeno embrulho da parte de Alberto. Abrindo-o, descobri logo um dos nós cor-de-rosa que Carlota trazia no corpete, quando a vi pela primeira vez e, depois, não me cansei de pedir-lhe. Havia, ainda dois volumes in-12, a edição portátil de Homero, que tanto desejava para não mais carregar a de Ernesti em meus passeios. [...] Beijo mil vezes o nó cor-de-rosa e a todo momento, minha alma aspira a recordação das delícias de que tenho sido cumulado nestes poucos dias felizes, que passam e não voltam mais.”

Agosto, 30

“Só vejo um fim a esses tormentos: o túmulo.”

Setembro, 3

Werther escreve ao amigo dizendo que não aguenta mais esse triângulo amoroso, que é preciso que ele parta de lá.
 
Setembro, 10

Werther foi encontrar-se com Carlota e Alberto, no jardim. Carlota diz que sempre que passeia a luz do luar, pensa em seus entes queridos, que partiram dessa vida e em seguida, pergunta:

“- Mas, Werther, nós nos tornaremos a encontrar? Nós nos reconheceremos? Que pensa você de tudo isso, diga.
- Carlota - respondi eu, estendendo-lhe a mão e com os olhos marejados de lágrimas, nós nos encontraremos! Sim, nós nos encontraremos aqui e lá em cima!”
Carlota recorda-se da morte de sua mãe, da promessa que fez em criar seus irmãos e de seu pai. Lembra-se de que Alberto jurou-lhe que faria Carlota feliz. 
“- Nós nos tornaremos a ver! - exclamei. - Nós havemos de nos encontrar de novo; havemos de nos reconhecer, sob qualquer forma! ... Eu parto, mas parto voluntariamente, e, no entanto, se fosse preciso dizer "Para sempre!", não poderia suportá-lo. Adeus, Carlota, adeus Alberto! Nós nos veremos ainda.”

SEGUNDA PARTE:

20 de outubro de 1771

“Chegamos ontem aqui. O embaixador acha-se indisposto e deverá guardar o leito por alguns dias. Se ele tivesse um pouco mais de boa vontade, tudo iria muito bem. Sinto perfeitamente que o destino me reserva bem duras provas.”

Novembro, 26

Werther conheceu o Conde de C..., homem de espírito vasto e superior, isento de frieza, sensível, embora abrangendo um mundo de conhecimentos.

Dezembro, 24

O convívio com o embaixador causa em Werther muitos aborrecimentos.

“Sempre insatisfeito consigo mesmo, ninguém poderá nunca satisfazê-lo.
Gosto de escrever de um jato, não retocando o que escrevo; pois bem, ele é capaz de devolver-me um memorando e dizer-me:
Está bom, mas é preciso revê-lo. Encontra-se sempre uma expressão melhor, uma partícula mais justa".

O embaixador percebendo a preferência de Werther pelo embaixador aproveita todas as ocasiões para me falar mal do conde.
Werther se irrita com as odiosas distinções sociais do lugar.
Durante um passeio, Werther conheceu a Srta. de B...., criatura amável e que conserva muita naturalidade em meio dos seus hábitos grã-finos.
A Srta. de B...estava hospedada em casa de uma velha tia, que se encontrava despojada de tudo em sua velhice, não possuindo fortuna nem espírito, não tendo em que apoiar-se a não ser a sua genealogia, outro refúgio a não ser a classe onde se a tocaia como numa trincheira, nem outro prazer senão o de olhar de alto a burguesia. Fora bela em sua juventude e que estragou, com uma série de loucuras, a sua existência. Começou por desgraçar com os seus caprichos vários jovens; depois, já um pouco madurona, teve de humilhar-se ao jugo de um velho oficial que, em troca da sua obediência e uma renda razoável, consentiu em passar junto dela a idade de bronze. Esse oficial morreu e, agora, tendo chegado à idade de ferro, ela se encontra inteiramente só. Ninguém lhe ligaria a mínima importância se sua sobrinha não fosse tão amável.

8 de janeiro de 1772

“Que gente esta, cuja alma está inteiramente amarrada à etiqueta, aplicando, durante anos, todos os seus pensamentos e esforços a manter-se rigidamente à mesa!”
Janeiro, 20
“Minha querida Carlota é preciso que eu lhe escreva esta carta (...) Não sei por que me deito e por que me levanto. Encontrei aqui um único ser que merece o nome de mulher: é a Srta. de B ... “Ela gosta muito de ouvir falar a seu respeito, ela ama você, querida Carlota ...

Fevereiro, 8

“Há oito dias que faz um tempo abominável e isto me encanta, porque, desde que aqui cheguei, não houve um belo dia que alguém não me tenha envenenado.”

Fevereiro, 17

“Temo que nós, eu e o embaixador, não possamos trabalhar juntos por muito tempo. ele deu parte à Corte, a respeito da minha conduta; o ministro fez-me uma reprimenda.”

Fevereiro, 20

“Alberto, agradeço-lhe de me haver iludido. Esperava a comunicação do dia marcado para as suas núpcias e havia resolvido que, nesse dia, a silhueta de Carlota seria solenemente retirada da parede e guardada com outros papéis. E agora, já unidos, o retrato ali continua ainda! Neste caso, ali permanecerá! Por que não? Sei que vivo também junto de vós, e no coração de Carlota, sem que isso moleste a você; sei, mesmo, que tenho ali o segundo lugar e quero, devo conservá-lo. Oh! Eu enlouqueceria se ela viesse a esquecer ... Alberto, este pensamento é um inferno! Adeus, Alberto!
... Anjo do céu, adeus! Adeus, Carlota!”

Março, 15

“Acabo de sofrer uma afronta que me fará sair daqui.”

Num jantar na casa do Conde de C..., onde estavam presentes os senhores e as damas da nobreza, inclusive a Srta. de B..., Werther foi tratado com desdém e indiferença, levando o conde pedir delicadamente, que Werther se retirasse.

Março, 16

Werther, em outra ocasião, encontrou-se com a Srta. de B ... e, foi queixar-se de seu comportamento no jantar da casa do conde.
Ela disse-lhe que se sentia triste pelo ocorrido e que ainda, “ontem à noite e ainda esta manhã, ela (sua tia) me fez um sermão por causa da minha amizade por você. Tive que ouvir destratá-lo, humilhá-lo, e não podia, não ousava defende-lo senão por meias palavras!”

Março, 24

Werther apresentou sua carta de demissão à Corte. Escreveu uma carta ao seu amigo pedindo-lhe que suavizasse perante sua mãe esta notícia desagradável, de não ver seu filho seguir carreira.
Werther acrescenta que irá para a casa do Príncipe de....passar a primavera em suas terras.

Abril, 19

Enfim, Werther recebeu da Corte a sua exoneração.

Maio, 5

Werther vai visitar a sua vila natal “quero revê-la e recordar os dias felizes que se perderam no sonho. Entrarei pela mesma porta por onde saí de carro com a minha mãe, quando, depois da morte de meu pai, ela deixou esses lugares tão queridos, tão familiares, para encerrar-se na sua vila insuportável. Adeus, Wahlheim! Você receberá notícias da minha jornada.”

Maio, 9

“Parei embaixo da tília que fora, na minha infância, o motivo e o termo dos meus passeios. Como tudo está mudado! [...] com que tristeza eu me afastava deste lugar querido!”

Werther, em seguida, encontra-se no castelo de caça do príncipe. “Estou vivendo até agora em ótimas condições com esse senhor, homem sincero e simples, embora o veja cercado de gente que me parece um tanto singular e não chego a compreender. O aborrecido em tudo isso é que o príncipe fala sempre de coisas que só conhece por ouvir dizer, ou através de leituras, mas adotando exatamente o ponto de vista que lhe impingem.”

Maio, 25

Werther sonha em ser soldado, mas o Príncipe dissuadiu-o, pois sentiu que não se tratava de uma verdadeira paixão e sim, de uma fantasia.

Julho, 11

“Diga você o que quiser: não posso ficar mais aqui, onde nada tenho a fazer e o tédio toma conta de mim. O príncipe trata-me o melhor possível, mas sinto-me deslocado.”

Julho, 16

“Sim, nada mais sou do que um viajante, um peregrino sobre a terra! E você é alguma coisa mais do que isso?”

Julho, 18

Werther deseja somente estar perto de Carlota.

Julho, 29

Werther imagina-se casado com Carlota e acredita que ela, seria mais feliz com ele.

Agosto, 4

Werther foi visitar a mulher da tília e ficou sabendo da morte do seu filho mais novo, o Joãozinho. O marido havia voltado da Suíça com as mãos vazias. Se não fossem algumas almas caridosas, ele teria feito a jornada como mendigo, pois além de tudo apanhou a febre.

Agosto, 21

"Que aconteceria se Alberto morresse? Você poderá ... Sim, ela tornar-se-á. . . [...] Quando deixo a vila, tomando o caminho que fiz pela primeira vez, de carro, no dia em que fui buscar Carlota para conduzi-la ao baile, penso como tudo então era diferente!Tudo, sim, tudo desapareceu!”
Setembro, 3

“Não compreendo que outro a ame, que outro tenha o direito de amar essa criatura, quando eu a amo, eu somente, de um amor tão ardente, tão completo! Quando não conheço ninguém, não sei nada, não possuo outra coisa a não ser Carlota!”

Setembro, 4

“Sim, é isso mesmo! Assim como a natureza se inclina para o outono, também o outono vive dentro de mim e em torno de mim. As folhas da minha alma vão amarelecendo, enquanto as folhas das árvores vizinhas tombam.”

Werther narra seu reencontro com o aldeão apaixonado pela patroa.

“Não podia mais comer, nem beber, nem dormir; no seu estado de angústia, fazia tudo ao contrário e esquecia as ordens que lhe davam. Era - como se estivesse possuído de um mau espírito. Afinal, um dia, sabendo que ela se achava num quarto do andar superior, foi procurá-la, ou por outra, sentiu-se atraído para ela. Repelido em suas declarações, quis violentá-la. Não sabe como isso aconteceu. Toma Deus em testemunho de suas intenções honestas: o que desejava, e desejava-o ardentemente, era desposá-la e passar junto dela o resto da vida. Depois de falar algum tempo, calou-se subitamente como um homem que tem ainda alguma coisa a dizer, mas não ousa. Por fim, confessou-me com a mesma timidez as familiaridadezinhas que ela lhe permitiu e a intimidade que acabou por autorizar entre ambos.[...] A mulher defendeu-se, o irmão correu em seu socorro. Este último odiava o rapaz e desejava vê-lo despedido da casa, temendo que a irmã, por um segundo casamento, arrebatasse a herança dos seus filhos, dele, irmão, visto que ela não tem filhos. Não só expulsou o rapaz imediatamente, como fez um tal escândalo sobre o caso que a viúva não poderia, mesmo que quisesse, retê-lo a seu serviço.
Agora, ela tem um novo empregado, que, segundo dizem, também dá motivo a rusgas entre essa mulher e o irmão.”

Setembro, 5

“Ela acabava de escrever ao esposo, retido no campo por causa de uns negócios, um bilhete, que começa assim: "Meu melhor, meu queridíssimo amigo, venha logo que puder! Eu o espero com uma alegria extrema..." Nisto entra um amigo, trazendo o recado de que Alberto ainda se demoraria por algum tempo.
O bilhete não foi enviado e, à tarde, caiu-me sob os olhos. Li aquelas palavras e sorri; ela perguntou-me por que eu ria e não pude deixar de exclamar:
- Que dom divino é a imaginação! Por alguns momentos pareceu-me que essas palavras tinham sido escritas por mim!”

Setembro, 6

“Foi com grande pesar que tive de por de lado, como um imprestável, o fraque azul que eu envergava quando dancei pela primeira vez com Carlota. Mandei, porém, fazer outro exatamente igual...” 

Setembro, 12

Werther visita Carlota e encontra-a alimentando um canário. “E, colocando algumas migalhas nos lábios, que desabrocharam num sorriso onde havia todas as delícias do amor feliz, da ternura inocente, ofereceu-as ao canário.
Virei à cabeça para não ver aquilo. Ela não deve fazê-lo, excitando a minha imaginação com tais cenas de cândida e celestial felicidade, despertando meu coração que às vezes dorme embalado pela insignificância das coisas deste mundo! E por que não? ... Se ela confia tanto em mim, é porque sabe quanto a amo.”

Setembro, 15

Werther relata que as nogueiras da casa do digno pastor de St... foram abatidas.
A culpada foi a mulher do novo pastor (nosso bom velhinho morreu), com a saúde completamente arruinada, nenhum prazer encontrava ela, nesta terra de Deus. Quando Werther perguntou:

"Por que vocês suportam isso?
Responderam-me:
Aqui, quando o prefeito quer uma coisa, que podemos fazer? Bem feito para o prefeito e o pastor!”

Outubro, 10

“Para que eu seja feliz, basta contemplar seus olhos negros! E, veja você, o que me aborrece é que Alberto não me pareça tão feliz como... esperava.”

Outubro, 12

“Ossian suplantou Homero no meu coração. Que mundo aquele para onde me leva o poeta sublime!
Errar sobre a charneca enquanto sopra em torno o vento tempestuoso que arrasta para as nuvens vaporosas, à pálida luz da lua, os fantasmas dos avôs; ouvir nas montanhas, de mistura com o mugido das torrentes que ecoam dentro das florestas, o gemido abafado dos espíritos em suas cavernas, e o pranto da jovem desfalecendo de dor sobre as quatro pedras musgosas que pesam no túmulo do seu bem-amado morto heroicamente! E, depois, encontrar o bardo de cabeça grisalha percorrendo a vasta charneca em busca dos seus ancestrais para descobrir, ai dele, somente os seus túmulos! E quando, então, gemendo de dor, ele ergue o olhar para a doce estrela vespertina que se oculta no mar proceloso, o passado revive em sua alma heróica, passado em que o astro, com os seus raios propícios, ainda iluminava os bravos em meio dos perigos, e a lua derramava a sua luz sobre o navio que regressava vitorioso e enguirlandado. Leio-lhe na fronte a mágoa profunda. Sim, é triste ver esse nobre guerreiro, único sobrevivente da sua raça, - caminhar, cansado e vacilante, para a tumba, sentindo a cada momento uma alegria nova, ardente e dolorosa, ao rever as sombras impotentes dos seus mortos; e, baixando o olhar sobre a terra fria, sobre a erva que ondula ao vento, exclamar:
O viajante há de voltar, há de retornar aquele que me conheceu em plena mocidade, para perguntar: "Onde está o bardo, o ilustre filho. Seu pé calcará minha sepultura e em vão há de procurar-me sobre a terra! " ... ó meu amigo, eu queria, como um nobre escudeiro, sacar da espada e, com um só golpe, libertar meu príncipe do horroroso suplício de uma vida que outra coisa não é senão a morte prolongada; e, depois, enviar minha alma ao encontro desse semideus libertador!”

Outubro, 19

"Se você pudesse uma vez, ao menos uma vez, apertá-la contra o coração, esse vazio seria preenchido".

Outubro, 26

Werther escuta Carlota conversando com uma amiga sobre as novidades da vila:
que esta vai casar-se, que aqueloutra está muito doente. "Tem uma tosse seca, os ossos do seu rosto furam a pele, sofre constantes vertigens; não dou nada pela sua vida", dizia a amiga. "O senhor N. N. também está muito mal", respondeu Carlota. "Ele está inchado", acrescentou a outra.
O protagonista fica a imaginar se ele partisse e se desaparecesse deste círculo, por quanto tempo sentiriam o vazio que a sua perda lhes havia de causar?

Outubro, 27

“Quantas vezes tenho vontade de rasgar o peito e estourar o crânio vendo que somos tão pouca coisa uns para os outros! Ah! O que trago em mim de amor, alegria, calor e embriaguez só de mim depende, não me poderá ser dado por outrem...”

Outubro, 27, à tarde

“Tenho-a toda em mim, e o sentimento que experimento por ela absorve tudo. Tenho-a toda em mim, e sem ela tudo é para mim como se não existisse.”

Outubro, 30

“Já estive cem vezes para atirar-me ao seu pescoço! Deus todo-poderoso, vós sabeis o que se sente ao ver tantas seduções, sem ter-se o direito de estender a mão e agarrar tudo o que nos fere os sentidos? ... E eu?”

Novembro, 3

“Só Deus sabe quantas vezes mergulho no sono com a esperança de nunca mais despertar; e, pela manhã, quando arregalo os olhos e torno a ver o sol, sinto-me profundamente infeliz. [...] Aumenta o meu sofrimento verificar que perdi aquilo que fazia o encanto da minha vida.”

Novembro, 8

Werther começa a cometer excessos e se embriagar. Carlota o repreende e pede que pense nele.

“Você precisa mandar que eu pense em você? Penso ... Não; não penso! Você está sempre em minha alma. Hoje, estive sentado no mesmo lugar onde você desceu do carro. . .
Ela mudou de conversa, para impedir que eu me estendesse muito.
Meu amigo, sou um homem perdido! Ela faz de mim o que quer.”

Novembro, 15

“Qual é o destino do homem senão suportar a parte de sofrimento que lhe toca, tragar seu fel até a última gota?”

Novembro, 21

“Por que me deita ela, tantas vezes, um olhar benevolente? [...] Ontem, à hora da partida, ela estendeu-me a mão dizendo:
Adeus, querido Werther!" Querido Werther! É a primeira vez que me chama querido, e isso penetrou-me até  a medula dos ossos.”

Novembro, 22

“Não posso dizer a Deus: Fazei com que ela seja minha! E, no entanto, parece-me, às vezes, que ela me pertence. Não posso dizer: Fazei com que ela seja minha, porque é de outro.”

Novembro, 24

“Ela sente que eu sofro. Hoje, o seu olhar penetrou até o fundo do meu coração.
[...] Jamais terei a audácia de imprimir em vós um beijo, ó lábios em que pairam os espíritos do céu! E, no entanto ...eu quero ...”

Novembro, 26

“Às vezes, digo a mim mesmo: seu destino é sem exemplo; você pode estimar aqueles que são felizes, e ninguém foi ainda torturado como você.
E, depois, leio qualquer poeta de tempos idos, parecendo que lanço um olhar para dentro do meu próprio coração. Sofro tanto, ai de mim! Teria havido, então, antes de mim, homens tão desgraçados?”
 
Novembro, 30

Werther durante um passeio pela beira do riacho encontrou-se com um homem vestido com uma esfrangalhada roupa verde que colhia flores para entregar à sua boa amiga. Werther pergunta quem era ela, e o rapaz diz que:

“- Se os Estados-Gerais quisessem pagar-me prosseguiu, eu seria outro homem.”

A mãe do rapaz (Henrique) surge e explica que:

“- Há seis meses que ele ficou tranquilo, louvado seja Deus! Antes, esteve furioso durante um ano inteiro; foi preciso acorrentá-lo num hospital de loucos. Agora, não faz mal a ninguém; somente não se ocupa de outra coisa senão de reis e imperadores. Era um ótimo rapaz, era quem me ajudava, porque tinha uma bela caligrafia. De repente tornou-se melancólico, foi acometido de uma febre, passou a delirar e agora é o que o senhor vê. Se eu pudesse contar ao senhor... [...] ó desgraçado, como eu invejo a melancolia e o alheamento de espírito em que você vegeta! Você sai tão cheio de esperança, em pleno inverno, a fim de colher flores para a sua rainha, e aflige-se por as encontrar, e não compreende por que não pode encontrá-las. E eu ... eu saio sem esperança e sem destino, retornando tal como saí...”

Dezembro, 1

“Wahlheim, o homem de quem lhe falei na minha última carta, esse feliz desventurado, era empregado do pai de Carlota, e o que o enlouqueceu foi a paixão por ela, que alimentou, primeiro secretamente, declarando-se depois, o que deu motivo a que o despedissem. Que estas secas palavras façam você sentir em que estado de perturbação me lançou essa história, quando Alberto me contou com o mesmo ar tranquilo com que você, talvez, vai lê-la.”

Dezembro, 4 


Werther escuta Carlota tocar uma ária em seu cravo e põe-se a caminhar pela sala. De repente exclama com violência:
 "Pelo amor de Deus, basta!" Ela interrompeu-se e olhou-me fixamente.
"Werther", disse ela com um sorriso que me trespassou a alma; "Werther, você está bem doente, pois que até os seus alimentos prediletos já lhe repugnam. Vá para casa, peço-lhe, e procure acalmar-se!"
Dezembro, 6
“Como a sua imagem me persegue! Quer vele, quer sonhe, ela enche a minha alma inteira!”
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O narrador assume a narrativa e desabafa que desejaria que os últimos dias de Werther, fossem testemunhos firmados pelo seu próprio punho, de sorte que não me visse obrigado a interromper a série de cartas que ele nos deixou, para completá-las com este relato!

Sem esses dados confessionais, buscou alguns depoimentos de pessoas próximas a Werther, intercalando na narrativa as cartas deixadas por Werther, encontradas entre seus papéis.

“O desgosto e o desalento mergulharam suas raízes cada vez mais na alma de Werther e, alastrando-se como uma vegetação abafada, acabaram por tomar inteiramente conta do seu ser. [...] Em sociedade, mostrava-se cada vez mais sombrio, cada vez mais desgraçado e, também, cada vez mais injusto à medida que se ia tornando mais infeliz. É, pelo menos, o que dizem os amigos de Alberto, os quais afirmam que, dissipando cotidianamente todos os motivos de contentamento, para encontrar-se à noite em estado deplorável, Werther mostrava-se incapaz de julgar o caráter daquele homem calmo e virtuoso que, de posse de uma felicidade longamente desejada, tratava de assegurar essa felicidade para o futuro. Alberto, dizem eles, não mudara em tão pouco tempo: era o mesmo homem que Werther, desde o começo, conhecera e tanto havia apreciado e estimado.
Amava Carlota, antes de tudo, zelando por esse amor, e desejava que ela fosse por todos reconhecida como a mais perfeita das mulheres. [...]Todos são acordes em dizer que Alberto quase sempre se retirava da sala quando Werther ia visitar sua esposa; mas não o fazia por ódio, por aversão, e sim por sentir que sua presença era penosa para o amigo.”

Werther foi ao encontro de Carlota, na casa de seu pai. Ao chegar à casa do bailio notou certa agitação. O mais velho dos rapazes contou-lhe que tinha acontecido uma desgraça em Wahlheim, onde um camponês fora assassinado.
Não se sabia ainda quem era o culpado, pois a vítima fora encontrada, pela manhã, diante da porta da sua casa, mas havia suspeitas: o morto tinha sido criado na granja de uma viúva, substituindo, lá, um outro que fora despedido.
Werther correu a Wahlheim e certificou-se de que o assassino era o homem com o qual havia muitas vezes conversado e pelo qual tinha um grande apego, o empregado que se apaixonara loucamente pela viúva.

"Desgraçado, que foi que você fez? Exclamou Werther, correndo ao encontro do prisioneiro. Este o encarou tranquilamente, sem nada dizer e, por fim, respondeu com calma:
- Ninguém a possuirá; ela não possuirá ninguém.
Uma irresistível simpatia aumentou nele o desejo inexprimível de salvar aquele homem. Achando-o tão desgraçado, julgando-o tão inocente, por mais criminoso que fosse de tal modo se identificava com o seu ato que estava certo de fazer os outros partilhar a sua opinião.”

Werther imediatamente tentou interferir pelo empregado, pedindo ajuda ao bailio, em sua defesa. O bailio não se comoveu e demonstrou-lhe que, desse modo, todas as leis seriam abolidas e a segurança pública inteiramente liquidada.
Werther não se rendeu a tais razões e pediu ao bailio para fechar os olhos, pelo menos, se facilitassem a fuga do rapaz. O bailio repeliu igualmente esse pedido. Misturando-se por fim a conversação, Alberto adotou o ponto de vista do sogro e Werther, vencido pelo numero, retirou-se de uma dor inenarrável, após ouvir o bailio repetir inúmeras vezes: "Não, não é possível salvá-lo!"

A profunda impressão que lhe produziram essas palavras aparece num fragmento encontrado entre os seus papéis, e que ele teria escrito, com certeza, naquele mesmo dia:"Não é possível salvar-te, ó infortunado! Vejo bem que não nos poderemos salvar!"
O que Alberto disse a respeito do preso, no final da cena com o bailio, magoou profundamente Werther, que viu em tudo isso qualquer ressentimento contra si próprio.
Alberto conversou com Carlota sobre Werther e expressou o desejo de arranjar-se um meio de afastá-lo.

"Desejo isto, tanto por mim como por você, acrescentou ele; neste caso, faça o                               possível para modificar a conduta dele em relação a você e tornar suas visitas menos frequentes. Começam a notá-las e sei que já murmuraram a respeito em alguns lugares."
Carlota nada respondeu e Alberto pareceu magoado com o seu silêncio; pelo menos, desde esse momento não mais aludiu a Werther diante dela e, quando ela falava dele, interrompia a conversa ou mudava de assunto.” 

Dezembro, 12
“Meu caro, acho-me no estado em que ficam os desgraçados que se dizem possuídos de um espírito maligno.
Disseram-me que o rio havia transbordado, que os regatos estavam crescidos e o meu vale querido inundado a partir de Wahlheim. Corri para lá; eram mais de 11 horas. Que espetáculo espantoso ver do alto do rochedo as ondas escachoando e cobrindo os campos, as pradarias, as sebes e o resto, para formar de uma ponta a outra do vale, um mar que se desencadeava furiosamente enquanto o vento assobiava! [...] Ah! Curvado sobre o abismo, os braços estendidos, tive vontade de atirar-me lá embaixo...”

Dezembro, 14

“Estremeço ao dizer que a tive nos meus braços, apertada contra o peito, cobrindo-lhe de beijos sem contar a boca que balbuciava palavras de amor, meus olhos inundados pela embriaguez do seu olhar! Ò Deus, serei porventura culpado de experimentar ainda tanta felicidade ao recordar, em toda a sua intensidade, essas ardentes delícias?”

Dezembro, 20

“Agradeço a sua amizade, Wahlheim, por haver relevado as minhas palavras. Sim, você tem razão; o melhor é partir. [...] Sinto-me contente pelo seu projeto de vir ver-me; daqui a uma quinzena aguarde uma carta que lhe dará os pormenores necessários. E preciso dar tempo ao tempo, e quinze dias a mais, ou a menos, valem muito. Você dirá à minha mãe que reze pelo seu filho; diga-lhe também que perdoe os aborrecimentos que lhe tenho causado. É o meu destino afligir aqueles a quem devia tornar felizes!
Adeus, querido amigo! Que o céu lhe conceda todas as bênçãos! Adeus! O que se teria passado na alma de Carlota, nesse meio tempo, quais seriam seus sentimentos para com o marido e para com o desgraçado amigo, apenas ousaremos expressar por palavras; mas é possível, pelo que sabemos do seu caráter, formular qualquer ideia, e toda alma bem formada de mulher saberá identificar-se com a dela e compreender o que ela sentia.”

Uma coisa é certa: Carlota estava, em segredo, firmemente resolvida a tudo fazer para afastar Werther; e, se hesitava, era pelo desejo sincero e afetuoso de poupá-lo, pois sabia quanto lhe seria difícil partir, sabia, mesmo, que isso lhe era quase impossível.
Apesar disto, ela estava resolvida a agir seriamente. Seu marido guardava um silêncio completo a esse respeito, o mesmo que ela fizera sempre, embora mais do que nunca resolvida, por atos, mais do que por palavras, a provar que seus sentimentos eram dignos dos dele.
No mesmo dia em que Werther escreveu a seu amigo (era o domingo, véspera de Natal), à tarde foi ver Carlota, encontrando-a sozinha, ocupada em por em ordem alguns presentes de Natal para os irmãozinhos e irmãs. Werther falou do prazer que as crianças iam ter. Carlota pede que Werther só retorne na quinta-feira onde as crianças virão com o bailio.

“- Apenas um momento de sangue-frio, Werther! Você não sente que é tudo por sua culpa, que você se perde voluntariamente? Por que hei de ser eu, Werther, eu, que pertenço a outro, precisamente eu?
Temo, temo muitíssimo que seja apenas a impossibilidade de me possuir que faça você desejar-me com tanto ardor! Mais variados prazeres? Seja homem! Acabe essa. [...] - Não haverá então no mundo inteiro uma jovem de satisfazer os anseios do seu coração? Assuma consigo mesmo o propósito de procurá-la e, juro-lhe, há de encontrá-la. Uma viagem, garanto-lhe, há de distraí-lo. Procure e encontre um objeto digno do seu amor; depois, volte e gozemos todos juntos a felicidade que só uma verdadeira amizade pode dar!
- Eu só lhe peço uma coisa, Werther: não venha antes da véspera de Natal!
Ele ia responder quando surgiu Alberto. Trocaram as boas tardes com um tom frio e desandaram a passear pela sala, constrangidos.”

Werther começou a dizer umas coisas insignificantes, interrompendo-se logo, com a chegada de Alberto.
Em sua casa, Werther desatou a soluçar.

“Na segunda-feira, pela manhã, 21 de dezembro, ele escreveu a Carlota a seguinte carta, que foi, depois da sua morte, encontrada fechada sobre o bureau e remetida à destinatária. Transcrevê-la-ei aos fragmentos, como, ao que tudo indica, teria sido escrita:
E coisa resolvida, Carlota: quero morrer. Escrevo-lhe isto tranquilamente, sem exaltação romanesca, na manhã do dia em que a verei pela última vez. Quando você ler esta carta, minha bem-amada, o túmulo frio cobrirá os restos enregelados do infeliz, de espírito inquieto, que não sabe de mais doce emprego a fazer dos seus últimos momentos de vida senão entretê-los com aquela a quem tanto amou. Passei uma noite terrível, mas também, ai de mim, uma noite benfazeja, que fortaleceu, fixou a minha resolução. Quero morrer!
Quando ontem me arranquei de junto de você, inteiramente possuído de uma terrível revolta, o coração assaltado por tantas emoções, sentindo-me gelado de horror em face da existência sem alegria e sem esperança que levo a seu lado, nem sei como pude chegar ao meu quarto. Caí de joelhos, fora de mim, e vós me concedestes, ó Deus, a consolação suprema das lágrimas mais acerbas! Mil projetos, mil perspectivas agitaram-se tumultuosamente em minha alma; por fim, projetou-se nela, definitivo e supremo, este pensamento: "Quero morrer! Dormi, e, esta manhã, erguendo-me tranquilo, encontrei-o em mim, sempre firme, forte, completo: "Quero morrer! [...] é  
preciso que um de nós três desapareça, e sou eu quem deve desaparecer. Ó minha bem-amada, neste coração dilacerado muitas vezes se insinuou o pensamento frenético ... de matar seu marido!. . . de matar você! ... de matar-me a mim mesmo!
Cumprisse o meu destino! Quando você subir a colina, por uma bela tarde de verão, lembre-se de mim, que tantas vezes fui ao seu encontro, nesse lugar, surgindo do fundo do vale. Depois, volte os olhos do outro lado, em direção ao cemitério, e contemple o meu túmulo, sobre o qual o vento agitará os arbustos à luz do sol poente!”

Cerca das 10 horas, Werther chamou o criado, disse-lhe que ia partir, encarregou-o, também, de pedir a conta de todos os fornecedores, buscar vários livros que lhe tinham emprestado, entregar dois meses adiantados a diversos pobres a quem costumava dar todas as semanas uma pequena soma.
Em seguida, dirigiu-se, a cavalo, à casa do bailio, não o encontrando. Provavelmente, foi então que teria escrito a seguinte passagem da sua última carta a Carlota:

“Você não me espera mais, acreditando que eu lhe obedecerei, que só a verei na véspera de Natal! Ò Carlota, hoje ou nunca. Na véspera de Natal, você terá em mãos este papel, estremecerá, molhará esta carta com as suas lágrimas queridas. Eu quero... é preciso! ... Oh! Como me sinto feliz por haver tomado uma resolução!
Entretanto, Carlota achava-se num estranho estado de perturbação. Sua última conversa com Werther tinha-lhe feito sentir quão grande era a pena de separar-se dele e quanto ele sofreria afastando-se dela. Disse diante de Alberto, como que por acaso, que Werther só voltaria na véspera de Natal; Alberto partira a cavalo para ver o bailio da vizinhança, com o qual tinha negócios a tratar, e só estaria de regresso no dia seguinte.
Ela estava só, não tendo em sua companhia nenhum dos irmãos ou irmãs. Silenciosa, abandonava-se aos pensamentos sobre a sua situação. Via-se ligada para sempre a um homem de quem conhecia o amor e a felicidade, a quem também amava de todo o coração, a um homem de caráter tão igual, tão digno de confiança, dir-se-ia expressamente criado pelo céu para assegurar a felicidade de uma mulher honesta; sentia o que havia de ser sempre para ela e para os seus. De outro lado, Werther se lhe tornara tão caro, a afinidade de suas almas se manifestara desde o primeiro momento em que se tinham conhecido! Ela fruíra tão longamente e tão frequentemente a sua companhia, haviam experimentado juntos, durante tanto tempo, emoções tão diversas, que o seu coração guardara dele uma impressão indelével. Habituara-se a partilhar com ele todos os sentimentos, todos os pensamentos, e a sua partida pareceu abrir em toda a sua existência um vazio que ninguém podia preencher. Oh! Como seria ela feliz se pudesse transformá-lo num irmão! ... Ou casá-lo com uma das suas amigas! Ou, ainda, se pudesse restabelecer entre ele e Alberto, inteiramente, as relações de outrora!"

Carlota passava todas as amigas em revista, uma por uma, e encontrava em todas quaisquer coisas a censurar; a nenhuma o teria cedido voluntariamente.
Fazendo essas reflexões, pela primeira vez ela sentia profundamente, embora sem fixar-se de um modo preciso, que o secreto desejo do seu coração era guardá-lo para ela. Entretanto, estava convencida de que não podia guardá-lo, que isso lhe era proibido, e sua bela alma, tão pura, outrora tão livre de cuidados e tão pronta a superá-los, sentia-se acabrunhada por essa tristeza que se experimenta quando não se tem mais nenhuma perspectiva de felicidade. Seu coração comprimisse, uma sombria nuvem toldava seu olhar. Assim passou o dia; eram 6 horas e meia quando ouviu rumor na escada, reconhecendo prontamente os passos de Werther, e ouviu sua voz chamando-a. Como o seu coração bateu ao senti-lo aproximar-se! Era a primeira vez que isso acontecia, e há razões para acreditá-lo. Teria preferido mandar dizer-lhe que havia saído.  Ao vê-lo entrar, exclamou numa espécie de arrebatamento apaixonado:

“- Você não cumpriu a palavra!
- Eu nada prometi - respondeu Ele.
Pelo menos, você devia ter respeitado a minha súplica - replicou ela; pedi-lhe isso para nossa tranquilidade recíproca.”

Ela mal sabia o que dizia, e muito menos o que fazia, tendo mandado chamar duas amigas, para não ficar a sós com Werther.
Ele entrega alguns livros que havia trazido e pediu outros; Carlota desejava a chegada das amigas e, ao mesmo tempo, queria que não chegassem nunca.
A criada trouxe a resposta: ambas mandavam pedir desculpas, mas não podiam sair de casa naquele momento.
Carlota quis pedir à rapariga para fazer um serviço qualquer na sala vizinha, mas mudou logo de ideia. Werther passeava de um lado para outro; ela foi ao cravo e tirou os primeiros acordes de um minueto, nada conseguindo. Fez um esforço para adquirir a presença de espírito e sentou-se calmamente ao lado de Werther, que tomara no canapé o seu lugar costumeiro.

"- Não tem nada para ler? - perguntou ela.
Ele disse que não, que não tinha nada para ler.
- Tenho ali na minha gaveta - prosseguiu ela a tradução que você fez de alguns cantos de Ossian; não os li ainda, esperando sempre que você mesmo os lesse, mas nunca chegava à ocasião."

Ele sorriu e foi procurar o manuscrito; ao pegá-lo, sentiu um frêmito e, quando viu as linhas escritas, seus olhos encheram-se de lágrimas. Acomodou-se de novo e leu: 

"Astro do crepúsculo, tu brilhas de modo esplêndido no ocidente, tu ergues a cabeça resplandecente acima das nuvens e caminhas em toda a tua majestade ao longo da colina. Que é que procura o teu olhar sobre a charneca? Acalmaram-se os ventos da tempestade; de longe nos chega o murmúrio da torrente; as vagas estrepitosas se lançam contra os longínquos rochedos e os insetos sussurrantes da tarde, aos cardumes, espalham-se sobre a campanha. Que olhas tu, astro formoso? Mas sorris e te afastas; as ondas te cercam alegremente e banham tua bela cabeleira. Adeus, calmo resplendor crepuscular! Amo-te, luz divina da alma de Ossian! E ela surge em todo o seu esplendor. Vejo meus amigos mortos ao lado de Lora, como nos dias passados! Fingal caminha como uma úmida coluna de névoa e em torno dele, lá estão os seus heróis, os bardos, os cantores! Cabelos grisalhos, o majestoso Ryno, Alpim, o chantre amável, e tu, doce e chorosa Minoria! Como estais mudados, ó meus amigos, depois dos dias festivos de Selma, quando disputávamos o prêmio de canto à maneira das brisas da primavera que, ao longo da colina, fazem dobrar as ervas sussurrantes. Então, Minoria caminhava, em toda a sua beleza, os olhos cheios de lágrimas, com a sua basta cabeleira flutuando ao do capricho vento que soprava da colina... A alma dos heróis se entristecia quando ela erguia a sua voz melodiosa, porque quantas vezes tinham eles visto o túmulo de Salgar e a escura morada da branca Colma. Colma, de voz harmoniosa, estava sozinha sobre a colina. Salgar prometera vir, mas a noite baixava em torno dela. Escutai a voz de Colma, solitária sobre a colina: COLMA Anoitece. . . estou sozinha, perdida sobre a colina batida pela tempestade. O vento assobia na montanha, a torrente despenha-se do rochedo, mugindo longa e dolorosamente. Nenhuma cabana me abriga da chuva; sinto-me abandonada sobre a colina batida pela tempestade. Ò lua, rompei as nuvens que vos envolvem! Aparecei, o estrelas da noite! Que um raio de luz me guie ao lugar onde o meu bem-amado, o arco frouxo junto dele, os cães ofegantes dormindo em seu redor, repousa das fadigas da caça! E é preciso que eu fique neste lugar, sobre o rochedo de onde se precipita a torrente oculta sob a folhagem. A torrente e a tempestade ululam, fazendo com que eu não ouça a voz do meu bem-amado.
Meu salgar, por que tardas tanto? Terá ele olvidado a sua promessa? Eis a árvore, eis o rochedo, eis a torrente rumorosa! Tu prometeste estar aqui ao anoitecer, aí de mim, por onde andará o meu Salgar? Quero fugir contigo para longe de meu pai e meu irmão, criaturas orgulhosas! Há muito que nossas famílias são inimigas, mas nós não somos inimigos, ó Salgar! Ó vento, calai-vos um instante! Ó torrente, um breve silêncio! Que minha voz ressoe através do vale para que o meu querido erradio a ouça! Salgar, sou eu quem te chama! Eis-me aqui junto da árvore e do rochedo!
Salgar, meu bem-amado, eis-me aqui! Por que tardas a vir?
Vê, a lua reaparece; as águas brilham no vale, os rochedos cinzentos se mostram até o alto da colina, e não o descubro nos cimos, seus cães não anunciam sua chegada. Esperá-lo-ei sozinha, aqui!
Mas quem são aqueles que jazem lá embaixo, na charneca? Será o meu bem-amado? Será meu irmão? Respondei, amigos! Não respondem. Que angústia oprime a minha alma! ... Ai de mim, morreram! Seus gládios estão vermelhos dos combates! Ó meu irmão, meu irmão por que mataste meu Salgar? Ò meu Salgar, por que mataste meu irmão? Um e outro, vós me éreis tão queridos.
Oh! Tu eras belo entre mil, sobre a colina! Tu eras terrível nas batalhas. Respondei-me! Escutai minha voz, meus bem-amados! Mas, ai de mim, Eles estão mudos, mudos para sempre! Seu peito está frio como a terra!
Da colina, do cume da montanha onde reina a tempestade, falai-me, ó espíritos dos mortos, falai-me que não tremerei de medo! Aonde fostes buscar o repouso? Em que caverna da montanha vos encontrarei?... Não ouço a mais débil voz no perpassar do vento; a tempestade que ruge sobre a colina não me envia nenhuma resposta.
Aqui fico sentada, sucumbida de dor; entregue às lágrimas, esperarei o surgir da manhã. Cavai a sepultura, amigos dos que morreram, mas não a fechai até que eu chegue! Minha vida se desfaz como um sonho; poderei regressar? Quero ficar aqui junto daqueles a quem eu amava, aqui à beira da torrente que faz estremecer o rochedo!
... Quando a noite baixar na colina, e o vento perpassar na charneca, lá estará minha alma com o vento para chorar a morte dos meus amigos. O caçador me ouvira, da sua cabana de folhagem; o caçador temerá e amará a minha voz, porque há de ser doce chorando os meus amigos: ambos me eram tão queridos!
- Tal foi o teu canto, ó Minona, ó filha de Thormam de faces docemente rosadas! Nossas lágrimas escorrem por causa de Colma, e nossa alma se torna sombria.
Ullim aproxima-se com a harpa e entoa o canto de Álpim. A voz de Alpim era doce, a alma de Ryno era um raio de fogo; mas ambos repousam em sua pequena morada, suas vozes não ressoam mais para Selma. Um dia, antes de esses heróis tombarem, ao voltar da caça, Ullim ouviu que porfiavam em seus cantos, sobre a colina. Seus cantos eram doces, mas tristes. Choravam a morte de Morar, o maior dos heróis. Sua alma era semelhante à alma de Fingal, seu gládio igual ao gládio de Oscar... Mas, tendo ele tombado, seu pai gemia, as lágrimas corriam dos olhos de Minona, irmã do valente Morar. Ouvindo o canto de Ullim, ela desapareceu, como a lua, no ocidente, oculta sua bela cabeça nas nuvens quando pressente a tempestade... Com Ullim, acompanhei na harpa esse canto de luto.
Cessaram o vento e a chuva; ao meio-dia, o céu está sereno e as nuvens se dispersaram. O sol fugitivo ilumina a colina de uma luz inconstante. As águas da montanha correm, avermelhadas, no seio do vale. Doce é o teu murmúrio, ó torrente, e ainda mais doce é a voz que eu escuto! É a voz de Alpim que pranteia o morto.  Sua cabeça está curvada pela idade e seus olhos vermelhos de lágrimas. Alpim, excelente cantor, por que estás só na colina silenciosa? Por que te lamentas como o vento que se levanta, de súbito, do seio da floresta, e como a vaga que bate nas praias longínquas?

 ALPIM

Minhas lágrimas, ó Ryno, são pelos mortos; minha voz é para os habitantes dos túmulos. Ergueste, imponente e esbelto, sobre a colina; és o mais belo dos filhos da charneca! Porém, tombarás como Morar, a aflição chorará sobre o teu túmulo. As colinas te esquecerão, e os arcos ficarão frouxos em tua morada.
Tu eras ágil, ó Morar, como as cabras na colina, terrível como os fogos que brilham à noite no céu.
Tua cólera era como a tempestade, teu gládio brilhava nas batalhas como o raio sobre a charneca; tua voz semelhava a torrente da floresta, depois da chuva, ao trovão nas colinas distantes. Muitos tombaram aos teus golpes e consumidos pela chama da tua cólera. Mas, quando regressavas da guerra, corno era suave a tua voz! Teu rosto era como o sol depois da tempestade, como a lua na noite silenciosa; teu peito era calmo como o lago quando calam os gemidos do vento.
Agora, pequena é a tua morada, obscura a tua solidão! Com três passadas eu meço o teu túmulo, ó tu, outrora tão grande! Quatro pedras musgosas formam teu único monumento; uma árvore despojada de folhas e a erva crescida, que murmura ao sopro do vento, indicam ao caçador a tumba do poderoso Morar. Não tens mãe que te pranteie, nem noiva que derrame sobre ti as lágrimas do amor. Morreu aquela que te deu à luz; também é morta a filha de Morglam.
Quem vem lá, apoiado ao bordão, quem é aquele cuja cabeça está embranquecida pelos anos e os olhos avermelhados pelas lágrimas? É teu pai, ó Morar, teu pai, que só tinha um filho, tu! Ele ouviu falar da tua fama nos combates, dos inimigos que dispersavas como quem espalha a poeira; Ele soube da glória de Morar! Ai dele, nada soube do teu ferimento! ... Chora, ó pai de Morar, chora; teu filho, porém, não te ouvirá mais. Profundo é o sono dos mortos; muito lá no fundo da terra está seu travesseiro de pó. Jamais ouvirá a tua voz, jamais despertará ao teu apelo! Oh! Quando o dia há de penetrar na tumba para dizer ao que aí dorme:
Desperta! Adeus, ó mais nobre dos homens! Jamais esses campos tornarão a ver-te; jamais na floresta escura brilhará o raio do teu gládio. Tu não deixaste filho, mas nossos cantos perpetuarão teu nome; os séculos vindouros ouvirão falar de ti, do grande Morar que tombou heroicamente lamuriosas foram as lamentações dos heróis, mais clamoroso ainda o suspiro que escapou do seio de Armim. Esse canto lembrou-lhe a morte de seu filho, tombado em plena juventude. Carmor sentou-se junto do herói, Carmor, príncipe da sonora Galmal. "Por que esse suspiro soluçante, ó Armim?", perguntou ele; "qual o motivo do teu pranto? A poesia e o canto não ressoam para encantar as almas? É como a névoa transparente que se ergue do lago e se dissolve em chuva fina sobre o vale, umedecendo as flores redolentes. Mas o sol retorna com toda a sua força, e a névoa se esvai. Por que estás tão acabrunhado pela dor, Armim, que reinas sobre Gorma, cercada pelas ondas?" - Choro de dor? Sim, bem o sei, pois é grande o motivo da minha pena ... Carmor, tu não perdeste nunca um filho; tu não perdeste uma filha em pleno desabrochar de sua beleza! O valente Colgar está vivo, viva está Amira, a mais formosa das raparigas. Os rebentos do teu tronco florescem, ó Carmor, ao passo que Armim é o ultimo da sua raça!
Sombrio é o teu sono, ó Dora, tu dormes um sono pesado em tua tumba ... Quando despertarás com os teus cantos, com a tua voz melodiosa?
Levantai-vos, ó ventos de outono, levantai-vos e soprai furiosamente sobre a charneca obscura!
Gemei, torrentes da floresta, urrai, furacão, na copa dos carvalhos! Aparecei através das nuvens dilaceradas, ó lua, mostrando por intervalos a tua face pálida. Lembrai-me aquela noite terrível em que pereceram meus filhos, em que tombou a poderosa Arindal, em que se extinguiu minha Dora querida!
Dora, minha filha, tu eras bela, como é bela a lua sobre as colinas de Fura, branca como a neve que tomba novamente, doce como o ar que se respira! Arindal, teu arco era forte, tua lança era rápida no campo de batalha, teu olhar era como a bruma sobre as vagas, teus cabelos como a nuvem flamejante na tempestade!
Armar, famoso nos combates, buscou o amor de Dora; ela não o recusaria por muito tempo. Eram belas as esperanças de seus amigos! Erath, filho de Odgal, estava cheio de ressentimento porque seu irmão caiu sob os golpes de Armar. Apareceu vestido de barqueiro e sua barca, vogando sobre as ondas, era linda; os cabelos estavam embranquecidos pela idade e o rosto era calmo e grave. "ó mais bela das virgens!", disse, "encantadora filha de Armim, lá embaixo, no rochedo, perto da praia, Armar espera pela, formosa Dora; venho procurar a sua bela amada para conduzi-la através do mar proceloso."
Ela ouviu o chamou por Armar; do rochedo_ alguém respondeu. "Armar, meu bem-amado, por que me deixaste assim tão inquieta? Ouve, filho de Arnath, escuta, é Dora que te chama!"
Erath, o traidor, rindo-se, dirigiu-se à praia. Ela ergueu a voz, chamando por seu pai e seu irmão: "Arindal, Armim, nenhum de vós virá salvar a sua Dora?"
A voz de Dora atravessa o mar. Meu filho Arindal, descendo a colina, carregado com os rudes despojos da caça, traz o arco e as flechas; cinco cães cinzentos caminham a seu lado. Ao ver na praia o audacioso Erath, agarra-o e prende-o a um tronco de carvalho, amarrando-lhe a cintura com laços bem fortes; os gemidos do prisioneiro enchem os ares.
Em sua barca, Arindal avança sobre as ondas para conduzir Dora. Armar aparece furioso e atira uma flecha, guarnecida de penas cinzentas, que assobia e vai mergulhar em teu coração, ó Arindal!
Pareces em lugar do traidor Erath. A barca atinge o rochedo; Arindal tomba e solta o ultimo suspiro. Vendo o sangue de teu irmão correr a teus pés, ó Dora, como foi grande a tua dor!
Os vagalhões despedaçam a barca e Armar precipitasse no mar a fim de salvar Dora, ou morrer. Súbito, um golpe de vento subleva as ondas e Armar é tragado por elas.
Ouvi o pranto da minha filha, abandonada no rochedo batido pelo mar. Seus gritos eram penetrantes e contínuos, seu pai não podia salvá-la.  Passei toda a noite na praia; divisava-a ao pálido reflexo da lua, e ali fiquei, a noite inteira, ouvindo seus gritos. O vento soprava rumorosamente e a chuva vergastava com violência os flancos da montanha. Sua voz enfraqueceu-se ao raiar da manhã; depois, extinguiu-se como a brisa da tarde na erva do rochedo. Esgotada pela dor, Dora morreu, deixando Armim solitário. Não mais existe aquele que foi a minha força nos combates; morreu aquela que era o meu orgulho entre as moças!
Quando a tempestade desce da montanha e o vento norte agita as ondas, sento-me na praia ressoante e contemplo o rochedo terrível. Muitas vezes, ao baixar a lua no horizonte, vejo passar juntos, tristemente enlaçados, os fantasmas dos meus filhos esbatendo-se à meia luz do crepúsculo.
Uma torrente de lágrimas, escapando-se dos olhos de Carlota e aliviando o seu coração opresso, interrompe a leitura de Werther, que abandona o manuscrito, toma-lhe a mão e também derrama lágrimas amargas. Com a outra mão, Carlota enxuga os olhos no lenço. Ambos sentem o próprio infortúnio, no destino daqueles heróis; sentem-no e suas lágrimas se confundem. Werther roça no braço de Carlota os lábios e os olhos ardentes; ela tem um leve tremor e quer afastá-lo, mas a dor e a piedade, esmagando-a como uma carga de chumbo, imobilizam-na. Respira fortemente, procurando dar acordo de si, pondo na voz um acento celestial, e pede-lhe, aos soluços, que continue a leitura. Agitado e trêmulo, como se seu coração fosse explodir, Werther toma do caderno ele, com a voz entrecortada:
Por que despertar-me, ó brisa da primavera. Tu me acaricias e dizes: Derramo sobre ti as gotas celestiais do orvalho! Mas aproxima-se o tempo em que murcharei; aproxima-se a tempestade que me arrancará as folhas! Amanhã virá o caminhante, virá aquele que me viu em plena beleza; seus olhos hão de procurar-me por toda a campina e não me encontrarão mais!”

Depois dessa leitura, Werther se atirou aos pés de Carlota, tomou-lhe as mãos e as levou aos olhos e ao rosto. Pareceu a Carlota que o pressentimento de um mau desígnio lhe atravessara a alma; seus sentidos deliravam. Apertou-lhe as mãos e ele premiu as dela contra o peito. Em dado momento, inclinou-se sobre Werther, com uma emoção dolorosa, e as faces escaldantes de ambos se tocaram. O mundo inteiro deixou de existir. Werther enlaçou-a com os braços, apertou-a ao coração e cobriu de beijos furiosos seus lábios trêmulos e balbuciantes. "Werther!", exclamou ela com a voz abafada, tentando escapar-se. E, com uma das mãos, procurava, quase sem forças, afastá-lo. "Werther!", repetiu com um tom resoluto que exprimia os mais nobres sentimentos; e ele, não resistindo, soltou-a e prosterno-se aos seus pés como um insensato.  

Ela ergueu-se precipitadamente, presa de uma perturbação dolorosa, fremente de amor e de cólera. "É a última vez, Werther, disse ela. Você não me verá mais!"
E, lançando sobre o infeliz um olhar apaixonado, "fugiu para o quarto vizinho e trancou-se por dentro. Werther estendeu-lhe os braços, sem ousar retê-la. Estirado no soalho, com a testa sobre o canapé, permaneceu nessa postura por mais de meia hora, só tornando a si quando ouviu o rumor dos passos da criada que vinha por a mesa. Passeando nervosamente pela sala, ao sentir-se só, aproximou-se da porta do quarto e chamou em voz baixa: "Carlota! Carlota! Uma só palavra quero dizer-lhe: adeus! Ela não respondeu.”
Ao ganhar a porta da vila, somente às 11 horas, ele bateu de novo à porta da sua casa. No dia seguinte, pela manhã, quando foi levar-lhe o café, o criado o encontrou escrevendo. Ele acrescentara na carta endereçada a Carlota, as seguintes linhas:
“É a última vez! É a última vez que abro os olhos. Ai de mim, eles não verão mais o sol, que se esconde agora nas nuvens de um céu sombrio... Tomai luto, ó Natureza, porque o vosso filho, o vosso amigo, o vosso amante aproxima-se do fim. Ó Carlota, só às impressões confusas de um sonho é comparável, talvez, o sentimento que se experimenta ao dizer: Eis a minha derradeira manhã! A derradeira! Carlota, esta palavra derradeira, não a entendo. Não estou aqui em todo o meu vigor? E amanhã, ver-me-ão estendido sobre a terra. Morrer! Que é isto? Veja, é como se sonhássemos quando falamos da morte. Vi morrer muita gente, mas a humanidade é tão limitada que se mostra incapaz de conceber o começo e o fim da sua existência. Neste momento, ainda me pertenço! Pertenço-lhe, também, ó minha bem-amada. E, bastará um instante ... separados, perdidos um para o outro... para sempre, talvez. . . Não, Carlota, não! ... Como poderei ser aniquilado? Como poderá você ser aniquilada? Entretanto, ainda estamos vivos! ... Aniquilamento... que significa isto? Tratasse de uma palavra, um som vazio de sentido, que não diz nada ao meu coração! ... Estar morto, ó Carlota, metido embaixo da terra gelada, numa sepultura tão estreita, tão escura! ... Tive uma amiga que foi tudo para a minha juventude desamparada.
Quando ela morreu, acompanhei o seu enterro, parei a beira da cova, vi baixar o caixão, senti o roçar das cordas que se afrouxaram e foram retiradas bruscamente, ouvi a primeira pá de terra que caía sobre o lúgubre invólucro, produzindo um rumor surdo, cada vez mais surdo, sempre mais surdo, até cobri-lo inteiramente! Lancei-me ao chão, ao lado daquela sepultura, embargado, transtornado, o coração cheio de angústia e profundamente dilacerado; mas nada entendia daquilo que se passava diante de mim... aquilo que também me estava reservado! ... A morte! ... ó túmulo!
Estas palavras, não as pude entender nunca! Oh, perdoe-me, perdoe-me! Ontem! ... Devia ser aquele o último instante da minha vida! Anjo! Sim, pela primeira vez senti, com absoluta certeza, este pensamento delicioso abrasar o mais profundo do meu ser:
"Ela ama-me! Ela ama-me!" Queima-me ainda os lábios o fogo sagrado que vinha em torrentes dos seus lábios; uma ardente embriaguez, jamais sentida, transbordou do meu coração. Perdoe-me, perdoe-me!
Ah! Bem sabia que você me amava! Soube desde os primeiros olhares onde transparecia sua alma, desde os primeiros apertos de mão; e, no entanto, quando saía de junto de você, ou quando via Alberto ao seu lado, tomava-me de um grande abatimento, devorado pela febre da dúvida. [...] Tudo isso se extingue com o tempo, mas nenhuma eternidade extinguirá a vida ardente que aspirei ontem dos seus lábios e que sinto queimar em mim. Ela ama-me! Estes braços a enlaçaram, estes lábios fremiram contra os seus, esta boca balbuciou colada à sua boca! Você é minha, Carlota; sim, minha por todo o sempre!
A mim, que importa que Alberto seja seu marido? Seu marido! ... O casamento só vale para este mundo, e é só neste mundo que cometo um pecado, amando-a, desejando arrancá-la dos braços dele para estreitá-la nos meus! Um pecado! Pois bem, dele fui punido; esse pecado, eu em toda a sua voluptuosidade celestial, meu coração esgotou nele a força e o bálsamo da vida. Desde aquele momento, você ficou sendo minha, minha, ó Carlota! Eu a antecipo, indo para meu Pai, para o seu Pai! Dir-lhe-ei as minhas penas e ele me consolará até que você venha. Então, voarei ao seu encontro, enlaçando-a, e ficaremos em face do eterno unidos por um beijo sem fim.
Não estou sonhando, não estou delirando. Ao aproximar-me do túmulo, meus olhos vêem mais claro. Nós subsistiremos! Nós nos tornaremos a ver! Verei sua mãe; sim, eu a verei, eu a encontrarei, abrirei meu coração diante dela! Sua mãe! Aquela de quem você e a perfeita imagem!”
Em seguida, Werther pede ao criado que entregue a Alberto um bilhete contendo estas palavras: "Poderá você emprestar-me as pistolas para uma viagem que pretendo fazer? Adeus, seja feliz!"
Naquela noite, Carlota mal conseguira conciliar o sono.
“Seria do beijo de Werther que ela sentia arder, em seu seio, a flama que lhe havia inspirado tamanha audácia? Ou tal inquietação provinha do desassossego que experimentava ao comparar o presente com os dias de inocente tranquilidade e de confiança em si, isentos de constrangimento e cuidado? Como aparecer ao seu marido, como contar-lhe aquela cena que podia confessar, perfeitamente, e que, entretanto, não ousava confessar a si própria? Há quanto tempo ambos guardavam silêncio a esse respeito! A ela cabia rompe-lo, fazendo ao esposo semelhante confidência em momento tão inoportuno? Se temia, já, que a simples notícia da visita de Werther produzisse em Alberto uma impressão aborrecida, que seria então quando ele soubesse da inesperada catástrofe? Ele a veria tal como sempre ela fora, sem nenhuma prevenção? E era-lhe possível desejar que Alberto lesse o que se passavam em sua alma? Por outro lado, como dissimular perante um esposo aos olhos do qual sua alma estivera sempre aberta e transparente como o cristal, e a quem jamais ocultara, jamais havia podido ocultar um só dos seus sentimentos?”
Quando Alberto voltou, Carlota foi ao seu encontro com um açodamento que mal disfarçava embaraço. O marido perguntou-lhe se tinha aparecido alguém e ela respondeu, com precipitação, que Werther viera na véspera, à tarde. Depois, perguntou se havia cartas para ele; Carlota informou que estavam no quarto, mais alguns pacotes. Alberto foi vê-las e Carlota ficou sozinha. Diante do homem que amava e estimava, recebia novas impressões; a certeza da generosidade, afeto e bondade do esposo restituíra um pouco de calma ao seu coração. Passaram, assim, uma hora, um ao lado do outro. Cada vez mais a alma de Carlota se ia tornando sombria. Experimentava quão difícil seria revelar ao marido, ainda que apresentasse o maior bom humor, aquilo que pesava em seu coração, caindo numa tristeza tanto mais opressiva quanto se esforçava por ocultá-la e engolir as lágrimas.
A chegada do criado de Werther lançou-a numa perturbação extrema. O homem entregou o bilhete a Alberto, que se voltou tranquilamente para ela e disse:
"Entregue-lhe as pistolas!" E acrescentou, dirigindo-se ao criado: "Diga-lhe que desejo uma boa viagem".
Tais palavras aturdiram-na como um raio; ergueu-se cambaleando, sem saber o que sentia, dirigiu-se lentamente a parede, com as mãos tremulas retirou as pistolas, limpou a poeira; depois, hesitou, e sua hesitação teria durado muito se um olhar de espanto de Alberto não a forçasse a decidir-se. Entregou ao criado as armas fatídicas, sem poder proferir uma palavra. O coração pressagiava-lhe terríveis acontecimentos. Ora esteve a ponto de atirar-se aos pés do marido e contar-lhe tudo a cena da véspera, sua falta e seus pressentimentos; ora parecia-lhe que esse ato não teria nenhum resultado, tanto mais quanto não poderia decidi-lo a ir para junto de Werther.
O criado levou as pistolas a Werther, que as recebeu com arrebatamento quando se inteirou de que tinha sido Carlota que as entregara. Serviu-se de pão e vinho, disse ao criado que fosse jantar, e pôs-se a escrever:
“Elas passaram pelas suas mãos, você as limpou! Beijei-as mil vezes: você tocou-as. É você, anjo do céu, que favorece meu desígnio! Você mesma, Carlota, fornece o instrumento que vai consumá-lo! Desejei receber a morte de suas mãos: é de você que a recebo hoje! Interroguei o meu criado e ele contou-me que você tremia ao entregar-lhe as pistolas, e não me enviou um adeus! ... Ai de mim, ai de mim, nem um adeus! ... Ter-me-ia fechado o coração por causa deste instante que me liga a você para sempre?”
Depois do jantar, ele ordenou ao criado que acabasse de fazer as malas, rasgou uma porção de papéis e saiu para pagar algumas pequenas dívidas. Ao cair da noite, voltou para casa e escreveu isto:
“Pela última vez, Wahlheim, vi os campos, os bosques e o céu. Adeus, a você também! ... Querida mãe, perdoa-me! Console-a, Wahlheim! Que Deus vos abençoe! Todos os meus negócios estão em ordem. Adeus! Nós nos tornaremos a ver e seremos mais feliz!
Recompensei-o mal, Alberto, mas você me perdoará. Perturbei a paz do seu lar, lancei entre vocês a desconfiança. Adeus! Quero por um termo a tudo isto. Oh! Se vocês puderem ser felizes por causa da minha morte! Alberto, Alberto, faça feliz o anjo que tem a seu lado! E que assim a graça de Deus baixe sobre você!

Depois das 11 horas.

“Em torno de mim reina a tranquilidade, e minha alma está tão calma! Agradeço-vos, ó Deus, por me concederes em meus últimos momentos, este calor e esta força! Quando ontem a deixei, quando saí de sua casa, eu vi diante de mim essa constelação.
Escrevi um bilhete ao seu pai, pedindo-lhe que proteja meu corpo. No cemitério, bem ao fundo, no canto que dá para o campo, há duas tílias: é lá que desejo repousar. Ele poderá fazer isso, há de fazê-lo pelo seu amigo. Peça-lhe também! Não exigirei dos piedosos cristãos que deixem depositar seus corpos ao lado de um infeliz! Ah! Eu queria que me enterrassem a beira da estrada, ou no vale solitário! Ao passar, o sacrificador e o levita haveriam de persignar-se diante da pedra que marcaria o meu túmulo, e o samaritano me concederia uma lágrima.
- Veja, Carlota, que não tremo ao pegar a fria e terrível taça por onde quero beber a embriaguez da morte! É você quem me apresenta e eu não hesito um só momento. É assim que se consumam todos os votos, todas as esperanças da minha vida, todas! Quero bater, gelado e rígido, à porta de bronze da morte!
Se eu tivesse alcançado a ventura de morrer, de sacrificar-me por você, Carlota! Eu morreria corajosamente, e com que alegria, se pudesse restituir-lhe o repouso e a felicidade! Mas, ai de mim, a muito poucas e nobres criaturas é dado derramar o sangue pelos seus e, com a morte, iluminar uma vida nova e centuplicada para aqueles que amam!
É com esta roupa, Carlota, que quero ser enterrado; você a tocou, você a santificou; também, isto, pedi a seu pai. Minha alma flutuará sobre o caixão. Que ninguém remexa em meus bolsos. O nó cor-de-rosa que você trazia no corpete, quando a vi pela primeira vez em meio das suas crianças ...
Oh! Beije-as mil vezes por mim e conte-lhes a história do seu desgraçado amigo! Queridas crianças! Vejo-as alvoroçadas em torno de mim! Ah! Como me prendi a este nó cor-de-rosa, como, desde o primeiro momento, não mais pude deixá-lo... Irá comigo para o túmulo; você me deu no dia do meu aniversario natalício. Com que sofreguidão o recebi! Não pensava que tudo me havia de conduzir até aqui. . . Calma, peço-lhe, calma!
Elas estão carregadas... bateu meia-noite. Assim seja, então! ... Carlota, Carlota! Adeus, adeus!
Um vizinho viu o clarão da pólvora e ouviu o estampido, mas, como tudo voltou ao completo silêncio, não se inquietou mais.
Às 6 horas da manhã, ao entrar com uma lâmpada, o criado encontrou-o amo estendido no solo. Vendo as pistolas e o sangue, chamou-o, sacudindo-o. Nenhuma resposta. Werther estertorava. Correu ao médico, foi à casa de Alberto. Carlota ouviu bater e sentiu um arrepio por todo o corpo. Despertou o marido e ambos saltaram da cama. O criado, gritando e gaguejando, deu-lhes a notícia. Carlota caiu sem sentidos aos pés de Alberto. Quando o médico chegou, o desgraçado jazia no soalho. Não havia mais esperanças de salvá-lo, pois, conquanto o pulso ainda batesse, todos os membros estavam paralisados. Ele havia metido uma bala na cabeça, acima do olho direito, e os miolos saltaram para fora. Fazendo uma tentativa, deram-lhe uma sangria no braço; o sangue correu e ele continuou a respirar. [...] Estava completamente vestido e calçado, envergando um fraque azul e um colete amarelo. 



Dispensem-me de descrever a consternação de Alberto e o desespero de Carlota. O velho bailio acudiu, logo que soube da notícia, e beijou o moribundo, derramando lágrimas ardentes. Seus dois filhos chegaram a pé, logo depois do pai, e, abandonando-se à dor mais violenta, caíram junto ao leito, beijando as mãos e a boca de Werther. O mais velho dos dois, por quem Werther sempre demonstrara particular estima, colou-se-lhe aos lábios até que o infeliz soltasse o último suspiro, tendo sido preciso arrancá-lo dali à força. Werther expirou ao meio-dia.
A presença e as medidas por ele tomadas evitaram que a multidão se atropelasse em frente da casa noite, cerca das 11 horas, o bailio fê-lo enterrar no local escolhido pelo desgraçado. O velho e os filhos acompanharam o cortejo. Alberto não se sentiu capaz de fazê-lo. Temia-se pela vida de Carlota. O corpo foi conduzido por trabalhadores. Nenhum padre o acompanhou.”