segunda-feira, 3 de setembro de 2012

TIL, JOSÉ DE ALENCAR: RESUMO E ANÁLISE LITERÁRIA





I – INTRODUÇÃO:

“Til” foi publicado inicialmente no folhetim d’A República, entre 21 de novembro de 1871 e 20 de março de 1872, em um total de 62 folhetins e pertence à fase regionalista da obra de José de Alencar.

“A República” era um jornal de quatro páginas, divididas igualmente em cinco colunas nas quais se acomodavam os textos. Exceto por algum desenho que aparece na seção de anúncios, não há ilustrações, evidenciando o texto escrito como principal veiculador de ideias. O conteúdo era dividido em diversas seções, algumas que se repetiam todos os dias e outras com periodicidade semanal ou irregular. Logo abaixo do título, “A República”, o jornal anunciava sua filiação ao partido republicano, e no canto esquerdo superior constavam todos os dias a seguinte frase: “São absolutamente inadmissíveis, ainda que legalmente responsabilizadas, as polêmicas pessoais e odiosas”. Assim, o jornal apresentava-se como representante de uma ideia política, cuja defesa na publicação era marcada pela objetividade e utilidade pública, já que não admitia assuntos de ordem pessoal.

O romance “Til” atualmente é publicado em um único volume dividido em duas partes; por muito tempo, foi publicado em dois volumes.
Cada uma das partes do romance está dividida em 31 capítulos numerados e intitulados. A segunda parte assemelha-se a um encaixe de alguns capítulos da primeira, e sua função parece ser a de esclarecer acontecimentos, personagens e circunstâncias.

II – LOCALIZAÇÃO:

Ao lado da literatura, José de Alencar foi um político atuante (ocupou o cargo de Ministro da Justiça do gabinete do Visconde de Itaboraí, foi deputado pelo Partido Conservador por quatro legislaturas) e um dos maiores intelectuais do Segundo Reinado (1840-1889). Isto reflete em sua obra. O tema da escravidão foi objeto de reflexão sistemática pelo autor em diversas de suas obras como reflexão política da época.
A escravidão constituía, afinal, a determinação básica do mundo material e cultural em que Alencar vivia e, ao mesmo tempo, representava a consagração jurídica da hierarquia social, ao reduzir uma parcela da humanidade a objeto do direito de propriedade.
Em matéria de escravidão, José de Alencar foi um antiabolicionista.
No ano de publicação de “Til”, o Brasil estava às voltas com a aprovação da Lei do Ventre Livre, que garantia a liberdade a filhos de escravos nascidos no país.
José de Alencar posicionou-se contrário às essas medidas graduais, achava-a mais perigosa que a abolição total. Preferia a abolição completa a Lei do Ventre Livre. Esse fato tem reflexo no romance “Til”, quando um grupo de escravos aparece preparando uma emboscada contra o senhor da fazenda. A cena representa o medo que havia em relação a possíveis revoltas entre negros que passariam a ter seus filhos livres, mas iriam continuar sem compensação.
Dessa forma, é possível afirmar que a intenção de Alencar é utilizar o romance como meio de propagação do que acreditava ser o verdadeiro gosto e cultura nacionais a fim de consolidar a nação e preservá-la da simples mimese do que vinha da Europa.
Tentar entender a obra de romancista de José de Alencar significa, antes de mais, compreender que estamos diante de um amplo quadro descritivo do Brasil da segunda metade do século XIX. Por outro lado, ao afirmar que "é a gestação lenta do povo americano, que devia sair da estirpe lusa, para continuar no novo mundo as gloriosas tradições de seu progenitor", Alencar está assumindo que a nova nação é uma continuidade histórica com o passado colonial, apenas renovada pela simbiose com a terra americana, já que não com os seus habitantes.


III – ESPAÇO:

“Cerca de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas. Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba e vai morrer nos campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais.” (Cap. IV, pág. 08)
“Til” denota o interesse do autor em retratar o interior paulista, uma das regiões do Brasil, alheia à influência européia que predominava na Corte fluminense.
Tão grande foi à preocupação de José de Alencar em retratar o interior do país e seu povo, que muitas das páginas de seus romances relatam mitos, lendas, tradições, festas religiosas, usos e costumes observados pessoalmente por ele, com o intuito de, cada vez mais, “abrasileirar” seus textos e aliar os hábitos da vida no campo e a cultura popular à beleza natural e exótica das terras brasileiras.
O cenário de “Til” é a fazenda das Palmas, localizada próxima a Campinas, no interior de São Paulo, onde hoje é a cidade de Americana. No livro, ainda são citadas as cidades de Santa Bárbara d’Oeste, Piracicaba e Itu, que se constituíam como vilas naquela época e a fazenda do Limoeiro.
A floresta, assim como o bar à beira da estrada, o Bacorinho e o lugar chamado Ave-Maria são recursos particulares dentro do romance.
Se Alencar não esteve em Santa Bárbara para captar a paisagem, os tipos humanos, a maneira como se comportavam os donos de terras e seus familiares, certamente imaginou-os de maneira funda e intensa, com marcas pessoais bem articulados.

IV – TEMPO NARRATIVO:

A obra foi escrita em 1872, mas resgata um passado de intrigas, segredos, amores e vinganças que vai de 1826, passado das personagens, a 1841, presente deles.
O tempo narrativo é cronológico, mas o narrador utiliza-se de dois planos temporais: na primeira parte da obra, temos a linearidade absoluta; na segunda parte, mescla flashbacks e revelações da primeira parte.
Os primeiros capítulos o narrador prende-se a apresentar a origem das personagens e suas ligações. Como o romance foi inicialmente publicado em folhetins, os desvendamentos posteriores dos dramas humanos ofereciam o suspense necessário para que os leitores consumissem folhetins; além disso, o recurso era bem-vindo ao Romantismo. Os antigos folhetins representavam exatamente o que as novelas da televisão representam hoje: a trama parte de certo ponto do qual o leitor/telespectador começa a acompanhá-la para esclarecer os mistérios que vão surgindo; por essa razão, a narrativa volta ao passado para explicar a origem das personagens.
Embora não se possa esperar do romance a linguagem regionalizada, Alencar tratou de colocar em evidência alguns costumes rurais da época. O princípio da simplicidade na escrita, já que a burguesia era a principal consumidora da produção literária no período; portanto, os textos deveriam ser simples e inteligíveis para aquela classe social.

V - FOCO NARRATIVO:

A narração do romance é feita em terceira pessoa. O narrador é onisciente; ele conhece, sabe todos os pensamentos e planos das personagens e os revela ao leitor. Entretanto, em alguns fragmentos, surge um narrador em primeira pessoa, relembrando os acontecimentos ou interrogando-os. Isso ocorre pelo fato de ter sido publicado anteriormente em folhetins, criando uma espécie de “conversa” com o leitor a fim de que o narrador pudesse emendar os assuntos.

VI - PERSONAGENS:

As personagens são planas, excetuando-se Jão Fera, que sofre grande mudança de comportamento ao final do romance.
No romance, duas personagens recebem características animalescas (zoomorfização): Brás e Jão Fera.

BERTA, INHÁ OU TIL: Era de pequena estatura, esbelta, ligeira, buliçosa, saltitava sobre a relva, gárrula e cintilante do prazer de pular e correr; saciando-se na delícia inefável de se difundir pela criação e sentir-se flor no regaço daquela natureza luxuriante.
Seus grandes olhos, negros, claros e serenos tinham a diáfana profundidade do céu, cheios de enlevos e mistérios.
A boca mimosa e breve conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do sorriso.
Os lindos cabelos negros cacheados, que às vezes, com os saltos, escapavam da prisão e vinham folgar sobre as espáduas.
"Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação." A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.
A personagem é comparada frequentemente, a uma flor: no capítulo inicial, surge à imagem de uma flor bela, mas imatura; já no fim do livro (no poente do sol) a imagem da flor se repete mostrando a “flor interior”, cheia de caridade e abnegação. O autor cria assim, uma ideia nítida de desabrochar da personagem.

BESITA: a mais bonita moça que havia nas vizinhanças de Santa Bárbara. Luís Galvão interessou-se por ela, mas não a pediu em casamento, fazendo com que ela optasse por se casar com Ribeiro, a despeito de Jão Fera, que tanto a estimava.
Certa noite, aproveitando a ausência do marido, Galvão foi à casa de Besita, com quem teve relações sexuais. A escrava Zana o deixou entrar, imaginando que fosse Ribeiro. Besita engravidou de Galvão e deu à luz Berta, de quem cuidou com muito amor.
A moça morreu vítima da fúria de Ribeiro, que voltou de uma longa viagem e não suportou vê-la mãe de uma criança de outro homem. Sua filha, salva por Jão Fera e por Zana, foi entregue a nhá Tudinha.

NHÁ TUDINHA: foi casada com um grande amigo da juventude de Luís Galvão, Eugênio de Figueiredo. Agora, viúva, vive humildemente em uma casa com Miguel, seu filho legítimo, e Berta, filha de criação, além de uma negra escrava chamada Fausta. Perdeu tudo o que o marido deixou, em razão de “más colheitas e juros enormes”. É alegre, baixa, gorda e adora festas, ocasião em que pode exercitar o que mais gosta de fazer: cozinhar e cuidar da casa.

MIGUEL: alto, ágil, de talhe robusto e bem conformado. É filho de nhá Tudinha, órfão de pai e cresceu ao lado da irmã de criação, Berta, por quem é apaixonado e tem ciúmes. Gostava de caçar.

ZANA: negra que trabalhava para Besita e presenciou toda a história de Berta e do assassinato de sua mãe. Anos após o trágico episódio, continuou vivendo nas ruínas do que sobrou da antiga casa de Besita. Berta a visitava com frequência, levando-lhe comida.

JÃO FERA OU BUGRE: quando pequeno foi criado pelo pai de Galvão.
Terrível homem, de feições assustadoras e fama de matador (que na verdade é), segundo uma interpretação do livro podemos considerar que a vida o tornou assim (foi cheio de desilusões e sofrimentos). Era apaixonado por Besita, porém apesar de seu desejo a tinha como “santa” e queria apenas sua felicidade, pois sabia que ela não o amaria como ele. Assim quando Luis Galvão se recusou a casar com ela, ele rompeu a “amizade” que os unia. Protegia Besita e quando ela foi assassinada, passou a cuidar de Berta e prometeu vingança a sua amada.

LUÍS GALVÃO: herdeiro da fazenda das Palmas tinha o aspecto franco e jovial. Era um bonito homem, de fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava em sua compostura digna a consciência do próprio mérito. Na juventude tinha como seu protetor Jão e foi homem de muitas aventuras amorosas e enrascadas, numa dessas desonrou Besita, recém casada com Barroso a qual ficou grávida de Berta.

ERMELINDA: senhora de 38 anos, e não formosa; mas prendada de inata elegância, que seus traços e toda sua pessoa tomava um particular realce. Se não tinha bonitos olhos, ninguém sabia olhar como ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o sorriso inteligente e a palavra brilhante.
Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio inglês da corte educação esmerada, que desenvolveu a natural distinção de seu espírito.


"À expansão dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto que derramava em trono de si, deve-se atribuir a ausência de cor local que se notava senão em toda casa, ao menos na família. Aquela esfera que recebia a influência imediata da dona da casa, não era paulista, mas fluminense; e não fluminense pura, senão retocada já pelo apuro escocês e pela graça francesa." 

Esposa de Luis Galvão é mãe dos gêmeos, Linda e Afonso, e ajuda na criação de Brás. E, embora tente tratá-lo com carinho e afeto, os modos grosseiros do sobrinho fazem-na sofrer, por ter de submeter seus filhos à convivência com ele. D. Ermelinda decepciona-se com o marido quando descobre que ele gostara de Besita, mas quando ele confessa (no final do romance) ela o apóia a reconhecer Berta como filha.

LINDA: menina da mesma idade de Berta, educada aos moldes da corte, mas que junto ao irmão Afonso faz amizade com os jovens simples Berta e Miguel.
Filha de Luís Galvão e de Dona Emerlinda, e irmã gêmea de Afonso. Era muito apaixonada por Miguel, que na verdade não gostava de Berta.

AFONSO: irmão de Linda. Possui o mesmo espírito alegre e conquistador do pai Luis, acaba gostando de Berta (sem saber ser esta sua irmã de sangue).

BARROSO OU RIBEIRO: apareceu em Santa Bárbara a fim de retirar a parte de uma herança que lhe cabia, mas, ao conhecer Besita, apaixonou-se por ela e a pediu em casamento. No dia do casamento, recebeu uma carta que lhe chamava às pressas para Itu, para salvar a maior parte da herança que veio buscar.
Ribeiro partiu e só voltou dois anos depois. Ao saber da criança (Berta), que viu no colo de Besita, ouviu da pobre moça toda a história de sua desdita, enquanto a escrava Zana tentava proteger a menina.
Embora a esposa não fosse culpada, Ribeiro não a perdoou e acabou matando-a. Fugiu para Portugal e mudou seu nome para Barroso. Voltou depois de anos, já velho, para encomendar a morte de Luís Galvão, como vingança.

BRÁS: “Era o desgraçado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca e estúpida, tinha contudo essa monstruosa organização bem vivo e patente o instinto do mal. Parecia que aleijão, privando-a da alma racional, não reduzira só o homem à condição de bruto, mas o tinha logo demudado em fera.” 

Sobrinho de Luis Galvão sofria de ataques epiléticos e sua presença era desprezada. Era feio, e não só isso, porém mal amanhado e descomposto em seus gestos. Tinha um ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila baça coava-se um olhar morno, a divagar pelo espaço com expressão indiferente e parva.
Ele apaixonou-se por Berta que nunca o destratara e propôs-se a ensinar-lhe o abecedário e rezas.

VII – RESUMO DO ENREDO:

PRIMEIRO VOLUME 



I – CAPANGA
“Eram dois, ele e ela, ambos na flor da beleza e da mocidade.
O viço da saúde rebentava-lhes no encarnado das faces, mais aveludadas que a açucena escarlate recém aberta ali com os orvalhos da noite. No fresco sorriso dos lábios, como nos olhos límpidos e brilhantes, brotava-lhes a seiva d’alma.”


Os jovens caminhavam descontraídos “pela ramagem frondente das árvores e renovos que abrolhavam, percebia-se a proximidade de uma grande manancial, e entre as crepitações da brisa nas folhas, como um tom opaco desse arpejo da solidão, ouvia-se o murmure soturno do Piracicaba, que leva ao Tietê o tributo caudal de suas águas.
A narração prossegue descrevendo um cenário bucólico e harmonioso. Depois de uma grande trovoada na noite anterior, a manhã nasceu radiante.

“Algumas vezes, deixava o rapaz de seguir com o passo a menina, para acompanhá-la com a vista.”

Em uma dessas ocasiões, seus olhares se cruzaram...

“- Que me está olhando aí? Nunca me viu? Exclamou com surpresa, mas travada sempre da petulância que animava-lhe todos os movimentos.
- Não era para você! Respondeu rápido o moço, baixando a cabeça de modo a ocultar o rubor que lhe afogueava o rosto.”


O jovem tentando disfarçar sua timidez fez pontaria a um cardeal que se embalava no topo de uma palmeira. Nesse momento, a jovem proferiu seu nome: “- Miguel!...”
De repente parou; imóvel, quase estática, enquanto os olhos se pasmavam em um ponto além.

“A orla do mato assomara o vulto de um homem de grande estatura e vigorosa compleição, vestido com uma camisola de baeta preta, que lhe caía sobre as calças de algodão riscado. Apertava-lhe a cintura rija e larga faixa do couro mosqueado do cascavel, onde se via atravessada a longa faca de ponta com bainha de sola e cabo de osso grosseiramente lavrado.
Em uma das bandoleiras trazia o polvarinho e munição; na outra suspendia um bacamarte, cuja boca negra e sinistra aparecia-lhe na altura do joelho esquerdo, como a face de um dragão que lhe servisse de rafeiro.
As mangas da camisa, tinha-as enroladas até o cotovelo, bem como a parte inferior das calças que arregaçava cerca de um palmo. Usava de alpargatas de couro cru e chapéu mineiro afunilado, cuja aba larga e abatida, ocultava-lhe grande parte da fisionomia.”


Este estranho indivíduo ao avistar a menina, desviou-se de seu rumo, no entanto, deparou-se com Miguel, que com uma mistura de aversão e medo, exclamou: “- Jão Fera!...”
A figura sinistra não se abalou e Miguel passado o primeiro assomo de terror, fingiu armar a espingarda e apontá-la ao outro.

“- Atire! Disse aquele com a voz arrastada e indolente.
E promovendo um passo, apresentou com desgarro o peito à mira da espingarda de Miguel, que já arrependido do gracejo, abaixava a arma.
- Pois olhe! Tornou o homem da camisola com a mesma voz de arrasto: fazia um bem a mim... e a outros!
- Por que, Jão?
(...)
 - Esta vida me cansa! Respondeu Jão com arquejo.
 - Estás com saudade da forca? Retorquiu Miguel com chasco de desprezo.”


Jão, em seguida, aproxima-se de Miguel, ameaçando-o.

II- NA TRONQUEIRA

A menina protege Miguel com seu corpo e ordena que Jão parta. O estranho, cabisbaixo desaparece na mata.
O rapaz assistiu ao desfecho da cena dividido entre o medo do sucedido e a demonstração de coragem jovem amiga.

“- Algum dia nos havemos de encontrar!
 - Que lhe fez ele? Perguntou a menina a rir.
 - Que me fez, Inhá? Repetiu Miguel surpreso da pergunta.
 - Foi você quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado.
 - Para a tocaia!
 - De quem? Interrogou a menina assustada.
- Sei lá! Quando o bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz gabo disso!
- Então você cuida que ele anda atrás de alguém?
- Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda. (...)
- Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça.
- É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão lhe na cola.
- Coitado! Se o prendem!
- Ora qual. Dançará um bocadinho na corda!
- Você não tem pena?
- De um malvado, Inhá!
- Pois eu tenho!
-Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é?
- Não sei, Miguel! Disse a menina com ingenuidade.
- Estou vendo que você tem algum patuá, como dizem as pretas da fazenda.
- E tenho mesmo! Olhe! Aqui está! Exclamou a menina a rir-se, mostrando um bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordão de ouro.
Então é encanto; não há dúvida, replicou Miguel sorrindo.
- E eu digo que não.
- Ora, todos sabem!
- Ninguém sabe, nem eu mesma, só Deus; mas eu cuido uma coisa.
- O que?
- É porque não tenho medo dele.
- Qual!...
- Nenhum; nenhum!
- Mas você ficou mais branca do que uma cera, que eu bem vi.
- De raiva só! Respondeu a menina com expressão.”

Os jovens seguem seu caminho e a menina ao avistar a porteira que dava entrada à fazenda, sobe de salto pelas travessas, senta-se e passa a balançar-se.
Miguel observava-a com expressão de contrariedade e de amador: àquela menina corajosa que havia enfrentado Jão, agora se balançava com um prazer infantil.
Desvia a vista e seus pensamentos, atravessa o carreador e trilha a vereda que se embrenhava pela mata fechada, a pequena distância dali.

“- Psiu!... Onde vai? Perguntou Inhá surpresa.
Miguel parou.
- Já se esqueceu do caminho? Continuou ela a rir. É por aqui!
 - O meu não! Respondeu o rapaz.
E partiu.”


Nesse momento, Inhá ouve soar um assovio e vê um vulto que lhe pareceu Jão Fera.

III - ELA

Inhá que no início do passeio estava descontraída e cheia de gentilezas, de repente tornou-se irônica com ares “zombeteiros, que pungiam como espinhos o coração de Miguel.”
A jovem saltou da tronqueira e tenta convencê-lo a acompanhá-la até á fazenda.

“- Olhe! Se você não vier, Linda fica triste, coitadinha, tão bonita, com aqueles olhos tão ternos, que ela tem, de pomba-rola; e aquele rostinho de redoma, que é mesmo uma santa quando se ri no céu. Venha, eu lhe peço, meu bom Miguel.
Fascinado estava o Miguel, mas não pela imagem que lhe descrevia Inhá, senão pelo original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice de seu olhar e na ternura de seu carinho.”


Além, de se preocupar com a aproximação de Afonso.

“- Se Afonso quiser brincar com você...
- Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito!
Cada um destes advérbios, a menina o acentuou batendo com o tacão no chão.
- Então não vou! 
- Não venha! Quem lhe pede?
Caminhou ela direito à tronqueira; e entrou na fazenda.”


IV – MONJOLO

“Cerca de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas.
Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais.
No ano de 1846 era de recente fundação a fazenda das Palmas, que Luís Galvão, seu proprietário, recebera de herança paterna, ainda nas condições de simples situação, com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roça.
Tinha Luís Galvão o gênio empreendedor e gosto para a lavoura; casando com a filha de um capitalista de Campinas, que lhe trouxe de dote algumas dezenas de contos de réis, além do crédito, pode ele, dando alas à sua atividade, fundar uma importante fazenda, que a muitos respeitos servia de norma e escola ao agricultor brasileiro.”


Pela entrada principal da fazenda, um cavaleiro levou ambas as mãos à boca e imitou o canto do curiau, soltando um apito longo e cheio; o mesmo que ouvira Inhá. Logo, em seguida, surgiu um negro moço, com o corpo nu até a cintura e a camisa atada aos quadris á guisa de tanga.
O cavaleiro dirigiu-se ao negro e perguntou quem era ele e o que trazia naquele lugar. Tratava-se de Monjolo e tinha vindo a mando de Faustino, que mandava avisar que tudo se arranjara como previsto.
O cavaleiro desconfiado questiona:

“A que horas sai ele da fazenda? É mesmo de manhã?
 - Não tarda. Cavalo já está selado; capanga só vai um, mofino como o quê! Os outros, Faustino arranjou, como branco sabe.
- Então só leva duas pessoas?
- Duas só, sim senhor. Pajem e capanga.
- Está bom; toma lá, para o pito, disse o cavaleiro atirando-lhe um pataco de prata. Agora vê se vais dar com a língua nos dentes.
- Eh!... Monjolo mesmo!... Branco não conhece este negrinho da carepa, não!
Já não o ouviu o embuçado que, dando rédeas ao animal, afastou-se na direção da estrada geral.”


No caminho havia um lugar conhecido por Ave-Maria, “talvez de não passar alguém ali, sem romper-lhe dos lábios trêmulos aquela imprecação de susto. Nem sempre fora com eficácia invocada a divina padroeira, pois a tradição conservava o nome das vítimas, que aí haviam sucumbido. Dizia a gente do lugar que ouvia-se na azinhaga funesta um incessante gemido de agonia; e não faltava quem o atribuísse às almas penadas dos infelizes que aí se finavam insepultos e devorados pelos urubus.” 


V – A TOCAIA

Ao sumir-se na espessura, Jão Fera voltou o rosto para contemplar o vulto esbelto da menina, mas quando percebeu que a jovem o viu, embrenhou-se na floresta.

“Com pouco reboou das barrocas da azinhaga o tropel de um cavalo. Jão Fera acostumado a distinguir nos rumores da mata as várias notas que formavam a surdina da floresta, inclinou o ouvido à escuta. Não se enganara; o animal vinha naquela direção e aproximava-se rapidamente.
Não tardou que apontasse ali, para sumir-se logo na curva da estrada, um cavaleiro.
Era o mesmo embuçado que falava pouco antes com Monjolo.”


Jão ficou atento aos passos do cavaleiro, que sumiu na curva do caminho, incerto e tenebroso de sua resolução.

“De chofre empinou-se o cavalo, arremessando o homem sobre a escarpa da barranca, donde rolou ao trilho, como um corpo inerte.”

VI – O EMPENHO

A queda foi ocasionada por uma serpente que cruzou o caminho do cavaleiro, espantando seu cavalo. O cavaleiro recobrou-se do susto, ajeitou-se para continuar sua jornada, sem antes, perguntar o nome da estranha figura.
Jão depois de esmagar a cabeça da urutu e limpar a faca nas ramas, disse-lhe:

“- Oh, homem, lembrou-se disso agora! Tornou o outro um tanto ressabiado.
- Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não me disse como se chamava.
- Porque não era preciso.
- Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem interromper-se. Mas agora há de dizer: quero saber com quem trato.
- Para que? Desde que a gente paga... Ou desconfia o senhor de mim?
- Ninguém me logra, disse Jão com um sorriso mostrando a faca. Tenho este fiador. O ponto é outro; só avanço com quem conheço.
- Pois não seja essa a dúvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!”


Barroso era de Sorocaba e teve conflitos políticos com o camarada, por isso ansiava por vingança e contratara Jão Fera para encerrar o caso. O capanga, no entanto, adiava cumprir com o combinado.

“- Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse logo dito quem era o homem; eu certo que não aceitava o ajuste, nem recebia os seus vinte patacões para tomar o empenho que tomei.”

Agora, Jão Fera vivia um grande conflito: queria renunciar a sua “função de execução”, mas tinha gasto o dinheiro que recebera no dia de sua contratação.

“Vendi o que tinha, e pouco era; mas não ajuntei senão estes magros cobres, que trago aqui na burjaca, veja. Quer recebê-los, e soltar a minha palavra, empenhando eu a minha vida para pagamento do resto?”

VII – O MARMANJO

Na sala, a mesa estava composta por cinco pessoas: D. Ermelinda, Luís Galvão, Afonso, Linda e Brás, um menino de 15 anos de idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro daquela família, que respirava a graça e a inteligência.
Era notório que D. Ermelinda evita olhar para esse ângulo da mesa e “se acontecia o seu olhar, circulando a sala, passar por aí, cegava-se e fugia com desgosto.”
O menino acaba derrubando o café no peito da camisa, que acudido por Rosa, disse-lhe:

“- Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho não sabe comer na mesa.
Um raio maligno lampejou na pupila baça do pequeno.
- Nhô Brás! gritou a rapariga tomada de dor.
O menino por baixo da mesa fisgara-lhe o garfo na coxa.”


VIII - PRESSENTIMENTO

D. Ermelinda aparentava preocupação com a viagem do seu marido a Campinas, onde demoraria por três dias a fim de concluir alguns negócios, que talvez o levassem a São Paulo.

“Apesar do hábito dessas e até de maiores ausências, a senhora não podia eximir-se à repugnância que lhe causava semelhante viagem, e empregava todos os esforços para desmanchá-la.”

Nesse dia, Luís Galvão comia com apetite e entre um carinho e outro, tentava acalmar a preocupação de sua esposa. Quanto a Linda e Afonso, apesar da hora, comiam com tranquilidade.
Luís Galvão dizia:

“- Que perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e até mais longe e com maior demora? (...)
- E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e a ninguém faço mal para que se dêem ao trabalho de livrarem-se de mim.
- Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos. No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la à toa, eu fui a Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia espera, não era decerto para mim.
- E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda?
Dizem que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue. Por isso deram-lhe o nome de fera!”


Luís Galvão a tranquilizou e disse que Jão Bugre ou Jão era afilhado de seu pai e até chegou a servir-lhe de camarada. Depois se tornou um perverso; porém lembra-se dos benefícios que recebeu da família.
D. Ermelinda é de opinião contrária, afirmando que “o benefício os humilha, e eles revoltam-se contra o que chama uma injustiça do mundo.”
Jão Fera fazia jus ao seu nome, embora nunca tivesse atirado a alguém por trás do pau, ou de emboscada: atacava sempre de frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte só lhe servia para defender-se, quando o perseguiam. Apesar de viver pelos matos, nunca foi acusado de roubo ou furto.

“- Andam-lhe à pista desde muito tempo; e até, se não me engano, ouvi que tinham prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas até agora não se animaram, tal é o temor que inspira.”


IX – AS AMOSTRAS

No momento da despedida, D. Ermelinda abraçou o marido e com disfarce apalpou-lhe o peito, e ficou mais tranquila, quando percebeu o revólver no bolso do casaco. Seguiam juntos, o camarada Mandu e o pajem.
Os viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda deu graças a Deus daquela volta inesperada, que lhe restituía o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir. Alegou que voltara porque esquecera a lista das encomendas e presentes para o aniversário de Linda. Correu Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos; e tirou um papel, que rápido e furtivamente escondeu no bolso.
Era este o motivo real da sua volta; a lista, não passava de pretexto.
Abraçou a mulher e beijou-a na face e seguiu seu caminho, ia pensativo, quase triste.

“Luis Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos, especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se ama, e cuja estima se alcançou, não pode haver maior suplício para o homem de brios.
O esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação ou referência do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação para ocultar o verdadeiro motivo de sua volta [...]. Voltou-se Luís Galvão para enviar um adeus à mulher, que lhe acenava com o lenço, e desapareceu.”


X – OS GÊMEOS

Logo após a partida de Luís Padilha, os dois irmãos encontraram-se no pátio interior e foram ao encontro de Berta. Linda diz a Afonso que tem um segredo para contar a Berta.
Afonso era o retrato da irmã gêmea. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazão.
Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrou-se de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos. Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olhar-lhe no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro Afonso.


XI – NO TANQUINHO


“Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de voltar do insípido passeio que tão malogrado fora. Entretanto não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume, à sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou, Miguel e Inhá a quem Linda tratava pelo nome.[...] Súbito no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este clamor incompreensível:
- Til!... Til!... Til!... Oh! Til!...”



XII- IDÍLIOS

Eram frequentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no Tanquinho e o amor já tinha nascido nos corações desses jovens, só não sabiam D. Ermelinda e seu marido; não que o negassem Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se; eis todo seu pecado. Quando D. Ermelinda e Galvão tomavam parte no passeio dos filhos, estes por um natural acanhamento não dirigiam a excursão para o sítio favorito; no que os ajudava o fazendeiro, mais solícito em mostrar à mulher a medra viçosa de sua lavoura, que lhe estava prometendo abundantes messes.
Caso alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que os donos da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de longe pelas vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abóbadas de verdura e os acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.
Afonso namorava Berta às escâncaras, mas quem o via sempre a gracejar com a menina, acreditava que isso não passava de travessura de moço folgazão sem tinta de malícia.
Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tímido coração bater apressado. Não raro, o instinto de delicadeza que recebera de sua mãe, advertia-lhe da distância que separava dela o moço pobre e de mesquinha condição. Entretanto Miguel não se apercebia disso. Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa de Berta, como também não lhe pulsava o coração com os ímpetos da paixão.

XIII – SUSTO

Passado o primeiro susto causado pelo grito, o grupo tornou-se à conversa, apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a colina para saber donde partira o clamor. Afonso aproveitou para se esconder e assustar Berta.
Linda e Miguel ficam a sós e falam sobre literatura, caça e formação escolar. A garota pergunta se Miguel não quer se formar e sugere acompanhar Afonso em seus estudos em São Paulo.

“- Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo. (...)
- Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria ambições que não são para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto que ficando no meu canto, viverei tranquilo junto daqueles a quem amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas que não valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por aí?”

Berta retorna ao local e pergunta para onde ia o Sr. Galvão. Linda explica o motivo da viagem do pai e a preocupação da mãe, depois de terem visto Jão Fera pelos arredores. De repente notam a ausência da amiga e escutam soar de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira. 

XIV – A VESPA

“Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem de Luís Galvão, sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido o nome de Jão Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam coisas inauditas.”

Berta corria rumo ao caminho que o Sr. Galvão teria que percorrer, para certificar-se de que o passara incólume, ou para salvá-lo de qualquer modo, que a menina não podia imaginar.

“A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame: o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.
Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.”


Nesse momento, Berta reconheceu Jão Fera com uma faca na mão.

XV – O RELICÁRIO

Berta, ao primeiro relance, pensou em fugir daquela visão que a espavoria, mas reagiu e perguntou se ele estava ali, para matar alguém.
Jão respondeu-lhe que esse era seu ofício.

“-Tu és um monstro! Disse Berta afinal com uma explosão de horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz de cometer toda a espécie de atrocidade, eu não queria crer; porque duvidava que um homem pudesse transformar-se em um tigre carniceiro; e também porque tantas vezes te vi tão sossegado e cuidados comigo, e eu não podia imaginar que se pudesse ter esse rosto bom e tranquilo, tendo-se dentro do coração uma caninana.”
Berta acusa-o por se vender e assassinar o filho de seu benfeitor “daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez, e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.”

O capanga diz que se sacrifica por aqueles que o querem bem e explica a menina que quando ajustou o serviço, não sabia quem era a vítima e sendo um homem de honra, não tinha como voltar atrás, mais ainda, porque tinha gastado o dinheiro recebido.

“- Ah! És um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que escapaste de assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste sua morte, como te deu outrora o pão com que matavas a fome!”

E, num gesto rápido, Berta retira o cordão de ouro que estava em seu pescoço e preso a um amuleto e a uma cruz e entrega-o ao Bugre.

“- O relicário de minha mãe!
Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.
Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a ranger.
Berta o reconheceu.
Era Brás, o idiota.”


XVI – A SURA

Depois de três dias que Berta salvara a vida de Luís Galvão, retendo o ímpeto de Jão Fera, a menina ganhou o quintal com uma galinha sura e muito arrepiada. Não tinha pés a pobre, que os ratos tinham roídos à noite; andavam aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la, a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia ainda. Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo, deu-lhe milho, água e lavou-lhe as penas sujas de poeira e cisco.
Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava a menina travessa de dias atrás. Ninguém na casa se importava com essa galinha, a não ser para fazer-lhe mal.
Em seguida, Berta ganhou o campo. Não tinha, porém, dado vinte passos, voltou-se rapidamente, ouvindo rumor da porta da varanda que outra vez se abria – era Miguel a observá-la.

XVII - ZANA

Durante o seu passeio, Berta foi guiada pelos abutres e encontrou um animal agonizante no meio de uma touça de junça. Movida de compaixão, a menina curou suas feridas e alimentou-o.
Na cozinha, “acocorada a um canto, com o queixo sobre os cotovelos fincados ao peito cerrando a cara, descobria-se uma criatura humana, dobrada sobre si a modo de trouxa.”
Tratava-se de Zana, uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e que de tempo em tempo, desdobrava um dos braços descarnados, insinuava ligeiramente a mão pela espádua, e fazia menção de matar uma pulga que imaginava ter presa entre o polegar e o indicador.
Berta entoa uma cantiga e à proporção que a menina cantava, o semblante da preta apresentava profunda angústia.

“Uma vaga expressão de sorriso chegou a iluminar aquela fisionomia bruta e repulsiva. Os olhos pouco antes baços e quase extintos desferiram um lampejo, e vagando um instante pelo aposento, se fixaram enfim no vulto de Berta.”

Em seguida, Zana, começa a cantar a mesma toada do acalanto, num dialeto africano, difícil de entendimento. Desde criança, Berta se habituara a passar algumas horas com Zana; tornando-se moça vinha regularmente duas vezes por semana visitar a sua protegida e trazer-lhe o sustento.

XVIII – A VISÃO

Berta senta-se na soleira da porta da cozinha, e de lá observa Zana, que já está completamente alheia e despercebida de sua presença. Nesse momento, escuta um estalido cadente, que indicava passo de homem ou animal a caminhar por entre o matagal que cercava as ruínas e, em seguida, escuta um grito áspero chamando por seu nome.
Não pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação desse terror, nem com sua história. 


XIX – O DESCONHECIDO

Este mistério atraia Berta tanto como a história de Zana. Por que Zana vivia abandonada numa casa em ruínas, ao desamparo, completamente esquecida?

“Berta passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam. Fora a mãe de Miguel, nhá Tudinha, quem a recolhera e criara com o maior desvelo. Na casa, porém, onde se achava emprestada e por comiseração, era ela a verdadeira senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam em adivinhar-lhe as vontades para satisfazê-las. Sem dúvida que nhá Tudinha queria mais bem ao filho de suas entranhas; mas não tinha para ele os extremos, as debilidades e carinhos, que fazia por essa filha de criação, a enjeitadinha. (...)
No dia em que estamos não acabou Zana a pantomima de sua visão diária. Quando se aproximava pé ante pé da janela da alcova, em atitude de quem espreita, os olhos da negra esbarraram com os de um homem. Era o Barroso que assomara de dentro do mato, pouco antes, e dirigiu-se passo a passo para as ruínas.”


Berta teve medo, pois esse homem inspirava-lhe uma indefinível repugnância e terror. Zana viera até o terreiro da cozinha, onde, faltando-lhe as forças, abateu-se como um fardo a que retiram o apoio.

“Acocorando-se em cima do corpo inerte da louca, apertava-lhe ao pescoço as mãos crispadas, procurando esganá-la, enquanto com os pés e os joelhos malhava-lhe o ventre.
Foi esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar à porta da cozinha, chamada pelos gritos. Arrojando-se do mesmo ímpeto ao terreiro, seus lábios lançaram com um tom de severa exprobração o nome do perverso, que espancava tão barbaramente uma criatura inofensiva.
- Brás!”

Brás foge. Berta reanima Zana e sai atrás do perverso rapaz.

“Parou ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no castigo que devia infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lábios um sorriso de desprezo e afastou-se rapidamente.”

O rapaz tentou fugir, mas teve uma convulsão medonha, fazendo Berta correr a ele e tomá-lo como o faria a uma criança.


XX – A POUSADA

Quem transitava pela estrada de Campinas avistava perto de Santa Bárbara, dois casebres unidos por uma espécie de rancho ou telheiro. Um dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém ambos de grosseira construção.
Na extremidade da casa velha, havia uma espécie de taberna. Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo que servia de pousada. Chico, um homem ainda moço e robusto, com expressão sonolenta e boêmia vivia a espiar a estrada. Do lado oposto da habitação havia uma varanda, que servia de cozinha e pátio de criação. Nela encontrava-se uma moça de seus vinte e cinco anos que observava a panela onde estava cozinhando feijão e couves.
Nesse momento, dá-se a chegada de nhô Gonçalo, um homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe que se curvava ao peso de uma cabeça enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hábito de cavalgar derreado à banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notável, a não ser a malha que lhe marchetava de nódoas brancas a tez acobreada, bem como as costas das mãos.
Nhô Gonçalo queria pousada e café.

“- E o Bugre, como vai? Perguntou de repente o Gonçalo.
- Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão cabo dele, que não tarda muito!...
- Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto de prazer, que mal disfarçou.
- É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.
- Ora, isso há muito tempo!
- Mas um dia chega a caipora.
- Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...
- Lá isso é verdade! Ninguém!”


Enquanto isso apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães de caça.


XXI – O BACORINHO

No inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores seguindo pelo sertão, nos campos de Araraquara e Botucatu. Um deles se aproximou e disse:

“- Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!
- Pois sim! Respondeu o Tinguá, sem mexer-se do balcão onde continuava debruçado.
Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas, e outros já sentados no banco junto à mesa esperavam o almoço com uma fome de caçador.
- Sô Filipe, tenha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga do espinhaço! Exclamou um dos companheiros.
- E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o peito! Acudiu outro.
- Aí vem, camaradas, não se assustem! Retorquiu Filipe.”

Serviu-se de um velho queijo de Minas, algumas rapaduras, farinha de milho e pediu café. Em seguida, molharam a garganta com um copázio de boa cachaça de Piracicaba, a fim de escorregar-lhes bem o bocado, e não os engasgar.
Na extremidade oposta, Gonçalo tomava o seu café e tentava travar conversa com os caçadores.

“- Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?
- De Campinas!
- E anda caçando? Por estas bandas há muito veado e paca: mas como os caititus este ano, nunca se viu: é mesmo uma praga!
- Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça! Atalhou um dos caipiras a rir.
- Viemos desencovar uma onça! Acudiu outro.
- E é suçuarana!
- Qual! Tigre verdadeiro!" 

Na verdade, os caçadores estavam à procura de Jão Bugre, “viemos desencovar. Parece que a furna dele fica por aqui perto. Não podia nos dar notícia?
Tratava-se de um acerto de contas, devido o Bugre ter matado a facadas o Aguiar, do Limoeiro. O filho de Aguiar recompensa com dois contos quem der fim no matador.
Filipe insiste:

“- Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?
- Pois que dúvida!
- Será mesmo o durão que dizem? 
- É conforme. Eu cá não conto com ele.
- Hum!...
- O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?
- Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde anda o cujo. Oh! Psiu!...
- Nhô Pinta... Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá querendo engolir as primeiras palavras escapadas.
- Não sabe que rumo levou o Jão?
- Tanto como mecê.
- Ora, ande lá.
- Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não conta onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia.”


Um bacorinho de pelo ruivo entra no recinto e é enxotado pelo Chico Tinguá. Nesse momento “partiam vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu com braços e pernas, a fim de espantar uma besta muar que sua imaginação figurava estar furando a cerca do pasto, ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de uma porca e um bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro.
Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando o canto desapareceu.
O Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se pronto da mesa, e, correndo ao ângulo da casa, observou o campo oculto pela quina da parede.
O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas, o Chico Tinguá estugava o passo.
Riu-se o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe:
O patrício faz favor?



XXII – O TRATO

Gonçalo era um valentão e utilizava-se sagazmente do apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava à barba dos outros, mostrando as pampas da cara. Mas à exceção dele, ninguém o chamava pelo tal apelido senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para distingui-lo de outro Gonçalo carafuz, também morador no lugar. Gonçalo não admitia esse disparate e brigava com quem o tratasse por essa alcunha. Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera, de quem invejava não só a força e valentia, como o apelido. Ele sim, Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as perversidades cometidas por este eram travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos. Enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido por toda aquela redondeza, e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.
Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido. Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:

“- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? Perguntou ele.
- Mas decerto, homem!
- E não sabe onde ele se encafua?
- Que esperança! Pois ainda estava aqui?
- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?
- Abra o preço, amigo.
- Duzentos bicos?
- Topado.
- Mas há de ser com um ajuste...
- Diga lá.
- Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não serve.
- É assim mesmo.
- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí afora. Passando este morro, atrás do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá.”
Este diálogo foi rápido e não perceberam a presença de um vulto decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia. Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope.
Era o Barroso que veio parar à porta da venda e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia pregado um famoso logro.

“- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre.
- O patrão também tem negócio com esse danado? Disse Gonçalo.
- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a coisa me cheira a caçoada.
- (...) Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio.
- Pois vamos acabar com isto de uma vez.
Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça.
Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo caminho além.
- Eh! Branco mesmo!... Resmungou uma voz trôpega.”



XXIII – NHÁ TUDINHA

Nhá Tudinha era extremamente dinâmica. Sentia-se feliz quando a encarregavam de trabalhos.
Às vésperas da festa de São João; ela, que era conhecida como ótima doceira se pusera a confeitar os mimos feitos por suas mãos. Contava com a ajuda de Fausta, preta de meia-idade. Essa escrava e a casinha foram o que sobrara de que outrora gozara em vida de seu finado marido, Eugênio de Figueiredo, companheiro e amigo de Luís Galvão. As más colheitas e os juros enormes tinham consumido os modestos haveres.
Berta chega e rouba um biscoito fazendo nhá Tudinha achar graça. Depois, chamou o Brás, que passado a convulsão, seguiu a menina.
Aproximara-se nhá Tudinha e como reconhecesse o menino, escapou-lhe um gesto de visível repugnância. Mas um olhar da menina bastou para apagar essa repulsa, e convertê-la em agasalho.
Aí tomou um prato, que lhe serviu ela, e comeu com uns modos comedidos, embora um tanto hirtos, que ia copiando da moça. Ninguém diria que fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvão metia o queixo na xícara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a cara de sopa e manteiga.
O Brás também não tinha fome. O constrangimento, em que o punha a presença da menina e a sua fascinação, deviam de embotar-lhe o apetite insaciável, com que de ordinário devorava quanto lhe deixassem.

XXIV – A LIÇÃO

Depois da refeição Berta sentou-se em um pedaço de alto pranchão e escutava com atenção Brás repetir de cor a Salve-Rainha, sem titubear.

“- Assim, Brás! Disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina, em ledos sorrisos.
- Til contente? Perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz, que desvanecia o tom brusco e explosivo.
- Muito!...”


Berta abraça-o num ato de carinho e diz-lhe: “agora a Ave-Maria! Naquele instante ela era sobretudo mestra; ou mais que mestra, pois não ensinava somente, senão que tirava do caos dessa animalidade confusa e revolta o balbuciar de uma razão sopita.
No final das orações era costume implorar a proteção divina a favor das pessoas da família, dos entes mais queridos. Chegado a este ponto estacou Brás.

“- Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei...
Aqui fez o menino uma reticência, e fechando um instante os olhos para não ver o rosto gentil da moça que servia de página àquela súplica singela, terminou abrupto por um modo teimoso e rebelde:
- Intercedei por Til, só, só, só, só!... Til muito feliz! Til muito bonita, muito tudo!...”

Berta corrige o menino e obriga que ele reze por todos, senão não seria mais Til.
Caiu-lhe então aos pés, outra vez humilde e cativo, rojando como um verme, o mísero idiota, de cujo corpo rompia em arquejos e contorções o pranto, que não sabia exprimir como os homens em lágrimas e lamentos.
Acalentou-o Berta, amimando-lhe as faces, e depois que o viu calmo, trouxe-o de novo à reza e o fez recitar a prece interrompida.

“- Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei por meu tio, minha tia e meus primos; por mim, por Berta e aqueles a quem ela quer bem, e fazei-nos a todos felizes.
- Vamos à lição! Disse Berta.
Repetiu então o Brás de cor o abecedário e uma parte da carta de sílabas e nomes.



XXV – O IDIOTA

O grande esforço e o limite de aprendizagem do menino para conseguir decifrar as letras e sílabas, ressaltam-lhe no rosto contraído. Por isso Berta o obrigava a repetir constantemente tudo quanto já havia aprendido. Só de tal sorte conseguira ela inserir nessa bruta animalidade algumas ideias, que ali permaneciam como inscrições lapidárias abertas em lousa.
Brás era filho de uma irmã de Luís Galvão que faleceu três anos antes, devido aos desgostos que lhe dera o marido e pela tristeza de ver seu único filho, sofrer de deficiência mental.
Brás quando ficou órfão de pai e mãe foi adotado por Luís Galvão. D. Ermelinda, de início estranhou o fato de receber um menino com problemas mentais, em seu lar. Mas perante a atitude digna de seu marido, aceitou. Somente exigiu de Luís Galvão, e isso o fez com autoridade de mãe, que, recebido Brás e tratado como filho da casa, se evitasse, contudo seu íntimo contato com Afonso e Linda, conservando-os, quanto possível, alheios à existência do primo, e impedindo o menor trato e convivência com ele.
Luís Galvão para reparar a desgraça do sobrinho ou pelo menos atenuá-la, matriculou-o numa escola, em Santa Bárbara. O professor Domingão era fiel às tradições da antiga profissão e depois de três dias de tentativa, concluiu: “Nunca, em sua vida, tinha encontrado um jumento de casco tão rijo”.


XXVI – O ABECÊ

Em uma das fugidas que fez o Brás da escola, encontrou-se com Berta, que o consolou e o levou consigo até sua casa. Para livrar o pobre dos bolos e repelões do mestre, a menina passou ensinar-lhe todas as manhãs a lição. Como Brás não conseguia acompanhar as lições, passou a dar-lhe um breve instante de alegria. Brás, então passava o dedo levemente pelas “sobrancelhas negras de Berta, por seus lábios finos, pela conchinha mimosa da orelha; e, apontando alternadamente para o til na carta do abecê, repinicava as risadas e os corcovos. (...) Ninguém sabe o que passou então no íntimo de Berta, que tinha suas venetas, e de quem se referiam casos que a gente velha do lugar, e especialmente as pretas da fazenda, atribuíam a uma influência misteriosa e sobrenatural. Associando-se a lembrança original do idiota, disse-lhe a menina, ajudando a palavra com mímica expressiva e apontando para a carta.
- Eu sou til!
Esteve Brás um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar da ânsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando a sua parva risada.
- Eh!... eh!... eh!... Berta, umh!... Berta, umh!...
Daí em diante aquele sinal, que para o idiota era símbolo de graça, da gentileza e do prazer, tornou-se a imagem de Berta, e não se cansava Brás de o repetir, não por palavras, mas por acenos com os meneios mais extravagantes.
Dias depois, chamando-a ele pelo nome, a menina respondeu-lhe:
- Não me chamo mais Berta; meu nome agora é Til.
- Hanh!... fez o idiota com essa interjeição ou bocejo, que na sua bruta linguagem exprimia uma interrogação embasbacada
.”

Um dia Berta colocou o dedo de Brás sobre a letra “a”, de Afonso, o menino roubou o abecedário da mão de Berta, despedaçou-o com grande fúria.
De início, Berta assustou-se com essa atitude, mas bastou-lhe pousar a mãozinha carinhosamente sobre seu ombro para aplacar-lhe a exacerbação. Em seguida, aponta o “b”, de Brás e a alegria substituiu o seu rancor.
Passado um mês, relacionando as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam, Brás conhecia todo o abecedário.


XXVII – A COTIA

Aparece Miguel procurando Inhá pela casa e com expressão zangada.

“Brás, que desde a chegada de Miguel se agachara sobre as patas como um cão de fila, rosnava surdamente, saltando com o olhar do semblante de Berta ao vulto de Miguel, como se esperasse um gesto da senhora para filar à presa e abocanhá-la.”

Miguel entrega a Berta uma linda cotia, que tinha as patas amarradas para não fugir. A menina pulou junto de Miguel, “arrebatou-lhe a cotia, e conchegando-a ao seio, começou a alisar-lhe a pelúcia dourada, animando-a com os dengosos requebros e a garrulice carinhosa em que se expande a inexaurível sensibilidade da mulher por tudo que é frágil, mimoso e delicado como ela.”
Passado o primeiro afago, Berta passa a tratar Miguel com meiguice, pede-lhe que a desamarre, faça uma casinha para ela e conte onde a encontrou e como ele a apanhou. Tranquilizou-a Miguel, asseverando que “a cotia era solteirinha e vivia só, por terem as raposas acabado toda a família, não tardando que lhe fizessem o mesmo a ela, pelo que era até um benefício retê-la cativa. (...) Veja lá, Miguel, você há de fazer a casinha para ela, com porta e janela, e também um coche com seu bebedouro. E depressa que é para eu dar a Linda!...”
A alegria desapareceu da expressão de Miguel. Logo, em seguida, o grito de Berta ecoa no ar: a cotia fugiu para o mato e Brás dá uma grande gargalhada. Precipitou-se Miguel para castigar o idiota, que ele adivinhava ser o autor da pirraça, mas Berta, que lhe viu o ímpeto, se interpôs a tempo. O idiota arremeteu pelo campo e desapareceu.
O brilho dos olhos de Miguel desaparece e ele disse:

“- É tempo de acabar com este gracejo, Inhá. Além de minha mãe, eu lhe juro, que só a você quero bem; mas você não se importa comigo; portanto já sei o que devo fazer.
Não hei de aborrecê-la mais
.”


XXVIII – A BOLSA

Naquela manhã Jão Fera saíra das brenhas, expressando preocupações por sua condição de foragido e pela perseguição de que era alvo. Entretanto prosseguia lentamente seu caminho. Depois de ganhar o cordão de ouro de Berta, correra por algum tempo sem inconsciência de si. Recobrada a calma, achou-se à borda da estrada, que em sua carreira por dentro do mato ele perlongara sem o sentir. Quando estava perto de acabar com Luís Galvão, “o olhar cintilante de Berta e o gesto de seu desprezo se debuxavam ainda ao pensamento do facínora como um anátema.
Jão Fera não conseguiu exercer a sua função e encaminhou-se à venda do Tinguá. O Barroso o esperava lá para receber a boa nova. Jão Fera comunica que não terminou o “trabalho”, porque não quis.
Barroso enfurece e “dum revés da mão o capanga o lançou chão, calcando-lhe a alpercata ao peito. Viu ele descer ameaçadora a coronha do bacamarte e fechou os olhos. O bugre ia esmigalhar-lhe a cabeça, como se faz com um réptil.”
Em seguida, entra na venda, com um único pensamento: como conseguir dinheiro para livrar-se daquele serviço e não magoar Berta?!
Ao sair, encontra uma bolsa de couro cheia de moedas pertencente ao Barroso. Deixa-a com Chico, que devolveu ao seu dono.
Na mata, um mascate envolvido com os seus lucros, não nota a aproximação de Jão Fera, que em pé atrás do tronco, e a dois passos dele, o tinha em seu poder.


XXIX- DESENCARGO

Jão Fera pensou aproximar-se, talvez, o mascate italiano pudesse emprestar-lhe dinheiro, mas o receio de assustá-lo foi maior e fez com que partisse.
Em uma manhã encontrou-se com Chico Tinguá, que veio avisá-lo sobre a trama que armavam contra ele.

“- Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de súcia com eles, redarguiu Chico; e não é de bom que o demônio me anda a cheirar cá pelo rancho a uns tempos. Agora mesmo quando vim, lá me ficou espiando!”

Jão Fera não se amedronta. Sugere que Chico vá até a fazenda do Aguiar e receba os cinquenta mil réis que estava oferecendo a quem o capturasse, que ele ia se apresentar. Em seguida, Jão Fera aproxima-se da casa de nhá Tudinha e Berta ao vê-lo, vai ao seu encontro.

“- Agora posso desempenhar minha palavra, e não me importarei mais com o Galvão; disse o capanga cabisbaixo e humilde.
Estremeceu Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra o pai de Linda.”


Depois, pede que a menina beije o bentinho.


XXX – TRAMA

Era véspera de São João. Na cozinha da fazenda das Palmas, Nhá Tudinha organizava a recepção dos hóspedes esperados.
Linda e Berta conversam à sombra de uma latada. Berta pergunta á amiga, porque ela não está feliz. Ela responde-lhe que não têm quem pense nela, que Miguel só tem olhos para Berta.
Nesse momento, as amigas assustam ao ouvir um grito áspero, que Berta reconheceu ser o mesmo apito do dia da tocaia. Apesar da promessa que lhe fizera o Bugre, Berta estremecia com a ideia de que Luís Galvão chegaria de Campinas naquela manhã, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria, fosse vítima do assassinato que ela uma vez impedira. Em falta de Jão Fera, a oculta vingança que ameaçava a existência do fazendeiro, teria procurado outro instrumento. Quando as duas amigas atravessavam a horta, Berta viu o pajem Faustino acudir ao sinal combinado com o Barroso, no mesmo lugar que, no dia da partida de Luís Galvão, estava de espreita o Monjolo.
Aí estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido à escuta de qualquer rumor que lhes anunciasse a chegada do pajem.

“- Olhem lá! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, senão está tudo perdido.
- Isto é com Monjolo!
- Monjolo arranja tudo, deixa estar.
- Quando estiverem bem seguros é só dar o sinal, que o fogo rebenta cá no canavial. O diabo corre para acudir; e aí você, rapaz, tranca também a gente da casa, a mulher e os filhos, e espera, que eu não tardo, para arranjar a história. Ouviram bem?...”


Em seguida, os cúmplices separaram-se. O pajem voltou á casa, Monjolo à roça, e Barroso foi juntar-se a pouca distância ao Gonçalo Pinta, que o esperava com dois animais à destra. Na sequência, surge Brás, que ouviu os planos dos cúmplices.

XXXI – PAI QUICÉ

Brás exausto pela violência das emoções prostrou-se por terra e aí ficou por algum tempo arquejando. O desgraçado menino até conhecer Berta, o único vestígio humano que havia nessa bestialidade, era o ódio. Aborrecia a toda criatura racional, talvez por uma confusa percepção de sua deformidade e estupidez.
Surpreendido quando chegava ao sítio habitual, e obrigado a esconder-se, ouvira a trama do Barroso, que o alegrou a princípio, porém agora o contrariava pelo receio de perder a sua maldade. Então, captura uma serpente e arremessa-a sobre a cama de Linda. Acabava o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermínio, que ele ruminava em sua feroz estultícia, quando o fez estremecer com a voz de Berta, que se encaminhava para a alcova.
Luís Galvão havia chegado. As meninas correram chamar D. Ermelinda e foram ao encontro do fazendeiro. Alguns escravos acudiram para tomar a benção ao senhor, entre estes, um inválido curvado como um arco de pipa, com a cabeça lisa como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada; pelo que chamavam de pai Quicé. Era ele um dos favoritos de Berta, que todos os domingos lhe davam um vintém para fumo.
Berta era curiosa, e queria saber de todas as novidades. Contou o negro velho que iam prender o Bugre, ouvira ao Gonçalo junto à venda do Chico Tinguá. Estava planejado que, naquela tarde o Pinta guiaria o Filipe ao esconderijo do Bugre.
A menina pede para Quicé levá-la até o esconderijo do Bugre, mas antes disso, vai buscar seu chapéu que ficou na cama de Linda.
Brás ao ver Berta encaminhando-se à alcova, teve uma vertigem e tombou da árvore ao chão.


FIM DO PRIMEIRO VOLUME

Segundo Volume

I- O BUGREZINHO

Em 1826, a mais bonita moça que havia nas vizinhanças de Santa Bárbara, era Besita. Quando ia à missa aos domingos e dias de guarda, todos se voltavam na rua para vê-la passar. Festa em que ela não aparecesse, perdia toda a graça, até os velhos achavam desenxabida a patuscada. No entanto, nunca houve qualquer comentário que desabonasse a moça.
Besita perdeu a mãe ainda criança e morava em companhia do pai, o velho Guedes, bem perto de nhá Tudinha. Luís Galvão, na época, era um bonito moço de vinte anos e sempre achava um pretexto para apear-se em casa de Guedes.
Nesse tempo servia de camarada a Luís Galvão um rapaz de pouco menos idade, que o acompanhava constantemente em passeios e viagens. Era Jão, a quem os outros se tinham habituado a chamar de Bugre, pela tez bronzeada, que distinguia aquela raça indígena.
Jão foi criado na antiga fazenda de Afonso Galvão, pai de Luís; e sempre apresentou um modo singular e misterioso.
Um dia, o velho fazendeiro à janela viu parado no terreiro deserto um cavalo velho sobre o qual se encarapitava uma figurinha que à primeira vista pareceu-lhe um macaco.
O velho Galvão ficou espantado ao reconhecer que era uma criança, de pouco mais de um ano, agarrado às crinas. Na época, o menino ainda não falava.

“Nunca se pode saber donde saíra àquela criança; como chegara até o terreiro sem darem por ela; se viera só ou alguém a trouxera. Também foram inúteis as pesquisas que se fizeram para descobrir os pais, ou ao menos algum indício de quem poderiam ser.”
Várias histórias foram criadas sobre o “aparecimento” dessa criança: que era o Anticristo e o sendeiro, a besta do Apocalipse, descrita por São João; caçula do diabo cocho, entre outras.

“Houvera grande cheia no rio. Uma família de gente pobre ia passar o vau, que faltou lhes. A mulher sumiu-se, o marido correu a salvá-la, desapareceram ambos arrebatados pela correnteza, ou tragados por algum perau. Então o sendeiro, que levava o menino, e cujo cabresto soltara o infeliz pai no impulso de salvar a companheira, recuou, e seguindo pela margem foi ter à fazenda. A tronqueira estava aberta naturalmente; e assim pode chegar ao terreiro, onde o descobriram.
Era essa a verdade ou mera suposição? Ninguém tinha presenciado o sinistro, nem sabia-se em toda a vizinhança, de gente que houvesse desaparecido. Mas todos afirmavam o fato, que era aceito como ponto de fé.”

O bugrezinho foi batizado com o nome de João, sendo o padrinho o Afonso Galvão. Foi criado com Luís; e desde logo mostrou a têmpera do caráter que só mais tarde se havia de formar. Já em criança era robusto, valente, mas taciturno e sombrio.
Crescendo, veio a ser o camarada de Luís, a quem servia com dedicação. Às vezes que salvara a vida ao jovem patrão, já não se contava.
Luís Galvão gostava de bulir com as raparigas e pregar peças aos caipiras, resultando em constantes desavenças, em que Jão, para defender o moço, tinha necessidade de desancar os assaltantes, pagando em muitas ocasiões com a pele as aventuras galantes do jovem patrão, chegando inclusive matar.
Até que, passando uma tarde por Santa Bárbara, viu Besita à janela e ficou imediatamente apaixonado por ela.

II – O CASAMENTO

“Tinha Jão por Besita uma dessas paixões veementes que se afrontam com o impossível e arcam para subjugá-lo. As pujanças de sua alma se revoltaram contra a adoração fervida e respeitosa que o trazia submisso; mas o caráter indomável estava enervado pela fascinação que exercia em natureza tão ardente a sedutora beleza da moça.”
Pensou raptá-la e levá-la ao deserto, onde ele não se envergonharia de seu amor, mas temia que Besita não o perdoasse.
No dia em que teve certeza do interesse de Luís Galvão por Besita, brigou sem descanso e com desespero; embriagou-se e acordou atirado na estrada, onde escapou de ser esmagado por um carro de bois.
Depois, concluiu se “alguém, que não ele, tinha de ser amado por Besita, fosse-o Luís Galvão de quem era amigo; outro qualquer morreria às suas mãos; assim o jurara.”
Besita percebeu o interesse de que era objeto dos dois amigos e o contraste que havia entre ambos: o Bugre adorava-a (Amor Platônico) e Luís Galvão desejava-a (Amor Físico).
“A paixão do Bugre era submissa, a do moço imperiosa; na primeira ressumbrava a abnegação, a segunda ardia em desejos.”

Besita já amava Luís Galvão, mas temendo os perigos dessa paixão, “tornou-se fria e constrangida em relação a ele, enquanto mostrava-se expansiva e afetuosa com o Bugre. Sabia que deste nada tinha a recear nem mesmo um olhar impertinente, pois todo o emprenho dele era ocultar sua ardente dedicação. Assim podia gozar desse inocente prazer de ver-se adorada mudamente como uma santa.” 

Com o passar do tempo, Luís Galvão não mais contentava em vê-la e chegou a alcançá-la em algumas entrevistas no quintal ao escurecer.
Um dia apareceu em Santa Bárbara um moço chamado Ribeiro, que vinha arrecadar alguns bens da herança de um tio. Vendo Besita, apaixonara-se por ela e a pedira em casamento ao velho Guedes.
À tarde apareceu Luís Galvão. Contou-lhe o Guedes a pretensão do Ribeiro, para testar o interesse do rapaz em casar-se com Besita. O filho do fazendeiro demudou-se; sugeriu dúvidas sobre os haveres do pretendente, alegando ser pessoa desconhecida no lugar. Passados quinze dias, Besita aceita casar-se com Ribeiro como um sacrifício, para salvar sua virtude, embora à custa dos sonhos fagueiros de sua alma.
Jão teve uma cruel recaída, como se fora ele próprio a quem a moça repudiasse para se dar a outro, insistiu que Luís Galvão fosse ter-se com o Guedes, mas quando percebeu que o amigo não se manifestou, abandonou a casa onde fora acolhido e vivera desde a infância.
Pouco tempo depois, efetuou-se o casamento de Besita com o Ribeiro; mas este ao sair da igreja recebeu uma carta, que o chamava a toda pressa para Itu para salvar a maior parte da herança, que o tio confiara a um negociante daquela vila, hoje cidade.
Partiu o Ribeiro no dia seguinte para voltar logo. Sua mulher foi viver na casa da fazendola, que o trouxera a Santa Bárbara, na intenção de vendê-la; e agora devia servir-lhe de morada ao menos nos primeiros tempos do casamento.


III- BEBÊ

Tinham decorrido dois meses depois do casamento de Besita. A moça lembrava-se com saudades dos sonhos de ventura que fizera outrora e que tão depressa se tinham desvanecido, quando ouviu sobressaltada bater à porta. Zana vai atender e diz:

“- Nhazinha, é sinhô!
Ia Besita levantar-se precipitadamente para receber o marido, quando sentiu no escuro que dois braços a cingiam e uma carícia atalhava-lhe a palavra nos lábios.
Ao bruxulear da madrugada, Zana acudindo ao chamado da moça foi achá-la debulhada em pranto, na maior consternação.
- Tu me perdeste, Zana! Não era meu marido!
- Quem era então, Nhazinha? Perguntou a preta espantada.
- Olha! Disse a moça mostrando-lhe o vulto de Luís Galvão que se afastava.
- Meu Jesus do céu! Exclamou Zana, caindo de joelhos aos pés da senhora
.”

O velho Guedes morreu meses depois sem saber do ocorrido. Entretanto, Jão Bugre suspeitou e quis matar Luís Galvão; e o teria feito se Besita não o proibisse.
Corriam meses sem notícia de Ribeiro.
Mais de um ano, depois que a abandonara o Ribeiro, teve Besita uma filha, cujo nascimento foi inteiramente ignorado em Santa Bárbara, pelo isolamento a que se condenara a moça desde a morte do pai. Só o soube, fora Zana, Jão Bugre, cuja dedicação apurava-se com o infortúnio daquela por quem sacrificaria a vida, se pudesse por este preço resgatá-la aos dissabores.
Um dia às ocultas, Jão levou Berta, filha de Besita, a Campinas, a fim de batizá-la. Nesse mesmo dia, acontecia o casamento de Luís Galvão com D. Ermelinda.
Algum tempo viveu Besita com sua filhinha no mesmo isolamento sem outra companhia além de Zana, que lhe dera de mamar, e o capanga, o qual a servia como um escravo humilde e fiel da casa. Convencida de que realmente seu marido a abandonara de vez, habituara-se ao correr do tempo à placidez e serenidade daquela existência recôndita, que embeleciam as efusões do amor materno. Nessa tranquila solidão, cercada de afeições sinceras, sentia-se quase feliz.
Besita mandou Jão a Itu para encomendar umas jóias para Berta para espantar quebranto.
Um dia Besita brincava com Berta quando viu Ribeiro escondido entre os arvoredos. Desesperada, Zana tomou Berta dos braços de Besita e a tisnou-lhe o corpo de carvão. Feito isto arranjou outra vez as fraldas e a touca; e saiu ao terreiro para acalentar a criança, andando de uma para outra banda, e entoando uma costumada cantiga. Compreendeu Besita o ardil da preta, e no desamparo em que se achava, confiou nessa frágil esperança.
À tarde, Zana escuta um grito de terror vindo do quarto de Besita.

“Fora de si correu à alcova da senhora, onde a esperava um quadro horrível. No meio do aposento, o Ribeiro, pálido e medonho como um espectro, agarrando a mulher pelo pescoço, estrangulava-a com as longas tranças de cabelos.”

IV - ÓRFÃ

“Um grito espantoso retumbou, que estremeceu o assassino e o lançou espavorido fora do aposento. Antes de sumir-se, porém, viu assomar no quadro da janela o vulto pavoroso de Jão, que de um arremesso atirou-se a ele para despedaçá-lo.”

Jão só tinha um pensamento, a vingança. Mas, a voz de Besita pedia que ele cuidasse de Berta.

“- Minha filha, Jão, minha... Ele... matá-la!”

O Bugre saiu em busca da menina, ajoelhou aos pés de Besita com a menina ao colo, a mísera mãe soerguendo o busto num arranco supremo, lançou os braços já hirtos e cingiu no mesmo abraço Berta e o fiel amigo que a salvara. Arrojou-se então para dar à filha o beijo extremo; mas fugindo-lhe já a luz dos olhos, vacilava a fronte, e os lábios gelados a esmo roçaram pelo rosto da criança, como pelas faces de Jão. Aí, entre o cadáver da mulher a quem adorara, e o corpo da criança órfã, Bugre desmaiou; mas embora lhe fugissem os espíritos, seu corpo não tombou; somente desabou sobre si mesmo.
Ribeiro que tinha maquinado friamente a sua vingança e planejado a sua fuga, no caso de perigo, aproveitou-se desse momento e pôs-se fora do alcance de seu perseguidor.
Havia cerca de dois anos Ribeiro partira de Santa Bárbara atrás de sua herança. Vendo-se rico de repente, não resistiu o moço à tentação de gozar dos prazeres com que o seduziam a cada instante as gabolices dos tropeiros e marchantes.
Afinal, ao cabo de dois anos, lembrou-se da mulher que deixara ainda noiva, no dia seguinte ao do casamento; e dirigiu-se a Santa Bárbara.
Às ocultas aproximou-se da casa; e ficou à espreita. Viu Besita com a filha ao colo; e suspeitou de uma traição. Ao cair da tarde, quando a moça cismava com os olhos engolfados no céu, ergueu-se diante dela irado e ameaçador.
A infeliz prostrou-se de joelhos e confessou-lhe tudo, o engano fatal de que fora vítima, e a desgraça irreparável que a separara para sempre dele e do mundo.
A resposta foi um escárnio.

“- Ele já era teu amante!”

Tomado por um acesso de fúria, deitou as mãos ao alvo colo da moça, e enleando-o com a madeixa, estrangulara-a. Acabava essa cruel vingança e pensava em imolar também ao seu rancor a inocente criança, quando o bramido do Bugre o estremeceu de horror.
Sem hesitar ganhara o mato pelos fundos da casa, e embarcando na canoa que o esperava, desceu o Piracicaba com a rapidez que dava a enchente à correnteza das águas. E, depois pressentindo ser perseguido por Jão ou talvez pelo remorso do feito, fugiu para Portugal.
Berta fora recolhida por nhá Tudinha, cujo marido ainda vivia. Apesar de ser Miguel muito mais velho do que Berta, ainda nhá Tudinha tinha leite; e ali mesmo acalentou a infeliz órfã dando-lhe de mamar.
O nascimento de Berta e a morte de sua mãe eram um mistério para a gente do lugar. Zana enlouquecera, e Jão, única testemunha daqueles acontecimentos, só por alto os referiu a nhá Tudinha, que nunca revelou o segredo.
A casa onde nascera Berta ficou abandonada, e estava reduzida a tapera, onde vivia a doida, que depois de tantos anos ainda via na sua alucinação desenhar-se a cena pavorosa da morte da senhora.


V - FERA


Jão tornou-se violento. Foi nestas condições que um ricaço, informado da valentia de Jão, o tomou para capanga; e bem precisava ele, que não lhe faltavam inimigos. O capanga agia violentamente não só pela necessidade de ganhar a subsistência, como pela ânsia de saciar a sanha terrível que o devorava.
Referiam-se desse homem as maiores atrocidades; e a alcunha de Jão Fera que lhe tinham dado por esse tempo, bem revelava a profunda impressão produzida na gente do lugar pelos fatos que ele praticara.
Durante o tempo que serviu como capanga a diversos patrões, não se esqueceu de dois cuidados: vingar a morte de Besita e proteger Berta.
Vinha sempre às ocultas até Santa Bárbara ver Berta; trazia algum enfeite e deixava dinheiro na mão de nhá Tudinha para comprar-lhe o necessário, de modo que não lhe faltasse nada.
Berta a princípio não queria saber daquele homem triste e carrancudo e sentia medo quando nhá Tudinha a levava pela mão até o mato, onde ele as esperava para não ser visto.
Quando já tinha Berta seus doze anos, e no corpo infantil iam se esboçando os relevos graciosos e suaves contornos da estátua feminina, o Bugre ficava longas horas em muda contemplação, com os olhos pasmos na menina, que brincava pelo campo sem dar-lhe atenção. A paixão que jazera recalcada por tantos anos no fundo de seu coração, irrompia-lhe de novo com ímpetos medonhos, semelhante a um tigre sedento que se arroja contra a jaula para despedaçá-la.
Berta era filha de sua dor. Afigurava-se à sua mente enlevada, que Besita revivera na filha para pagar a ele Jão os extremos do puro e humilde afeto.
Já não era Berta que ele via e sentia, mas o vulto de Besita, surgindo triste e lacrimosa para defender a filha.
Logo começou o Bugre a ser perseguido como um flagelo, apesar de prosseguir em suas façanhas.


VI – A RESTITUIÇÃO

Ao cabo de quinze anos voltara o Ribeiro a São Paulo. Suas feições estavam alteradas e em Portugal o chamavam de Barroso, apelido que substituiu ao seu para maior segurança.
Já estava há meses na província, quando resolveu ir a Santa Bárbara. Com a vista naqueles lugares acendeu-se o ódio e vingança. Através de Chico Tinguá, fechou negócio com Jão Fera, mediante o sinal de vinte patacões.
Nenhum dos dois reconhecera o outro. Jão poucas vezes antes da morte de Besita vira o Ribeiro, e este nunca reparara no capanga, que raro tinha encontrado e de passagem em casa da noiva. Acrescia a mudança operada pela idade e outras circunstâncias.
Todavia notou Jão que esse homem lhe inspirava profunda aversão; e cada vez que o avistava tinha ímpetos de puxar briga com ele e matá-lo. Jão teve uma espécie de visão; pareceu desenhar-se a seus olhos a mesma face de raiva e terror, que rápida perpassara diante dele na tarde do assassinato de Besita, mas ficara para sempre estampada em sua reminiscência.
De seu lado o Ribeiro, embora não tivesse a menor suspeita do homem com quem lidava, sentia grande incomodo, quando se aproximava de Jão Fera. Assim estava impaciente de ver concluído o negócio para livrar-se do capanga; mas correram-lhe as coisas às avessas, pois agora depois do que passara na venda do Tinguá, sabia que o tinha no encalço, e tratou de prevenir-se.
Contudo não esquecera o Ribeiro a sua vingança e suas ideias tomaram um rumo desconhecido. Depois da tocaia na Ave-Maria, passara pelas Palmas e vira a família de Luís Galvão, reunida no terreiro, gozando o frescor da tarde, ao expirar de um dia cálido. Invejou a felicidade de Luís Galvão, no seio daquela família encantadora e no meio dos gozos que dá a riqueza.
Ele que tinha consumido toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente no mundo, sem outra companhia, além dos parceiros de jogo e prazer, sentiu de repente penetrá-lo um eflúvio da vida calma, sossegada, que desliza docemente no lar doméstico, entre as alegrias íntimas e as festas singelas da família.
Por estranhos que pareçam estes pensamentos, de tal modo se imbuíram no espírito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto. Matar apenas Luís Galvão numa emboscada, como pretendia, era uma vingança brutal e estéril que afagava o seu ódio e nada mais.
Fazer, porém, desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que não só ajustava as contas do passado, como garantia o futuro.
Assim, arquitetou seu plano cuja realização fora marcada para a noite de São João: um incêndio no canavial das Palmas que se há de atribuir a algum foguete desgarrado. Luís Galvão naturalmente acudirá para conte-lo e nem os escravos da roça, fechados nos quartéis por Monjolo, nem os pajens trancados por artes do Faustino, poderão acompanhar o senhor.
Gonçalo Pinta, emboscado no caminho, derrubaria Luís Galvão com uma cacetada e o lançaria nas chamas, para acreditar-se que foi vítima do incêndio, e não de uma trama pérfida e covarde. Em seguida, Ribeiro ou Barroso, surgiria casualmente pela estrada, controlaria com o auxílio dos camaradas o incêndio, conduziria o corpo do Galvão a casa e ofereceria à viúva seus serviços. Eis o plano do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto.
Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro do mato, Jão Fera.
O Barroso vacilou na sela. Todavia não fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho.

“- É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui está; não lhe devo mais nada.
Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão bamba
.”


VII - FASCINAÇÃO

Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda perguntou aonde à amiga ia. Respondeu-lhe que ia buscar Miguel para ele confessar o seu amor pela amiga.
Afonso surpreendeu as meninas e tentou invadir o quarto, entretanto, Berta o venceu e trancou-se sozinha. De repente, Berta gritou. Afonso e Linda pensaram que Berta estava brincando. Pelo buraco da fechadura Afonso viu que Berta estava pasma e avista a cabeça chata de um animal. Afonso tentou arrombar a porta, e nesse momento escutou vindo do lado do canavial um grito, senão era uma gargalhada selvagem, semelhante ao grasnar do maracujá.


VIII - LETARGO

Berta aproveitando-se do descuido de Afonso conseguiu fechar a porta, correu à cama a fim de tomar o chapéu e fugir pela janela, travessura que ela tinha em criança feito muitas vezes.
Com o rumor que fizera Berta ao bater a porta, a cascavel alçou a cabeça, e descobrindo o vulto da menina, desdobrou-se para escorregar ao chão, pronta para o arremesso. Foi nesse momento que o grito de terror escapou-se de sua boca.

Aí estava produzida ao vivo a misteriosa identificação da mulher e da serpente, que deu tema ao poético mito da tentação. Toda a força vital da boicininga se concentrava no olhar, donde se coava uma flama trepida, por entre as titilações da membrana sutil, que reveste a retina da serpente.
Encadeada por esse fio luminoso ao olhar cintilante de Berta, o medonho réptil parecia como deslumbrado por súbito lampejo.
Também a menina sofria a repercussão dessa influência. Berta perdeu as forças e desmaiou. Recuperada, estendeu Berta o braço direito para a cascavel, aberta a mão e crispados os dedos, no ímpeto de tocar o rosto do réptil, ao qual tornou-se mais viva a trepidação do olhar.
Confrangendo-se, a boicininga propulsou de leve a cabeça, como se arrastara um fio invisível, e foi lentamente rojando para Berta. Nesse instante havia Afonso enxergado o réptil; e se precipitara horrorizado para despedaçar a porta.
A cabeça da cascavel roçou-lhe a ponta dos dedos, um choque íntimo percutiu-lhe o corpo, estorceu o toro da serpente e o réptil elando-se pelo braço mimoso, veio cingir-lhe as espáduas, formando colar.
Com o toque de esse brando serpear sentiu Berta a doçura de uma carícia; a boicininga titilava de volúpia ao tépido calor da cútis acetinada; e escondendo a monstruosa cabeça na conchinha da mão que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo
.”


IX - TRANSE

Brás erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a cerca do pátio e rumou para o quarto. Ao ver Berta, sentada no chão, junto à cama, e enlaçada pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabeça do réptil como faria ao cabo de um chicote, e fugiu espavorido, soltando um berro de cólera, e zimbrando o próprio corpo com a serpente que lhe servia de látego.
Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu à porta e abriu-a, lívida e palpitante de emoção. Linda atirou-se a ela para abraçá-la; e logo depois chegou Afonso, que voltara ouvindo abrir-se a porta.
Às impacientes interrogações, Berta respondeu mostrando Brás, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu látego vivo, a zunir pelos ares.
Restabelecida da fascinação que sofrera, preparou-se para seguir o rumo que vira tomar pai Quicé.


X- A GARRUCHA

Não era natural a arrancada de tão numeroso bando de caititus por aquelas paragens. Houvera, porém, um motivo para essa alteração nos hábitos dos filhos bravios das selvas.
Gonçalo Pinta havia planejado com Filipe atacar o Bugre em sua toca, na véspera de São João.
O esconderijo do capanga ficava no mais intrincado da mata e parecia protegido de qualquer ataque. Ao meio-dia, Jão Fera costumava descansar na grota e o Gonçalo com uma troça de espoletas, pagos pelo Ribeiro, deitaria cerco pela frente e surpreenderia o capanga.
Partira o Filipe com sua malta à hora aprazada e rodeou a floresta. Por segurança levava os cachorros que podiam servir-lhe para rastejar o inimigo no caso de fuga.
Acuaram as feras, voltando-se ameaçadoras. Avisados pelos latidos, acudiram os caipiras que tentaram defender a matilha e desvencilhá-la. Os queixadas, porém, estavam enfurecidos e arremeteram estripando os cães. Então o bando feroz, acuado pelos tiros que lhe desfecharam os caipiras, arremeteu através da floresta.
Nesse momento Berta e pai Quicé se aproximam e os porcos ferozes já tocavam com as cerdas do focinho o babado da saia de Berta, quando se ouviu um brado espantoso e os queixadas voltaram-se para conhecer donde provinha aquela ameaça. Era Jão que surgiu no lugar onde Berta e o negro velho aguardavam a morte contrita.
Suspendendo a menina com o braço esquerdo, enquanto brandia o direito uma faca, Jão aproveitando-se do espanto das feras ante sua audácia, arrojou-se para a árvore mais próxima, onde poderia colocar a menina a salvo de perigo. Enquanto isso, o negro velho debatia-se no meio dos queixadas.
Berta soltou-se do braço do Bugre, para correr ao negro, como se ela, frágil menina, pudesse salvá-lo.
Preveniu-lhe Jão o impulso, e estreitando-a ao peito com força, atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde Quicé acabava de cair às focinhadas dos porcos. Abarcando-lhe o crânio com a mão robusta, o capanga arremessou-o longe como faria com uma pedra.
E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da destra, começou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais de perto e com sanha terrível.
Pai Quicé, caindo a vinte passos, assistia ao combate de Jão Fera com os queixadas, buscando a esperança de um socorro que ele, débil e alquebrado, não podia dar.
O sangue de Jão corria dos golpes, que recebera nas pernas. O capanga, então pede que Berta tire de sua cintura a garrucha e colocasse-a em sua boca.

Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mão de Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro à queima-roupa, que os fez recuar de terror.
Aproveitou-se Jão desse momento para romper o círculo de navalhas que o ameaçava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da árvore. Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa avançada
.”


XI – A FURNA

Com alguns tiros mais, Jão conseguira livrar-se do bando de queixadas e chegava à sua furna.
Atordoada com a velocidade da corrida e tomada ainda pelo susto do perigo a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistência, até que ele parou no sopé do rochedo. A menina conta-lhe que não tardavam em prendê-lo e pede para que fuja.

O contato do corpo gentil de Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava que ferve no meio dos píncaros gelados dos Andes.
Tinha ímpetos de atirar-se a Berta e só por um esforço inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as formas encantadoras; mas ele abaixava a cabeça para não encontrar os olhos límpidos da menina, onde irradiava uma alma tão pura.



XII – O ASSALTO

Tomando Berta nos braços outra vez, sumiu-se com a menina no bojo da caverna.
Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar de leve o mato, e dentre a folhagem surdiram os canos de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos das árvores.
Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrás de grosso tronco de árvore:

“- Entrega-te, bugre do inferno, senão morres!”

Sem resposta, Pinta se preparava para receber a investida do inimigo.

Cerca de uma hora decorrera nestas hesitações, quando ouviu-se da outra banda da penedia uma descarga de espingardas; e ao mesmo tempo um urro medonho.
Aquele brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de furor e sanha.
Assim foi com a fala trêmula e soturna que disse o Gonçalo aos companheiros:
- Está seguro o bicho!



XIII - LUTA

Penetrando na caverna, Jão Fera soltou dos braços a menina, e rolou uma grande pedra para trancar a entrada.
A imagem de Besita, que adorara sempre, como uma santa, lhe aparecia agora, por um incompreensível delírio, excitante e provocadora.
Eles estavam cercados. Jão, então, teve uma ideia horrível: lembrou-se de fazer saltar a pedra.

Desabaria o estilhaço de rocha, que servia de abóbada à caverna, esmagando a Berta e a ele; mas era justamente essa catástrofe, que lhe sorria, como um céu azul, no meio da sua terrível alucinação.
A morte os uniria para sempre, livrava a Berta de uma desgraça e a ele de um atentado espantoso. A filha de Besita deixaria o mundo como sua mãe, pura e adorada por ele, mas sem amar a outro, sem condená-lo ao suplício atroz que sofrera por tanto tempo
.”

Jão ergueu-se de um salto, arrastou o calhau que obstruía uma solapa do rochedo, por onde a caverna se comunicava com a próxima encosta, e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.
Foi então que, vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente de Filipe desfechou as armas; e o capanga urrou de sanha e furor.
Por atalhos só dele conhecidos, Jão ganhou a floresta, conduziu a menina até as plantações da fazenda e lá se despediu dela.


XIV – O BEIJO

Berta retorna a sua casa aliviada por ter deixado Jão em liberdade, quando ouviu o ramalhar das árvores, acreditando ser um novo perigo, pôs-se a correr. Era Afonso que a abraça e tenta beijá-la. Berta fecha os olhos e espera pelo beijo, que não aconteceu. Então, concluiu que quando Afonso está a sós com ela, mostra-se tímido e constrangido.

Foi a muito custo e para disfarçar o acanhamento que ele, desviando o rosto, disse à menina:
- Você não me quer bem!
- Quero, sim! Acudiu a moça que recuperara sua travessa isenção.
- E a Miguel?
- Também!
- Mas Miguel é quase seu irmão.
- E você?
- Eu não! Replicou vivamente Afonso
.”

Passados alguns minutos, Afonso tenta novamente beijá-la. Berta promete corresponder ao beijo e pede para que ele feche os olhos. Enquanto Afonso espera o desejado beijo, Berta dá-lhe um piparote na orelha e foge.
Berta vendo que Afonso ficou entristecido volta e finalmente o beija na face. Quando dão por si vêem Miguel em face deles.


XV - CONFISSÃO

Miguel estava pálido e Afonso confuso.
Afonso parte e, Berta contempla o semblante abatido de Miguel.
A menina explica que quer bem aos dois, no entanto, ela jamais beijaria Miguel, apesar de ser este seu desejo e, insiste convencê-lo de que Linda o quer muito bem.

“- Não era mais fácil gostar um bocadinho de mim, que lhe quero tanto, Inhá? (...)
- Você há de gostar de Linda!... Me promete, sim? Você já gosta dela... Há quem possa resistir àqueles olhos tão doces, que estão bebendo a alma da gente. E a boquinha?... É um torrãozinho de açúcar escondido em uma rosa! Quando ela ri-se, faz cócegas no coração! Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de abelha! E um ar tão engraçado, um andar tão faceiro, que encanta!
Miguel fascinado, rendido, já não resistia com efeito; e nesse momento, pelo menos, ele sentia que amava Linda; mas essa Linda que ali tinha diante dos olhos, e não a outra que vira ao natural, tímida, com as pálpebras cerradas, o lábio trêmulo, e o gesto constrangido
.”

Próximo a casa, encontram-se com Linda e Berta faz com que Miguel confesse o seu amor à menina.

Linda corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda através do sorriso fascinador de Inhá.


XVI – SÃO JOÃO

É noite de festa de São João e no terreiro das Palmas arde a fogueira; os mastros enramados; fogos de artifício; logros e estripulias.

A festa da sala é cidadã. Damas e cavalheiros tiram sortes, cerimoniosamente sentados em volta de uma mesa; ou dançam quadrilhas e valsas figuradas; enquanto pelos cantos os velhos fazendeiros falam a respeito das carpas, da nova flor do café, e das geadas, seu constante pesadelo.
No terreiro folgam os rapazes que acham mais graça na função campestre, e em vez de consultar o livro do fado, confiam nos oráculos da fogueira, saltando-a de corrida, e passando nela o ovo, que há de ficar ao relento à hora fatídica da meia-noite.
Entre estes lá estão Afonso e Miguel, preparando-se com outros companheiros a mostrar quem tem mais certeira mão, para incendiar com um tiro a garrida boneca suspensa ao tope do mastro
.”

Um jorro de chamas esguichou do tope do mastro. A boneca incendiada voava pelos ares, e todos corriam para parabenizar o Miguel que foi o vencedor.


XVII – CRAVO BRANCO

Ainda não se tinham desvanecido as emoções do primeiro páreo, que outra sorte mais engraçada punha em alvoroço a rapaziada.
A bola que servia de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca, era oca, e formava uma espécie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos e outras galanterias para quem fosse capaz de alcançá-las trepando pela haste do pinheiro.
Não era pequena façanha essa; pois além da altura, o pau fino e roliço não dava jeito a que os rapazes se escorassem bem sobre os joelhos para com o impulso dos braços se irem içando a guisa dos marujos
.”

Mas nem por isso desanimavam os rapazes para conquistarem uma flor, ou qualquer outra prenda que ofertassem à namorada. Nesse momento, Linda e Miguel estavam próximos e quase se tocavam
A confissão de Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expressão melancólica embebeu-se de um júbilo sereno como o alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas.
Miguel pergunta se Linda queria uma flor, então, a moça tira do seio um cravo branco, e explica-lhe que simboliza “casamento”:

Com a confusão, naturalmente escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula da moça não recebeu senão a doce pressão.
- Quebrou-se o talo! Disse ela rapidamente.
Era um motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote, e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o beijou com efusão.
Berta, que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho.



XVIII - REVELAÇÃO

Berta localiza Brás, que roia um sabugo de milho assado, cujo grão já tinha devorado. A menina aproximou-se do idiota “o conforto, que não encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeição generosa e compassiva que lhe inspirava aquela mísera criatura.”
A menina voltou seus olhos novamente para o lindo casal de namorados. Ela nutria por Miguel uma dessas afeições de infância, da qual não se sabe se era uma doce amizade ou uma paixão ardente. Adivinhando um dia que Linda gostava de Miguel, em vez de zelos sentiu contentamento ao ver que seu irmão de leite e companheiro de infância, seria feliz.
Miguel apesar de ter recebido uma instrução regular, conservava certos cacoetes de caipira que divergia do tato delicado de Linda. Quando Miguel a tratava de mecê, ou enrolava diante dela a palha de um cigarro, o coração da menina sofria desgosto. A repetição dessas pequenas decepções acabaria sem dúvida por delir completamente n’alma de Linda a imagem de Miguel.
Berta percebeu essa discrepância, e desde então, empenhou-se em eliminar essas desigualdades que magoavam o melindre da filha de D. Ermelinda.
O problema era que essas mudanças acarretavam renegar o exemplo de seu pai, as tradições de sua terra, e envergonhar-se de ser paulista, o que bem ao contrário lhe inspirava um justo orgulho. Soube Berta provar a Miguel que, um homem apaixonado devia submeter-se aos caprichos de sua amada. Fizera isso para que Miguel e Linda se amassem, no entanto, era ela quem amava Miguel; mas por Linda. Era Linda a quem Miguel amava; mas na pessoa dela, Berta.


XIX - A LÁGRIMA

Luís Galvão conversava com alguns de seus convidados e observava de longe as folias.

“- O Afonso é endiabrado!
- Tem a quem sair.
- Oh! Se tem! Cá o Luís foi de truz!
- Um maganão chapado!
- Como se enganam! retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!
- Da sonsa, talvez!
- O que sei é que no nosso tempo ninguém punha pé em ramo verde!
- Mas não pescava senão peixões.
- Que história estão vocês aí a inventar? Tornou o fazendeiro com disfarce.
- E a filha do Guedes, lembra-se?
- A que o marido abandonou?
- A Besita, sim!
- Essa não! Exclamou involuntariamente Galvão contrariado.
- Ora negue! Antes e depois.
- Do parto?
- Do casamento!
- Que tal o cujo? Exclamaram diversos.
Uma risada geral acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.
- Mudemos de conversa! Disse ele com algum vexame.
D. Ermelinda que tinha aproximado da janela vizinha, à procura da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.


Foi nessa mesma ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro. No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás encarapitado no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.
Já, porém, o Brás, que havia escorregado até o meio do mastro, se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as mãos cheias de flores e mimos, que havia conquistado com a sua temeridade. Enquanto isso, D. Ermelinda percebe o namoro entre Linda e Miguel.

Nesse instante um foguete que rasou a terra, listrando na escuridão da noite uma faixa de luz, destacou ao longe na fímbria da mata um vulto de homem. Berta reconheceu Jão Fera.”


XX – O SAMBA

No quartel ou quadrado da fazenda, um grande pátio cercado de senzalas, o samba animava o frenesi dos pretos; outros arremetiam contra a fogueira e sapateiam em cima do borralho ardente a escorrer do braseiro, entre estes o primeiro e o mais endiabrado, era Monjolo.
O garrafão de cachaça corria a roda; Mandu arranhava na viola uma chula e o Pereira acompanhava o toque com repentes. Do outro lado, Florência e Rosa brigavam em disputa de Amâncio, até soar a sineta do toque de recolher.


XXI – O INCÊNDIO

A grande festa de S. João estava terminando. Luís Galvão tentou reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava em seu gesto, o demoveu logo do propósito de reter os amigos e prolongar os folguedos.
D. Ermelinda estava ferida nas duas cordas mais delicadas de seu coração, no amor de esposa e de mãe. Apesar de seu grande esforço que o trato da boa sociedade prescreve como regra de cortesia, ela não conseguia disfarçar sua tristeza.
Quando todos se retiraram, D. Ermelinda postou-se no toucador a refletir sobre sua vida. Nunca pensou cobrar de seu marido contas de um passado que não lhe pertencia, e até por constrangimento evitou folhear aquela página da mocidade de Luís Galvão.
Subitamente, porém, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado, de forma rude e baixa, dentre as alegrias de uma festa, e lança em seu espírito uma certeza fatal, a que por muitos anos e tão cuidadosamente se esquivara.
Depois, recordando-se da intimidade de Linda com Miguel, rapaz de posição muito inferior, pensava D. Ermelinda, que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia à fatalidade e ia arrastada por um pendor irresistível, que o pai lhe transmitira de herança.
Luís Galvão, inquieto com a demora da mulher, dirige-se a seu encontro. Nesse instante repercutiu no aposento o som de três pancadas fortes, secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra. Abriu Galvão a janela do canto e julgou ter-se enganado em tomar por vulto humano o vôo de um morcego ou qualquer outro pássaro noturno. Era Faustino que tendo fechado por fora os pajens e os capangas no repartimento que eles ocupavam, cuidou de impedir-lhes a saída pregando uma das janelas que não tinha grades e ia de encontro com Monjolo, que por sua vez, já havia furtado as chaves da senzala. Nesse momento, Luís Galvão vê a primeira labareda no canavial.


XXII - A TRAIÇÃO

A fazenda das Palmas e suas dependências pareciam submersas em um turbilhão de fogo. Luís Galvão saltou no terreiro e lançou-se na direção do incêndio, chamando os feitores e gente da fazenda. Apenas lhe ia ao encalço, Faustino e Monjolo, impaciente de assistirem à catástrofe, e verem consumado o crime de que dependia a satisfação de seus desejos.
D. Ermelinda e seus filhos ganharam a escada do mirante e a esposa desmaiou ao ver, no canavial, surgir um homem, que, brandindo um cacete sobre a cabeça de Luís Galvão, o prostrou ao chão como um corpo morto.
Era o Gonçalo Suçuarana.


XXIII - VAMPIRO

Quando Gonçalo se curvava para soerguer o corpo do fazendeiro e arremessá-lo no meio das chamas, um vulto emergiu da sombra. Jão Fera estava em face dele.”

Gonçalo sacou a pistola e desfechou sobre o inimigo à queima-roupa. Não conseguindo acertá-lo recuava diante daquele vulto impassível. Jão Fera o alcança, estrangula-o e atira seu corpo ao fogo.
Luís Galvão recobrando os sentidos assistia o fim da luta e compreendera que devia sua vida a Jão Fera, estendendo-lhe a mão em forma de agradecimento.

“- Livrei-o de morrer, porque sou eu quem o há de matar, quando chegar sua hora!
Lançando-lhe estas palavras com desprezo, voltou às costas o capanga para afastar-se dali.
- Tanto mal me quer você, Jão?
O Bugre estacou sofreado por uma força íntima a que ele tentava resistir; depois de curta hesitação, arrojou-se em frente do fazendeiro para dizer-lhe com a voz dilacerada pela cólera:
- Mais de cem vezes já eu teria cravado em teu coração esta faca, se não fosse aquela que está no céu, e a filha que deixou na terra. Vê que raiva eu sinto, quando me lembro que tu ainda vives
!”

Jão soube da trama organizada pelo Barroso através de Chico Tinguá que o advertira do perigo e naquela manhã, oculto no mato, ouviu à última combinação entre os cúmplices.
A princípio nem lhe passara pela mente livrar Luís Galvão da morte que o ameaçava; mas a ideia de que Berta, ignorando a verdade, podia atribuir a ele esse assassinato, o estremeceu e impôs-lhe a dura necessidade de salvar o homem a quem mais odiava. Demorara um pouco porque cuidara de liquidar Monjolo e Faustino. Faltava-lhe acabar com Barroso, que devia estar do outro lado do canavial, pronto a aparecer no momento preciso, e ao sinal convencionado, para representar a farsa, que havia combinado com os seus comparsas.
O Bugre encontra Barroso no canavial, mas quando ia matá-lo é flagrado por Miguel, que vendo o clarão do incêndio, voltara a correr na direção das Palmas e, impede a passagem de Jão Fera. O Bugre ao saltar sobre o mancebo escuta a voz de Berta e dispara pelo campo fora.


XXIV – NA TAPERA

Três dias tinham decorrido depois da festa de São João. Miguel conta a Berta que Jão fora preso perto de Campinas e com certeza, seria enforcado.
Apesar das crueldades praticadas pelo Bugre e pelo atrevimento de atacar Miguel, Berta sentiu profunda compaixão pelo infeliz, que tamanha dedicação tinha por ela. Ao dirigir-se à porta da casa, encontrou Zana caída a estrebuchar em contorções. A velha escrava havia visto Ribeiro e teve uma crise. A menina corre em socorro a Zana e não percebe o vulto do assassino de sua mãe.
Ribeiro cheio de ódio lembrara-se de rever as ruínas da casa onde ocorrera o crime e ao ver Berta, suspeitou de ser ela a filha de Besita. Acendeu-lhe, então a ideia de terminar sua vingança iniciada há vinte anos, que principiara em Besita e devia acabar na filha. Furioso com o malogro do incêndio, a quem só escapara pela corajosa intervenção de Miguel, o miserável tratou de fugir. Ao passar por Campinas, soube que o Bugre fora preso na véspera por gente do Aguiar, então decidiu voltar a Santa Bárbara.

Lembrando-se que ia matar a pobre menina, sentia um prazer bárbaro. Parecia-lhe que Besita revivia na pessoa da filha, e que assim podia ele assassiná-la outra vez, saciando o seu imenso rancor.”

Zana deixou Berta no meio do aposento e voltou ao terreiro para espreitar o inimigo. Ribeiro recuou e escondeu-se no mato, esperando que passasse aquele ímpeto de furor.
Berta, por sua vez, estava entretida com a oposição que D. Ermelinda faria ao amor de Linda e Miguel. Nesses momentos, Berta pensava que ela podia amar Miguel livremente, sem desgosto nem obstáculo. Mas logo reprimia aquele impulso do egoísmo; e perscrutava em sua imaginação um meio para remover o obstáculo que ameaçava a felicidade de Linda.
Seus pensamentos são interrompidos por uma gargalhada estridente de Zana que vinda da mata.


XXV – A ENTREGA

Sabe-se por que preço obtivera Jão Fera o dinheiro necessário para desempenhar a palavra dada ao Barroso.
O Chico Tinguá, incumbido de negociar a entrega do capanga mediante cinquenta mil réis, dirigiu-se à fazenda de Aguiar, e fez sua proposta ao fazendeiro. Marcou-se o dia. O fazendeiro mandou chamar o Filipe com sua gente, e aumentou a capangada para receber a visita do Bugre
.”

No entanto, antes de se entregar, Jão Fera dirigiu-se a casa de nhá Tudinha para despedir-se de Berta. Sofria com a dor da separação e a preocupação do horror que deviam ter causado em Berta, as mortes efetuadas por ele na noite de São João.

Se a menina soubesse da trama urdida pelo Barroso contra Luís Galvão, talvez lhe perdoasse tamanha atrocidade, cometida na ocasião de salvar uma existência tão querida para ela. Mas a menina ignorava, e não seria ele decerto quem lhe havia de revelar o terrível segredo, confessando a sua vergonha de salvar o mais vil dos homens. Não foi este, contudo, o mais poderoso dos motivos que lhe tolheram o impulso. Berta naturalmente lhe perguntaria a causa da sua estranha resolução de entregar-se à prisão; e seria necessário tudo revelar.”

Perante todos esses fatos, o Bugre parte rumo a fazendo do Aguiar, em Campinas, cumprindo a sua palavra de se entregar, sem se despedir de Berta.

“- Estou aqui por minha vontade; e do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego mesmo. Mas se algum me puser á mão, está tudo perdido.”

Aguiar decidiu que o entregariam à Justiça, no dia seguinte. À noite Filipe sorrateiramente ergueu-se e combinou com seus camaradas, surpreenderem o Bugre e amarrá-lo.
O capanga recebeu-os de frente, espancou a troça do Filipe e já em retirada, disse a Aguiar:

“- A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra está livre. Passe bem; mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. Há de ver se é bom ser amarrado como um negro fugido!”

Deixando a fazenda do Aguiar encaminhou-se Jão Fera a Santa Bárbara, donde saíra àquela manhã e que acreditava que nunca mais voltaria.


XXVI – O CIPÓ

O Bugre chegou à tapera, onde esperava encontrar Berta, justamente, no momento que Zana gritou e caiu em crise ao ver Ribeiro na mata. Jão acompanhou o olhar de Zana e descobriu Ribeiro. Quando o Ribeiro já estendia o braço para tocar a menina, Jão “pulou arremessado como uma pela, e chofrou o inimigo com o arremesso da águia quando arrebatada a presa.”
Em seguida, atirou a arma e arremessou-se em cima do Ribeiro com selvagem ferocidade, quando soou perto um brando de horror e Jão Fera viu Berta fugindo espavorida, guiada por Brás, que presenciara a cena anterior e chamara a atenção da menina.

O furor de Jão Fera transportou-se do cadáver, que já não o podia cevar, ao monstrengo; na sua raiva o teria despedaçado, se este não corresse a abrigar-se sob a proteção de Berta.”

Fera, então, aproxima-se de Berta e pede-lhe perdão.

“- Vai embora! Não te quero mais ver! Tu és pior do que fera: és um demônio. Não há sangue que te farte!...”, respondeu-lhe a menina.

Em seguida, partiu a haste de um cipó e com esta fustigou o rosto de Jão Fera.

Duas lágrimas sulcaram as faces do facínora, e lavaram uma gota de sangue que aí borbulhava.”



XXVII - DESPEDIDA

A fazenda das Palmas, antes alegre e hospitaleira, desde a festa de São João, tornou-se triste e sombria. A revelação do passado impuro de Luís Galvão torturava a alma de D. Ermelinda. Por vezes, a esposa magoada pensou em desabafar com o esposo, mas temia que uma explicação, viesse causar piores danos ao seu casamento.
Além disso, o namoro de Linda e Miguel afligia D. Ermelinda.

Carecia do conselho do marido e da autoridade do pai, naquele árduo empenho de arrancar a filha a uma paixão funesta.”

De seu lado, Luís Galvão não vivia menos entristecido. O incêndio do canavial; as atrocidades de Jão Fera, que lhe devia a existência e a distância de sua esposa causava inquietações. Lembrava-se da presença de D. Ermelinda próxima a janela, enquanto ele conversava com amigos na noite de São João e “sentia-se rebaixado ante a própria consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade!”
Muitas vezes, quis afastar sua família da presença de Berta. Mas, passado algum tempo, a presença da menina produzia nele uma doce emoção e remorso. E foi pensando no futuro dela, que às vésperas de sua partida a Campinas, Luís Galvão escreveu um testamento reconhecendo-a como filha.

Fora esse o papel esquecido, à cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para fazê-lo aprovar por um tabelião. Nestas circunstâncias reconhecia Luís Galvão que só havia um meio de resolver a crise: era confessar o fato à sua mulher, franca e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento. Mas também ele hesitava no momento de provocar a declaração; e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação eterna.”

Nestas circunstâncias Luís Galvão propõe à mulher uma viagem à corte; que foi muito bem aceita, pois afastaria suas tristes recordações e também, Linda de Miguel.
Linda sabendo dos planos da viagem correu ao encontro de seu amado, comunicar-lhe que partiriam para o Rio de Janeiro, sem perceber que estava sendo seguida por sua mãe.
D. Ermelinda aproximou-se de Linda, abraçou-a com ternura e dirigindo-se a Miguel, disse:

“- Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!...
O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos
.”


XXVIII – O CONGO

A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva a margem do rio. No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre. Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está à casa da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos outros edifícios.
Era domingo; e havia na vila reboliço de festa
.”

Uma canoa traz nhá Tudinha, Berta e Miguel, que vinham atraídos pela festa.
Berta observa à distância a tristeza e o abatimento de Miguel.
Atravessando o largo da matriz, Berta vê Jão. Era a primeira vez que os dois se encontravam desde o fatídico dia. Passada a raiva, no coração da menina só restavam piedade e constrangimento pela punição, que ela havia desferido a ele.
Tentou chamá-lo, quando percebeu que o rosto de Jão Fera aparecera, mas por entre os varões de ferro da enxovia, em que a princípio não havia reparado.
Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se à prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na cadeia da vila.
Segue o cortejo do congo precedido por um terno de rabecas e flautas, que compunham a banda de música.

Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário reino africano.
Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas dos senhores, cuja vaidade se nos personificava próprios escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam com certo donaire.
No meio das figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras, cobertas, ou antes, eriçadas da cabeça aos pés com os molhos de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo movimento produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaças, que tangiam os pretos assim mascarados.
Esse resquício dos folgares e danças dos índios caiapós davam à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda europeia, ou pelos usos do Oriente
.”

Quando a cavalgada passou pela casa onde estava a família de Luís Galvão, Linda avistou Miguel ao lado de Berta e o ciúme lhe mordeu o coração.


XXIX - CONFISSÃO

Afonso ao ver Berta afastou-se da janela e foi ao seu encontro. Enquanto conversavam, um caiapó aproximou-se deles e disse:

“- Teu pai matou a mãe dela; tu queres matar a filha; é duas vezes!”
O caiapó misterioso arrastou Afonso pelo braço, levou-o até a janela de D. Ermelinda e afirmou:
- Teu sangue mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela
!...”

Não havia passado o espanto dessa cena e ouviram grande rumor na praça da matriz.

“(...) fuga de um preso, que arrancara por um esforço desesperado um varão da enxovia; e aproveitando-se da distração da sentinela no momento de passar a cavalgata, saltara na rua, arrebatara a um caiapó a croça de capim, e perdera-se na turbamulta.
Meia hora depois, Luís Galvão com a família voltava a Santa Bárbara
.”

À beira da estrada encontraram-se Zana que se postando a frente do cavalo de Afonso, suplicou:

“- Pelo amor de Deus, nhô Luís!... Não faça mal a Nhazinha!... Da outra vez ela chorou tanto! E depois veio o marido e matou Nhazinha!... Por vida de seu pai, nhô Luís!... Eu lhe peço de joelhos!”

A mísera negra em sua alucinação remontou o curso da existência, e reviveu o tempo já passado, quando Luís era jovem, na imagem de seu filho Afonso.
Luís Galvão mandou os filhos prosseguirem e pediu a esposa para acompanhá-lo até a tapera.

“- Foi aqui!... Balbuciou a voz trêmula de Luís.”


XXX- A ENJEITADA

Passados dois dias da festa do Congo, Jão Fera escondido esperava o retorno de Berta à tapera. A menina o tinha chamado, quando o avistara na enxovia; e ele que se fora entregar para fugir ao seu desprezo acudiu prontamente.
Quando Berta chegou, correu aos braços de Zana e perguntou se ela lembrava-se de Besita.

Acaso já conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era apenas uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiapó?
Eis o que havia ocorrido:
Aí em frente da tapera, ao morno clarão da lua, começara Luís Galvão na noite da festa a fazer a sua mulher a confissão plena da aventura de que fora teatro aquele sítio, e ele o triste herói.
Não ocultou a mínima circunstância; referiu tudo: a sua repugnância de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção pérfida com que a requestara; a cilada de que serviu-se para surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou
.”

Na manhã seguinte D. Ermelinda apertou a mão do marido e murmurou-lhe ao ouvido:

“- Meu amigo é preciso reconhecer a sua... a nossa filha!...”

D. Ermelinda dirigiu-se à casa de nhá Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação de Luís Galvão. Com o tato de mulher e mãe quis a boa senhora poupar Berta a dor que padeceria a conhecer a desgraça de Besita e criou-se outra versão para amenizar o caso:

Besita casara com Luís às ocultas, por causa da oposição do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era viúvo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa alheia. As perguntas e instâncias que sucederam à surpresa de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.”

Berta percebeu que ocultavam verdades nessa história. Então, seguiu à tapera, na esperança de conseguir descobrir a história real através de Zana.
Lá se encontra com Jão que lhe pede perdão, beija a cruz presa com o bentinho que Berta traz, jura não cometer mais nenhuma maldade e depois, saca suas armas da cinta, arremessando-as longe de si.
Zana que descobrira Jão atira-se para beijar-lhe as mãos com fervor; e apanhando a faca, procura prendê-la entre os dedos do Bugre.

“- Não careço mais, Zana!... Ela está vingada. Posso morrer!” 

Esta cena desperta no espírito de Berta as palavras do caiapó na festa da vila. 

"- Jão, tu conheceste minha mãe!
- Quem lhe disse, Nhazinha?
- Conta-me como ela morreu!
- Não...
- Conta! Eu quero!
Referiu o Bugre com a voz trêmula e o seio opresso a história de Besita desde que a conhecera até o momento em que a tinha perdido para sempre. Não disse ele se tinha amado a moça; mas na palavra balbuciante Berta lhe sentia palpitar o coração aos ímpetos da paixão imensa.
Quando terminou essa dolorosa narração, Berta que a ouvira com um respeitoso silêncio, apenas cortado pelo contínuo soluço que fazia arfar-lhe o seio, alçou ao céu os olhos cheios de lágrimas.
- E ele é meu pai!...
Depois erguendo-se de um ímpeto, e apertando as mãos grosseiras do Bugre:
- Não! Não!... Exclamou ela. Meu pai és tu, que me recebeste dos braços de minha pobre mãe, com seu último suspiro. És tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando ela deixou este mundo, não tiveste no coração outro sentimento mais, senão ódio a todos, menos a mim, que te lembrava ela. Oh! Eu compreendo agora, Jão, o que te fez mau!...
Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela, para fazer-te bom!...
Falando assim, com sublime exaltação Berta abraçou o Bugre, que sentiu-se tomado de uma vertigem, e tropeçando agarrou-se à parede para não cair
.”


XXXI – ALMA SÓROR


Berta sentada à sombra do oitão da casa de nhá Tudinha tinha ao seu lado Brás, a seus pés Zana e em suas mãos uma camisa de Jão, que ela cosia.

Algumas braças distantes, Jão curvado sobre a enxada, carpa a terra preparando as leiras para a plantação do feijoal. De vez em quando para um instante, enxuga com a manga da camisa o suor abundante que lhe escorria da testa, e sopra os calos de que o trabalho já lhe encruou as mãos. Nessa ocasião crava com desassossego um olhar em Berta.
Miguel assomou à porta da casa, e desprendendo-se do estreito abraço em que o cingia a mãe lacrimosa, dirige-se para o lugar onde estava a menina.
Importantes acontecimentos tinham passado na última semana decorrida depois da confissão que Luís Galvão fizera à sua mulher.
Berta recusou obstinadamente reconhecer Luís Galvão como seu pai. A todos os rogos e instâncias respondia com um meigo sorriso:
- Não acredito, estão me enganando; meu pai é Jão. Foi ele quem teve dó de minha mãe, e quem me criou!... Não tenho outro senão ele!
Muitas vezes Luís Galvão insistia em reconhecer a filha e levá-la para a sua casa, onde acharia em D. Ermelinda uma terna e boa mãe:
- Mãe, dizia Berta, não quero outra senão aquela que me está esperando no céu. Mas há uma coisa que me faria muito feliz. Esse lugar que não pode ser meu, eu dou a Miguel.
Ele quer tanto bem à Linda!...
Não teve Luís Galvão coragem para resistir ao pedido de Berta. Parecia-lhe que assim cumpria um voto de Besita. D. Ermelinda condescendeu prontamente com o desejo do marido, ansiosa por vê-lo restituído à sua tranquilidade e arrependida da confissão que provocara.
Combinou-se que Miguel iria estudar a São Paulo; e dois anos depois se efetuaria o casamento naquela cidade para onde a família devia partir logo.
E quem sabe se voltaria mais às Palmas
?”

Era a véspera da partida de Miguel e Luís Galvão ainda esperançava que Berta o acompanhasse. Daí a apreensão no olhar do Bugre e de Brás que estava confiado à guarda de nhá Tudinha durante ausência do tio.
Dirigiu-se Miguel a Berta e disse-lhe:

“- Se você tivesse querido, Inhá, disse timidamente Miguel, poderíamos ser tão felizes!...
- E você não é, Miguel? Perguntou Berta fitando nele um olhar melancólico.
- Sou! Respondeu o moço com um suspiro.
Houve um novo e longo silêncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:
- Meu sonho era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha mãe e você, Inhá. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperança; mas você não quis!

(...)

- Lembro-me daquela que foi companheira de minha infância, com quem folguei os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha pobreza e humildade. Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse unidos sempre, e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou para si unicamente a existência tranquila e feliz que eu pedia para ambas, e aparta-me de si para longe!
Jão, vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoção, parecia despedir-se de si, para se precipitar aos pés da menina. Brás, cavado o semblante por violentas contorções, arrancava os cabelos da grenha ruiva, e mordia o beiço para não gritar. Zana estendia os braços hirtos, e no afã de alcançar Berta e apertá-la ao seio, rojava-se pela grama.
Miguel falava com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lânguida e meiga inflexão, como nenúfar que se debruça à beira do regato e não tarda a ser levada pela corrente que o enamora.
Afinal o moço enlaçou com o braço a cintura da menina, e a atraiu sem que ela lhe opusesse a mínima resistência. Pousando a cabeça trêmula no ombro de seu companheiro de infância, deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.
Cortou os ares um grito de angústia. Brás caíra ao chão como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulsão, soltando uivos estridentes.
Berta desprendeu-se dos braços do moço:
- Não, Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é aqui, onde todos sofrem.
E rompendo o doce enlevo que a prendia um momento antes, soluçou:
- Adeus!...
Correu então para o mísero idiota e sentando-se na grama para deitá-lo ao colo, ocupou-se em afagá-lo.
Quando moderou o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoção:
- Eu sou Til!... Til só!...
Compreendeu Brás a significação destas palavras, e adivinhou quanta sublime abnegação exprimiam elas?
Nesse instante Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia sumir-se, e a brisa trouxe um eco de sua voz:
- Adeus, Inhá!...
Os lábios de Berta murmuraram frouxamente:
- Para sempre!
Jão de pé em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava sufocar.
Berta pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:
- Vai trabalhar, Jão!...
Entrou em casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena plácida e melancólica do começo da tarde.
Quando o sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido.
Como as flores que nascem nos despenhadeiros e lugares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça.
Era à flor da caridade, alma sóror
.”

Berta, assim, renuncia ao amor e à continuidade de sua própria existência como indivíduo, em prol de Brás, Zana e Jão Fera. Afinal, foi criada para ajudar a construir sonhos e não para destruí-los.












3 comentários:

Fernanda disse...

Valéria, parabéns pelo blog! Tem conteúdo e vários detalhes essenciais que aprofundam meu conhecimento. Muito organizado e excelente fonte de consulta na internet para uma vestibulanda como eu. =)

Fábio Gustavo disse...

ótimo blog!

Fábio Gustavo disse...

ótimo blog!