segunda-feira, 30 de julho de 2012

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS, SENTIMENTO DO MUNDO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.


A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. 


E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.


A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.


Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.


Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna. 


O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.


Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda. 


O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio... 


Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


“A noite dissolve os homens” é uma importante poesia de sentido sociológico e político, publicada em 1940, durante a fase inicial da Segunda Grande Guerra.
Carlos Drummond de Andrade dedicou o poema ao pintor Cândido Portinari (1903 – 1962), que sempre lutou contra o totalitarismo do Estado Novo.
O poeta através da criação de uma poesia engajada de alta qualidade lança-se contra as atrocidades do avanço nazi-fascista e apela pela solidariedade humana e social.
O poema está constituído em torno de duas metáforas: a “noite” configurando o espaço da alienação das massas em relação à realidade histórica, social e política das ruas, espaço público, onde as contradições, tensões e conflitos de classe afloram em toda sua evidência, contrapondo-se com a metáfora “aurora”, simbolizando a grande esperança utópica ou comprometimento ideológico de paz.
O poema inicia com uma exclamação, enfatizando o anseio e a emoção do eu lírico, e expressando-se em primeira pessoa do singular.
Nesse primeiro momento, o poema é assinalado pela imagem sombria da noite, marcada pelo medo, desesperança e desespero, onde o eu lírico assume uma posição autocrítica e solitária, remetendo o leitor ao contexto histórico vigente (combate, campos, desfalecido, guerreiros, pátria, fardas, mundo fascista, sobreviventes, sangue).
O poeta, assim evidencia a presença do caos provocado pela guerra, sem reticências, ou seja, sem escrúpulos, derradeira e extrema, sem solução. A noite termina com as pátrias, com o brilhantismo de uma farda, com o brilho da vida e com o amor entre os homens.

“A noite anoiteceu tudo... / O mundo não tem remédio... / Os suicidas tinham razão”.

O eu lírico emprega termos cognatos (noite anoitece), que funcionam como redundância, como ampliação e reiteração da ideia que se cria sobre a palavra noite. O pronome “tudo” apresenta o clímax dos efeitos da noite; depois disso, somente o suicídio.
Entretanto, a partir da metáfora “aurora”:

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, / minha carne estremece na certeza de tua vinda. / O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, / os corpos hirtos adquirem uma fluidez, / uma inocência, um perdão simples e macio...”, este indivíduo, já cansado, encontra a expectativa por dias melhores, que chega a comover-se nessa certeza de que aqueles que sobreviverem se unirão pela paz, e seus corpos híspidos de comoverão no perdão e na candura.
A aurora é a metáfora da esperança, opondo-se ao mundo fascista, frio e calculista, que avança na escuridão dessa noite como sendo um sinal determinante de dias melhores. A aurora é decisiva e propicia ao eu lírico vislumbrar uma perspectiva otimista de superação.

“Havemos de amanhecer. O mundo / se tinge com as tintas da antemanhã / e o sangue que escorre é doce, de tão necessário / para colorir tuas pálidas faces, aurora”. 
Nesses versos, o autor se expressa na primeira pessoa do plural, sugerindo a polifonia, na certeza consciente de que há esperança da reconstrução de um mundo melhor. O homem deixa de ser solitário, como nos versos anteriores, para se tornar um ser pelo coletivo. É o eu poético manifestando as relações com o outro e brindando a paz.







Um comentário:

waldete disse...

Fantástico, amei. Sou apaixonada por Drmmond....