sábado, 23 de junho de 2012

SENTIMENTO DO MUNDO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo, 
mas estou cheio escravos, 
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige 
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu 
estará morto e saqueado, 
eu mesmo estarei morto, 
morto meu desejo, morto 
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram 
que havia uma guerra 
e era necessário 
trazer fogo e alimento. 
Sinto-me disperso, 
anterior a fronteiras, 
humildemente vos peço 
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem, 
eu ficarei sozinho 
desfiando a recordação 
do sineiro, da viúva e do microcopista 
que habitavam a barraca 
e não foram encontrados 
ao amanhecer

esse amanhecer 
mais noite que a noite.


   “Sentimento do Mundo” é o primeiro poema da obra homônima e inaugura a fase social drummondiana.
   Nesta fase, encontra-se a poesia social e política de denúncias das dilacerações do mundo. A guerra, o sofrimento do homem, o medo, a solidão, a ignorância, a ditadura são constantes.
   São poesias que refletem à consciência do Outro e do Mundo – o “Eu menor que o mundo”. O “sentimento do mundo” tende à autocrítica do ser humano diante dos regimes totalitários, da II Guerra, sentindo-se impotente diante aos acontecimentos.


   Em carta enviada a Capanema, na qual chegou a pôr seu cargo de chefe de gabinete à disposição, Drummond justificava sua recusa nos seguintes termos:

   “[…] verdade, ainda, que não tenho posição à esquerda, senão apenas sinto por ela uma viva inclinação intelectual, de par com o sentimento de desencanto que me inspira o espetáculo do meu país. Isso não impede, porém, antes justifica que eu me considere absolutamente fora da direita e alheio aos seus interesses, crenças e definições. E aí está a razão por que me julguei impossibilitado de ouvir o meu amigo pessoal Alceu.
   Não tenho jamais escondido o que fica dito aí atrás, eu me vexaria de ocultá-lo agora que o art. 113 da Constituição é letra morta. Ora, a minha presença na conferência de hoje seria, talvez, mais que silenciar inclinações e sentimentos. Seria, de algum modo, o repúdio desses sentimentos e dessas inclinações. Por isso não fui ao Instituto.”

   Muito embora negue tratar-se de uma opção efetiva, o fato é que sua “viva inclinação” à esquerda já era suficiente para uma tomada de posição segura não só diante do anticomunismo do líder católico, mas também frente ao autoritarismo do governo getulista e suas medidas repressivas – como as que se seguiram à insurreição comunista de novembro de 35.
   Quatro anos depois, essa viva inclinação terá se convertido de vez em decisão político-ideológica clara, levando o poeta, se não a superar em definitivo o individualismo extremo revelado desde o livro de estréia, ao menos a conciliá-lo de algum modo com as exigências de participação, mesmo que à custa de uma autocrítica impiedosa reiterada violentamente.
   É bem verdade que a ideia de decisão, se tomada no sentido forte do termo (do latim decisione, “romper”, “cortar laços”, “separar”), sempre irá se tornar um tanto problemática em se tratando de Drummond.
   Não que isso constitua demérito de sua obra; pelo contrário, é daí que parece advir sua força e permanência. Em uma época em que boa parte dos escritores de esquerda, a despeito da própria origem social, pretendia-se porta-voz da classe operária, partindo, assim, para o cultivo de um realismo ingênuo, avesso a toda e qualquer experimentação formal (o que, supostamente, garantiria maior alcance da comunicação literária), Drummond seguiria rota contrária, muito mais consequente e inequívoca.
   A carta em questão, muito curiosamente, está incluída entre a correspondência passiva do Acervo Carlos Drummond de Andrade no Museu-Arquivo de Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa. Seu interesse reside ainda no que ela revela das contradições com que se debatia, então, o poeta em querer manter separado o ato de “servir” ao amigo ministro do ato de “servir” ao Estado, como se vê neste trecho:

   “Não podendo participar de um ato público, promovido pela autoridade a que sirvo, e que visava afirmar, mais do que uma orientação doutrinária, o próprio programa de ação do governo, eu não só deixava de servir a essa autoridade como lhe causar, mesmo, um grave embaraço. É verdade que minha colaboração foi sempre ao amigo, e não propriamente ao ministro nem ao governo, mas seria impossível dissociar essas entidades e, se eu o conseguisse, isto poderia servir de escusa para mim, porém  não beneficiar ia ao ministro”.

   Será, todavia, no poema homônimo disposto no pórtico do livro, que esse sentimento e a condição geral de alienação mostrar-se-ão melhor configurados, de modo a precisar, já de saída, a posição e impressão dominante do sujeito lírico no confronto com o espaço da grande cidade e a consciência de suas limitações (“Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo”)
   Daí porque todo o poema parece construir-se em torno da ideia do despertar, que não é tematizada abertamente, mas encontra reforço na metáfora do amanhecer e no momento do eu lírico levantar-se. O despertar, obviamente, remete ao momento ainda difuso – como na transição entre o sono e a vigília – de tomada de consciência desse eu em relação à nova realidade social com que se defronta, enfim, o futuro. Como de praxe, esse despertar é experimentado como algo tardio e, por isso mesmo, com uma boa dose de remorso, levando ao pedido de perdão. Esse pedido, aliás, representa a primeira retratação (no duplo sentido do termo) da culpa social (e, como diz Merquior, sentimento do mundo é também sentimento de culpa), que se intensificará nos livros seguintes, de forma cada vez mais violenta.
   Ao quadro geral da alienação reinante na realidade com que se depara, soma-se ainda a alienação do próprio eu lírico, que marcha sem rumo numa cidade-labirinto, preso em seus percalços, sua decisão e ação tardias, e o total despreparo para a luta, a ponto de não saber sequer da existência de uma guerra e, portanto, não dispor do básico para enfrentá-la – o que parece, no fim das contas, comprometer irremediavelmente o alcance de seu empenho solidário às vítimas esquecidas, ás agonias obscuras, á dimensão secretamente humana do processo social.
   A pessimista visão de mundo que se justapõe à esperança da revolução e da utopia é sombria e denuncia-se com as mortes do céu e do próprio eu lírico e, apesar da ajuda incompleta dos companheiros de vida (“os camaradas”), o poeta pede humildemente desculpas. Assim, a dor é o “Sentimento do Mundo”; dor de todos os homens e que se concentra em um só: o eu lírico.



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