terça-feira, 29 de maio de 2012

INFÂNCIA, 1945, GRACILIANO RAMOS



“Nunca pude sair de dentro de mim mesmo, só posso escrever o que sou. E, se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das minhas personagens.”


I – INTRODUÇÃO:


Publicada em 1945, “Infância”, de Graciliano Ramos, é um romance que se distingue pelo traço memorialístico (narrativa que fica entre a história e a ficção). Entretanto, a obra não deve ser entendida como um documento da vida do autor e nem mesmo como um texto puramente autobiográfico.
O processo memorialístico, dessa forma, oscila entre o passado e o presente, num jogo entre um narrador que lembra e analisa o recordado e uma personagem-menino que se localiza no enunciado. Esse constante entrelaçamento de pontos de vista enuncia á pluralidade de verdades dos tempos passado e presente, dentro de um mesmo discurso literário: da personagem, do narrador, do leitor virtual do livro que lê o seu passado, ao reconstruí-lo a partir das evocações do protagonista. Não é sem razão que esses “eus” sejam anônimos: não há em “Infância” qualquer referência ao nome da personagem-narrador. O eu faz-se assim ator, ao assumir os papéis de protagonista, de narrador e de leitor.
Essa oscilação de pontos de vista, de papéis narrativos, dificulta e “embaça” para nós, leitores, a leitura do livro de Graciliano. Isso porque, sendo duplas as vozes que narram um mesmo texto, o leitor sente-se confundido num ritmo de ações intercaladas e simultâneas que se desenrolam ora no interior, ora no exterior dos fatos e pessoas, fragmentando-se.

“(...) em formas de diálogo, monólogo ou discurso indireto livre. Essa complexidade narrativa “embaça” o fácil entendimento do texto, fazendo com que o leitor avance na leitura com cuidado. Nesse jogo de eus, de tempos presente e passado, de verdades e invenções. “Infância” é então construída como Buíque – um corpo estranho, mas extraordinariamente sedutor – moldado por mãos adultas e infantis”.

II - FOCO NARRATIVO:

“Infância”, de Graciliano Ramos, é um romance narrado na 1ª pessoa do singular. Para efeitos didáticos, entretanto, esse “eu que fala” pode ser desdobrado em dois narradores. Ou melhor, pode ser entendido como duas vozes que falam em diferentes tons e perspectivas, mas tecem a mesma matéria – a narrativa.
Movimentando-se entre o passado e o presente, essas duas vozes sofrem oscilações quanto ao ponto de vista: apresentam ora a dicção de um menino, ora a de um adulto.
Ao tratar dessa problemática, a estudiosa Maria de Lourdes Oliveira oferece-nos uma interessante explicação:

“Daí o denso nevoeiro e a fragmentação narrativa, que se parte a cada instante num eu presente e num outro eu passado, que deslizam nas suas diferenças, que apresentam pontos comuns e se confundem em imagens e semelhanças. Os dois eus, em tensão dialética, dialogam na narrativa num jogo duplo entre narrador e protagonista. O menino por vezes assume o comando da narrativa, fazendo ouvir a sua visão mágica e infantil das pessoas e acontecimentos; outras vezes, o ponto de vista é do adulto, que escreve e faz reflexões sobre o passado. Com isso, o narrador torna-se leitor virtual do seu passado à medida que o produz.”

Na condição de criança, o narrador-protagonista vê o mundo sob a ótica infantil. O universo circundante é, em vários momentos, reduzido à dimensão de um pequeno e indefeso corpo.
A título de ilustração, observe no trecho a seguir, o predomínio da ótica infantil:

“Divagava imaginando o mundo coberto de homens e mulheres da altura de um polegar de criança. Não me havendo chegado notícia das viagens de Gulliver, penso que a minha gente liliputiana teve origem nas baratas e nas aranhas. Esse povo mirim falava baixinho, zumbindo como as abelhas. Nem palavras ásperas, nem arranhões, cocorotes e puxões de orelhas. Esforcei-me por dirimir as desavenças. Quando os meus insetos saíam dos eixos, revelavam instintos rudes, eram separados, impossibilitados de molestar-se. E recebiam conselhos, diferentes dos vulgares. Podiam saltar, correr, molhar-se, derrubar cadeiras, esfolar as mãos, deitar barquinhos do enxurro. Nada de zangas. Impedidos os gestos capazes de motivas lágrimas” (7 p. 97-98).

Vale reafirmar, ainda, que essas duas vozes não devem ser entendidas como núcleos ou elementos díspares: elas não são forças opositivas. Ao contrário, as duas vozes identificadas ou os dois narradores detectados convivem no interior do texto e são sustentados a partir de um jogo de tensão dialética.
É oportuno reler o fragmento que ilustra, no plano metafórico, a ideia desse jogo dialético das vozes narrativas:

“Nesta vida lenta sinto-me coagido entre duas situações contraditórias – uma longa noite, um dia imenso e enervante, favorável à modorra. Frio e calos, trevas densas e claridades ofuscantes” (7 p. 20).

Ao ganharem corpo e materialidade através da palavra, essas vozes da narrativa memorialística reclamam novas reflexões. É interessante investigar, por exemplo, quais os possíveis significados que a palavra ganha no romance, levando em conta a perspectiva da criança, do adulto e das outras figuras envolvidas no processo de educação do menino.

III - ESTRUTURA:

A estrutura de “Infância” imita “Vidas Secas”, que Rubem Braga apelidou de “romance desmontável”, formada por 39 capítulos (contos), todos intitulados: de “Nuvens” até “Laura”.
O livro pode ser lido sem uma sequência obrigatória porque os capítulos são independentes. No centro de tudo, porém, está o eu-narrador, traçando, com toda a liberdade, uma “autobiografia” da infância. A infância vista, revista e recordada pelo adulto.
Vários capítulos giram ao redor de personagens: Padre João Inácio, o moleque José, José da Luz, D. Maria, meu avô, Chico Brabo, José Leonardo, minha irmã natural, Antônio Vale, Adelaide, Fernando, Jerônimo Barreto, Venta-Romba, Mário Venâncio, Seu Ramiro, Laura... Ou giram ao redor de fatos, acontecimentos...
A amargura do adulto torna amarga a infância; a visão do adulto que descobre, no mundo, os opressores, os fortes e os oprimidos e fracos e identifica: os primeiros com o mal e os segundos com o bem, se revela claramente.

“A associação da bondade com a fraqueza é uma constante em “Infância”.

Em consequência, o menino tem sempre dois sentimentos principais: humilhação e machucamento. Daí a sensação da fraqueza, de injustiça, de punição sem razão. Vem desde a infância aquela opressiva impressão de marginalização e desajustamento dentro da vida. Talvez daí a fonte de sua interminável amargura.
Ainda no nível da estrutura, a obra de Graciliano Ramos lembra um mosaico de personagens e de episódios, ou de álbum de retratos e de situações interessantes. Após a leitura dos três capítulos iniciais, mais nebulosos e fragmentados, a história ganha maior unidade, torna-se mais inteligível e esta bem situada no tempo, no espaço.
As rachaduras visíveis do texto funcionam apenas como um pequeno desafio porque estão no plano da superfície. Sem dúvida, isso pode trazer algum embaraço ao leitor desatento. Afinal, o próprio narrador-protagonista, no capítulo intitulado “Manhã”, esclarece a nebulosidade da sua matéria e oferece explicações quanto ao caráter fragmentário do texto.

IV - TEMPO:

Em “Infância” encontramos um discurso ficcional, cujo narrador-protagonista revela-se disposto a resgatar as suas vivências de um tempo passado, e, nesse sentido, o passado é objeto de reflexão, de análise, de crítica.
A matéria recordada, por sua vez, não surge inteira na memória do sujeito. Ela vem em fluxos, em flashes, uma lembrança puxa a outra, em um processo de associação de ideias. Como um tecido que pode ser desfiado facilmente, as imagens da memória são esgarçadas; revelam-se hesitantes quando se quer precisão de dados; oscilantes, quando se exige exatidão do relato. A matéria da memória é móvel, incerta, nebulosa.
Não é sem razão que o primeiro capítulo do livro de Graciliano ganha o título de “Nuvens” e as cenas iniciais da narrativa estão marcadas pela imprecisão de imagens que o narrador protagonista oferece ao leitor.

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde o vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse no outro posterior, julgá-lo-ia sonho. Talvez nem me recorde bem do vaso: é possível que a imagem, brilhante e esguia, permaneça por eu a ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma. De qualquer modo a aparição deve ter sido real” (7 p.9).

Além da imprecisão dos dados, é importante destacar nesse trecho que a lembrança do vaso não encontra um objeto correspondente e exato na realidade exterior. A lembrança do vaso está ligada à ideia de reprodução. Sugestiva, essa expressão traduz o processo de elaboração do discurso memorialístico: trata-se de uma recriação. E com tal, as imagens lembradas sofrem deformações diversas.
Sobre esse fragmento, vale ainda notar que o principal objeto da lembrança é um vaso – peça própria para guardar, conter alguma coisa. Metáfora da própria memória que guarda, registra, abriga o vivido, o vaso e seu conteúdo são apresentados como matéria narrativa.
Retirar, pouco a pouco, o conteúdo desse vaso significa escrever, libertar-se de tudo aquilo que ficou escondido, reprimido. Escrever memórias significa também dar sentido às próprias experiências, iluminar o passado, deixar de ser cabra-cega, redimensionar medos e ilusões.   
Exercício fascinante e doloroso, a escrita memorialística persegue o movimento contínuo das imagens. Entretanto, os deslocamentos entre uma lembrança e outra criam fraturas nesse discurso. Nem sempre as imagens recordadas remetem a situações de prazer, por isso elas são evitadas, censuradas, e a que aparece em cena ganha um caráter fragmentário, entrecortado, lacunar.
Voltando ao “vaso de louça vidrada”, compreendemos que a estrutura de infância pode ser associada com a superfície desse vaso. Formado de pedaços, de fragmentos, o romance apresenta trinta e nove capítulos, que podem ser lidos em conjunto ou separadamente. A título de curiosidade, notamos que os capítulos desse romance foram, de início, publicados de forma isolada.
Alternando passado e presente para tecer o seu discurso memorialístico, o narrador-protagonista também desenha alguns episódios para situar, cronologicamente, o seu relato. Desse modo faz alusões à passagem de um cometa, fala do conflito de Canudos comenta o cenário político brasileiro dos fins do século XVIII e, ainda, registra a transição do século XIX para o século XX.

“O cometa veio ao cabo de uns dois anos e comportou-se bem. Minha mãe foi observá-lo da porta da igreja, sem nenhum receio, esquecida inteiramente da predição. Nesse tempo nós não tínhamos mudado, vivíamos longe da vila. O mundo estava imenso com muitas léguas de comprimento – e desafiava, seguro, profecias e cometas” (7 p. 74).

“Debatiam-se Canudos, a revolta da Armada, a Abolição e a Guerra do Paraguai como acontecimentos simultâneos. A república, no fim do quadriênio, ainda não parecia definitivamente proclamada” (7 p. 51).

“Sem dúvida Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca eram grandes, tão grandes que, deixando a política, recebiam consagração popular (...)” (7 p. 51).

“Logo no início desse terrível dever, o pior de todos, surgiu uma novidade que me levou a desconfiar da instrução de Alagoas: no interior de Pernambuco havia 1899 depois dos nomes da terra e do mês; escrevíamos agora 1900, e isto me embrulhou o espírito. Faltou-me explicação necessária (...) considerei a nova data um erro” (7 p. 170).

V - PERSONAGENS:

“Naquele tempo a escuridão ia se dissipando, vagarosa. Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente” (7 p.20).

Nesse sentido, notamos que, ao resgatar a história do outro, ele conta, de forma velada, a sua história de vida. Articulando o texto como alguém que olha um velho álbum de retratos, ele procura rever pessoas, lembrar situações diversas. Assim, debruça-se sobre o seu passado e tenta, entre tantas imagens, encontrar o seu próprio retrato.

Segundo Antônio Cândido, “lendo “Infância”, concluímos que os livros de Graciliano Ramos se concatenam num sistema literário pessimista. Meninos, rapazes, homens, mulheres; pobres, ricos, miseráveis; inteligentes, cultos, ignorantes – todos obedecem a uma fatalidade cega e má”. (Antônio Cândido. “Ficção e Confissão”, Liv. José Olympio Edit.-Rio – 1959, p. 62)

De alguns, ele fala com carinho e traça contornos bem nítidos de suas imagens. De outros, daqueles que o martirizaram na infância, o narrador-protagonista risca contornos imprecisos ou deforma os seus perfis, esboçando tipos caricaturais. Ao explorar esse último recurso, ele, sem dúvida, deixa sugerida a sua dificuldade de rever indivíduos que marcaram suas experiências negativamente. A propósito desse universo dividido entre bons e maus, releia a sua declaração:

“Os objetos se tornavam irreconhecíveis, e a humanidade, feita de indivíduos que me atormentavam e não me atormentavam (...)” (7 p. 21).
Ao desenhar, por exemplo, o retrato de D. Maria, a mestra carinhosa, ele cumpre a tarefa, sugerindo imagens nítidas e bem contornadas.

“Aquela brandura, a voz mansa a consertar-me as barbaridades, a mão curta a virar a folha, apontar a linha, o vestido claro e limpo, tudo me seduzia. Além disso a extraordinária criatura tinha um cheiro agradável” (7 p. 116).

Entretanto, ao falar da professora Maria do O, seu tom muda e a imagem apresentada ganha os contornos de uma caricatura.
Observe o fragmento:

“Matricularam-me na escola pública da professora Maria do O, mulata fosca, robusta em demasia, uma das criaturas mais vigorosas que já vi. Esse vigor se manifestava em repelões, em berros, aos setenta ou oitenta alunos arrumados por todos os cantos” (7 p. 170).

Além de ser guiado pelos laços de afetividade para traçar as imagens de suas personagens, o narrador-protagonista explora outras perspectivas. Colocando-se no lugar de um sujeito crítico, por exemplo, ele desenha perfis de indivíduos a partir de uma posição social, ou de um status mantido. Normalmente, destaca a postura política da personagem ou coloca em evidência a preocupação dela com o dinheiro, com o acúmulo de riquezas.
Notamos, ainda, que outro traço identificador das personagens é aquele que diz respeito ao misticismo. Algumas como sua mãe, por exemplo, tornam-se alvo de duras críticas: são desenhadas com distanciamento, rigor e muita ironia. Observamos, por fim, que as personagens são retratadas e também avaliadas pelo domínio da linguagem ou pela capacidade que apresentam de manipular a palavra.
Vejamos alguns retratos desse álbum:

OS BISAVÓS: “(...) uma santa morena e encarquilhada, um velhinho autoritário que embirra com meu pai” (7 p. 24).

AVÔ PATERNO: “Legou-me talvez a vocação absurda para as coisas inúteis. Era um velho tímido, que não gozava, suponho, muito prestígio na família. Possuíra engenhos na mata; enganado por amigos e parentes sagazes, arruinara e dependia dos filhos. Às vezes endireitava o espinhaço, o antigo proprietário ressurgia (...) Bom músico, especializara-se no canto” (7 p. 21-22).

AVÔ MATERNO: “Meu avô materno, alto, magro, de cabelos e barba como pasta de algodão, muito se diferenciava dessa criatura achacada: não desperdiçava tempo em cantiga (...) De perneiras, gibão e peitoral, as abas do chapéu de couro, repuxadas para a nuca a emoldurar-lhe o rosto vermelho, empunhava-se. (...) Para vender o dado nunca precisou de balança” (7 p. 23).

AVÓ MATERNA: “Minha avó, grave, ossuda, tinha protuberâncias na testa e bugalhos severos. Anos depois contou-me desgostos íntimos: o marido ciumento afligira-a demais. Só aí me inteirei de que ela havia sofrido e era boa (...)” (7 p. 24).

PAI: “(...) um homem sério, de testa larga, uma das mais belas testas que já vi, dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda (...) Na harmonia conjugal a voz dele perdia a violência, tomava inflexões estranhas, balbuciava carícias decentes” (7 p. 16).
“Reprodutor mesquinho, sujeitava-se à moral comum e naquela bênção engrolada ao amanhecer e ao cair da noite havia a confissão de que lhe faltava o direito de cobrir muitas mulheres, gerar descendência numerosa. Cobria e gerava, mas devagar e com método. Era um patriarca refletido e oblíquo, escriturava zeloso os seus escorregos sentimentais. Mocinha não representava utilidade. Valor estimativo, de origem pecaminosa“ (7 p. 156).
“Realmente era ambicioso, mas a sua ambição voava curto. Leve amor às aventuras e riscos, aventuras e riscos medianos, o induzia a vender fiado” (7 p. 157).

MÃE: “(...) uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus, que nos momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura” (7 p. 16).

MOCINHA: “Era branca e forte, de olhos grandes, cabelos negros, tão bonita que duvidei ser do meu sangue.” (7 p. 155)
“Era como uma estranha, hóspeda permanente, embora se entretivesse em serviços leves: bordava palmas e florinhas em pedaços de morim, (...) remendava camisas, endurecia saias brancas na goma anilada, alisava-as a ferro na tábua (...)” (7 p. 155).
“E as exigências do espírito satisfaziam-se com missas, novenas, terços de maio, conversas na prensa do copiar, romance longo (...) Na verdade, Mocinha era meio analfabeta” (7 p. 155).

IRMÃS: são caracterizadas por rápidos traços ou situações.
“Vivíamos numa prisão, mal adivinhando o que havia na rua, enevoada longos meses” (7 p. 58).
“Na sala, mudada em celeiro, o nosso ambiente se alargava de chofre, adquiríamos liberdade. As sementes se derramavam no corredor, iam-se acumulando, formavam uma ladeira, que subíamos até alcançar a janela” (7 p. 62).
“Comentei o desastre com minhas irmãs. A pequena, um animalzinho, não atribuía às picadas o longo padecimento e a dieta rigorosa. A mais velha, porém, que já discernia motivos e me auxiliava no furto de doces, concordou comigo (...)” (7 p. 64).

JOSÉ BAÍA: “(...) um rapagão aprumado e forte, de olhos claros, risonho. Calçava alpercatas, vestia camisa branca de algodão que usa o sertanejo pobre do Nordeste, áspera, encardida, ordinariamente desabotoada, as pontas das aberturas laterais presas em dois nós. (...) tornou-se meu amigo, com barulhos, exclamações, onomatopéias e gargalhadas sonoras” (7 p. 12).

PADRE JOÃO INÁCIO: “(...) autoridade franzina, usava despotismo, não descia a explicações. Insultava a canalha, raça de cachorro com porco. Mandava porque tinha poderes: era Albuquerque e sacerdote. (...) Dirigia um partido político e o culto lhe merecia fraca atenção” (7 p. 64).

MOLEQUE JOSÉ: “tortuoso, sutil, falava demais, ria constantemente, suave e persuasivo, tentando harmonizar-se com todas as criaturas. Voltava, expunha suas pequenas habilidades sem se ofender, jeitoso, humilde, os dentes à mostra. Não era alegre” (7 p. 81).

JOSÉ DA LUZ: “(...) chegava-se aos tipos que jogavam gamão e discutiam política. Um caboré enxerido, bem falante, (...) amável, jeitoso, com certeza escapava às marchas rigorosas da força volante, às diligências cruas. Não guardava ressentimento, não precisava desforra. Aceitava de coração leve a tarimba” (7 p. 95).

JOSÉ LEONARDO: “Aparecia aos sábados na feira, sob um vasto chapéu, aprumado na carona bojuda, numa complicação de alforjes, látegos e bagagens. Foi o sujeito mais digno que já vi (...)”  (7 p. 153).
“(...) sua imagem serena me acompanhou (...) compreensiva e generosa, sem tentar corrigir-me, se dar-me os conselhos que sempre me aperreavam e não serviriam para nada” (7 p. 153).

JERÔNIMO BARRETO: “Impossível entender-me com o homem sabido, conhecedor de Marabat, Robespierre, outros que me fugiam da memória e da língua. Essas personagens me acovardavam. E o proprietário delas guardava-as com certeza ciumento” (7 p 216).

VENTA-ROMBA: “A voz corria mansa; as rugas da cara morena se aprofundavam num sorriso constante; o nevoeiro dos olhos se iluminava com estranha doçura. Nunca vi mendigo tão brando” (7 p. 223).

LAURA: “(...) o rostinho moreno, as tranças negras, os olhos redondos e luminosos. (...) não possuía o azul e o ouro convencionais, mas dividia períodos, classificava orações com firmeza, (...)” (7 p. 249).

O MENINO: “Sem dúvida o meu aspecto era desagradável, inspirava repugnância. E a gente da casa se impacientava. Minha mãe tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia. Dava-me dois apelidos: bezerro-encourado e cabra-cega.
Bezerro encourado é um intruso. Quando uma cria morre, tiram-lhe o couro, vestem com ele um órfão, que, neste disfarce, é amamentado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal. Devo o apodo ao meu desarranjo, à feiúra, ao desengonço. Não havia roupa que me assentasse no corpo: a camisa tufava na barriga, as mangas se encurtavam ou alongavam, o paletó se alargava nas costas, enchia-se, como um balão. Na verdade o traje fora composto pela costureira módica, atarefada, pouco atenta às medidas. Todos os meninos, porém, usavam na vila fatiotas iguais, e conseguiam modificá-las, ajeitá-las. Eu aparentava pendurar nos ombros um casaco alheio. Bezerro-encourado. Mas não me fazia tolerar. Essa injúria revelou muito cedo a minha condição na família: comparado ao bicho infeliz, considerei-me um pupilo enfadonho, aceito a custo. Zanguei-me, permanecendo exteriormente calmo, depois serenei. Ninguém tinha culpa do meu desalinho, daqueles modos horríveis de cambembe. Censurando-me a inferioridade, talvez quisessem corrigir-me.
A outra alcunha era mais insultuosa que a primeira. Lembrava-me do jogo infantil e arreliava-me:
- Cabra-cega!
- Inhô“ (7. P. 136).

VI – ESPAÇO:

Através da exploração do código verbal e auditivo, o menino descobre o mundo, o adulto recorda e recria: forma, cores delineiam a paisagem nordestina. Nuvens dispersas, a seca, o verão, a terra arenosa, a caatinga são alguns elementos do cenário de “Infância”.
Ao falar das mudanças dessa paisagem, o narrador-protagonista registra a presença das chuvas, da cheia, desenha o açude e faz referências à terra fértil e verdejante.
Veja alguns fragmentos da obra:

“Sem dúvida as árvores se despojaram e enegreceram, o açude estancou, as porteiras dos currais se abriram inúteis. É sempre assim” (7 p. 26).

“Dificilmente pintaríamos um verão nordestino em que os ramos não estivessem pretos e as cacimbas vazias” (7 p. 26).

“A caatinga imensa não tinha dono, o gado pastava livremente nela, de ribeira a ribeira, aumentava, definhava, bicho de várias fazendas, reconhecíveis pelas marcas a fogo. De manhã as vacas leiteiras saíam, voltavam à tarde. O resto dos animais ficava longe, sumido na vegetação rala, de cardo e favela, que vestia a campina. A riqueza aparecia no inverno sem vantagem sensível, desaparecia no verão, sem inconveniente“ (7 p. 132).

As mudanças feitas pela família do narrador-protagonista implicam modificações do cenário. Ao evocar esse tempo, ele conta a chegada ao interior de Pernambuco (Buíque), e depois descreve a ida para o estado de Alagoas (Viçosa). Tais deslocamentos são impostos por motivos financeiros. O pai, comerciante, busca melhores condições de ganho para o sustento da família. Por isso, a paisagem pernambucana, identificada como zona de produção pecuária, é substituída. Em Viçosa, no Alagoas, a atividade econômica predominante é a cultura da cana-de-açúcar.

“(...) tentou explicar-me os chaminés dos banguês, os campos de lavoura, árvores robustas, associadas, atravancando a paisagem. Tinham-se sumido os grandes espaços alvacentos, de areia e cascalho, despovoados, o mato franzino, bancos de macambira, cercas de pedra, chiqueiros e currais, dias luminosos riscado pelos vôos das arribações. Veredas subiam, desciam, torciam-se, e à beira delas arrumavam-se casas, jardins, hortas. Os transeuntes não se vestiam de couro. Em qualquer ponto achava-me num buraco, entre morros. Água abundante e ruidosa, capinzais imensos, manhãs nevoentas.
Chegamos ao município de Viçosa, em Alagoas. Antes de estabelecer-se na cidade, meu pai se hospedou num engenho de fogo morto. E durante meses, em longas ausências, trabalhou com seu Manuel Costa, assentando as bases de uma sociedade comercial, embora em pouco tempo.
Constrangi-me no ambiente novo, perdi hábitos e adquiri hábitos. Numerosos acidentes perturbavam-me: atoleiros, cancelas, arame farpado, canaviais de folhas cortantes, vala” (7 p. 166-167).

VII – LINGUAGEM:

Maria de Lourdes Oliveira afirma que o romance “Infância” é construído a partir de livros diversos, de diferentes tamanhos e ilustrações. Salientando a importância da intertextualidade presente nessa obra, a estudiosa nota que os três capítulos “Samuel Smiles”, “O Barão de Macaúbas” e “O menino da mata e seu cão Piloto” apresentam títulos que remetem a nomes de escritores ou de livros.
Na perspectiva da INTERTEXTUALIDADE, notamos o uso do padrão culto da língua, mas advertimos que esse traço não significa desprezo à estética moderna, por parte do narrador-protagonista. Insinuando maturidade no manejo da língua, ele opta pela correção gramatical e, simultaneamente, explora expressões populares e regionais.
Ao explicar tais recursos, o crítico Octávio de Faria diz:

“Em Graciliano Ramos, mais do que em qualquer outro dos romancistas nordestinos de 30, o instrumental expressivo procede de uma elaboração consciente no campo da linguagem, ditada muito mais pelo tema e pelas tendências peculiares do escritor, do que por injunções de tipo regional documental.”

Nesse sentido o recurso da intertextualidade, o recriar de discursos relacionam-se com os livros guardados na memória do narrador-protagonista que insiste em ler o passado e rever o seu crescimento intelectual. Diante da biblioteca, revela-se um sujeito que tem amplo domínio da matéria que trabalha.
Além de colocar-se como leitor, o narrador-protagonista apresenta-se, também, como escritor. Explorando o recurso da METALINGUAGEM, demonstra ser um profissional atento para todo o processo que envolve a produção literária. Encenando as diferentes fases da criação de um texto, ele escreve, corrige, altera os seus registros.

 “Acorde, seu Papa-hóstia
Nos braços da Folgazona.

Aí temos uma alteração:
Levante, seu Papa-hóstia
Dos braços da Folgazona.

Outra emenda. O hábito de corrigir a língua falada instiga-me a consertar o primeiro verso:
Levante-se, seu Papa-hóstia.
Vacilo um minuto, buscando cá por dentro a forma exata da composição. Persuado-me enfim de que minha mãe dizia:
Levante, seu Papa-hóstia” (7 p. 18).

Com efeito, observamos que o popular e a regional na obra “Infância” reafirmam o caráter crítico do texto, conferindo-lhe um maior grau de verossimilhança.
Nessa perspectiva, é interessante rever um trecho do livro.

“Chamas lambiam vultos, um arrieiro soltava gargalhadas. Papa-lagartas. Depois vinham botequins de barro e palha. O trote de um animal a sacudir-me pelas estradas, xiquexiques e mandacarus subindo e descendo. Os botequins e os papa-lagartas envelheciam. Sensações violentas obliteravam xiquexiques e mandacarus: essas plantas não se acomodariam junto à grande arapuca levantada em pernas de pau. Senti vontade de chorar. Também não me acomodaria. Vi uma porta aberta, entrei, fui à sala de jantar farejando o meu povo” (7 p. 46).

Através do recurso da metalinguagem, ele explica os motivos, os temas de suas composições ficcionais.

“Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso á terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes” (7 p. 199).

Ao desempenhar, ainda, o papel de escritor, o narrador-protagonista exibe a face de um severo crítico da sua produção literária, pela via da reflexão metalinguística.

“Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco” (7 p. 193).

Consciente de que a produção literária exige o duplo papel de leitor e de escritor, o narrador-protagonista movimenta-se. Ao resgatar a memória do seu saber, ele acaba por eleger a palavra como o seu grande tema e, através desse enredo, relê a história da produção cultural do seu próprio país.

VIII – ASPECTOS SOCIAIS:

Contrastando com a visão quase ingênua da criança, está o sujeito adulto, maduro, reflexivo. Portador de um agudo espírito crítico, ele fala do seu passado, relendo as cenas com muita ironia. Chega mesmo a ser cruel quando se refere à ordem socialmente estabelecida.
No capítulo intitulado “Venta-Romba”, por exemplo, ele rememora a época em que seu pai fora escolhido para assumir o cargo de juiz substituto da vila. Compondo o relato, um tom crítico, esboça também o seu próprio perfil ético, emitindo opiniões acerca da prática jurídica e política brasileira.

Observe, no texto a seguir, o tom de maturidade dessa voz narrativa:

“Ofereceram a meu pai o emprego de juiz substituto e ele o aceitou sem nenhum escrúpulo.
Nada percebia de lei, possuía conhecimentos gerais muito precários. Mas estava aparentado com senhores de engenho, votava na chapa do governo, merecia a confiança do chefe político – e achou-se capaz de julgar.
Naquele tempo, e depois, os cargos se davam a sequazes dóceis, perfeitamente cegos. Isto convinha à justiça. Necessário absolver amigos, condenar inimigos, sem o que a máquina eleitoral emperraria” (7 p. 222).

Ao recuperar discursos ligados à política e à história que marcaram a sua infância, o narrador-protagonista assume a perspectiva do homem do povo e recria um cenário marcado pelo caráter tradicional e provinciano.
As diferenças de classes sociais, os preconceitos raciais, a marginalização dos pobres e dos doentes são alguns dos aspectos explorados pelo narrador-protagonista para desenhar o ambiente.

“Sem dúvida Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca eram grandes, tão grandes que, deixando a política, recebiam consagração popular e entravam nas emboladas:
Pedro Paulino, Deodoro, Floriano.
Foi a lei republicana
Que inventou guarda local.
Os frequentadores das calçadas conheciam dos generais famosos alguma coisa mais que os nomes truncados. Não percebiam neles virtudes públicas (isto ninguém estava em condições de notar), mas descobriam qualidades preciosas a um sertanejo: vigor e dissimulação. Aquela resposta de Floriano aos estrangeiros causava entusiasmo. Bichão sim senhor: prendia, deportava, não receava caretas” (7 p. 51).

Os costumes são descritos de forma irônica: fuxicos, fofocas, visitas de comadres, discussões políticas infindáveis e a rigidez dos códigos de comportamento completam o retrato dessa sociedade patriarcal.

IX - PLANO CULTURAL:

O narrador-protagonista não limita o seu diálogo intertextual com textos da esfera literária. Ao rememorar o processo de formação de seu conhecimento ele também fala dos discursos religiosos que preencheram a sua vida de menino. Questionando o absurdo das histórias que lhe contavam, a falta de sentido das explicações que recebia, ele coloca em evidência o autoritarismo como expressão maior desse tipo de saber.
Irônico, confronta, por exemplo, o discurso religioso apregoado pela igreja com uma prática social voltada para a manutenção de preconceitos raciais.
A título de ilustração, leia o fragmento:

“A negra tivera sorte. Provavelmente já estava no céu, diante de Jesus, misturada aos serafins.
Essa esquisita benevolência deixou-me perplexo. Calei-me, prudente, mas achei o comentário duvidoso e embrulhado. Não me parecia que o purgatório fosse indispensável. E a negra, incompleta e imunda, não estava no céu. Que ia fazer lá? Estragaria as delícias eternas, mancharia as asas dos anjos” (7 p. 93).

“A existência ordinária, entregue a negócios terrestres e caseiros, durava duas, três semanas, até o correio trazer o fornecimento mensal de literatura religiosa” (7 p. 69).
O narrador-protagonista enfatiza o misticismo e a religiosidade dos nordestinos, principalmente através da figura de sua mãe. Irônico, lembra cenas que foram motivo de conflito em sua meninice.

“Súbito ouvi uma palavra doméstica e veio-me a ideia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha mãe estranhou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo, Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não deveríamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde as pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões. E num lugar existem casas, árvores, açudes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrição. Minha mãe condenou a exigência e quis permanecer nas generalidades. Não me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a ciência dela. Por que não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que as de S. João e em tachas de breu derretido” (7 p. 76).

“Estremeci e pedi explicações. Ia acabar. Estava escrito nos desígnios da providência, trazidos regularmente pelo correio. Na passagem do século, um cometa brabo percorreria o céu e extinguiria a criação: homens, bichos, plantas. Riachos e açudes se converteriam em fumaça, as pedras se derreteriam. Antigamente a cólera de Deus exterminava a vida com água: determinava agora suprima-la a fogo.
Eu ignorava o século, os cometas, a tradição. E estendia fraternalmente a minha ignorância a todos os indivíduos. Não percebendo os mistérios das letras, achava difícil que elas combinassem para narrar a infeliz notícia. Provavelmente minha mãe tinha se equivocado, supondo ver na folha desastres imaginários. Expus essa conjectura, que foi repelida.  A desgraça estava anunciada com muita clareza” (7 p. 71).

Ao colorir o cenário e a sociedade da região, recorda-se também da prática da medicina caseira, da crença em simpatias, do gosto por cantigas, ditos e histórias que constituem o saber popular nordestino. Apesar disso, o romance de Graciliano Ramos não deve ficar circunscrito ao individual, ao particular, ao regional. Em “Infância”, as vozes traduzem a memória de um saber coletivo, universal.

X - PLANO EDUCACIONAL:


Ao rememorar a sua condição de menino, o narrador-protagonista de “Infância” relata-nos as suas primeiras aventuras no campo das letras e do saber.
Recordando as cenas iniciais, ele lembra que ouvira, ainda muito pequeno, a voz de um velho barbudo ensinando o ABC, numa escola rural. A lembrança nítida do som cadenciado das letras fica retida na sua memória.
Ao falar ainda dessa época, ele conta do seu grande entusiasmo pelas histórias, trovas e cantigas de José Baía.
Note-se, portanto, que não são apenas os registros da erudição que ganham espaço na sua memória. A cultura popular também merece, na mente da criança, um lugar de destaque.
Sem dúvida alguma, o registro dessas cenas permite-nos observar que estamos diante do retrato de uma criança curiosa, inteligente e interessada em tudo aquilo que diz respeito à linguagem, seja ela escrita ou oral, erudita ou popular.
Anos depois, brincando na loja de propriedade da família, o menino volta a sua atenção para uns folhetos, tentando adivinhar o significado daquilo que estava impresso.
Depois de colocar-se como observador da cena, o pai aproxima-se risonho e procura avivar a curiosidade do filho acerca das palavras impressas. Tenta, enfim, convencê-lo a submeter-se ao processo de alfabetização.
Procurando expor os seus argumentos, o pai afirma que as palavras são “armas terríveis” e completa o raciocínio, informando que Padre João Inácio e o advogado Bento Américo eram pessoas “sabidas”. Na verdade, a argumentação desse mestre está construída sobre a ideia de que o domínio da linguagem confere ao indivíduo poder, status e projeção social. Tais valores não dizem respeito à criança e, além disso, as figuras destacadas para a exemplificação não são as ideais. Levando em conta o ponto de vista do menino, o Padre João Inácio inspirava-lhe medo e o advogado lhe era indiferente.
Nesse momento, o interesse pela linguagem, a curiosidade em torno do papel impresso deixam de ter importância para o protagonista. A falta de confiança na figura paterna, o medo que advém desse mestre autoritário e inadequado fazem com que o menino desconfie da proposta e hesite em aceitar a oferta. Instantes depois, temendo os castigos costumeiros, ele decide aceitar os caminhos da aprendizagem formal. Portanto, é sob o signo da desconfiança, do medo da autoridade e do poder que essa criança é motivada e iniciada no processo de aquisição da linguagem escrita.

“E a aprendizagem começou ali mesmo, com a indicação de cinco letras já conhecidas de nome, as que a moça, anos antes, na escola rural, balbuciava junto ao mestre barbado. Admirei-me. Esquisito aparecerem, logo no primeiro caderno, sílabas pronunciadas em lugar distante, por pessoa estranha. Não haveria engano? Meu pai asseverou que as letras eram realmente batizadas daquele jeito“ (7 p.103).

Relendo esse trecho de forma mais atenta, destacamos a seguinte ideia: o menino estranha que as sílabas pronunciadas em um lugar distante sejam lidas do mesmo jeito no espaço familiar. Em outras palavras, ele questiona o caráter convencional do signo linguístico, indaga sobre as leis da linguagem.
Lembrando que a figura paterna representa, no espaço familiar, a convenção social, a lei, notamos que o pai não admite o questionamento à medida que efetivamente não responde às indagações da criança. O mestre tradicional apenas repete o que já é estabelecido. Assim, a história da alfabetização do narrador-protagonista é resgatada e os momentos de aprendizagem são associados com as ideias de “escravidão imposta”, “condenação odiosa”, “tormento”.
Ao evocar a figura do primeiro mestre, o narrador-protagonista não se esquiva do prazer de explicitar que o pai é um sujeito “sem vocação para o ensino”. Irônico, refere-se a esse professor como o “tentador humanizado” que o condena ao “martírio” e ao “suplício”.

“Meu pai não tinha vocação para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabeça. Resisti, ele teimou - e o resultado foi um desastre. Cedo revelou impaciência e assustou-me. Atirava rápido meia dúzia de letras, ia jogar solo. À tarde pegava um côvado, levava-me para a sala de visitas – e a lição tempestuosa. Se não visse o côvado eu ainda poderia dizer qualquer coisa.
Vendo-o, calava-me. Um pedaço de madeira, negro, pesado, da largura de quatro dedos (...) Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza de haver gerado um maluco e deixou-me“ ( 7  p. 96 a 99).

A partir deste trecho, é possível inferir empecilhos diversos na relação da criança com as primeiras experiências de leitura: a mediação do pai com o ato da leitura é realizada em meio a surras e humilhações; para o pai, a leitura se restringe à memorização de letras, traços sem história e, portanto, desprovidos de sentido; à criança não é permitido descobrir o mistério das combinações das letras em palavras, em histórias que lhe despertasse o desejo de penetrar no mundo letrado; das mais diferentes formas são tensionados os vínculos entre a criança e o meio sócio-cultural que a gerou.
Outros mestres marcam a vida do menino. Muitos incorrem no erro do excesso da autoridade. Alguns são lembrados de forma carinhosa, foram afetivos. Porém, todos são caracterizados como indivíduos que não tem domínio do conteúdo que ensinam.
Assim, ao reler as cenas de sua infância, o narrador-protagonista não poupa críticas à pedagogia tradicional. Questionando-a no que diz respeito à relação mestre-aprendiz, condena os procedimentos artificiais para a motivação da aprendizagem, reprova à ideia de que o erro dever ser corrigido através da repetição exaustiva e rejeita a punição na forma de castigo físico.
Voltando-se para o conteúdo da pedagogia tradicional, critica o uso dos textos didáticos de tom moralista, questiona os textos que evidenciam a distância entre o padrão culto e o popular da língua e, sobretudo, condena a erudição nas fases iniciais de processo de alfabetização.
É levando em conta a extrema argúcia com que o narrador-protagonista identifica os problemas mais sensíveis da educação tradicional que afirmamos que ele também revela a sua face de mestre. Crítico de um modelo de saber fundado na concepção de poder, o narrador-protagonista usa duas vozes – a de adulto e a de menino – para inaugurar o lugar da pedagogia moderna. Consciente, ele deve saber que o mestre é também aprendiz.

XI – O NARRADOR-PROTAGONISTA E A LEITURA:

Como tem sublinhado a crítica a respeito deste romance, fica no leitor a sensação permanente de uma enorme lente realista usada pelo menino Graciliano, para alertar, com precisão, sobre a dureza nas travessias da vida, a quem desejar acompanhá-lo. Por essas mesmas lentes, o leitor é informado dos aspectos mais velados da experiência infantil, da condição humana - reais, históricos, culturais. Graciliano relata passagens de um ambiente familiar absolutamente árido, onde só encontra indiferença, injustiça, ingratidão... Em meio a adversidades de toda ordem - ambiente cultural incompreensível, tensas relações familiares, debilidade física - têm início as suas primeiras experiências com a leitura.
A criança que até os nove anos de idade repudiou a leitura que lhe era imposta, aprende com um leitor sensível a conhecer a universalidade do ato da leitura, a sua história e as marcas que pode imprimir na humanidade. Aos poucos, o menino Graciliano se percebe, por meio das leituras, indagando o mundo, falando e se comportando de modo diferente. O sujeito, grande ou pequeno, tem apenas no meio sócio-cultural as possibilidades de romper as amarras do apagamento e caminhar em direção ao seu pleno desenvolvimento intelectual – sentido maior da leitura. Ao se lembrar dos textos que contribuíram para o seu crescimento, o menino-escritor de “Infância” reconstrói, através da memória, uma espécie de biblioteca. Resgatando nomes de autores, apontando títulos de livros, destacando trechos de obras, comentando episódios de textos ficcionais, ele refaz as trilhas do processo de formação de sua identidade intelectual, de edificação de seu próprio saber. Logo adiante, ironiza a inadequação dos textos usados pelo ensino tradicional, através do diálogo com a literatura portuguesa.

“Foi por esse tempo que me infligiram Camões, no manuscrito. Sim senhor: Camões, em medonhos caracteres borrados – e manuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas de Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados. Um desses barões era provavelmente o de Macaúbas, o dos passarinhos, da mosca, da teia de aranha, da pontuação. Deus me perdoe. Abominei Camões” (7 p.127).
Partindo da citação, uma modalidade do processo intertextual, ele questiona o tom moralista dos textos didático.
“- Queres tu brincar comigo?
O passarinho, no galho, respondia com preceito e moral. E a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário. A figura do barão manchava o frontispício do livro – e a gente percebia que era dele o pedantismo atribuído à mosca e ao passarinho. Ridículo um indivíduo hirsuto e grave, doutor e barão, pipilar conselhos, zumbir admoestações” (7 p. 124-125).

Logo adiante, relendo o “Álbum de recortes literários”, o narrador-protagonista destaca, com espírito crítico, algumas obras do romantismo brasileiro. Depois de mencionar “O moço loiro”, de Joaquim Manoel de Macedo, falar de “O Guarani”, de José de Alencar, ironiza a linguagem romântica.

“(...) entretive-me com D. Antônio de Mariz, Cecília, Peri, fidalgos, aventureiros, o Paquequer. Certas expressões me recordaram a seleta e a linguagem de meu pai em lances de entusiasmo. Vi o retrato de José de Alencar, barbado, semelhante ao do Barão de Macaúbas, e achei notável usarem os dois uma prosa fofa” (7 p. 217).

Ao colocar em cena o caráter folhetinesco da literatura romântica brasileira, sugere, também, o traço de dependência cultural que marca a produção do nosso país.

“Feria-me às vezes, porém, uma saudade viva das personagens de folhetins: abandonava a agência, chegava-me à biblioteca de Jerônimo Barreto, regressava às leituras fáceis, revia condes e condessas, salteadores e mosqueteiros brigões, viajava com eles em diligência pelos caminhos da França...” (7 p. 233-234).

Tratando do naturalismo, destaca a cópia como procedimento desse estilo e zomba do leitor que primeiro lê a “cópia” (Aluísio de Azevedo) para depois conhecer o original francês (Émile Zola).

“(...) visitávamos a “Casa de Pensão” e “O Coruja”. Da cópia saltávamos ao modelo dos “Rougon-Macquart”, publicadas em Lisboa.”

Os mediadores da leitura nem sempre estarão, portanto, enraizados nos meios familiares, nas instituições escolares. Muitas vezes, é em meio a outras situações, culturalmente significativas, que o sujeito encontrará alimento para o seu pleno desenvolvimento enquanto leitor.

“Minha mãe lia devagar, numa toada inexpressiva, fazendo pausas absurdas, engolindo vírgulas e pontos, abolindo esdrúxulas, alongando ou encurtando as palavras” (7 p. 68).

O fragmento é ilustrativo do grande distanciamento da criança em relação à mãe, ao conteúdo das histórias, ao modo desatencioso de ler. Conforme a própria criança denuncia, as histórias mais simples se perdiam em barulhos sem sentido, deteriorados ainda mais pela mediação inexpressiva da figura materna. Era ainda no contato com esta “senhora agressiva, ranzinza” que os livros se tornavam cada vez mais desinteressantes, inapropriados, objetos descontextualizados.

“Afinal minha mãe rebentou em soluços altos, num choro desabalado. Agarrou-me, abraçou-me violentamente, molhou-me de lágrimas. Tentei livrar-me das carícias ásperas (...) A exaltação diminuiu, o pranto correu manso, estancou, e uma vozinha triste confessou-me, entre longos suspiros que o mundo ia acabar. Estremeci e pedi explicações. Ia acabar. Estava escrito nos desígnios da Providência, trazidos regularmente pelo correio (...) Não percebendo o mistério das letras, achava difícil que elas se combinassem para narrar a infeliz notícia” (7 p. 65 e 66).

Naquele contexto, o narrador-protagonista decepciona-se sempre: o primeiro, o segundo, o terceiro livro, todos tediosos, pesados, inadequados.
Na escola, há alguns curtos momentos de aproximação com a leitura, especialmente quando mediada pelo calor humano, por gestos afetuosos. Ocorre, desse modo, com a professora de nome Maria. Mas, logo, há mudanças e a escola passa a circunscrever, uma vez mais, espaço vazio de vida, novas e velhas decepções:

“O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: cinco horas de suplício uma crucificação (...) Não há prisão maior do que escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos e auréolas, não deixei que as moscas me comessem. Assim, aos nove anos ainda não sabia ler” (7 p. 188).

Entretanto, o processo de aquisição da leitura começa a tomar um rumo diferenciado quando o menino percebe que diante de meios tão adversos - o familiar, o escolar -, teria ele próprio que vencer toda a sorte de dificuldades. Para que o processo se inaugurasse, conta, pela primeira vez, com o entusiasmo de uma figura feminina, a prima Emília:

"Era necessário que a priminha lesse comigo o romance e me auxiliasse na decifração dele.
Emília respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que não me arriscaria a tentar a
leitura sozinho? Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se juntavam (...)
Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu,
percebiam tudo quanto há no céu (...) E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas percorridas. E as partes que esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa, vagarosamente” (7 p. 190, 191).

É possível depreender do fragmento que para aquela criança a descoberta da leitura ocorreu como um temível rito de passagem. O narrador-menino, precisou fazer uso dos recursos que possuía e desvendar por si mesmo tantos outros até então desconhecidos. Só desse modo, a palavra ia ganhando espessura, sentido, amplidão. Processo lento, árduo, que contribuía para formar a personalidade talhada em pedra de menino-narrador, de adulto-narrador, de Graciliano escritor. Como ele próprio revela, aos poucos, as palavras iam se agrupando em textos que se iluminavam porque, agora, plenos de significados. Nessa perspectiva, as surras, as humilhações, o embrutecimento humano e cultural cediam lugar para a construção de uma história diversa, onde a libertação pela linguagem fazia crescer aquela existência oprimida.

Além da prima Emília, merece destaque, ao longo do processo, o leitor-tabelião Jerônimo Barreto. Como Graciliano enfrentasse, à época, grande dificuldade financeira para aquisição de novos livros, precisou recorrer àqueles profissionais que possuíssem biblioteca particular e se dispusessem a lhe emprestar os misteriosos volumes. Neste momento, crescia o leitor e, com ele, o desejo de conhecer novas histórias, outras terras, infinitos horizontes... As suas palavras são bastante ilustrativas de como esse percurso se delineava:

“(...) Eu precisava ler, não os compêndios escolares insossos, mas aventuras, justiça, amor,
vinganças, coisas até então desconhecidas (...) Queria isolar-me, como fiz quando nos mudamos em razão de consertos na casa (...) A pretexto de ver os trabalhos, escapulia-me com o romance debaixo do paletó, voltava, desviava-me dos pedreiros, serventes e pintores, ia esconder-me na sala” (7 p. 211).

Mas como conseguir novos e interessantes livros que alimentassem a sua imaginação, o desejo incipiente de formar-se leitor? Todos eram muito caros, especialmente quando enviados de Lisboa. Uma vez mais, a prima Emília abre-lhe perspectivas, indicando os prováveis possuidores de bibliotecas particulares na pequena cidade. Outro rito de passagem, mas, dessa vez, realizado em meio a amadurecidas convicções:

“Dirigi-me a casa, subi a calçada, retardei o passo, como de costume, diante das procurações e públicas-formais. E bati à porta (...) Expressei-me claro, exibi os gadanhos, assegurei que não dobraria as folhas, não as estragaria com saliva. Jerônimo abriu a estante entregou-me sorrindo O Guarani, convidou-me a voltar, franqueou-me as coleções todas” (7 p. 212, 213).

Sem dúvida, Jerônimo Barreto demonstra ser mediador fundamental entre o menino Graciliano e o ato da leitura, que ia se adensando lentamente. Leitura, nesta altura, já não significava tormento, decifração de palavras mortas, repetição de conteúdos sisudos... Depois da leitura de O Guarani, o leitor Jerônimo Barreto o convidaria a percorrer diversos caminhos: Joaquim Manuel de Macedo, Júlio Verne, Ponson du Terrail ...E, desse modo, os horizontes do pequeno leitor se universalizavam. É bem verdade que continuavam os atropelos no novo colégio, as humilhações das redações rabiscadas - consideradas pelo professor “incorrigíveis” – as declamações de capitais e rios da Europa... No entanto, narrador-protagonista havia atravessado o mais doloroso rito de passagem, conquistando por si mesmo recursos plenos em direção ao seu crescimento humano, intelectual:

“Descurei as obrigações da escola e os deveres que me impunham na loja. Algumas disciplinas, porém, me ajudavam a compreensão do romance e tolerei-as - bocejei e cochilei buscando penetrá-las. Em poucos meses, li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com impaciência (...) A única pessoa real e próxima era Jerônimo Barreto, que me fornecia a provisão de sonhos, me falava na poeira de Ajácio, no trono de S. Luís, em Robespierre, em Marat” (7 p.216).

Jerônimo Barreto não apenas lhe fornece as primeiras experiências significativas com a leitura como também lhe abre a perspectiva de um acervo universal; o menino compreende que, muitas vezes, é preciso tolerar conceitos sisudos, pois ali poderia estar contida a chave para a compreensão de romances mais densos; leitura não significa somente fonte de prazer, mas perspectiva de crescimento; o contato com Jerônimo, leitor, torna-se extremamente significativo porque lhe oferecia material para os sonhos, alimento farto para suas fantasias; a criança descobria, pela primeira vez, que podia desgarrar-se da vida dura, de pedra, pois quando voltasse a ela, conseguiria viver melhor.

CONCLUSÃO:

Em “Infância”, como em toda a obra de Graciliano Ramos, sem exceção, o homem é o centro de tudo: antropocentrismo. Não um homem triunfante, mas cotidiano, pequeno e vulnerável, solitário, frustrado, que perdeu a confiança nos semelhantes e até em si mesmo. E o estilo acompanha essas vidas secas: é poupado, áspero, sem concessões aos enfeites, à oratória, correto e clássico, mas pouco adjetivado, de frases curtas e cortantes. Um estilo descarnado, seco.





3 comentários:

Anônimo disse...

Obrigada Valéria, muito bom o conteúdo!!!

Maria disse...

Obrigada Valéria, muito bom o conteúdo!!!

CrisCampos disse...

Muito boa sua análise.