terça-feira, 1 de maio de 2012

CIRANDA DE PEDRA, 1954


Lygia Fagundes Telles dá continuidade na prosa pós-moderna brasileira, à construção de uma literatura marcada pela percepção feminina da realidade e pelo desnudamento do mundo interior dos seres humanos. E “Ciranda de Pedra”, segundo Antônio Cândido, é o marco da maturidade intelectual da autora. A obra de Lygia Fagundes Telles foi ganhando novas e inúmeras edições e levou por duas vezes a Rede Globo a transformá-lo em telenovela de repercussão nacional, em 1981 e em 2008. Lygia em “Ciranda de Pedra” trata das experiências afetivas de suas personagens e dos conflitos interiores experimentados por elas. Sentimentos de ódio, ciúme, amor, solidão, morte, loucura, crueldade, fragilidade da alma humana e sonhos são alguns dos temas que povoam o universo ficcional criado pela autora, expressos, muitas vezes, por meio do fluxo de consciência dos protagonistas através de uma narrativa dinâmica e lírica.

 TÍTULO

O título “Ciranda de Pedra” traduz uma fonte de múltiplos significados, entre eles, a forma geométrica da ciranda ou círculos: signo da harmonia, do universo, do espírito, da essência, da transcendência, da unidade de toda a existência e da totalidade, sendo assim, a simbologia mítica do tempo infinito, cíclico e universal. A imagem da “ciranda” metaforiza a harmonia, o equilíbrio e a clareza proporcionando um bem estar para seus membros; combatendo a desigualdade e a hierarquia; adequando à cooperação e a aproximação emocional entre seus integrantes, além de evocar uma transformação individual, social e espiritual. No entanto, a “ciranda” da referida obra, é formada por pedras, simbolicamente representando a sua dureza, a desintegração, o fechamento entre seus participantes e a não aceitação de novos membros. A “Ciranda de Pedra”, de Lygia Fagundes Telles, denotativamente, é uma ciranda de anões de pedra, exposta em um belo jardim, na casa de propriedade de Natércio, que remete ao conto de fadas “Branca de Neve e os Sete Anões”, dos irmãos Grimm, com a contradição de que esses anões são o oposto de hospitaleiros, amigos e receptivos a novos integrantes. Essa imagem será marcante durante toda a vida de Virgínia, pois reflete o seu “eu interior”, a rejeição, a inferioridade e o sentimento de exclusão de não fazer parte desta “ciranda”.  

CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL

 “Mas esse é o mundo que nós herdamos. Temos que ser testemunhas deste tempo e desta sociedade. O meu trabalho é engajado. Eu sou bastante lúcida diante da realidade brasileira, dos desequilíbrios sociais, da miséria, a educação, a saúde. Eu não posso fazer nada. Só sei escrever estes livros que não serão lidos pelos analfabetos, nem pelos doentes. No entanto, eu continuo a escrever” (TELLES 2005: 03). “Cirande de Pedra”, publicado em 1954, retrata a burguesia urbana em ascensão no Brasil num momento de intenso dinamismo da cidade, que adquiria os contornos definitivos de metrópole. Nesta esteira surge “Ciranda de Pedra”, obra de cunho psicológico (aceitação e enfrentamento dos problemas do dia a dia, numa ambientação familiar dilacerada) e social, identificada com o progresso e comprometida com a construção do poder do dinheiro e as classes menos favorecidas.

  FOCO NARRATIVO

Segundo Sérgio Milliet, “a segurança na composição, a linguagem, a força sugestiva da narração e a arte com que dispõe os cenários fazem de “Ciranda de Pedra” um romance digno de figurar em plano de relevo em nossa moderna ficção.” Com foco narrativo em terceira pessoa, a autora “encaixa” com perícia o pensamento da personagem Virgínia, no interior da narração, através de uma linguagem figurada. A sequência destes pensamentos, muitas vezes desordenados, é traduzida através do fluxo de consciência ou do monólogo interior, técnica semelhante ao discurso indireto livre, que refletem os processos psicológicos pelos quais a personagem vivencia. Tais recursos dão independência ao desenvolvimento da personagem, dando-nos acesso a seus sonhos, sensações e devaneios sem que o narrador seja intermediário.
  
LINGUAGEM

A linguagem de “Ciranda de pedra” é banhada de imagens e palavras que nos remetem ao universo simbólico e alucinatório. Logo no início da narrativa, é apresentado um mundo animal paralelo ao mundo humano, que interage com o processo de crescimento sentimental da protagonista. Ao identificar Virgínia ao animal, no caso, a uma formiga, o discurso romanesco a transporta a outro lugar, reflexivo no caso, e diferente/semelhante sistema de circulação. Em crise de afeto, a menina sobe as escadas de casa e se tranca no quarto. Vê uma formiga que também sobe, então pelo batente da porta. Ao descobrir e acompanhar o andar arriscado da nova companheira, ela tenta salvar a ela - e a si da fresta perigosa. Da morte que o inseto não pressente. A vida descuidada da formiga perde o sentido que lhe é próprio e passa a se referir ao instante tenso e dolorido por que passa Virgínia. Esta enxerga as próprias unhas, foram roídas até a carne. Compara suas mãos às delicadas da irmã. A inveja apressa o desejo de morte. Recusa o duplo que a desvela. Esmaga a formiga. Morta, a formiga ressuscita em sua imaginação para instaurar um primeiro abalo no ser na casa onde se pressente a morte da mãe. "Pensava em Conrado a lhe explicar que os bichos são como gente, tem alma de gente e que matar um bichinho era o mesmo que matar uma pessoa." A formiga é o duplo de Virgínia, diferente dela porque não pressente a morte. O amálgama estilístico criado por Lygia vai superar, no entanto, a separação e o distanciamento entre o mundo humano e o animal, enlaçando-os. Assegurada a interação sentimental entre os dois mundos, o assassinato num plano repercute no outro para despertar, no presente caso um efeito catequizador. "Se você for má" - é ainda Conrado quem fala - "e começar a matar só por gosto, na outra vida você será bicho também, mas um destes bichos horríveis, cobra, rato, aranha..." É preferível virar borboleta - um inseto do bem. Acrescenta o texto: "Mas quem ia ser borboleta decerto era Otávia, que era linda." Pela inveja da irmã e o ressentimento, Virgínia se distancia da fresta perigosa. Reafirma a vida na morte. Estas imagens vão delineando a narrativa do romance, inscrevendo a história de Virgínia dentro do universo simbólico, como por exemplo: a morte de Laura e de Daniel: o velório que Virgínia imagina para si; a morte da formiguinha na primeira cena da narrativa; a casa de Frau Herta descrita como um caixão ou como um barco que vai levá-la dali para outro mundo; a imagem da irmã Otávia sendo decepada; as freiras do internato como mulheres neutras e mortas; a morte como saída definitiva, um mergulhar na escuridão que traz alívio e descanso. Há também as descrições dos cenários externos que evocam um imaginário de terror: lufadas de vento, relâmpagos, tempestades, tudo parece mostrar a Natureza em concomitância com as revoluções internas. As casas também evocam o imaginário fúnebre: as descrições da casa de Natércio; de seu escritório; do escritório de Daniel e da casa de Frau Herta focam a escuridão, o obscurantismo, exaltando o sublime. Além, da comparação de Virgínia a uma bruxa; Laura com medo da luz entrando no quarto nos remete ao vampiro; Afonso com sua expressão de fauno e Letícia parecendo um diabo. Virgínia se lembra de ter visto uma mariposa imprevidente, enredada numa teia de aranha. O primeiro impulso é o de salvar a ela - e a seu duplo, a mãe: "Fuja depressa, fuja!" Mas não intervém. "Mas a mariposa se deixava envolver, sem nenhuma resistência, no viscoso tecido cinzento que a aranha ia acumulando em torno das suas asas. Assim via a mãe, enleada em fios que lhe tapavam os ouvidos, os olhos, a boca." É ainda por efeito de eco que entra na narrativa o afeto sentido pelo par masculino, antes Conrado e agora o amante: "Apenas uma pessoa conseguia penetrar no emaranhado: Daniel." No universo delirante da filha, a morte da mãe vai ganhar corpo na comparação com outro inseto, o besouro, comparação que reaparecerá por todo o restante do romance. "E besouro que cai de costas não se levanta nunca mais." Coube a Daniel libertar a experiência da morte da amante/mãe de seus cerceamentos terrenos. Ele a libera no elogio de um devir livre e eterno para o ser humano. Entre o assassinato da formiga e a mariposa que se enreda sem resistência na teia de aranha, Virgínia segue sua vida convivendo com a imagem inexorável do besouro. A menina ricocheteia na morte da mãe e no suicídio do pai até o momento em que passa a viver sob o controle imperioso do distante Natércio, de Frau Herta e das irmãs por parte de mãe. Fala Bruna, sensata em suas palavras quase maternais: "Já está em tempo de você ficar sabendo certas coisas, não tem cabimento falar a vida inteira como uma criança, preste atenção..." A inclusão acarreta a perda da inocência. 

PERSONAGENS

Todas as personagens estão envoltas em uma imutabilidade de comportamentos, a qual não se altera ao longo do romance, voltadas unicamente à satisfação de suas próprias pretensões. Apesar de todas as frustrações a que são submetidos, não há neste sofrimento nenhuma iluminação. Essas personagens, embora convivendo proximamente a todos os outros, estão envoltas no princípio de individuação, e só os seus próprios sofrimentos importam. Por exemplo, de um lado, tem-se Daniel que vive corroído pela culpa de ter arrastado Laura a uma vida de privações e loucura; Luciana ama Daniel e será para sempre escrava da amargura de não ter confessado a ele seu amor e Virgínia que acalenta a esperança de uma vida mais feliz e confortável na casa de seu suposto pai. Já na casa de Natércio, o que se percebe é um profundo tédio que envolve a todos, que já se insinua na primeira parte do romance, e é demonstrado com mais clareza em sua segunda parte, com o retorno de Virgínia do internato: Afonso com seus projetos de arquitetura nunca executados e seus poemas jamais publicados; Bruna com seus casos extraconjugais; Otávia com seus quadros nunca expostos, todos buscam incessantemente a fuga do tédio, mas encontrando sempre mais um pouco dele ao final de suas tentativas. Todas as personagens apontam a felicidade como um acontecimento futuro, nunca no presente, que permanece pleno apenas de tédio: “Otávia lançou um olhar frio. – Eu ia expor este ano, mas a verdade é que isso de expor não me entusiasma. Um dia qualquer, se calhar... – Ah! Os nossos planos – exclamou Afonso. Parecia um ator gracejando com o próprio papel. Aproximou-se de Conrado: - Este ganhou do pai uma bolsa de estudos para ser santo, pois será santo. São Conrado! Otávia nasceu sob o signo do pincel. Letícia sob o signo da raquete, não se deitarão muitos sóis e ela será uma tenista famosa enquanto que Otávia, se calhar, vai ser um estouro na pintura. Bruna descobriu que é melhor ter anjos do que sonhar com eles, pois vai ter milhares de anjinhos, no seu ventre reside a raiz do mundo! – Sorveu um gole de uísque. – Eu construirei minha casa, a mais extraordinária que já existiu (TELLES 1996: 118).” É importante ressaltar que em “Ciranda de pedra” o amor e o sexo assumem grande importância na relação entre as personagens, principalmente para Virgínia, que oferece sexo como moeda de manipulação das outras personagens.

ENREDO

O livro, que basicamente conta a história de Virgínia, estabelece, em duas etapas, o trajeto cheio de conflitos da vida da menina, desde a infância até os vinte anos de idade. O romance começa com uma cena na qual são apresentados o isolamento e a angústia de Virgínia. Ela está trancada no quarto roendo as unhas sentindo-se feia e ruim. Quer bater em seu próprio reflexo no espelho, morde sua bochecha até sentir gosto de sangue, quer morrer. Em vários momentos no romance, outras personagens apontam que Virgínia não se parece com ninguém, o que deixa explícito para o leitor e para a própria Virgínia a sua não-uniformidade com o resto dos membros da família. “- Luciana, eu vou morrer, ninguém gosta de mim, ninguém! Diga que gosta de mim pelo amor de Deus, diga que gosta de mim! - Não chore assim alto. Quer que sua mãe ouça? Virgínia tapou a boca com as mãos. Soluços fundos sacudiam-lhe os ombros. - Diga, Luciana... - Você está se despenteando. - Quero ficar despenteada, tenho ódio deles! – exclamou puxando os cabelos. Estendeu-se no chão. – Queria morrer... - Você vai sujar o vestido e não tem outro.” Virgínia tem uma infância solitária: é a única das três filhas, a caçula, de um casal separado (Dr. Natércio e Laura) que é obrigada a dividir-se entre dois ambientes familiares que contrastam radicalmente: mora com a mãe, mas visita regularmente o pai. Dividida entre as duas casas, Virgínia não é feliz em nenhuma delas. A partir da ótica dessa personagem, desnudam-se os dramas ocultos e a trajetória feminina em busca de si mesma. Virgínia vive com sua mãe Laura, que está doente: seus momentos de lucidez são raros e seu estado físico e mental é bastante precário. Após a separação, Laura passou a viver com Daniel, seu antigo médico neurologista, que a trata com desvelo e carinho. Pertence ainda ao mesmo círculo a empregada Luciana que, apaixonada por Daniel, é responsável pelo dia a dia doméstico e tem grande influência na criação e educação de Virgínia. “- Ninguém gosta de mim, ninguém. Minhas irmãs não se importam comigo e minha mãe só gosta do tio Daniel...Meu pai é que gosta de mim, só ele me quer bem, ah, meu paizinho querido, me leva embora desta casa, eu quero ir com você!... Os soluços foram-se espaçando até cessarem num cansaço. Estendida de bruços, com a fronte nas mãos, ela cansou de chorar e agora olhava a pequenina poça de lágrimas que se formara no ladrinho. Apertou os olhos para que as duas últimas lágrimas caíssem de uma vez. Quando as sentiu correr, abriu os olhos novamente. “Tem jeito de elefante”, admitiu ao vê-las aderir às outras formando uma tromba. Corrigiu a tromba com o dedo. “Assim é um passarinho voando. Agora é uma árvore...” Enjoou do brinquedo e olhou em redor. Estava sozinha. Ergueu-se, passou a toalha no rosto, alisou raivosamente os cabelos, cachos!..., e na ponta dos pés desceu as escadas. Ao passar pela porta do quarto azul, susteve a respiração.” A situação econômica do casal é decadente, já que todos os recursos financeiros eram voltados ao tratamento de saúde de Laura, limitando as realizações de aquisições materiais, como por exemplo, trocar a mobília da casa, vestir roupas reformadas da mãe, ou das irmãs e ter em seu quarto as sobras do quarto reformado de Otávia. Além do clima de tristeza e tensão. “A mãe dormiu”. Era tão bom quando ela dormia! Os loucos deviam mesmo dormir o tempo todo, de dia e de noite, como as bonecas assim, sempre dormindo, as pestanas tão compridas... Dirigiu-se à cozinha, Luciana preparava o chá. Apanhou uma torrada, sentou-se no banco e pôs-se a roê-la. - Bruna disse que se minha mãe não tivesse se separado do meu pai, não estava agora assim doente. Ele acha que é castigo de Deus. - Ora, você sabe muito bem que isso começou quando ela ainda morava com seu pai. E então? Se é que existe castigo, eu sei quem é que está sendo castigado. Virgínia ficou pensativa: era como se Luciana tivesse ouvido Bruna falar. Nunca mais Daniel teria uma tarde assim, pensou, voltando o olhar para a gravura colorida da folhinha. Ali estavam dois namorados sentados debaixo de uma árvore, num piquenique com morangos e flores transbordando de um cestinho. Ela estava radiosa no seu vestido esvoaçante, os cabelos louros soltos até os ombros, o chapelão de palha atirado na relva. O moço vestia um suéter branco, calças de flanela também branca e estava inclinado sobre a moça, como se lhe aspirasse o perfume. Era um pouco parecido com Conrado assim com seu ar de príncipe. “Mas e essa burra? Com quem ela se parece?” – perguntou a si mesma franzinho os lábios. Lambeu lentamente os dedos enlambuzados de manteiga. Um dia ainda esfregaria gordura naqueles cabelos. Podia ainda furar-lhe os olhos. E então, adeus piquenique! O namorado fugiria aos pulos. Riu-se baixinho. Aos pulos. E de tudo, só restaria a árvore, a relva e o cestinho de morangos. Ficou séria. “Castigo, não é?” Os piqueniques de Daniel teriam que ser todos dentro do quarto, com as venezianas fechadas. Nem sol, nem árvores, nem relva. E ele não encontraria nenhuma flor para oferecer, só raízes que a doente via brotar entre os dedos.” Contrastando com essa situação, Virgínia visita semanalmente a mansão em que Dr. Natércio, advogado renomado, mora com suas duas outras filhas: Bruna e Otávia, que desfrutam de conforto e da companhia dos vizinhos, amigos da casa: Letícia, Afonso e Conrado. “Que casa! Você precisa ver essa nova casa com um jeito assim bem antigo, lá no fundo de um gramado que não acaba mais. Tem um caramanchão cheio de plantas e perto do caramanchão uma fonte no meio de uma roda de cinco anõezinhos de pedra, você precisa ver que lindo os anõezinhos de mãos dadas! É bom beber aquela água, tão geladinha! [...] Bruna e Otávia parecem duas princesas.” (TELLES, 1998, p. 19) Virgínia deslumbra-se com a aparente vida maravilhosa que suas irmãs mais velhas têm. Ela sonha em ter a mesma vida de princesa também, e o único jeito desse sonho se realizar é Laura se curar da loucura e reatar sua relação com Natércio. Em outros momentos, pensa juntar-se ao pai, em um lar onde imagina perfeito e que seria feliz, mas, em seguida, sente culpa por desejar abandonar a mãe, num momento tão difícil. “Viu-se no meio do grupo. Falava desembaraçadamente e todos ouviam, deslumbrados. Conrado podia tocar piano, mas desta vez não era Otávia quem cantava. “Canta mais, Virgínia!”, pediam. E Frau Herta concordaria: “Uma artista!” O sábado na chácara. Tinha o mesmo chapelão de palha da moça da folhinha e o mesmo vestido, a longa saia aberta sobre a relva florida. Conrado chegaria a galope, trazendo triunfante a coroa de heras... Fechou os olhos. Agora ele subia no galho mais alto da árvore, Vou voar, Virgínia, vou voar!” (TELLES, 1998, p. 50) No entanto, os sentimentos de rejeição, indiferença e solidão eram os mesmos, tanto na casa de Daniel, que vive exclusivamente à Laura e tratando de sua doença; como nas visitas a Natércio, homem frio, calado, sisudo, que nunca lhe fez um carinho. A mãe é incomunicável. Ouve, mas não entende; recorda, mas não lembra. Em meio aos devaneios de Laura, Virgínia sente-se perdida entre fato e ficção: não sabe ao certo o que aconteceu entre ela, Natércio e Daniel. Vê a mãe como uma mariposa presa, e rebela-se contra esta situação: nega que a mãe esteja pior, mente dizendo que ela melhorou. Quando o estado de saúde de Laura se agrava ainda mais, Daniel faz ver a Virgínia a conveniência de ela ir morar na casa de Natércio, em companhia de suas irmãs. Virgínia muda-se então para lá e se dá conta de que aquele convívio familiar com o qual ela sonhava, era uma ilusão. O ambiente, nesse segundo círculo, é hostil a Virgínia: Bruna critica a mãe por ter-se separado do pai; Otávia a ignora e o pai repele suas tentativas de aproximação. “Nossa mãe está pagando por um erro terrível, será que você não percebe? Abandonou o marido, as filhas, abandonou tudo e foi viver com outro homem. Esqueceu-se dos seus deveres, enxovalhou a honra da família, caiu em pecado mortal!” A nova família de Virgínia é um círculo fechado, onde não há lugar para a menina, que vê sua situação de rejeitada simbolizada na ciranda de cinco anõezinhos (Bruna, Otávia, Afonso, Letícia e Conrado, este seu grande amor desde a infância) de pedra que enfeita os jardins da casa. Duas semanas depois de ter-se mudado para a casa paterna, Virgínia fica sabendo que sua mãe morrera. Luciana, ao visitá-la pela última vez, revela-lhe que Daniel era seu verdadeiro pai e que ele se suicidara após a morte de Laura. Virgínia declara que odeia Daniel; depois de seu suicídio, no entanto, parece sentir certa compaixão, ou até mesmo pena, por ter maltratado seu pai biológico verdadeiro por tanto tempo, apesar das tentativas afetuosas de conquistar a simpatia da filha. Sem o saber até então, ela era o agente da separação na família e do distanciamento na discórdia. “Levei a inquietação para a casa onde pensei ser bem recebida, lá fui atormentar Natércio com minha presença. Ele queria esquecer e eu não deixava, eu com os olhos do outro, com o andar do outro, lembrando a traição, ressuscitando tudo.” Mais sozinha do que nunca, Virgília entende a causa da repulsa de Natércio, pede para ser internada num colégio de freiras, com que o Natércio concorda prontamente. A força dominante na casa de Natércio é a Bíblia Sagrada e as leis que excluem e punem a mulher adúltera (Laura) e o fruto de seu ventre (Virgínia). A segunda parte do romance começa quando Virgínia, adulta, intelectual e formada em línguas retorna a casa de Natércio. Antes de Virgínia sair do internato para retornar à casa de Natércio, ela rasga várias cartas como símbolo da superação de várias lembranças dolorosas. Afirma não ter memória sobre vários eventos. Mas no contato com o pai, as irmãs, e os amigos, Virgínia percebe que o passado não havia sido realmente esquecido: “Mortos e vivos, voltaram todos (...) estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral” (Telles, 1998: 90, 100-101). O terror do passado é tal, que um dos motivos que a leva a se entregar a Rogério é que ele não trazia nenhuma lembrança, pois não fazia parte da ciranda da juventude. E talvez o maior motivo para tantas fugas de Virgínia: o internato, as saídas repentinas, a vontade de morrer, a viagem pelo mundo, seja exatamente a dificuldade de lidar com os fantasmas do passado, com os sentimentos que podem reaparecer. A fim de impressionar a todos que a rejeitaram, mostra-se indiferente a eles e esnoba suas conquistas do internato. Apesar do tempo transcorrido e de algumas transformações, persiste a mesma ciranda fechada: Afonso casara-se com Bruna, mas tem um caso extraconjugal, a despeito de ter no passado condenado a mãe por seu adultério; Otávia, alienada, dedicava-se à pintura e aos amantes eventuais; Natércio, envelhecido e depressivo, já não trabalhava, Frau Herta, a empregada, estava doente, abandonada em um cômodo sujo e pobre de um bairro afastado; Letícia transformara-se numa esportista (tenista bem sucedida), interessada apenas em mulheres (homossexualidade) e Conrado, o grande amor da infância de Virgínia, vivia isolado e continuava tratando-a com frieza. O regresso de Virgínia e seu envolvimento com o antigo círculo familiar reabrem-lhe antigas feridas e levam-na inclusive a pensar em suicídio. Virgínia, então, inicia uma teia de vingança contra todos que a excluíram, passa agora ser o centro da ciranda e enfraquece a união do grupo. Ela se dá conta de que na verdade, escondia-se por trás daquela hostilidade e rejeição: ela era desejada por todos ao mesmo tempo e, por isso, temida. Neste momento, são desvendados os segredos mais íntimos de cada participante, quebrando a solidez da antiga ciranda. Ela flerta com Afonso e depois o rejeita; seduz o amante de Bruna, que se tornou uma dona de casa contida e dorme com Letícia na noite de natal, colocando todo o grupo em conflito. Mas a vingança também a atinge. Abalada, a personagem sofre intensamente por suspeitar que Otávia e Conrado possam ter um caso. Dias depois, Otávia revela a Virgínia que Conrado nunca teve mulher alguma, pois é impotente. Através do desejo, as personagens da ciranda vão criando novos motivos para se alfinetarem. A cena final do romance apresenta-nos uma Virgínia um pouco mais amadurecida que, juntamente com a ideia de morte, abandona a tentativa de forçar sua entrada na ciranda de pedra, preparando-se para uma longa viagem, sem destino e sem data de retorno. Ao visitar Conrado para se despedir, Virgínia vive uma tarde de amor platônico: Conrado declara que a ama desde a infância e ela finalmente, ouve as palavras que desejava receber, mas que agora já não têm o mesmo valor. Tudo havia ficado no passado. Mas, como uma rocha em suas lembranças estaria gravada: “um dia, um besouro caiu de costas. E besouro que cai de costas não se levanta nunca mais”. O romance termina de forma vaga e melancólica, dando a ideia de incerteza sobre o destino das personagens, que parecem não se mover em sua ciranda de pedra, eternamente ligados em sua imutabilidade doentia. Ao final de “Ciranda de Pedra”, Virgínia, "que sentia um gozo obscuro em ir passando de mão em mão", descobre que não pode se liberar das sucessivas faces modeladas pelas experiências sentimentais. Tampouco pode apagá-las com "borracha", isso "porque tinha qualquer coisa de comum que permanecia no fundo de cada uma delas, qualquer coisa que era como uma misteriosa unidade ligando umas às outras, até chegar à face atual. Mil vezes já tentara romper o fio, mas embora os elos fossem diferentes, havia neles uma relação indestrutível". Fios e elos, relações, compõem a personagem. "Mais importante do que nascer é ressuscitar." Nada do que é humano começa pelo zero, tudo recomeça. Como se lê em outra passagem do romance: "O essencial era desvencilhar-se da face antiga com a naturalidade da lagarta na metamorfose."
  
CONCLUSÃO
 Há diversos eventos durante o romance que mostram Virgínia em total impasse diante da família, principalmente a comparação entre Virgínia e suas irmãs que sempre a deixam em desvantagem. O papel de Otávia como seu contraponto, por exemplo: a irmã é sempre retratada através de suas qualidades físicas: os cachos dourados, as mãos alvas, a elegância. Virgínia chega declarar que odeia as duas irmãs, suas meias limpas e perfeitamente ajustadas, seus sorrisos, seu conforto. No começo da narrativa, Luciana a chama de cobra; mais tarde, compara-a com ratos que fogem; Natércio também a compara a um bicho, pelos cantos roendo as unhas, descabelada. Ao mesmo tempo, a esquisita Virgínia parece bela aos olhos de Luela, companheira de quarto no internato; é objeto de desejo para Rogério e Letícia. Há outros sinais que também nos remetem ao conceito da abjeção, como por exemplo, a revolta de Virgínia: a agressividade com que brinca com a vizinha Margarida, o estrago que faz na foto do casal feliz, a vontade de machucar Luciana, a raiva que sente de Natércio, a vontade de ferir Afonso no carro, de ver Bruna sofrer, são cenas que mostram a dificuldade de Virgínia em lidar com sua exclusão. Ao mesmo tempo, ela anda na ponta dos pés como se não quisesse ser vista, ela fala frases para si, não externa várias ideias, ela se comunica com insetos, frágeis seres incapazes de julgar. Ela tem momentos de ataque e de defesa, vive intensamente toda a ambiguidade da abjeção. No campo dos afetos e por efeito de eco, é introduzido na narrativa o jovem Conrado. Na verdade, ele é o alvo do olhar amoroso de Virgínia, e o será até as páginas derradeiras do romance, quando se revelará "um São Francisco de Assis burguês".

Um comentário:

Anônimo disse...

Este romance é maravilhoso!!! :)