domingo, 22 de abril de 2012

O ALIENISTA, PAPÉIS AVULSOS, MACHADO DE ASSIS



I – CONTO, CRÔNICA OU NOVELA:

“O Alienista” é o primeiro conto de “Papéis Avulsos”, 1882, livro que abre a fase madura “realista” do conto machadiano.
A classificação quanto ao gênero ficcional não é pacífica e o descompromisso de Machado com a rigidez dos gêneros estéticos, seu apego à livre invenção, dificultam a caracterização rigorosa de muitas de suas obras nos estreitos limites das categorias preestabelecidas.
“O Alienista” poderá parecer ao leitor muito extenso para ser considerado um conto, além de estar subdividido em capítulos, o que não é muito peculiar ao conto.
A estas duas objeções pode-se responder que o que determina a maior ou menor extensão de uma narrativa é, quase sempre, um elemento interno: a unidade ou a multiplicidade de células dramáticas ou conflitos. O romance e a novela desenvolvem várias ações, vários conflitos, o conto está centrado na ação única. Sob esse aspecto, apesar do grande número de personagens e situações, “O Alienista” aproxima-se mais da estrutura do conto, pois a ação é unitária, um espaço restrito O Hospício da Casa Verde e a Vila de Itaguaí. Quanto à subdivisão em capítulos (em princípio, indicativa da novela curta, ou do romance) é procedimento comum nos contos machadianos, desde os “Contos Fluminenses” e as “Histórias da Meia-Noite”. Esse procedimento era ditado pelo fato de que os contos de Machado eram, antes de editados em livros, publicados em capítulos, nos jornais e revistas do Rio de Janeiro.
Mas Machado relativiza tudo, relativiza também os gêneros literários. Qualquer tentativa de classificação rígida esbarra na liberdade com que Machado tratou os gêneros ficcionais. Antônio Cândido classifica “O Alienista” como conto. Alfredo Bosi fala em novela curta, com ar divertido de uma “comédie d’erreur” (comédia de enganos). José Guilherme Merquior classifica a história de Simão Bacamarte como “conto filosófico”, como “uma fábula com ar de novela histórica”. Por aí se vê a originalidade de Machado de Assis e a liberdade com que militou no campo aberto da livre invenção.
O tema da loucura faz Machado basear-se em teorias científicas de seu tempo. Assim a crença cega, na verdade dos modelos científicos e a adesão incondicional à verdade das estatísticas são dois outros alvos da ironia machadiana, na história de Simão Bacamarte. O materialismo da época da Segunda Revolução Industrial, o entusiasmo provocado pelos avanços científicos e os tecnológicos foram á estufa de inúmeras teorias que, opondo-se à metafísica e à realidade, viam na matéria, naquilo que se pudesse qualificar e quantificar cientificamente, o único alvo de interesse do cientista, do filósofo e do artista. O Positivismo, de Comte; o Evolucionismo, de Darwin e de Spencer; o Determinismo, de Taine; o Experimentalismo, de Claude Bernard; o Materialismo Psicológico, de Wundt; a Feenologia, de Lombroso; o Criticismo anticlerical, de Feuerback e Straus; a Dialética, de Hegel e o Materialismo Histórico, de Marx e Engels são algumas das correntes do pensamento que refletiram e, em alguns casos, superaram a ideologia burguesa, fortalecida no poder, em função do triunfo definitivo do capital industrial, da implementação do capitalismo avançado e da sua expansão as áreas periféricas da América, da Ásia e da África.
O ímpeto revolucionário e contestatório, a exaltação da rebeldia e da liberdade individual, que tinham as tônicas do movimento romântico, são substituídos por novas palavras de ordem: a CIÊNCIA, o PROGRESSO e a RAZÃO. Agora, assentada no poder, a burguesia pretende estabilizar suas conquistas, maximizar a produção industrial. Para isso é fundamental a manutenção da ORDEM. O lema ORDEM E PROGRESSO, impresso em nossa bandeira pelos primeiros republicanos, foi extraído de Augusto Comte e sintetiza a proposta positivista.
É o apego extremado aos seus modelos científicos e à ordem instituída que leva Simão Bacamarte à irrisão. É a noção de que a anormalidade é uma questão estatística que leva o médico de Itaguaí a tomar por verdadeiras, em momentos sucessivos, duas teorias diametralmente opostas.


II - FOCO NARRATIVO:

A narrativa é em 3º pessoa.  Dois narradores se alternam no desenvolvimento da narrativa: o narrador-cronista e o narrador onisciente. Para que se manifeste o narrador-cronista é preciso que se respeite a ideia documental, revestida de uma credibilidade incontestável com relação aos fatos do passado. Para que se manifeste o narrador-onisciente, dentro dos propósitos realistas machadianos, é preciso que a onisciência seja integral, analisando o comportamento humano e descortinando a “alma” das personagens.

III - TEMPO E ESPAÇO:

Envolvido por um tom documental de crônica, a história se passa no passado, recorrendo o uso do flash back.
“As crônicas da vila de Itaguaí dizem que, em tempos remotos, vivera ali um certo médico...”

Há certa intemporalidade no tema em discussão: a tênue divisão entre razão e loucura, porém podem remontar à primeira metade do século XVII. É importante ressaltar o caráter alegórico, que a narrativa assume.
Quanto ao espaço, á ação se passa em Itaguaí, uma cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro, comarca de Iguaçu. Entretanto, pode-se deduzir que Itaguaí representa um “microcosmo” de qualquer região ou mesmo país.

IV - LINGUAGEM:

A elegância; a ironia sutil; o humor; certa contenção ao escrever; as rápidas pinceladas na composição da personagem; as frases curtas; a linguagem correta; o clima de ambiguidade acentuada em tudo o que escreve; são alguns traços característicos da linguagem machadiana nesse conto e em todas as suas obras.

V - CARACTERÍSTICAS:

Machado de Assis é autor de quase duzentos contos, o que o situa, pela qualidade do que escreveu, entre os melhores contistas mundiais. A construção de um conto é, com certeza, muito mais difícil do que a construção de um romance, porque o conto:
- é uma narrativa curta e deve prender a atenção do leitor;
- deve ter um só conflito e este tem de ser muito interessante;
- deve conduzir o leitor para um único efeito, provocando-lhe tensão na leitura;
- deve manter um perfeito equilíbrio narrativo;
- trabalha com poucas personagens, em tempo exíguo, em pequenos espaços.

Nesse sentido, Machado de Assis foi um contista extraordinário, pois soube manejar as regras do conto como ninguém.
Em “O Alienista”, Machado de Assis revela uma visão satírica, irônica e amarga que enfatiza aspectos negativos denunciadores da frustração humana. O autor utiliza o humor para desmascarar a hipocrisia humana, provocada por um sistema social regido pela falta de valores. Pode-se notar uma semelhança entre o autor e o protagonista, Simão Bacamarte, pois, como alienista, está preocupado em fazer uma análise psicossocial dos habitantes da cidade de Itaguaí e região. No entanto, por trás dos atos aparentemente dedicados à ciência, a verdadeira intenção de Bacamarte é atingir status e fama através das anomalias patológicas. Machado de Assis, assim critica o cientificismo da época.
A crítica sócio-política desse conto é alegorizada pela personagem Porfírio que busca benefícios pessoais através da política e pelo povo submisso de Itaguaí, facilmente manipulados.

O apoio oficial dos governantes de Itaguaí, na criação de um hospício, leva alguns críticos defenderem que o referido conto, trata-se de uma crítica mais política que essencialmente psicológica.

VI - PERSONAGENS:  

Dr. Simão Bacamarte - é o protagonista da estória. A ciência era o seu universo – o seu "emprego único", como diz. "Homem de Ciência, e só de Ciência, nada o consternava fora da Ciência" (p. 189). Representa bem a caricatura do despotismo cientificista do século XIX (como está no próprio sobrenome). Acabou se tornando vítima de suas próprias idéias, recolhendo-se à Casa Verde por se considerar o único cérebro bem organizado de Itaguaí. 

D. Evarista - é a eleita do Dr. Bacamarte para consorte de suas glórias científicas. Embora não fosse "bonita nem simpática", o doutor a escolheu para esposa porque ela "reuni condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem", estando apta para dar-lhes filhos robustos, são e inteligentes". Chegou a ser recolhida à Casa Verde, certa vez, por manifestar algum desequilíbrio mental. 

Crispim Soares - era o boticário. Muito amigo do Dr. Bacamarte e grande admirador de sua obra humanitária. Também passou pela Casa Verde, pois não soube "ser prudente em tempos de revolução", aderindo, momentaneamente, à causa do barbeiro. 

Padre Lopes - era o vigário local. Homem de muitas virtudes, foi recolhido também à Casa Verde por isso mesmo. Depois foi posto em liberdade porque sua reverendíssima se saiu muito bem numa tradução de grego e hebraico, embora não soubesse nada dessas línguas. Foi considerado normal apesar da aureola de santo. 

Porfírio, o barbeiro - sua participação no conto é das mais importantes, posto que representa a caricatura política na satírica machadiana. Representa bem a ambição de poder, quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. Foi preso na Casa Verde duas vezes; primeiro, por Ter liderado a rebelião; segundo, porque se negou a participar de uma Segunda revolução: "preso por Ter cão, preso por não Ter cão" (pág 229). 

Outros figurantes aparecem no conto. Cada um representando anomalias e possíveis virtudes do ser humano. Há loucos de todos os tipos no livro. Daí a presença de tanta gente...

VII - ESTRUTURA:

“O Alienista” foi publicado inicialmente em “A Estação”, no Rio de Janeiro, no período de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. A primeira edição em livro da obra é de 1882, em “Papéis Avulsos”.
Dividido em treze capítulos, os títulos de cada capítulo, ora são resumitivos de seus conteúdos e transparentes ora são apenas sugestivos, aguçando a curiosidade do leitor.

CAPÍTULO I – “De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates” (casa de loucos, manicômio)


“As crônicas de vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. (...)
- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único, Itaguaí é o meu universo.”

Assim, é apresentado Simão Bacamarte, que depois de títulos e feitos conquistados na Europa, estabeleceu-se em Itaguaí. O protagonista foi aceito pelos governantes locais para dedicar-se totalmente ao estudo e a prática da medicina. Sua especificação era pesquisar os limites entre razão e loucura.

 “A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua.”

Dr. Bacamarte, perante esse fato, encaminhou à câmara a licença de criar um lugar onde pudesse colocar todos os loucos, enfim, um hospício. Essa ideia de “meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum” trouxe-lhe muitas discórdias e incompreensões. No entanto, Dr. Bacamarte defendeu-a com tanta “eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doudos pobres.”
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates, denominada por Casa Verde por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí.    

CAPÍTULO II – “Torrente de loucos”

Apenas quatro meses após sua fundação, a Casa Verde está lotada. Aos primeiros cubículos foram anexados mais trinta e sete.
Os primeiros internados no hospício foram casos notórios e aceitos pela sociedade local.
O Pe. Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doudos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos.
Dr. Bacamarte dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. O médico analisava individualmente a origem, vida, comportamento, hábitos de cada paciente.

CAPÍTULO III – “Deus sabe o que faz!”

Simão não tinha mais tempo e dedicação com sua esposa e a ilustre dama, “no fim de dous meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres; caiu em profunda melancolia”.
Um dia, ao jantar, D. Evarista critica a atividade do marido, após constatar o alto rendimento que davam os loucos. Simão Bacamarte, então, despacha a esposa para o Rio de Janeiro, para não ser desviado por ela de seu trabalho. A esposa com muita resignação disse:
“– Deus sabe o que faz!”

CAPÍTULO IV – “Um teoria nova”

Simão Bacamarte comunica ao boticário Crispim Soares e ao vigário Pe. Lopes, seus amigos, haver descoberto uma experiência científica.

“Digo experiência, porque não me atrevo a as segurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra cousa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”  

O boticário aplaude, o vigário mostra reservas.

CAPÍTULO V – “O terror”

Quatro dias depois, Costa, um dos cidadãos mais queridos de Itaguaí foi recolhido à Casa Verde. O seu diagnóstico baseou-se por ter perdido sua herança em empréstimos que se tornaram fundo perdido, além de sua reação envergonhada de cobrar seus devedores, passando a ser até maltratado por estes.

 “Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão, mas acrescentava que a ciência era a ciência, que ele não podia deixar na rua um mentecapto.”

Uma pobre senhora, prima de Costa partiu em defesa de seu parente e também, foi internada na Casa Verde.

“Ninguém queria acabar de crer que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz.”

Esses atos envolvem a cidade em grande terror.
Em seguida, é internado Mateus sob a alegação de que “o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desde algum tempo.”
Albardeiro é o profissional que faz albardas, ou seja, selas para bestas de carga. É uma profissão bastante humilde, tanto que a palavra albarda também significa “humilhação”. Há, portanto, uma carga negativa associada a essa profissão. Ter isso em mente ajuda na interpretação do episódio, que se deliciava em ficar horas admirando o luxo de sua enorme casa, ainda mais quando notava que estava sendo observado.
Dias depois, em um jantar em homenagem à D. Evarista, Martim Brito, um jovem com eloquência linguística, faz um elogio pomposo à grande senhora. Logo, foi recolhido à Casa Verde.  
E muitos outros, José Borges do Couto Leme, Chico das Cambraias, o escrivão Fabrício, Gil Bernardes, o Coelho etc.
D. Evarista, a tia, a esposa do Crispim e toda a comitiva retornam do Rio de Janeiro e são recebidos de maneira festiva. As pessoas esperavam ansiosas por esse retorno, acreditando que ela poderia conter o terror constante da cidade e refreasse o ânimo de Dr. Bacamarte.
D. Evarista era extremamente apaixonada por Simão. Ele, no entanto, frio, calculista, uniu-se a ela, somente pensando em sua capacidade para reprodução e, até agradecia por ela não ser bonita, pois era um problema a menos.
A internação de pessoas que nunca tinham sido tomadas por loucas, e de outras portadoras de admiráveis virtudes, gera pânico em Itaguaí.

“A ideia de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfírio a expendesse na loja, com grandes gestos de indignação.”  


CAPÍTULO VI - “A rebelião”

O terror tomou conta da população. E, o barbeiro Porfírio, aproveitando-se dessa situação, que há muito queria fazer parte da estrutura de poder, mas sempre tinha sido rejeitado, envia um requerimento que foi negado pela Câmara de Vereadores, solicitando a captura e a deportação do alienista. Porfírio une-se a vários outros revoltosos, arma um protesto que gerou na revolta dos Canjicas (seu apelido) e decidem que destruiriam a Casa Verde, “essa Bastilha da razão humana”.
“– Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”
Há um abatimento quando se descobre que Simão havia rejeitado receber pelos doentes da Casa Verde. Configura-se a ideia de que as inúmeras reclusões não eram movidas por corruptos interesses econômicos. E pelas ruas de Itaguaí, trezentas vozes pediam a morte do Dr. Bacamarte.
D. Evarista desesperada chama o marido que estava totalmente concentrado em seus estudos.
O alienista caminhou para a varanda, sorriu e disse:

“– Meus senhores, a ciência é cousa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem rebeldes.”

Após ouvirem o alienista, tranquilo e superior, e quando os ânimos novamente se exaltaram, foram surpreendidos com a chegada de um corpo de dragões (polícia da época), com o objetivo de evitar o confronto.

CAPÍTULO VII – “O inesperado”

Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles e o barbeiro os desafiou.  Quando tudo indicava a derrota dos revoltosos, os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas e aderem aos Canjicas. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a El-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao “ilustre Porfírio”.

“O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.”

A cidade confia no Protetor e festeja sua vitória, que ia enfim, libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte.


CAPÍTULO VIII – “As angústias do boticário”

Crispim Soares, por suas ligações de amizade com o alienista, apavora-se com a vitória dos revoltosos. Finge-se doente para não visitar o amigo. Mais tarde, resolve levar a Porfírio sua adesão, no momento que pensava que Simão havia caído.


CAPÍTULO IX – “Dois lindos casos”

Porfírio esquece a Casa Verde e se dirige à Câmara dos Vereadores para destituí-la. No dia seguinte, encontra-se com o alienista, não depõe contra a Casa Verde e sim, fortalece-a, afirmando que não vai interferir em seu trabalho científico e oferece-lhe apoio em seu trabalho, pois o considera de grande utilidade para seu governo.
Configura-se aqui a sugestão que muitas revoluções não são movidas por interesses coletivos, mas manipulações que servem de pretexto a alçarem poderes individuais.
O novo chefe do governo recomenda apenas a soltura dos enfermos quase curados e dos maníacos de pouca monta para, sem muito risco, mostrarem alguma tolerância e benignidade. Na duplicidade das atitudes do barbeiro e na ingenuidade de seus seguidores (considerando o saldo de onze mortos e vinte e cinco feridos), o alienista identifica dois lindos casos de doença mental. Enquanto o alienista faz seu diagnóstico, Porfírio é aclamado.

CAPÍTULO X – “A restauração”

Em cinco dias, cinquenta dos participantes da revolta foram internados na Casa Verde.
O povo indignou-se. João Pina, outro barbeiro, dizia pelas ruas que o Porfírio estava “vendido ao ouro de Simão Bacamarte”.
Na realidade, João Pina não estava interessado em lutas sociais, mas tinha uma desavença pessoal com Porfírio.
O barbeiro preocupado em perder o seu cargo, “expediu dous decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista.”
No entanto, duas horas depois caía Porfírio e assumia o governo, João Pina. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir, só alterando os nomes. Porém, João de Pina foi rispidamente deposto pela intervenção militar ordenada pelo vice-rei. Restituiu-se o poder da Câmara e Simão Bacamarte voltou a agir livre e desenfreadamente. As prisões se multiplicam, atingindo o presidente da Câmara e, para espanto geral, até mesmo D. Evarista foi recolhida ao hospício. A prisão de sua própria esposa isentou Bacamarte de qualquer suspeita. Aos olhos do povo era prova cabal de sua abnegação, de sua fidelidade à ciência, uma vez que era voz corrente que o alienista amava devotamente D. Evarista.

CAPÍTULO XI – “O assombro de Itaguaí”
Através de ofício, em seis parágrafos, o alienista comunicou à Câmara que todos os loucos seriam soltos, pois chegara à conclusão de que sua teoria sobre as moléstias era falha, graças a uma observação estatística: quatro quintos da população de Itaguaí encontravam-se na Casa Verde. Correta haveria de ser a doutrina oposta, devendo, pois serem recolhidos aqueles que apresentassem perfeito equilíbrio. Assombrou-se a cidade, festejou-se o retorno dos que foram soltos, mas ninguém advertia na frase final do parágrafo 4º (o aviso das próximas prisões – dos equilibrados).

CAPÍTULO XII – “O final do parágrafo 4º”

Depois de terminadas as comemorações, tudo parecia voltar à normalidade: a câmara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o próprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus lugares.

“Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. [...] Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício de Simão Bacamarte, com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relação ao final do parágrafo 4º, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada, sem debate, uma postura, autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a cláusula de que a autorização era provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova teoria psicológica, podendo a câmara, antes mesmo daquele prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública.”

Entretanto, reiniciaram-se as prisões, agora com pleno consentimento da Câmara. São antecedidas de minucioso estudo: em cinco meses são recolhidos à Casa Verde apenas dezoito pessoas, que revelaram perfeito equilíbrio. Entre elas: o juiz de fora, o vigário, a mulher do boticário, um servidor da Casa Verde que se demonstrou leal e eficiente. Os desequilíbrios, as incoerências e os desvios de caráter eram agora considerados pelo médico como sinais de normalidade. Faz-se uma nova classificação dos loucos, incluindo: os modestos, os tolerantes, os verídicos, os leais, os sagazes, etc.

CAPÍTULO XIII – “Plus ultra” (“Mais além!” – latim)


A nova terapia adotada pela Casa Verde passa a ser a corrupção da virtude dominante. Em apenas cinco meses estavam, todos curados.

“Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! Era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.
[...]
- Mas deveras estariam eles doudos, e foram curados por mim, - ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?
E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra cousa existiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade: - não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta ideia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia da dúvida. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?”

O sábio, contudo, passa a duvidar da eficácia do próprio trabalho. O desequilíbrio mental induzido em seus pacientes não era mérito da terapia adotada pelo alienista, já que os pacientes já trariam em si mesmos esse desequilíbrio, em estado latente.

Dessa forma, “Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.”

Simão Bacamarte acaba por descobrir em si próprio o verdadeiro equilíbrio, o único ser perfeito em Itaguaí, o que é confirmado por seus amigos. A partir daí, fechou-se, só, na Casa Verde e entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo.  Ali morreu, dezessete meses depois, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.

“Alguns chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade




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