sexta-feira, 20 de abril de 2012

MACHADO DE ASSIS CONTISTA



“O itinerário das dúvidas em Machado de Assis está marcado por alguns contos escritos depois das “Memórias póstumas de Brás Cubas”: “O alienista”, quase novela pela sua longa sequência de sucessos, é um ponto de interrogação acerca das fronteiras entre a normalidade e a loucura e resulta em crítica interna ao cientificismo do século; “O espelho” leva a corrosão da suspeita ao âmago da pessoa, mostrando exemplarmente como o papel social e os seus símbolos materiais (uma farda de alferes, por exemplo) valem tanto para o eu quanto a clássica teoria da unidade da alma; “A sereníssima República”, alegoria política em torno dos modos de resolver ou de não resolver o problema da distância entre o poder e o povo; “O segredo do bonzo”, apologia da ilusão como único bem a que aspiram as gentes. E haveria outros contos a citar, obras-primas de desenho psicológico (“Dona Benedita”; “A causa secreta”; “Trio em lá menor”) e de sugestão de atmosferas (“Missa do galo”, “Entre santos”).”
                        Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira.     

O nível artístico do contista Machado de Assis, para muito, supera o romancista. Coube a ele dar ao conto densidade e excelência em nossa literatura, fundando esse gênero, e abrindo caminhos, pelos quais, mais tarde, iriam trilhar Mário de Andrade, Clarice Lispector, para ficarmos em apenas dois machadianos modernos. Apresentando estilo semelhante ao dos romances, seus contos focalizam, porém, temas pontuais e episódicos, inadequados à narrativa longa, não porque não tenham profundidade, mas porque lá não teriam devido destaque. Na verdade, a linguagem contística de Machado parece conferir um caráter anedótico a temas importantes, como o despontar da sexualidade ou a busca da perfeição estética. Menos questionador, o narrador dos contos machadianos age como quem conta histórias, colocando o leitor diante da surpresa de certas situações.
Ao contrário dos outros escritores, o contista Machado de Assis procura, nas palavras do crítico Mário Matos, “analisar os sentimentos sutis dos personagens, decompor as almas. Os outros fazem os personagens atuar. Machado fá-los pensar. (...) Conduzido pelo dom, pela vocação de contador de histórias, sabe encarar a vida diretamente e dar à narrativa a feição de oralidade, de modo a transmitir ao leitor a sensação de que está, não lendo, mas ouvindo contar. É importante isto. Em verdade, uma história não se deve ler, deve-se escutar. Aí está a graça da especialidade. Machado, no conto, não descreve, mostra, fala. Quando os personagens têm que se caracterizar, conversam uns com os outros, e eis por que vemos, continuamente, muito diálogos nos contos. Diálogos de significativa naturalidade”.
Distinguem-se duas fases: a primeira, dita “Romântica”, com os livros: “Contos Fluminenses” e “Histórias de Meia-Noite”. A segunda, Realista, inclui os melhores contos: “Papéis Avulsos”, “Histórias sem Datas”, “Várias Histórias” e “Relíquias da Casa Velha”.
Na fase romântica, a angústia, oculta ou patente das personagens é determinada pela necessidade de obtenção de “status”, quer pela aquisição de patrimônio, quer pela consecução de um matrimônio com parceiro mais abonado. “Segredo de Augusta” e “Miss Dollar” antecipam a temática de “A mão e a luva”, o dinheiro como móvel do casamento. O tema da traição (suposta ou real), antes de aparecer em “Dom Casmurro”, já estava nos contos “A Mulher de Preto” e “Confissões de uma viúva moça”.
Nessa primeira fase, a mentira é punida ou desmascarada. Há nisso um laivo de moralismo romântico, na pregação de casos exemplares. Mas essa linha será, a seguir, superada, ainda na fase romântica. Em “A parasita azul”, o enganador triunfa pela primeira vez. O cálculo frio, o cinismo, a máscara e o jogo de interesses constituem o cerne desse realismo utilitário, para o qual pendem especialmente as personagens femininas, capazes de sufocar a paixão, o amor em nome da “fria eleição do espírito”, da “segunda natureza, tão imperiosa como a primeira”. A segunda natureza do corpo é o “status”, a sociedade que se incrusta na vida.
A partir dos contos de “Papéis Avulsos”, Machado começa a cunhar a fórmula mais permanente de seus contos: a contradição entre parecer e ser, entre a máscara e o desejo, entre a vida pública e os impulsos escuros da vida interior, desembocando sempre na fatal capitulação do sujeito à aparência dominante.
Machado procura roer a substância do eu e do fato moral considerados em mesmos; mas deixa nua a relação de dependência do mundo interior em face da conveniência do mais forte. É dessa relação que se ocupa, enquanto narrador.
É a móvel combinação de desejo, interesse e valor social que fundamenta as estranhas teorias do comportamento expressas nos contos: “O Alienista”, “Teoria do Medalhão”, “O Segredo do Bonzo”, “A Sereníssima República”, “O Espelho”, “A Causa Secreta”, “Conto Alexandrino”, “A Igreja do Diabo”...

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