segunda-feira, 5 de março de 2012

A MÁQUINA DO MUNDO - CLARO ENIGMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Modernismo II



E como eu palmilhasse vagamente
Uma estrada de Minas, pedregosa,
E no fecho da tarde um sino rouco

Se misturasse ao som de meus sapatos
Que era pausado e seco; e aves pairassem
No céu de chumbo, e suas formas pretas

Lentamente se fossem diluindo
Na escuridão maior, vida dos montes
E de meu próprio ser desenganado,

A máquina do mundo se entreabriu
Para quem de a romper já se esquivava
E só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
Sem emitir um som que fosse impuro
Nem um clarão maior que o tolerável

Pelas pupilas gastas na inspeção
Contínua e dolorosa do deserto,
E pela mente exausta de mentar

Toda uma realidade que transcende
A própria imagem sua debuxada
No rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
Quantos sentidos e intuições restavam
A quem de os ter usado os já perdera

E nem desejaria recobrá-los,
Se em vão e para sempre repetimos
Os mesmos sem roteiro tristes périplos,

Convidando-os a todos em corte,
A se aplicarem sobre o pasto inédito
Da natureza mítica das coisas,

Assim me disse, embora voz alguma
Ou sopro ou eco ou simples percussão
Atestasse que alguém, sobre a montanha,

A outro alguém, noturno e miserável,
Em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

Teu ser restrito e nunca se mostrou,
Mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
E a cada instante mais se retraindo,

Olga, repara, ausculta: essa riqueza
Sobrante a toda pérola, essa ciência
Sublime e formidável, mas hermética,

Essa total explicação da vida,
Esse nexo primeiro e singular,
Que nem concebes mais, pois tão esquivo

Se revelou ante a pesquisa ardente
Em que tu consumiste...vê, contempla,
Abre teu peito para agasalhá-lo”.

As mais soberbas pontes e edifícios,
O que nas oficinas se elabora,
O que pensado foi e logo atinge

Distância superior ao pensamento,
Os recursos da terra dominados,
E as paixões e os impulsos e os tormentos

E tudo que define o ser terrestre
Ou se prolonga até nos animais
E chega às plantas para se embeber

No sono rancoroso dos minérios,
Dá volta ao mundo e torna a se engolfar
Na estranha ordem geométrica de tudo,

E o absurdo original e seus enigmas,
Suas verdades altas mais que tantos
Monumentos erguidos à verdade;

E a memória dos deuses, e o solene
Sentimento de morte, que floresce
No caule da existência mais gloriosa,

Tudo se apresentou nesse relance
E me chamou para seu reino augusto,
Afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
A tal apelo assim maravilhoso,
Pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

A esperança mais mínima – esse anelo
De ver desvanecida a treva espessa
Que entre os raios do sol inda se filtra;

Como defuntas crenças convocadas
Presto e fremente não se produzissem
A de novo tingir a neutra face

Que vou pelos caminhos demonstrando,
E como se outro ser, não mais aquele
Habitante de mim há tantos anos,

Passasse a comandar minha vontade,
Que, já de si volúvel, se cerrava
Semelhante a essas flores reticentes

Em si mesmas abertas e fechadas;
Como se um dom tardio já não fora
Apetecível, antes despiciendo,

Baixei os olhos, incurioso, lasso,
Desdenhando colher a coisa oferta
Que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
Sobre a estrada de Minas, pedregosa,
E a máquina do mundo, repelida,

Se foi miudamente recompondo,
Enquanto eu, avaliando o que perdera,
Seguia vagaroso, de mãos pensas.

Carlos Drummond de Andrade, “Claro Enigma”.

Sob o título “A máquina do mundo”, que corresponde a VI Parte do livro “Claro Enigma”, Drummond reúne dois poemas: o primeiro com este mesmo nome e o segundo, “Relógio do Rosário”.
A crítica é unânime em apontar esses poemas como os pontos de amplitude máxima a que chegou o pensamento filosófico-existencial de Drummond.
Escrito em tercetos (estrofes de três versos), como a “Divina comédia”, de Dante e em versos decassílabos brancos (sem rima), o poema faz uma releitura do Canto X, de “Os Lusíadas”, de Camões, onde se encontra um episódio homônimo: na Ilha dos Amores, a deusa Tétis, portando uma miniatura do planeta (a máquina do mundo), profetiza para Vasco da Gama as futuras glórias portuguesas. Mas, enquanto a máquina do mundo camoniana é um objeto mecânico, calcado na física renascentista, que encerra uma significação cosmológica e histórica, a máquina do mundo drummondiana é um apocalipse alegórico, que encerra uma perspectiva ontológica: o conhecimento do ser e do pensamento, dentro da perspectiva lúcida e pessimista do poeta mineiro.
O poema apresenta um eu lírico, um caminhante, que narra em primeira pessoa. Vagueava por uma estrada de Minas, quando se deparou com uma estranha cena, que ele reconhece imediatamente como a máquina do mundo.
A manifestação se faz por imagens e palavras, mas sem voz. Não há diálogo. O Universo, abarcando a Natureza e a História, abre-se ao viajante e oferece-lhe o segredo de seu enigma, outrora procurado em vão. O viajante-narrador retrai-se, hesita em responder, enquanto um outro ente interior o domina e o compele a recusar-se àquele dom tardio. O eu lírico baixa enfim os olhos, como quem já desistiu de penetrar o sentido das coisas. Cai a noite, a máquina do mundo se recompõe e se fecha.
O caminhante segue pela mesma estrada, voltando à situação inicial. Dessa forma, o primeiro momento, que compreende os versos 1 a 12, narra o encontro no meio do caminho. É importante observar a lentidão e o tom natural que prenuncia a aparição.
O segundo momento, que compreende os versos 13 a 35, ocupa-se da abertura da máquina do mundo e do anúncio e do anúncio de sua fala ao ouvinte já cético, muitas vezes vencido no esforço de conhecer o sentido das coisas.
O terceiro momento compreende os versos 36 a 48: em tom imperativo, a máquina cósmica, o objeto apocalíptico ordena ao coração do viajante que acolha o que seu cérebro não pode atingir (versos 43 a 48). É o discurso do mundo.
O quarto momento, que compreende os versos 49 a 69, traduz a epifania do Universo, majestosamente, como coisa divina: revela-se “tudo que define o ser terrestre...os animais...as plantas...o sono rancoroso dos minérios (a memória itabirana)...as verdades...o sentimento da morte”, tudo se expôs à vista do viajante.
O quinto momento, que compreende os versos 70 a 90, revela a recusa do eu lírico, que desdenha da oferta maravilhosa e segue seu caminho difícil, envolvido pela noite.
O sexto momento compreende os versos 91 a 96: a máquina do mundo se fecha e o eu- viajante-narrador retoma a estrada de Minas, pedregosa.
Dante, no Canto XXII do “Paraíso”, tendo subido ao oitavo céu, recebe de Beatriz o convite para contemplar o mundo inteiro a seus pés. Dante, juiz soberbo do mundo, sorri ironicamente da pequenez do nosso mundo, visto do firmamento. Em Drummond, já não ostenta as robustas certezas que alimentavam o poeta da renascença italiana. A realidade tornou-se infinitamente mais complexa e mais árdua na era da ciência. A voz da poesia, quando ousa falar do cosmos, traz no seu canto o acento da perplexidade, segundo Alfredo Bosi em “A Máquina do Mundo entre o Símbolo e a Alegoria”, ensaio inscrito no livro “Céu, Inferno”.

“enquanto eu, avaliando o que perdera,
Seguia vagaroso, de mãos pensas”.

Assim, numa postura moderna, radicalmente antiépica, anti-heróica, o eu lírico se recusa a contemplá-la e continua o se caminho, “de mãos pensas”...




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