sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

SOUSÂNDRADE E O ROMANTISMO BRASILEIRO



JOAQUIM DE SOUSA ANDRADE, que alterou seu nome para SOUSÂNDRADE, nasceu em 1832, às margens do Rio Pericumã, em Guimarães, estado do Maranhão, na fazenda de sua família.
Educou-se em São Luís, então chamada a “Atenas brasileira”, pelo alto nível cultural que atingiu e pela excelência de alguns dos intelectuais lá nascidos, entre eles, Gonçalves Dias e fez sua formação universitária em Paris, na Universidade de Sorbone, onde estudou Letras e se formou em Engenharia de Minas.
Viajou pela Europa e percorreu diversas regiões das Américas Central e do Sul.
Durante o tempo em que morou nos Estados Unidos, o poeta viveu na grande metrópole Nova York, em plena época escandalosa de Wall Street e dos jornais montados e dirigidos para a grande população onde editou “Obras poéticas” e alguns cantos do “Guesa Errante”, um longo poema épico-lírico, que contém algumas das maiores audácias estéticas da história da nossa poesia, além de uma penetrante visão crítica do capitalismo norte-americano e da situação dos povos sul e centro-americanos. Com esse trabalho, Sousândrade recebeu de Humberto de Campos o título de “João Batista da poesia moderna”.


Nessa obra o autor narra à jornada de um adolescente que depois de peregrinações na rota do deus Sol, acaba nas mãos de sacerdotes que lhe extraem o coração e recolhem o sangue, nos vasos sagrados. O poeta teve uma intuição dos tempos modernos, onde imagina o Guesa que após escapar dos sacerdotes refugia-se em Wall Street e reencontrará seus carrascos disfarçados de empresários e especuladores.
“Harpas Selvagens”, seu primeiro livro de poemas, foi publicado em 1857; dois anos depois eram editados os versos de Casimiro de Abreu, no volume “Primaveras”. Casimiro foi e é celebrado até hoje; Sousândrade foi por muito tempo ignorado e continua até hoje pouco conhecido.
Sousândrade era um escritor atento às técnicas da dicção e com facilidade utilizava os clássicos e os jargões yankees que adquirira nos Estados Unidos e fazia ousados conjuntos verbais na montagem de sua sintática.

Oh, este choro natural dos túmulos
Onde dormem os pais, indica, amigos,
Perda...nem as asas ao futuro
Não sei voar: a dor é do passado
Que se esquece na vista enfraquecida,
Como fica o deserto muito longe.
Senão a morte me trazendo a noite,
Nada mais se aproxima: solitário
Ás bordas me debruço do horizonte,
Nutro o abismo de mágoas, de misérias!
Porto de salvação, não há na vida.
Desmaia o céu d’estrelas arenoso...
Eu fui amado...e hoje me abandonam...
Meões do nada, desaparecei-me!

O último verso é extraordinário: o poeta invoca seres fantásticos, que habitam, paradoxalmente, o meio do nada (meão=meião, que está no meio), e pede que o façam desaparecer, alterando surpreendentemente a construção deste verbo, fazendo-o transitivo e usando o pronome “me” como seu objetivo. O sentido é: “meões do nada, façam que eu desapareça”. Também, com o verbo “voar”, em “nem as asas ao futuro / Não sei voar”: “voar” é usado como verbo transitivo, com “asas” como objeto. Esse tipo de inovação linguística só seria praticado em nossa língua mais de cinquenta anos depois, por poetas modernos.

Eu careço de amar, viver careço
Nos montes do Brasil, no Maranhão,
Dormir aos berros da arenosa praia
Da ruinosa Alcântara, evocando
Amor...Pericumã!...morrer...meu Deus!
Quero fugir d’Europa, nem meus ossos
Descansar em Paris, não quero, não!
Oh! Por que a vida desprezei dos lares,
Onde minh’alma sempre forças tinha
Para elevar-se à natureza e os astros?
Aqui tenho somente uma janela
E uma jeira de céu, que uma só nuvem
A seu grado me tira; e o sol me passa
Ave rápida, ou como o cavaleiro:
E lá! A terra toda, este sol todos –
E num céu anilado eu m’envolvia,
Como a águia se perde dentro dele.

Ingrato o filho que não ama os berços
Do seu primeiro sol. Eu se algum dia
Tiver de descansar a vida errante,
Caminhos de Paris não me verão:
Através os meus vales solitários
Eu irei me assentar, e as brisas tépidas
Que os meus cabelos pretos perfumavam,
Dos meus cabelos velhos a asa trêmula
Embranquecerão: quando eu nascia
Meu primeiro suspiro elas me deram;
Meu último suspiro eu lhes darei.

(“Harpas Selvagens”, fragmento da “Harpa XLV”)

O poema acima é constituído por versos decassílabos brancos e pode ser considerada uma “canção do exílio”, porque celebra a pátria da perspectiva de quem está longe dela, portanto no exílio. A pátria é caracterizada pela vastidão do espaço e pela energia que nela sente o poeta; o exílio ao contrário, oferece um espaço muito limitado e consequentemente, uma limitada relação com o mundo. Quanto ás imagens: na pátria, o poeta se elevara aos astros e se perdia no céu “como a água”, no exílio, o céu é o que cabe numa janela, pode ser ocultado por uma só nuvem, e o sol passa rápido como uma ave ou um cavaleiro.
O poeta pretende com a enumeração do verso: “Amor...Pericumã!...morrer...meu Deus!” sugerir o que lhe passava pelo espírito em seus devaneios nas praias da terra natal (Alcântara é uma bela cidade em ruínas, perto de São Luís): a paixão, o rio de nome sonoro (indígena) que o viu nascer, a morte e o espanto, criando, dessa forma, um verso harmônico (um acorde arpejado, em que uma nota/palavra se superpõe à outra).
O contraste “cabelos pretos” versus “cabelos brancos” foi enriquecido no poema com deslocamentos que envolvem um adjetivo e o verbo da frase onde essas imagens são utilizadas. Em vez de contrapor “cabelos brancos a cabelos pretos”, o poeta mudou o adjetivo, tornando bem mais expressiva a locução: “cabelos velhos”, e deslocou o sentido de brancos para o verbo “embranquecerão”.
Nos seis versos finais do fragmento de Sousândrade, as brisas estão ligadas tanto ao nascimento quanto à vida e a morte do poeta: elas lhe deram o primeiro alento ao nascer, perfumaram seus cabelos durante a vida e é como se, na velhice, fizessem seus cabelos ficar brancos. A essas brisas suavemente quentes ele dará seu último suspiro, ao morrer.


Foi ardente defensor da República, dedicou-se ao ensino em São Luís, lecionando grego, acalentou o projeto de uma universidade popular que se chamaria “Atlântida”, mas não conseguiu apoio oficial para sua realização.
Em seus anos finais, empobrecido, era considerado excêntrico e mesmo louco. Morreu com setenta anos, em 1902.
Ele sempre foi uma nota destoante no panorama da poesia brasileira.
A reavaliação crítica de Sousândrade ocorreu mais de cinquenta anos depois de sua morte, no livro dos poetas e críticos Augusto e Haroldo de Campos, “Revisão de Sousândrade”, publicado em 1964. A obra de Sousândrade possui pontos altos que fazem dele um dos maiores poetas do Brasil reconhecido por críticos e historiadores.  
Sua obra só se tornou conhecida por volta de 1970, com a publicação de “Inéditos”, aos cuidados de Frederick G.William e Jomar Moraes, em São Luís.



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