sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

JOÃO BATISTA DA SILVA LEITÃO DE ALMEIDA GARRETT (1799-1854)



“O que é preciso é estudar as nossas primitivas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas, as costumeiras e as superstições antigas [...]. O tom e o espírito verdadeiro português, esse é forçoso estudá-lo no grande livro nacional que é o povo, e as suas tradições e as suas virtudes, e os seus vícios e os seus erros.”

Almeida Garrett, “Romanceiro”

ALMEIDA GARRETT nasceu no Porto. Por causa da invasão napoleônica, foi levado para a ilha dos Açores, onde fez os estudos primários.
Em 1816, regressa ao continente e segue para Coimbra, a fim de fazer o curso de Direito, que termina em 1821. Nesse ano, publica o poema “Retrato de Vênus”, tendo sido, por isso, processado por obscenidade. Casa-se com Luísa Midosi, com uma jovem de 14 anos e ingressa no magistério do Reino.
Participou da Revolução Liberal de 1820 e em 1823, forçado por suas ideias liberais, vai para o exílio na Inglaterra, onde toma os primeiros contatos com o movimento romântico de Lord Byron, Scott, e, sobretudo, com Shakespeare. Lá, Garrett visitou castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se refletiriam na sua obra posterior. Conquanto Garrett fosse o primeiro grande escritor romântico de Portugal, várias das virtudes de seu estilo vinham do Neoclassicismo da época anterior, o Arcadismo, com o qual Garrett teve uma experiência intensa, nem sempre pacífica.
Algumas obras românticas de Garrett ainda estão presas aos ecos do heroísmo antigo, ao gosto do trágico, ao universalismo, ao apego à epopéia, à frase de padrão sintático muito conciso e, sem dúvida, a várias sugestões ainda fortemente arcádicas.
Segundo Benjamin Abdala Júnior:

“Garrett considerava o Arcadismo um movimento revolucionário em oposição ao gongorismo barroco. Sua inclinação para o Romantismo não foi radical: alinhou-se entre os escritores sociais que estabelecem uma linha de continuidade entre os ideais libertários do Iluminismo e o Romantismo. Não há, pois, ruptura entre suas produções catalogadas dentro do Arcadismo e do Romantismo”.

Na França, publica, em 1825, a obra “Camões” que apesar de ser considerado o marco inicial do Romantismo português, sua inovação consiste muito mais na abordagem do tema – a vida de Camões, suas aventuras e seu sofrimento do que propriamente na linguagem, devido ao seu formalismo, vocabulário culto e contenção das emoções.
Em 1826 publica “Dona Branca”, outra obra marcada pela tradição clássica.
No mesmo ano Garrett foi anistiado e regressa a Portugal com os últimos emigrados dedicando-se ao jornalismo, fundando e dirigindo o jornal diário “O Português” (1826-1827) e o semanário “O Cronista” (1827).
Teria, no entanto, em 1828, retornar ao exílio o regresso do Rei absolutista D. Miguel ao trono. Ainda nesse ano perdeu a filha recém-nascida.
Novamente em Inglaterra, publica “Adozinda” (1828) e “Catão” (1828). Juntamente com Alexandre Herculano e Joaquim Antônio de Aguiar, tomou parte no Desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto em 1832 e 1833.
A vitória do Liberalismo permitiu-lhe instalar-se novamente em Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e encarregado de negócios, onde lê Schiller, Goethe e Herder.
Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais.
Em 1938, inicia uma campanha em prol do teatro português que resulta na fundação do Teatro Normal, atualmente Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa e, a criação do Conservatório de Arte Dramática, da Inspeção Geral dos Teatros, do Panteão Nacional. Mais do que construir um teatro, Garrett procurou, sobretudo, renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro.
Em 1851, recebeu o título de Visconde de Almeida Garrett.
Com a vitória cartista e o regresso de Costa Cabral ao governo, Almeida Garrett afasta-se da vida política até 1852. Contudo, em 1850 subscreveu, com mais de 50 personalidades, um protesto contra a proposta sobre a liberdade de imprensa, mais conhecida por “lei das rolhas”.
A vida de Garrett foi tão apaixonante quanto a sua obra. Revolucionário nos anos 20 e 30, Garrett era considerado um perfeito do dandy, ou janota, tornando-se árbitro de elegâncias e príncipe dos salões mundanos.
Foi um homem de muitos amores, uma espécie de homem fatal. Separado da esposa, passa a viver em concubinato com D. Adelaide Pastor até a morte desta em 1841.
A partir de 1846, Garrett vive uma nova e proibida paixão pela Viscondessa da Luz, Rosa Montufar Barreiros, esposa do oficial do exército Joaquim Antônio Véliz Barreiros, homem de confiança da rainha de Portugal, D. Maria II, Barão e depois Visconde de Nossa Senhora da Luz.
Nessa época, Garrett retoma a poesia lírica, criando suas melhores obras poéticas, “Flores sem fruto” (1845) e “Folhas Caídas” (1853).
Nelas, Garrett apresenta uma poesia confessional, marcada por sentimentos nitidamente românticos: desejo, remorso, sensualismo, sofrimento, saudade, etc. A linguagem torna-se mais simples, populariza-se, os versos tornam-se mais melodiosos, os sentimentos mais espontâneos, como pode ser observado nos versos a seguir.


Este inferno de amar 


Este inferno de amar – como eu amo!

Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida – e que a vida destrói.
Como é que se veio atear,
Quando – ai se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… foi um sonho.
Em que a paz tão serena a dormi!
Oh! Que doce era aquele olhar…
Quem me veio, ai de mim! Despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… Dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos que vagos giravam, 
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? Não o sei;
Mas nessa hora a viver comecei…
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


(Em “Obras de Almeida Garrett”, Porto, Lello e irmão, 1963. P.177)

Foi um dos mais fecundos escritores de Portugal. Da sua vasta obra literária, destacam-se a peça teatral “Frei Luís de Sousa” (1844), onde retoma a temática sebastianista; o romance “Viagens na minha terra” (1846), misto de diário, literatura de viagens, reportagem e ficção e a coletânea de poemas líricos “Folhas Caídas” (1853).
Nessas três obras, o elemento mais propriamente romântico está na expressão franca e intensa de um certo ardor emocional. Em Garrett, como noutros românticos, a formação clássica serviu para dar equilíbrio e contenção aos exageros do Romantismo.
Morre em 1854, pouco tempo depois de ter sido nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros.








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