sábado, 18 de fevereiro de 2012

GAETANINHO: BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA, ANTONIO ALCÂNTARA MACHADO

I – INTRODUÇÃO:


“Gaetaninho”, conto de abertura de “Brás, Bexiga e Barra Funda” de Alcântara Machado, está sintonizado com as aspirações do Modernismo: desejo de retratar a realidade social, urbana, comportamental e psicológica do começo do século XX, em São Paulo, focando o dia a dia dos integrantes da classe operária, principalmente os de origem italiana, introduzindo uma modernidade na arte literária.

II – CARACTERÍSTICAS DE ESTILO:

A revolução modernista literária desse conto encontra-se na divisão em cinco cenas, característica notadamente cinematográfica, dada pelo corte narrativo existente de uma cena para outra, introduzindo uma nova situação, em um tempo e espaço também novos. Essa superposição de cenas compõe o todo como uma colagem, como se o narrador estive com uma câmera fotografando cena por cena.
Através do uso da pontuação como recurso de reprodução de traços rítmicos e melódicos da linguagem coloquial e de frases breves, o autor, à maneira da linguagem jornalística ou radiofônica, narra com observação pormenorizada os eventos ligados ao universo da personagem Gaetaninho, reunindo flashes da vida urbana dos italianos e paulistas, para marcar a influência da imigração e da miscigenação racial, na constituição da sociedade paulistana, em franco processo de crescimento.

“O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
- Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
- Vá dar tiro no inferno!
- Cala a boca, palestrino!
- Traga a bola!”

III – FOCO NARRATIVO:

O foco narrativo é de terceira pessoa, onisciente, procurando o narrador manter-se posicionado fora do universo da obra, permitindo-se conhecer até os pensamentos e intenções mais íntimas das personagens. A linguagem jornalística do narrador adapta-se, assim, à da criança. Essa simultaneidade torna subjetiva a linguagem que se propunha tão extrinsecamente objetiva. Os discursos jornalísticos e o infantil tornam-se, então, as duas faces, de um mesmo elemento, a linguagem literária.  

IV – ESPAÇO:

O narrador embora, seja conciso, indica o espaço e a condição sócio-econômica, onde se encontra Gaetaninho, “bem no meio da rua.”
A rua será cenário marcante neste conto, ela simboliza o ritmo frenético da vida urbana; o carro; o motor; o transporte coletivo, como o bonde; o burburinho; o tumulto; o número crescente de transeuntes; a algazarra; o ruído das máquinas e de homens, enfim o cenário urbano, produto da modernidade.
“Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.”

V – ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA DO CONTO “GAETANINHO”


- Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford.
O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
- Eh! Gaetaninho! Vem prá dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
- Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar á direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Êta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.

O conto “Gaetaninho”, logo, de início, propõe uma reflexão crítica a respeito das desigualdades sociais e comportamentais, devido à presença e adaptação do imigrante italiano, traçando um retrato de São Paulo, nos anos de 1920-1930. Além das inovações linguísticas, outros aspectos da moderna vida urbana estão presentes nesse fragmento, dentre eles: o carro (“o Ford”) e o bonde.  
“Banzando” faz alusão tanto a banzo, de origem africana, como a banzé, cuja significação é “desordem”. Destes vocábulos brasileiros deriva o verbo banzear (agitar, mover, balouçar) e mesmo banzar, empregado pelo autor. Todas as acepções vão contribuir para explicar o sentimento expresso por Gaetaninho: o estado de superexcitação vivido por ele neste momento.
A fragmentação narrativa do conto reflete a incompletude do sonho de Gaetaninho: vencer o seu desprovimento econômico em que vivia e realizar seu sonho (andar de carro) e se fazer presente perante a sociedade. Dessa forma, o protagonista é referência metalinguística para a temática da própria narrativa.
Contrastam, assim, a realidade social com a realidade empírica, visto que tal realidade tem demonstrado que os desafortunados dificilmente conseguem a realização de suas aspirações ou, quando conseguem, quase sempre é decorrência do acaso. Os valores essencialmente humanos não são destacados no texto, o que confirma a concepção de que a pobreza pode conduzir à instigação de sonhos, especialmente quando colocada frente a novas possibilidades de status social.
O leitor é invadido gradualmente pelo humor que perpassa a narrativa. Uma evidência é a afirmação do narrador: “Grito materno sim: até filho surdo escuta”. Tal afirmação serve para conotar o medo experimentado por Gaetaninho, diante da ameaça que deve viver, provavelmente, com constância, de levar, uma vez mais, uma chinelada. Entretanto, esse grito materno simboliza a chamada para a realidade, que é driblada pelo protagonista: “Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro”. Graças a esse expediente, Gaetaninho consegue escapar da mãe, do chinelo e da realidade. A mãe e o chinelo, a autoridade e a punição, ambas, metaforicamente, a bola que o craque controla com destreza. E, como um craque, ele almeja ser campeão.

O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.

Nessa passagem, a personagem Gaetaninho demonstra a dualidade em que vive: a satisfação das necessidades básicas versus necessidades de satisfação do ego.
Ao dormir, “Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro”, evidencia a vontade de fugir da realidade através do sonho, único meio para sua realização.
Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO. Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira, mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza rapaz! Dentro do carro o pai os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queria ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.


O sonho teatralizado de Gaetaninho: a acompanhar o enterro da Tia Filomena, na boléia do carro, trajando a sua “melhor roupa”, a domingueira e “muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes...”, confirma seu conflito existencial e o desejo de estar em posição de visibilidade e comando. No entanto, a impossibilidade de um menino, morador da Rua Oriente, concretizar seu desejo de andar de carro, passa a significar a distância existente entre as aspirações dessas personagens imigradas e suas reais condições. Para o protagonista, a integração, tão somente, não satisfaz. Ele deseja a ascensão. É o que se depreende do seu sonho.
Gaetaninho ia berrar mas a tia Filomena com a mania de cantar o "Ahi, Mari!" todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.

Tem-se, aqui a confirmação da frustração de não ter podido realizar seu grande sonho. O discurso indireto livre concorre, em todo o conto, para a interpenetração do discurso do narrador e da fala da personagem, tendo agora, ao se narrar o sonho de Gaetaninho, papel significativo, por servir de ênfase às suas projeções. Como todo sonho, o de Gaetaninho também se compõe da fragmentação.

Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, Seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
- Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
- Meu pai deu uma vez na cara dele.
- Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
- Assim não jogo mais! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
- Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
- Vá dar tiro no inferno!
- Cala a boca, palestrino!
- Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a noticia na noite.
- Sabe o Gaetaninho?
- Que é que tem?
- Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.

Embora, o humor perpassa a narrativa, o desfecho do conto recebe caráter fatalista. A narrativa iniciou “no meio da rua” com o sonho de Gaetaninho e ciclicamente encerrará no mesmo espaço físico, quando “um bonde o pegou. Pegou e matou”, encerrando-se com final trágico. Assim, tem-se o anticlímax – a morte interrompendo o sonho de Gaetaninho.  


É importante ressaltar que o atropelamento, a morte do protagonista, a notícia espalhada pelas crianças são retratados num ritmo acelerado e com frases simples correspondendo a correria do dia a dia, da vida moderna. O sonho do protagonista traduz o impacto que seduziu o menino, impacto esse chamado modernidade.
A intensidade do ruído produzido pelo bonde se faz referente, no nível sonoro, através de aliterações das consoantes sonoras: /b/, nos signos “bonde” e “bola”; /d/, nos signos “correndo”, “de”, “bonde” e “do”; e /g/, nos signos “Gaetaninho” e “pegou”. Contribuem, igualmente, para sugerir a ideia de ruído do bonde, a consoante sonora /v/, em “vinha”, e as consoantes explosivas, as bilabiais /p/, em “pegou” e “pai”; e /m/, em “matou”.
Ao se valer da repetição “um sonho”, uma frase nominal, o narrador oferece ao leitor atento a pista para a compreensão do destino da personagem. O desfecho, enigmaticamente anunciado no decorrer da trama, está, no entanto, previsto desde o início da narrativa; na iminência do atropelamento pelo Ford; no fato de, “Ali na rua Oriente”, se andar “De automóvel ou de carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou casamento” (Machado, 1982:24); na cena em que Beppino “atravessa a cidade...Atrás da tia Peronetta que se mudava para o Araçá”; finalmente, no jogo de bola: “O jogo na calçada parecia de vida ou morte” (Machado, 1982:27). Mais dissimulada aqui, anunciada abertamente mais adiante, a morte está sempre presente nesse jogo, como forma cruel de ceifar suas aspirações de ascensão.
No final do conto encontra-se uma ambiguidade causada pela frase “Amassou o bonde”. Tomando-se o sentido do verbo amassar em português e sabendo que em italiano “ammazzare” significa matar, permite uma dupla interpretação, já que não se sabe se foi o garoto que atropelou o bonde ou contrário, o que garante um final trágico-cômico.
A demonstração da impiedade natural das crianças pode ser entendida como fruto da própria idade, quanto da vida urbana moderna.                

Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
- Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
- Vá dar tiro no inferno!
- Cala a boca, palestrino!
- Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a noticia na noite.
- Sabe o Gaetaninho?
- Que é que tem?
- Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.

Embora, o humor perpassa a narrativa, o desfecho do conto recebe caráter fatalista. A narrativa iniciou “no meio da rua” com o sonho de Gaetaninho e ciclicamente encerrará no mesmo espaço físico, quando “um bonde o pegou. Pegou e matou”, encerrando-se com final trágico. Assim, tem-se o anticlímax – a morte interrompendo o sonho de Gaetaninho.  



Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns me ajudou muito