quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CAMILO DE ALMEIDA PESSANHA: VIDA, OBRAS E ANÁLISE DE POEMAS


(1867-1926)
Nenhum poeta português pode, como Pessanha no seu espólio lírico tão breve, eliminar quase completamente as categorias mentais prosaicas do discurso poético. Cada um dos seus principais poemas é um pequeno mas inesgotável mundo de motivos rítmicos e imaginíficos associados, com uma ordem própria brotando de exclamações e reticências orais espontâneas, mas diluidora da sintaxe padrão que tem o verbo como fulcro. A perspectiva das coisas no espaço-tempo também se refaz pela primeira vez, com Pessanha, na poesia portuguesa. E disso resulta um tipo, até então inédito em português, de partitura lírica, em que palavras muito escolhidas jogam, de cada vez, com todo um conjunto de evocações (significados, timbres ou inflexões de voz em que são usuais valores articulatórios).”
António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa.

I – VIDA:
CAMILO PESSANHA nasceu em Coimbra, filho de Francisco de Almeida Pessanha, um estudante de Direito e de Maria do Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua governanta. O pai conclui o curso de Direito e foi colocado em Lamego, onde Camilo Pessanha deve ter concluído a instrução primária. Em 1884, completa os seus estudos secundários no Liceu Central de Coimbra e matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, residindo durante os três primeiros anos na Estrada da Beira.
Compõe “Lúbrica”, o seu primeiro poema, segundo Antonio Dias Miguel, são evidentes s influências de Cesário Verde.
Em 1887 publica “Madrigal”, no jornal republicano “Gazeta de Coimbra” e convive com a boemia de Coimbra. Ainda em 1887 compõe os “Sonetos de Gelo”; os contos “A Eterna Lei” e “Segundo Amante”.
Camilo Pessanha, em 1888, reprova o quarto ano de Direito, devido a sua paixão não correspondida por Madalena Canavarro. Uma grave doença nervosa impede-o de se matricular na Faculdade, neste ano letivo.
Escreve a seu primo, José Benedito:

“[...] nas férias grandes passadas me luziu a ideia de duas séries, uma de prosa outra de verso, que deixaram a perder de vista todos os meus feitos de até então.
A prosa seria contos e chamar-se-ia “Solidões”, não minha, mas das figuras: estados de espírito diverso, apreendidos no olhar que uma avó estende pelo seu passado, no tremor de lábios de um velho na presença dos quinze anos de uma rapariga que o desdenha, ingenuamente impudica, no corar de qualquer burguesinha, que vê da sua janela o último namorado que lhe mentiu, etc. Seriam rápidos como a maior parte dessas impressões, e a prova seria igual, embora diversamente sentida, sem esbracejamentos nem gritos porque tais entusiasmos bem os abafam os personagens que eu aproveitaria, que se mordem intimamente, mas conseguem respeitar a polícia e a gente casta.”

Em 1891 forma-se em Direito e instala-se na povoação de Tábua-Pereira, onde permanece por um mês. De lá, escreve a Alberto Osório de Castro:

“[...] E não conte comigo em matérias literárias. O meu cérebro está sem consistência para formar um verso próprio, ou reunir sequer as sílabas de algum verso alheio.”

Em 1892, encontra-se em Lamego e escreve a Alberto Osório de Castro, insurgindo-se contra o meio que o rodeia:

“Não lhe tenho escrito, em parte, para não o melindrar com uma carta tão lógica e tão grosseira como esta vai. Porque eu bem vejo que sou esta carta, minha alma.”

Em finais de ano, Camilo Pessanha pede transferência para Óbidos, onde trabalha com Alberto Osório de Castro, Juiz Municipal. Data deste ano, a composição do poema “Paisagens de Inverno”.  
Apresenta um quadro de depressão, de acordo com a carta que redige, em 09 de agosto de 1893, ao seu primo José Benedito:

“Peço-te desculpa de há mais tempo não ter escrito, quando nas cartas para a tia tanto te interessavas pela minha sorte: - o que há de ser do Camilo? Não é ingratidão, bem o sabes, mas esta tristeza que me vem das pequeninas misérias, das restrições deprimentes da vida, e da minha própria fraqueza, que me condena a um isolamento, em que por mim próprio me vou afundando sem remédio, não respondendo sequer às cartas dos amigos.”      
Neste ano, compõe a “Canção da Partida”, que apresenta um cunho marcadamente autobiográfico; Carlos de Lemos dedica-lhe um poema do seu livro “Miragens”. Pede em casamento Ana de Castro Osório, que recusa por já estar comprometida. O desgosto é uma das razões que o faz partir para Macau, no ano seguinte.
Permaneceu em Macau durante três anos, exercendo o cargo de professora de Filosofia Elementar, no Liceu de Macau. Viciou-se em ópio, publicando esporadicamente nos jornais de província alguns poemas.
Entre 1894 4 1915 voltou a Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, apreciadores da sua poesia.
A influência de Camilo Pessanha sobre o poeta Fernando Pessoa levou este último a escrever ao primeiro, convidando-o para ser colaborador da Revista Orpheu, marco inicial do modernismo português. Da carta, de 1915, segue alguns trechos:

Exmo. Senhor Dr. Camilo Pessanha – Macau:

Há anos que os poemas de V.Exª. são muito conhecidos e invariavelmente admirados por roda Lisboa. É para lamentar – e todos lamentam – que não estejam, pelo menos em parte, publicados. Se estivessem inteiramente escondidos da publicidade, nas laudas ocultas dos seus cadernos, esta abstinência da publicidade seria, da parte de V.Exª., lamentável mas explicável. O que se dá, porém, não se explica; visto que, sendo de todos mais ou menos conhecidos esses poemas, eles não se encontram acessíveis a um público maior e mais permanente na forma normal da letra redonda.
É sobre este assunto que assumo a liberdade de escrever a V.Exª. Decerto que V.Exª. de mim não se recorda. Duas vezes apenas falamos no Suíço, e fui apresentado a V.Exª. pelo general Henrique Rosa. Logo da primeira vez que nos vimos, fez-me V.Exª. a honra, e deu-me o prazer, de me recitar alguns poemas seus. Guardo dessa hora espiritualizada uma religiosa recordação. Obtive, depois, pelo Carlos Amaro, cópias de alguns desses poemas. Hoje, sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte continua de exaltação estética.
(...) Sou um dos diretores da revista trimestral de literatura “Orpheu”. Não sei se V.Exª. a conhece; é possível que a não conheça. Terá talvez lido, casualmente, algumas das referências desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. (...) A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo até ao futurismo.
(...) O meu pedido – tenho, reparo agora, tardado a chegar a ele – é que V.Exª. permitisse a inserção, em lugar de honra do terceiro número, de alguns dos seus admiráveis poemas.
(...) Podia V.Exª. fazer-nos o favor que pedimos? Nós não pedimos só por nós, mas por todos quantos amam a arte em Portugal; não serão muitos, mas, talvez por isso mesmo, merecem mais carinhosa atenção dos poetas.
(...) Confessando-me, pelo “Orpheu”, desde já altamente grato e honrado com o envio dos seus poemas, subscrevo-me, com o mais respeito e admiração.
De V.Exª.
                       
                        Fernando Pessoa. Obras em prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1986.
   
Numa dessas visitas, em 1915, ditou a João de Castro Osório as composições que viriam a ser coletadas no volume “Clepsidra”, aparecido em 1920. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha se salvaram do esquecimento.


Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a obra “Clepsidra” original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, é considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. Consumido pelo ópio, Camilo Pessanha, morre no dia 1 de março de 1926 em Macau.
  
II – OBRAS:
“Clepsidra”, 1920.
“China” – Coleção de artigos sobre a cultura chinesa, reunidos em 1944.

III – CARACTERÍSTICAS:
Camilo Pessanha foi o poeta mais autenticamente Simbolista de Portugal, e um grande inovador da poética de seu país, cuja influência se estende até os modernistas da geração Orpheu, sobretudo em Fernando Pessoa. Afastou-se do discursivismo neo-romântico dos poetas do seu tempo (Antônio Nobre, Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira) e inovou a escrita poética, incorporando procedimentos próximos aos do decadentismo de Verlaine, em especial no que se refere à aproximação entre a poesia e a música.
Apresentando uma visão extremamente pessimista de mundo, a obra poética de Camilo Pessanha sugere uma visão de mundo sobretudo marcada pela ótica da ilusão e da dor.

“O poeta – afirma o crítico Massaud Moisés -, dotado de agudíssima sensibilidade, que se conhece e se auto-analisa, só encontra motivo de ser naquilo de que foge tanto: a Dor, causa e efeito, princípio e fim. É, por isso, o poeta da Dor refinadamente sutilizada e diafanizada, a ponto de se tornar ídolo:

“Porque a dor, esta falta d’harmonia (...) / Sem ela o coração é quase nada.” 

A percepção de mundo em Camilo Pessanha é fragmentária, aparentemente desarticulada, expressa através de sensações que o poeta considera sem sentido. A desagregação formal parece corresponder à desagregação do próprio poeta opiômano, hipersensível e inadaptado.
Lírico da desesperança, da dor e da ilusão, seu pessimismo tem laivos do decadentismo francês e do budismo que conheceu em Macau. É constante a sensação de estranheza diante do mundo, da alucinação, expressas numa linguagem poderosa, sugestiva, tecida com metáforas insólitas, símbolos, sinestesias e intensa musicalidade (aliterações, assonâncias etc.).
Aproximou-se do rigor formal de Mallarmé, sem a determinação intelectual do poeta francês. A intelectualização dos poemas de Camilo Pessanha é marcada pelo pessimismo em relação ao mundo, que lhe parecia em degenerescência. A adesão do poeta à estética decadentista-simbolista não era simples modismo – era existencial.

IV – “CLEPSIDRA”:
Os temas são aqueles relacionados à sua concepção pessimista, desistente e cética de vida: a mágoa, a dor e a morte.
O próprio título “Clepsidra” desencadeia certo obscurantismo, hermetismo e distancia-se do vulgar e do profano, remetendo a uma duplicidade de sentidos: o denotativo (sentido real) e o conotativo (sentido figurado), onde a partir do primeiro plano se estabelece o segundo.
A palavra, de origem grega, (kleps-udra), faz junção do verbo “kleptô” - roubar e do substantivo “udor” – água, literalmente um “relógio de água”, utilizado para marcar o tempo atribuído aos oradores, instrumento do tipo da ampulheta, o que sugere tanto a fluidez, a liquidez do tempo quanto a sua irreversibilidade. Outro sentido possível das palavras, apoiado na mitologia, relaciona-se com Hidra, “serpente gigantesca com inumeráveis cabeças que nascem e se desenvolvem á medida que são cortadas, simbolizando a impotência humana perante o que lhe é externo e adverso. Desse modo, “Clepsidra” é um trabalho singular que tematiza os grandes problemas universais do homem, tais como o fluir inexorável do tempo, a fragilidade da condição e do saber humano e o caráter breve da vida.
O poema de abertura de “Clepsidra” ilustra essas preocupações.

INSCRIÇÃO

Eu via luz em um país perdido
A minha alma é lânguida e inerme,
Oh! Que pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...

Este poema chama-nos atenção por sua forma reduzida, uma vez que é composto apenas por quatro versos. Entretanto, ele carrega uma carga semântica de negativismo, de conflito existencial e de decadência que já vinha sendo observada em Baudelaire.
A valorização dos sentidos da percepção como forma de conhecimento da realidade (“Eu vi a luz em um país perdido”), desencadeia a dilaceração da alma e uma profunda “dor de existir” (“A minha alma é lânguida e inerme).” O uso dos adjetivos “perdido”, “lânguida” e “inerme” dialoga com o estado qualificativo do país com o desencanto e sobre a falta de sentido da existência do eu poético.
O desejo de evasão (“No chão sumir-se”) e a condição de existir “como faz um verme” remetem a planos plurissignificativos, simbolizando os seres mais insignificantes desse mundo e sua capacidade de se movimentarem, como também, designa a presença da morte.  O próprio título do poema, “Inscrição”, remete às pedras tumulares ou epitáfios, traduzindo o percurso da vida até a morte.

IMAGENS QUE PASSAIS PELA RETINA

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro, onde termina
Vosso curso silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são meus olhos abertos?
O espelho inútil, meus olhos pagãos?
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual dos meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.

No soneto “Imagens que passais pela retina”, o eu lírico faz uma série de questionamentos às imagens que vê. A importância atribuída aos “olhos” canal de interação com o mundo exterior percorrerá todo o poema.  Essa alusão aos órgãos dos sentidos, no plano da interpretação, remete às correspondências entre o mundo material e o mundo não-material, de natureza existencialista, apenas sugerido simbolicamente.
No primeiro verso, encontra-se o vocativo “Imagens”, signo que será indagado a responder por que de sua melancolia e existência. No segundo verso, o conflito existencial do eu lírico é confirmado pelas imagens efêmeras que passam por sua retina.
No primeiro quarteto, a não fixação das imagens é construída por meio de diversas imagens aquáticas, “água cristalina” e “lago escuro” representado pelo movimento contínuo da água que passa por uma fonte. Essas sugestões carregadas de imagismo proporcionam textos fundados sobre a ambiguidade, transitoriedade e fragmentação.
A imagem da fonte simboliza a uma constância sem retorno. A água metaforizando a retina segue seu percurso sem retrocessos, de forma fugaz. Dessa forma, a imagem da água corrente (“fonte”) funciona como símile (termo de comparação) para o fluxo das imagens e da fugacidade do tempo.
Na segunda estrofe as imagens surgem com um rumo definido, o lago, indicando um lugar “escuro” como símile da ausência desse fluxo, o nada a que elas se reduzem, certamente a morte. Por isso o “lago escuro” é dominado pelo “vago medo angustioso”.
É importante ressaltar que na mitologia greco-latina, o mundo da morte era representado com águas de rio ou lago.
Na terceira estrofe, os olhos sem as imagens que por eles passam, transforma-se em “espelho inútil”, porque já não mais reflete ou pela impossibilidade de retê-las.  Faz, então, que eles sejam associados não mais à “água cristalina”, logo se pensa no cristalino dos olhos, mas a seu contrário - “desertos”, na imagem múltipla e impressionante da privação de água e de vida: “aridez de sucessivos desertos”.
Pagão, em seu sentido próprio, indica o não-cristão, aquele que não é batizado. No poema, em sentido figurado, significa “sem fé, sem crença”, assim, os olhos sem imagens estão como que privados de fé, de crença.
O último terceto inicia-se com o verbo ficar no imperativo, seguindo a imagem da sombra das mãos e a flexão dos “dedos incertos” que exprimem o desejo de agarrar, de deter algo que as mãos possam agarrar, já que os olhos não conseguem fixar as imagens que vêem. No entanto, os movimentos das mãos são inúteis, inconsistentes, fugidios – “movimentos vãos”.  



 


3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o texto.Ajudou bastante na compreensão do poema.

Anônimo disse...

Gostei bastante ...
ajudou muito na compreensão ;)
obrigado !!

Anônimo disse...

Gostei bastante do poema. Acho que me fez perceber a verdadeira relação que temos com o mundo exterior, pois muitas vezes é difícil retermos na nossa alma aquilo que mais queremos e preservamos.

Sem dúvida uma análise bastante esclarecedora... Parabéns