sábado, 21 de janeiro de 2012

CAMPO GERAL, GUIMARÃES ROSA



JOÃO GUIMARÃES ROSA
(Cordisbusrgo, MG. 1908 – RJ. 1967)

“Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. (...) Escrevendo descubro sempre um novo pedaço de infinito. (...) Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que já vivi antes. (...) Amo ainda uma coisa dos nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.”

I – INTRODUÇÃO:



"Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo..."

       Guimarães Rosa, Campo Geral

Guimarães Rosa, nas primeiras edições do livro, ainda com o nome “Corpo de Baile” (1956, 2 volumes) na página introdutória, apresenta a indicação de "Sete Novelas", sob o título principal: no índice do primeiro volume, a obra vem definida como "poema"; no índice remissivo final, o autor atribuiu-lhe a designação de "romance".
Parece-nos que, propositadamente, quis evitar rotulações limitadoras a sua obra, preferindo que “Campo Geral” abrisse horizontes novos, perspectivas amplas e mais universalizantes, fugindo às classificações tradicionais.
A narrativa apresenta extrema organicidade, aproximando-se da estrutura do romance: existe um núcleo central narrativo, entremeado de digressões, descrições e dissertações inseridas, e aprofundamento psicológico principalmente na caracterização de Miguilim, personagem com densidade emotiva para a qual convergem as demais células dramáticas da narrativa (a insatisfação existencial da mãe, o ciúme e a brutalidade mal contida do pai, a trajetória épica e trágica de Dito...). Por outro lado, tal como ocorre nas novelas, o enredo compõe-se de uma sequência de ações desencadeadas a partir do relacionamento da personagem principal com as pessoas com as quais convive; a narrativa interrompe-se com a sugestão da partida do menino, num caso típico de final aberto.
O estilo impresso em imagens originais e de grande efeito poético, entremeado de aliterações, onomatopéias, ritmo característico, trabalho artesanal e sugestivo com a linguagem, aproxima a prosa da poesia, atribuindo características de "poema".

                                    II – ESTRUTURA:

O protagonista Manuelzão (Manuel Nardi - nascido em Dom Silvério, na Zona da Mata, Minas Gerais, a 6 de junho de 1904 – falecido em Andrequicé, distrito de Três Marias, a 5 de maio de 1977), órfão de pai e cozinheiro de tropa, ficou conhecendo o escritor quando era capataz das boiadas do fazendeiro Chico Moreira, primo de Rosa, e serviu-lhe como guia pelo sertão adentro, para que o escritor anotasse as histórias.
A obra, fruto desse encontro, é “Corpo de Baile”, dividida em três partes: “Noites do Sertão”, “No Urubuguaguá, no Pinhém” e “Manuelzão e Miguilim”, obra em questão.
A obra contém duas narrativas densas e independentes que tratam de cada uma das pontas da vida: "Campo Geral" (relato lírico da infância do menino Miguilim e da passagem para o mundo adulto) e "Uma Estória de Amor" (Festa de Manuelzão), a segunda, como se descobrisse repentinamente sua velhice, Manuelzão faz o balanço fundamental para quem está na meia-idade e se lança nos riscos das novas soluções para o que seria o "começo de metade de terminar".

                                    III - FOCO NARRATIVO:

“Campo Geral” é uma narrativa profundamente lírica, que traduz a habilidade de Guimarães Rosa para recriar o mundo captado pela perspectiva de uma criança. Se a infância aparece com frequência nos textos roseanos, sempre ligada à magia de um mundo em que a sensibilidade, a emoção e o poder das palavras compõem um universo próximo ao dos poetas e dos loucos, é em Miguilim, nome com que passou a ser conhecida a novela, que essa temática encontra um de seus momentos mais brilhantes e comoventes.
É uma espécie de biografia de infância, que alguns críticos afirmam ter muito de autobiográfico.

“Não gosto de falar de infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e, nem mesmo eu, ninguém sabia. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas.”

Apesar de a novela ser escrita em terceira pessoa, por um narrador onisciente, a história é narrada pelo ponto de vista do protagonista Miguilim e seu núcleo familiar, que, se de um lado, procura manter-se como observador dos acontecimentos; por outro, aproxima-se e destaca a figura do menino Miguilim, em uma postura de empatia tão marcante que, por vezes, o discurso de ambos termina por se confundir.
No processo criador e narrativo de Guimarães Rosa predomina a oralidade. Desta maneira a composição da estória se concretiza lenta e coerentemente, como se nascesse a partir das vivências de um menino sensível, delicado, inteligente, empenhado em compreender as pessoas e as coisas.

"Agora era o dia derradeiro. Hoje, ele devia de morrer ou não morrer. Nem ia levantar da cama. De manhã, ele já chuviscara um chorozinho, o travesseiro estava molhado. Morria, ninguém não sentia que não tinha mais o Miguilim. Morria, como arteirice de menino mau?"

                                    IV – ESPAÇO:

“   "Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra."

O mundo de que trata é o chamado sertão mineiro (norte de Minas Gerais, sul da Bahia e parte do Centro-Oeste), típico das narrativas roseanas, com espaço, personagens e linguagem característicos daquela região. No entanto, o sertão de Guimarães Rosa não se restringe aos limites geográficos brasileiros, ainda que dele extraia a sua matéria-prima. O sertão aparece como uma forma de aprendizado sobre a vida, sobre a existência, sobre a tentativa de refletir e conhecer aquilo que a condição do ser humano tem de mais essencial, não apenas do sertanejo, mas do homem. Assim, o trabalho criativo do autor sobre a linguagem e o desenvolvimento mito-poético das histórias eleva-o ao universal.
O espaço onde as ações ocorrem pode ser compreendido como um território marginal, primitivo, isolado de tudo, onde há lugar para a ingenuidade e onde indagações meio mágicas, meio naturais aparecem o tempo todo (é assim que Miguilim vive o seu lugar) representa, em suma, a infância, assim como as experiências de Miguilim representam fases do amadurecimento.
Por oposição ao Mutum, aparece à cidade grande, espaço que tanto pode representar algo de ruim (Liovaldo) como de bom (Dr. José Lourenço).

V – TEMPO:

A marcação do tempo na narrativa é imprecisa. Pode-se calcular em cerca de dois anos, considerando-se alguns registros do ciclo da natureza que aparecem na narrativa (o ciclo das chuvas, por exemplo). Mas o que predomina é o tempo psicológico; o redemoinho dos pensamentos de Miguilim que vão sendo anotados e perfazem um diário da infância, esvaindo-se a cada nova experiência, a cada novo enfrentamento do mundo e seus problemas.


VI – PROCESSOS ESTILÍSTICOS:

   “Não, não sou romancista; sou um contista de contos críticos. (...) Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo , extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia, ciência lingüística, foram inventadas pelos inimigos da poesia.”

-          Renovação da tendência regionalista assumindo de experiência estética universal. UNIVERSALIZAÇÃO

-          Fusão entre o real e o mágico, numa tentativa de justificar a existência humana, apresentando o homem dividido entre Bem X Mal, o Sagrado X Profano, aproximando-o do estilo Barroco – MITOPOÉTICO

   A palavra como instrumento – INSTRUMENTALISTA. A linguagem “roseana”, provém de suas e xperiências com outras línguas estrangeiras (no mínimo 18) , mais o domínio da linguagem arcaica, do português contemporâneo, do erudito e de suas anotações do falar do povo brasileiro, apresenta-nos um leque de significados e significantes:

-          Neologismos;
-          Popular;
-          Erudito;
-          Arcaísmos;
-          Aliterações e assonâncias;
-          Onomatopéias;
-          Rimas internas;
-          Metáforas, anáforas, metonímias;
-          Musicalidade;
-          Melopéia;
-          Repetições binárias ou ternárias;
-          Prosopopéias;
-          Antíteses e Paradoxos;
-          Trocadilhos;
-          Provérbios;
-          Excesso de pontuação;
-          Aglutinação de palavras;
-          Derivação imprópria;
-          Estrangeirismo.

“Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava tudo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda. (...)”
                                                      (Guimarães Rosa)


VII  – PERSONAGENS:

MIGUILIM: menino de oito anos, sensível, emotivo e ensimesmado. Gostava de inventar histórias. Sofre com a passagem da infância para a vida adulta. O mundo dos adultos, cheio de urgência e brutalidade, assustava-o. Tem pelo irmão mais novo, Dito, uma enorme afeição, vinda da cumplicidade entre eles e da admiração que sente pela capacidade do irmão de se situar no mundo com toda a esperteza. Sofre com a brutalidade do pai, que vê no seu ensimesmamento um orgulho sem razão de ser. Sua incapacidade de fixar-se nas coisas práticas do mundo explica-se, um pouco, pela sua miopia, só descoberta ao final da estória, quando completado o ciclo de crescimento/aprendizado/sofrimento, vai para a cidade grande.

DITO: melhor companheiro de Miguilim, é uma criança especial, inteligente, astuciosa, que sabe como penetrar no mundo dos adultos. Representa a sabedoria intuitiva das crianças, tão valorizada nas narrativas de Guimarães Rosa. Sua morte, devido ao tétano em decorrência de um ferimento no pé, é a mais triste experiência vivida por Miguilim. É dele a fórmula da sabedoria que orienta Miguilim ao final da estória: “a gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!”

IRMÃOS:

LIOVALDO, o mais velho de todos, mora na cidade, longe da família desde há muito; vem visitar a família com o tio com quem vive; é oposto do Dito, é maldoso e provocador; leva uma surra de Miguilim.
DRELINA (Maria Andrelina), irmã mais velha.
CHICA (Maria Francisca), de cabelos pretos como Miguilim
TOMEZINHO, o caçula.

A MÃE, NHANINA: mulher bela e triste, infeliz por ter de viver no Mutum. Seu casamento como Nhô Bernardo foi arranjado. Acaba envolvendo-se com o cunhado (Terêz) e mais tarde parece envolver-se com um sócio do marido, o Liovaldo. Essa relação não fica clara; pode ter sido fruto apenas dos ciúmes de Nhô Bernardo.

O PAI, BRNARDO/BÉRO: homem de “coração de osso”, nas palavras de Vovó Izidra; inflexível, bruto, às vezes, violento. Sua rusticidade choca-se com a sensibilidade de Miguilim. Ciumento, expulsa de casa o irmão, por pressenti-lo envolvido com a mulher; mais tarde, mata o sócio Luisaltino e, por causa dos remorsos, enforca-se. Apesar de tudo, era amado por Miguilim. Representa a figura paterna que é preciso superar para atingir a maturidade.

TIO TERÊZ: homem atencioso, alegre, que facilmente conquista a confiança e simpatia de todos, ao contrário do irmão. A fidelidade de Miguilim a ele desfaz-se quando se vê forçado a decidir pela entrega ou não do bilhete clandestino à mãe. As dúvidas do menino quanto à legitimidade daquele amor fazem-no negar o favor ao tio, que voltará mais tarde, para se casar com a mãe quando pai se mata.

VOVÓ IZIDRA: personagem que carrega o mistério e o peso da religiosidade rigorosa. Sua sabedoria ajuda Miguilim a transpor, vez ou outra, o medo do desconhecido e da morte.

MÃITINA: diziam que tinha sido escrava fugida, falava uma língua complicada; às vezes, bebia e exorbitava. Também carrega uma carga de misticismo mais “primitivo”; o ritual do “enterro” do Dito, que ela inventa, ajuda Miguilim a superar a dor da morte.

ROSA: empregada, dirige as mais belas palavras sobre Dito a Miguilim, consolando-o. É quem ensina o Papaco-o-Paco a falar.   

LUISALTINO: sócio arranjado pelo pai após a expulsão do Tio Terêz do Mutum; era amigo deste. Torna-se amigo-confidente da mãe. Acaba assassinado por Bernardo.

OUTRAS PERSONAGENS: a cachorrinha Cuca Pingo-de-Ouro, os cachorros todos, o gato Sossõe, o Papaco-o-Paco; os vaqueiros Saluz e Jé; a empregada Maria Pretinha; Seo Deográcias; Seo Aristeu; o Patori/Majéla; o tio Osmundo Cessim; o Grivo; o doutor José Lourenço.

VIII –  ENREDO DE “CAMPO GERAL”

Miguilim morava com sua família, em ponto remoto, no Mutum. Tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído dali, pela primeira vez: o Tio Terêz levou-o á cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava. Da viagem, ele guardava lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pode se esquecer; alguém, que já estivera no Mutum, tinha dito:

“- É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre...”

Sua mãe, que era linda e com cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente dos meses chuvosos...

”- Oê, ah, o triste recanto...”

Mesmo assim, enquanto Miguilim esteve fora padeceu tanta saudade, de todos e tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi assim que descobriu que umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava. Miguilim pedia sempre para o Tio Terêz molhar um lenço e todas às vezes que eles davam com um riacho, um minadouro, Tio Terêz, abaixava um copo de chifre, na ponta de uma correntinha e subia um punhado d’água. Mas nem sempre encontravam água pelo caminho, então o tio trazia uma cabacinha que dava para quatro sedes e dizia caçoando de Miguilim:

“- É para beber, Miguilim...Mas Miguilim preferia não beber e deixar para empapar o lenço...”

Miguilim gostava do Tio Terêz, irmão do pai. Quando voltou para casa, seu maior pensamento era que tinha uma boa notícia para dar à sua mãe: o que o homem tinha falado. A mãe com certeza havia de se alegrar, ficar consolada. Era um presente à ideia de poder trazê-lo assim de cor, como uma salvação, deixava-o febril até nas pernas. Não quis contar-lhe na presença dos outros e sofria mais com a demora. Quando finalmente, fez a revelação. A mãe não lhe deu valor, mas mirou triste o morro e disse:

“Estou sempre pensando que lá por detrás dele acontecem outras coisas, que o morro está tapando de mim, e que eu nunca hei de poder ver.”

Era a primeira vez que a mãe falava assunto sério com ele. No entanto, não podia concordar com sua mãe. Não porque Miguilim achava feio ou bonito o Mutum - nem sabia distinguir o que era um lugar feio ou bonito, mas, porque o homem não tinha motivo nenhum para mentir, ao contrário de sua mãe - agravada de calundu e espalhando suspiros, lastimosa.
Com a aflição de poder estar a sós com a mãe para lhe dar a notícia, Miguilim deve ter desgostado o pai sem querer.
O pai raivava:

“- Este menino é um mal-agradecido. Passeou, passeou, todos os dias esteve fora de cá, foi no Sucuriju, e, quando retorna, parece que nem tem estima por mim, não quer saber da gente...”

No dia seguinte, o Pai levou os irmãos de Miguilim para pescaria no córrego e deixou Miguilim de castigo, em casa. Mas Tio Tereêz, tinha bom coração, o ensinou a armar urupuca para pegar passarinhos.
Pegaram muitos sanhaços e depois soltaram, “porque sanhaço não é pássaro de gaiola.”

“- Que é que você está pensando Miguilim?” perguntou Tio Terêz.

  - Pensando em Pai...”, respondeu.

Tio Terêz não perguntou mais e Miguilim se entristeceu porque tinha mentido, pensava na realidade nos sanhaços, o que deviam sentir quando viam que estavam presos e separados dos companheiros...

“Relembrável era o Bispo - rei para ser bom, tão rico nas cores daqueles trajes, até as meias dele eram vermelhas, com fivelas nos sapatos, e o anel milagroso, que a gente não tinha tempo de ver, mas beijava de joelhos.”

Miguilim pergunta ao Tio Terêz o que ele acha do Mutum. Tio Terêz gosta de lá. Miguilim não era do Mutum. Tinha nascido mais longe, no Pau-Roxo, na beira do Saririnhém. De lá tinha poucas lembranças: uma beira de cerca, dum quintal, de onde um menino grande lhe fazia caretas. Tinha um peru que passeava e abria roda.
O menino-grande dizia:

“- É meu, é meu!
 Miguilim repetia:
- É meu, é meu! Só para agradar o menino-grande.”

O menino-grande atirou uma pedra em Miguilim e foi só correria. A mãe gritava que tinham acabado com o filho dela e Miguilim não podia enxergar, “uma coisa quente e peguenta escorria-lhe da testa.”

Esta lembrança se misturava com outra: uma vez ele estava nu, dentro de uma bacia, e seu pai, sua mãe, Vovó Izidra e Vó Benvinda traziam um tatu e com uma faca matavam o tatu, para o sangue escorrer por cima do corpo de Miguilim. Mais tarde a mãe lhe explicara que ele tinha estado muito fraco, saído de doença, e que o banho no sangue vivo do tatu fora para ele poder vingar.
Lembrava-se também de umas moças cheirosas, limpas que pegavam nele, davam-lhe algo para beber, deixavam-no engatinhar...Mas a mãe explicava que aquilo não havia sido no Pau-Roxo, e sim, nas Pindaíbas-de-Baixo-e-de-Cima, a fazenda grande dos Barbóz, aonde tinham ido de passeio.
Da viagem para o Mutum, lembra-se do carro-de-bois com toldo de couro e esteira de buriti, cheio de trouxas, sacos, que a gente brincava de esconder. Comiam sal, cocadas de buriti, doce de leite, queijo e um dos irmãos tomava leite de cabra, por isso a cabrita vinha presa à traseira do carro.

“Os cabritinhos viajavam junto com a gente e berravam pela sua mãe. Será que a cabrita não se cansava? O pai vinha á cavalo ao lado, Miguilim não se lembra se Tio Terêz também veio.”

Os irmãos voltam da pescaria e dirigem-se a ele.

"- Que é que você trouxe para mim, do S’rucuiú”? Chica perguntou.
 - Trouxe este santinho... Era a figura de uma moça recortada de um jornal.
 - Foi o Bispo que deu?
 - Foi. E prá mim? Reclamavam o Dito e o Tomezinho. Mas Miguilim não tinha mais nada...
 - Estava tudo num embrulho, muitas coisas...Caiu dentro do corgo, a água fundou...Dentro do corgo tinha jacaré, grande...
 - Mentira, você vai para o inferno! Dizia Drelina
 - Não, vou fui crismado. Vocês não estão crismados!
- Então como é que você chama?
- Miguilim...
- Bobo! Eu me chamo Maria Andrelina Cessim Caz, papai é Nhô Bernardo Caz! Maria Francisca Cessim Caz, Expedito José Cessim Caz, Tomé de Jesus Cecin Caz...Você é Miguilim Bobo...”

Tomezinho tinha quatro anos e queria saber sobre o jacaré, Dito brigava com Drelina por estar judiando de Miguilim, enquanto Chica, que correra mostrar o seu presente, voltava soluçando, dizendo que a mãe tinha rasgado o santinho, que aquilo era pecado...
Drelina era bonita; tinha cabelos compridos, louros. O Dito e o Tomezinho eram ruivados.  Miguilim e a Chica é que tinham cabelos pretos, igual ao da mãe. Dito se parecia com o pai e Miguilim era o retrato da mãe. Mas havia ainda um irmão, o mais velho de todos, Liovaldo, que morava na cidade com o tio Osmundo Cessim e ninguém se lembrava de suas feições. Tomezinho voltava com o papel picado em suas mãos.

                      “Tomezinho estava com mania de cachorro, escondia tudo.”

Tinha também os cachorros e eram tantos: o Gigão (o maior, preto, caçava até onça, brincava com os meninos e os defendia), Seu-Nome, Zé Rocha e Julinho da Túlia, ainda do Pau-Roxo, de quem o pai tivera ódio de umas pessoas, mas os chamava de Zerró e Julim. Também o Caráter, Catita, Soprado e Floresta e o perdigueiro Riobelo que já tinha morrido, por comer algum bicho venenoso.
Para Miguilim, em primeiro lugar, era a Pingo-de-Ouro, cachorra bondosa que não pertencia a ninguém e que gostava muito dele. Quando ele se escondia para brincar sozinho, ela aparecia, sem atrapalhar, sem latir, ficava perto, parecia que compreendia. Sempre magra, doente, cega e teve cachorrinhos. Todos morreram, sobrou só um e brincava com a mãe. Nunca Pingo-de-Ouro ficou tão feliz.
O filhote era da cor da Pingo, em amarelo e nhalvo, chovidinhos. Ele raspava a terra com que quisesse tirar do chão aquele cheiro bom de chuva, dava cambalhotas e mordia a cara da mãe. Quando Pingo pegava um galho, ele corria para tomar, latia bravinho, se ela o mordia forte. Alegrinho, não tinha vergonha de nada, quase nunca fechava a boca, até ria. Uma vez passaram uns tropeiros, o pai deu a cachorra que eles a levaram amarrada numa corda, o cachorrinho foi choramingando num balaio.
Miguilim chorou muito de tristeza, mas, alguém disse que aconteciam casos de cachorros doados, retornarem a sua antiga casa. Então, ele tomou esperança.

“Esperou até de noite, quem abriria a porta para ela, deveria estar com sede e fome. Depois pensava que ela não retornaria...Já estava cega. Então por que o pai a tinha dado a estranhos?
Miguilim era tão pequeno, com poucas semanas se consolava. Mas um dia contaram a ele uma estória do Menino que achou uma cuca no mato, cuidou da cuca e os outros a tomaram dele e a mataram. O menino triste vivia a cantar: Minha Cuca, cadê a minha Cuca? Aí a minha Cuca que o mato me deu!...Ninguém sabia o que era uma cuca.”

A história fez Miguilim lembrar-se da Pingo-de-Ouro e, a partir daí, passou chamá-la também, por Cuca.
Miguilim adorava Dito, seu irmão mais novo. Dito só tinha quatro anos, “era o menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas, Deus tinha dado a ele todo juízo. E gostava, muito, de Miguilim”.

Quando ocorreu a estória com a cachorrinha Pingo, Dito explicou ao Miguilim que era pecado ter saudade de cachorro, só para ele não chorar mais, pois toda vez que Miguilim chorava, “Dito pegava vontade de chorar junto”.

Dito vem avisar que o Pai estava batendo na mãe e xingando muito.

“- Pai, não quer que mãe converse mais com o tio Terêz”.
Miguilim entendeu tudo depressa, que custou para entender”.

Miguilim correu para a casa, tremia e soluçava muito. Colocou-se em defesa da mãe, que se encontrava ajoelhada, encostada numa mesa, com as mãos tapando o rosto.
Nhô Berno tirou o cinto e golpeou as pernas de Miguilim, “que doíam como queimaduras tantas. Quando pode respirar, estava posto no tamborete, de castigo. O pai pegara o chapéu e saíra.”

A mãe foi para o quarto chorar, quando isso acontecia, ela ficava doente. Ninguém ficou na defesa Miguilim, nem Vovó Izidra.
Vovó Izidra era magra, seca, não parava nunca de zangar com todos, por conta de tudo. Sempre quando batiam em algum, Vovó vinha ralhar em favor daquele. Depois, Vovó pegava a almofada e ia para o seu quarto escuro. Ela nunca abria a janela, mas enxergava tudo no escuro.
Dito de longe espiava Miguilim no tamborete, mas não vinha perto, para “Miguilim não penar de vergonha.”

“Aonde o pai teria ido? De estar de castigo Miguilim não se queixava, as dores nas pernas já iam acabando e até podia brincar de pensar. Gigão caminhava para a cozinha, e ninguém o tocava porque o pai dizia: “Ele salvou a vida de todos!” (dormia no pé da porta do quarto, uma noite latiu e acordou o mundo, era uma cobra enorme entrando uma urutu, o pai matou.). Estava calor e Miguilim tinha sede, não carecia de pedir água. Sempre que a gente estava de castigo, e precisava de pedir qualquer coisa, mesmo água, outros davam, mas, quem dava, achavam de falar alguma palavra de ralho, que avexava a gente mais. Reparou que na hora devia ter começado a fazer pipi, na calça, mas agora nem estava com vontade forte de verter. A mãe suspirava soluçosa, era um chorinho sem verdade. Miguilim esfregada um pé no outro, estava comichando, outro bicho-de-pé, quando crescia e embugalhava, ficava olhoso, a mãe tirava, com alfinete. A vovó Izidra vivia reclamando que menino tinha que andar calçado. Mas, ele só tinha um par de calçados, se crismara com ele, tinha também um par de alpercatinhas de couro-cru, o par de sapatos devia de ficar guardado. O Bispo era tão grande, na hora de beijar o anel, dava medo...”

Miguilim era o filho que mais ficava de castigo, mas a Chica era a que mais apanhava.

“A Chica tinha malgênio, capeteava, mordia as pessoas, não tinha respeito nem pelo pai. Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele de castigo pior, amarrado em árvore, na beirada do mato. Do mato vinha onça e Miguilim morria de estrangulação de medo. Só o pai de Joãozinho e Maria fazia dessas judiações, deixar os dois para desnortear no mato, porque não tinham de comer para dar a eles. Miguilim sofria pena, por Joãozinho e Maria, que voltava a vontade de chorar. “

Quando estava de castigo não podia conversar, mas o Dito aproximou-se de Miguilim e “vinha desfazendo de conta, falando baixinho.
 - Vai chover. O vaqueiro Jé disse que o pai subiu da banda da grota da Guapira, ou que deu a volta para ir no Nhangã, que estava muito jerizado, que é por causa do calorão que vai vir chuva, que todos estão com o corpo azangado, no pé de poeira.”

Miguilim não podia responder. Só aos mais velhos podia dar resposta de castigo, mas sorria de rabo-do-olho para Dito. E Dito continuava:

“- Eu acho que a gente não deve de perguntar nada ao tio Terêz, nem contar a ele que Pai ralhou com a Mamãe. Mãitina disse que tudo que há que acontece é feitiço. Eu vou perguntar a Vovó Izidra se você pode sair. Você está aí muito tempo...”

Mãitina tomava cachaça, falava bobagens, era velha, nem sabia qual era sua idade. Diziam que ela era negra fugida, debaixo de cativeiro, que a acharam caída na enxurrada, em um tempo em que Nhanina nem era nascida, portanto não era uma pessoa recomendável para conversar coisas sérias.
Chica aparece com uma mandioquinha enrolada nos trapos. Fala que era sua filha, punha até nome, abraçava, beijava, dava de mamar.
Chica aproxima-se de Miguilim e disse:

“- Miguilim, você é meu irmão, você deve de estar com sede, eu vou buscar caneco d’água. Um dia pai tinha zangado com a Chica, depois precisou de beber água e a Chica foi trazer, no meio do corredor, ela cuspiu dentro e mexeu com o dedinho, para Pai não saber que ela tinha cuspido. Chica era tão engraçadinha, menor que Drelina, mas era a que sabia mais brinquedos, cantava completas cantigas e dançava mocinha.”
Em seguida, escuta-se “voroço dos cachorros, tio Terêz vinha entrando. Trazia um coelho morto ensanguentado, de cabeça para baixo. Tio Terêz dizia:
- Ei, Miguilim, você hoje é que está alçado em assento, de pelourim?”

Tio Têrez convida Miguilim para irem à cozinha. Miguilim ignora o convite, então, Tio Têrez pergunta-lhe sobre sua mãe.
Nesse momento, Vó Izidra sai do seu quarto escuro e ao ver Tio Terêz, dá ordem para Miguilim sair do castigo. Na verdade, ela queria que Miguilim fosse para longe, não ouvir o que ela ia dizer ao Tio Terêz. Miguilim, no entanto, parou na porta e ouviu a conversa. Ela mandava que o Tio Têrez fosse embora, falava em questão de brigas e mortes, desmanche com as famílias.
Tio Têrez implorava ver Nhanina, queria se despedir, mas Vovó Izidra não permitia.

“Como mandar o Tio Terêz embora quando vinha aquela chuvarada. A Vovó falava braba, dava medo trás do que ouvia, que nem pragas. Ele tinha que ir embora de ligeiro, pai voltava por causa da chuva, podia sair homem morto daquela casa...Caim que matou Abel.”

Enquanto isso, na cozinha Rosa e Maria Pretinha estavam acabando de fazer o jantar.

“Tomezinho dormia no monte de sabugos, o gato fazia igual quase encostado em Tomezinho. Maria Pretinha tinha os dentes tão engraçados de brancos que de repente ocupavam assim muito lugar. O gato Quoquo. Quando Tomezinho era pequeno a gente ensina ele falar ga-to, mas ele, falava só Quo-quo. Não teve jeito não. O gato vivia só na cozinha, no quintal ou na horta. Lá os cachorras deixavam, mas se saísse para o pátio, dava correria. Porque não botavam nele nome vero de gato nas estórias: Papa-rato, Sigurim, Romão, Alecrim-Rosmanim ou Melhores agrados? Rei-belo...Também por Quoquo quase não o chamavam, gato era o que quase ninguém prezava.”

Começa chover e todos correm para o quintal, recolher roupas do varal.
“Vento forte, três homens estavam meio-tristes, fingiam meio-alegres, sem saber como voltar para as casinhas deles. Vento quebrou o galho do jenipapeiro e o jogou perto da casa. Trovão. Dito abraçou com Miguilim e disse:
- Por causa de mamãe, papai e tio Terêz, Papai-do-céu está com raiva de nós de surpresa. Miguilim, você tem medo de morrer?
- Demais Dito, eu tenho um medo, mas só se fosse sozinho. Queria a gente todos morresse juntos...
- Eu tenho...Não queria ir para o Céu menino pequeno.”

Miguilim sugere ao Dito mudar o nome do gato para Reibél e ele responde que não pode, porque seu nome já era Sossonho.
Dito acrescenta que um dia, o Pai falou:

“- O ano em que chove sucedido é ano formoso...?
Mas não fala essas coisas, Miguilim, nestas horas.”

Drelina chama todos para rezarem.

“Vovó Izidra acendia a vela branca, queimava ramos bentos e Santa Bárbara e São Jerônimo salvavam de qualquer perigo de desordem. Miguilim tinha fé. Uma vez ele tinha puxado o paletó de Deus. Era na hora do almoço, ele ia morrer por que tinha engasgado com um ossinho na goela. Nem deu tempo para ideia nenhuma, era só um errado total, morrer e tudo! Levantou-se, não pediu ajuda para o pai nem a mãe e em pé no banco, começou a se benzer: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...Des-de-repente, ele parecia que voava longe, o pai batendo em suas costas, a mãe dando água para beber, e ele se abraçava com todos, chorando livre, do ossinho.
A vó dizia:
- Que fé! Nunca mais Miguilim quis comer asa de galinha, pedia que nenhum irmão comesse, mas Dito comia escondido e Tomezinho e Chica comiam de propósito.”

Vovó Izidra ralava com Mãitina que estava encostada na cozinha, mascando fumo e rogando para os demônios dela, africanos.

“Mãitina era preta, de um preto-boi. Quando estava pinguda de muita cachaça, soflagrava umas palavras que a gente não tinha licença de ouvir, a Rosa dizia que eram nomes de menino não saber, coisas pra mais tarde. E daí Mãitana caía no chão, deixava a saia descomposta de qualquer jeito, as pernas pretas aparecendo.
Às vezes gritava:
- Cena, Corinta! batendo palmas-de-mão. A mamãe explicava que uma vez há muitos anos, ela tinha ido no teatro e no teatro tinha uma moça que dançava e chamava-se Corina. Mãitina nunca tinha visto nada mais bonito em sua vida.
- Que é que é teatro, mãe?
È como no circo-de-cavalinhos, quase...
Mas Miguilim não sabia o que era circo. É uma moça galopando em pé em riba do cavalo, e homens revestidos, com farinha branca na cara...Tio Terêz disse que era uma casa grande de pano...
Vem ajoelhar gente! Mãitina vinha mais rezava a reza que ela produzia, tudo resmungo, nem para falar direito não se compreendia.
- Véva Maria zela de graça, pega na Zesú põe no saco de mombassa.”

Vó Izidra fica braba com os meninos por estarem cochichando e manda Mãitina ir para cozinha, pois “lugar de feiticeira era debaixo dos olhos do fogo.”

Mãitina sempre obedecia, mas só quando não estava com raiva.

“Vovó Izidra tirava o terço e dizia que o demônio estava despassando nossa casa, rodeando, os homens já sabiam o sangue um do outro. Mãe pedia para a vó não dizer essas coisas perto dos meninos e ela respondia que as crianças tinham que saber. Que, só a inocência deles é que podia livrar-nos dos castigos brabos, pois o pecado tinha se firmado ali. Mãe abaixava a cabeça e não respondia. Parecia que Vovó Izidra tinha ódio da mãe.”

Na verdade, Vovó Izidra não era a mãe dela, era irmã da mãe dela.

“Mãe de mãe tinha sido Vó Benvinda. Vó Benvinda antes de morrer, rezava dia e noite, comia e ralava mole com os meninos. Um dia um vaqueiro contou pro Dito que Vó Benvinda quando moça tinha sido mulher-atoa. Mulher-atoa é que os homens vão em casa dela e ela quando morre vai para o inferno.”

E continuava:

“O demônio diligenciava de entrar em mulher, virava cadela de Satanás.”

Miguilim gostava de beijar e abraçar a sua mãe, até naquela hora tinha vontade. A Vovó era mais velha, com certeza,  morreria primeiro.
No oratório, guardavam os umbiguinhos secos de todos os meninos embrulhados e recosidos num saquinho de pano,“rato nenhum não pudesse roer, caso roendo o menino crescia para ser só ladrão.”
Os joelhos de Miguilim cansavam e descansavam, “doía era o corpo, um poucadinho só, quase não doía. Chica rezava mais bonito de todas. Drelina parecia uma santa. E os cachorros lá fora debaixo de tanta chuva! Sem os cachorros, como é que a gente ia poder viver aqui? Eles que tomavam conta das criações. Se não, vinham de noite bichos, lobo guará dos Gerais, raposas, gambá, onça...Jibóia vinha mesmo de dia, pegava galinha. Contaram que o Terentém, em antigos anos, uma jibóia entrou numa casa, já estava engolindo por metade um meninozinho pequeno, na rede...”

Miguilim e Dito dormiam no mesmo catre, perto da caminha de Tomezinho. As meninas dormiam no quarto dos pais.
Miguilim diz a Dito que fizera promessa para o Pai e o Tio Terêz voltarem depois da chuva e não brigarem mais. Dito diz que Pai volta, mas o Tio Terêz não. Miguilim pergunta-lhe como é que ele sabe disso. Dito responde que não sabe e que não gosta do Tio Terêz. Sabe que é pecado, mas ele não gosta e pronto. Miguilim diz que também não gosta de Vovó Izidra e sugere fazer uma promessa para ficar gostando de parentes. Dito explica que quando se tornarem adultos, passaram gostar de todos.
Miguilim argumenta que então, sempre haverá algum menino que não vai gostar dele e ele não vai poder saber. Dito fala que gosta de Mãitina e pergunta se ela vai para o inferno. Miguilim acha que sim, pois ela é feiticeira pagã e teme que um dia o Pai, a Mãe e a Vovó resolverem mandá-los embora no meio da chuva...Dito interrompe seus pensamentos e manda-o dormir, caso contrário, ele teria pesadelos.
Miguilim diz:

“- Dito, vamos ficar nós dois, sempre um junto com o outro, mesmo quando a gente crescer, toda a vida?
- Pois vamos.”

Dito e Tomezinho dormiam logo, Miguilim demorava, tinha medo do escuro.

“Não queria deitar de costas, porque vem uma mulher assombrada, senta na barriga da gente. Se os pés restassem para fora da coberta, vinha mão de alma friosa, pegava o pé. Onde estava o tio Terêz agora? Ele tinha ido embora sem se despedir dele.”

Miguilim lembra-se que um dia, o Tio Terêz levou-o para tirar taquaras e perguntou:

“- Miguilim, este feixinho está muito pesado para você?”

Miguilim disse:

“Tio Terêz, está não. Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca é pesado.
- Miguilim, você é meu amigo?
- Amigo grande, feito gente grande?
- Nós somos amigos.
- Miguilim, você tem mais juízo do que eu...
(...) Tio Terêz não parecia com Caim, parecia com Abel.”

Choveu até de manhã que não deu para secar o colchão do Tomezinho que tinha urinado na cama.
Nhô Berno voltou, almoçou e aparentava tranquilidade.
Pai dizia que Miguilim já estava no ponto de aprender a ler, de ajudar em qualquer serviço. Mas, ali no Mutum, não havia escola, sorte teve o Liovaldo, se criando na casa do Tio Osmundo Cessim, um irmão da Mãe, na Vila Risonha de São Romão. Miguilim não tinha vontade de crescer, de ser pessoa grande, a conversa das pessoas grandes eram sempre as mesmas coisas secas.
A família recebe a visita do Seo Deográcias e seu filho dentuço, o Majéla, apelidado de Patori.
Seo Deográcias falava tão engraçado: dinheirozinhozinho, contavam que estava excomungado, porque um dia tinha ficado agachado dentro de igreja. Ele era viúvo, morava na Vereda-do-Cocho e um grande conhecedor de remédios. Vivia visitando os doentes da região, principalmente depois das chuvas para ver se achava todos em casa. Às vezes, também efetuava cobranças.
Patori era um menino maldoso. A Rosa dizia que ele “tinha olho ruim, que quando a gente estava comendo, e ele espiava, a gente pegava dor-de-cabeça.”
Patori mostra uma bala doce para Miguilim, quando ele foi pegar, era só papel embrulhado numa pedrinha.

“- Enganei meu burrinho, com uma pedrinha de sal..”
Depois perguntava:

- “Sabe como é que menino nasce?”

Miguilim avermelhava, tinha nojo das conversas porcas do Patori.
Patori não queria brincar com os menores, dizia que ia casar-se com Drelina e com ela, deitaria na cama. Ensinava que antes de se chupar bala doce, eles deveriam passá-la no tamborete, onde moça bonita tivesse sentado, falava que a mãe de Miguilim tinha pernas bonitas, jogava lama em Miguilim...
Dito conta que o vaqueiro Salúz estava caçando o Patori, porque ele havia furtado uma argola de laço. Aí, Patori corria de medo.
Dito traz notícias sobre o Tio Terêz: segundo o vaqueiro Saluz, o Tio Terêz foi morar no Tabuleiro Branco e decerto trabalharia para Sa Cefisa, talvez casasse com ela, que era mulher enviuvada.
Chica chama Miguilim, como se fosse sua dona. O Seo Deográcias iria  examiná-lo.

“Tirava a sua camisinha e dizia que o estado do menino não era prá nada não senhor, a gente pode se guiar quantas costelinhas Deus deu a ele, cautelas. Ignorância de curandeiro é que mata. Um que desvê, descuidou háde-o, entrou nele a febre e prá passar a héctico é só facilitar de beirinha, o caso aí maleja...Mas que não tinham susto, ele passaria as ervas.”

A Mãe abraça Miguilim e o Pai protesta dizendo que o menino carecia de remédios e não mimos, porque mimos não curam ninguém.
O assunto desviou para a falta de segurança. Seo Deográcias reclamava da falta de providências para se pegar criminosos como Brasilino Boca de Bagre, que cercava as pessoas nas estradas, roubava tudo e chegou até a conduzir a mulher do Zé Ijim, emprestada por três dias, devolvendo-a somente quase um mês. Ele já estava escrevendo uma carta para o Presidente, só faltava ter um positivo que a levasse na barra, na Vila Risonha.
Nhô Berno sugere que já que Seo Deográcias “sabia escola”, poderia ensinar Miguilim e o Dito “algum começo, para eles não seguirem atraso de ignorância.”
Miguilim olhou para o Dito e pensou: o Dito sim, mas ele, não carecia, ia morrer mesmo de uma doença.  Então, disse ao Pai que não queria, “que mãe sabe, ela me ensina...
Pai nesse momento tinha desmudado, soável, risonho, ele gostava de mãe. Mãe era tão bonita, só para gostar dela, todo o mundo, ele afagava o cabelo de mãe e falava gracejado:
- Nhanina sabe as letras, mas ela não tem nenhuma paciência e não decora os números de conta de se fazer, então o mestre devia de ser Seo Deográcias.”

Miguilim acreditava que Seo Deográcias estava lá para pedir esmolas, no entanto, Dito explica que escutou que Seo Deográcias veio buscar  dinheiro para um homem da cidade e que o Pai não tinha.
Vovó Izidra gostava de Seo Deográcias e não aceitava Seo Aristeu. Seo Aristeu criava abelhas do reino, era bonito, alto, tocava viola, morava na Veredinha do Tipã, também entendia de remédios e a Mãe insistia que o chamassem.

“Então Miguilim estava mesmo de saúde muito mal, quem sabe ia morrer, nem queria comer, nem passear. Que bom para os outros que não estavam doentes. Antes tinha ido ao Sucuruji, crismado, visto tanta coisa. Todo mundo sabia que ele estava doente, conversavam. Podiam dar remédios feios, amargosos, remédio que doesse, ele tomava, na esperança que sarava. Ele mesmo queria ir para a casa de Seo Deográcias, lá ele podia tomar remédios toma a hora. Mas Seo Deográcias tinha mandado só aquele, que eram só jatobá e óleo de capivara. Agora pensava raiva dos irmãos e parentes, era um desconhecer deles. Ah, então, quem devia adoecer e morrer, em vez, devia ser o mano Liovaldo, que estava distante dali, nem se sabia dele quase notícias, nem nele não se pensava?”
                                                                                                                                                          
Agora, todas às vezes, que chovia, “chuvisco, faísca. Raio não podia se falar, porque chamava para riba da gente coisa má”, assim que trovoava, Miguilim procurava Vovó para rezarem. Nem era receio do trovão, a reza era só para ele conseguir não morrer, e sarar.
Ela respondia que aquela chuva não regulava de acender vela.

“Ser menino, a gente não valia para querer mandar coisa nenhuma.”

Restava, então ao Miguilim, rezar sozinho.

“A avó ralava para ele não andar molhando os pés no chão chovido. Que era que adiantava? Para um assim com má-sina. Entre uma chuva e outra, aparecia o arco da velha, menino que atravessasse virava menina e menina virava menino, será que desvirava? Ele tinha que sarar, perguntava quem sabe para Mãitina. Ela gostava dele. Mãitina ficava cozinhando tantas horas, aquele tacho grande, lá no cômodo pegado com a casa, o puxado, onde que era a moradia dela, uma rebaixa, em que depois tinham levantado paredes: o acrescente. Era sem luz, mesmo durante o dia só as labaredas mal alumiavam.
Um dia Miguilim chegou perto, tinha medo, se assustou vendo Mãitinha encoberta, toda preta, como se deve ser a morte. Mãitina colocou-o no colo, fez cantiga de ninar no seu atrapalho de linguagem e depois o levou até a porta da cozinha, xingando todos e apontando para ele. Mas foi só uma vez isso, e a gente de tudo não aguenta também de se lembrar. Ele carecia de assinzinho de socorro, mas Mãitina estava na bebedeira. A mal derradeiro deixavam ela tomasse quanto quisesse; porque estavam colocando na cachaça um pó de uma raiz, que era para era parar de beber. Mas, Mãitina bebia e rebebia, queria mais. A Rosa. Miguilim pergunta à Rosa:
- Rosa, que coisa é a gente ficar héctico?
- Menino, fala nisso não. Héctico é tísico, essas doenças, derrói no bofe, pessoa vai minguando magra, não esbarra de tossir, chega cospe sangue...”

Miguilim sofre com a ausência do Tio Terêz, se ele voltasse, poderiam conversar. Um dia o Tio falou:

“- Sanhaço pia uma flauta...
- Que é que é flauta?
O tio Terêz falava que era assovio feito de instrumento. Ele ia fazer uma para Miguilim. Mas, depois, de certo esqueceu, nunca ninguém tinha tempo, quase nenhum, de trabalhar era que todos careciam.”

Durante as brincadeiras de “pegador” com cavalinhos de pau que até nome tinham, Miguilim sentia temporariamente, dores de um lado do corpo.

“Não adiantava, ele ia morrer héctico, o remédio de Seo Deográcias não tinha dado certo.”

Miguilim teve uma ideia:

“Já que ia morrer, devia pensar feito gente grande. Carecia de pensar somente nas coisas que devia de fazer, mas o governo da cabeça era erroso e vinha era toda ideia ruim das coisas. Lembrou-se do Soande. Ele achou que estava completado e capaz de navegar para o céu. Dispôs de tudo que tinha, subiu numa árvore e se soltou para voar. Decaiu lá de riba no chão e muito se machucou.
Dito tinha ido perguntar o dia. Era onze. A Rosa falou que essa folhinha não era boa, carece de arranjar folhinha de desfolhar de tão bonitos quadros. Miguilim tinha pegado um pensamento e saiu de perto do pessoal. O vaqueiro Jé disse para o Dito deixá-lo ir que Miguilim ia amarrar o gato. Miguilim tinha mentido de propósito. Era o único jeito de ficar sozinho. Podiam rir dele, ficava atrás das árvores, com as calças soltadas, acocorado, fingindo. Mas livre de todos. Já que tinha que morrer, combinava com Deus um prazo: três dias. Dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados, os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente. Mas três dias era curto demais. Então, dez dias, dava espaço para principiar uma novena. Deus aprovava. Voltou para junto e agora ele se aliviava que podia até brincar. Miguilim pediu para o vaqueiro Jé fazer a conta dos dez dias. Ninguém estava entendendo nada. Jé perguntou se ele tinha marcado data de casamento. Ele só podia ser uma pessoa esperdiçada para fazer brincadeiras com o seu problema.”

Um dia Rio-Negro avançou contra as crianças. As pessoas grandes gritavam que as crianças estavam mortas. Mas, Gigão salvou-as e agora, quando se matava galinha, assavam o papo e as tripas e, davam para ele. Já tinham passados dois dias e por motivo nenhum, tinha deixado de principiar a novena e não sobrava mais tempo.

“Deus Jesus como é que ia ser? Não ia fazer mais artes. Só tinha trepado com o Dito na árvore dos tentos. Tomezinho não sabia subir e ficava fazendo birra em baixo, xingando nome feio.
- Não xinga, Tomezinho, é Mãe que você está ofendendo!
Precisavam ensinar a ele, outros nomes de se xingar.”

Ao descer da árvore, Miguilim escorregou, um galho partiu, ele bateu no chão e rasgou a calça. Pai chegou deu pito e fez Miguilim ficar nu, de propósito, até Mãe acabar de costurar. Miguilim morria de vergonha, se não fosse pecado teria raiva enorme de pai, ou até de Dito, porque ninguém o colocava de castigo.

“Dito fazia tudo sabido, e falava como as pessoas grandes sempre justo.”

Nhô Berno sempre reclamava de sua vida, que “era pobre, em ponto de virar miserável, pedidor de esmolas, a casa não era dele, o trabalho era demais, e só tinha prejuízo sempre, acabava não podendo nem tirar para sustento de comida da família. Dava vergonha no coração da gente, quando assim o pai falava.”

(...)

“Mas por que não cortaram aquela árvore de pé-de-flor, de detrás da casa, que Seo Deográcias tinha falado? A mãe disse que não cortava, que não daria esse prazer a Seo Deográcias. Miguilim chegou para o Dito e falou que alegria dele seria se um vento forte derribasse com a árvore-de-flor.”

O Dito esperou ficar sozinho, chamou o vaqueiro Salúz e disse que o Pai tinha mandado, ele derrubar àquela árvore. Quando os outros viram, ficaram assustados, diziam que o Dito ia apanhar de tirar sangue.
Pai chegou, chamou o Dito:

“- Menino, eu te amostro!
Que foi que mentiu, que eu tinha mandado sentar facão na árvore de flor?
- Pai, se a árvores danasse de crescer, mais o senhor é que é o dono da casa, agora o senhor pode bater em mim, mas eu por nada não queria que o senhor adoecesse, gosto de senhor, demais...” 


Pai abraçou Dito, dizia que ele era corajoso e com muito sentimento.
Dito chamava Miguilim para brincar e ele negava; então, Dito não chamou mais e Miguilim achou que Dito não gostava mais dele.
Faltavam só três dias...Miguilim ficava dentro de casa, perto da mãe, perto das meninas, queria que tudo fosse igual ao igual. Quando salivava, queria saber se já sobrava o gosto de sangue.

“- Qu’é qu’isso, Miguilim? Larga de mania feia!
Os dias não cabiam no tempo...Tinha que rezar montão de rezas, mas principiava e não conseguia, não aguentava, nervosias...De repente, Miguilim viu que estava recordando aquelas conversas do Patori. A coisa do boi chama verga. A do cavalo, província, pendurada, enorme, semelhando um talo de cacho de bananeira, sem o mangará. Tinha até vontade que o Patori voltasse para perguntar desordens. Patori falava que podia ensinar muitas coisas, que o homem fazia com mulher, de tão feio tudo era bonito.
Ele Miguilim é que ia se casar com Drelina - mas irmão podia casar com irmão?
Tinha vergonha. Miguilim pergunta a Dito se ele já teve alguma vontade de conversar com o anjo-da-guarda?
Dito responde que não pode. Se puder, vai pro inferno.
- Dito, eu às vezes tenho uma saudade de uma coisa que eu não sei o que é, nem donde, me afrontando...
- Deve não, Miguilim, descarece. Fica todo olhando para a tristeza não, você parece á mãe.
- Dito você ainda é companheiro meu? De primeiro você gostava de conversar comigo...
- Que eu que eu gosto, Miguilim. Demais. Mas eu quero não conversar essas coisas assim.
- Você quer me ver eu crescer, Dito? Eu viver, toda a vida, ficar grande?
- Demais.
- A gente brincar muito, tempos e tempos, de em diante crescer, trabalhar, todos, comprar fazenda muito grande, pra nós dois!”

Chegado o “dia previsto” para sua morte, Miguilim não tem vontade de se levantar da cama.

“De manhã, ele já chuviscara um chorinho, o travesseiro estava molhado. Morria e ninguém não sentia que não tinha mais o Miguilim. O dia era grande será que ele ia aguentar de ficar o tempo todo deitado.
- Miguilim, Mãe está chamando todos! É p’ra catar piolho...
Miguilim não ia, não queria se levantar da cama.
- Que é que está sentindo, Miguilim? Está doente, então tem que tomar purgante...
(...)
A mãe vinha ver:
- Melhor se dar logo o sal-amargo a ele senão o Bero vem, ele pensa que remédio para menino é doses, feito bruto prá cavalo...Mas Miguilim estava chorando simples, não era medo de remédio, não era nada, era só a diferença toda das coisas da vida. Só Drelina que adivinhou aquilo e veio sentar na beira da cama.
- Miguilinzinho, meu irmãozinho, fala comigo por que é que você está chorando, que é que você está sentindo dor?
Drelina pegara uma das mãos dele, de junto carinhava Miguilim, na testa. Drelina era bonita de bondade.
- Sossega, Miguilim, você não está com febre não, cabeça não está quente...
- Drelina, quando eu crescer você casa comigo?
- Caso, Miguilim demais.
- E a Chica casa com o Dito, pode?
- Pode, decerto que pode.
- Mas eu vou morrer, Drelina. Vou morrer hoje daqui a pouco...Quem sabe, quem sabe, melhor ficasse sozinho – sozinho longe deles parecia estar mais perto de todos de uma vez, pensando neles, no fim, se lembrando, de tudo, tinha tanta saudade de todos. Para um em grandes horas, todos: Mãe, o Dito, as Meninas, Tomezinho, o Pai, Vovó Izidra, Tio Terêz, até os cachorros, o gato Sossõe, Rosa, Mãitina, vaqueiro Salúz, o vaqueiro Jé, Maria Pretinha...Mas, no pingo da horinha de morrer, se abraçado com a mãe, muito, chamando pelo nome que era dela, tão bonito: - Nhanina...
- Mãe! Acode ligeiro, o Miguilim está dando excesso!”

Dito sai correndo e trás o Seo Aristeu. O bonito “médico” faz brincadeiras engraçadas, enquanto examina Miguilim. Diz-lhe que ele tinha nariz, boca, umbigo...e que ia morrer daqui uns setenta anos.

“- Então, eu não estou héctico?
- Bate na boca por bestagem tão grande, nunca ouvi outra maior. Tísica nem não dá, nestes Gerais.”

E, continuava a divertir a criançada com suas histórias.
Dizia, “se a gente vê um ruivo espirrar três vezes seguidas, e ele estando com facão, e pedir água de beber, mas primeiro lavar a boca e cuspir - então, desse, nada não se queira, não!”

Miguilim comeu tanto, que até deu fraqueza e ficou todo suado.
Pai chegou e ao saber do acontecido disse:

“- Miguilim carece de render exercício labutando, amanhã ele leva almoço meu na rocinha. Miguilim gostou disso, afinal, pai estava achando que ele tinha préstimo para ajudar e pai tinha falado com ele sem ser ralhando.”

Miguilim falou para Chica que queria aprender dançar, ela respondeu que ele não aprenderia, pois a Rosa havia dito que, “ele nasceu em dia de sexta com os pés no sábado: quando está alegre por dentro é que está triste por fora.”

No outro dia, Mãe e Rosa arrumaram a comida do Pai num tabuleirinho de madeira. Dito não podia acompanhá-lo, porque dois meninos juntos fazem arte. Miguilim ia contente, levava destino. Tinha que passar num pedaço de mato, não curtia medo, estava tão perto de casa...Não podia ter medo, carecia de se ter uma obrigação.

“O Pai estava lá, capinando, um sol batia na enxada, relumiava. Tudo estava direitim direito. Miguilim gostava do pai, gostava até pelo barulhinho d’ele comendo o de comer. Pai não conversava.
- Pai, quando o senhor achar que eu posso, eu venho também, ajudar o senhor capinar roça...
Pai não respondia. Miguilim tinha medo ter falado bobagem faltando ao respeito. Na volta ele contaria uma estória ao Dito, inventada de juízo. Não tinha medo, era só um matinho bobo...de repente um vulto...era o tio Terêz.
- Tio Terêz eu não vou mais morrer!”

Tio Terêz pedia notícias de todos de casa, principalmente sobre Nhanina.

“- Miguilim, você alembra um dia a gente jurou ser amigos, de lei, amigos de verdade? Eu tenho confiança em você...Você vai, Miguilim leva, entrega isto aqui à Mãe, bem escondido, você agarante? Diz que ela pode dar a resposta a você, que amanhã estou aqui, te espero.”

Miguilim nem paz, nem tempo teve. Tio Terêz sumiu entre as árvores e Miguilim sumiu o bilhete na algibeira. Voltou para sua casa, totalmente transtornado.

“- Miguilim que sucedeu? Por que está com cara em ar? Você está escondendo alguma arte?
Dito intercedeu por Miguilim e disse que ele teve que passar pelo matão e ficou com medo do capeta. Miguilim perguntou a Dito por que inventou aquilo.
- É porque do capeta todos respeitam, até vovó Izidra.”

Miguilim não podia contar nada a ninguém, nem a Dito e, também não podia entregar o bilhete à Mãe, era judiação com o Pai. Além de poder ocorrer mortes.

“Rasgava o bilhete, jogava os pedacinhos dentro do rego, rasgava miúdo.”

Entretanto, ele tinha prometido ao Tio Terêz? Podia estar escrito coisas importantes, o Tio estaria esperando no outro dia...Miguilim lembrava-se da frase: “amigos de todo guerrear..” Decidiu que fingiria estar doente para não levar comida ao Pai, no dia seguinte.
O vaqueiro Jé deixava a gente montar, em pêlo. O Dito montava no Papavento e Miguilim no Preto, que era preto mesmo, mas a Mãe queria mudar o nome dele para Diamante.

“- Dito, pai é dono de mandar nisso tudo?
Pai é dono nenhum, o gadame é dum homem, Sô Sintra, só que pai trabalha ajustado em tomar conta, em parte com o vaqueiro Salúz.
- Dito, mesmo você acha, eu sou bobo de verdade?
- É não Miguilim, de jeito nenhum. Isso mesmo que não é. Você tem juízo por outros lados...
- Dito, como é que a gente sabe certo como não deve de fazer alguma coisa, mesmo os outros não estando vendo?
- A gente sabe, pronto.
- Rosa, quando é que a gente sabe que uma coisa que vai não fazer é malfeito?
- É quando o diabo está por perto.
- Mãe, o que a gente faz, se é mal, se é bem, ver quando é que a gente sabe.
- Ah, meu filhinho, tudo o que a gente acha muito bom mesmo fazer, se gosta demais, então já pode saber que é malfeito.
- Vaqueiro Jé; malfeito como é, que a gente se sabe?
- Menino não carece de saber, Miguilim. Menino, o todo quanto faz, tem de ser mesmo é malfeito.
Miguilim perguntou para o vaqueiro Salúz.
- Nisso nunca imaginei. Acho quando os olhos da gente estão querendo olhar para dentro só, quando a gente não tem dispor para encarar os outros, quando se tem medo das sabedorias.
Dito fala para Miguilim que tudo quanto há, antes de se fazer, às vezes é malfeito; mas depois que está feito e a gente fez, aí tudo é bem feito...” 

À tarde, os irmãos foram brincar de jogar malha. Miguilim perdeu todas as jogadas, pois não conseguia enxergar direito o toco, preocupado com o bilhete no bolso e lembrando-se de sua conversa com o Dito.

“Quando o Dito falou aquilo devagar ainda podia parecer justo, o Dito sabia tanta coisa, tirada de ideia. A coisa mais difícil que tinha era a gente poder saber fazer tudo certo, para os outros não ralharem, não quererem castigar.”

Miguilim sempre teve medo de bois e um dia, o Pai explicou-lhe que era por isso que o gado o estranhava, “rês sabe quando um está com pavor, capaz mesmo que até mansa vira brava.” 
Um dia, Miguilim resolveu enfrentar seu medo, afinal se “a gente não tivesse medo não tinha perigo, não se importou mais, andou logo por dentro da boiada. Daí foi um susto, os vaqueiros vieram socorrê-lo e passaram um enorme ralho.”

Miguilim pede a Chica para chamar a Mãe para ver tanta beleza dos vaga-lumes. A Mãe gostava, falava, afagando os cabelos de Miguilim:

“- O lumêio deles é um acenado de amor. Um vaga-lume se apaga, descendo ao fundo do mar.
- Mãe, que é que é o mar, mãe?
- Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d’água sem fim.
Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava.
- Pois, mãe, então mar é o que a gente tem saudade?”

Na hora de dormir, Dito lembra que Miguilim não havia despido a calça.
Miguilim responde que está cansado. Dito insiste que ele lave os pés, “quem se deita em estado sujo, urubu vem e leva. Miguilim diz que é nu que não se pode deitar, anjo da guarda vai s’embora, mas a calça a gente pode não se tirar.“

Depois, acrescenta que não tiraria a calça naquela noite, porque tinha feito promessa.

“O que primeiro dormia, adormecia. O outro herdava os medos, e as coragens do mato, do Mutum, das almas, dos lobisomens, do Pitorro. Um tropeiro, sozinho, esbarrava no campo, sentado num barranco, homem velho, barbim, barrigudo, peludo, ficava assoviando.
O homem perguntava se o tropeiro tinha fumo e palha, mas ele mesmo secundava da algibeira um cachimbo que tinha e perguntava: - O sr. conhece o Pitorro? E ia crescendo, transformava um monstro Homem...Com Deus me deito, com Deus me levanto, jaculava Miguilim e nada de adormecer.”

No dia seguinte, o Pai estava capinando em outra roça. Era mais longe, mas o caminho era o mesmo. Lá estava o tio Terêz esperando.
Miguilim, primeiramente, pensou em mentir que entregou o bilhete e que a Mãe não quis responder,  rasgou-o com medo que a Vovó Izidra tomasse-o de sua mão; depois, pensou inventar que perdeu o bilhete quando andava á cavalo, mas com isso, corria o risco dele escrever outro.

“Miguilim rezava alto, as lágrimas esparramavam na cara.
- Tio Terêz eu não entreguei o bilhete, não falei nada com a mãe, nem com ninguém.
- Mas, por que Miguilim? Você não tem confiança em mim?”

Tio Terêz recolheu o bilhete do bolso de Miguilim, releu-o, limpou as lágrimas do menino e pediu para ele parar de chorar. Disse que ele era um menino bom e direito. Desculpou-se e pediu que não o quisesse mal.
Tio Terêz só queria dar adeus, pois ia executar viagem muito distante. Despediu-se de Miguilim e sumiu.

“Miguilim por um instante se alegrou. Mas o mato mudava bruto, mais mato se fechando, devia de ter passado o ponto da roça nova. Esbarrou. Tinham mexido em galho, vulto de vaqueiro, encourado, acompanhado de outro, desordem, ameaça, disse-disse, muitos olhos estalavam...Miguilim não aguentou mais, tiçou o tabuleiro no chão e abriu correndo de volta, aos gritos de quero mãe, pai. De supetão, o pai aparecido. Miguilim gritava, junto com o pai tinha outro moço, sem barba que pegava na mão de Miguilim e ria para ele.”

 Eles foram espiar. Miguilim vinha caminhando, meio atrás deles. Quando chegaram, descadeiravam de rir: eram macacos. Miguilim entendia, juntou as pernas e baixou á cara, Pai agora ia matá-lo, por ter perdido o caráter e o almoço. Mas o Pai rindo, sem zanga verdadeira disse:

“- Miguilim, você é minha vergonha! Mono macaco pode mais do que você, eles tomaram a comida de suas mãos. Não faz mal, ia começar a chover, careciam mesmo de voltar para casa. Pai contava tantas às vezes a estória e todos riam muito:
- Miguilim se encontrou com padrinho Simão, correu ensebado, veadal...
Chorou a água de uns três cocos...e caçoava...Não tinha problema, queria era mesmo ficar sozinho com o Dito.
- Dito, você sabe que quando a gente reza, reza, mesmo no fogo do medo, o medo vai s’embora?
- Mas você não correu dos macacos?
Agora via que nisso não tinha pensado; não podia contar ao Dito a respeito de tio Terêz. Cão de que tinha que ficar calado.
- Então, quando você está com medo, você também reza, Dito?
- Rezo baixo e aperto a mão fechada, aperto o pé no chão, até doer.
- Por que será, Dito?
- Eu rezo assim. Eu acho que é por causa que Deus é corajoso.
O Dito, menor e sabia em adiantado as coisas, com uma certeza. Ele, Miguilim, mesmo quando sabia, espiava na dúvida, achava que podia ser errado. Dava raiva, aquele juízo sisudo, o poder de Dito, de saber e entender, sem as necessidades.”

Vaqueiro Salúz encontrou-se com Seo Deográcias e ficou sabendo que o Patori havia assassinado um rapaz, lá do Cocho. Fazia dias. Seo Deográcias estava de luto, envelhecido e pedia às pessoas, que não castigassem seu filho.

“Patori não queria assassinar, só que estavam experimentando arma-de-fogo, a garrucha disparou, o rapazinho morreu depressa demais. O Patori fugiu, devia estar vagando campos. Seo Deográcias pedia a todos, para cercarem sem brutalidade. Mandaria para a marinha em Pirapora, onde davam escola de dureza para meninos apoquentados.”

Luisaltino veio morar por uns tempos para auxiliar o Pai na roça, quando bebeu água, bochechou, com um gole e botou fora.

“- Será que tinha facão?”

Miguilim, imediatamente, lembrou-se da conversa com Seo Aristeu. Devia avisar o Dito.
Chica tinha perdido um dente (“Mourão, mourão, toma esse dente mau, me dá um dente bom”).
Drelina olhava muito para o Luisaltino (moço muito bonito apessoado) enquanto, Tomezinho estava no alpendre conversando com um menino chamado Grivo, que tinha entrado para se esconder da chuva.
Grivo era um menino muito pobre, quase não tinha roupa, de tão remendada que estava. Ele não tinha pai, morava sozinho com a mãe, no Nhangã.

“Diziam que pediam esmolas. Mas, Grivo não era pidão. Mãe dava a ele um pouco de comer, ele aceitava.”

Miguilim perguntava se ele não tinha medo, afinal Patori matou um e estava solto, por aí. O Grivo contava umas estórias diferentes e a gente logo começava a gostar dele. Ele disse que queria ter um cachorro, mas a mãe não deixava, porque não tinham de comer para dar. Mas eles tinham galinhas.

“- Sem cachorro para tomar conta, raposinha não pega? Dito perguntava.”

Miguilim queria saber se chovia dentro da casa dele.

“O Grivo tossia muito, será que ele não tinha medo de morrer?”

Miguilim comenta com Dito, que vai pedir para o Pai não deixar Luisaltino morar lá.

“Dito diz que Luisaltino não é ruivo, o Pai que é ruivo.”

Miguilim falava pro Grivo que a cachorra mais saudosa deste mundo era a Cuca Pingo-de-Ouro e que o Grivo devia tê-la conhecido. Quando Luisaltino veio para ficar de vez, trouxe um papagaio chamado Papaco-o-Paco. Ele cantava:

“Olerê lerê lerá, morena dos olhos tristes, muda esse modo de olhar...”
                                                                                                                                                   
Miguilim agora levava comia para o pai e para o Luisaltino. Não pensava mais no Tio Terêz e nem nos macacos. O Papaco o Paco era da Chica, mas ele gostava mesmo era da Rosa.
Luisaltino conversava sozinho com a mãe. O Dito escutou e contou que ele conhecia o Tio Terêz. Aqueles dias passaram muito bonitos.

“O Pai ficava todo o tempo na roça e era bom para a gente, quando pai não estava em casa.”

Vaqueiro Salúz pegou um mico-estrela, que passou a morar numa cabacinha atrás da casa.
Dito conta que viu o vaqueiro abraçado com Maria Pretinha.

“Miguilim começou a contar estórias tiradas da cabeça dele mesmo. Mãe disse que Miguilim era muito ladino, depois que Dito também era. Tomezinho chorou porque não falou dele. Um dia Vovó Izidra foi dormir na Vereda do Bugre, para servir de parteira; sem a Vovó em casa, a casa ficava mais alegrada. E veio a notícia meio triste: tinham achado o Patori morto, parece que morreu de fome. Pai largou o serviço e foi ao Cocho visitar Seo Deográcias. Sem Pai e sem a Vovó, o dia ficou mais bonito.”

Era noite de lua cheia e a Mãe anunciou que fariam um passeio.

“E fomos subindo lá dos coqueiros. Mãe ia á frente conversando com Luisaltino. A Chica trouxe uma boneca, Drelina cantava as cantigas, Maria Pretinha conversava com o vaqueiro Jé, até os cachorros vinham. Mãitina ficou em casa, mas ganhou um gole de cachaça. Vaqueiro Salúz comentou que o demônio que tinha entrado no corpo do Patori; aí Dito perguntou se Deus também não entrava no corpo das pessoas, mas o vaqueiro Salúz, não sabia. Dito não gostava de conversar sobre o Patori morto. Ficava a olhar a lua. 
Lua era a lugar mais distanciado que havia, claro impossível de tudo. Uma hora Luisaltino falou para a mãe que era judiação os pais que casavam suas filhas muito meninas e não deixavam elas escolherem o noivo. Miguilim queria que a mãe conversasse com ele, com os irmãos. A gente olhava a mãe, imagina saudade.
- Mãe, a gente então nunca vai poder ver o mar?
O Dito afirmou:
- Acho que nunca!
A gente é no sertão. Então por que é que você indaga?
Nada não, Dito. Mas às vezes eu queria avistar o mar, só para não ter uma tristeza. Quando avistaram os coqueiros, mãe falou que gostava deles, porque eles não eram dos Gerais.
Quando voltamos não precisamos beber café forte, pois quem bebia aquele café desgostável, era só o Pai e a Vovó.”

De manhã outra felicidade. Rosa tinha ensinado o Papaco o Paco a falar:
“- Miguilim me dá um beijim.”

Até Mãitina veio admirar. Colocou o nome nele de Quixume, depois levantou a saia e punha a dizer louvores.
No entanto, em seguida, vieram as desventuras: Salúz perdeu um pé de espora no campeio; Siarlinda encontrou dinheiro que Salúz tinha escondido dela, em um buraco na parede; um tamanduá estraçalhou Julim; Pai adoeceu da perna; marimbondo ferrou Tomezinho; Miguilim quis acariciar o touro Rio-Negro e levou uma levantada que quase quebrou os ossos de sua mão.
Miguilim gemia de dor e Dito disse que o touro era burro. Miguilim entendeu que Dito queria era mexer com ele e partiu para bater em Dito.

“- Cão! Cão! e rolaram no chão. Quando Miguilim percebeu o que estava fazendo, parou de bater e deixava o Dito bater nele. Dito se levantou e foi embora. Decerto pensara que Miguilim estava ficando doido. Quem sabe estava? Sentiu vergonha. Carecia de chorar, de rezar e se Dito não perdoasse de ligeiro? Então resolveu sentar-se no tamborete de castigo dado por si próprio. O Dito o procurou para brincar e não quis falar na briga. Quando Miguilim perguntou se Dito não guardava raiva dele, ele respondeu que Miguilim tinha feito aquilo sem pensar, só por causa da dor que estava doendo. Miguilim tinha botado a mão no touro para fazer carinho.
- Por que pessoas e animais não pagavam sempre amor-com-amor? Por que o touro tinha repontado com aquela brutalidade? Será que o Rio-Negro tinha demônio no corpo com o Patori?
De noite Dito formulava a resposta:
- O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom.
- E os outros, Dito, a gente mesmo?
O Dito não sabia. A gente cresce, uai.”

Na madrugada todo mundo acordou cedo: Maria Pretinha tinha fugido com o vaqueiro Jé. Rosa xingava e dizia que Maria Pretinha tinha ela “rabo quente.”

“O vaqueiro Jé era branco, sardal, como é que foi namorar completo com Maria Pretinha? A Rosa também era branca, mas era gorda e meia-velha, não namorava com ninguém. Dito foi espiar a coruja na Laje da Ventação. Miguilim não quis ir. Ninguém gostava de passar ali, que é perigoso: por ter espinho de cobra, com os venenos. Dito contou que foi lá porque sabia do lugar onde o vaqueiro Jé namorava a Maria Pretinha, mas não estavam mais lá.”

No dia seguinte o mico-estrela fugiu, na perseguição, “Dito pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé, na cova do pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo e subia da outra banda. Miguilim ficava tonto de ver tanto sangue. A Rosa carregou o Dito, lavaram o pé dele na bacia, a água ficava vermelha só sangue.”

Vovó espremia no corte talo de bálsamo da horta, amarraram um pano em cima de outro, muitos panos...Miguilim queria ficar perto de Dito, mas ele mandava Miguilim verificar todas as coisas que estavam acontecendo.

“- Como o mico estava? A vaca Bigorna vai dar cria hoje?
(...)
- Vovó Izidra a senhora vai fazer o presépio?
- Daqui a três dias, Dito eu começo.”

O Dito não conseguia caminhar, só podia pulando num pé só, mais doía. Dito melhorou, porém tornou a endefluxar e surgiram as dores nas costas e na cabeça. Dizia que estavam enfiando um ferro em sua cabeça.
Luisaltino montou á cavalo e passados alguns dias, voltou com um remédio para curar dor. Vovó amarrou folhas-santas amassadas, na cabeça do Dito.
Rezávamos. Decidiram dar um gole de água com cachaça a ele, mas ele tinha muita febre e vomitava demais. Vovó veio dormir no quarto, transferiram o Tomezinho para o quarto de Luisaltino. Miguilim insistiu ficar com o Dito, então, estenderam uma esteira no chão, porque o Dito carecia de dormir sozinho no catre.
O Dito gemia e a gente ouvia o barulhinho da Vovó repassando as contas do terço. No outro dia ele estava melhorando, só que tinha soluço, queria beber água-com-açúcar. Miguilim não saía de perto de Dito e a Vovó principiara o presépio.
Dito não podia ajudar na arrumação e “Miguilim gostava de não ir também, mesmo quando Dito tinha sono. Agora Dito queria dormir quase todo o tempo. Chica, Tomezinho e Bustica (filho do vaqueiro Salúz) ficavam vendo o presépio.
- Vocês vão para o inferno! O Dito não se importava, achava até graça.
Miguilim fazia de conta que estava contando uma estória para o Dito. Aí, eles vinham também escutar. Miguilim inventava estórias compridas.
- Dito um dia eu vou contar a estória mais linda, de todas: que é a da Cuca Pingo de Ouro. O Dito tinha alegrias nos olhos e dormia rindo, parecia que tinha de dormir a vida inteira. A dor de cabeça tinha aumentado, mas agora Luisaltino tinha trazido as pastilhinhas, ele engolia e melhorava. A febre era muita que pelava a testa de Dito.
- Miguilim, vou falar uma coisa, para segredo. Nem pra mim você não torna a falar. A vó Izidra toda hora está xingando mãe, quando elas estão sem mais ninguém por perto? Dito não podia ficar sentado com as pernas esticadas, as pernas só teimavam em ficar dobradas nos joelhos.
- Amanhã é dia de Natal, Dito!
- Escuta, Miguilim, uma coisa você me perdoa? Eu tive inveja de você, porque o Papaco o Paco fala: Miguilim me dá um beijim...e não aprendeu a falar o meu nome?”

Miguilim implora que Rosa ensine o papagaio a chamar alto o nome do Dito. 

“- Eu já pelejei, Miguilim, porque o Dito mesmo me pediu. Mas ele não quer falar. Dito gemia de dor e com os olhos fechados, queria escutar o berro das vacas...
- Miguilim, eu sempre tive vontade de ser fazendeiro, tudo roça, pasto.
- Mas você vai ser, Dito.
O Dito olhava triste, sem desprezo, do jeito que a gente olha triste num espelho.”

No dia seguinte, Vovó colocaria o menino Jesus no presépio. Depois, cada dia, completava com os três Reis. Quem não rezava pro Dito, chorava. Veio Seo Aristeu, Seo Deográcias, Pai não ia trabalhar na roça e vivia com os olhos avermelhados.
Dito, às vezes, gritava, depois falava coisas variando, estava zarolho, vomitava.

“Miguilim desentendia de tudo, tonto, tonto...Seo Deográcias dizia que Patori não era tão mal assim e que Deus para punir o mundo estava querendo acabar com todos os meninos. Seo Aristeu não brincava, nem ria. Veio Brízido Boi, padrinho do Tomezinho, ele chorava muito, dizia que não podia ver ninguém sofrer, a mãe do Grivo, com o Grivo e beijou a mão do Dito. De repente Maria Pretinha e o vaqueiro Jé, tão envergonhados que só olhavam para o chão. Pai perdoou e a Vovó disse que quando viesse padre por perto, eles casariam certinho. Todos foram para o oratório rezar pela saúde do Dito.”

De repente, Dito chamou por Miguilim, queria ficar sozinho com ele e tinha muitas dificuldades em pronunciar as palavras.

“- Miguilim, você não contou a estória da Cuca Pingo de Ouro...
- Mas eu não posso, Dito. Eu gosto demais dela, estes dias todos...
- Como é que eu podia inventar a estória? Miguilim soluçava.
- Faz mal não, mesmo ceguinha, ela há de me reconhecer...
- No céu, Dito?
E Miguilim desengolia da garganta um desespero.
- Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com a mãe, é de você...
Dito não conseguia falar mais, os dentes teimavam em ficar encostados, a boca mal se abria, mesmo assim forcejou e disse tudo:
- Miguilim, vou te ensinar agorinha o que eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro...!
E o Dito quis rir para Miguilim. Mas Miguilim chorava aos grito, vieram outros e o puxaram de lá.
Miguilim doidava de não chorar mais e de pedir por um socorro.
Mãitina caminhava ao redor da casa, resmungando coisas da linguagem dela:
- Ele vai morrer. Mãitina?!
Ela pegou na mão dele, levou-o para o acrescente e Miguilim pedia:
- Faz um feitiço para ele não morrer, Mãitina.
Mas aí, no vôo do instante, ele sentiu uma coisinha caindo em seu coração, e adivinhou que era tarde. Escutou os que choravam e exclamavam lá de dentro da casa. Drelina vinha saindo:
- Miguilim, o Ditinho morreu...”

Miguilim entrou empurrando os outros e pegou na mãozinha morta de Dito. Sentia as lágrimas quentes, maiores do que os olhos. Estavam lavando o corpo do Dito, na bacia grande. A mãe segurava com jeito o pezinho machucado doente, como se pudesse doer ainda se batesse na beira da bacia.

“- Olha os cabelos bonitos dele, o narizinho, Como o pobre do meu filhinho era bonito...”

Miguilim não aguentava ficar ali, foi para o quarto de Luisaltino, deitou na cama, precisava chorar, toda a vida, para não ficar sozinho.
À noite, Dito era principezinho, calçado só com um pé de botina, coberto com lençol branco e flores. Teve tempo que Miguilim cochilou e acordou na cama de Mãe e Pai.
O Mutum estava cheio de gente. Tanta gente ali por causa do Dito. Iam carregar o Dito, quase um dia inteiro de viagem, para enterrar no cemitério da vereda do Terentém. 

“- E o Tio Terêz?”

Ele não sabe, está longe, levantando gado nos Gerais da Bahia. Saíram cedo, embrulharam o Dito na colcha de chita, enfeitaram com alecrins...
Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer.

“Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chorava, parecia que a alma sacudia. Ele não era ele mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum, se esvaziavam... Ao vago, dava a mesma impressão em que, muito pequeno tinha dormido durante o dia, fora de seu costume, e quando acordou, sentiu o existir do mundo diferente e perguntou a sua mãe:
- O hoje já é amanhã?
- Isso já não é nem estima pelo irmão morto, já é nervosias..., dizia a Vovó Izidra. Tinha raiva. Não das pessoas, nem de Deus. Mas tinha raiva e não sabia de quem ou de que. Não conseguia, nem mesmo queria, lembrar-se do Dito vivo, de quando conversavam. Queria um milagre, que Dito voltasse vivo como antes e conversassem conversas novas...
- Hoje, o que era que o Dito ia dizer, se não tivesse morrido?
Então chorava mais.
Mas chorava mais doído quando se lembrava das palavras da mãe dando banho no Dito.
- Olha o inflamado ainda no pezinho dele...os cabelos bonitos..
Essas exclamações nunca lhe saíam da cabeça. Procurava a mãe e pedia que ela repetisse. A mãe não se lembrava, falara na ocasião qualquer coisa, já não sabia.”

Miguilim, então, corria ao paiol e chorava alto, repetindo as palavras e imitando a voz da mãe. Perguntava para as pessoas o que pensavam sobre o Dito. Mas todos, mesmo tristes, respondiam com bobagens.
Rosa disse que Miguilim queria algum sinal do Dito morto, ainda no Dito vivo, ou do Dito vivo mesmo no Dito morto.
Outra vez, Rosa disse que o Dito era “uma alminha que via o Céu por detrás do morro, e que por isso estava marcado para não ficar muito tempo mais aqui.”
Explicava que o “Dito falava com cada pessoa como se ela fosse uma, diferente; mas que gostava de todas, como se fossem iguais. E que o Dito nunca tinha mudado, enquanto vivo, e por isso, se a gente tivesse um retratinho dele, podia se ver como os traços do retrato agora mudavam.”

Ninguém tinha um retratinho do Dito.

“O Dito parecia uma pessoinha velha, muito velha em nova.”

Miguilim buscava em Mãitina, esclarecimento para suas dores. Ela ensinou que o Dito vinha em sonhos, acenava para a gente... Sempre que precisava, Mãitina era pessoa para qualquer hora falar no Dito e chorar junto.
Miguilim e Mãitina escolheram um lugar debaixo do jenipapo e cavaram um buraco, furtaram a camisinha e calça do Dito e enterrarem com seus brinquedos. Depois, Mãitina foi remexer em seus guardados e trouxe uns trens. No meio tinha a figura do jornal, que ganhara do Tomé e que salvara colando-a com grude. Enterraram tudo, remarcaram o lugar com pedrinha e quando chovia, vinham olhar...Nessa ocasião Miguilim furtava cachaça para Mãitina.
Um dia, quando ninguém mais mandava ou ensinava, o Papaco-o-Papo gritou:

“- Dito, Expedito! Dito, Expedito!”

Todos ralharam com o Papaco para ele tornar a esquecer. Miguilim agora não tinha medo de ir à Laje da Ventação para ver a casa da coruja, mas a coruja se mudou...não queria mais inventar estórias.
O pai falava xingando:

“- Diacho de menino, carece de trabalhar, isso que carece!
Mãe defendia, mas o pai desabusava mais:
- O que ele quer é sempre ser mais do que nós, é um menino que despreza os outros. Mais bem já tem prazo para ajudar, calejar os dedos, endurecer casco na sola dos pés, engrossar esse corpo...”

Desde então, não deixaram Miguilim mais quieto: debulhava milho no paiol, capinava canteiro da horta, buscava cavalo, tirava cisto nas grades de madeira. O menino queria trabalhar mesmo, queria ser igual ao Dito, mas não tinha poder de ser igual ao Dito. As pessoas comentavam que ele estava ficando sem-vergonha - só comia e queria ficar deitado no chão.  Ele tinha medo de tudo: de cobra e até de morrer, mesmo a vida sendo triste. Só não tinha medo das pessoas e acreditava que não gostava mais de ninguém. Do Pai, principalmente.

“Mas será que não era o pai que tinha ódio primeiro dele? Era só avistar o Miguilim, e ele já bramava:
- Mão, te tenha, cachorrinho!
Derradeiro, Pai ralhava com todo mundo. Dizia que Nhanina queria é empobrecer ligeiro a gente, fazendo tantos doces e comidas de luxo.
Pai encabou uma enxada pequena e disse que amanhã Miguilim iria pra a roça, junto com o Pai e Luisaltino.
- Seu eito é aqui, capina.
E não falava mais com ele. Miguilim preferia cumprir calado o desgosto e aguentar mesmo quando não estava mais aguentando. Todos trabalhavam com o corpo por metade nu, só de calças, as costas escorrendo suor do sol e os pés descalços sobravam espinhos. A gente tinha sede. A água da lata era quente e água gente não matava direito a sede da gente. Na volta, todo o corpo de Miguilim doía. Vinha com uma mão fechada. - Que é isso Miguilim, que você está escondendo?
- É a joaninha. Era o besourinho bonito, pingadinho de vermelho.
- Já se viu? Tu há de ficar toda a vida bobo?
E ralhava mais porque no caminho Miguilim não enxergava onde pisasse, vivia escorregando e tropeçando, quase caindo nos buracos.”

De vez em quando, Seo Deográcias aparecia na roça e dizia coisas tristes.

”- Pois é, Miguilim, e você que perdeu quase de junto de uma vez os dois tão seus amigos: o Dito e o Patori.”

Miguilim continuava a dormir no mesmo catre, sozinho. Um dia o gato apareceu e deitou-se no lugar que tinha sido do Dito. No outro dia, não veio mais e Miguilim foi buscá-lo. Mas, Tomezinho acusou e Pai jurou com raiva que não dava licença.

“- Então, ele Miguilim era amigo do Patori também e nem não tinha sabido?”

Um dia Luisaltino não foi trabalhar porque estava perrengue. Pai aproveitou para conversar em particular com Miguilim, fez um cigarro e falou do feijão e de quantos carros de milho que podia vender. Miguilim não sabia responder, cabeça dele não dava para esses assuntos.

“- Vigia, Miguilim. Miguilim olhou e não respondeu. Não estava vendo. Era uma plantação lá adiante, mas direito ele não estava enxergando. Pai calou, mas de noite, mesmo na frente do Miguilim, falou para a mãe que o Miguilim não prestava, que menino bom era o Dito, que Deus tinha levado para si, era muito melhor tivesse levado Miguilim em vez do Dito.”

Vieram o mano Liovaldo com o tio Osmundo, depois que souberam da morte do Dito. Trouxeram um pano para roupa da Mãe, facão novo para o Pai, uma roupinha para cada menino, pão, bacalhau e um rosário de contas roxas, para Vovó Izidra. Tio Osmundo era bem apessoado e sabia de tudo. Explicou que aquele lugar chamou Urumutum, antes de ser Mutum.
Mas, tio Osmundo não gostou de Miguilim. Dizia:

“- Este um está antipático.”

Mano Liovaldo tinha uma gaitinha, emprestou um por instante para Miguilim. Mas, Miguilim não tinha jeito para aprender a tocar. Disse que quando fosse embora, levaria o Papaco-o-Paco. Miguilim não tinha folga para brincar com o Liovaldo, já que saía bem cedinho para a roça. Mesmo quando não tinha roça, Pai mandava Miguilim buscar lenha e quando sobrava muito leite, que fosse levar as latas cheias até o Bugre. Então, Miguilim, montava no cavalo, não tinha coxim, parecia um pedaço de pau e ia sozinho. O vaqueiro Jé ensinou colocar capim e Luisaltino emprestou uma pele de ovelha para cobrir o capim. Pai prendia uma lata de cada lado, tomava benção e saía.


“O leite ia batendo, chuá, chuá. Não podia correr, se não o leite espirrava. Ás vezes vinha dormindo em cima do cavalo. Mas, meio acordado, meio dormindo, pensava no Dito. Agora o pior era quando já estava chegando no Bugre. Tinha uns meninos malignos, o pai de um deles não gostava do Pai e esperavam Miguilim passar para jogarem pedras e insultarem. Miguilim não podia fazer nada, se não as latas sacudiam, esperdiçavam leite, Pai sabia e ia castigar Miguilim.”

Na volta, ele estava mais tristonho e lembrava-se dos ensinamentos de Dito:

“- Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Esse cachorro fareja, todo o tempo, se a gente por dentro  da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado...As pessoas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar com a gente...
Mas, então, Dito, a gente mesmo é que tem culpa de tudo que padece?
- É.
O Dito falava, depois ele mesmo se esquecia do que tinha falado; ele era como as outras pessoas. Mas Miguilim nunca se esquecia. Ah, o Dito não devia de ter morrido.”

De onde é que Dito descobria a verdade dessas coisas? Ele dizia que não sabia, que já sabia, mas não sabia antes que sabia.

“O Dito tinha falado que em vez d’a gente só fazer promessa aos santos quando se estava em algum aperto, para cumprir pagamento depois que tivesse sido atendido, ele achava que a gente podia fazer promessa e cumprir antes, e mesmo nem não precisava d’a gente saber para que ia servir o pagamento dessa promessa, que assim se estava fazendo...Mas a gente marcava e cumpria, e alguma coisa boa acontecia, ou alguma coisa ruim que estava para vir não vinha!”

Um dia, quando Miguilim estivesse disposto, iria experimentar. Agora ele estava sempre cansado, nem rezava quase. Talvez fizesse por conta dos meninos do Bugre...Não, um dia traria a faquinha do Luisaltino e espantavam eles. Mas fazia promessa era por conta do Pai. Por conta de Pai não gostar dele, ter tanto ódio dele, aquilo que nem não estava certo.

“Liovaldo era maligno. Vinha com aquelas mesmas conversas do Patori:
- Miguilim, você precisa de mostrar sua pombinha à Rosa, à Maria Pretinha, quando não tiver ninguém perto. Para apanhar qualquer mulher ou menina consentir era só a gente apanhar um tiquinho de terra molhada com a urina dela, e prender numa cabacinha junto com três formigas-cabeçudas. Miguilim achava que o Liovaldo era abobado, quando ele estava perto, parecia que estragava o costume da gente com as outras pessoas.”

Uma vez Grivo levando dois patos para vender no Tipã, parou para ouvir a gaita de Liovaldo. Este começou a debochar, cuspiu no Grivo, deu-lhe com os pés nos patos e dois tapas.
O ódio de Miguilim foi tanto que pulou no Liovaldo e esmurrou-o. Era dia de domingo, Pai estava lá, veio correndo. Pegou Miguilim e o levou debaixo de pancadas. Tirou a roupa toda e bateu com a correia da cintura. Mãe, os irmãos e a Vovó pediam para ele parar, mas ele batia mais. Miguilim não chorava, porque estava com um pensamento:

“- Quando ele crescesse, matava Pai. Estava pensando de que jeito era que ia matar Pai, e então começou até a rir. Pai esbarrou de bater, espantado: como tinha batido na cabeça também, pensou que Miguilim podia estar ficando doido.  
- Raio de menino indicado, cachorro ruim! Eu queria era poder um dia abençoar teus calcanhares e tua nuca...ainda gritou.
Soltou Miguilim, e Miguilim caiu no chão. Também não se importou, nem queria se levantar mais.
(...) Mãe estava lavando com água-com-sal os lugares machucados em seu corpo.
- Mas, meu filhinho, Miguilim, você, por causa de um estranho, você agride um irmão seu, um parente?
- Bato! Bato é no que é pior, no maldoso!”

A Mãe olhava com aqueles olhos bonitos e tristes, mas Miguilim não gostava mais da Mãe, também. Ela era mole, não brigava por conta dele, Pai podia judiar quanto queria. Mãe gostava é de Luisaltino. A Mãe pedia que ele perdoasse o Pai, mas Miguilim dizia que o Pai era jagunço de mau. Pai não prestava.
No outro dia, Mãe mandou o vaqueiro Salúz levar Miguilim por três dias em sua casa, “enquanto Pai estivesse raivável.”
No caminho, o vaqueiro Salúz mostrava as paisagens e explicava sobre o gado.

“- Miguilim, isto é o Gerais!”

Siarlinda era uma pessoa boa e o Bustica, bobinho, fazia tudo que lhe pedia. O vaqueiro Jé foi visitá-los, contou que Maria Pretinha ia ter menino e que tinha onça solta nos matos do Mutum. Naqueles dias, Miguilim achava que só gostava de Mãitina e da Rosa. Quando voltou, não falou nada e não tomou a benção.

“- O que é que este menino xixilado está pensando? Tu toma a benção?!”

O pai obrigou-o a tomar-lhe a benção e ficou encostado nele, como boi bravo.

“Pai podia até matar, mas na hora de morrer, ele rogava praga sentida.”

O Pai não bateu, pegou as gaiolas, abriu e soltou os passarinhos de Miguilim, depois pisoteou nelas e espedaçou-as. Miguilim foi ao fundo da horta, pegou todos os brinquedos e jogou tudo fora no terreiro. Depois, foi até o paiol e  chorou.
Liovaldo apareceu, zombou de sua situação e entregou-lhe uma cabacinha com as três formigas-cabeçudas. Miguilim enfurecido ameaçou contar para Mãe, caso ele fizesse isso com a Drelina ou com a Chica e jogou a cabacinha longe.
Durante o jantar, tio Osmundo deu-lhe um dinheiro, mas Miguilim não aceitou. Iam embora. Liovaldo deixou a gaita para o Tomezinho.
Miguilim sentiu tanta alegria, não só por eles irem embora, mas, pela esperança de poder partir um dia, também.
No entanto, a realidade para Miguilim era outra e, voltou para a roça.
“- De que você está rindo, Miguilim? perguntou Luisaltino.
- Da minhoca branca, que as formigas pegaram...!”

Miguilim passa sentir dores de cabeça, seu corpo não sustentava bem e seu nariz sangrava muito.
Luisaltino tirava-o do sol, falava para ele ir para casa.
Um dia, Migulim “tonteou, veio um tremor forte de frio e começou a vomitar. Deitou-se ali mesmo, no chão, escondendo os olhos, como um bichinho doente. Era uma dor muito forte na nuca.”

Luisaltino carregou-o depressa para casa. Miguilim olhava para Mãe e perguntava que tinham feito com o resto das roupinhas do Dito e as alpercatinhas?

“Estavam guardadas, depois elas vão servir para o Tomezinho...Descansa Miguilim.”

Miguilim suava, não reconhecia se era dia ou noite. Viu a cara triste de Seo Deográcias, ouviu a Vovó falar da barriguinha sarapintada de vermelhos, ouvia a Mãe chorar. Todos iam vê-lo. Pensou que ia morrer. Babava tanto que tinham que limpá-lo o tempo todo, com um paninho molhado. E então Miguilim viu o Pai, e Pai não xingou, nem ralhou.
Miguilim sorriu e Pai chorou muito forte:

“- Nem Deus não pode achar isto justo direito, de adoecer meus filhinhos todos um depois do outro, parece que a gente só tem que padecer?”

Miguilim ficou contente quando Grivo veio visitá-lo e trouxe um canarinho de presente de amizade. Grivo ia trabalhar com o pai, o Seo Brízido Boi matou a onça, mas Miguilim tinha preguiça de ter de entender o que se falavam. 
A água não matava a sede, queria laranja. Não achavam laranja...Queria sonhar com o Dito, de frente, mas não conseguia...

“- Mãe os dias todos vão passando?
- Hoje é seteno. Falta pouco para você sarar!
- Mãe, depois mesmo que eu sarar, vocês deixam eu ficar ainda muitos dias aqui deitado, descansando?
- Pode, meu filhinho, você vai poder descansar todo o tempo que quiser..Dormia longe.
- Mãe...Mãe! Mãe!...Que matinada era aquela? Por que todos estavam assim gritando, chorando?
- Miguilim, meu Deus, tem pena de nós! Pai fugiu para o mato, Pai matou o Luisaltino!...
- Não me mata! Não me mata! – implorava Miguilim, gritado, soluçado. Mas vinha
Vovó Izidra, expulsava todos para fora do quarto. Vovó Izidra sentava na beira da cama, segurando a mão de Miguilim: 
- Vamos rezar, Miguilim, deixa os outros, eles se arrumam; esquece de todos: você carece é de sarar!”

Miguilim melhorou, Tio Terêz reapareceu e ia passar morar com eles. Mas, Miguilim não gostava mais do Tio Terêz, achava que era pecado gostar.
Vovó Izidra “abençoou Miguilim, pôs mais duas medalhinhas no pescoço dele, trocou o fio do cordão, que estava muito velho, encardido e sujo de doença. Por fim ela beijou, abraçou Miguilim, se despedindo – ia embora, por nunca mais, ali não ficava.”

Miguilim, por estar ainda em fase de recuperação, não podia brincar.

“- Escuta Miguilim, sem assustar: seu Pai também está morto. Ele perdeu a cabeça depois do que fez, foi achado morto no meio do cerrado, se enforcou com um cipó, ficou pendurado numa moita grande de miroró...”

De manhã, a Mãe chorando, tenta explicar-se a Miguilim:

“- Miguilim não foi culpa de ninguém, não foi culpa... – Todas às vezes ela repetia.
- Mãe, Pai já enterraram?
- Já, meu filhinho. De lá mesmo foi levado para o Terentém...
- E todos estão aí, Tomezinho, Drelina, a Chica?
- Estão, Miguilim, todos gostando de todos...
- E eu posso ficar doente, quieto, ninguém bole?
As lágrimas da Mãe ele escutava.
- Mãe, a senhora vai rezar também par o Dito?
O Dito sabia. Se o Dito estivesse ainda em casa, quem sabe aquilo tudo não acontecia.
Miguilim chorava devagar, com cautela para a cabecinha não doer; chorava pelo Pai, por todos juntos.”

Seo Aristeu veio visitar Miguilim e disse que tinha que ficar alegre.

“Tristeza é agouria.
- Foi o Dito que ensinou isso ao senhor?”

Tio Terêz, agora trabalhava exaustivamente. Ele tinha uma roupa bonita, inteira de couro. Mãe perguntava se ela daqui uns meses se casasse com o Tio Terêz se era gosto de Miguilim. Ele não se importava, para ele, tudo era bobagem, todo mundo era meio um pouco bobo.

“- Se Dito estivesse em casa, o que era que ele achava? Quando Miguilim ficasse forte, teria que trabalhar com Tio Terêz? Gostava mais do ofício de vaqueiro.”
“Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, muidinho, não se importando demais com coisa nenhuma.”

Miguilim já conseguia caminhar sozinho e um dia, foi passear até a estrada do Tipã.

“De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
- Deus te abençoe, pequenino. Como é teu nome?
- Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
- E seu irmão Dito é o dono daqui?
- Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.
O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redezia:
- Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda...Mas, que é que há, Miguilim? Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.
- Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
- É Mãe, e os meninos...”

A família estava toda reunida em casa, inclusive o Tio Terêz. O senhor o seu camarada apearam, dirigiram-se a Nhanina e fizeram várias perguntas sobre Miguilim. Em seguida, abriu a mão e mostrou a Miguilim.

“- Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora? Miguilim espremia os olhos. Drelina e Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.
- Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
- Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Vias os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância.”

Miguilim estava radiante com que via.
O homem tratava-se do doutor José Lourenço, do Curvelo e explicava a Nhanina que “Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante.“
Chica veio correndo e disse que Miguilim era piticego.
O doutor partiu para a Vereda do Tipã, onde estavam os caçadores, mas retornaria no dia seguinte, antes de voltar para a cidade.
A Mãe, então, disse a Miguilim:

“- Disse que, você querendo, Miguilim, ele junto te leva...
- O doutor era homem muito bom, levava Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrada para a escola, depois aprendia ofício.
-Você quer ir?”

Miguilim estava desorientado, esforçava-se para não soluçar.
A Mãe dizia:

“- Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram...
E Mãe foi arrumar a roupinha dele. A Rosa matava galinha, para por na capanga, com farofa. Miguilim ia no cavalo Diamante – depois era vendido lá na cidade, o dinheiro ficava para ele.
- Mãe, é o mar? Ou é para a banda do Pau-Roxo, Mãe? É muito longe?
- Mais longe é, meu filhinho. Mas é do lado do Pau-Roxo não. É o contrário. A Mãe suspirava suave.
- Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo?!
- Miguilim, me abraça, meu filhinho, que eu te tenho tanto amor...
(...)
- Você pode levar também as alpercatinhas do Dito, elas servem para você.”

No dia seguinte, todos estavam presentes, até o Grivo, Siarlinda, Bustiquinho.
Miguilim calçou as botinas e despediu-se de todos...Todos eram bons para ele, todos do Mutum.
O doutor chegou.

“- Miguilim, você está aprontado? Está animoso?”

Ele dizia adeus aos cachorros, ao Papaco-o-Paco, ao gato Sossõe, dava lembranças ao Seo Aristeu, ao Seo Deográcias...
“Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim.
E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou nos matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia. Olhou Mãitina, que gostava de o ver de óculos, batia palmas-de-mão e gritava:
- Cena, Corinta!
Olhou o redondo de pedrinhas, debaixo do jenipapo.
Olhava mais era pata Mãe. Drelina era bonita, a Chica, Tomezinho. Sorriu para o Tio Terêz:
- Tio Terêz, o senhor parece com o pai...
Todos choravam.
O doutor limpou a goela e disse:
- Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus olhos se enchem d’água...
Miguilim entregou a ele os óculos outra vez. Um soluçozinho, Dito e a Cuca Pingo de Ouro. E o Pai. Sempre alegre, Miguilim...Sempre alegre, Miguilim...Nem sabia o que era alegria e tristeza. Mãe o beijava. A Rosa punha-lhe doces-de-leite nas algibeiras, para a viagem. Papaco-o-Paco falava, alto, falava.”

IX– CONSIDERAÇÕES FINAIS:

1.      A Infância:

A infância é um estado de receptividade, de sabedoria inata, e tem duplo sentido: por um lado, é o arquétipo do passado imemorial, remoto e nebuloso, alma que nasceu da unidade primordial e que, por isso, participa ainda da indistinção caótica, anterior à separação dos elementos e ao conflito dos princípios opostos do mundo sensível – é, por esse lado, potência obscura e indefinida, cuja natureza oscila entre o divino e o diabólico; por outro lado, em sua face visível, luminosa, é a ideia de um novo nascimento, da reintegração da alma dividida, que deverá recuperar a sua unidade congênita e ingressar num estado de plena harmonia com si mesmo.

2.      O Mutum é bonito?

Essa indagação de Miguilim praticamente abre o livro. Ele mesmo não sabia, não podia saber, uma vez que não conhecia outros lugares. Entretanto, ao ouvir um homem dizer da beleza do Mutum ao Tio Terêz, passa a querer carregar consigo essa certeza, pelo menos uma contá-la à Mãe e diminuir sua tristeza.
Essa é a primeira de uma série de indagações que atormentam Miguilim ao longo da sua estória, ou seja, temos aqui o florescer do que chamaríamos, menos poeticamente que na narrativa, de senso crítico da criança em sua descoberta do mundo. Ao final, surgirá a resposta para essa indagação, trazendo uma como que moral da fábula.

3.      O bilhete do Tio Terêz:

Esse é o primeiro momento da sua vida em que Miguilim tem de tomar uma decisão que, pressente ele, envolve responsabilidade. Daí se perguntar, o tempo todo, o que seria certo ou errado fazer. O menino, inconscientemente, sente o peso da moral em sua decisão. Seria o certo entregar o bilhete e colaborar com a relação do Tio Terêz e a Mãe? Não seria uma traição ao Pai, a quem deve fidelidade como filho? Não é à toa que Miguilim praticamente “não decide”, apenas deixa-se levar pela sua angústia, até o reencontro com o Tio, quando se põe a chorar, sem saber como explicar a decisão que, afinal, “não tomou”.
Tio Terêz, irmão de seu pai, é o amigo adulto. Com ele, pelas suas mãos, pela primeira vez viu o mundo do outro lado. O mundo da outra parte e diferente do Mutum, seu lugar. A amizade com Tio Terêz é o processo de revelação serena dos mundos novos. E a ampliação de “absurdos! No universo inteiro de Miguilim. Por isso, ele sente uma grande amizade pelo Tio Terêz e esta amizade fará com que Miguilim se angustie no momento da descoberta do amor de Tio Terêz por sua mãe. E que quase o projeta contra o ódio do Pai.

4.      A morte do Dito:


Dito é o irmão completo. Ainda que menor, é a consciência certa para os desejos de absurdos de Miguilim. É sábio. Pode responder a qualquer problema que surja a Miguilim. Mesmo se este, depois de querer explicação sobre a bondade do cachorro caçador de anta ou da sabedoria das formigas, indague de Deus e da morte. Dio sabia. Ele é o lado racional da existência, intuído e desejado por Miguilim, mas que sempre lhe escapa. A amizade entre os dois irmãos é intensa. E quando o pequeno Dito morre, para Miguilim a vida parece impossível de ser. Ao perder Dito, Miguilim perde o ponto de apoio de sua infância, fica praticamente sozinho, tendo que entender o mundo e decidir sobre as suas coisas todas sozinho. Porém, a cada dia que passa, seus “absurdos” sempre e mais se encontram com a clara visão do mundo adulto.
Isso se dá quando Miguilim descobre o amor que Tio Terêz vive por sua Mãe. E o ciúme e ódio do pai pelo irmão. A lenta tragédia que desce sobre a casa e a vida de Miguilim.
Miguilim menino perde sua infância na clara consciência do mundo dramático dos adultos.


1.      O ensimesmamento:

Ao final da estória, entendemos que o ensimesmamento de Miguilim, sua tendência ao isolamento e à fantasia, é fruto de sua miopia, sua incapacidade de enxergar o mundo direito. É claro, porém, que esse ensimesmamento é fruto de sua personalidade um tanto conflituosa de menino que está crescendo, encaminhando-se para o que hoje chamamos de adolescência, que nele parece um pouco precoce, talvez proveniente de sua extrema sensibilidade.

2.      O irmão Liovaldo:

A birra de Miguilim com Liovaldo, e também Patori, principalmente por causa de suas insinuações sobre sexo e de suas empáfias de adultos, mostram-nos uma certa “recusa de crescer”, uma vontade, explicitamente revelada em mais de uma passagem, de “não crescer”. É a resistência natural a abandonar este mundo mágico da infância e penetrar no mundo dos adultos. No entanto, a surra de Miguilim em Liovaldo é quase uma “declaração de princípios”, uma maneira de expressar sua vontade sobre o irmão mais velho e marcar sua diferença de personalidade.

3.      O esgarçamento da relação com o Pai e a reconciliação:

Por causa da briga com Liovaldo, Miguilim apanha do Pai, mas recusa-se a chorar; depois, o Pai solta seus passarinhos e quebra as gaiolas, ele então quebra todos os seus brinquedos. É um episódio bastante significativo este por demonstrar o processo natural de enfrentamento da autoridade paterna, da contraposição dos desejos e da personalidade do Miguilim menino – mas já crescendo – ao Pai. Miguilim não chora porque que mostrar a Béro que ele já não tem mais poder/autoridade sobre a vontade do filho; quebra os seus brinquedos como estivesse mostrando que não é mais criança, e que o pai não tem mais o que fazer contra ele. Chega mesmo a pensar em matar o Pai, até sente raiva da Mãe, que não ficou do seu lado como devia, não evitou a surra: sonha em crescer, ir embora, livrar-se da família. Mas Miguilim vai reencontrar o carinho pelo Pai, mais tarde, quando, muito doente, vê Béro chorar ao seu lado, sair para buscar a laranja que ele tanta queria. É o restabelecimento da ordem. Uma vez que Miguilim se livrou da autoridade do Pai (em termos morais), pode aceitá-lo, agora, com o que ele tem de bom: o amor por que tanto ansiou, uma vez que Béro sempre o via como um incapaz.
Miguilim ama o Pai, mas não com a facilidade de amor que há para com a Mãe. Ama o Pai com temor. Porque o Pai não chega quase nunca a compreender a estranha sensibilidade de Miguilim. E as suas estranhas reações.
O Pai, ao contrário da Mãe, quer sempre criticar os estranhamentos de Miguilim. Quase sempre é muito duro com o filho. A frustradora relação com o Pai dará a Miguilim uma visão dramática das coisas. A mãe lhe dava o mundo lírico.

4.      Enxergando o mundo:

Também é bastante simbólica a cena em que Miguilim coloca os óculos do doutor José Lourenço e vê tudo claro á sai frente. Ora, “ver com os próprios olhos” significa poder “trilhar seu próprio caminho” – Miguilim pode, enfim, enxergar o mundo por si mesmo, sem depender de ninguém, tendo sua própria opinião. É por isso que, ao final, colocando os óculos mais uma vez, dirá com ênfase: “O Mutum era bonito! Agora ele sabia”.
“Mutum”, aqui, deve ter seu sentido ampliado: Miguilim não está simplesmente se despedindo do lugar; está também se despedindo da infância, vai para a cidade grande, encontrar o seu futuro. Dizer “O Mutum era bonito” equivale a dizer “a infância era bonita”.
     


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