terça-feira, 22 de novembro de 2011

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, ÉRICO VERÍSSIMO



A falta de Érico Verissimo


Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.

Homenagem de Carlos Drummond de Andrade ao amigo


 I - BIOGRAFIA:


    
   Nasceu em Cruz Alta, RS, a 17/12/1905, filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca e Abegahy Lopes Veríssimo.
   Em 1909, com menos de 4 anos, vítima de meningite, agravada por uma broncopneumonia, quase vem a falecer.
   Durante sua infância, estudou no Colégio Venâncio Aires, em Cruz Alta, onde foi um aluno comportado e quieto, frequentava o cinema e observava o pai trabalhando. Por volta de 1914, com quase dez anos, Érico criou uma "revista", Caricatura, na qual fazia desenhos e escrevia pequenas notas.
   Aos 13 anos, lê autores nacionais Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo, Afrânio Peixoto e Afonso Arinos. Com tempo livre, tendo em vista o recesso escolar devido à gripe espanhola, dedica-se, também, aos autores estrangeiros, lendo Walter Scott, Tolstoi, Eça de Queirós, Émile Zola e Dostoievski.
 
Em 1920, matricula-se, em regime de internato, no Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, de orientação protestante e tem bom desempenho nas aulas de literatura, inglês, francês e no estudo da Bíblia.
   Em 1923, “descobre” Monteiro Lobato, Oswald e Mário de Andrade e incentivado pelo tio materno João Raymundo, dedica-se à leitura das obras de Stuart Mill, Nietzsche, Omar Khayyam, Ibsen, Verhaeren e Rabindranath Tagore.
   O autor, em 1925, trabalha no Banco do Comércio, como chefe da Carteira de Descontos.

Logo percebe que a vida de bancário não o satisfaz e mesmo sem muita certeza de sucesso, aceita a proposta de Lotário Muller, amigo de seu pai, de tornar-se sócio da Pharmacia Central, naquela cidade, em 1926.
   Ali, entre remédios e o namoro com Mafalda Halfen Volpe, que iria desposar em 1931 dedicava as horas vagas à leitura, principalmente, Machado de Assis, que muito influenciou sua formação literária.
   O mensário “Cruz Alta em Revista” publica, em 1929, “Chico: um conto de Natal” que, por insistência do jornalista Prado Júnior, Érico havia consentido. O colega de boticário e escritor Manoelito de Ornellas envia ao editor da “Revista do Globo”, em Porto Alegre, os contos “Ladrão de gado” e “A tragédia dum homem gordo”, onde, aprovadas, foram publicadas.
   Érico remete a De Souza Júnior, diretor do suplemento literário “Correio do Povo”, o conto “A lâmpada mágica”. Esse, segundo testemunhas, o publica sem ler, o que dá ao autor notoriedade no meio literário local.
   Com a falência da farmácia, em 1930, o autor muda-se para Porto Alegre disposto a viver de seus escritos. Passa a conviver com escritores já renomados, como Mario Quintana, Augusto Meyer, Guilhermino César e outros. No final do ano é contratado para ocupar o cargo de secretário de redação da “Revista do Globo”, cargo que ocupa no início do ano seguinte.
   Em 1931, Érico regressa a Cruz Alta, para se casar com Mafalda Volpe, e os dois passam a morar em Porto Alegre, onde Érico havia obtido certa estabilidade financeira. Eles tiveram dois filhos: Clarissa Veríssimo (1935) e o também escritor Luis Fernando Veríssimo (1936). O casamento deles foi bastante feliz, e Érico escreveu mais tarde que, sem a paciência e o bom-senso da esposa, sua carreira de escritor teria sido impossível.
   Em 1932, com a edição de “Fantoches”, pela Livraria do Globo, iniciou a sua brilhante carreira literária, que viria a alcançar, a partir de 1938, repercussão nacional e, mais tarde, internacional.
   Em 1933, Érico Veríssimo traduziu o célebre livro “Contraponto” (“Point Counter Point”), de Aldous Huxley, e publicou seu primeiro romance: “Clarissa”, cujos sete mil exemplares foram vendidos em cinco anos. Seu segundo romance, “Caminhos Cruzados”, foi publicado em 1935 e chegou a ser considerado subversivo pela Igreja Católica e pelo Departamento de Ordem Pública e Social, levando Érico a ser interrogado pela polícia a respeito de sua orientação política.


   Em 1936, Érico publicou dois romances que foram continuações de “Clarissa”: “Música ao Longe”, pelo qual ganhou o Prêmio Machado de Assis, e “Um Lugar ao Sol”. Além disso, ele criou, na Rádio Farroupilha, um programa infantil, “O Clube dos Três Porquinhos”, que saiu do ar quando o Estado Novo estava prestes a submetê-lo ao departamento de censura.


  


   Em 1938, Érico Veríssimo publicou sua primeira obra de repercussão nacional e internacional, “Olhai os Lírios do Campo”, que foi traduzido do inglês ao indonésio.
   Em 1940, lança “Saga”. Pronuncia conferências em São Paulo (SP). Traduz “Ratos e homens”, de John Steinbeck; “Adeus Mr. Chips” e “Não estamos sós”, de James Hilton; “Felicidade” e “O meu primeiro baile”, de Katherine Mansfield. Faz sua primeira noite de autógrafos na Livraria Saraiva.
   Passa três meses nos Estados Unidos, a convite do Departamento de Estado americano, em 1941, proferindo conferências. As impressões dessa temporada estão em seu livro “Gato preto em campo de neve”. Ele e seu irmão Enio são testemunhas de um suicídio: uma mulher se atira do alto de um edifício quando conversavam na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Esse acontecimento é aproveitado em seu livro “O resto é silêncio”.
   A censura no estado novo continuava atenta. A Globo cria a Editora Meridiano, uma subsidiária secreta para lançar obras que pudessem desagradar ao governo. Essa editora publica “As mãos de meu filho”, reunião de contos e outros textos, em 1942.
   No ano seguinte, publica “O resto é silêncio”, livro que merece críticas pesadas do clero local. Temendo que a ditadura Vargas viesse a causar-lhe danos e á sua família, aceita o convite para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, feito pelo Departamento de Estado americano. Muda-se para Berkley com toda a família.


   O Mills College, de Oakland, Califórnia, onde dava aulas de Literatura e História do Brasil, confere-lhe o título de doutor Honoris Causa, em 1944. É publicado o compêndio “Brazilian Literature: An Outline”, baseado em palestras e cursos ministrados durante sua estada na Califórnia. Esse livro foi publicado no Brasil, em 1955, com o título “Breve história da literatura brasileira”.
   Passa o ano de 1945 fazendo conferências em diversos estados americanos. Retorna ao Brasil.
   Em 1946, publica “A volta do gato preto”, sobre sua vida nos Estados Unidos.
   Inicia, em 1947, a escrever “O tempo e o vento”. Previsto para ter um só volume, com aproximadamente 800 páginas, e ser escrito em três anos, acabou ultrapassando as 2.200 páginas, sob a forma de trilogia, consumindo quinze anos de trabalho.  Traduz “Mas não se mata cavalo”, de Horace McCoy. Faz a primeira adaptação para o cinema de uma obra de sua autoria: “Mirad los lírios Del campo”, produção argentina  dirigida por Ernesto Arancibia que tinha em seu elenco Mauricio Jouvet e Jose Olarra.
   No ano seguinte, dedica-se a ordenar as anotações que vinha guardando há tempos e dar forma ao romance “O continente”. Traduz “Maquiavel e a dama”, de Somerset Maugham.
   ”O continente”, primeiro volume de “O tempo e o vento”, é finalmente publicado, em 1949, recebendo muitos elogios da crítica. Recebe o escritor franco-argelino Albert Camus, autor de “A peste”, em sua passagem por Porto Alegre.


   
   No ano de 1951, é lançado o segundo livro da trilogia “O tempo e o vento”: “O retrato”. O trabalho não tão bem recebido pela crítica como o primeiro livro.


   Assume, em 1953, a convite do governo brasileiro, em Washington, E.U.A., a direção do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, na Secretaria da Organização dos Estados Americanos, substituindo a Alceu Amoroso Lima.
   No ano seguinte, é agraciado com o prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Lança “Noite”, novela que é traduzida na Noruega, França, Estados Unidos e Inglaterra. Visita, face às funções assumidas junto à OEA, diversos países da América Latina, proferindo palestras e conferências.
   De volta ao Brasil, em 1956, lança “Gente e bichos”, coleção de livros para crianças. Sua filha casa-se com David Jaffe e vai morar nos Estados Unidos.
   Em 1957, publica “México”, onde conta as impressões da viagem que fizera àquele país.
   ”O arquipélago”, terceiro livro da trilogia “O tempo e o vento”, começa a ser escrito em 1958. Tem um mal-estar ao discursar na abertura de um congresso em Porto Alegre.
   Acompanhado de sua mulher e do filho Luis Fernando, faz sua primeira viagem à Europa, em 1959. Expõe sua defesa à democracia em palestras proferidas em Portugal e entra em choque com a ditadura salazarista. Lança “O ataque”, que reunia três contos: “Sonata”, “Esquilos de outono” e “A ponte”, além de um capítulo inédito de “O arquipélago”.
   Dedica-se, em 1960, a escrever “O arquipélago”.
   Em 1961, sofre o primeiro infarto do miocárdio. Após dois meses de repouso absoluto, volta aos Estados Unidos com sua mulher. Saem os primeiros tomos de “O arquipélago”.
   O terceiro tomo de “O Arquipélago” é publicado em 1962, concluindo o projeto de “O tempo e o vento”. O volume é considerado uma obra-prima. 


   Visita a França, Itália e a Grécia.
   Ganha o Prêmio Jabuti – Categoria “Romance”, da Câmara Brasileira de Livros, em 1965, com o livro “O senhor embaixador”. Volta aos Estados Unidos.
   A convite do governo de Israel, visita aquele país em 1966. Vai aos Estados Unidos, mais uma vez, visitar seus familiares. Escreve “O prisioneiro”, que seria lançado em 1967. A Editora José Aguilar, do Rio de Janeiro, publica, em cinco volumes, o conjunto de sua ficção completa. Desse conjunto faz parte uma pequena autobiografia do autor, sob o título “O escritor diante do espelho”.
   ”O tempo e o vento”, sob a direção de Dionísio Azevedo, com adaptação de Teixeira Filho, estréia na TV Excelsior, em 1967. No elenco, Carlos Zara, Geórgia Gomide e Walter Avancini.
   É agraciado com o prêmio “Intelectual do ano” (Troféu “Juca Pato”), em 1968, em concurso promovido pela “Folha de São Paulo” e pela “União Brasileira de Escritores”.
   No ano seguinte, a casa onde Erico nascera, em Cruz Alta, é transformada em Museu Casa de Erico Verissimo. Lança “Israel em abril”.
   Em 1971, é editado o livro “Incidente em Antares”. 


   Em 1972, comemorando os 40 anos de lançamento de seu primeiro livro, relança “Fantoches”, onde o autor acrescentou notas e desenhos de sua autoria.
   Amplia sua autobiografia, publicada em 1966, fazendo surgir suas memórias — sob o título de “Solo de clarineta” — cujo primeiro volume é publicado em 1973.
   O escritor falece subitamente no dia 28 de novembro de 1975, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A hora do sétimo anjo”.
   Postumamente, é lançado, em 1976, “Solo de clarineta – Memória 2”, organizada por Flávio Loureiro Chaves.
   ”Olhai os lírios do campo”, com adaptação de Geraldo Vietri e Wilson Aguiar Filho, é a novela apresentada pela TV Globo, em 1980, sob a direção de Herval Rossano. No elenco, Cláudio Marzo e Nívea Maria.
   A esposa do autor, Mafalda, e a professora Maria da Glória Bordini, da PUC-RS, iniciam a organização dos documentos por ele deixados, em 1982.
   É instalado, no programa de Pós-Graduação em Letras da PUC-RS — como projeto de pesquisa do CNpQ, o Acervo Literário de Erico Verissimo, em 1984. A coordenação fica a cargo da professora Maria da Glória Bordini.
   No ano seguinte, a Rede Globo leva ao ar a série “O tempo e o vento”, adaptação de Doc Comparato e Regina Braga, direção de Paulo José, com Glória Pires, Armando Bogus, Tarcísio Meira e Lima Duarte, entre outros.
   Em 1986, o Museu de Cruz Alta torna-se Fundação Érico Veríssimo.
   O índice de toda a obra de Erico é informatizado através do Projeto Integrado CNpQ – Fontes da Literatura Brasileira, que o disponibiliza para consulta, em 1991.
   Em 1994, seu filho Luis Fernando assume a presidência da Associação Cultural Acervo Literário de Erico Veríssimo, entidade encarregada de cuidar de toda a documentação literária do escritor.
   “Incidente em Antares”, adaptado por Charles Peixoto e Nelson Nadotti, com direção de Paulo José e constando de seu elenco Fernanda Montenegro e Paulo Betti é apresentado pela Rede Globo.
   A UFRS homenageia o autor, pela passagem dos 90 anos de seu nascimento, com uma mostra documental no salão de sua Reitoria. A PUC-RS realiza seminário internacional, coordenado por seu Programa de Pós-Graduação em Letras, em 1995.
   Organizada por Maria da Glória Bordini, publica-se, em 1997, “A liberdade de escrever”, coletânea de entrevistas do autor sobre política e literatura.
   Em 2002, a Globo inicia a edição definitiva da obra completa do autor. É inaugurado o Centro Cultural Erico Veríssimo, destinado à preservação do Acervo Literário e da memória literária do Rio Grande do Sul.
   Morre Mafalda Veríssimo, viúva do escritor, em 2003.


II - CARACTERÍSTICAS:

   ÉRICO VERÍSSIMO partilha com Jorge Amado êxito maciço de público, ainda que sua obra seja recebida com algumas reservas pela crítica mais sofisticada, que aponta, no uso convencional da linguagem, na incerteza da concepção dos protagonistas e nas repetições abusivas, os seus defeitos mais evidentes.
   Marcada pela crônica de costumes urbanos e pela notação intimista, questiona as crises espirituais do homem no mundo atual, inspirando-se numa espécie de cristianismo primitivo. Preocupa-o a autenticidade e o sentimento de solidariedade e compreensão sobre uma sociedade rota e num mundo em crise.
   Sofreu forte influência de romancistas de língua inglesa, especialmente de Aldous Huxley e William Faulkner, dos quais assimilou a técnica do contraponto (passar rapidamente de uma situação a outra) e do flash-back (fusão do presente e passado).
   É considerado o representante gaúcho do regionalismo modernista.
   Costuma-se dividir a obra de Érico Veríssimo em três grupos:

1.  ROMANCE URBANO:

   “Clarissa”, “Caminhos cruzados”, “Um lugar ao sol”, “Olhai os lírios do campo”, “Saga” e o “Resto é silêncio”.
   Nessa primeira fase, o autor realiza o “roman-fleuve” (romance seriado), unindo alguns romances por personagens comuns, cujas vidas se entrelaçam, embora esses romances possam ser tomados isoladamente.
   Esta fase é marcada pela crônica de costumes urbanos e pela notação intimista. Registra a vida da pequena burguesia porto-alegrense, destacando os pares Vasco-Clarissa e Noel-Fernanda, com uma visão otimista, às vezes lírica, às vezes crítica, e com uma linguagem tradicional, sem inovações estilísticas. Questiona as crises espirituais do homem no mundo atual, inspirando-se numa espécie de cristianismo primitivo. Preocupa-o a autenticidade e o sentimento de solidariedade e compreensão, sobre uma sociedade rota e num mundo em crise.
   Desta fase, destaca-se a obra “Caminhos cruzados”, considerada um marco na evolução do romance brasileiro. Nela, Érico Veríssimo usa a técnica do contraponto, desenvolvida por Aldous Huxley (de quem fora tradutor) e que consiste mesclar pontos de vista diferentes (do escritor e das personagens) com a representação fragmentária das situações vividas pelas personagens, sem que haja no texto um centro catalisador.

2. ROMANCE HISTÓRICO:

   “O tempo e o vento”, obra cíclica de proporções épicas.
   A trilogia de Érico Veríssimo procura abranger duzentos anos da história do Rio Grande do Sul, de 1745 a 1945, investigando suas origens e formação social. É fase histórico-regionalista.
   Nesta fase, o contraponto serve para apresentar o jogo das gerações: portugueses X castelhanos, nos tempos coloniais; farrapos X imperiais, durante as lutas separatistas; maragatos X florianistas, na Revolta da Armada, em 1883. A história de duas famílias: os Terra Cambará e os Amaral, atravessando dois séculos de vida perigosa, é o fio romanesco que une os episódios do ciclo.
 O primeiro volume, “O continente”, narra a conquista de São Pedro pelos primeiros colonos e é considerado o ponto mais alto de sua obra.

3. ROMANCE POLÍTICO:

   “O senhor embaixador”, “O prisioneiro” e “Incidente em Antares”.
   Escrito durante o período da ditadura militar, iniciada em 1964, denunciam os males do autoritarismo e as violações dos direitos humanos, voltando-se para o romance político, tendente a uma posição ideológica que tem sido rotulada de liberalismo socializante ou socialismo democrático.
    Desta série destaca-se “Incidente em Antares”.

III – “OLHAI OS LÍRICOS DO CAMPO”





   “Olhai os lírios do campo”, de 1938, é um dos livros nacionais que mais alcançou grande número de edições e projetou o nome do autor em todo o país.
Narra á história de Eugênio e Olívia, dois médicos, que sofrem as angústias do mundo moderno.
   O livro divide-se em duas partes sendo a primeira o cruzamento de dois níveis temporais: o presente (Eugênio dentro do carro em direção ao hospital) e o passado (sua vida de infância, seus traumas, seu conhecimento com Olívia, o casamento com Eunice, a frustração, o sentimento de se ter vendido para vencer).
   O romance focaliza a vida tumultuada de Eugênio, rapaz de origem humilde que, à custa de muito sacrifício, consegue formar-se médico. Envolve-se por uma colega da faculdade, Olívia, que o compreende e o ajuda a superar suas crises existenciais.  No entanto, querendo subir na vida (fama e dinheiro), acaba casando-se com Eunice, uma jovem da alta sociedade que vive num mundo bem diferente do seu. Eugênio passa a trabalhar na fábrica do sogro, no Sindicado de influência do mesmo.
   Pouco a pouco, porém, começa a perceber que o casamento foi um equívoco, pois se sente deslocado e inferiorizado naquele meio social em que o dinheiro é o valor supremo.
   Envolve-se com a mulher de um amigo, Isabel, que se torna sua amante; mas dentro dele nada se modifica. Não se esquece de Olívia que está longe e quase não tem notícias.
   A segunda parte desenvolve-se de maneira mais linear, embora o passado se misture ao presente através das cartas de Olívia (já morta) e pela presença de sua filha, Anamaria.
   Assim, nesta narrativa de vários planos temporais, entrelaça-se uma crítica à sociedade fútil e vazia, ao acúmulo de riquezas (“Megatério”) e à consequente hipocrisia das relações sociais.
   Neste mundo em crise, a voz de Olívia representaria a mensagem do próprio autor, simbolizada na metáfora do título.
   Uma mensagem de otimismo, de confiança, que Eugênio só compreenderá no final.

   “Era preciso pensar nos outros e fazer alguma coisa em favor deles...Por que não começar algum trabalho em benefício das crianças abandonadas? Dar-lhes alimentação adequada, boas roupas, higiene, instrução, assistência médica e dentária, colônia de férias, oportunidades de se divertirem, de serem alegres...”

   É sintomático que o herói do romance, Eugênio, seja médico. A medicina é a mediadora entre a ciência, a técnica e o sentimento humanitário. Pensando primeiro em si mesmo, egoisticamente, Eugênio evolui para a solidariedade, através das colocações de Olívia, que, ambos, embora morta, é um personagem presente no romance, fazendo contraponto com Eugênio.

 IV - RESUMO DO ENREDO:


                   CAP. 1

    Um médico sai do quarto de número 122, pede para Irmã Isolda, telefonar para o Dr. Eugênio e avisá-lo que se trata de um caso perdido: ”ela sabe que vai morrer e quer vê-lo”.
Eugênio recebe o recado como um golpe, uma sensação de remorso e a certeza que agora iria começar a pagar os seus pecados.
    Mente para a sua esposa, Eunice, e pede para o motorista, Sr. Honório correr, pois se tratava de um caso urgente.


                        CAP.2
 
    Durante a viagem, recorda de um episódio de sua infância. No recreio, abaixando-se para pegar uma bola, um aluno percebeu que suas calças estavam furadas. Gritou aos outros meninos e meninas que em um coro estridente, zombavam de Eugênio, enquanto que as lágrimas desciam pelo seu rosto.
   O sentimento de humilhação de ser de família pobre; a professora cobrando a mensalidade atrasada; o irmão fazendo parte do coro da zombaria; seus pés gelados pelo frio que entrava da sola do sapato causavam-lhe revolta e vergonha.
   Em casa, observa o pai, Sr. Ângelo, homem calado e murcho, envelhecido antes dos quarenta, cara inexpressiva, olhos apagados, ar de resignação quase bovino, mais tossia que falava e quando falava, era para queixar-se da vida; porém, sem amarguras, sem raiva. Eugênio não conseguia amá-lo, afinal, ele tinha falhado na vida. Viviam fugindo de credores. Em seguida, reparava em sua mãe. Ela era bonita, sim, mais bonita que muitas mulheres ricas que ele conhecia. Dizia sempre que eles ainda haviam de ser felizes, e de viver com todo o conforto.

   “Ninguém foge do destino - eram as palavras de D.Alzira - eu acho que, se ele nos tem trazido tanta coisa ruim, um dia pode nos trazer coisas boas.”

   Chega Florismal, amigo da família, tinha uma certa dignidade de estadista e lamenta-se de não ser advogado. Sempre perguntava a Eugênio que fora Florismal e ele respondia:

“ - Foi um dos doze pares da França.”

   Falam sobre a guerra e naquela noite, Eugênio imagina que Deus, o Kaiser e o Destino eram uma e a mesma pessoa.
   “Deus o dono do mundo. O Kaiser queria vencer a Europa e o Destino era o culpado de todas as coisas ruins que aconteciam no mundo.”

   O automóvel corre e Eugênio revive imagens do seu passado. O pai humilhado, a mãe se sacrificando por ele. Agora, ambos mortos, e o pior, se fosse lhe dado uma oportunidade para recomeçar sua infância e adolescência, seria igual - não lograria amar os pais como eles mereciam.
   Pensa em Olívia. Ela o amara e ele estava cego pelo sucesso. Fez um casamento rico e hoje ele era simplesmente o marido de Eunice Cintra.


                                   CAP. 3

    Eugênio aos quinze anos achava-se feito. Deus realmente era ingrato, não lhe deu riqueza, nem beleza.
   Lembra-se de seu primeiro amor, Margaret, a filha do diretor do colégio e os primeiros desejos que seu corpo emanava. A mãe lavava toda a roupa branca que se usava no colégio, dessa maneira ele podia lá estudar. Pensa em ser igual ao Dr. Seixas e cuidar dos pobres futuramente.
   A imagem de Mr. Tearle insiste em não sair de sua mente. Era o mais novo professor do colégio, viera dos Estados Unidos e tinha lutado na guerra. Acabou se suicidando com um tiro no peito em uma noite de tempestade.

   A viagem continua. Pensa em seus três anos de casamento com Eunice e o erro que tinha cometido. Ela era atraente, mas, o que mais o atraíra foi o seu dinheiro, a maneira mais fácil de alcançar a fama. Em seguida, Olívia e Anamaria aparecem em seus pensamentos.

   “Que seria da menina, caso Olívia morresse?”


                                   CAP. 4


   Eugênio volta ao seu tempo de adolescência, sua amizade com Alcebíades, um dos alunos mais ricos da escola e quando foi apresentado a Acélio Castanho, o ex-aluno, mais notável que a escola teve. Um dia quando caminhavam juntos, viu o seu pai. Tentou disfarçar, mas não havia mais tempo. Sr. Ângelo veio em sua direção, cumprimentou-o e Eugênio o ignorou, como se não o conhecesse.
   Naquela mesma noite, na hora do jantar não tinha coragem para encará-lo. De repente os olhos do pai buscam os de Genoca (Eugênio) como se lhe pedissem desculpas.

   “Honório corre. Anamaria cresceria sem pai, sem mãe...”


                                   CAP. 5

     No dia da formatura, depois do discurso do Sr. Diretor, Eugênio sai, segurando o diploma na mão, agora era ele se transformara no Dr. Eugênio Fontes.
   Fazia um ano que ajudava o Dr. Teixeira Torres no hospital Sagrado Coração, o pai tinha falecido um ano antes e seu irmão Ernesto, continuava a beber...
   Repara em Olívia, a única mulher da turma. Ela estava encostada em uma das colunas, segurando um ramalhete de rosas vermelhas. Olívia formara-se com sacrifícios; morava com um casal alemão, os Falk; trabalhava em um Laboratório de Análises Clínicas e Eugênio nunca a tinha visto vestida daquela maneira, radiante, feminina. Ele sempre a viu como um colega da turma.
   Olívia diz que está esperando que um cavalheiro a convide para entrar em seu automóvel. Eugênio não tem carro, mas oferece o seu braço e juntos decidem prestar uma homenagem a um monumento ali perto, o do Patriarca. Falam sobre o futuro e Eugênio mostra-se inseguro com o amanhã. Ele acreditava que o diploma faria desaparecer a sua sensação de inferioridade, no entanto, não tinha confiança em si e preocupava-se com a impressão dos outros.

   A viagem continua. Olívia disse-lhe uma vez:

   “O que tu precisas é aceitar as criaturas. A humanidade não tem culpa da maldade daqueles homens que te humilharam.”


                                   CAP. 6

   Recorda-se do seu desespero em sua primeira operação. O Dr. Teixeira havia dito que era um caso perdido e fora atender outro paciente de maior importância. Na hora da operação, os traumas de infância vieram. Eugênio vacila e teme que as pessoas percebam. O paciente morre em suas mãos e ele se sempre um fracassado.
   Naquela noite Eugênio procura Olívia para desabafar.

   A viagem prossegue e Eugênio lembra-se de sua primeira noite de amor com Olívia.
   A morte do paciente, a revolução e a sensação de derrota.
   Os olhos fechados, ela acariciando seus cabelos, o desejo tomando conta de seu corpo e o beijo.

 “Ela se entregou num comovido silêncio.”


                                    CAP. 7                                            

   Eugênio sai do quarto da amiga, totalmente confuso.  
    A mãe o esperava, estava aflita e queria notícias sobre a operação.

   ”Não há de ser nada, ninguém pode com o destino.”

   Eugênio questiona-se como será sua amizade com Olívia agora?
   Tudo fora um momento de tontura...
   Pergunta à mãe se tivera notícias de Ernesto e lembra-se daquela noite, em que ele apareceu novamente no jornal como desordeiro.
   Eugênio foi firme: “um de nós é demais nesta casa”.
   Ernesto foi-se e não tiveram mais notícias dele.

   “No carro, Eugênio, vê sua mãe morrendo e pedindo para ele procurar o Nestinho, que o Nestinho era bom...Agora Olívia é que morria...”


                                    CAP. 8      

   Eugênio é chamado para socorrer uma criança, a mãe estava desesperada e depois, o choro de Eugênio. Naquela noite, Olívia e Eugênio, jantaram no Edelweis, beberam, dançaram e ele, sentiu vontade de beijá-la; porém, sem malícia ou sensualidade.
   Olívia diz-lhe para que nunca se esqueça de olhar para as estrelas e conta que aceitou a proposta do Dr. Bellini para organizar a maternidade do hospital, em Nova Itália.
   Nesta noite, com as luzes apagadas, Eugênio se entregou a Olívia, como quem quer aliviar o sofrimento dum doente com uma injeção sedativa.

   O carro deslizava pela estrada. Eugênio repara que são vinte para as oito e novamente se lembra do Mr. Tearle, que dizia que, quando alguma coisa acontece, sempre passam vinte minutos ou faltam vinte minutos. Será que Olívia morreu?
   Olha para as estrelas...

   ”Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida.”


                                   CAP. 9
  
   Eugênio é chamado para atender a uma mulher que havia cortado o pulso, acidentalmente, na casa dos Cintra.
   Fazia um mês que Olívia havia partido e somente uma carta viera.

   Dizia: “O Dr. Bellini é o homenzinho mais engraçado do mundo.”

   Após o socorro, Eugênio ao virar-se, depara-se com uma mulher muito loura, vestida de um roupão escarlate, que manda queimar o lençol sujo de sangue e em seguida, ordena que o médico a acompanhe, oferece cigarros e trata-o como fosse um criado.
   Observa Eugênio e pergunta-lhe a sua opinião sobre Freud. Acrescenta que ele era uma espécie rara de homem, pois ainda ficava atrapalhado sozinho na presença de uma mulher.    Eugênio conclui que ela não passa de uma mulher rica e mimada, querendo aparentar-se moderna.
   Eunice continua dizendo que é o tipo de mulher que adora provocar reações.    
   Eugênio reage com palavras e na hora de sair, ela entrega-lhe uma nota de cinquenta mil-réis.

   Faltam quarenta minutos de viagem. Pensa em Anamaria, ela herdara de Olívia uma expressão de suave seriedade. Lembra-se das palavras frias de Eunice dizendo que não queria filhos, que eram mamíferos esfaimados que deformam o corpo.
   Acélio Castanho falava em Platão; Cintra e Filipe em negócios; e Izabel, a esposa de Filipe, procurava com olhares, Eugênio.
   Pensa nos telefonemas de Eunice, os seus convites, os passeios de carro, até que em uma noite, surpreendeu-se de mãos dadas com ela.

   “Estaria apaixonado naquela época? Não podia negar que, ela era uma mulher atraente.”

   Olívia escrevia raramente e as cartas pareciam de homem para homem, enquanto isso imaginava como seria ser genro de Vicente Cintra.


                                   CAP. 10

   Olívia retorna de Nova Itália e Eugênio lhe pergunta se tinha recebido a carta. Afirma que não gostava dela, que era em sua carreira que pensava...
   Olívia diz-lhe que acredita que ele há de se lembrar desta noite, daqui a muitos anos. Ele puxa-a contra o seu corpo e se entregam ao amor. No dia seguinte, Olívia parte novamente para Nova Itália.

   Pede para Honório correr mais e conscientiza-se de que não se preocupava mais com Eunice e nem com as convenções sociais. Mas, que a vida deixaria de ter sentido se Olívia morresse.


                                   CAP. 11

    Era aniversário de Eugênio, 31 anos. Os amigos presentes conversando sobre o “Megatério” que Filipe estava construindo e Dora, sua filha comenta que ele, gosta mais do “Megatério” que dele. Ela amava um estudante judeu, Simão. Os pais se opunham ao namoro e os namorados sofriam. Enquanto isso, os pensamentos de Eugênio estavam fixos
num anúncio de jornal: o endereço novo do consultório da Dra. Olívia.
  
   Dez minutos para chegarem.

Olívia está fora de perigo, Deus existe?!...”


                                   CAP. 12

    Eugênio revê o seu relacionamento com Izabel. Não tinha coragem de dizer-lhe que não a amava. Na verdade, precisava sacrificar vítimas para conter o seu sentimento de inferioridade.
    Em seu emprego na fábrica do sogro, vive conflitos existenciais, mostra-se fraternal para com a secretária e para com os outros empregados na intenção de comprar-lhes a cumplicidade.  
   Um dia, um acidente mata um operário: Toríbio Nogueira, 37 anos, casado, cinco filhos.   O Sr. Cintra incumbe Eugênio para providenciar os encaminhamentos dentro das leis trabalhistas e ironiza afirmando que ele tem jeito para essas coisas.
   À noite quando todos saíram, Eugênio apanha seu chapéu e vai á procura de Olívia.
   Confessa-lhe que sentiu sua falta e pergunta-lhe se um dia ela o amou.
   Eugênio, em seguida, comenta que ela deve ter sofrido todo esse tempo, sem um amigo, sozinha. Ela responde que ele deixou a melhor das recordações naquela última noite. Leva-o para o seu quarto e Eugênio pode ver uma criança dormindo no berço. Comovido, ele se reconheceu no bebê adormecido.

   Passam pelo parque. Lembra-se que passeou com Olívia e Anamaria há poucos dias por entre aquelas árvores. Depois daquela verdade, sua vida tinha mudado: visitava a filha  todos os dias e durante quinze dias, o seu convívio com Olívia foi intenso.
   O carro estacionou a porta do hospital, Irmã Isolda vem recebê-lo e murmura que, Olívia morreu ao anoitecer, na santa paz do Senhor. O seu corpo estava sendo velado na capela.



                                   II PARTE

                            CAP. 13

   Eugênio relê a carta que Olívia lhe escreveu, poucas horas antes de morrer. Era uma carta de despedida, deixando Anamaria aos seus cuidados e avisando que na gaveta da cômoda havia um maço de cartas que ela havia escrito de Nova Itália expressamente “para não te mandar”.
   Passou pelo “Megatério”, pensou em Filipe e em sua ambição.


                                   CAP. 14


   Eunice ofereceu um jantar a Túlio Altamira, pintor paulista e ocorre uma discussão entre Túlio e Acélio Castanho que defende que, só a castidade pode elevar o homem dos animais irracionais.


                                   CAP. 15

    Eugênio sonha que está parado em uma calçada, observando as meninas de um orfanato. Acorda desesperado, pensa em Anamaria. Agora passa a maior parte de seu tempo na casa dos Falk, relendo as cartas de Olívia. Fica a refletir o que estava fazendo naquele momento em que Olívia pensava nele e lhe escrevia. Talvez resfolgasse como um animal nos braços de Izabel...

   “Tinha tido apenas a ilusão de viver, mas na verdade andara morto entre os homens.”


                                   CAP. 16


   Eugênio, sempre que deixava a casa dos Falk, Anamaria perguntava por que ele não dormia ali.
   Essa situação estava sufocando-o, até que não aguentando mais, resolve contar tudo a Eunice.
   Eugênio chegou afirmar que foi patife em casar-se com ela, pelo dinheiro. Ela responde que aquilo não era nenhuma novidade, que, por sua vez, havia casado com ele por extravagância e pura piedade.
   Eugênio deixou a casa de Eunice naquela mesma noite.


                                   CAP. 17


   Eugênio montou seu consultório em duas salas de aluguel barato, num edifício modesto e tinha como amigo e confidente, o Dr. Seixas. Seus pacientes eram em sua maioria empregados do comércio, funcionários públicos, estudantes pobres e prostitutas.
   Sr. Cintra tentou fazer-lhe um acordo, uma viagem, mas, Eugênio estava decidido.   Eugênio passou a fazer as suas refeições com os Falk e fazia Anamaria dormir.
   Uma noite quando relia as cartas de Olívia, o telefone tocou. Chamado urgente.


                                   CAP. 18

   Era Izabel. Queria saber se existia outra mulher na vida dele.
   Eugênio compra o jornal para procurar o anúncio que havia colocado pedindo informações sobre o paradeiro de Ernesto. Naquele dia no consultório, atendeu três homens e duas mulheres com doenças venéreas. O sexto cliente era uma menina. O pai queria saber se a filha ainda era virgem.
   Á noite, voltando de um chamado urgente encontrou Dora e Simão, sentados num dos bancos da praça, bem na frente do “Megatério”. Dora conta que um professor falou contra os judeus e que Simão tinha se retirado da sala de aula. Simão não vê esperanças para o namoro entre eles. Seus filhos seriam desprezados pelos judeus e pelos cristãos.
   Eugênio promete interceder, mas Simão diz que:

   “O Eng. Filipe Lobo só compreende as criaturas de cimento armado e aço.”


                                   CAP. 19

   Havia dias escuros na nova vida de Eugênio. Os jornais daquele dia anunciaram a viagem de Eunice e do pai  à Europa. Chegavam versões diversas sobre o seu rompimento com Eunice: dizia-se que ele havia apanhado a mulher nos braços de Filipe, ou nos braços de Acélio Castanho, que Eugênio era impotente sexual...


                                   CAP. 20

    Uma manhã Simão foi buscar Eugênio para ir socorrer-lhe o pai, Sr. Mendel Kantermann. Depois de tirá-lo do perigo, Simão quis que ele conhecesse sua casa, sua miséria, falava que a mãe só tinha um seio em virtude da crueldade dos homens. Quis pagar-lhe a consulta e contou que mostrou toda a sua vida à Dora, para o prazer doentio de torturá-la.
   Em casa o Dr. Seixas o esperava para uma intervenção cirúrgica e em seguida, diz que tinha uma supressa para ele. Era Florismal que estava internado. Conversaram sobre o passado. Florismal morre depois de uma semana.
   Aquela noite, Eugênio folheou o álbum de fotografias de Olívia. Nada sabia sobre o seu passado. Havia uma foto ao lado de um rapaz e por baixo do retrato, havia um nome e duas datas: Carlos - 1921-l923. Talvez fosse o homem que primeiro a tivera nos braços.


                                   CAP. 21

    A clientela de Eugênio aumentava cada vez mais. Uns comentavam que ele queria a medicina socializada porque tinha mentalidade de funcionário público, outros diziam que ele era comunista...Teve em suas mãos um caso impressionante. Um antigo funcionário público, trabalhador, honesto, resolve se internar num hospício, pois conclui que está louco, justamente por portar essas qualidades.
   Outros casos são: um casal, onde a mulher estava quase cega de ambos os olhos. Não tinha caso de cegueira na família e começou a perder a visão aos poucos. Quando Eugênio fica a sós com a mulher pergunta-lhe quantos abortos, ela praticara: Dez, e, outro, um homem fino, da alta-sociedade, preocupado por estar fracassando na cama com suas amantes.
   Numa manhã de domingo, Eugênio, foi à casa de Seixas e indaga o motivo das flores em cima da mesa da sala. Ele responde que vinham da parte do Dr. Ilya Dubov. Ele era um homem solitário, não tinha parentes, nem amigos e não queria ficar esquecido depois de morrer. Dizia à D. Quinota que estava lhe emprestando as flores, que quando morresse, ela tinha que levar todos os sábados um buquê bem bonito à sua sepultura.


                                   CAP. 22

    Dora e Simão aparecem no consultório de Eugênio. Ela estava grávida de três meses e queriam que ele fizesse um aborto. Ele se nega a fazê-lo e diz que o melhor remédio é contar tudo a Filipe. Ao ligar para Filipe, a secretária diz que ele não podia atender naquele momento. Simão desafia Eugênio afirmando que tinham procurado um amigo, mas que procuraria então qualquer desconhecido, uma parteira ou um médico que faria o que ele negou-se a fazer.
   Eugênio tenta impedir a saída deles, mas não quis usar de violência, acreditando que tinha tempo de avisar Filipe, para que ele interviesse. Já no escritório de Filipe, Eugênio é acusado como médico e responsável por não ter impedido à saída de Dora.
   Passaram o resto da tarde à procura do casal. À noite, Seixas traz-lhe a notícia:

   “A Anunciata, aquela cachorra, fez o aborto...veio uma hemorragia...quando viu a coisa preta pediu socorro pro Rezende...O Rezende não quis ficar com a responsabilidade...Chamou o pai de Dora...Não foi possível fazer mais nada. A menina morreu ao escurecer. Simão ainda estava desaparecido.”


                                   CAP. 23

    Aquele final de inverno foi escuro e triste para Eugênio. A morte de Dora, a morte de um velho cliente, Seixas vivendo atormentado pelos credores e pela bronquite crônica...
   Uma noite, resolve ir ao teatro e vê Eunice, Sr. Cintra e Acélio Castanho. Ao passar pelo “Megatério” pensa em Dora e em Olívia.
   Em setembro acordou com os gritos da filha, mostrando-lhe o sol. À noite conversando com Seixas diz que cada dia que passa era uma revelação para ele, que estava encontrando na vida, em carne e osso, velhos conhecidos dos livros: Fausto, Hamlet, Pigmalião.
   Fausto entrou-lhe no consultório na pessoa de um homem de 68 anos, viúvo que ia se casar com uma mocinha de 18 anos e queria algo que o fizesse rejuvenescer.
   Hamlet, era uma guarda-livros, comia pouco, dormia mal, não acreditava em ninguém e tinha uma ideia fixa de suicídio.
   Pigmalião chamava Ramão Rosa, 50 anos, agiota, sua esposa fugira com um sargento da Brigada Militar...
   Pensa nas palavras de Olívia:

   “Felicidade é a certeza de que nossa vida não está se passando inutilmente. O erro é pensar que o conforto permanente, o bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade.”

   Eugênio pergunta se Seixas tinha notícias de Simão.

   “Não faria nenhuma loucura, pois o tempo cicatriza todas as feridas. Em breve Dora desapareceria da vida de Filipe, de Isabel e de Simão, assim como a própria Olívia havia de desaparecer da sua.”


                                   CAP. 24

    31 de dezembro. Faltavam dez minutos para a meia-noite. Eugênio parado na janela observa o “Megatério” que seria inaugurado naquele dia. Ele só queria saber em que estaria Filipe pensando no momento em que o governador declarasse inaugurado o edifício.
   A meia-noite, durante os cumprimentos, D. Frida deseja que Deus dê felicidades a todos e saúde a Anamaria.
   Seixas apareceu à meia-noite e vinte minutos, brindaram e saíram. Seixas estava pessimista. Eugênio comenta que excelentes homens de governo dariam os médicos. Seixas retruca, dizendo que na maioria dos casos, quando os médicos sobem aos postos do governo, se esquecem de que são médicos e passam a ser apenas políticos.
   Seixas olha para Eugênio e pergunta se ele vai mesmo salvar a humanidade. Eugênio responde que:

   “Antigamente só pensava em mim mesmo. Vivia como cego. Foi Olívia quem me fez enxergar claro. Ela me fez ver que a felicidade não é o sucesso, o conforto. Uma simples frase me deixou pensando: Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e, no entanto nem Salomão em toda a sua glória se cobriu como um deles.”

   Eugênio continuava a falar que existiam duas espécies de crueldade: a crueldade que se comete por cegueira, por incompreensão, e a crueldade que se comete por prazer. Por isso que ele acreditava que havia um grande trabalho para médicos e professores. È uma questão de reeducação.

   “Uma revolução pode mudar um sistema de governo, mas não conseguirá melhorar a natureza do homem, dizia Seixas. O ódio é masculino, o amor é feminino, completava.
   Hoje quando a Quinota me abraçou à meia-noite chorou, a coitada. Tem sido companheira de primeira. Há trinta anos numa noite como esta fiz lá promessas ...Mudar de vida, ganhar dinheiro, comprar uma casa, um carro. Tudo continuou como antes.”

   No fim do verão, Eugênio recebeu a notícia que, Eunice e Acélio iam embarcar para o Uruguai, onde se casariam sob contrato. Abriu o jornal na coluna de pequenos anúncios, onde pedira notícias de Ernesto. Havia de encontrá-lo, custasse o que custasse. Continuou a folhear o jornal e lê que Dr. Filipe estava empenhado em nova realização. Dobrou o jornal, pensando em Dora.
   Naquele momento refletiu como pode um dia tão maravilhoso como aquele, os homens estarem a trabalhar. Com certeza esses homens lhe responderiam que, era para ganhar a vida.  E, no entanto, a vida estava ali a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Pediu para D. Frida arrumar Anamaria; pois, iriam dar um passeio. Quando a filha se apresentou pronta, Eugênio reviu nela, a Olívia da noite da formatura.
   Eugênio sentia-se em paz e feliz. De repente fica sério. Estava pensando na menina que atendera a noite passada. Era magra, suja, triste, mal vestida e mal alimentada. Existiam na cidade, no Estado e no país milhares de crianças nas mesmas condições. Não bastava que ele se sentisse feliz, que tivesse Anamaria ao seu lado, alegre, bem vestida...
  
   “Era preciso pensar nos outros e fazer alguma coisa em favor deles. Por que não começar algum trabalho em benefício das crianças abandonadas? Seixas com certeza o ajudaria.”

    Amava as crianças e os moços. Achava que os adultos e os velhos estavam perdidos.

   “- Mas ninguém está perdido“ - falou Olívia em seu espírito. Ele havia esquecido o som da voz dela. No entanto sabia que Olívia estava viva e que ela marcara uma entrevista à sombra das árvores do parque, enquanto Anamaria atirasse migalhas para os marrecos.
   E de mãos dadas, pai e filha saíram para o sol.

                                                                      
                       
  




Um comentário:

Anônimo disse...

vlw cara