sexta-feira, 4 de novembro de 2011

EUGÊNIO DE CASTRO E O SIMBOLISMO PORTUGUÊS


1869-1944
Poeta e professor universitário português, natural de Coimbra, onde se formou em Letras. Iniciou a publicação de obras de poesia em 1884. Três anos mais tarde, colaborou no jornal “O Dia” e, em 1895, foi co-fundador, com Manuel da Silva Gaio, da revista internacional “Arte”, que reuniu textos de escritores portugueses e estrangeiros da época.  
Eugênio de Castro foi um “romântico clássico”, somente depois da temporada parisiense e do contato com os poetas simbolistas Verhaerem, belga, e Verlaine, francês, entre outros, tomou gosto pelo Simbolismo. Sofreu influências dos poetas franceses Baudelaire, Mallarmé, Gustave Kahn e Rimbaud. Entretanto privilegiou os aspectos formais da escola em detrimento dos ideológicos.
Autor de imagens originais e belíssimas, Castro construiu sinestesias requintadas:
Corre por toda ela um suor de pedrarias,/um murmúrio de cores”.
Sua linguagem sugestiva revolucionou a técnica poética portuguesa, apresentando grande inventividade sonora, rimas raras, imagens surpreendentes e originais, ritmos inusitados, tudo isso com uma disciplina clássica que jamais perdeu. Eugênio de Castro cantou episódios caros à história e à cultura portuguesas, mas pouco de seu espírito pode ser entrevisto em seus versos. Fez o que os críticos chamam de “simbolismo de exterior”, sem o correspondente arrebatamento lírico que pulsa a partir do interior dos poetas dessa estética.
Suas obras “Oaristos” (1890) e “Horas” (1891) suscitaram uma acesa polêmica, o que ajudou à difusão do simbolismo decadentista em Portugal, corrente apoiada e difundida pelo jornal “Os Insubmissos” (1889), fundado pelo escritor.
A sua poesia evoluiu depois num sentido neoclassicizante, de que é exemplo “Constança” (1900). Escreveu ainda, para além das já citadas, as obras “Silva”, (1894), “Belkiss” (1894), “Tirésias” e “Sagramor” (1895), “Salomé” e “Outros Poemas” (1896), “O Rei Galaor” (1897), “Saudades do Céu” (1899), “Poesias Escolhidas”, 1889-1900 (1902), “O Anel de Polícrates” (1907), “A Fonte de Sátiro” (1908), “O Cavaleiro das Mãos Irresistíveis” (1916), “Canções desta Vida Negra” (1922), “Cravos de Papel” (1922), “A Mantilha dos Medronhos” (1923), “Descendo a Encosta” (1924) e “Últimos Versos” (1938). Em 1987 foi publicada uma “Antologia”, organizada por Albano Martins.
Eugênio de Castro foi, ainda, tradutor de obras de Goethe e da “Arte de Ler”, de Émile Faguet.

Em uma carta a Pinheiro Chagas, Eugênio de Castro falou sobre “Oaristos”:
 "Livro de revolta, feito com alma ardente e mocidade viva, pendão vermelho de combate contra a sensaboria, contra a chateza da poesia do meu tempo. (...) Livro novo, diferente de todos os livros, abrindo um caminho, achando uma solução, dizendo coisas novas por processos novos".
Composto por quinze poemas, o livro é iniciado por um prefácio que, de certa forma, constitui a “plataforma doutrinária do Simbolismo português”. Apoiando-se no manifesto inicial do Simbolismo francês, publicado em 1886, no jornal “Le Fígaro” por Jean Moréas, e no prefácio que Théophile Gautier fez para “As Flores do mal”, de Baudelaire, Eugênio de Castro afirma que seu livro “é o primeiro que em Portugal aparece defendendo a liberdade do ritmo contra os dogmáticos estultos decretos dos velhos prosodistas”.
No entanto, as inovações de “Oaristos” ocorrem principalmente no plano formal em detrimento ao fundamento filosófico. A exploração do verso alexandrino com cesuras diferentes; rimas raras; linguagem vaga e fluída, revolucionaram a técnica poética portuguesa, apresentando grande inventividade sonora, onomatopéias, imagens surpreendentes e originais, ritmos inusitados, tudo isso com uma disciplina clássica que jamais perdeu. 

 
XI

Um sonho


 
Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol, esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, a flor dos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, ó morena! em contatos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

Seguindo a receita do poeta francês Paul Verlaine: “Antes de tudo, a música”, Eugênio de Castro procura aproximar a poesia da música, por meio do uso de aliterações (repetição de sons semelhantes de consoantes ou de sílabas, especialmente as sílabas tônicas, no início, meio ou fim de palavras, dentro do mesmo verso, estrofe, ou numa frase) e assonâncias (repetição de sons vocálicos, em sílabas tônicas de palavras distintas ou na mesma frase). Como as vogais são acusticamente sons musicais, a assonância funciona como complemento melódico do verso. Ao contrário da aliteração cuja repetição das consoantes sugere ruídos da natureza.
Eugênio de Castro investiu fortemente na evocação de uma atmosfera sensual e em um ambiente onírico, através da sugestão do espaço real ou fictício.
As imagens retratadas são vagas, diluídas, ligadas aos sentidos sem preocupações miméticas, ou seja, de querer reproduzir a natureza com a maior veracidade possível, e, sim, os efeitos que ela causa na sensibilidade do poeta.
Os sonhos são lembrados pouco, mal e até com atormentadoras dificuldades. Não existe nenhuma mistificação reprovável em que, com isso, o artista pinte sonhos que não teve dormindo, já que, acordado, é um sonhador nato. O decisivo é criar um novo mundo visível, e não retratar o que tem diante dos seus olhos.
Logo, nas duas primeiras estrofes, o eu lírico procura revelar as correspondências entre a natureza e o ser humano, fazendo uso de linguagem expressiva, colorida e sonora, sugerindo mais do que dizem as palavras.
Não interessa a visão estática da realidade, importam as impressões perante os efeitos mais fugidios, importa captar a sensação da paisagem, no momento em que ela se dá na sensibilidade do artista. Dessa forma, a partir da observação direta da notação cromática (cor dourada), registra o estado de inconsciência do eu lírico e as constantes alterações que essa luz provoca. Para tornar possível essa compreensão expandida da realidade, o poeta faz com que o texto literário seja o ponto de partida para as experiências sensoriais a serem vividas pelo leitor.  Por esse motivo, a linguagem e a forma são muito valorizadas: a “messe”, isto é, o campo na hora da ceifa, durante o pôr-do-sol (“O Sol, o celestial girassol, esmorece”) e com a luminosidade natural, o dourado.
Em seguida, o eu lírico introduz a musicalidade (aliterações e assonâncias) e citação de instrumentos musicais: “cornamusas” (gaitas de foles); crótalos (antigos instrumentos musicais semelhantes a uma castanhola); cítolas e cítaras (instrumentos de corda) e sistros (antigo instrumento egípcio de percussão).
Na terceira estrofe, há um apelo do eu lírico: “Fujamos, Flor!”
O eu lírico alerta à amada a ouvir os sussurros chorosos (“gemer dolente”) dos amantes que se beijam, aproveitando-se dos prazeres carnais. Na sequência, comenta que um noivo sofre a morte de sua amada (“é um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos”) e insiste para que sua amada se entregue aos seus carinhos (“rolemos, flor!”).
No momento em que irá concretizar seus desejos, o eu lírico escuta três tiros e desperta assustado: “Três da manhã. Desperto incerto...”, tudo passou de um sonho.








Nenhum comentário: