sábado, 12 de novembro de 2011

ANTÔNIO ALCÂNTARA MACHADO E O "PORTUGUÊS MACARRÔNICO"




   "Antônio de Alcântara Machado era tão filho e neto de mestres das Arcadas quanto entusiasta da primeira hora dos desvairistas e primitivistas: foi, assim, uma inclinação liberal e literária pelo “pitoresco” e pelo “anedótico” que o fez tomar por matéria dos seus contos a vida difícil do imigrante ou a sua embaraçosa ascensão. Creio que esses dados de base ajudem a entender os limites do realismo do escritor, visíveis mesmo nos contos melhores, onde o sentimental ou o cômico fácil, mimético, acabam por empanar uma visão mais profunda e dinâmica das relações humanas que pretendem configurar."
Bosi, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 1984, p. 422.
  
I – AUTOR:
ANTÔNIO Castilho de ALCÂNTARA MACHADO d'Oliveira nasceu em São Paulo, a 25 de maio de 1901, filho de ilustre e tradicional família paulistana (descendentes de veteranos das campanhas do Império, senadores, juristas), formou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco e optou pela carreira literária e de historiador. Durante os dez anos que exerceu a atividade de escritor e jornalista, viveu o período preparatório da Revolução de 1930, a fase inicial de sua implantação e o chamado movimento constitucionalista, desde da Revolução Paulista (1932) até a elaboração da primeira constituição da República Nova em 1934.


Apesar de colaborar periodicamente com artigos sobre cultura no Jornal do Comércio, só tomou contato direto com os modernistas de São Paulo a partir de 1925.
O gosto da caricatura era indissociável do espírito de 22 e Alcântara Machado o cultivou regularmente nos seus contos, nas crônicas de viagem à Europa, em 1925, de “Pathé-Baby” (1926) com prefácio de Oswald de Andrade e nos artigos de jornal postumamente reunidos em “Cavaquinho e Saxofone” (1940), que abrange quase dez anos do jornalismo literário do escritor praticado em diversos veículos, entre eles o “Jornal do Comércio de São Paulo”, o “Diário de São Paulo” e as revistas “Terra Roxa e Outras Terras”, “Revista de Antropofagia” e “Revista Nova”, divulgadoras das ideias modernistas e que ele ajudou a fundar.


 
A consagração literária de Alcântara Machado se dá com a publicação de “Brás, Bexiga e Barra Funda” (1927), contos que retratam a imigração italiana, o cotidiano desses italianos e de seus descendentes, nas décadas de 20 e 30, como um retrato vivo da sociedade paulistana. 


E, “Laranja da China” (1928), o mesmo traço caricatural, cujos personagens nada têm de ítalo-paulistas, mas ostentam sobrenomes lidimamente portugueses.


O autor escreveu também, relatos de viagens, crítica de teatro, contos, crônica política, pesquisa histórica e deixou obras inacabadas, entre elas o romance, “Mana Maria”.  



A obra de Alcântara Machado, hoje reunida sob o título de “Novelas Paulistanas”, foi interrompida, pela morte prematura, mas deixou momentos notáveis como o “Apólogo Brasileiro sem véu de alegoria”.
A estória se passa no trenzinho de Maguari para Belém. Acaba a energia e todos ficam no escuro. Um cego, no entanto, se revolta e incita os demais ao motim. O delegado de Belém prende um dos rebeldes porque, incitado a esclarecimento, afirmou que o responsável pela desordem era um cego:

“Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.”

O Prof. Antônio Cândido aponta Alcântara Machado como o mais vivo ensaísta e divulgador das atitudes iconoclastas do primeiro tempo modernista.

“A meninada moderna surgiu que nem capoeira em festa de subúrbio. Distribuindo pés de arraia. Prodigalizando cocadas. Arrumando pés de ouvido. O que não prestava virou logo de pernas para o ar. Houve muito nariz esborrachado. Muita costela quebrada. As nove musas tiveram nove chilinques cada uma. Osório quis se enforcar nos bigodes de Alberto. Os bigodes não quiseram. Fontes secaram. Felinto resolveu espalhar os pés. Mas não pode com o peso deles. Coelho virou onça, Lima azedou. Nas igrejolas literárias do interior sinos passadistas tocavam a rebate. Do viaduto de sua mediocridade muita gente se atirou desgostosa da vida. Tiros. Bengaladas. Mortes.
Um homenzinho de dedo espetado gritando: “eu sou o último heleno!” Vivórios. Morras. Salva de vinte e um tiros. Foguetes. Bofetadas. Ódios. E o enterro das vítimas: o comendador Alexandrino, o Dr. Soneto, e a Srª. Hélade Sagrada, o conselheiro Parnasianismo.”

                                   “Cavaquinho e Saxofone”   

Morreu em 14 de abril de 1935, em São Paulo, aos 34 anos de idade, em consequência de uma operação de apendicite.

II - CARACTERÍSTICAS:

Como prosador, trilhou por caminhos experimentais traçados anteriormente por Mário e Oswald de Andrade, aproximando-se da linguagem leve, espontânea, elíptica, alusiva,   telegráfica, e cinematográfica, cheia de flashes e cortes surpreendentes, o que possibilitou uma comunicação fácil e direta com o público, resultado possível graças à sua atuação como jornalista.
Antônio Alcântara despojou-se dos efeitos meramente ornamentais, dando o nome exato às coisas ou usando a palavra direta.
O texto a seguir mostra, de maneira irônica, a ruptura que o autor propõe para acabar com o estilo rebuscado que até então marcava a literatura da época:

O literato nunca chamava a coisa pelo nome. Nunca. Arranjava sempre um meio de se exprimir indiretamente. Com circunlóquios, imagens poéticas, figuras de retórica, metalepses, metáforas e outras bobagens complicadíssimas. Abusando. Ninguém morria: partia para os páramos ignotos. Mulher não era mulher. Qual o quê. Era flor, passarinho, anjo da guarda, doçura desta vida, bálsamo de bondade, fada, e, diabo. Mulher é que não. Depois a mania do sinônimo difícil. A própria coisa não se reconhecia nele. Nem mesmo a palavra. Palavra. Tudo fora da vida, do momento, do ambiente. A preocupação de embelezar, de esconder, de colorir. Nada de pão, queijo queijo. Não Senhor. Escrever assim não é vantagem. Mas pão epílogo tostado dos trigais dourados, queijo acompanhamento vacum da goiabada dulcífica, sim. E bonito. Disfarça bem a vulgaridade das coisas. Canta nos ouvidos. E é asnático, absolutamente asnático. Tem sobretudo esta qualidade. (...)O literato não se contentava em exclamar: “como cheiram as magnólias!”Não. As magnólias eram capazes de se ofender com tanta secura. E ele então acrescentava poeticamente: “Flores de carne, seios de virgem.” Pronto. As magnólias já não tinham direito de se queixar“.

É interessante observar no texto acima a maneira divertida e irônica de se referir ao estilo do tempo, ao relatar o presente, ano de 1927, como se fosse coisa morta e definitivamente enterrada. Os artifícios linguísticos empregados neste trecho evidenciam a completa identificação do autor com o movimento modernista.
“Mana Maria”, “Contos Avulsos” e “Brás, Bexiga e Barra Funda” buscam uma expressão brasileira da Língua Portuguesa, reduzindo o mais possível a distância entre a linguagem falada e a escrita.
O “português-macarrônico”, a “salada da ítalo-paulistana” das costureiras, verdureiros, tripeiros, de alguns milionários e bacharéis, lembram o Juó Bananére de “La Divina Increnca”, não só pela italianização da língua nacional e vice-versa, como também pela sátira ao convencionalismo, ao rotineiro estandartizado, aos chavões da literatura e da imprensa.











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