domingo, 9 de outubro de 2011

PRÉ-MODERNISMO: BRASIL E AS MAZELAS SOCIAIS


I – DADOS CRONOLÓGICOS:

O termo Pré-Modernismo foi criado por Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Ataíde) para designar o período cultural brasileiro que vai do princípio do século XX à Semana de Arte Moderna, ou, como quer a cronologia literária, de 1902, ano da publicação de “Canaã”, de Graça Aranha, e de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, até 1922.
Corresponde à “belle époque” brasileira, marcada pela concomitância de diversas correntes, às vezes opostas: Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo.
Assim, o pré-modernismo não foi uma ação organizada nem um movimento e por isso deve ser encarado como fase, onde conviveram tendências conservadoras e renovadoras.
O aspecto conservador está diretamente ligado à sobrevivência da mentalidade positivista, agnóstica e liberal que se expressava no estilo realista-naturalista-parnasiano e seus desdobramentos, já que a corrente simbolista não penetrou, senão superficialmente, no espírito das classes cultas.
Otto Maria Carpeaux deixa claro que “aqui e só aqui fracassou o Simbolismo; e por isso, o movimento poético precedente sobreviveu, quando já estava extinto em toda parte do mundo.”
O aspecto renovador está na incorporação, do ponto de vista do conteúdo, de aspectos da realidade brasileira, refletindo situações históricas novas, ou só a partir de então consideradas:

• a miséria e o subdesenvolvimento nordestino, em Euclides da Cunha;
• a vida urbana e as transformações do início do século XX (as greves, o futebol, o arranha-céu, o jogo do bicho, os pingentes da Estrada de Ferro Central do Brasil, o subúrbio carioca), em Lima Barreto;
• a miséria do caboclo do Vale do Paraíba, a decadência da cultura cafeeira, o anacronismo das práticas agrícolas, em Monteiro Lobato;
• a imigração alemã no Espírito Santo, em Graça Aranha.

Assim, pode-se dizer que o aspecto conservador, o Pré, localiza-se mais no código, na linguagem que, com algumas poucas ousadias, continuou fiel aos modelos realistas e naturalistas; ressuscitando até o barroco.
O aspecto renovador, o Modernismo, está centrado: na preocupação com a realidade nacional; no regionalismo crítico e vigoroso e na crítica às instituições arcaicas da República Velha.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

A partir de 1870, a monarquia brasileira enfrentou sucessivas crises (questão religiosa, questão militar, questão da abolição), que culminaram com o movimento militar, liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca, que depôs o imperador e proclamou a república, em 15 de novembro de 1889.
A Primeira República, ou República Velha, estendeu-se de 1889 até 1930. Sob a chefia do marechal Deodoro, foi instalado um governo provisório, que convocou uma assembléia constituinte para elaborar a primeira constituição republicana, promulgada em 1891. Os governos do marechal Deodoro, e, depois, do marechal Floriano Peixoto foram plenos de conflitos com o Legislativo e rebeliões, como as duas revoltas da Armada.
Com a eleição de Prudente de Morais, tem início à chamada “política do café com leite”, segundo a qual os presidentes da República seriam escolhidos dentre os representantes dos estados mais ricos e populosos: São Paulo e Minas Gerais, prática que foi seguida, quase sem interrupções, até 1930.

 
A economia agrário-exportadora continuou dominante. O café representava a principal riqueza brasileira, e os fazendeiros paulistas constituíam a oligarquia mais poderosa. As classes médias eram pouco expressivas e começava a existir um embrião de proletariado.

Por ocasião da primeira guerra mundial (1914-1918), ocorreu um surto de industrialização, em função da substituição de importações européias por produtos fabricados no Brasil.
Com a República, os principais centros políticos passaram por uma transformação do espaço urbano que desencadeou um processo de “europeização” do país.
Cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus e Belém foram as mais afetadas pelo que ficou conhecido, na época, como “bota-abaixo”: a abertura de largas avenidas e a imitação de prédios europeus, para eliminar os traços da arquitetura portuguesa que orientara a construção dessas cidades.
Uma consequência imediata da reurbanização foi o deslocamento de milhares de famílias pobres das áreas centrais, onde moravam em cortiços, para locais de difícil acesso. Nasciam, assim, as favelas, como um desdobramento negativo da tentativa de “embelezar” o país.
Se a reurbanização sugeria prosperidade, ela era apenas aparente. Nos centros urbanos, escravos libertos viviam em um estado de quase completo abandono. Não tinham acesso à educação e não eram mais empregados pelos proprietários rurais. Essa elite econômica preferia “importar” imigrantes europeus. Engrossam-se, em consequência, as fileiras da pequena classe média, da classe operária e do subproletariado.
Acelera-se ao mesmo tempo o declínio da cultura canavieira no Nordeste que não pode competir, nem em capitais, nem em mão de obra, com a ascensão do café paulista.
A partir da década de 1920, o descontentamento dos militares explodiu em uma série de revoltas, destacando-se a marcha da coluna Prestes, entre 1924 e 1927, que percorreu grande parte do Brasil. As oligarquias alijadas do poder central também se mostravam insatisfeitas. Quando ocorreu a crise de 1929, iniciada com o crash da bolsa de Nova York, com seus reflexos negativos sobre os preços do café, a desorganização da economia, as divergências político-eleitorais das oligarquias dominantes e as aspirações de mudança de amplos setores da sociedade provocaram a deflagração da revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.
Vale observar que a diversidade regional fez com que as manifestações políticas e sociais da época expressassem níveis de consciência muito distintos, não raro parecendo exprimir tensões meramente locais. Alguns acontecimentos que configuram este quadro:


1. NO NORDESTE: EUCLIDES DA CUNHA


• A Revolução de Canudos (BA, 1896-1897);

• O fenômeno do cangaço, decorrente do declínio da economia dos engenhos;
• O fanatismo religioso desencadeado pelo “Padim Ciço”, que tem por epicentro o Ceará, entre 1911 a 1915.

2. NO RIO DE JANEIRO: LIMA BARRETO



• A revolta contra a vacina obrigatória (Oswaldo Cruz), 1904, expressiva da insatisfação das massas urbanas;

• A revolta da Chibata (1910) liderada por João Cândido, “O Almirante Negro”. Os marinheiros amotinados exigiam a extinção dos castigos corporais na Marinha.

3. EM SÃO PAULO: MONTEIRO LOBATO


• Greves operárias (1917), por melhores condições de trabalho, tendo à frente o contingente de mão de obra imigrante, liderado especialmente por anarco-sindicalistas dos bairros de Mooca e do Brás.


4. EM SANTA CATARINA:



• A Guerra do Contestado (1912-1916), envolvendo posseiros da região contestada entre Santa Catarina e Paraná, às margens do rio do Peixe.


5. NA AMAZÔNIA:


• A vertiginosa ascensão da economia da Amazônia, durante o ciclo da borracha, seguida da fulminante queda.

Nenhum comentário: