quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"OS SERTÕES", EUCLIDES DA CUNHA

I – BIOGRAFIA:



Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. Foiescritor, professor, sociólogo, repórter jornalístico e engenheiro, tendo se tornado famoso internacionalmente por sua obra-prima, “Os Sertões”, que retrata a Guerra dos Canudos.


Cronologia:

1866 – Nasce no dia 20 de janeiro, na Fazenda Saudade, em Cantagalo, região serrana no vale do rio Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro, onde vive até os três anos, quando falece sua mãe. O autor e sua irmã, Adélia, passam a viver, em 1869, com seus tios maternos, Rosinda e Urbano, em Teresópolis (RJ).

1871 - Com a morte da tia, Rosinda, vão morar com os tios maternos, Laura e Cândido, em São Fidélis (RJ).

1874 - Inicia os estudos no Instituto Colegial Fidelense.

1875 - Seu pai, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, tem o poema “À morte de Castro Alves” publicado na segunda edição de “Espumas flutuantes”, do poeta baiano, prematuramente falecido.

1877 - Estuda no Colégio Bahia, em Salvador (BA), durante um breve período em que morou naquela cidade, na casa de sua avó paterna.


Euclides da Cunha aos 10 anos


1879 - Muda-se para a cidade do Rio de Janeiro (RJ), e estuda no Colégio Anglo-Americano.

1883 - Estuda no Colégio Aquino, e escreve seus primeiros poemas em um caderno, ao qual dá o título de “Ondas”.

1884 - Publica em “O Democrata”, jornal dos alunos do Colégio Aquino, seu primeiro artigo.

1885 - Ingressa na Escola Politécnica para cursar Engenharia. Frequenta somente por um ano, pois é obrigado a desistir por motivos financeiros.

1886 - Matricula-se na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, no curso de Estado-maior e Engenharia Militar da Escola Militar, medida adotada porque a Escola pagava soldo e fornecia alojamento e comida. Tinha, entre seus colegas, Cândido Rondon, Lauro Müller, Alberto Rangel e Tasso Fragoso.

1887 - Passa, por três vezes, pela enfermaria da escola. Pede licença de dois meses para tratar da saúde.

1888 - Sua matrícula na Escola Militar da Praia Vermelha é trancada, face ao ato de protesto durante uma visita do Ministro da Guerra, conselheiro Tomas Coelho, do último gabinete conservador da monarquia. Os alunos em forma, numa revista de mostra, "fuzis perfilados em continência nos ombros", com sabre engatado na espingarda, saudavam a autoridade monárquica. Ao passar diante do ardoroso jovem republicano, Euclides da Cunha, este atirou a arma aos pés do ministro (ou o sabre?). O fato é conhecido como "episódio do sabre". O ato de indisciplina levou o cadete à prisão, transferido, logo depois, para o Hospital Militar do Castelo, em respeito ao laudo médico que atestava esgotamento nervoso por excesso de estudo. Diante dos juízes, o destemido Euclides confirmou sua fé republicana, sendo então transferido para a Fortaleza de São João, aguardando conselho de guerra, cujo julgamento não se realizou, pela intervenção de muitos. D. Pedro II lhe perdoou. Em 11 de dezembro, foi cancelada sua matrícula.
No final de 1888, o jovem Euclides estava em São Paulo. Dia 22 de dezembro, iniciou sua colaboração no jornal "A Província de S. Paulo", escrevendo sob o pseudônimo de Proudhon (escritor francês [1809 - 1865], um dos teóricos do Socialismo que proclamou ser a propriedade privada um roubo, pregando uma revolução que igualaria os indivíduos). Colaborou até maio.

1889 - Retorna à Escola Militar da Praia Vermelha, graças ao apoio de seu futuro sogro, o major Sólon Ribeiro e de seus colegas da Escola, que pedem sua reintegração.

1890 - Casa-se com Ana Emília Ribeiro. Conheceu-a na sua casa durante encontros republicanos com seu pai. Numa das visitas deixou a ela um bilhete: "Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem."

1891 - Tira um mês de licença para tratamento de saúde. Viaja com a esposa para a Fazenda Trindade, de seu pai, localizada em Nossa Senhora do Belém do Descalvado (atual Descalvado), no interior de São Paulo. Morre sua filha Eudóxia, recém-nascida.

1892 - Concluiu o Curso da Escola Superior de Guerra, "de onde saiu com o título de Bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais." É promovido a tenente, seu último posto na carreira. Cumpre estágio na Estrada de Ferro Central do Brasil — trecho paulista da ferrovia, entre a capital e a cidade de Caçapava, por designação do marechal Floriano Peixoto. É nomeado auxiliar de ensino teórico na Escola Militar do Rio. Nasce seu filho Solon Ribeiro da Cunha.

1893 - Escreve artigo com críticas ao governo do marechal Floriano, cuja publicação foi negada pelo jornal “O Estado de São Paulo”.
O presidente, marechal Floriano Peixoto, mandou chamar Euclides, oferecendo-lhe cargos e posições. Euclides apresentou-se com a farda de primeiro-tenente. "Veio em ar de guerra...não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados." - disse-lhe o marechal, declarando que Euclides tinha direito a escolher qualquer posição. "Ingenuamente", o primeiro-tenente, com 27 anos, respondeu-lhe que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na Estrada de Ferro Central do Brasil!
Com a Revolta da Armada, que teve início em 06/09, seu sogro é preso. Sua mulher, Ana, refugia-se, com o filho Solon, na fazenda do sogro, em Descalvado (SP). O escritor é designado para servir na Diretoria de Obras Militares.

1894 - É punido com transferência para a cidade de Campanha (MG), por ter protestado, em cartas á “Gazeta de Notícias”, do Rio, contra a execução sumária dos prisioneiros políticos, pedida pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará. Nasce seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o Quidinho.

1895 - Obtém licença do Exército, por ser considerado incapaz para o serviço militar devido à tuberculose. Vai para a fazenda do pai e se dedica às atividades agrícolas. Cansado, poucos meses após tornar-se lavrador, vai trabalhar como engenheiro-ajudante na Superintendência de Obras Públicas em São Paulo.

1896 - Desencantado com a República e seus líderes, abandonou a carreira militar. Foi reformado como primeiro-tenente. Em 18 de setembro, foi efetivado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, como engenheiro-ajudante de 1ª classe.

1897 - Volta a colaborar no jornal “O Estado de São Paulo”. Júlio de Mesquita, diretor de "O Estado de S. Paulo", convidou-o a seguir como repórter de guerra para Canudos, no sertão da Bahia (área limitada pelo rio São Francisco, ao Norte e Ocidente, e pelo Itapicuru, ao Sul). Tirou licença na Superintendência para "tratar de interesses", em 1º de agosto. Chegou a Canudos a 16 de setembro, um vilarejo iniciado em 1893, no sertão da Bahia, numa curva do rio Vaza Barris, hoje submerso, coberto pelas águas da represa de Cocorobó. Viu a luta desigual, a morte de amigos, a bravura dos jagunços. Canudos não era um foco monarquista, como dizia Artur Oscar: "Antônio Conselheiro era um monarquista por fanatismo. Seu monarquismo era meramente religioso, sem aderências à política." Euclides viu o final da guerra encerrada aos 5 de outubro. Voltou abalado, fazendo uma promessa: vingar o extermínio de Canudos. “Os Sertões”, seu livro vingador, começava a nascer. Em janeiro de 1902, de Lorena, escreveu a Francisco de Escobar: "(...) Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida - o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária."

1898 - Reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Publica em “O Estado”, o “Excerto de um livro inédito”, trechos de “Os sertões”, em que defende a tese de que o sertanejo é um forte, cuja energia contrasta com a debilidade dos “mestiços” do litoral. A ponte recém-inaugurada, construída em São José do Rio Pardo (SP), em parte sob a fiscalização do escritor, desaba, levando o biografado àquela cidade para acompanhar o desmonte. A demora nos trabalhos faz com que o escritor mude-se com sua família para aquela cidade, onde fica até 1901. Profere palestra no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sobre a “Climatologia dos sertões da Bahia”, e propõe a construção de açudes para resolver o problema das secas no Nordeste. Grande parte de “Os sertões” é escrita em São José, com a colaboração do prefeito da cidade, Francisco Escobar, que se tornara amigo do escritor.

Ponte de São José do Rio Pardo-SP.


Diziam, na cidade, que Ana Emília foi muito falada. Ela abominou a cidade e não perdeu oportunidades para diminuí-la, declarando aos jornais, sem argumentos, que “Os Sertões” não foi escrito em Rio Pardo. Mais tarde, criticou o Grêmio Euclides da Cunha, que lhe enviava, com regularidade, os convites das festas euclidianas. Sua filha, Judith, nascida do casamento com Dilermando de Assis, autora do livro “Anna de Assis - História de um Trágico Amor”, escreveu:

"Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, (...) Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um Barão do Rio Branco (...). Mulher audaz, independente, morando numa cidadezinha pequena e provinciana como São José do Rio Pardo, teria seus momentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergavam o horizonte (...). Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de uma mulher fútil e namoradeira. Conclusão chegada porque se postava à janela e alegre e moderna, não se escondia dos homens. (...)".

1900 - Falece, em Belém, o General Solon Ribeiro, sogro do biografado. Finaliza, em maio, a primeira versão de “Os sertões”.

1901 - É nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Públicas, com sede em São Carlos do Pinhal (SP), onde conclui “Os sertões”. Nasce seu filho, Manuel Afonso Ribeiro da Cunha. Assina contrato com a editora Laemmert, do Rio, a publicação de 1.200 exemplares de “Os sertões”, assumindo o compromisso de pagar a metade dos custos de edição, 1conto e quinhentos mil réis, quase o dobro de seu salário de engenheiro.

1902 - Em outubro, na Editora Laemmert, no Rio de Janeiro, Euclides encontrou erros no seu livro. Preocupado e perfeccionista, corrigiu, com paciência monacal, com canivete e tinta nanquim, 80 erros em cada um dos mil e duzentos livros da 1ª edição. “Os sertões (Campanha de Canudos)” chega às livrarias em dezembro, sendo recebido com aplausos e restrições pela crítica.

1903 - A primeira edição do livro se esgota em pouco mais de dois meses. Começa a tomar notas para a “História da revolta”, livro sobre a rebelião da Marinha, que combateu no Rio, como oficial do Exército, de 1893 a 1894. Elege-se para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Castro Alves, e como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Face à possibilidade de participar de expedição ao Purus, suspende a redação do livro. Vende os direitos da segunda tiragem de “Os sertões” para o editor Massow. Demite-se da Superintendência de Obras Públicas.

1904 - Participa, através de artigos publicados em jornais, do debate sobre os conflitos para demarcar os limites entre Brasil e o Peru, no Acre. Condena o envio de tropas brasileiras para o Alto Purus e defende uma solução diplomática que permita incorporar o território do Acre. Propõe uma “guerra dos cem anos” contra as secas do Nordeste, que inclua a exploração científica da região, a construção de açudes, poços e estradas de ferro e o desvio das águas do rio São Francisco para as regiões afetadas pela estiagem. Após trabalhar alguns meses na Comissão de Saneamento de Santos, desentende-se com a diretoria e pede demissão. Sem emprego, volta a escrever no jornal “O Estado de São Paulo” e, também, em “O País”, do Rio. Dificuldades financeiras fazem-no transferir, por uma bagatela, os direitos de “Os sertões” para a editora Laemmert. É nomeado, pelo barão do Rio Branco, chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira do Brasil com o Peru. Parte rumo a Manaus (AM) no dia 13/12.
Ficaria um ano fora. Anna Emília e o caçula Manoel mudaram-se para a Pensão Monat, de madame Monat, à Rua Senador Vergueiro, 14. Solon e Quidinho estavam em colégios internos.

1905 - Anna Emília, com 30 anos, conheceu, na pensão, o belo rapaz loiro, olhos claros, alto, de 17 anos, Dilermando de Assis, cadete da Escola Militar. Apaixonaram-se. A diferença de idades não foi empecilho para o nascer daquele trágico amor. Dilermando era, apenas, quatro anos mais velho do que seu amigo Solon, o primogênito do casal Cunha. Ainda em 1905, Anna, os filhos e o jovem amante mudaram-se para a casa da Rua Humaitá, 67. Nessa época a editora Laemmert publica a terceira edição de “Os sertões”.

1906 - Com a saúde debilitada pela malária, no dia 1º de janeiro de 1906, Euclides desembarcou no Rio. Voltava para "as suas quatro e enormes saudades". Anna estava grávida. Dilermando transferiu-se para a Escola Militar do Rio Grande do Sul.
Euclides trabalha como adido do barão do Rio Branco. Trabalha no preparo de documentação necessária à construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. A Imprensa Nacional publica “Notas complementares do comissário brasileiro” sobre a história e a geografia do Purus, incluído no “Relatório da comissão mista Brasileiro-Peruana de reconhecimento do Alto Purus”. Recusa indicação para fiscalizar a construção da ferrovia Madeira-Mamoré.
Euclides não poderia ter mais dúvidas da traição da esposa. Foram muitas as cartas trocadas pelos amantes. As de Dilermando iniciavam-se, sempre, com frases de carinho e ternura: "Minha nunca esquecida e queridinha S’Anninha"; "Minha adorada e sempre idolatrada esposinha"; "Adorada e saudosa esposinha"; " Perene lembrança de meu coração"; "Minh’alma que tanto adoro"... Nasceu Mauro, em julho de 1906, registrado como filho do engenheiro-escritor, que falece de debilidade congênita uma semana após seu nascimento. Tempos depois, afirmará ter tomado remédios abortivos tentando interromper a gravidez e que fora também impedida pelo marido a amamentar a criança, filha de Dilermando. O “Jornal do Commércio” publica “Peru versus Bolívia”. Começa a escrever “Um paraíso perdido”, livro sobre a Amazônia, que não é terminado face à morte do autor. Os originais se perderam. Toma posse, finalmente, na Academia Brasileira de Letras.

1907 - No início de 1907, Dilermando voltou de férias ao Rio. Euclides publica “Contrastes e confrontos”, pela editora Livraria Chardron, do Porto (Portugal). Nasce Luís Ribeiro da Cunha, registrado como seu filho. Os cabelos claros e olhos azuis, que contrastavam com as características físicas de seus outros filhos. Mais tarde, Luís irá adotar já adulto, o sobrenome Assis, de seu pai biológico Dilermando. Profere, com grande sucesso, no Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a conferência “Castro Alves e seu tempo”.

1908 - Escreve o prefácio do livro “Poemas e canções”, de Vicente de Carvalho. Em “Antes dos versos”, expõe sua concepção da poesia moderna. Publica no “Jornal do Commércio”, a crônica “A última visita”, sobre a inesperada homenagem de um anônimo estudante a Machado de Assis em seu leito de morte. O biografado ocupa, por breve período, com o falecimento de Machado, a presidência da Academia Brasileira de Letras. Passa o cargo para Rui Barbosa. Inscreve-se no concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio.
Dilermando terminou o curso no Rio Grande do Sul, foi promovido a tenente, voltou ao Rio em 1908, indo morar com o irmão Dinorah, guarda-marinha, aluno da Escola Naval, atleta, jogador de futebol do Botafogo de Futebol e Regatas, no bairro de Piedade, subúrbio carioca.

1909 - Obtém a segunda colocação no concurso. Graças à interferência junto ao presidente da República, Nilo Peçanha, do barão do Rio Branco e do escritor e deputado Coelho Neto, é nomeado para a vaga. Entrega aos editores, Lello & Irmão, as provas de “À margem da História”.
As desavenças entre Anna e Euclides cresciam num relacionamento insustentável. Dia 14 de agosto de 1909, ela abandonou o lar, hospedando-se na casa de Dilermando.
No dia seguinte, Euclides batia palmas no portão da casa 214, da Estrada Real de Santa Cruz, em Piedade, sendo recebido por Dinorah. Anna e os filhos Luiz e Solon esconderam-se na despensa. Euclides entrou. Dilermando ficou num quarto. Armado, Euclides atirou. Dinorah ficou ferido: a segunda bala se alojou na sua nuca. (O atleta, jogador de futebol, gradativamente, foi perdendo seus movimentos. Aleijado, morreu à míngua, como mendigo, suicidando-se no porto, em Porto Alegre). Dilermando recebeu tiros na virilha e no peito. Campeão de tiro ao alvo tentou desarmar o marido traído e desequilibrá-lo, com tiros no pulso e na clavícula. Euclides dera seis tiros. A sétima bala ficou travada. Saindo da casa, o famoso homem que honrou o Brasil com seu livro e seu saber, foi atingido nas costas. Caiu. Levaram-no para dentro. Ao filho Solon, que estava naquela casa, talvez tentando convencer a mãe a voltar ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "Perdôo-te". Ao desafeto, "Odeio-te". À mulher: "Honra... Perdôo-te".
Dilermando foi absolvido em 5 de maio de 1911, casando-se com Anna sete dias depois. Abandonou-a em 1926, com cinco filhos. Ela estava com 50 anos, ele, com 36.

Em 1916, o segundo-tenente Dilermando de Assis, que havia sido absolvido da morte do biografado (legítima defesa), mata em um cartório de órfãos no centro do Rio, o aspirante naval Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, que tentou vingar a morte do pai. Dilermando é novamente absolvido, pelo mesmo veredicto.
Solon, seu filho mais velho, delegado no Acre, foi assassinado numa tocaia, na floresta, anos depois.

II - BIBLIOGRAFIA:

1902 – “Os Sertões”
1907 – “Contrastes e Confrontos”
1907 – “Peru versos Bolívia”
1909 – “À margem da história” (póstumo)
1939 – “Canudos” (diário de uma expedição) (póstumo) — Reeditado em 1967, sob o título “Canudos e inéditos”.
1960 – “O rio Purus” (póstumo)
1966 – “Obra completa” (póstumo)
1975 – “Caderneta de campo” (póstumo)
1976 – “Um paraíso perdido” (póstumo)
1992 – “Canudos e outros temas” (póstumo)
1997 – “Correspondência de Euclides da Cunha” (póstumo)
2000 – “Diário de uma expedição” (póstumo)

“Os sertões” foi publicado nos seguintes idiomas: alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco.

Reedições mais importantes:

- Quinta edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1914.
- Décima segunda. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1933
- Vigésima sétima. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963
- Edição crítica. São Paulo: Brasiliense, 1985; Ática, 1998.
- Edição comentada. São Paulo: Ateliê/Imprensa Oficial do Estado/Arquivo do Estado, 2002.

III – “OS SERTÕES”:



“Aquela campanha foi um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”



A. CARACTERÍSTICAS:

“Os Sertões”, livro posto entre a literatura, um ensaio científico e a sociologia assinala o fim do imperialismo literário e o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira: as desigualdades econômicas, culturais e sociais dos dois brasis – o Brasil litoral e o Brasil sertão.
É a primeira obra a denunciar a miséria e o subdesenvolvimento, fazendo-nos sair do desvanecimento ufanista para a amargura crítica.
O livro é fruto direto de uma série de reportagens escritas para o jornal “O Estado de S. Paulo” no término da Campanha de Canudos-BA, 1897.
A lucidez de análise de Euclides da Cunha está em relatar o conflito com o olhar de um republicano apresentando as causas aparentes e a causa verdadeira desta Revolta, fornecendo ao leitor a real dimensão da história.
Suas razões aparentes foram o fanatismo religioso, o messianismo e o sebastianismo dos sertanejos. Suas razões profundas foram ás mazelas do latifúndio, a servidão, o isolamento cultural, a dureza do meio, o abandono social, a subnutrição, o coronelismo e a ignorância das autoridades.

Segundo Alfredo Bosi:

“Um pensamento curvado sob o peso de todos os determinismos, mas um olhar dirigido para a técnica e o progresso; uma linguagem de estilismo febril, mas sempre em função de realidades bem concretas, muitas das quais nada perderam de sua atualidade.”

Misto de escritor e cientista, Euclides une a paixão pela palavra rebuscada ao rigor científico e à preocupação social. Seu estilo é caracterizado como “Barroco Científico” pelo jogo de antíteses e pelos sinônimos raros. Embora a linguagem tenda para o rebuscamento, mas sem perder a seriedade que o aproxima dos autores modernos, ela consegue ser funcional enquanto registro dos conflitos sociais, dos desvarios psíquicos e do heroísmo anônimo das populações sertanejas.

Dante Moreira Leite analisa como tal experiência repercutiu em uma linguagem muito mais realista e vibrante:

“(...) o estilo de Euclides, capaz de transmitir ao leitor a vibração de revolta diante dos acontecimentos de Canudos; além disso, como o livro pretende ser estritamente realista e, mais ainda, um livro de ciência, a sua prosa dramática adquire, talvez por estar contida nos limites da realidade histórica, uma intensidade que não teria na ficção.” (LEITE, 1983:222)

Na obra de Euclides da Cunha podemos perceber a influência de várias teorias que estavam em voga na época e, por isso, temos que entender como ele entrou em contato com elas. O regulamento implantado em 1874 na Escola Militar da Praia Vermelha, onde Euclides da Cunha realizou seus estudos de engenharia, foi implantado num "ambiente intelectual já permeável às doutrinas cientificistas, de cunho positivista, evolucionista ou determinista." (SANTANA: 35)

O autor era um grande admirador da obra de Victor Hugo, mas buscava outros autores como referência científica para a interpretação da realidade. Taine, Darwin, Comte, Spencer e Carlyle são alguns deles. Entre os pensadores sociais, o autor era leitor fiel de Karl Marx e de Émile Durkheim e do biólogo Ernest Mach.
O contato com as correntes cientificistas e filosóficas não se davam exclusivamente via sala de aula, mas "incorporadas ao cotidiano dos alunos através de revista e sessões de sociedades estudantis, onde se poderiam acompanhar os debates das teorias cientificistas mais modernas, como as de Spencer, Haeckel e Darwin." (SANTANA: 35)

B. ESTRUTURA DA OBRA:

A divisão interna da obra é fruto da influência sofrida por Euclides do historiador francês Taine, o qual formulou no seu livro “Histoire de la Littérature Anglaise(1863)”, a concepção naturalista da história – teoria que defendia que a história é determinada por três fatores: meio, raça e momento.
Tal concepção naturalista foi seguida pelo autor ao dividir “Os Sertões” em três partes correspondentes aos fatores de Taine:
1. “A Terra” (descreve o cenário em que se desenrolará a ação);
2. “O Homem” (completando a descrição do cenário com a narrativa das origens de Canudos, estuda a gênese do jagunço e, principalmente, a de seu líder carismático, Antônio Conselheiro);
3. “A Luta”, dividida em seis subtítulos: “Preliminares”, “Travessia do Cambaio”, “Expedição Moreira César”, “Quarta Expedição”, “Nova fase da lua” e “Últimos dias”, completa por sua vez, o elenco dos personagens esboçado na segunda parte, que estudando-os em conjunto, como no trecho “Psicologia do Soldado”, que em closes particularizantes, como no retrato físico e psicológico do coronel Antônio Moreira César.

Essa divisão geral, contudo, não obedece a critérios tão rígidos quanto os títulos e subtítulos parecem dar a entender. Apontado como uma das causas geradoras do drama que constitui a razão de ser do livro, como o motivo do isolamento ou insulamento, como prefere Euclides, que distanciou, mais no tempo do que no espaço, o homem do sertão de seu irmão do litoral, o cenário transforma-se frequentemente em personagem da própria ação que sobre ele se desenrola.
Sobrepõe-se então, por vezes, à luta, ou integra-se nela, alterando-lhe até os rumos, como uma milícia fantástica que, aliada ao jagunço, com quem se entende, investe contra o invasor que fatalmente irá transformá-lo em deserto.
É também do historiador francês a citação que consta na nota preliminar do livro a qual traz a ideia que o “narrador sincero” deveria ser capaz de se sentir um bárbaro entre os bárbaros, com um antigo entre os antigos. A “Nota Preliminar” da obra mostra, de uma maneira resumida, qual é o instrumental teórico do autor. Quando Euclides usa termos como “sub-raça sertaneja”, ele admite ser adepto tanto do determinismo biológico quanto do darwinismo social. A marcha da civilização avançaria inexoravelmente sobre o sertão “no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes” (GALVÃO, 1998: 14), porém, a Campanha de Canudos constituía em um retrocesso, um crime. Este é o primeiro grande contraste de uma obra cheia deles: os homens desenvolvidos do sul e do litoral que deveriam civilizar a sub-raça que vivia isolada na “terra ignota” do interior, leva na verdade a morte para homens, mulheres, velhos e crianças.

PRELIMINARES

“O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando o consideravelmente para o interior.
De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a princípio o traço contínuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projetante das praias; depois, no segmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de angras, e escancelando-se em baias, repartindo se em ilhas, e desagregando se em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15° paralelo, a atenuação de todos os acidentes — serranias que se arredondam e suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente, mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...(...)”


Observe que Euclides da Cunha dá tratamento literário a uma descrição em princípio, eminentemente científica. É o que ocorre na caracterização do litoral “revolto”, “riçado de cumeados e corroído de angras”. Há termos científicos mesclados com termos literários.

B.1. PARTES:

1. A TERRA:


As características de topógrafo, engenheiro e geógrafo, colocam em destaque a riqueza técnica e a sensibilidade do autor na descrição das regiões que medeiam entre o Rio Grande do Norte e o Sul de Minas Gerais, de modo particular a bacia do Rio São Francisco. Apresenta, com grande abundância de pormenores, a descrição geográfica das regiões sertanejas de Monte Santo (Canudos), que abrangem os rios Vasa-Barris e Itapicurus.

O clima, o solo, os ventos, as chuvas, a temperatura, os animais e o homem, tudo é descrito não só apenas por um observador atento, mas por um cientista natural.
Um exemplo dos conhecimentos técnicos é quando o mesmo explica a sazonalidade e a previsibilidade das secas do nordeste. Nesta parte fica demonstrado que o autor não só descreve como problematiza as questões climáticas porque tem conhecimento de causa.
Nos sertões do Norte, discorrendo sobre a seca, fala das causas desta, dando relevo especial ao papel do homem, “agente geológico de destruição” que, praticando desde os mais remotos tempos uma agricultura primitiva baseada nas queimadas, arrasou as florestas.
O sertão é tão inóspito que até a natureza se contorce para ali viver. E como a natureza também o homem se modifica e se adapta a ela. Antes de se transformar no retirante estropiado que abandona a região, o sertanejo encara de frente a fatalidade e reage, numa luta indescritível. Nesse momento ele não é mais indolente ou o impulsivo violento, mas o herói que tem os sertões para todo o sempre perdido em tragédias espantosas. No princípio, a seca parece ao sertanejo uma maldição, ele se sente abandonado numa terra barbaramente estéril e maravilhosamente exuberante. O autor verifica de forma estarrecida á transformação daquele deserto medonho nos poucos dias de chuva, quando as matas se cobrem de verde, o mandacaru floresce. O homem fechado em sua terra transfigura-se em risos e comemorações.

“Como quer que seja, o penoso regime dos estados do Norte está em função de agentes desordenados e fugitivos, sem leis ainda definidas, sujeita às perturbações locais, derivadas da natureza da terra. Daí as correntes aéreas que o desequilibram. (...) Um dos motivos da seca repousa, assim, na disposição topográfica.” (GALVÃO, 1998: 43)

2. O HOMEM:

Euclides da Cunha, nesta segunda parte, pretende apresentar, num estudo genérico, os elementos étnicos do meio brasileiro, as tradições, danças, desafios, a religiosidade, os caracteres de sua índole e a sua distribuição pelo território nacional. Fala de raças (índio, português, negro), e de sub-raças, que indica com o nome de “mestiço”.

“(...) não temos unidade de raça”.

Euclides, de acordo com a doutrina do Evolucionismo, que ele segue, julga, em tese, prejudicial á mistura das raças, porque “o mestiço” (mulato, mameluco e cafuzo), menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos antecedentes selvagens, sem a intensidade intelectual dos ancestrais superiores.
Se o mestiço vive em meio aos elementos étnicos tidos por superiores, desequilibra-se, atrofia-se, degrada-se. O mesmo, porém, não se dá com o mestiço que convive com os elementos inferiores. É o caso dos nossos mestiços do litoral e os do sertão (sertanejos).
É importante ressaltar que não só Euclides foi criticado por erros como os que se seguem: os males do cruzamento, os esmagamento total das raças fracas… Outros autores o foram. Euclides se baseava na teoria racial do final do século XIX, que afirmava ser a raça branca sinônimo de progresso, condenando a miscigenação…
O autor aponta que todos os reveses sertanejos estão ligados a terra, desde a opressão semifeudal do latifúndio até a ignorância e o isolamento a que esta parte do Brasil sempre esteve condenada. Nela se formou isolada geograficamente um povo mestiço que se diferenciou dos mestiços litorâneos, em razão do próprio isolamento no qual se mantiveram.

“Porque ali ficaram, inteiramente divorciados do resto do Brasil e do mundo, murados a leste pela Serra Geral, tolhidos no ocidente pelos amplos campos gerais, que se desatam para o Piauí e que ainda hoje o sertanejo acredita sem fins. O meio atraía-o e guardava-os.” (GALVÃO, 1998: 190)

Historicamente, os cruzamentos entre portugueses e negros se realizaram no litoral, porque o negro vinha para o trabalho escravo nos canaviais da costa brasileira. Entre portugueses e índios, realizaram-se no sertão, pois os gentios se refugiavam no agreste do interior, avessos ao trabalho por razões culturais.
As comparações entre o sul e o norte mostram que desde o início da obra Euclides tem como objetivo mostrar como que, através do determinismo geográfico, se formou uma sub-raça mestiça no sertão. O sul seria a terra que atraí o homem e o norte a que expulsa, como podemos ver nos trechos abaixo:

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência, entretanto, (…) revela o contrário. (…) É desengonçado, torto. (…) Reflete a preguiça invencível, (…). Basta o aparecimento de qualquer incidente (…) transfigura-se. (…) reponta (…) um titã acobreado e potente (…) de força e agilidade extraordinárias.”

Veste-se de couro, protegendo-se dos espinhos da caatinga. É vaqueiro. Sua cultura respeita antiquíssimas tradições. Torna-se um retirante, impulso pela seca cíclica, mas retorna sempre ao sertão.
Eis, então, outro grande contraste que permeia toda a obra de Euclides da Cunha. Mas antes de mais nada, o autor reforça que toda “a mestiçagem extremada é um retrocesso”, o que vai de encontro com as teorias vigentes. Ora, estas largas divisões, apenas esboçadas, mostram já uma essencial entre o Sul e o Norte, absolutamente distintos pelo regime meteorológico, pela disposição da terra e pela transição variável entre o sertão e a costa.
Em “O Homem” a linguagem é tratada mais acentuada ao nível da poética e torna-se escultural, jogando com antíteses e paradoxos, caracterizando o sertanejo como “Hércules – Quasimodo”, qualificando sua figura ao mesmo tempo forte e débil, atlética e aleijada: Hércules (semideus latino, encarnação de força e valentia), Quasimodo (sinônimo de monstrengo, de pessoa disforme, personagem de “Nossa Senhora de Paris”, romance de Victor Hugo).
Sua religião, como ele, é mestiça. O catolicismo atrasado se mistura aos candomblés do índio e do negro e se enche de superstições, crendices e temores medievais, conservados pelo isolamento, desde a colonização. Ele é crédulo, supersticioso, e esse, deixa-se influenciar por padres, pastores e falsos profetas…
Preparando o ambiente para os episódios de Canudos, Euclides expõe a genealogia de Antônio Conselheiro, suas pregações e a fixação dos sertanejos no arraial de Canudos.

O CONSELHEIRO, Antônio Vicente Mendes Maciel, nasceu em Quixeramobim, no Ceará. Filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus ficou órfão da mãe aos seis anos.
Estudou aritmética, português, geografia, francês e latim. Entre suas leituras preferidas estavam ás aventuras do imperador Carlos Magno e dos 12 pares de França, adaptações de lendas populares da Idade Média, arraigadas no folclore nordestino.
Aos 27 anos, perdeu o pai e começou a cuidar da loja da família, com a qual sustentava as quatro irmãs. Ficou dois anos à frente do negócio e, depois, passou a dar aulas numa escola de fazenda. Graças aos seus estudos e esforço pessoal, tornou-se escrivão de cartório, solicitador (encarregado de encaminhar petições ao poder Judiciário) e rábula (advogado sem diploma). Estaria encaminhado profissionalmente, caso um problema pessoal não viesse mudar radicalmente sua vida.
Depois de casado, Antônio Maciel foi traído pela mulher que fugiu com soldado.
Transtornado pela humilhação, começou a perambular sem destino certo pelo interior do Ceará e de outros Estados do Nordeste, talvez à procura dos fugitivos.
Antônio Maciel reapareceu dez anos depois, nos sertões de Pernambuco e em Itabaiana (SE), em l874, impressionando os sertanejos: alto, magro, barba e cabelos desgrenhados e longos, túnica de brim americano azul, com uma corda na cintura, sandálias, alforje e chapéu de couro.
Ele pregava nos povoados uma doutrina confusa, que se misturava às rezas de dois catecismos que carregava: “Missão Abreviada” e “Horas Marianas”. Maciel ouvia os problemas das pessoas e procurava consolá-las com mensagens religiosas. Devido aos conselhos, tornou-se conhecido como Antônio Conselheiro. Pregava o fim do mundo, a preparação para a morte, a penitência… A multidão o seguia, sem que ele a convocasse. Fazia prédicas e profecias; casamentos; batizados; restaurava e construía capelas, igrejas e cemitérios.

 
O clero o tolerava e procurava, deixando-o pregar, até mesmo contra a República, que interveio em áreas regidas pela tradição e reservadas à religião. Como aumentasse seu ataque, a Igreja tentou interrompê-lo. Para sobreviver, trabalhou como pedreiro e construtor, ofício aprendido com o pai.

À medida que a simpatia dos pobres por ele aumentava, surgiam também os inimigos, que se sentiam prejudicados. Por um lado, os padres, que viam seu prestígio diminuir diante das pregações de um leigo. Por outro, os latifundiários, que viam muitos empregados de suas fazendas abandonarem tudo para seguir o beato.
Em Bom Conselho, reuniu o povo num dia de feira e queimou as tábuas dos impostos, discordando das leis republicanas do governo de Satanás. O acontecimento repercutiu e a polícia reagiu. Perseguido, o Conselheiro tomou a estrada de Monte Santo, defrontando-se com a tropa em Maceté. Os trinta soldados armados atacaram. Os jagunços os desbarataram.
Em 1874, o Conselheiro e seus seguidores se fixaram perto da vila de Itapicuru de Cima, no sertão da Bahia, onde fundaram o arraial do Bom Jesus. Dois anos depois, acusado de ter assassinado a esposa, Antônio Conselheiro foi preso e mandado para o Ceará, onde o julgamento comprovou sua inocência.
Entretanto, seu fervor religioso aumentou durante a temporada na prisão. Da mesma maneira, aumentou seu prestígio entre os pobres, que passaram a vê-lo como um mártir. Mais gente se reuniu a sua volta e o acompanhou sertão afora, por andanças que duraram 17 anos. Em 1893, ele se estabeleceu definitivamente numa fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, numa afastada região do norte da Bahia, conhecida como Canudos.
Ali, fundou um povoado, que chamou de Belo Monte. Rapidamente, o vilarejo se transformou numa cidade cuja população é estimada entre 15 mil e 25 mil habitantes (há controvérsia entre os historiadores).


“Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito”(…)O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as colinas”, sem ordem, sem ruas: um verdadeiro labirinto, com casa de pau-a-pique, habitadas por um população multiforme, de sertanejos simples, beatas, ricos proprietários que abandonavam tudo em busca da salvação e por bandidos ali protegidos, que respeitavam as regras: rezar e fazer sacrifícios para alcançar a vida eterna. A igreja, uma fortaleza, a mais importante obra do Conselheiro, estava diante da praça.

Euclides descreveu a lei mantida por facínoras, as rezas, os sermões, as danças, o dia-a-dia do aglomerado e os tipos fascinantes dos heróis: João Abade, Pajeú, João Grande, Vila Nova, Chico Taramela, Macambira, Beatinho…"
Antônio Conselheiro pregava contra a República, contra o governo do Anti-Cristo e da lei do cão. “Mas não traduzia o mais pálido intento político”. Os jagunços, “rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa”, não conseguiam diferenciar a República da Monarquia.
Algumas mudanças da nova ordem respingavam no sertão: separação Igreja-Estado, obrigatoriedade do casamento civil, cobrança de impostos pelos Estados… coisas incompreensíveis pelos sertanejos.
E o povo versejava e cantava:

“Casamento vão fazendo/ Só pro povo iludir/ Vão casar o povo todo/ No casamento civil”.
“Visita nos vem fazer/ Nosso rei D. Sebastião/ Coitado daquele pobre/ Que estiver na lei do cão”.
“Eram realmente, fragílimos, aqueles pobres rebelados…”
“Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta.”
“Entretanto enviamos-lhes (…) a bala”.

Canudos prosperou e se tornou incômoda para as autoridades políticas e religiosas locais, que procuravam um pretexto para acabar com ela.
Um problema comercial acerca de uma compra de madeira na cidade de Juazeiro deu motivo para que uma tropa de soldados da polícia baiana investisse contra os seguidores do Conselheiro em novembro de 1896.
A derrota dos policiais deu início a um conflito que ficou conhecido como Guerra de Canudos, que assumiu enormes proporções.

3. A LUTA:


É a parte mais importante, constituída da narrativa das quatro expedições do Exército enviadas para sufocar a rebelião de Canudos, que reunia os “bandidos do sertão”; os jagunços das regiões do rio São Francisco e os cangaceiros (denominação no Norte e Nordeste). Havia cerca de 25.000 habitantes no arraial, na maioria, ex-trabalhadores dos latifúndios da região.
Entre as previsões de Antônio Conselheiro figuravam:

“Que o mundo ia acabar em 1900; que o sertão ia virar mar e o mar virar sertão (o que de certa forma aconteceu com a construção da Barragem de Sobradinho); “que D. Sebastião ia ressurgir das ondas com seu exército para cortar a cabeça do dragão da maldade; que a República destronou Pedro II, o que havia acabado com a escravidão; que a República instituiu o pecado na forma do casamento civil, separando a Igreja do Estado.”

INÍCIO DA LUTA:

As autoridades de Juazeiro se recusam a mandar a madeira que Antônio Conselheiro adquirira para cobrir a igreja de Canudos; os jagunços, então, pretendiam tomar à força o que haviam comprado e pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de banditismo.

A PRIMEIRA EXPEDIÇÃO:

Cem homens, comandados pelo tenente Pires Ferreira, são surpreendidos e derrotados pelos jagunços no povoado de Uauá.

“Apavorara-o a própria vitória, se tal nome cabe ao sucedido, pois as suas consequências o desanimavam. O médico da força enlouquecera... Desvairara-o o aspecto da peleja. Quedava-se inútil, antes os feridos, alguns graves.” (“Os Sertões”, “Primeiro Combate”)

Neste episódio, destaca Euclides a resistência e o apego com que os seguidores de Antônio Conselheiro seguravam o estandarte com a bandeira do divino, e de como com tal símbolo se atiravam loucamente diante das armas dos soldados:

“E a turba fanatizada, entre vivas ao “Bom Jesus” e ao “Conselheiro”, e silvos estridentes de apitos de taquara, desdobrada, ondulante, a bandeira do Divino, erguidos para os ares os santos e as armas, seguindo empós o curiboca audaz que levava meio inclinada em aríete a grande cruz de madeira - atravessou o largo arrebatadamente...” (“Os Sertões”, “Primeiro Combate”)

A SEGUNDA EXPEDIÇÃO:

A segunda expedição tem um espaço maior na obra, Euclides conta em detalhes as batalhas e as estratégias de ambos os lados, destacando a ferocidade e a valentia beirando à loucura de todos os envolvidos.
Quinhentos homens, comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças, são emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos. Destacam-se os “bandidos” João Grande e Pajeú, este último considerado por Euclides verdadeiro gênio militar. Reduzidos a cem homens, as tropas do governo decidem voltar.
A derrota da expedição dirigida por Febrônio de Brito é destacada, ao contrário da inválida vitória superficial de Pires Ferreira:

“Ora, a retirada do major Febrônio se, pelo restrito do campo em que se operou, não se equipara a outros feitos memoráveis, pelas circunstâncias que a enquadraram é um dos episódios mais emocionantes de nossa história militar. Os soldados batiam-se ia para dois dias, sem alimento algum, entre os quais mediava o armistício enganador de uma noite de alarmas; cerca de setenta feridos enfraqueciam as fileiras; grande número de estropiados mal carregavam as armas; os mais robustos deixavam a linha de fogo para arrastarem os canhões ou arcavam sob feixes de espingardas, ou, ainda, em padiolas, transportavam malferidos e agonizantes - e, na frente desta multidão revolta, se estendia uma estrada de cem quilômetros, em sertão maninho, inçado de tocaias...” (Os Sertões, “Retirada”)

Euclides, nesse momento, valoriza a bravura da tropa que busca enfrentar não apenas o opositor fanático e audaz, mas também o cenário duro e inóspito oferecido pela natureza concretizado na estrada de cem quilômetros que se avultava diante da tropa em fuga, assim, ficar e enfrentar o inimigo não é esforço maior do que a própria retirada.

A TERCEIRA EXPEDIÇÃO:

A terceira expedição tem uma quantidade maior ainda de detalhes, todas as etapas da preparação, as informações biográficas acerca do comandante Moreira César, sua influência no governo de Floriano Peixoto, tudo cria uma introdução dramática para os combates que se desenvolveriam.
1300 homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões Krupp, recém-importados da Alemanha, sem planos definidos, partiram em fevereiro de 1897, atacando de frente, do Morro da Favela, o arraial de Canudos.
Falando do comandante, destaca sua carreira, as vitórias conseguidas em outras campanhas, mas não deixa aqui e ali, de em fazendo a descrição física, mostrar como era possível perceber numa falsa aparência de herói destemido e vitorioso os índices de um fracasso por vir:

“Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grave em placidez enganadora. Entretanto, não raro, a sua serenidade partia-se rota pelos movimentos impulsivos da moléstia que somente mais tarde, mercê de comoções violentas, se desvendou inteiramente nas manifestações físicas dos ataques.” (“Os Sertões”, “Moreira César”)

Na descrição dos fracassos e insucessos que se seguem na grandiosa e desastrosa expedição de Moreira César, Euclides narra o momento em que o comandante é ferido na batalha e passa o comando ao Coronel Tamarindo, que não tem outra preocupação àquela altura do que salvar seu próprio batalhão. Moreira César, ferido duas vezes, agoniza alguns dias, até que morrendo, o comando passa definitivamente ao Coronel Tamarindo. A retirada que se faz, ao contrário da retirada de Febrônio de Brito é marcada pelo fracasso, o modo como os canhões foram cair nas mãos dos fanáticos seguidores de Antônio Conselheiro, ganha cores de tragédia:

“Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamentos, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali afora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada - vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se sobre ela.
Era o desfecho. O capitão Salomão tinha apenas em torno meia dúzia de combatentes leais. Convergiam-lhe em cima os golpes; e ele tombou, retalhado a foiçadas, junto dos canhões que não abandonara.
Consumara-se a catástrofe...” ("Os Sertões", “Salomão da Rocha”)

A QUARTA EXPEDIÇÃO:

5.000 homens, comandados pelos generais Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget, são enviados pelo Sul. As tropas dividem-se em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro da Favela e tem que se socorrer da segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, havia mudado de estratégia, dividindo-se em pequenos batalhões. As duas colunas tentam um ataque maciço. Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados mal resistem à fome e à sede.


“O general Artur Oscar avaliou, então, com segurança, o estado das coisas. Pediu um corpo auxiliar de cinco mil homens e curou de dispositivos para garantir a força que triunfara de maneira singular, a pique de uma derrota. Estava, depois de mais um triunfo, na conjuntura torturante de não poder arriscar nem um passo à frente, nem um passo atrás. Oficialmente, as ordens do dia decretavam o começo do sítio. Mas, de fato, como sempre sucedera desde 27 de junho, a expedição é que estava sitiada. Tolhia-o o arraial a oeste. Ao sul, os altos da Favela fechavam-se-lhe atravancados de feridos e doentes. Para o norte e o nascente, se desenrolava o deserto impenetrável. A área de sua ação aparentemente aumentara. Dois acampamentos distintos pareciam denotar mais larga movimentação, liberta da constrição de trincheiras envolventes. Esta ilusão, porém, extingui-se no próprio dia do assalto. Os cerros, varridos de cargas de baionetas poucas horas antes, figuravam-se de novo guarnecidos. As comunicações com a Favela tornaram-se logo dificílimas. Tombavam, novamente baleados, os feridos que para lá se arrastavam; e um médico, o Dr. Tolentino, que na tarde do combate dali descera, caíra, gravemente ferido, na ribanceira do rio. A travessia no campo conquistado fez-se problema sério aos conquistadores.” (“Os Sertões”, “Nos flancos de Canudos”)

A quarta expedição, aquela que finalmente vencerá a bravura religiosa dos seguidores do Conselheiro, também narrará momentos de pura ferocidade, mas também, o modo desumano, tão ou mais do que os fanáticos aplicaram às expedições em fuga. É como se a guerra apresentada fosse marcada pela inconsequência de todas as ações, por uma atmosfera de insensatez que permeasse cada ato aparentemente racionalizado.

Em agosto de 1897, 8.000 homens deslocam-se para a região, comandados pelo próprio Ministro da Guerra, o Marechal Carlos Bittencourt.
São cortadas as saídas de Canudos, o abastecimento de água é interrompido. Um tiro de canhão atinge a torre da Igreja. Estóicos, esperando a salvação eterna, os sertanejos não se renderam, e muitos foram degolados após o assalto final. Perpetrou-se dessa forma o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que a tudo acompanhou do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o jornal “O Estado de S. Paulo”.

“Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.
Um golpe único, entrando pelo baixo-ventre. Um destripamento rápido...
Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitadamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades.” (“Os Sertões”, “A degola”)

O assalto ao povoado de Canudos também envolve atrocidades descritas por Euclides da Cunha. Mulheres, velhos e crianças não escaparam da mortandade, e muitas suicidaram-se com seus filhos antes de encontrarem a tropa de soldados:

“Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?...
E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante - e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história?” ("Os Sertões", “Canudos não se rendeu”)

TEXTO:

“Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.
Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...
Ademais não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?...
(...)
Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5200, cuidadosamente contadas.
Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro.
Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do “famigerado e bárbaro” agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefacto e esquálido, os olhos fundos cheios de terra – mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.
Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa – único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! - faziam-se mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma massa angulhenta de tecidos decompostos.
Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava, afinal extinto, aquele terribilíssimo antagonista.
Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita – e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores.
Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”

Com ironia Euclides apresenta o troféu dos vencedores, a cabeça de um fanático já em estado de decomposição, morto que fora não por tiros ou golpes de baioneta, mas provavelmente por diarréia. A cabeça fora depois enviada ao médico Dr. Raimundo Nina Rodrigues, afamado discípulo das teses evolucionistas e deterministas. Buscando nas medidas do crânio informações que confirmassem a tese de que os males psicológicos poderiam ser encontrados por índices físicos de anormalidades do crânio, teve que ao afinal atestar, que em contradição às expectativas, o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava sinais de loucura.
O livro de Euclides termina com um capítulo de somente “duas linhas” (aliás, este é o título), concisão que se contrapõe ao conjunto de extensos períodos que caracterizava toda a narrativa:

DUAS LINHAS

“É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...”

Nesse fragmento, Euclides refere-se a Henry Maudsley, médico cientista defendia a ideia de monomanias de caráter instintivas e as de caráter raciocinantes, estas também conhecidas como “loucura moral”, expressão bem ao gosto comtiano.
Assim, ironicamente, Euclides conclui que falta um tipo de conhecimento que supera a previsibilidade física proposta pelas teses científicas deterministas. Spencer não poderia ser esse “Maudsley”, pois ele via a sociedade análoga ao modo como via um animal vivo em processo evolutivo. Faltava às teses conhecidas por Euclides um modo de compreender como a “ordem” e o “progresso” de que o estado deveria ser representante tornaram-se de fato, naquele cenário da guerra insana, em loucura generalizada: “Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo das circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”
Desse modo, a “ordem” é substituída pela desordem, pelo caos, ao progresso se sobrepõe a casualidade e o despropósito. Resta para Euclides intuir na existência de alguma coisa vindoura que pudesse reorganizar o caos da sociedade, embora já na nota inicial do romance, confirme sua fé nas ideias de um Gumplowicz (“A civilização avancará nos sertões impelida por essa implacável força motriz da História"), o fato é que o modo como se horroriza com os desdobramentos dos combates, com a insanidade de vencedores e vencidos acaba por demonstrar em Euclides a intuição de que existe uma outra ordem com uma outra noção de progresso a que ainda não tem elementos concretos para entender: “O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa.” (“Os Sertões”, “Um grito de protesto”).

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Com esta obra o Brasil ganhava uma das suas mais importantes reflexões sobre a identidade nacional. O escritor do início da obra, positivista que acreditava na república, é o mesmo que denuncia a dor, a fome e a barbárie. Canudos foi um crime cometido para e pela reiteração da República. O cancro monarquista nunca existiu naquela terra esquecida pelos seus governantes e o Estado só chegara tão longe para trazer a injustiça e a morte. Essa não era a república reclamada pelo autor.
Como identidade nacional, podemos tirar desta obra a seguinte frase: “A nação brasileira é o resultado de uma angústia racial”. Euclides sofre essa angústia da qual as “leis” européias não dão conta. O Brasil é um país sem seu tipo antropológico definido e ele, Euclides da Cunha, é o primeiro que se propões a fazer um estudo a fundo das “raças” brasileiras.
O professor Alfredo Bosi propõe a divisão da obra em dois grandes planos: o plano histórico corresponde á parte final do livro: “A Luta”, sendo que este é seguido pelo plano interpretativo que, por sua vez, corresponde às duas divisões iniciais do mesmo (“A Terra” e “O Homem”).
O momento histórico se reflete na obra tanto na estrutura determinista, que defende que os estudos devem partir dos aspectos geológicos, passando para detecção das variações climáticas para finalmente chegar ao último elo da cadeia que é o homem. Obedecendo à sequência, Euclides procurou traçar, nas duas partes iniciais de “Os Sertões”, o quadro evolutivo do Brasil sertanejo que, começando pelo reconhecimento da estrutura do solo e do clima, alcançasse a psicologia de Antônio Conselheiro e dos seus seguidores.
O movimento de Canudos (1896-1897) teria sido um desses movimentos que trazia à tona o abandono em que vivia uma parte significativa da população brasileira. A vigência de uma ordem desigual e excludente era posta às claras. A reação dos governantes e dos habitantes das maiores cidades, de modo geral, foi de uma ira incomensurável no sentido de exigir a exterminação total e absoluta da luta desencadeada por Antônio Conselheiro e de seus seguidores nos sertões da Bahia.
Massaud Moisés comentando acerca do significado geral de “Os Sertões” para a História da Literatura Brasileira, afirma ser esta obra euclidiana um divisor de águas, o limite entre a idealização da pátria e a análise social do retrato brasileiro, o marco final das ilusões românticas diante da rudeza e crueza do cenário concreto da nossa sociedade:

“Seja como for, “Os Sertões” anunciavam o término do ciclo romântico de nossa visão idílica da história pátria. Iniciava-se a hora da verdade, com a derrocada “de um falso idealismo, que era a pior das idealizações, porque era a idealização dos aspectos inferiores da nossa natureza”. Na sua visão do mundo, o Brasil nacionalizava-se ao tomar consciência do seu ego dividido, e ao exprimir-se “pela linguagem mais épica que ainda se escreveu em prosa portuguesa”, indicava a superação, ainda que parcial, dos vínculos com a Literatura Portuguesa. Vazado “em estilo brasileiro, com a ênfase, a truculência, o excesso, a exuberância, o brilho, o arremesso, a prodigalidade, a magnificência, que nos autorizavam e talvez nos singularizem no mundo”, preludiava, na sua denúncia, o romance social dos anos 30: a revolução literária de 1922, inaugurando a modernidade, começa em 1902, com Os Sertões.” (MOISÉS: 1984, p. 572)

Adilson Citelli nos apresentando um bem organizado “Roteiro de Leitura” de “Os Sertões”, conclui, comentando acerca da situação limite que se colocava para Euclides da Cunha em relação à validade das teses científicas deterministas e positivistas de seu tempo, que:

“Foi graças a esta tensão teórica e ideológica que Euclides da Cunha pode, progressivamente, em “Os Sertões” afastar-se da crença na existência de um complô político anti-republicano em Canudos, assim como redefinir seu ponto de vista sobre os sertanejos. No solo recrestado, no meio dos difusos sonhos igualitários e messiânicos de Antônio Conselheiro, entre cactos e espinhos, Euclides mostrou ao país que as razões civilizatórias e do Estado ao investirem contra Canudos aclararam, no sentido integral do termo, as linhas da loucura e dos crimes que foram capazes de cometer em nome da construção da nacionalidade.”
(CITELLI: 1999, P. 117)

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