domingo, 16 de outubro de 2011

BOM-CRIOULO, ADOLFO CAMINHA: ESTILO, CONTEXTO, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DA OBRA

I – AUTOR:


Adolfo Ferreira Caminha nasceu em 1887, na cidade de Aracati, Ceará. Teve uma infância conturbada pela morte da mãe, enfrentou várias doenças e a seca que assolou o Nordeste, nesse mesmo ano. Fez os primeiros estudos em Fortaleza (CE) e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Escola Naval (1883).

Na Marinha, sentiu o choque da instituição conservadora e monarquista, revelando-se republicano e abolicionista. Numa solenidade em 1884, com apenas 17 anos, fez um discurso na presença do imperador Pedro II, e declarou-se "contra o anacronismo da escravidão e do Império". Apesar da declaração, formou-se no ano seguinte como guarda-marinha.
Por volta de 1886 demonstrou vocação pela literatura, quando publicou os poemas "Vôos Incertos" e os livros de contos "Judite” e “Lágrimas de um Crente".
Viajou pelas Antilhas e Estados Unidos, recolhendo informações e anotações que resultaram mais tarde no livro "No País dos Ianques" (1894).
Em 1888 pediu transferência para Fortaleza. O Ceará já havia libertado seus escravos quatro anos antes e a vida literária da Capital era ativa, com vários grêmios culturais abolicionistas, republicanos e naturalistas, ideias que agradavam ao jovem escritor.
Naquela cidade, o já tenente Caminha envolveu-se num caso amoroso que lhe rendeu, inclusive, a saída da Marinha. Apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, que deixou seu marido e foi viver com o marinheiro, escandalizando a sociedade cearense. Mas ele não se rendeu, foi trabalhar na Tesouraria da Fazenda e continuou sua atividade literária. Fundou a "Revista Moderna" (1891) e, em 1892, a "Padaria Espiritual", movimento que acreditava na educação do povo para mudar o país, e publicava o jornal, "O Pão".
Voltou para o Rio de Janeiro em 1893, já com duas filhas. E para melhorar sua renda, além do emprego no Tesouro Federal, escrevia para jornais. No mesmo ano publicou o romance "A Normalista", crítica à vida na capital cearense, segundo os moldes naturalistas, que não fez eco entre os críticos. Dois anos depois, publicou "Bom-Crioulo", livro ousado, de temática homossexual dentro da Marinha. Este é considerado seu melhor livro, visto que o próximo, "Tentação" (1896), é fraco e revela o declínio do Naturalismo. Morreu de tuberculose, no ano seguinte, antes dos 30 anos de idade.


II – CARACTERÍSTICAS:


 
“Bom-Crioulo” foi publicado em 1895. Típico romance de tese, interessado em analisar personalidades fora da normalidade, é considerado por muitos a obra-prima de Adolfo Caminha e, ao lado de “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, um dos melhores romances do Naturalismo brasileiro.

É mais que sabido o quanto o Naturalismo brasileiro é devedor do Naturalismo francês. Foi nas leituras de Zola, principalmente, que nossos escritores do período se formaram e se embasaram das teorias e do estilo dessa escola.
Teoricamente, foi por meio do cientificismo reinante no período que se traçaram as principais linhas ideológicas, temáticas e estilísticas a ser seguidas: no determinismo taineano; no positivismo comteano e no evolucionismo darwiniano repousavam os preceitos ideológicos principais da escola. Tratava-se de dar um escopo de ciência exata às ciências humanas, à arte em geral e à literatura em particular.
Estilisticamente, o descritivismo deu o tom. Zola adotou e difundiu o registro direto e minucioso da realidade como prática mais eficiente e adequada às necessidades artísticas do seu tempo.
Georg Lukács viu no descritivismo uma prática estilística que nivelava o que deveria ser resultado de uma distinção e ordenação por parte do narrador (“A narração distingue e ordena, a descrição nivela todas as coisas”).
O romance naturalista, para ele, seria uma má alegoria da realidade, ao se ater à pura observação desta.
Caminha trabalhou na Marinha e pode conhecer por sua própria experiência os tipos que se movimentam por esse seu romance. A história de paixão e tragédia que anima essas páginas não é produto de uma fantasia romântica, mas baseada em fato real, que escandalizou o Rio de Janeiro do século XIX. Estimulado pelos pressupostos estéticos do Naturalismo e pelo desejo de chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava, o autor constrói a partir de um fato verídico uma ficção forte, ousada, que ainda hoje é atual.

III – FOCO NARRATIVO:

Temos um foco narrativo em terceira pessoa, com narrador onisciente. É bastante utilizado o discurso indireto livre para desvendar os pensamentos e sentimentos dos personagens, recurso que Caminha talvez tenha aprendido em Eça de Queirós, uma de suas maiores influências literárias.

IV – TEMPO:

Pelas descrições do ambiente do Rio de Janeiro, podemos afirmar que a história é contemporânea de sua publicação, isto é, acontece no final do século XIX, pouco tempo depois da proclamação da República no Brasil.
Predomina o tempo cronológico, mas não é possível precisar o intervalo em que ocorre a narrativa.
Quando Amaro vai para o couraçado, ficamos sabendo que ele e Aleixo estão juntos há cerca de um ano, mas a história prolonga-se por um tempo indefinido, até o desfecho com o assassinato do grumete.
Em alguns momentos, há o uso do flash-back, para recuperar as origens dos personagens principais ou quando Amaro, internado no hospital, se lembra dos bons tempos com Aleixo.

V – ESPAÇO:



Podemos analisar o espaço dessa obra, dividindo-a em externo e interno.

Os cenários externos principais são contrastantes: a paisagem marítima descrita com um certo Romantismo ou, quando se trata da vida de marinheiro, descrições carregadas de Impressionismo, revelando um ambiente opresso e ofegante, como no momento em que os marinheiros estão para ser castigados.
A pobreza e a sujeira das ruas suburbanas do Rio de Janeiro acentuam o contraste com as descrições românticas do mar.
Os espaços internos são o interior da corveta, em alto-mar, onde Bom-Crioulo e Amaro se conhecem, e o sobradinho da Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, onde vão viver em terra e, posteriormente, D. Carolina e Aleixo se amasiam.
Dentro da corveta, o ambiente é desagradável, repugnante mesmo, quando serve de cenário para os contatos mais íntimos entre Amaro e Aleixo.
É notável a competência com que Adolfo Caminha descreve o espaço do navio, pudera o autor cursou a Escola Naval e foi guarda-marinha e a passagem do Rio de Janeiro, principalmente a que se vê da orla marítima, aparecendo aqui e ali, ao longo da história.
O mesmo acontece na descrição do quarto do sobradinho em que vão viver Bom-Crioulo e Aleixo quando chegam ao Rio de Janeiro.
Essa caracterização negativa do espaço que envolve a relação “proibida e imoral” entre Bom-Crioulo e Aleixo tem um peso valorativo: funciona como uma crítica ao relacionamento homossexual, um julgamento moral: o espaço é decadente porque o que acontece entre os dois marinheiros também é decadente. Mas o mesmo não vale quando se trata de descrever o cenário dos encontros entre Aleixo e D. Carolina.
É valorizada a ação exterior, com destaque para cenas verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos corporais a que deviam ser submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não chegam a detalhes explícitos em virtude da moral social que também atinge o escritor e sua preocupação prévia com a reação do leitor.

VI – PERSONAGENS:



AMARO, o Bom-Crioulo: personagem principal, ex-escravo, tem cerca de 30 anos. De início, bom marinheiro, respeitado pela seriedade, força e valentia. Mas aos poucos vai se tornando relaxado, principalmente depois de se apaixonar pelo grumete Aleixo.


ALEIXO – adolescente, tem cerca de 15 anos, veio de família pobre de pescadores. Pele clara, olhos azuis, sua figura cativa a todos. Torna-se objeto das paixões de Amaro e D. Carolina. Morre tragicamente ao final.

D. CAROLINA – portuguesa, ex-prostituta, 38 anos. A princípio, grata a Amaro por este ter lhe salvado a vida no passado, acaba roubando do Bom-Crioulo o grumete Aleixo, que seduz com sua experiência e o resto de sensualidade que lhe sobrou.

HERCULANO – marinheiro imberbe, mórbido, solitário, é castigado ao início da narrativa por ter sido flagrado se masturbando.

SANT’ANA – marinheiro castigado por ter se envolvido em briga com Herculano. Manhoso, gago.

AGOSTINHO – guardião do navio, especialista em aplicar chibatadas, é um sádico que se aproveita do seu ofício: adora castigar.

O reduzido número de personagens significativos na narrativa e a casualidade de alguns acontecimentos soltos na trama parecem denunciar o pouco fôlego de Adolfo Caminha como escritor. Exemplos desses acontecimentos são a “coincidência” da visita de Herculano ao hospital, quando diz a Amaro do destino de Aleixo, ou a presença fantasma do açougueiro amante de D. Carolina em algumas passagens do livro.
O crítico Georg Lukács chama a atenção para a necessidade de o escritor “superar na representação a casualidade nua e crua, elevando-a no plano da necessidade”.
Ou seja: não é que fatos casuais não possam ocorrer, mas eles precisam “ser exigidos” pela narrativa.
Quanto à questão da composição dos personagens, os três últimos anteriormente citados são meros esboços de figuras naturalistas, caricaturas de homens dominados por suas fraquezas. Mesmo D. Carolina e Aleixo caem no esquematismo descritivista observado por Lukács:

“As qualidades humanas passam a existir umas ao lado das outras e vêm descritas nesta compartimentalidade, em vez de se realizarem nos acontecimentos e de manifestarem assim a unidade viva da personalidade nas diversas posições por elas assumidas, bem como nas suas ações contraditórias. À falsa vastidão dos horizontes do mundo externo corresponde, no método descritivo, um estreitamento esquemático nas caracterizações humanas. O homem aparece como um “produto” acabado de componentes sociais e naturais de várias espécies. A profunda verdade social do entrecruzamento no homem de determinantes sociais com qualidades psico-físicas acaba sempre por se perder.
Não é o caso de Amaro. Este vive integralmente suas contradições, até as últimas consequências: reconhece em Aleixo a causa de sua decadência, mas vai até o fim no seu amor; seus ciúmes no hospital estão em constante contraste com sua saudade carregada de sensualismo; sabe o quanto o álcool lhe faz mal, mas procura-o como último recurso quando já não suporta a realidade.
Sua personalidade, ao longo de todo o romance, é mesmo aquela figura enlouquecida e apaixonada que, no último capítulo, caminha com desejo e ódio ao encontro de Aleixo e de seu destino."
Como bem notou Alfredo Bosi, Amaro é “coerente na sua passionalidade que o move, pelos meandros do sadomasoquismo, à perversão e ao crime”.

VII – LINGUAGEM:

A principal marca do estilo naturalista é o descritivismo detalhista, visando à objetividade cientificista na narração, mas não se pode afirmar que Adolfo Caminha abuse desse recurso nesta obra. Pelo contrário: a influência de Eça de Queirós parece ter sido positivo no que toca ao uso parcimonioso das descrições aliado a uma exploração do mundo interior dos personagens, o Bom-Crioulo, em particular, por meio do discurso indireto livre.
Além disso, há em Caminha aquilo que Massaud Moisés chama de “lastro romântico que suportava a cosmovisão realista: veja-se a abundância de reticências que destroem a ideia de apreensão total das circunstâncias e objetos, que constituía apanágio do Realismo [Naturalismo], e chamam para o indefinido e a fantasia desatada, como algumas vezes acontece”.
Tal particularidade é perceptível nas descrições, por exemplo, no episódio da borrasca que atinge a corveta pouco antes do atracamento no Rio de Janeiro ou na cena de despedida para o primeiro embarque de Amaro.
É interessante notar, também, como o autor trabalha a linguagem para tratar do sexo. Tudo é dito objetiva e cruamente, mas nunca a própria consumação do ato sexual, o narrador esconde-se por detrás das palavras: quando do episódio da masturbação de Herculano (o Pinga) no navio (“cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”); quando da posse de Aleixo por Amaro (“E consumou-se o delito contra a natureza”); quando da polução de Amaro, no capítulo IV (“passou a mão no lugar úmido, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono”); e assim por todo o livro. Essa atitude é comum também quando se trata de expressões de baixo calão proferidas pelos personagens. Amaro nunca completa a expressão “ - ...que os pariu”. São sempre as mesmas reticências...
O crítico Antonio Candido explicou coerentemente esse aspecto nos naturalistas:

“Há, portanto, uma espécie de desgraçado do enfoque “natural” de Zola, quem sabe por causa de certo sentimento ateu do pecado, visível não apenas em Aluísio Azevedo, mas em Eça de Queirós, Abel Botelho, Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro, que também receberam mais ou menos a sua influência. É como se na sociedades mais atrasadas e nos países coloniais o provincianismo tornasse difícil adotar o Naturalismo com naturalidade, e as coisas do sexo acabassem por despertar inconscientemente um certo escândalo nos que se julgavam capazes de enfrentá-las com objetividade desassombrada."


VIII – RESUMO DO ENREDO:

CAPÍTULO I

Um narrador impessoal, valendo-se do foco narrativo em terceira pessoa, abre o primeiro capítulo do romance descrevendo, minuciosamente, uma corveta. Essa técnica é comum na estética realista-naturalista que visa criar meios para o leitor visualizar o cenário em que vai transcorrer a ação. Informa que o navio, um dia novo e bonito, agora está velho, com o casco negro e as velas encardidas, parecendo mais um esquife agourento.
Após montar o cenário, o narrador põe as personagens em movimento.

“A velha corveta enfrenta a calmaria em alto-mar. Às onze horas, em plena indolência, o tenente ordena toque de reunir no convés. Oficiais e marinheiros preparam-se para a cerimônia de punição dos rebeldes. O guardião Agostinho, companheiro respeitado e temido, mestre na chibata, aplicaria as penas, aquilo lhe dava um prazer especial.”

Entre eles, Herculano, com seu rosto imberbe de adolescente. “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.” (p.14)

A razão do castigo é que o grumete fora flagrado por um mulatinho esperto, quando se masturbava:

“Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”. (p.16)

O mulato chamou o Sant’ana que veio e deu o flagrante. Herculano e Sant’ana brigaram. Por isso, ambos foram a castigo.
Herculano sofreu o seu sem reclamar, mas o Sant’ana tentou justificar-se, desculpar-se, mas de nada adiantou: vinte e cinco chibatadas para cada.

“- Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal-humorado sob a luz ardentíssima do meio-dia tropical.
- Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.” (p.18)

O terceiro preso a ser castigado é exatamente o protagonista, Amaro, mais conhecido entre os marujos por Bom-Crioulo. Trata-se de um negro, muito robusto e seguro. Calmo quando sóbrio torna-se agressivo quando embriagado.

“Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda a gente sabia que era o Bom-Crioulo ás volta com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha...uma coisa indescritível!” (p. 19)

O motivo de sua prisão agora, no alto-mar, a bordo da corveta, era outro:

“Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda-classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheiro de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se coisas.” (p.19)

O narrador traduz o sentimento interior de satisfação que toma conta de Amaro, que, se por um lado reconhece que agira mal, por outro está contente porque acredita que vai conquistar o grumete “como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro”.
O guardião Agostinho desfere cento e cinquenta chicotadas sem que o hercúleo Amaro solte um gemido de fraqueza.
Estava terminado o castigo. A população voltava à faina.

CAPÍTULO II

O narrador faz uma retrospectiva, um flash-back, revelando a história de Amaro: aparecera no Rio de Janeiro vindo não se sabe de onde. Negro fugido, fora recrutado pela Marinha e apaixonara-se logo pela vida de bordo. Era uma liberdade tão grande para quem passara toda a vida na fazenda, preso ao cabo da enxada! Ganhou logo a afeição dos oficiais; nunca dava trabalho e aprendia rápido. Isso lhe valeu o apelido de Bom-Crioulo.

“Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga. – E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia de amanhã!” (p. 22)

Durante o período de aprendizado, sonhava com poder embarcar definitivamente. Quando isso aconteceu, rapidamente ganhou a amizade e o respeito dos companheiros do cruzador de alto-mar, pela sua seriedade e força bruta.
Depois, sonhou em embarcar no navio do Almirante Albuquerque, que diziam recompensar bem seus bons marinheiros.
Quando embarcara na corveta, já tinha trinta anos, era marinheiro de segunda classe.
Com o passar do tempo seu comportamento começa a mudar. Descuidava-se da qualidade de seus serviços. Torna-se lento no cumprimento das obrigações: lerdava no mastro e mostrava-se aborrecido com as tarefas.
Diziam uns que a cachaça estava a perder o negro; outro, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, desde que Aleixo, o menino que embarcara como grumete no Sul.

“O certo é que o garoto de quinze anos abalara a alma de Amaro, dominando-a, como a força de um imã. (...) Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho.” (p. 26)

“Bom-Crioulo não se importava com os comentários, desde que não lhe viessem dizer na cara, senão veriam!”

Nota-se no fragmento transcrito uma das mais importantes características do Naturalismo. O narrador, como um cientista, friamente, tecnicamente, procura falar do assunto racionalmente, demonstrando uma visão de mundo materialista em que predomina a preocupação com o aspecto fisiológico, próprio do clínico-geral.
Aleixo era filho de uma família pobre de pescadores. A princípio, Bom-Crioulo o assustara, mas foi se acostumando aos carinhos e à solicitude de Amaro.
Amaro, para mostrar ao grumete de olhos azuis o seu poder sobre os outros e também sua afeição, esmurra o segunda-classe, que ousou maltratá-lo.
Ao regressar do Sul, comenta o narrador, Amaro está mais forte, mais viçoso, mais homem. Já não revela mais tanta obediência, tanto respeito no tocante à disciplina.
Tornou-se um tipo comum, como a maioria dos marinheiros, já fala mal dos oficiais na ausência deles, trata-os com desdém. Após ser castigado por um comandante, de nome Varela, por ter agredido outro marinheiro, Amaro torna-se preguiçoso, insubmisso, ressentido e deixa de se importar com seus deveres, passava um mês no hospital, outro a bordo, outro de licença em terra, resmungando:

“Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse quer não trabalhasse. -...que os pariu!” (p. 28)

O fato do texto estar entre aspas (além disso, no original, está depois do travessão) caracteriza a fala da personagem em discurso direto. Então deveria estar “Tolo é quem se mata...”, mas o escritor colocou os verbos no passado, como se o narrador estivesse reproduzindo a fala da personagem em discurso indireto. Temos então uma contaminação do discurso do narrador pelo da personagem.

CAPÍTULO III

A narrativa retorna ao tempo presente, isto é, ao momento final do primeiro capítulo, logo após o castigo dos três marinheiros. Todos na corveta regozijam-se com a esperança de chegar em breve à baía da Guanabara. Todos não, há um que preferia passar a vida toda no mar: Amaro. “Como haveria de ser a vida em terra depois de ter conhecido o grumete?

“Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno desta única ideia – o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... – Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas, enfim, ia-se vivendo...E agora! Agora...hum, hum!...agora não havia remédio: era deixar o pau correr...” (p. 29)

Neste fragmento, a exclamação indica que houve mudança abrupta, marcada por um travessão, mas no meio da frase, sem abrir outro parágrafo e sem qualquer verbo de elocução. Quem está se expressando é Amaro.
No trecho final, tanto as hesitações, os pensamentos incompletos, a interjeição “hum, hum” que indica dúvida e impaciência do próprio protagonista.
Não entendia o que estava acontecendo. Nas duas únicas vezes que se metera com mulheres na vida, foram fracassadas.
Amaro passa o dia todo torturado por um incontrolável “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo”.
Aleixo, por sua vez, ia satisfeito com a vida de grumete. Era o preferido dos oficiais, sempre muito asseado e composto.
Bom-Crioulo era o responsável por aquela transformação; ele ensinara o menino a se vestir, a conquistar simpatias.
Dera a ele um espelhinho, ensinara-o a dar laço na gravata, a usar o boné de lado, a camisa um bocadinho aberta.
Um belo domingo, o rapaz aparece tão lindo em seu uniforme branco que Amaro “ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo”. (p. 31)
Nesse mesmo dia, depois de terminada a leitura do Regulamento e feita á revista, Bom-Crioulo chama Aleixo à proa e entram numa longa conversa em que o negro propõe ao rapaz para morarem juntos, quando voltarem a terra.
Propôs protegê-lo e ensiná-lo a viver no Rio de Janeiro. Aleixo deixava-se levar pelos planos do amigo e fantasiava a vida na capital: morariam juntos em um quarto da Rua da Misericórdia. Conversavam e assistiam à passagem de um transatlântico carregado de imigrantes quando, de repente, o tempo mudou; uma montanha de nuvens se aproximava, viria uma tempestade. O navio agitava-se, preparando-se para a luta contra a natureza.
Durou uma hora e meia o aguaceiro, até que o sol iluminou de novo o horizonte, só o vento persistia.
Depois, os marinheiros aproveitaram o luar e a noite para festejar. Menos o Bom-Crioulo, que cansado do extenuante trabalho, desceu as escadas em busca de abrigo e descanso. Ele e Aleixo, bem próximos, conversaram sobre a tempestade e trocaram histórias até o anoitecer.
O ambiente era frio, úmido. A coberta era nauseabunda, um cheiro acre de suor, urina e alcatrão misturados empesteava o ambiente. Naquela noite, queria resolver logo aquilo, não podia esperar mais. Esgueirava-se entre as macas, procurando Aleixo.
Não se viam, apenas adivinhavam-se por baixo dos cobertores.

“Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo; o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo.
Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo!Murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.” (p. 37/8)

CAPÍTULO IV

O dia seguinte amanhece luminoso. Chegam ao Rio de Janeiro e Amaro sentia um misto de alegria e preocupação. Depois de mais de seis meses de escravidão no mar, isso que chamavam “servir à pátria”, enfim chegava à terra firme. No entanto, em vinte e quatro horas pode ver-se separado de seu grumete por ordens superiores. Por outro lado, alegra-se com a prova de amor que recebera:

“Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta...Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurava nas mulheres”. (p. 40)

O narrador reproduz seu monólogo interior, em que procura justificar seu desvio, tomando como exemplo o comportamento de outros, como o de um oficial.

“Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...” (p. 40)

Vem a tarde, mas recebem ordem para não desembarcar. Amaro dorme pesado, pois está cansado. Ao acordar, irrita-se pois tivera um verdadeiro esgotamento de líquido seminal. Irrita-o mais ainda o fato de não ter sentido gozo. Levanta-se, arruma suas coisas e sai resmungando, ameaçando quem cruzasse com ele. Só o encontro com Aleixo animou-o.

“Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que o negro era meio doido.” (p. 41)

Enfim puderam descer. Passaram pelo decadente Largo do Paço, beberam alguma coisa e foram andando para a Rua da Misericórdia. Pararam defronte de um sobradinho, próximo ao Arsenal de Guerra. Em baixo, moravam uns pretos de Angola. Em cima, a D. Carolina, uma senhora redonda e meio idosa, que abraçou com alegria o Bom-Crioulo. Era uma portuguesa que alugava quartos. Não discriminava os fregueses.
O narrador faz uma retrospectiva, revelando que a portuguesa quando moça, já tivera seu bom período de aparência, uma casa na Rua da Lampadosa, chamavam-na Carola Bunda, tivera dinheiro ganho na prostituição, tivera homens, mas também adoecera e conhecera infortúnios.
Depois tropeçara pela vida, foi para Portugal, retornou ao Brasil, e agora vivia da renda dos aluguéis e da ajuda de uma amante, um açougueiro, senhor Brás, que aparecia às vezes e contribuía com cento e cinquenta mil réis “para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente”. Contava, então, com o dinheiro dos aluguéis para segurar sua velhice.
Estimava o Bom-Crioulo desde o dia em que ele a salvara, na rua, de dois pilantras que a assaltavam e podiam até matá-la. Tornaram-se íntimos e, desde então, Amaro só se hospedava na Rua da Misericórdia.
Enquanto Bom-Crioulo contava a D. Carolina seu caso com o grumete, Aleixo reparava na decoração da sala de jantar. Tudo cheirando a sebo e cânfora, velho, poento e incolor.
Os marinheiros foram arranjados no comodozinho de cima, onde podiam ficar mais a sós.

CAPÍTULO V

“O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente.” (p. 47)

O leito era uma cama dobrável muito usada, sobre a qual Amaro de manhã cobria com um grosso cobertor encarnado para esconder as nódoas.
Durante meses viveram ali uma vida tranquila. Bom-Crioulo enfeitou o quartinho com bugigangas. Cumpriam seus deveres a bordo e vinham á terra duas vezes por semana.
O grumete levava uma vida de felicidades. Era estimado por D. Carolina e como era comportado e asseado, tornou-se protegido dos oficiais.
Uma coisa apenas o incomodava: os caprichos libertinos de Amaro, pois este não se contentava só em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, “queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”, como quando exigiu que o rapaz se mostrasse para ele nuzinho em pêlo. Apesar da vergonha, Aleixo cedeu, revelando um corpo muito alvo, as formas “roliças de calipígio” (belas nádegas).

“Bom-Crioulo” ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles...Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...”(p. 48/9)

Os desejos de Bom-Crioulo eram de touro! D. Carolina chamava o rapazinho de olhos azuis de “Bonitinho” e desdobrava-se em carinhos para ele.
Certo dia a corveta entrou para os diques.

“Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.” (p. 50)

Com a embarcação parada para reparos, os marinheiros ficam à solta. Amaro torna-se trabalhador de novo, obtendo concessões de imediato e, assim, multiplica os passeios à terra. Já faz quase um ano que está nessa vida. Começa a sentir-se magro e tem uma fraqueza e uma sonolência profunda, mas isso não chega a preocupá-lo, pois vive em paz de espírito vendo crescer a seu lado o Aleixo.

“Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelos de amante apaixonado.” (p. 51)

D. Carolina, vendo a permanência dessa ligação, brinca com eles:

“Vocês acabam tendo filhos”.

Mas, certo dia, a corveta saiu do dique e Amaro se viu surpreendido, nomeado para outro navio, um grande navio de guerra. Ficou furioso por ter de se separar do seu amigo. Ameaçou-se, caso se engraçasse com algum oficial. E foi-se, triste, servir na sua nova casa no mar.

CAPÍTULO VI

No dia seguinte, Aleixo não encontrou o Bom-Crioulo no quarto. Adormeceu, esperando pelo negro. Quando acordou, ele não havia aparecido. Não importava, afinal não era impossível viver sem Amaro. Na verdade, nos últimos tempos, pensava mesmo em arranjar alguém melhor, de posição.
Seus pensamentos são interrompidos pela presença da portuguesa. D. Carolina, aproveitando-se da ausência do negro, inicia um processo de sedução do rapaz.
Conversaram enquanto ele se arrumava para uma volta no Passeio Público. Ela queria lhe falar quando voltasse.
Ele saiu, ela se perdeu em seus pensamentos: há dias metera na cabeça conquistar Aleixo. Tinha 38 anos, não estava tão acabada assim, e cansara dos marmanjos.

“Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga – dando-lhe tudo enfim.” (p. 55)

A portuguesa torna-se muito meiga com o rapaz, guarda-lhe doces; passa ela mesma a ferro os lenços dele. Fingindo-se distraída, vai revelando-lhe pernas, braços, seios.
Um dia, Aleixo passa pelo corredor e dá com a porta aberta dos aposentos da mulher, que, na cama dormia com as pernas de fora, metida numa camisa curta. Ele excita-se, mas nem sonha que ela possa dar atenção a ele, ainda imberbe.
Quando ele voltou do Passeio, a portuguesa levou-o para o seu quarto com uma larga cama de casal. Elogiou-o, disse que estava apaixonada e passando das palavras à ação.

“Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
- Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar aí assim, torpemente, como um animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha...Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar as ideias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.
Ela de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar!
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passado o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina – valia a pena decerto uma noite como aquela!” (p. 58/9)

Combinaram se encontrar quando Bom-Crioulo não viesse á terra.
No outro dia, Aleixo sai de casa, pálido, com grandes olheiras, pensando:

“Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais com aquele negro, ah! Que felicidade!”

E a figura da mulher dançava em sua imaginação como um sonho diabólico.

CAPÍTULO VII

O narrador dirige o foco da narrativa para o Bom-Crioulo que sofre insatisfeito a vida dura no couraçado para o qual foi transferido. Enchia-se de ódio contra os superiores. Revoltava-se contra o quartel-general que o mandara da corveta para o couraçado. Fantasia desertar e fugir com o pequeno:

“Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...” (p. 60)

A vigilância acontecia porque já no primeiro dia o crioulo fora recomendado ao imediato em bilhete especial.

“Muita cautela com o Amaro. É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas chupando seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos”.

Por isso os oficiais precaveram-se contra ele e não queriam deixá-lo desembarcar. Ficou assentado que ele teria folga só uma vez por mês. Amaro suportou três dias, mas no quarto, um sábado, pediu permissão para desembarcar. Como lhe recusaram, no dia seguinte, pela manhã, ofereceu-se para remar no escaler que ia às compras. Ao atracar, pediu permissão para “fazer uma necessidade” e fugiu direto para o seu quartinho, mas não encontrou Aleixo.

“Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando...O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa de água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.
- Eu faço ideia!...murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual! Eu faço ideia...” (p. 61)

Depois disso, acendeu um cigarro e deitou-se, só acordando ao meio-dia, quando foi chamado por D. Carolina. Conversaram e Amaro indaga sobre seu amante, mas a portuguesa mente, dizendo que o rapaz viera só um dia, na quinta-feira.
Amaro sai para comer alguma coisa e vai ruminado:

“Precisava tomar uma resolução, abandonar Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranquilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...” (p. 63)

Um amontoado de gente atrai Amaro, que se espanta de ver dois guardas tentarem inutilmente levantar um homem “acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensanguentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas”. (p. 64)

Amaro salta no meio e levanta o homem com as duas mãos, transportando-o assim até a Santa Casa de Misericórdia, como se pegasse uma criança, assombrando o povo com sua força. Depois toma um gole de cachaça e só com isso fica alterado. Resolve ir direto para bordo: “Vou porque quero, porque sou livre”.
Eram duas horas da tarde dominical e quase todo o comércio já estava fechado.
Desceu cambaleando para o Largo do Paço, com a mente turva, e os cachorros da rua começaram a provocá-lo.
No cais, grita para os marinheiros de um escaler, que fingem-se de distraídos, fazendo rir a um português que assistia à cena. Amaro descarrega no português a sua raiva. Brigam durante longo tempo e atraem a atenção dos curiosos, que formam um ajuntamento. O crioulo puxa uma navalha e o português foge.
Aproximam-se policiais e Amaro, que já estava de navalha em punho, enfrenta-os.
Aparece um primeiro-tenente da marinha, com mais seis marinheiros, prendendo Amaro como se fosse um animal feroz.

“Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...” (p. 68)

CAPÍTULO VIII

“O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, falavam-se coisas...” (p. 68)
Amaro sente por ele uma repugnância instintiva:
“Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente”.

Essa noite dorme Amaro em uma jaula de ferro estreita e sem luz, onde mal cabe um homem. Trancado ali, imóvel, com pés e mãos presos, só conseguiu adormecer de manhã, quando os outros já acordavam. Durante o sono, teve pesadelo com o português da briga. Iam se pegar de novo, mas Aleixo interferia impedindo o confronto. Eram onze horas, quando Amaro, ainda em jejum, foi retirado para o castigo.

“- Não se iluda a guarnição deste navio! Perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam...” (p. 70)

Como da outra vez, Amaro recebeu as chibatadas sem um grito de dor. Quando terminou, o negro rodou e caiu sobre o convés, porejando sangue. Todo seu couro estava cortado pela chibata. Caiu quando já não restava qualquer energia no organismo e a dor sobrepujara a vontade. Vem o médico, aplica-lhe água com éter. Depois, Amaro é levado em um escaler para o hospital em terra.
Aleixo, naquele dia, estava de folga e aproveitou para visitar a portuguesa. Vai com medo de encontrar Bom-Crioulo e de ter de enfrentar os seus caprichos. Após descobrir o sexo heterossexual com a portuguesa, o rapaz “ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar”. Sente que nunca o estimara.
Por sorte, encontrou D. Carolina a lavar roupa, conversam sobre o negro, rindo-se dele. Em seguida, ficou admirando a beleza do corpo da portuguesa, sua pele alva, enquanto ela terminava o serviço.
Sentiam uma atração irresistível.
D. Carolina ao ver o rapaz sente desejo de tomarem banho juntos, ali mesmo. Aquele amante moço fazia D. Carolina remoçar, como se fosse um milagroso afrodisíaco.

“Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos, Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo tinha formas de mulher.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente – o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.” (p. 73)

Aleixo se comprazia naquele relacionamento com uma mulher mais experiente, sentia “um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de mordê-la, de cheirá-la, de palpá-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável”. (p. 74)

Aleixo mesmo naqueles momentos com a portuguesa, não podia esquecer de todo seu antigo amante. A figura do negro acompanhava-o com uma insistência de remorso. Tinha medo do gênio rancoroso e vingativo do outro. Isso fazia com que suas expansões com a portuguesa fossem incompletas.
A mulher, no entanto, não parecia preocupar-se muito com isso.

Toda a noite foi um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...” (p. 75)

CAPÍTULO IX

Enquanto isso, no hospital, Bom-Crioulo sofria longe de seu amado, ouvindo gemidos aborrecedores e alimentando-se parcamente.
A lembrança de Aleixo não lhe saía da cabeça. Sonhava com a liberdade e com o amor do grumete.
O negro evitava a todos com seu olhar ameaçador e seu jeito carrancudo.
À noite, sozinho, sentia uma mistura de tristeza, desgosto e ódio: o companheiro não o procuraria? Teria arrumado outro?
Não conseguia apagar do espírito o mau pensamento de ver seu garoto nos braços de outro homem. Torturava-o o terrível ciúme.
Na enfermaria, nem a bela paisagem que se via da janela o animava.
Seu consolo era um retrato do Aleixo, uma fotografia barata tirada na Rua do Hospício, quando ele e o rapaz moravam juntos na corveta. Ao deitar-se beijava com carinho aquele retrato.
Angustiado, Amaro lembra-se de pedir a um empregado do hospital para escrever um bilhete ao Aleixo. Dita suas queixas e faz um pedido ao rapaz para que venha fazer-lhe uma visita no dia seguinte, que era um domingo.
Enviou o bilhete ao amigo e ficou esperando, sôfrego e apreensivo, uma resposta que não veio.
Aquele desprezo o encheu de cólera.

“Passou á hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! Nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! – Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Veio á noite e a madrugada, mas nada do Bom-Crioulo dormir ou afastar do espírito a imagem importuna do ingrato namorado. Essa imagem o torturava, borboleta importuna a voejar em torno do desprezado.” (p. 79)

Nos dias seguintes, tentou esquecer, em vão, aquele vício, aquela paixão, aquela loucura que ele, tão forte, não conseguia dominar. Começou a pensar numa maneira de fugir do hospital.
Os dias passavam e a existência tornava-se cada vez mais insuportável. Uma noite foi preso quanto tentava escalar o muro do hospital...

CAPÍTULO X

D. Carolina e Aleixo viviam felizes, agora que a figura do negro desaparecera de suas vidas.
Aleixo encorpara, estava virando homem. O sotãozinho estava abandonado; viviam juntos no quarto dela. Aleixo, com ciúmes, quis que ela abandonasse o Manoel, que lhe ajudava a sustentar a casa. Ela disse que sim, mas às escondidas, encontrava-se com o amante para poder equilibrar o orçamento.
A vida era uma embarcação em mar de rosas. Até que chegou às mãos da portuguesa o bilhete do Bom-Crioulo.
D. Carolina rasgou-o em pedacinhos, mas depois ficou pensando, inquieta: tinha medo do que poderia acontecer se Amaro descobrisse tudo, cenas de sangue vinham-lhe à cabeça. Naquela noite, quase não conseguiu dormir.
No dia seguinte, Aleixo estranhou encontrar a porta da rua fechada, assim como os carinhos tantos que ela lhe dispensava naquela tarde. Entregava-se a ele quase maternalmente, para dissipar os temores do bilhete.
Como não dissesse nada, o rapaz amuou. O jantar foi de cara amarrada. Enfim, ele resolveu contar-lhe tudo. Aleixo surpreendeu-se: então Bom-Crioulo ainda pensava nele! Discutiram o assunto e resolveram esquecê-lo. Decidiram sair ao Passeio Público, para aproveitar a noite e espairecer.

CAPÍTULO XI

Ódio, amor e ciúme confundiam-se nos sentimentos de Bom-Crioulo. No hospital, durante o dia, ainda tentava se esquecer de Aleixo, mas à noite era tomado por um desespero incrível, agravado por feridas que haviam brotado por todo o seu corpo e não o deixavam dormir, tal a coceira provocada pela sarna.
Era um sábado, feriado, quando Bom-Crioulo reconheceu entre os marinheiros visitantes do hospital o Herculano, o Pinga da corveta! Foi ele quem lhe disse que Aleixo reinava na embarcação, muito íntimo dos oficiais, e que parecia amigado de uma rapariga em terra.
Bom-Crioulo ouviu aquilo engolindo uma onda de cólera. À noite, fugiu. Queria vingar-se; queria agora gozar o grumete maltratando-o, fazendo-o sofrer!
Planejou a fuga com cuidado; foi para as praias da ilha e ficou esperando o amanhecer, o descortinar-se dos Órgãos, de Niterói, da Barra, do Pão de Açúcar.
Conseguiu que um velho galego o levasse ao continente em um bote. Estava um dia lindo, um dia de galas e de liberdades!

CAPÍTULO XII

Bom-Crioulo chegou cedo à Rua da Misericórdia.

“É bem cedo e há pouco movimento na Rua da Misericórdia. Homens mal vestidos, operários e ganhadores, descem a rua numa lentidão arrastada. A vaca de leite, com as grandes tetas pesadas, passa no seu giro cotidiano, dócil, a baba a escorrer-lhe do focinho em fios de espuma. A carroça do lixo anda na sua faina matinal, parando aqui e ali. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração.” (p. 97)

Aqui temos algumas marcas típicas do gosto naturalista. Ao contrário do escritor romântico que dirigia o foco de suas lentes para aspectos bonitos e agradáveis da realidade, como que fazendo um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro, o naturalista registra o feio, o desagradável com objetividade.
Abrem-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, e, assim como a luz, o movimento de transeuntes vai aumentando. Daqui e dali, surgem caras estranhas e amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço. A vida recomeça. E é nesse quadro que se recorta a figura de Amaro, seguindo em direção ao sobrado. Quando o vê, diminui o passo. Vem-lhe uma saudade! Foi ali que ele viveu o melhor de sua vida. Ali tinha aprendido a amar, a querer bem. Recorda toda sua aventura com o medido bonito. Mas quanto mais lembrava o passado, mais o ódio tomava conta dele. Não conseguia fixar seu olhar em nada.

Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma coisa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue...” (p. 99)

Ao chegar, Amaro depara com a porta do sobrado fechada. Dá meia-volta e vai andando rua acima, meio sem rumo. De repente, dá com a padaria que fica quase defronte da portuguesa. Entra e puxa conversa com o funcionário, perguntando sobre a portuguesa e Aleixo. O que ouve deixa-o estarrecido:

Acordam tarde. Ultimamente a porte vive fechada. Costumam sair juntos à noite...” (p. 99)

Amaro não quer acreditar e pede mais informações e o outro não se faz de rogado>

“Foram ao teatro, ontem, à “Tomada da Bastilha”. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...” (p. 100)

No exato momento em que estão conversando, o funcionário mostra a Amaro que o rapaz está saindo do sobrado. Bom-Crioulo salta até Aleixo e inicia-se uma discussão de amante desprezado e enciumado, atraindo muita gente.
Forma-se um grande círculo em volta dos dois marinheiros, invisíveis agora. Começou um tumulto, um alvoroço, guardas aparecem.
De repente o povo recuou abrindo caminho, a portuguesa apareceu na janela e gritou: “Jesus!” Viu, no meio de duas fileiras de curiosos, o corpo ensanguentado do grumete.

“Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.” (p. 101)

“Ninguém se importava com o outro, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos porém, todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até caiu tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.” (p. 102)

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Massaud Moisés vê no “Bom-Crioulo” um romance que “focaliza o problema da escravidão, segundo um prisma abolicionista e republicano”. No entanto, a história do “negro fugido” Amaro não nos parece ter como eixo central o problema da escravidão.
Sem dúvida que esse problema aparece no romance e que a posição do autor é abolicionista e republicano.

“A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença. (...) Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa. (...) Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga.”


É importante observar que o retrato do imperador D. Pedro II, no quarto de Amaro, tão bem visto por este no capítulo VII do livro, poderia ir contra esta ideia e dar a entender que o livro é anti-republicano. Pelo contrário, o retrato do imperador reinando em um ambiente tão promíscuo e decadente como o quarto do sobradinho, não seria mais que alegórico de Sua Majestade a reinar em um país decadente, enfeitado por “móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor muita vez trazidas de bordo...”

Outra temática importante a analisar é a negritude de Amaro. Se a posição do autor é francamente favorável a ele nesse aspecto em alguns momentos do romance (“...o drama do cativo parece avultar na medida de suas qualidades pessoais...”, bem notou Massaud Moisés), se algumas vezes surge sua figura como heróica (o mais forte marinheiro, o episódio de socorro a D. Carolina ou ao transeunte com gota), nem por isso o autor deixa de descrever o Bom-Crioulo com todos os preconceitos de sua época e das teorias deterministas de Taine. Como exemplo disso, vejam-se algumas expressões retiradas de certas passagens do livro, referentes a Amaro: “não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue”, “desejo de posse animal”, “se os brancos faziam, quanto mais os negros!”, “momentos há em que os próprios animais caem extenuados”, “cousas do caráter africano”, “ignorante e grosseiro”, “desespero hidrofóbico”, “orgulho selvagem de animal ferido”, etc.

Segundo Antonio Candido:

A orientação científica se apresenta como interpretação objetiva do comportamento das personagens, mas adquire logo matizes valorativos, na medida em que naquele tempo esta modalidade de interpretação tinha uma função desmistificadora, sendo ruptura com o idealismo e esforço para enxergar a vida na sua totalidade (...)”

A questão da negritude, porém, é secundária. “Bom-Crioulo” filia-se, sem dúvida nenhuma, à corrente naturalista que se preocupava com “temas singulares, extraordinários, frequentemente patológicos” (Erich Auerbach).

O tema central do romance é o homossexualismo, a pederastia.
Caminha tenta ser o mais imparcial possível, atendo-se à observação pura e simples, como bom naturalista. Afinal, “ninguém está livre de um vício”. Mas esta mesma palavra – “vício” – já denota uma postura negativa em relação ao assunto. E o que se lê sempre, nas linhas e entrelinhas, é não só o homossexualismo, mas o sexo em geral, tratado como desvio, forma animalesca de estar no mundo.

Nessa obra a linguagem, a construção dos personagens e do espaço são perpassados pela ideia de que o homossexualismo leva a uma degeneração do ser humano. Apenas para corroborar essa ideia, veja-se o comentário a seguir, em que se analisa a decadência do Bom-Crioulo a partir do momento em que passa a ter uma relação estável com Aleixo no sobradinho de Carolina; decadência que só irá se prolongar, física e mentalmente, até o final do romance:

Ultimamente [Amaro] começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longes de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos...Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia (...)”

3 comentários:

Jessica Lima disse...

Muito obrigado.
Depois de ler sobre o Bom-Crioulo na sua pagina, senti vontade e curiosidade de ler este livro.
E realmente pude compreender todo o contexto me colocando assim dentro da historia.

Jessica Lima disse...

Muito obrigado.
Depois de ler sobre o Bom-Crioulo na sua pagina, senti vontade e curiosidade de ler este livro.
E realmente pude compreender todo o contexto me colocando assim dentro da historia.

Emanuelle Camila disse...

É um livro excelente, estou dissertando sobre ele em minha monografia. Apaixonei-me a primeira vista, e nem pensava em falar sobre literatura na minha monografia. Vale a pena ler!