quinta-feira, 29 de setembro de 2011

RAIMUNDO da Mota Azevedo CORREIA: VIDA, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DE POEMAS


“Quanto à sua consumada arte do verso e à profundidade da emoção de Raimundo Correia, não há discussão; surgiram dúvidas, porém, quanto à sua originalidade.”


Otto Maria Carpeaux

I – VIDA:

Raimundo Correia: magistrado; professor; diplomata e poeta, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.
Quando o poeta publicou “Primeiros Sonhos” em 1879, estava em plena efervescência a “Batalha do Parnaso”, versão brasileira da portuguesa “Questão Coimbrã”: uma acesa polêmica entre poetas esteticamente vinculados ao Romantismo e os adeptos da “poesia nova”, científica, progressista, que se propunha exterminar a choradeira romântica. Sendo assim, criticaram a indecisão de Raimundo Correia que, neste livro de estréia, embora professasse a “ideia nova” – o Progresso – mostrava também fortes índices de anacronismo estético ao insistir na criação das imagens femininas, ainda relacionadas ao desgastado conceito romântico da “mulher-anjo”. A indefinição do autor é tão evidente que ele se desculpa duas vezes pela mediocridade do volume: na introdução e no encerramento. É o livro que vai indicar a agonia do Romantismo.
Nesse tempo, o poeta fazia a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco e, juntamente com Augusto de Lima, Alexandre Coelho participa da “Revista de Ciências e Letras”, São Paulo, 1880.
Esta revista teve muita importância, dada a qualidade excepcional de seus colaboradores e pela tendência nacionalizante que ela imprimiu no meio intelectual da época. Foi um dos nossos primeiros órgãos a defender e divulgar a cultura e a arte realistas.
A efervescência da vida acadêmica faz nascer em Raimundo Correia um ardente sentimento de liberalismo, que o levava a declamar em público os poemas socialistas de Antero de Quental, uma de suas maiores influências. É do entusiasmo pelas novas ideias que nasce “Sinfonias” (1883), onde se encontra um dos mais conhecidos sonetos da língua portuguesa, “As pombas”. Este poema valeu a Raimundo Correia o epíteto de “o Poeta das pombas”, que ele, em vida, tanto detestou. Comparado ao teor do livro, o título é paradoxalmente irônico, pois os poemas, principalmente os de direção reflexivo-moralístico, apresentam um tom soturno, sombrio, schoppenhauriano.
Machado de Assis, comentando esta obra, diz da sua surpresa, elogiando a auto contenção e a ausência de derramamento mostradas pelo autor. Serão as qualidades apontadas por Machado de Assis que amainarão as críticas lançadas contra Raimundo Correia, acusando-o de plágio, principalmente nos poemas “As Pombas” (emprestado do poeta parnasiano francês Theóphile Gauthier), “Mal Secreto” (tomado de Metastásio, pseudônimo árcade do poeta italiano Lugi Arnaldo Vassalo) e “Carnaval” (transposto do poeta francês Jean Richepin).
Formado, o poeta ingressa na magistratura, indo servir em São João da Barra (1883), em Vassouras (1884-1888), onde se casa e funda com o amigo Lucindo Filho o jornal “O Vassourense”.
É no período passado nesta cidade fluminense que o poeta escreve e publica “Versos e Versões” (1887). Aqui, desaparece a poesia social e o autor concentra-se cada vez mais na poesia reflexiva, revelando uma visão de mundo que beira ao ceticismo, à descrença numa incoercível mostra de pessimismo.
Evitando sistematicamente a 1ª pessoa, o poeta expressa-se num tom áspero e circunspecto, aquele que os modernistas chamarão de “carpideiras intelectuais”. Em nenhum momento, o poeta se apresenta descontraído; é sempre uma atitude reflexiva, em que manifesta desespero e inquietação. É este posicionamento que vai mostrar no poeta, uma ânsia de pureza, de transcendência de superação.
Após ter sido nomeado secretário da Presidência da Província do Rio de Janeiro em 1889, Raimundo Correia exerce esta função até a Proclamação da República. Aí, retorna à carreira de magistrado, trabalhando como juiz de Direito em São Gonçalo do Sapucaí e Santa Isabel, no estado de Minas Gerais. É o tempo de publicar “Aleluias” (1891), obra em que o poeta, certo da mediocridade e da limitação humanas, pinta sua poesia com tons levemente religiosos e metafísicos. Mostrando necessidade de transcender o concreto, revela-se paradoxalmente angustiado e sarcástico.
Num humor que é sempre corrosivo, propõe-se a desmistificar a Igreja, desenvolvendo poemas que superam o Parnasianismo e antecipam o Simbolismo, pelo vocabulário e pelas constantes onomatopéias musicais.
Mudando-se para Ouro Preto, o poeta ingressa na máquina burocrática do governo da Província de Minas Gerais, ocupando o cargo de secretário das Finanças da antiga capital da província. É aí também que acontece a curta experiência de Raimundo Correia no magistério superior, lecionando na Faculdade de Direito até 1896.
No ano seguinte, encontramos Raimundo Correia morando no Rio de Janeiro, onde participa da fundação da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 5. Ingressa na carreira diplomática, como segundo secretário da Legação do Brasil em Lisboa, sendo depois removido para Paris.
Quando ainda estava em Lisboa, publicou “Poesias” (1898) que confirmam as tendências para o noturno e para a transcendência, as curiosas experiências sinestésicas, a ousadia do artesanato poético, com o autor invertendo estruturalmente o soneto ao começar e terminar com quartetos, deslocando os tercetos para uma posição intermediária.
Com a saúde abalada por profunda neurastenia, viaja para a Europa, a fim de realizar um rigoroso tratamento de saúde.
Falece em Paris a 13 de setembro de 1911, com a Academia Brasileira de Letras providenciando a trasladação de seu corpo para o Brasil em 1920.

II - OBRAS:

Primeiros sonhos (1879);
Sinfonias (1883);
Versos e versões (1887);
Aleluias (1891);
Poesias (1898, 1906, 1910, 1916);
Poesias completas, 2 vols., org. de Múcio Leão (1948);
Poesia completa e prosa, org. de Valdir Ribeiro do Val (1961).

III - CARACTERÍSTICAS:

Raimundo Correia soube driblar a impessoalidade proposta pelo Parnasianismo e atingir o universalismo, desenvolvendo temas sociais e, sobretudo, filosóficos: a busca de uma verdade essencial e imorredoura, os conflitos da condição humana etc.
Seus poemas têm uma suavidade e uma melancolia acalentadas pela influência de Schopenhauer, pensador alemão que acreditava que “o desejo, que é a expressão consciente do querer-viver, é vivido como carência e gera o sofrimento, única coisa positiva – enquanto o prazer, nascido da satisfação de uma necessidade, reduz-se a uma simples transição entre dois sofrimentos (a carência e a saciedade). [...] A salvação para o homem consiste em se libertar do querer-viver e portanto, da dor que é a sua expressão. A solução pode ser encontrada na arte, que transforma em espetáculo o objeto de desejo”.
Assim, a única salvação residiria em superarmos a vontade de existir, de viver, sublimando os desejos pelo exercício da vontade, e assumindo uma atitude contemplativa diante do Universo (é visível a aproximação com a filosofia oriental). Este “budismo” filosófico é aparentado com a atitude parnasiana de distanciamento da vida, da impassibilidade, de uma poesia voltada para si própria, reforçando o ideal de uma “arte pura”.
Claro está que, de acordo com essa perspectiva, a arte é a sublimação da dor, e o sofrimento é inerente à condição humana.
Raimundo Correia foi também um poeta lunar, com tendência para o noturno, para o negativismo. O gosto pelas paisagens lunares, a obsessão pela lua, pela sua sedução e encantamento, escondem, por vezes, algo alucinatório ou sonambúlico, antecipando uma vertente poética muito cara aos simbolistas.
No soneto a seguir, o antológico “Mal Secreto”, o negativismo, o pendor filosofante e a intenção de moralizar descambam no sentencioso e no declamatório da “chave-de-ouro”.

MAL SECRETO


Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Em “Mal secreto”, Raimundo Correia utiliza-se de rima do tipo ABAB nas duas primeiras estrofes, e do tipo CCD nas duas últimas estrofes. A forma utilizada pelo poeta foi a de Soneto, largamente utilizada pelos parnasianos e pela tríade. Em relação à métrica, Raimundo Correia opta por versos decassílabos, também muito utilizados pelos poetas parnasianos.
Raimundo Correia utiliza-se também de recursos sonoros e visuais. O ritmo marcado pela sonoridade, especialmente nas palavras tônicas, e nas rimas a marca do tom consistente e forte. Através desses recursos, o poeta consegue transmitir sua oposição semântica fundamental dentro do poema, entre o íntimo do ser humano e sua aparência, com as máscaras que muitas vezes escondem a realidade.

AS POMBAS


Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

Poema de crítica à espécie humana, apontando a vida, como sinônimo da perda de ilusões. O tema foi aproveitado do romance “Mademoiselle de Maupin” e do poema “Les Colombes”, ambos do parnasiano francês Théophile de Gauthier.
O poema “As Pombas” ilustra uma boa alegoria, pois cada elemento dos dois primeiros quartetos será pontilhado pela imagem correspondente dos dois últimos tercetos. Como se trata de um conjunto de metáforas, logicamente concatenadas, dá-se a alegoria.
No texto, a revoada das aves é apresentada como uma cena do amanhecer. Na terceira estrofe, porém, o conteúdo do poema ganha densidade com a analogia entre pombas e sonhos: as primeiras partem, mas retornam sempre ao cair da tarde, enquanto os sonhos, que deixam os corações, perdem-se pelo vasto mundo.
A excelência dos versos de Raimundo Correia está intimamente ligada a sua capacidade de pintar a natureza em tons fortes, criando imagens sugestivas de grande carga poética.
Sobre um dos poemas publicados, afirmou Manuel Bandeira, em “Raimundo Correia e o seu sortilégio verbal”:
“Foi a propósito de “Plenilúnio” que Lêdo Ivo criou o neologismo “lunaridade” para denominar aquela encantação vocabular que faz da poesia outro idioma dentro de cada idioma. Realmente, não conheço em língua nenhuma, viva ou morta, exemplo mais cabal de lunaridade que esse poema, que exalta até as raias da loucura o sentimento de vigília noturna. Desde a terceira estrofe atinge ele as supremas paragens da visionária demência.”

PLENILÚNIO


Além nos ares, tremulante,

Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol de demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
A tudo em roda desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...

Em “Plenilúnio”, Raimundo Correia cria uma imagem impressionista da lua, já vista no próprio título. Utiliza-se de descrições vagas e subjetivas, como “balão aceso” (5º verso), “golfão de cismas” (9º verso), “sol da demência” (10º verso). No poema, o poeta vai se expondo à lua, da qual fala no texto, e sua luz fria, e á medida que, vai se expondo, essa mesma luz começa a enlouquecê-lo, até o momento em que os dois se encontram em um só.
É interessante perceber que “Plenilúnio” pode ser dividido em duas partes. A primeira abarca as quatro estrofes iniciais, em que o poeta esboça uma paisagem impressionista em que a lua é o tema principal. Nesse primeiro momento, o foco é a pintura de um quadro, a descrição de uma cena, e a maioria dos versos constitui-se de frases nominais, sendo a ação praticamente excluída dessas estrofes, que se apresentam como um grande painel estático e descritivo, embora a descrição não se faça objetiva e clara como era costume na estética parnasiana.
A segunda parte, por sua vez, inicia-se na quinta estrofe e vai até a décima segunda. Aqui, todas as frases são verbais, constituindo-se essas orações de verbos de ação, que imprimem maior movimento ao poema. Essa nova dinâmica, unida à subjetividade, acompanha o progressivo enlouquecimento do poeta, que se deixa embriagar pelos raios e pela luz do luar. O estado de embriaguez e de perda de consciência é refletido pela estrutura aparente do poema. O ritmo é criado por versos eneassílabos. Outro aspecto importante é a pontuação, pois dos cinquenta e quatro versos, oito terminam em exclamação e outros oito em reticências, e isso reflete as grandes oscilações emocionais promovidas por um estado de loucura e embriaguez e a falta de conclusão de um raciocínio objetivo. Sobretudo as reticências mantêm o caráter vago das imagens do poema.
A outra figura largamente utilizada por Raimundo Correia e por outros parnasianos é a sinestesia. A embriaguez promovida pelos banhos de lua que o poeta se dá mobiliza todos os seus sentidos e faz com que eles misturem as sensações percebidas pelo sujeito. À visão, que seria o primeiro sentido mobilizado pelo ato de contemplar a lua, une-se o paladar na terceira estrofe, em que alguns indivíduos bebem a refulgência do luar.
Na estrofe seguinte há uma mistura da visão com a audição: os alucinados que se deixam ir no fluxo da lua ouvem cantos de sereia. A quinta e a oitava estrofes ficam por conta de mobilizar o tato. Finalmente, na nona estrofe, há uma participação do olfato nas sensações provocadas pelo plenilúnio.

Um comentário:

Profª Lourdes disse...

Olá Valéria, pesquisando sobre o Soneto As Pombas de Raimundo Correia, encontrei seu blog. Adorei, perfeito. já estou seguindo, com um comunicado, postei no meu blog parte do seu texto que está escrito com muita perfeição. coloquei os créditos, caso lhe desagrade, deixe no comentário, que retirarei.
espero sua visita e se gostar do meu blog, será um prazer te ver lá. Abaços, fica na paz de Deus. Sucesso, Parabéns!!
Prof Lourdes Duarte.