terça-feira, 20 de setembro de 2011

LISBELA E O PRISIONEIRO (2003): HISTÓRICO E ANÁLISE CRÍTICA

Dirigido por Guel Arraes

Roteiro de Guel Arraes, Jorge Furtado e Pedro Cardoso
Com Débora Falabella, Selton Mello, Virgínia Cavendish, Marco Nanini, Bruno Garcia, André Mattos e Tadeu Mello

“O filme marca, segundo Arraes, o início do “CPB” (Cinema Popular Brasileiro), que ele diz se tratar de um novo ciclo dentro da história do cinema nacional.”

I - HISTÓRICO:

Em 1960, o escritor pernambucano Osman Lins, escreveu “Lisbela e o prisioneiro” para o teatro. A peça foi encenada pela primeira vez em 1961, no Rio de Janeiro. Em 1964 foi publicada em livro por Osman Lins e reeditada pela Editora Planeta. Quarenta anos depois, a história que fascinou o público e entreteve os leitores, atingiu sucesso no cinema com o diretor, Guel Arraes.
Guel Arraes, parte especialmente do núcleo mais criativo da TV Globo, desenvolvendo uma linguagem narrativa própria das telinhas tupiniquins. Arraes dirigiu a TV Pirata, Armação Ilimitada e a novela “Guerra dos Sexos”, além de produções televisivas adaptadas para o cinema (“O Auto da Compadecida” e “Caramuru”) e em seguida dirigiu esta fábula nordestina.
O roteiro leva a assinatura da figura carismática e experiente de Arraes, com o talento do cineasta gaúcho, Jorge Furtado (“O homem que copiava”) mestre em construir roteiros com interação com o espectador e histórias fragmentadas, entrecortadas e sobrepostas, que se unem convincentemente e forma um todo muito divertido e, Pedro Cardoso, fechando o roteiro democrático de “Lisbela e o Prisioneiro”.
Guel Arraes já havia trabalhado o texto em uma adaptação televisiva para um especial em 1993, no entanto, em “Lisbela e o Prisioneiro” foi o seu primeiro trabalho diretamente voltado para o cinema.
Quando dirigiu a primeira adaptação do texto para a televisão, Guel já tinha quinze anos de experiência profissional e nunca havia trabalhado numa história nordestina, apesar de ser pernambucano.
O filme “Lisbela e o Prisioneiro” é um marco porque o remeteu novamente às suas origens, como ele próprio afirma: “Trabalhar com a prosódia, o humor e temas nordestinos teve para mim um gosto particular. E o especial de TV baseado em Osman Lins me deu coragem e estímulo para filmar o “Auto da Compadecida”, adaptado da obra de Ariano Suassuna. Costumo dizer que, com esses dois trabalhos, virei pernambucano de novo.”
As cem páginas da obra de Osman Lins visavam o equilíbrio do regionalismo e da tradição oral nordestina, desde o sotaque até os ditados populares; e Guel não eliminou esse equilíbrio, mesmo com a condensação das situações da peça em um número menor de personagens, explorando a riqueza dos diálogos e mantendo as melhores falas do texto, dando matéria-prima às boas atuações das personagens.
O ritmo frenético inundado de cortes segue a tendência do diretor, acostumado com o sistema televisivo, em que é preciso do máximo, prender a atenção.
O filme chegou aos cinemas com aparência “blockbuster” norte-americana, com testes de audiência, assessoria de imprensa, trilha sonora bem elaborada e lançada em CD, e, inflexíveis datas de estréias.
“Lisbela e o Prisioneiro” custou R$4,5 mi, o que deve ser muito pouco para os produtores de Hollywood, porém para um filme nacional era um montante considerável e Paula Lavigne e Virgínia Cavendish, capricharam no cenário dando um charme todo especial ao que é chamado pelos realizadores de pop.
A intenção de Arraes com o filme era desenvolver um projeto que chamou por Cinema Popular Brasileiro. A denominação engloba projetos que tenham apelo a diversas camadas sociais do Brasil, país que tem verdadeira paixão pela televisão e pelas novelas. Contudo, o diretor não acredita que o CPB deva seguir fórmulas de sucesso - algo comumente empregado em produções de Hollywood -, mas sim, apresentar um produto final popular, que deve instigar o público e ser cultural. Divertir não significa adormecer, comentou Arraes, que também acredita que o CPB é necessário para que possam surgir projetos mais criativos e autorais.
Ele comentou também que a adaptação do romance de Osman Lins para o cinema teve cerca de 30% do livro mantido no filme. O restante são ideias novas ou situações testadas na peça de teatro “Lisbela e o prisioneiro”, enorme sucesso nos palcos e verdadeira paixão em Pernambuco, ou no especial de televisão produzido em 1993, para a TV Globo. Ao adaptar, você acaba escolhendo aquilo que se adequa melhor ao seu universo, disse. Bastante atenção também foi dada a um teste de audiência, a primeira pesquisa de público realizada para um filme no Brasil. A prática é utilizada pelos grandes mercados cinematográficos para verificar a aceitação do produto em diversas classes. Entretanto, lá fora, tais pesquisas freqüentemente prejudicam as produções, massificando-as. No entanto, Guel Arraes deixou claro que no caso de “Lisbela e o prisioneiro”, os testes serviram apenas para tirar dúvidas de determinadas cenas - incluindo a inicial, espécie de editorial do filme - e que a edição da fita não foi determinada pelo resultado da pesquisa. Mesmo assim, o teste orientou a campanha e os trailers e foi uma experiência bacana para o cinema nacional, comentou a produtora Paula Lavigne. A aceitação do filme pelos espectadores foi de 80%.
É evidente que boa parte do êxito do filme está ligado à marca Globo Filmes, mas o filme conquista pelos mesmos motivos que o texto de Osman Lins foram tão bem recebidos pelos leitores.

II -TÉCNICA E MONTAGEM:

“O filme vai ficar um tom mais baixo do que a peça, menos farsesco – contou Guel. O triângulo amoroso entre Inaura, Leléu e Lisbela cresceu. E os encontros de Inaura e Frederico Fernando estão mais melodramáticos.”

Quanto ao cenário, as quinquilharias de plástico colorido compõem o visual. No set de filmagem no Largo de Santa Cruz, centro de Recife, onde a maioria das externas do filme foi feita, vê-se que a direção de arte de Cláudio do Amaral Peixoto segue à risca a orientação de Guel. Lojas cenográficas vendem todo tipo de quinquilharia colorida. As araras com roupas de cores berrantes completam o visual Nordeste pop sugerido pelo diretor, inspirado nas suas incursões ao Mercado de São José, na capital pernambucana.

“- É uma mistura de artesanato e indústria típica do universo nordestino suburbano que se vê em Pernambuco, em Madureira ou na periferia de São Paulo” – disse Guel, referindo-se às flores e às inúmeras vasilhas de plásticos nos seus cenários.

Guel sempre bem-humorado dá instruções ao elenco e evita repetir cenas, afirmando que “sou considerado lento na televisão. No cinema sou rápido”, fato importante para as produtoras do filme, Paula Lavigne e Virgínia Cavendish, onde num filme nacional o orçamento é bem limitado.
O elenco do filme foi extraído dos atores que encenaram a peça de teatro homônima. Assim, o fato de ser uma peça, adaptada para TV e depois para um longa-metragem, fez com que os atores ficassem profundamente entrosados com seus papéis. Alguns foram remanejados de papéis, como a entrada de Débora e o papel de Leléu para o Douglas.
Bruno Garcia era o nome mais gritado pelos fãs durante a filmagem:

“- Muitas pessoas sabem que eu sou daqui e tenho um certo orgulho disso – contou Bruno, apontando as mudanças do novo personagem na versão para o cinema. Na peça, o Douglas era mais manipulável. Agora ele é uma ameaça real para Leléu.”

A trilha sonora de João Falcão e do músico André Moraes não poderia ser melhor, trazendo canções que misturam modernidade e o clássico em sincronia com o tema e seus personagens.
João Falcão trabalhou ao lado de Arraes, havendo uma experiência interessantíssima de direção conjunta em cada uma das canções escolhidas.
Segundo eles, a ideia era fugir das sonoridades convencionais ou dos regionalismos. Para tanto, buscaram músicas com a cara de cada uma das personagens. E o resultado foi uma miscelânea!
As músicas selecionadas formam o perfeito retrato do brasileiro típico: Caetano Veloso, interpretando a balada dramática e sangrenta “Você não me ensinou a te esquecer”, de Fernando Mendes; Elza Soares no forró como se fosse flamenco em “Espumas ao Vento”; Zé Ramalho com participação do “Sepultura” com seu heavy metal “A Dança das borboletas”, tema do matador, composição sua com parceria de Alceu Valença; Los Hermanos, com “Lisbela” e Lirinha, vocalista do ex-Cordel do Fogo Encantado, que canta “O Amor é filme”, música que encerra a película.
No entanto, a fotografia de Uli Burtin deixou a desejar, não explorou o universo colorido que uma história com tons farsescos como esta, poderia ter.
Esta é a terceira adaptação de “Lisbela e o prisioneiro”, de Guel Arraes (ele havia dirigido um especial para TV e também uma encenação da peça de Osman Lins) e em todas as três, ele optou por modificar a estrutura do original. Toda a peça se desenrola na cadeia da cidade. Tudo o que acontece do lado de fora, o leitor/público fica sabendo pelo “leva-e-traz” dos personagens.
Mas os recursos do cinema permitem ao público assistir ao que se passa fora do xadrez, e, por isso, a trajetória de Lisbela e Leléu se torna mais rica, reproduzindo a estrutura dos filmes de mocinho e bandido. Esses recursos permitem também que a participação de Lisbela seja maior no filme que no texto, em que as peripécias do prisioneiro têm maior espaço.
O enredo trata-se, assim, de uma história com personagens cativantes, interpretações impecáveis, diálogos ágeis, texto inteligente, edição criativa e uma direção de arte bem apurada.

III - PERSONAGENS E LINGUAGEM:

O elenco está impecável. Mesmo as personagens mais caricatas, como o Cabo Citonho, vivido por Tadeu Mello, funciona com todos os seus trejeitos sem forçar a barra para ser engraçado. De modo geral, a escolha foi acertada: Selton Mello tem a mistura certa da doçura com a malandragem; Débora Falabella transborda alegre, pureza e beleza; Bruno Garcia passa do popular ao irritante; Virgínia Cavendish, linda, sensual e provocante; André Mattos extremamente carismático; e Marco Nanini, um perfeito vilão cruel de olhos vermelhos e cabelos crespos, dá o equilíbrio que a história exige.

LISBELA – A personagem Lisbela de Guel Arraes tem a mesma ternura e vivacidade da Lisbela de Osman Lins, mas, para o deleite do público, no cinema ela é mais atuante, mais heroína que mocinha.


Lisbela alegoriza uma mocinha de cabelos e vestido engomados e apaixonada por seriados de Cinema (um formato popular entre as décadas de 10 e 50, quando o sucesso da televisão estava em decadência). No filme, ela comenta as sessões que assiste (ficaria estranho se ela analisasse as cenas só na saída), antecipando, em vários instantes, fatos que estão para ocorrer em sua própria história, o que não deixa de ser divertido.


LELÉU – Compõe o personagem como um sujeito capaz de oscilar entre a confiança e a covardia com a mesma facilidade. È um malandro que pula de cidade em cidade aplicando os mais diversos golpes e namoras todas as garotas bonitas que conseguir.


DOUGLAS – Noivo de Lisbela, playboy do Nordeste e metido a carioca.
 
 
TENENTE GUEDES – É o delegado da cidade: viúvo e pai de Lisbela.


FREDERICO EVANDRO – marido de Inaura e matador de aluguel.



PAULA LAVIGNE – A produtora do filme, faz uma ponta como a Mulher-Gorila.


FILHO DE CAETANO VELOSO E PAULA LAVIGNE – aparece num flashback que mostra a infância de Leléu.


O filme beira o exercício repentista, quase um cinema de cordel.
O regionalismo de “Lisbela e o prisioneiro”, fundado no aproveitamento de incidentes testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na transposição de ditados, expressões populares e dísticos encontrados em pára-choques de caminhões, é transfigurado sob a pena de seu autor. Matéria e linguagem re-elaboradas tecem esta peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura, e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as portas para outros tempos e outros espaços.
Os diálogos são rápidos e exagerados. O único personagem mais calado é o Frederico Evandro, que ironicamente em um dos poucos diálogos que participa sua esposa lhe diz em sotaque nordestino:
“– Tu só qué sabê di conversá”.
Ao longo dos 106 minutos de projeção, é impossível encontrar três segundo nos quais haja silêncio; contendo um número de diálogos mais apropriado para uma peça de teatro, o filme traz personagens que não parecem sequer pensar antes de dizer algo; durantes as conversas, simplesmente não há pausa entre os diálogos, como se as respostas estivessem engatilhadas antes mesmo da formulação das perguntas.

IV – ESPAÇO:

O pernambucano Bruno Vargas, que interpretava Leléu na peça e no filme vive o divertidíssimo Douglas, disse ter ficado bastante contente com a escolha do ambiente. O filme retrata a Zona da Mata e não o sertão sofrido da seca como todo mundo está acostumado. A opção valorizou a estética da produção, caracterizada como um nordeste pop, no qual foram explorados os camelôs, as frases de caminhão, os parques de diversão e os botecos, entre outros ambientes característicos.
O resultado, segundo o diretor, é uma vulgaridade bacana, que não tem a intenção de denegrir estilos, mas sim quebrar preconceitos existentes sobre o “brega” e o “kitsh”.

V - SÍNTESE DO ENREDO:

“A história é uma comédia romântica apimentada com molho regionalista nordestino-pop.”

“O que faz o filme especial não é o que acontece, portanto, mas como acontece e quando acontece”, palavras de Lisbela logo na introdução do filme, durante uma sessão de cinema, ao descrever uma comédia-romântica com pitadas de aventura norte-americana.
Narra á história de Lisbela (Débora Falabella), moça sonhadora, moradora em uma cidadezinha da Zona da Mata, no interior pernambucano. Apesar da história se passar no nordeste brasileiro, os dramas destas personagens, suas aflições e sonhos são universais. Não se trata, portanto, de um filme regionalista, embora se utilize com inteligência dos recursos interessantes que uma história nordestina pode trazer como o colorido das paisagens, o sotaque alegre e algumas tradições regionais.
Para essa romântica mocinha, a vida só acontece nas telinhas do cinema. Naqueles filmes em preto-e-branco, exibidos nas salas de cinema em capítulos semanais, onde os heróis são os atores norte-americanos. Toda semana, Lisbela espera com ansiedade a sequência do mesmo modo que se acompanhasse uma novela.
A graça da edição fica por conta da paixão de Lisbela pelo cinema, misturando assim a história do filme a que assistimos com as histórias dos filmes aos quais Lisbela assiste.
Lisbela sonha com um amor perfeito, idealizado, idílico, eterno, que são retratados nos filmes românticos.
Ela está noiva de Douglas (Bruno Garcia), uma espécie de “playboy” de província, que depois de ter passado um mês no Rio de Janeiro, volta cheio de arrogância, inferioriza seus conterrâneos e apropria-se de um sotaque “carioquês”, para esnobar sua posição.
Douglas é artificial, preocupado com ostentações e aparências: vive a pentear os cabelos e tentar “aproveitar-se” de Lisbela antes do casamento. Acompanha Lisbela no cinema com outras intenções, mas ela insiste em prestar atenção ao filme.
A rotina de Lisbela tomará outro rumo quando conhece Leléu (Selton Mello): “um malandro mambembe que vaga pelas cidades interioranas, inventando personagens, performances, vendendo elixires duvidosos, encenando a peça Paixão de Cristo” e artimanhas para faturar algum dinheiro e; conquistar mocinhas indefesas e mulheres alheias.
Feito marinheiro, Leléu vai destroçando corações e arrumando encrencas. A última foi á conquista da provocante Inaura (Virgínia Cavendish), que para seu azar, é esposa do grande matador de aluguel Frederico Evandro (Marco Nanini).

 
Quase flagrado Leléu na sua cama, Frederico lhe jura vingança e sai à sua captura pelas estradas do Brasil.

Até que os destinos de Frederico, Leléu, Lisbela e Inaura cruzam-se na mesma cidade, onde o pai de Lisbela é o chefe de polícia, o tenente Guedes.
Lisbela e Leléu se apaixonam e é exatamente como ela sempre sonhou e assistia nos filmes, mas, para que possam viver juntos, ele tem que tirá-la daquele mundo de luzes e sombras e levá-la para o mundo real, para longe daquela cidadezinha, para a vida das feiras, das estradas.
A dupla ainda tem que enfrentar os ciúmes de Douglas e Inaura e a fúria sanguinária de Evandro
Lisbela sonha deixar seu passado para trás e se entregar a uma vida itinerante, redescobrindo os clichês perdidos do amor romântico.

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