quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A DIVERSIDADE ARTÍSTICA DO INÍCIO DO SÉCULO XX


I – INTRODUÇÃO:


As primeiras décadas do século XX testemunharam uma série extraordinariamente rápida de movimentos revolucionários na arte e na arquitetura, correndo paralelos a uma dramática evolução na literatura e na música, na ciência e tecnologia, na estrutura política e social do mundo inteiro.
Foi como se os grandes artistas do século XIX tivessem aberto as comportas de um vasto e variado oceano de criatividade e inventiva artísticas, que agressivamente um estilo se sobrepunha ao outro.
Os pintores do século XIX tinham discutido a função de representação da pintura, assim como as convenções que governam as perspectivas espaciais, o modelar de figuras dispostas nesse espaço e até a necessidade de aproximação da aparência normal das coisas.
Agora, os pintores afirmavam a maior liberdade possível, não só afastando-se muito mais ainda das aparências normais de forma e cor, mas rejeitando também a longa tradição segundo a qual os quadros, ao que se supunha, deveriam basear-se em facetas do mundo visível. Por vezes, abandonaram até os materiais usuais de pintura, apagando a clássica demarcação entre pintura e escultura.
Os escultores do final do século XIX tinham debilitado a posição do Classicismo e do Realismo; agora, seus sucessores preparavam-se para desafiar todo o conceito de escultura como arte do tangível e do sólido, relacionada com o mundo de objetos em que vivemos, e investigavam a interação de planos e linhas dentro do espaço em que eles se situam. Passam a inventar formas que embora admitam alguma referência ao mundo visível, são primordialmente independentes dele e auto-suficientes.
Cada novo movimento trazia consigo um exército de imitadores e satélites; cada revolução produzia seu próprio academismo. Os grandes mestres são sempre grandes demais para ficarem contidos nos movimentos a que estão associados, enquanto, para outros, os conceitos rebeldes que iniciam o movimento se convertem, gradualmente, em pesadas convenções.
A história da arte do século XX é toda feita de magníficos e grandiosos saltos para frente e extraordinárias regressões, de notável e límpida visão por parte de um punhado de protagonistas e de incompreensão e, portanto, de desvalorização, por parte de muitos, de brilhantes realizações e gestos vazios, de profunda originalidade e superabundante demagogia. Mas, embora caótica, é uma história de perpétua e infatigável vitalidade.
A arte do século XX decretou a liberdade temática; abandonou a forma (Cubismo) das regras tradicionais e livrou-se da obrigação de representação da exatidão das cores (Fovismo).
Assim, a arte se afastava de qualquer pretensão de retratar a natureza, seguindo na direção da pura abstração, em que dominam a forma, as linhas e as cores.
Na primeira metade do século XX, a maioria dos movimentos artísticos emanava da França. Até a Segunda Guerra Mundial, a Cidade Luz brilhou com toda a intensidade da arte moderna (Fovismo, Cubismo, Surrealismo).
Nos anos 1950, a New York School of Abstract Expressionism destronou a Escola de Paris, onde o pintor de ação Jackson Pollock, segundo Kooning, “mandou nossa ideia de pintura para o inferno”.

II - CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:


Os anos que antecederam a I Guerra Mundial chamados de “anos loucos”, encontraram em Paris o centro cultural da Europa. Tendências artísticas diversificadas de vários países desembocavam na bela capital e irradiavam para o mundo ocidental.

Essas tendências ficaram conhecidas como correntes de vanguardas e entre o período anterior a I Guerra Mundial, durante e até o fim da II Guerra, espalharam-se a ideia de uma renovação artística.
O termo vanguarda vem do francês avant-garde, termo militar que é usado para caracterizar o grupo de soldados que, durante as batalhas, vão à frente das tropas. A partir do século XX esse termo passou a ser usado para designar um grupo de indivíduos que, devido a seus conhecimentos ou por uma tendência natural, exercem o papel de precursor ou pioneiro em um determinado movimento cultural, artístico, científico etc. No campo das artes, esse termo está sempre associado a ruptura, uma vez que, invariavelmente, se opõe ao estilo vigente em uma época.
No final do Século XIX, a História da Arte passava por profundas inovações. A herança Renascentista italiana passa a ser questionada e artistas assistindo as transformações sociais, econômicas, políticas e filosóficas do mundo, além do desenvolvimento dos meios de comunicação, buscam novas expressões artísticas.
A máquina; a eletricidade; o automóvel; a música (o gospel, o jazz, o soul, o fox-trot e o samba que desceu dos morros brasileiros e chegou nos bailes da burguesia); a emancipação feminina; o cinema de Hollywood; o humor de Charles Chaplin; as saias curtas; as maquiagens faciais; o wisky; o tênis; o “crack” da Bolsa de Valores; a Ku-Klux-Kan; a guerra; Hiroshima e Nagasaki....
Esse avanço tecnológico aliado com as crises políticas e com o dualismo do homem dessa época (a euforia versus o medo) gerou uma postura inovadora de se fazer arte: os ismos.
Essa revolução cultural que aparentemente apontava uma ordem pacífica traduzia um espírito revolucionário e inovador do conceito de arte, sem permitir à reflexão sobre suas consequências nas mentes e na cultura.
Suas inovações tecnológicas invadiam o cotidiano num surto inédito, multiplicando-se mais rapidamente do que as pessoas pudessem se adaptar a elas, corroendo os últimos resquícios de um mundo estável e um curso de vida que as novas gerações pudessem modelar pelas antigas.
As novas formas de energia ampliavam o tempo sem parar, na proporção inversa em que encurtavam os espaços. A matéria passava a obedecer cegamente a essas fontes invisíveis de energia e tudo parecia instável, a se mover, até as estruturas de aço maciço da Torre Eiffel subindo os céus, ou as seculares muralhas de Viena desaparecendo da noite para o dia, para dar lugar a novas avenidas cheias de veículos velozes e palácios modernos erguidos num piscar de olhos. É muito sugestivo, nesse sentido, o depoimento de Raymond Loewy:

“Aos quatorze anos, em Paris, onde eu havia nascido, eu já tinha visto o nascimento do telefone, do aeroplano, do automóvel, da eletricidade doméstica, do fonógrafo, do cinema, do rádio, dos elevadores, dos refrigeradores, dos raios X, da radioatividade e, não menos importante, da moderna anestesia”.


Loewy foi muito discreto em sua avaliação, pois, deixou de mencionar: as linhas de montagem; os transatlânticos; as motocicletas; as instalações de gás doméstico; os modernos fogões; os sistemas de aquecimento; a máquina de costura; o aspirador de pó; as máquinas de lavar; as instalações sanitárias; as válvulas hídricas modernas; o concreto armado; os alimentos enlatados; os refrigerantes gaseificados; os sorvetes industrializados; a aspirina; as lâmpadas elétricas; a máquina de escrever; a calculadora; a caixa registradora, o parque de diversões eletrificadas, a roda-gigante e a montanha-russa.

A lista é ainda muito modesta, mas pode servir como referência. Num intervalo menor que o de uma geração, o mundo se transformara completamente. A voracidade dos mercados de consumo dos grandes complexos industriais os forçava a orientarem a sua produção para as grandes massas urbanas, o que também era inédito.
O automóvel, aparecido como extravagância no final do século XIX, tornou-se produto de luxo no começo do século e recebeu suas primeiras versões populares no contexto da Guerra, tornando-se imediatamente uma necessidade.
O problema geral das imaginações era menos o de conceber o novo mundo do que livrar-se do antigo.
A Guerra se encarregaria disso em grande parte. Seu rescaldo, porém, seria o culto da ação coletiva e da violência, que ela decantara em estado puro em suas várias manifestações.

“As modernas formas de comunicação de massas, a fotografia, o cinema e os cartazes reiteravam essa ênfase tecnológica sobre a ação e a velocidade, ressaltando ademais o papel privilegiado concedido nessa nova ordem cultural à imagem, à luz e à visualidade.”

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole – São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20, São Paulo, Companhia das Letras, 1992. p. 162-3


1905 – Einstein anuncia a teoria da relatividade; primeira exibição fovista; Die Brücke é fundada; Stieglietz abre a Galeria 291

1906 – Terremoto abala San Francisco
1907 – Brancusi expõe a primeira escultura abstrata
1908 – Picasso e Braque fundam o Cubismo
1908/13 – Pintores da Ash Can introduzem o Realismo
1910 – Kandisnsky pinta o primeiro quadro abstrato; os futuristas lançam o “Manifesto”
1911 – Formação do Der Blaue Reiter
1913 – Henry Ford desenvolve linha de produção; Armory Show desperta a arte americana.
1914 – Primeira Guerra Mundial declarada
1916 – Início do Dadaísmo
1917 – Lênin lidera Revolução Russa; De Stjil é fundado
1918 – Formação da Bauhaus
Anos 1920 – Muralistas mexicanos ativos
1920 – Mulheres dos Estados Unidos votam; soviéticos abole o Construtivismo
1924 – Hitler escreve “Mein Kampt”; Surrealistas lançam “Manifesto”
1928 – Fleming descobre a penicilina
1929 – Quebra da Bolsa
Anos 1930 – Pintores da American Scene em cena; realistas sociais pintam arte política
1933 – Roosevelt eleito presidente
1936 – Começa a Guerra Civil Espanhola
1939 – Início da televisão comercial
1941 – Estados Unidos entram na Segunda Guerra Mundial
1944 – Primeiro computador digital desenvolvido
1945 – Bomba atômica em Hiroshima
1948 – Mahatma Ghandi asassinato; fundação de Israel
1949 – Fundação da República Popular da China
1950 – Invenção da pílula anticoncepcional; o Expressionismo abstrato é reconhecido
1952 – Harold Rosenberg cunha termo “Action Painting”; Frankenthaler inventa pintura em borrões
1953 – Estrutura do DNA descoberta; Monte Everest escalado
1954 – Corte Suprema proíbe segregação
1955 – Salk descobre vacina contra pólio
1956 – Elvis Presley canta “Rock’n’roll”; Wright contrói Guggenheim
1957 – Soviéticos lançam Sputnik

III – CARACTERÍSTICAS:



A beleza tem que ser convulsiva para deixar de sê-lo”, disse o porta-voz do Surrealismo, André Breton.


Atravessando essa atordoante procissão, um tema permanecia constante: a arte se concentrava menos na realidade visual externa e mais na visão interna.
Como disse Picasso:

“Não o que você vê, mas o que você sabe que está lá”.

Os artistas modernos desafiavam violentamente as convenções, seguindo o conselho de Gaugin, para “quebrar todas as janelas velhas, ainda que cortemos os dedos nos vidros”.
No coração dessa filosofia de rejeição ao passado, chamada Modernismo, havia a busca incessante de uma liberdade radical de expressão. Liberados da necessidade de agradar a um mecenas, os artistas elegiam a imaginação, as preocupações e as experiências individuais como única fonte de arte.

“(...) De um modo geral, todos esses movimentos estavam sob o signo da desorganização do universo artístico de sua época. A diferença é que uns, como o Futurismo e o Dadaísmo, queriam a destruição do passado e a negação total dos valores estéticos presentes: e outros, como o Expressionismo e o Cubismo, viam na destruição a possibilidade de construção de uma nova ordem superior.
No fundo eram, portanto, tendências organizadoras de uma nova estrutura estética e social. É possível ordenar esses movimentos em duas frentes opostas e, ao mesmo tempo, unidas por um princípio comum – o da renovação literária. Se o futurismo e dadaísmo representam a destruição, a fase microscópica da poesia, o expressionismo e o cubismo (...) representam a construção, o lado mágico das coisas, a beleza interior e só percebida na recomposição simbólica a que se reduzem os elementos culturais da humanidade. E é precisamente nessa redução que se opera a grande contribuição poética das vanguardas européias, portanto destruição e construção se apresentam, afinal, como as duas faces de uma mesma realidade: a expressão ordenada ou caótica do universo, seja ele o mundo exterior ou a dimensão psicológica da vida interior. Daí o papel essencial desempenhado pela linguagem. É sobre ela que atuam as primeiras forças destruidoras do Futurismo e as tentativas de pulverização do Dadaísmo cujos ecos atingem a poesia brasileira (...); é sobre ela ainda que atuam as forças mágicas da significação metafórica do Expressionismo, a geometrização dos Cubistas e, num plano realmente superior, o movimento que, através da ciência ou da magia, pode mais rigorosamente sondar a sub- ou a super-realidade da alma humana: o Surrealismo.”

TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis, Vozes, 1992.

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