terça-feira, 27 de setembro de 2011

Antônio Mariano ALBERTO DE OLIVEIRA: VIDA, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DE POEMAS


“Alberto de Oliveira foi dos mestres parnasianos o que mais se deixou prender aos rigores da escola, o que mais se distingue pelo conceito escultural da forma.”


Manuel Bandeira

I – VIDA:

Alberto de Oliveira (Antônio Mariano A. de O.), farmacêutico, professor e poeta, nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em 28 de abril de 1857, e faleceu em Niterói, RJ, em 19 de janeiro de 1937. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras ocupou a Cadeira nº 8, cujo patrono, escolhido pelo ocupante, é Cláudio Manuel da Costa.
Cursou por três anos a faculdade de medicina, onde foi colega de Olavo Bilac. No Rio de Janeiro, foi oficial de gabinete do presidente do Estado e exerceu o cargo de diretor geral da Instrução Pública do Rio de Janeiro. Também foi professor da escola normal e da Escola Dramática e colaborou com diversos jornais.
Ficou famoso a casa onde residia na Engenhoca, em Niterói, com sua esposa, pois foi frequentada, na década de 1880, pelos mais ilustres escritores brasileiros, entre os quais Olavo Bilac, Raul Pompéia, Raimundo Correia, Aluísio e Artur Azevedo, Afonso Celso, Guimarães Passos, Luís Delfino, Filinto de Almeida, Rodrigo Octavio, Lúcio de Mendonça, Pardal Mallet e Valentim Magalhães.
Nessas reuniões, só se conversava sobre arte e literatura. Sucediam-se os recitativos. Eram versos próprios dos presentes ou alheios.
Heredia, Leconte, Coppée, France eram os nomes tutelares, quando o Parnasianismo francês estava no auge.
Em 1924, já em pleno Modernismo e sob o impacto da Semana, é eleito “Príncipe dos Poetas”, no lugar deixado vago por Olavo Bilac (os “príncipes” sempre foram parnasianos).
Embora tenha vivido 80 anos de profundas transformações políticas, econômicas e sociais, além de literárias, Alberto de Oliveira sempre permaneceu fiel ao Parnasianismo e à margem dos acontecimentos históricos.
Durante toda a carreira literária, colaborou também em jornais cariocas: Gazetinha, A Semana, Diário do Rio de Janeiro, Mequetrefe, Combate, Gazeta da Noite, Tribuna de Petrópolis, Revista Brasileira, Correio da Manhã, Revista do Brasil, Revista de Portugal, Revista de Língua Portuguesa.
Era um apaixonado bibliógrafo, e chegou a possuir uma das bibliotecas mais escolhidas e valiosas de clássicos brasileiros e portugueses, que doou à Academia Brasileira de Letras.

II - OBRAS:

Canções românticas (1878);
Meridionais, com introdução de Machado de Assis (1884);
Sonetos e poemas (1885);
Versos e rimas (1895):
Poesias completas, 1ª série (1900);
Poesias, 2ª série (1906);
Poesias, 2 vols. (1912);
Poesias, 3ª série (1913);
Poesias, 4ª série (1928);
Poesias escolhidas (1933);
Póstumas (1944);
Poesia, org. Geir Campos (1959);
Poesias completas de Alberto de Oliveira, org. Marco Aurélio Melo Reis, 3 vols.

III - CARACTERÍSTICAS:

Em seu primeiro livro, “Canções Românticas”, ainda que preso aos cânones românticos, já prenuncia traços parnasianos: contenção emocional, rigor formal e sobriedade no emprego de recursos expressivos.


Os traços da transição, porém, não passaram despercebidos por Machado de Assis, que em um ensaio famoso de 1879 assinala os sintomas de uma nova geração. Foi o próprio Machado que escreveu a introdução do segundo livro de Alberto de Oliveira, “Meridionais”, onde marca o ponto artisticamente mais realizado de sua obra: o forte pendor pelo objetivismo e pelas cenas exteriores, o amor da natureza, o culto da forma, a pintura da paisagem, a linguagem castiça e a versificação rica.

Há, contudo, alguns momentos em que o lirismo amoroso supera o esteticismo descritivo amaneirado e precioso, para aproximar-se dos grandes platônicos da Idade Média (Dante, Petrarca) e dos clássicos portugueses.
Essas qualidades se acentuam nas obras posteriores. Com os “Sonetos e Poemas”, os “Versos e Rimas” e, sobretudo, com as coletâneas das quatro séries de “Poesias”, que se sucederam nos anos de 1900, 1905, 1913 e 1928, é que ele patenteou todo o seu talento de poeta, a sua arte, a sua perfeita mestria. Foi um dos maiores cultores do soneto em língua portuguesa.
Alberto é considerado um dos maiores cultores do soneto na língua portuguesa.
Alberto de Oliveira publicou o último de seus dez livros de poesia, “Poesias Escolhidas”, em 1933 e faleceu em Niterói, aos 80 anos, em 1937.
Além de “Póstumas”, de 1944, outros livros com sua obra reorganizada foram lançados após a sua morte.


Sua temática restringiu-se aos rígidos limites impostos pela Escola: uma poesia descritiva, cujos temas abrangiam desde a natureza até meros objetos, exaltando-lhes a forma (como nos sonetos “Vaso grego”, “Vaso chinês” e “A estátua”). São características de seus poemas a impassibilidade, por vezes esquecida em alguns sonetos de tom mais intimista, o culto da arte pela arte e a exaltação da Antiguidade Clássica. Destaca-se ainda a perfeição formal, a métrica rígida e a linguagem extremamente trabalhada, chegando por vezes ao rebuscamento.

A crítica, usualmente, identifica como linhas temáticas centrais:
• Concepções rigidamente estéticas da mulher, da natureza e dos objetos de arte;
• Sugestões extraídas da História, da Arte e dos mitos gregos e orientais;
• Busca de um sentido moral das coisas, humanizando a natureza, os objetos e universalizando a sua poesia;
• Delicada melancolia resultante da ausência do ser amado e um lirismo amoroso que oscila entre o casto, o erótico e a sublimação da expressão amorosa.

IV - POEMAS ANALISADOS:

ASPIRAÇÃO


Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;

Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;

Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa,
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;

E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;

Ser palmeira, depois de homem ter sido! est’alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;

E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
e estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só

Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais - homem - dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!

E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
- Poeta - bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!

E isto que aqui não digo então dizer: - que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;

E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh’alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!

As árvores, os regatos, a relva, os rios, as palmeiras, as campinas e as matas cheias de vida são imagens constantes, servindo, às vezes, à expressão dos desalentos do poeta que se integra à paisagem, humanizando-a. Os temas da recordação e da saudade dão à poesia de Alberto de Oliveira um caráter eminentemente evocativo.
No primeiro verso “Ser palmeira! Existir num píncaro azulado” vale como verdadeiro “slogan” da poesia de Alberto de Oliveira. Aspirando a ser palmeira, o poeta expressa a tendência ao distanciamento e à altivez, além do desejo de integrar-se à paisagem, fruindo-a intensamente, apoiando-se em refinadas impressões visuais.

VASO CHINÊS


Estranho mimo, aquele vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura -
Quem o sabe? - de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte, em pintá-la! A gente acaso vendo-a
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Alberto de Oliveira, neste poema, opta pela forma fixa de soneto demonstrando o rigor formal, uma de suas maiores preocupações enquanto parnasiano; a precisão das palavras, resultado de um intenso trabalho de adequação à forma e ao conteúdo.
Em relação à métrica, este soneto é decassílabo, ou seja, é constituído de dez sílabas poéticas, representando uma das principais características do Parnasianismo.
No poema em questão, há a predominância de elementos descritivos em vez de narrativos; a descrição rigorosamente objetiva do vaso. O culto aos objetos, como possuidores de virtudes é uma constante do exercício poético parnasiano, refletindo o requintado gosto da burguesia da época.
Este fetichismo aparece na descrição das pinturas que decoram um vaso chinês e a interpretação que o poeta lhes dá: o exotismo (“estranho mimo”, 1º verso; “coração doentio”, 6º verso; “calor sombrio”, 8º verso; “singular figura”, 11º verso; “olhos cortados”, 14º verso); a plasticidade, com seus efeitos poesia-pintura, presente em todo poema; as rimas ricas (“vi-o”, 1º verso / luzidio”, 3º verso ; “vendo-a”, 12º verso / “amêndoa”, 14º verso), impassibilidade (não há sentimentalismo excessivo); precisão vocabular e sua correção gramatical; ênfase no sensorial e suas sinestesias (“tinta ardente”, 8º verso; “calor sombrio”, 8º verso), e mesmo a necessidade e, ao mesmo tempo, certa impossibilidade de expressar algo (“sentia um não sei quê com aquele chim”, 13º verso). As inversões sintáticas (hipérbato), como em “de um perfumado / contador sobre o mármor luzidio”, devem-se ao cultivo do português do século XVIII. Note-se também que em Vaso chinês não há juízos de valor a respeito do cotidiano ou da realidade; Alberto de Oliveira, bem como os demais parnasianos, aliena-se propositadamente para fazer a poesia da arte pela arte, primor da forma.

O MURO

É um velho paredão, todo gretado,
Roto e negro, a que o tempo uma oferenda
Deixou num cacto em flor ensanguentado
E num pouco de musgo em cada fenda.

Serve há muito de encerro a uma vivenda;
Protegê-la e guardá-la é seu cuidado;
Talvez consigo esta missão compreenda,
Sempre em seu posto, firme e alevantado.

Horas mortas, a lua o véu desata,
E em cheio brilha; a solidão se estrela
Toda de um vago cintilar de prata;

E o velho muro, alta a parede nua,
Olha em redor, espreita a sombra, e vela,
Entre os beijos e lágrimas da lua.

Neste poema, Alberto de Oliveira também opta pela construção em forma de soneto, mostrando seus ideais parnasianos e sua intensa preocupação com o aspecto formal da poesia e seu caráter objetivo.
O poeta ao descrever um “Muro”, faz uma seleção de elementos predominantemente descritivos, porém, diferentemente de em “Vaso chinês”, onde o poeta produz versos mais expressivos, com certa sombriedade, como pode-se perceber em “Roto e negro” (2º verso), “(...) em flor ensanguentado” (3º verso), “Horas mortas, a lua o véu desata” (9º verso), “Entre os beijos e lágrimas da lua” (14º verso), produzindo certo exotismo, uma de suas marcas enquanto parnasiano.
Em “O muro”, Alberto de Oliveira constrói uma poesia objetivista em seu conteúdo, fiel ao Parnasianismo, imprimindo a obra de um racionalismo que lhe é característico, porém, o faz a partir da transferência de tônica dos sentimentos vagos, tão presente no Romantismo, para a visão do real, derrubando, assim, a ideia do “poeta completamente impassível”. Além disso, mais uma vez podemos perceber a defesa da “Arte pela arte”, em que o poeta busca, fundamentalmente, a perfeição em sua construção poética, utilizando-se, para isto, de vocabulário culto e preciso, provocando, assim, os efeitos de plasticidade que perpassam toda sua obra.



































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