segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VIAGENS NA MINHA TERRA (1846), ALMEIDA GARRETT


I – INTRODUÇÃO:


A obra fundamenta-se numa viagem realmente efetuada por Garrett em 1843, a convite do político Passos Manuel, morador de Santarém. Divide-se em 49 capítulos: os dez primeiros narram as peripécias da viagem desde Lisboa até aquela cidade, de vapor, a cavalo, de carruagem. De permeio, o narrador vai tecendo comentários e divagações acerca de vários assuntos associados com o que vê e pensa durante o trajeto: a riqueza, o progresso, a literatura, a política, a modéstia, a guerra, o clero, o amor etc. Chegado a Santarém, o escritor ouve do companheiro de viagem a narração dos amores de Joaninha, “a menina dos rouxinóis”, e Carlos, entremeada de reflexões do herói da viagem.
Os jovens enamoram-se, mas Carlos vive dilacerado pelo amor que ainda julga sentir por Georgina, que ficara na Inglaterra. Envolve-se na trama Frei Dinis, que assassinara o marido da amante, tomara hábito e era o verdadeiro pai de Carlos. Com a vinda de Georgina a Santarém, dá-se o reconhecimento e o perdão, mas Joaninha morre. Finalmente, Georgina entra para o convento e torna-se abadessa, na Inglaterra; Carlos “é barão, e vai ser deputado qualquer dia”.

MOISÉS, Massaud. “Literatura portuguesa”, São Paulo: Cultrix. P. 132.

II – FOCO NARRATIVO:

Em “Viagens na minha terra”, Garrett, ao contrário da maioria dos romancistas, não lançou mão de nenhuma máscara, nenhum narrador fingido, para conduzir o livro em seu lugar. Autor, Garrett assume também o papel de narrador. Isto nos ministra informações importantes sobre sua biografia, e dá ao livro um caráter de depoimento e observação histórica. Quando Garrett usa a primeira pessoa, “eu”, espreguiçar-se em considerações cheias de humor, não longe de uma atmosfera de prosa lírica. Quando usa a terceira pessoa, “ele”, e se esquece um pouco de si, passa ao tom mais grave, mais revelador, mais dramático, que ocorre, sobretudo, quando nos conta a história dos amores de Carlos e Joaninha, ou quando fala do cenário da guerra civil em Portugal.


III – CARACTERÍSTICAS:

Segundo os críticos Antonio José Saraiva e Oscar Lopes, “neste livro – misto de diário, literatura de viagens, reportagem e ficção, o escritor português narra a história de um rapaz (Carlos) que se apaixona de um modo sucessivo e intenso por várias mulheres e se sente incapaz de estancar este constante fluir da vida amorosa, de fixar e estabilizar a sua personalidade afetiva. (...) Ninguém – continuam os críticos -, antes de Garrett, na ficção portuguesa, entrara tão sutilmente na análise do que há de convencional, fictício ou autêntico na vida sentimental, na confusão da verdade e da mentira, de vida atual e de sobrevivência que é o todo afetivo de cada indivíduo; e ninguém pôs em termos agudos o problema do desgarrar da personalidade na mudança de tudo, ligando-o, ao mesmo tempo, ao ceticismo superveniente a uma causa generosa que degenera: Carlos descrê de um amor verdadeiro, ao mesmo tempo que descrê da revolução...”

O romance “Viagens na minha terra” foi composto sob a forma de folhetim, bem ao gosto romântico da época. Sua narrativa, apesar de grande base descritiva, dos adjetivos em excesso, é saborosa, envolvente e apresenta temas essencialmente românticos como: natureza ativa e confessional; heroísmo; nacionalismo; lirismo amoroso e morte.
Há em Garrett um observador minucioso de fatos, excluindo-se o tom melodramático tornando-se um antecipador de Eça de Queirós. O autor usa um estilo extremamente vivo, com giros e expressões coloquiais – um estilo que se molda ao pensamento no seu fazer-se, apto a sugerir leves emoções, associações fugidias, estados de devaneio, os meandros duma nova sensibilidade.
Nesse romance, Garrett não está concentrado em narrar uma história, mas, ao contrário, parece estar-se afastando da história, para contá-la, supõe-se, mais tarde. Esta técnica de suspensão da narrativa, em favor de comentários e opiniões variados, sob o ritmo da emoção crítica e da fineza intelectual, denomina-se digressão.
Desse modo, relata assuntos sobre economia, geografia, política, literatura, arquitetura, justiça, filosofia, religião, história ou costumes sociais, sem, no entanto, tirar a unidade do livro. Pois eles convergem para dois tipos de emoção alternantes: a da observação terna e enlevada, e a do ceticismo cultural, tratado geralmente com humor crítico. É com ternura que Garrett se lembra de algumas paisagens de sua terra, das velhas histórias ligadas ao folclore ou que ele nos fala de poetas prediletos, como Homero, Virgílio, Dante, Camões, Goethe e outros. Mas é com pessimismo político que ele vê as últimas gerações de portugueses, envolvidos pela mentalidade lucrativista.

Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crônicas está escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal (...) Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompéia não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo, de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com elas.” (CAP. XXIX)

Neste fragmento observa-se que Garrett deplora a deformação da arquitetura histórica de Portugal e critica a condição cultural portuguesa, incapaz de compreender sua tradição e sua história.
Garrett, que se embriaga com os primores estéticos da antiga arquitetura portuguesa, defende a herança do passado e se revolta contra os novos “barões”, homens que agora representam a mentalidade burguesa e insensível.
É importante ressaltar que Garrett também representa essa cultura burguesa e progressista cujos excessos ele condena. O autor foi liberal, participou da luta pela democracia, gostava do progresso e abraçava os ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), porém como homem moderno, Garrett desejava que Portugal acompanhasse os demais países da Europa e não se furtasse a evolução. Assim, como homem sensível e patriota, demonstra um apego ao passado de sua terra natal, principalmente ao patrimônio artístico e cultural, ameaçado pelo crescimento do capitalismo e da burguesia que acabou transformando os valores patrimoniais.
Outra característica importante do livro está em que o narrador nos conta duas histórias, interligadas pelas circunstâncias e pelo espaço físico. Uma história refere-se a dos amores de Carlos e Joaninha. Outra é a da própria viagem que o narrador faz de Lisboa a Santarém de comboio, com a intenção de conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e assim saudar do alto cume a mais histórica e monumental das vilas de Portugal.
Há que incluir ainda um pano-de-fundo histórico, que é a guerra civil que abalou Portugal, e que dividiu os contendores em realistas e constitucionalistas. Os primeiros, conservadores, queriam a monarquia absoluta. Os segundos, liberais, desejavam uma política nacional pautada pelos ideais da Revolução Francesa, e, com isso, uma monarquia mais branda.

IV – PERSONAGENS:

Personagens Principais: Joaninha e Carlos, protagonistas da história de amor.
Personagens Secundárias: A avó de Joaninha – D. Francisca, Frei Dinis, Georgina, Laura e Júlia.

V – AS TRÊS HISTÓRIAS ENTRELAÇADAS:

“Viagens na Minha Terra” é um livro difícil de enquadrar em gênero literário, pelo hibridismo que apresenta.

O que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros, é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão. Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo e a matéria do meu conto para o seguinte.” (CAP. X)

Garrett narra a partir do décimo capítulo, a história dos amores de Carlos e Joaninha, começados e terminados em Santarém, lugar que o narrador escolheu como destino final de sua viagem. Garrett ficou sabendo desse rumoroso caso de amor através de um companheiro de viagem. Conta, portanto, o que lhe contaram: não é testemunha direta dos acontecimentos. Mas, como alguns dos protagonistas da história ainda vivessem na cidade, Garrett, na volta, ousou entrar em contato com eles. Por outro lado, essa história ocorreu em meio a uma guerra em que irmãos lutavam contra irmãos, guerra que Garrett havia conhecido bem de perto. Cruzam-se, portanto, três histórias: a de Garrett, em sua viagem a Santarém; a de Carlos e Joaninha, e a da guerra civil, que envolveu a todos.
No momento em que Garrett resolve contar suas impressões de viagem, ou seja, quando ele se põe a escrever seu romance, todos estes acontecimentos já tinham terminado, e ele então vai evocá-los pela memória. Mas muitos comentários trazidos à baila pela lembrança são recriados, ampliados pela imaginação e pelo bom gosto do escritor.

A VIAGEM DE GARRETT:

Garrett afirma que há muito tempo sentia desejo de conhecer “as ricas várzeas desse Ribatejo”, coisa que a mexeriquice de um jornal entendeu como viagem política. Partiu em dezessete de julho de 1843. Como o tempo lhe sobra, vai fazendo também uma viagem por dentro de si mesmo, uma viagem a suas recordações, suscitadas por tudo o que está vendo.

Vê-se, portanto, que as “Viagens na minha terra” poderiam ser interpretadas como uma costura do que vai “lá fora” com o que desperta “cá dentro”. O que vai “lá fora”, e é visto com o olhar do corpo, é o panorama que se descortina Tejo acima, as vilas, as pessoas. O que vai “cá dentro”, e é visto com o olhar da memória, constituiria a viagem imaginária de Garrett. E assim, o fato de fumar a bordo lhe lembra o poeta Lord Byron; as pessoas no navio lhe inspiram um comentário sobre os portugueses, e assim a digressão vai tecendo o livro. Em seguida, passa ao argumento de que a marcha da civilização obedece a dois impulsos, o do espiritualismo, calcado em D. Quixote, e o do materialismo, em Sancho Pança. A viagem, assim, vai simbolizando ironicamente a marcha do progresso social.

Somos chegados ao triste desembarcadoiro de Vila Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés. O sol arde como ainda não ardeu este ano.
Um imenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos espera naquele descampado africano. É forçoso optar entre os dois martírios da caleça ou do macho. Do mal o menos...Seja este.” (CAP. II)

Chega depois a Azambuja, onde lhe servem uma horrível limonada. Daí até o vale de Santarém, a viagem se fará no lombo de uma enfezada mulinha. Já no caminho do Cartaxo, uma das povoações mais bonitas de Portugal, o autor pensa em Camões e no defeito de seu poema épico e reflete sobre os males da guerra civil:

Toda guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.”

Envolvido com estas ideias, chega à ponta de Asseca:

Cá estamos num dos mais lindos e deliciosos sítios da terra: o vale de Santarém, pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos. Disto é que não tem Paris, nem França, nem terra alguma do Ocidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.” (CAP. IX)


No vale de Santarém, o autor surpreende uma habitação antiga, com janela larga e baixa. Lá, imagina “um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão – vestido de branco...”, de olhos...pretos? Uma voz – que é a voz de um companheiro de viagem – corrige para “verdes”. Dessa forma que Garrett entrou em contato pela primeira vez com a história da “menina dos rouxinóis”.

A história da “menina dos rouxinóis”, a Joaninha e seu amor por Carlos, é datada por volta de 1832, e o narrador começa a relatar efetivamente no Capítulo II.
No Capítulo III, Garrett faz insinuante observação sobre os frades, mal vistos pela apressada opinião moderna.
No Capítulo XXVII, os viajantes chegam a Santarém, passam pelo convento de S. Francisco, cujo último guardião fora Frei Dinis. Descreve-se a arquitetura do lugar e a chegada a Alcáçova lhe motiva a seguinte observação:

Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos, é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é ao pé mesmo da famosa e histórica igreja de Santa Maria de Alcáçova. Há de custar a achar em tanta confusão. (...) É impossível. A obra tinha sido danificada por constantes reparos e modificações.” (CAPS. XXVII-XXVIII)

Na mesma penúria está o palácio de Afonso Henriques.
O autor lembra a história milagrosa do século VII, a de Santa Iria, raptada e assassinada por um cavaleiro que se hospedara em sua casa. No Capítulo XXXI, novas andanças em Santarém e novas decepções. No capítulo seguinte, o narrador retoma a história de Joaninha. Sua decisão de voltar para Lisboa dá-se no fim do Capítulo XLI. Antes, porém, visita o túmulo de D. Fernando: “Ó nação de bárbaros! Ó maldito povo de iconoclastas que é este!”
É na sua volta, já no Capítulo XLIII, que o narrador se vai encontrar com os protagonistas remanescentes do drama de Carlos e Joaninha e fica sabendo dos desencontros amorosos, que abrange os últimos capítulos do romance.

A GUERRA CIVIL:

Em Portugal, na primeira metade do século XIX, houve constantes lutas entre absolutistas e constitucionalistas, intensificadas depois da morte de D. João VI.

D. Pedro I, filho deste, imperador do Brasil e herdeiro da coroa portuguesa, representando interesses liberais ingleses abdicou ao trono de Portugal em favor de sua filha, D. Maria II, e outorgou a Portugal uma constituição ainda monárquica, mas de caráter liberalizante. É a oportunidade para que voltem ao poder, vários dos constitucionalistas que se haviam exilado em Inglaterra e França, quando do golpe de estado que acabara com a constituição do Porto, de 1822. Garrett, como se sabe, é um deles. Mas o espírito conservador, influenciado pela política de Viena, ainda é muito forte à altura em que D. Pedro I outorga sua carta constitucional. Esse espírito, intolerante e violento, se inspira na figura de D. Miguel, irmão de D. Pedro, a quem D. Pedro confiara o governo e a filha em casamento. Não contente de estar no poder, D. Miguel quer ser o rei de Portugal. Apoiado por suas facções, D. Miguel é aclamado rei em maio de 1828, e promove intensa perseguição a seus inimigos políticos, os democratas, os constitucionalistas, os liberais, enfim, todos os que representavam influência de ideologia francesa ou inglesa. É natural, pois, que muitos destes se exilassem, uma boa parte pela segunda vez. Mas a resistência contra D. Miguel vai crescendo, a partir de seu próprio irmão, que, já em 1832, vai à ilha Terceira reunir-se aos revoltosos.

Iniciou-se então uma guerra civil que duraram quatro anos, e que só terminaria com as batalhas de Almoster (fevereiro 1834) e Asseiceira (maio de 1834). Vencem, finalmente, os constitucionalistas, e Garrett, como vitorioso, terá importantes tarefas de reconstrução cultural e moral de seu país.


A HISTÓRIA DE CARLOS E JOANINHA:

Já sabemos que, quando o imaginário de Garrett começava a desenhar uma moça de olhos pretos, na habitação antiga, foi no ato corrigido pela voz do companheiro de viagem, que lhe disse serem verdes os tais olhos e que lhe passa a contar á história que envolvia a moça e aquela casa.
O caso se passara alguns anos de Garrett chegado lá e o narrador vai passá-lo aos leitores interpoladamente, ou seja, espaçando os episódios através de dezenas de digressões que vai fazendo.
A primeira cena de relevo é a de uma velha cega, trabalhando à porta da casa. A linha se embaraça, e a velha chama Joaninha, sua neta.

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo da gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas do mundo.” (CAP. XII)

Em seguida, insere na narrativa outra personagem: Frei Dinis.
Esse era um homem calado, que visitava a velha todas as sextas-feiras. Das falas entre Dinis e a velha, ficamos sabemos que esta tinha um parente que estava lutando do lado dos constitucionalistas, e que o frade parecia detestar: “mas esse rapaz é maldito, e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno”. O frade é um homem à antiga, um conservador que vê no liberalismo a ruína de Portugal. Chamava-se Dinis de Ataíde, fora militar e homem de cultura, depois, repentinamente, meteu-se no mosteiro de São Francisco, não sem antes doar suas posses à velha. E agora é uma figura sombria, que só abre a boca para fazer a velha chorar.
Esta velha é uma senhora cega D. Francisca Joana, que além de ser a avó de Joaninha, também é avó de Carlos, o rapaz que sumira para ingressar nas tropas liberais.

A neta era Joaninha, filha única de seu único filho varão, e já órfã de pai e mãe (...) O neto, órfão também, nascera póstumo, e custara a vida a sua mãe, filha querida e predileta da velha”.

Carlos partira em 1830 para Inglaterra, depois de discutir com o frade, não só porque divergia dele e o achava prepotente, mas porque via nele alguma coisa terrível, ligada ao passado de sua família. A velha ficara cega de tanto chorar: não só pelo neto, mas pelo mistério familiar que aos leitores ainda não foi apresentado. E agora as perspectivas da guerra mostram que Carlos pode perfeitamente estar de volta, no Porto, fazendo parte do pequeno exército de D. Pedro. O frade finge que não gosta de Carlos. Joaninha põe uma cadeira, o frade, exausto, senta e entrega à moça uma carta de Carlos, vinda pelo cônsul da França. A carta realmente era para Joaninha. Para o velho e a velha, nenhuma palavra.

A RETIRADA DE 11 DE OUTUBRO:

Os constitucionalistas vencem. Os realistas fogem, com morte e desolação por toda parte, tendo apenas como abrigo para feridos a casa do vale:

Joaninha pensava os feridos, velava os enfermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia era tão senhora, tinha tão grave gentileza, um donaire tão nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-na ainda mais.”

Um dia, adormecida no bosque, sob o canto dos rouxinóis, Joaninha desperta sob a presença de um oficial.

É Carlos. Juram amor mútuo, mas Carlos lhe pede para nada contar em casa.

A narrativa dessa história interrompe-se no Capítulo XV e só será retomada no Capítulo XXXII. Começa a batalha final, e Carlos, ferido, é recolhido no mosteiro de São Francisco, dirigido por Frei Dinis. Uma linda mulher, de feições não lusitanas, está a tratar dele, e ele, ainda adormecido, exclama: “Oh Georgina, Georgina, I love you still!”
Georgina era a namorada inglesa de Carlos. Conseguira, com muito esforço, chegar ao front e recolher seu corpo quase morto, com a ajuda de frei Dinis. Georgina pressente que Carlos não mais lhe tem amor. E lhe diz isso claramente, coisa que o herói não aceita.
Georgina, que contara tudo ao frade, do frade ficara sabendo sobre Joaninha.

Admirável beleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor. Não, por Deus! O monstro amava-as a ambas: está tudo dito. E elas, que o sabiam; elas, que o sentiam e que o julgavam digno de mil mortes, elas rivalizavam de cuidados e de ânsia pata o salvarem.” (CAP. XXXV)

Num momento dessa conversa, Georgina lembra a Carlos a bondade e a providência de Frei Dinis, que o salvara. Carlos não resiste:

“ – Oh! Aqui anda ele, bem o vejo, aqui anda o gênio mau da minha família. Maldito sejas tu, frade!”

Frei Dinis, que estava numa alcova ao lado, resolve entrar e responder. Ainda mais que Carlos o acusava agora de ter matado seu pai, cegado sua avó, e ter ainda coberto de infâmia a família inteira.

“ – Padre, padre! E quem assassinou meu pai, quem cegou minha avó, e quem cobriu de infâmia a minha...a toda a minha família?
- Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! Mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! Assim, meu Deus! Às mãos dele, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...(...)
O frade disse enfim com uma voz apenas perceptível de tímida e de fraca:
- Carlos, meu Carlos, perdoa também...oh! Perdoa à memória de tua desgraçada mãe!
O mancebo saltou convulsamente como o cadáver na pilha galvânica. Em pé, hirto, horrível, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
- Demônio! Demônio encarnado em figura de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem inda agora, monstro: só às minhas mãos deves morrer. E hás de!
Lançou-se a um enorme velador de pau-santo que lhe jazia ao pé, maça terrível de Hércules, e bastante a fender crânios de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! De ambas as mãos a levava no ar; e o velho estendeu para ele a cabeça como na ânsia de morrer...Georgina fechou involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia consumar-se...
Dous gritos agudíssimos, dous gritos de desespero e de terror, daqueles que só saem da boca do homem quando suspenso entre a morte e a vida – soaram repentinamente no aposento; uma velha decrépita e meio morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezesseis anos, estava diante de Carlos, e ambas cobriam com seus débeis corpos a frágil e extenuada figura da sua vítima.
- Filho, meu filho! – arrancou a velha, com estertor, do peito, - é teu pai, meu filho. Este homem é teu pai, Carlos.” (CAP. XXXV)

Como se pode observar, nesse capítulo encontra-se o clímax do drama de Carlos e, até certo ponto, de Joaninha. Esse clímax se dá com a revelação de que Frei Dinis é de fato o pai de Carlos. No início, foi revelado que a velha cega era avó de Joaninha por parte masculina: Joaninha nascera do casamento do único filho varão de D. Francisca. E Carlos era neto dela por parte feminina. Quanto a seu pai, Carlos o supunha assassinado pelo frade Dinis. Só não sabia exatamente por quê. E eis que agora tudo se esclarecerá com a revelação, de parte de D. Francisca, e confirmada pelo frade Dinis, de que Carlos era na verdade o filho deste.
Na convulsão em que se achava, ao precipitar-se para matar o frade, e na comoção ainda maior de quem percebe subitamente que ia matar seu próprio pai, Carlos perde os sentidos, depois de lhe ter estourado o ferimento no pescoço. Ao acordar, ouve da boca da avó que sua mãe havia amado aquele homem que lá estava, Dinis. Amores antigos e adulterinos. Com ele concebera um filho. Ao saber dos amores da esposa, seu marido tramou, junto com o cunhado, uma vingança definitiva contra o frade. Ambos o esperaram na escuridão para matá-lo. Saiu-se bem o frade, que, ao defender-se, matou aos dois que o assaltavam, sem saber ainda, por causa da escuridão, a quem tinha matado. Só depois ficou sabendo, e então, amaldiçoou-se. Sua amante, mãe de Carlos, não lhe perdoou esse crime, nem mesmo antes de morrer. E o frade o relatou à avó de Carlos e Joaninha, para mortificar-se mais ainda. A partir daí a velha começou a verter sem parar as lágrimas que a levariam à cegueira. Dado seu crime, e seu engano, o assassino resolve desposar a vida religiosa, mas acompanhando de perto a vida de Joaninha e Carlos, sobretudo deste último, seu filho. Durante todo esse tempo, imaginara ele que Carlos jamais saberia da verdade. Mas, exatamente por não saber, é que Carlos imagina que o frade é que havia matado seu pai, quando na verdade seu pai era o assassino do marido de sua mãe, assassino também de seu tio, pai de Joaninha. A tragédia, portanto, liga aos dois primos. O sofrimento destes, contudo, por uma razão ou por outra, era bem menos agudo que o sofrimento de D. Francisca e do frade. Estes purgavam um remorso intenso, que a religiosidade só fazia piorar.

“ – Ambos se juntaram para me assassinar, e me acometeram atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite, escura e cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida à custa da deles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu senti, quando pegando, um a um, nesses cadáveres para os lançar ao rio, conheci as minhas vítimas...Era inverno, a cheia ia de vale a monte: quando abateu e se acharam os corpos já meios desfeitos, ninguém conheceu a morte de que morreram; passaram por se terem afogado. Ninguém mais soube a verdade senão eu e tua infeliz mãe, a quem o disse para meu castigo; a quem vi morrer de pesar e de remorsos; que expirou nos meus braços chorando por ele, e maldiziendo-me a mim. Não seria bastante castigo, meu filho? Não foi, não. Este burel que há tantos anos me roça no corpo, estes cilícios que no desfazem; os jejuns, as vigílias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua ira não me deixa, a sua cólera vai até a sepultura sobre mim...Se me perseguirá além dela!...(...)
- Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, ó meu Deus!
Tive o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circunstâncias daquela morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sair sangue e água pelos olhos, até que lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por esta derradeira expiação. Deus não o quis. Aqui estou penitente a teus pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu tio...o algoz e a desonra de tua família toda. Faze de mim como for da tua vontade. Sou teu pai...
- Meu pai!...Misericórdia, meu Deus!
- Misericórdia, filho, e perdão para teu pai! (...)
Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no coração, que ou lhe quebrara o sentimento ou lho não deixava expressar. Saiu da cela fazendo sinal que vinha logo: mas esperaram-no em vão...Não tornou.
Daí a três dias, veio uma carta dele, de junto de Évora, onde estava com o exército constitucionalista.” (CAP. XXXVI)

VI - CONCLUSÃO:

Em geral, as tragédias clássicas terminam com uma solução violenta do destino e Garrett tinha muita sensibilidade para o gênero trágico, coisa que mostrou não apenas neste romance, mas também no drama “Frei Luís de Sousa”. Faz parte do decoro de uma peça trágica que seus personagens nunca mais continuem vivendo como tinham vivido. Garrett, portanto, terá de dar a seu enredo uma solução que não pareça banal, exatamente para realçar os efeitos do drama que nos acaba de contar. É preciso que os protagonistas desapareçam, ou mudem completamente de vida.
Carlos deixara uma carta para sua prima Joaninha. É uma carta de despedida definitiva, que lançará também alguma luz sobre a psicologia dessa personagem algo estranha, que devota sincero amor a duas mulheres simultaneamente, e que se afasta do pai tão logo o reconhece. Carlos, enfim, não quis recompor a vida com os seus.
Garrett acena com uma explicação cabível. É que os acontecimentos haviam rompido algo no coração de Carlos. Haviam feito que ele não apenas quisesse esquecê-lo totalmente, mas também quisesse converter sua vida em outra coisa, bem contrária ao que fora até então, por exemplo, tornar-se barão (novamente Garrett utiliza a oposição entre frades, que representam o Portugal antigo, e barões, que o representam o capitalismo moderno e sem escrúpulos).

Homem político, falar muito na Pátria com quem não me importo, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e – quem sabe – talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outra”.

Em sua longa carta à prima, em que procura justificar-se, Carlos faz uma reflexão em torno daquilo que tinha sido seu passado recente, e em nome disso quer obter o perdão da prima. Garrett queria encerrar seu romance a parecer convincente e não deixar falhas na intriga. Se Carlos dissesse que simplesmente não queria mais ver ninguém, já estaria plenamente justificado. Mas não. Carlos vai contar o que lhe ocorreu na Inglaterra, e aí é que as coisas parecem um pouco exageradas, quer em relação aos fatos, quer em relação aos meandros de seu mundo interior.
O herói conta a sua prima que conhecera na Inglaterra três formosas irmãs, a quem se afeiçoara e a quem visitava com frequência: Laura, Júlia e Georgina. E eis que Carlos se apaixona pela primeira. Paixão impossível, porque esta, contra a vontade, já estava prometida a outro. E o consolo de Júlia lhe serviu tanto e foi de tal monta que logo depois ele se apaixona por esta. Júlia, porém, cai doente e logo morre. O desespero de Carlos só poderia consolar-se com a última das irmãs, Georgina, a mesma que enfrenta todas as dificuldades da guerra para rever o amante ferido no campo de batalha. A separação entre Carlos e Georgina se dera quando da necessidade imperiosa que teve ele de partir para Portugal, engrossando as tropas liberais de D. Pedro I.
Durante sua ausência, Carlos não deixava de escrever à nova amada. Mas – dirá depois Georgina – estas cartas eram cada vez mais frias. E de fato, depois de conversar com Frei Dinis, e de saber sobre Joaninha, Georgina tem certeza de que Carlos ama na verdade a própria prima. Carlos chega, enfim, à conclusão de que ele mesmo não passa de um monstro moral, um homem que não consegue amar a apenas uma mulher. Não entende seu próprio defeito, e por isso resolve mudar de vida, para pior, e ausentar-se de vez.
Na volta para Lisboa, Garrett quis entrar em contato mais íntimo com o ambiente em que haviam ocorrido as coisas. Deixou seus companheiros de viagem partir e aproximou-se. Para sua surpresa, encontrou ainda lá o frade e a velha cega. Não mais como eram antes. O frade estava muito velho e abatido. E a velha, disse o frade, estava à morte. Garrett insinuou-se junto ao frade, e conseguiu que este lhe mostrasse a carta que Carlos havia mandado a Joaninha, a mesma em que este se tenta justificar á prima. Garrett leu-a toda. Depois, perguntou por Joaninha e por Georgina.

Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento em Inglaterra”, respondeu o frade.

O narrador se despede, e procura reencontrar seus companheiros de viagem.
A obra “Viagens na minha terra” retrata a conexão entre a vida íntima e a vida pública do herói, entre o seu cansaço sentimental e a sua descrença política. Além de valer-se pela análise da situação política e social do país e pela simbologia que Frei Dinis e Carlos representam: no primeiro é visível o que ainda restava de positivo e negativo do Portugal velho, absolutista; o segundo representa, até certo ponto, o espírito renovador e liberal. No entanto, o fracasso de Carlos é em grande parte o fracasso do país que acabava de sair da guerra civil entre miguelistas e liberais e que dava os primeiros passos duma vivência social e política em moldes modernos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu gostaria de saber, se por ser escrita por um narrador participante esse narrador não é classificado como personagem da história, assim como Joaninha e Carlos. Obrigada!

Anônimo disse...

melhor análise que eu ja li!