sábado, 6 de agosto de 2011

TRINCA DOS TRAÍDOS, IACYR ANDERSON FREITAS: A LÍRICA CONTEMPORÂNEA


I – AUTOR:

IACYR ANDERSON FREITAS nasceu em Patrocínio do Muriaé-MG, em 22 de setembro de 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o poeta obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Teoria da Literatura. Publicou quatorze livros de poesia e três de ensaio literário, tendo recebido diversas premiações no Brasil e no exterior.

Sua obra se encontra bastante divulgada em outras línguas e países (Colômbia, Espanha, Argentina, Estados Unidos, França, Chile, Malta, Itália e Portugal). Além de colaborar intensamente na imprensa brasileira, já publicou poemas e textos críticos em “Sertã” (Espanha), Saudade (Portugal), “Private” (Itália), “Comum Presencia” (Colômbia), “Punto di vista” (Itália), “O comércio do Porto” (Portugal), “Los rollos del mal muerto” (Argentina), “Internacional Poetry Reiew” (USA), “Ricerca research recherche” (Itália), “Fokus” (Malta) e “Rimbaud Revue” (França), entre outros.

II – CARACTERÍSTICAS:

De acordo com Luiz Ruffato:

Do poeta Iacyr Anderson Freitas, sabemos o que aguardar. Uma longa estrada, pavimentada por importantes prêmios nacionais e internacionais, já foi percorrida, e sua obra, que alcança uma dezena e meia de títulos, expõe uma das vozes mais originais e fecundas da lírica contemporânea.
Surpresa, no entanto, é defrontarmo-nos com o ficcionista Iacyr Anderson Freitas, que se mostra por inteiro nesse volume de contos, “Trinca dos traídos”.
Consciente do imenso abismo que separa os gêneros, o autor assume como prosador uma faceta nova, como se outra mão se nos apresentasse para guiar, outra voz se elevasse a clamar contra o absurdo da vida.
O poeta não abandona o ficcionista, mas deixa-o livre para erigir universos próprios, onde a condição humana, matéria-prima de todas as suas preocupações, seja mais uma vez interpelada, agora sob outras formas.
É curioso que, num momento em que apela, uma certa linhagem de prosadores, para a linguagem neonaturalista, quase jornalística, ou até mesmo mimética, pseudo-realista, Iacyr venha se apresentar vestido numa roupagem clássica, em tudo estranha e em tudo próxima.
Uma escolha na qual se percebe sua urgência em transcender o instante e buscar o que realmente interessa, a essência da arte literária.
O autor não esconde a linhagem a que pertence: basta observarmos as epígrafes de cada um dos contos – particularmente os prosadores, Franz Kafka, Osman Lins, Machado de Assis, Albert Camus, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges.
O desconforto do homem, náufrago na inautenticidade, é o tema; a linguagem poética, a tentativa de traduzir esses estados de alma.”

Iacyr constitui um dos principais representantes da lírica brasileira, assumindo um lugar de destaque entre os revoltosos contra o vanguardismo teórico do concretismo e do neoconcretismo. Sem desprezar as conquistas estéticas do passado, o poeta é moderno em seu permanente diálogo com os grandes poetas da língua portuguesa.
Dividido em três partes ou três naipes: oito de copas, oito de ouros e oito de espadas, o livro é composto por vinte e quatro contos, envolvendo relatos confessionais, intimistas e cotidianos, ao mesmo tempo, que, nos remete a uma reflexão introspectiva dos mistérios que soldam a alma humana.
Os vinte quatro capítulos apresentam estrutura bem elaborada, acompanhados de epígrafes de renomados escritores, afastando-se da irreverência de novos experimentalismos estéticos e apoiando-se no preciosismo da arte clássica.
Os contos apresentam uma interdependência entre si, mas são amarrados por um fio condutor que leva o leitor a repensar a condição humana, a inquietação espiritual, conduzindo-o a uma revelação, resultando em muitas vezes a uma dolorosa sensação da fragilidade diante da realidade.

Iacyr é o ficcionista do estranhamento humano, das atmosferas opressivas e enigmáticas, das confissões veladas, dos mistérios que rondam a condição humana”, afirma Lúcio Cardoso.

Da mesma forma, o também crítico Wilson Martins, no caderno Prosa & Verso de O Globo destacou que “O realismo de Iacyr Anderson Freitas não rejeita as regiões turvas da realidade”.

Um dos grandes representantes da lírica brasileira”, segundo a avaliação do escritor Alexei Bueno, Iacyr tem agora a rara oportunidade de ver seu livro de contos figurar numa restrita lista de onze obras obrigatórias para o vestibular de 2007 da FGV-EDESP (...).

De acordo com o programa divulgado recentemente, o livro de Iacyr assume a condição de representante da contemporaneidade literária no Brasil, dentro do rol então elaborado pela FGV:

Buscando na contemporaneidade uma obra que a representasse, elegemos “Trinca dos traídos” pelas peculiaridades estéticas que apresenta e, consequentemente, por sua originalidade literária. Nessa época pós-moderna em que os gêneros tangenciam-se nos limites até mesmo do improvável, esse livro consegue produzir efeitos de sentido graças a procedimentos narrativos inovadores sem que se mostre uma intenção de ser revolucionário. O autor, que antes de ser narrador é poeta (treze livros de poesia) e ensaísta, opta por pequenas tomadas narrativas com essenciais lampejos da existência.”

Em “Trinca dos traídos” há uma proposta de jogo cujas regras terão de ser pensadas e decifradas pelo leitor, pois nada está claro e ostensivo para cada jogada ou cada lance.
“Trinca dos traídos” retrata “pequenas traições” que nos consome diariamente.

III – SÍNTESE DO ENREDO:

OITO DE COPAS

NO DORSO DOS DOMINGOS

Muitas coisas tinham ocorrido até chegarem a esse viver suspenso sobre o vazio do dia seguinte.”

Fernando Namora


O narrador em primeira pessoa e de maneira introspectiva traz à tona um acontecimento marcante de sua infância.


Qual a importância desse fato agora? Nenhuma, eu me dizia. Mas por quê, apesar de todos os esforços, não conseguira jamais me libertar do ocorrido?”

O menino de nove anos de idade estava no alto de uma mangueira de sua velha casa, observando a tarde cair, quando notou que sua mãe e seu tio (o irmão mais novo de seu pai), saíram pela porta dos fundos, cochichando, aparentando afobações e adentraram no quintal.
Nessa época, por uma fatalidade do destino seu pai havia sofrido um acidente e ficado paraplégico, sofrendo as limitações impostas em sua vida, trocando a agitação de seu dia a dia, por uma passividade dependente de uma cadeira de rodas.
As pessoas queridas nunca o abandonaram e revezavam-se a entretê-lo de todas as formas, a fim de que não se sentisse inútil e caísse em depressão.
A mãe preocupada com uma atitude suicida de seu esposo tomou todas as precauções possíveis e imaginárias, escondendo o revólver, os remédios, os inseticidas etc
O seu cunhado na ocasião portava-se totalmente solícito, prestando-lhe toda à dedicação necessária; além de muito atencioso, principalmente com o seu “sobrinho predileto”.
O prestativo tio e sua mãe sem perceberem a presença do menino no alto da mangueira, esconderam-se atrás da folhagem e se beijaram.

Essa era a imagem que ficara para sempre em mim, como um crime: minha mãe e meu tio se beijando.”

O menino perante a cena ficou imóvel, sentindo-se um miserável, sem ter e nem poder ter reação nenhuma. Calou-se, mas nunca mais se esqueceu, principalmente, quando em seguida, ouviu a voz de seu pai. “Aquele rosário de sílabas sem brilho, sempre sem brilho algum, que tomara sua voz após o acidente.”
Dois meses depois, “por coincidência”, no aniversário de seu tio, seu pai suicida-se com um tiro na cabeça.

Por que se matara exatamente naquele dia? Das mil derivações que assombravam o beijo que eu colhera, quanto de fato chegara a seu conhecimento? Como ele conseguira ter a seu alcance, apesar dos esforços da família, um revólver carregado?”

Todas essas indagações fervilhavam na mente do menino e a única certeza que ele tinha era que “Ali os amantes deveriam arder, deveriam arder sem termo e sem perdão, pois tudo para mim estava consumado.”
O menino guardou esse rancor em seu coração e esse ódio foi transformando-o numa pessoa arredia e casmurra.
Outro agravante veio após a morte de seu pai: a questão financeira, que após o acidente havia piorado.
O tio alegando problemas profissionais afastou-se da cidade e o narrador, mudou-se para dedicar-se aos estudos.
Passado algum tempo, ingressou na universidade e alegando falta de tempo, evitava visitar a sua mãe e àquele lugar que lhe marcara com lembranças que tentava esquecer.

Por mera opção, as férias de meu trabalho nunca coincidiam com as férias da universidade e, assim, eu não tinha mesmo como viajar.”

Era como uma vingança. “Minha mãe não me perdoava á ausência (...) eu também não lhe perdoava o ocorrido.”
Tudo se misturava em sua mente: a imagem do beijo; a voz rouca de seu pai; o estrondo do tiro e seu silêncio rancoroso.
Terminado a graduação, fez o mestrado e o doutorado, como quisesse se ocupar e não pensar em sua infância e fugir do enfrentamento do desconforto que trazia em seu coração.

Esse distanciamento tornou-se, com os anos, insuportável. Pesava-me sobremaneira, pois não me seria difícil compreender então o quanto aquela pobre mulher padecera.”

Refletia sobre todos os dissabores que a vida reservara àquela mulher: o acidente de seu marido, a luta contra a depressão dele, as dificuldades financeiras, os afazeres domésticos, as crianças para criar, a necessidade de complementar o orçamento doméstico...

Por fim, em decorrência de tudo isso, a anulação de sua própria existência.”

O menino de nove anos de idade, com certeza, era impossibilitado de perceber as necessidades humanas e através de sua limitação, a única cena marcante era o beijo adúltero e o sofrimento de seu pai.

A esse menino, cegando-o a furto, o horizonte inquisitorial. A condenação a tudo o que o transcendia em sangue e sêmen. A palmatória que escondia, por dentro, trevas duríssimas de ignorância. Por que compreendemos sempre a posteriori? Por que condenamos tanto o que tão-somente nos ultrapassa?”

Perdoar, para ele, no entanto, era uma missão super-humana. Por mais que o narrador tivesse compreendido todo aquele desconforto do passado, ao mesmo tempo, não conseguia aceitá-lo, nem perdoar o erro de sua mãe e seu tio.
Por mais que se esforçasse, tudo parecia falso e dissimulado.

De uma forma avessa e definitiva, essa máscara tomou de mim a face antiga e não havia mais como retroceder: eu estava condenado a ser o homem distante e frio que eu não era.”

Agora, passado tantos anos de distanciamento e de culpas, o narrador encontra-se na sala de sua antiga casa, remoendo o seu passado, tendo o retrato de seu pai à sua frente e, desejando que aquele “casmurro” de hoje, retorne-se àquele menino puro de nove anos que passava horas na mangueira, observando o canto das cigarras e o entardecer.
O narrador olha para sua mãe já envelhecida, solitária e doente e reflete sobre a barreira que ele criou.

Olho-a sem pressa, desfiando o sisal do silêncio que nos cabe. Sua infelicidade talvez me torture, talvez me redima. De quando em quando, uma exclamação fortuita ou, se muito, um comentário sem nexo. Pouco nos falamos, essa é a verdade. E temo que tenha sido assim a vida inteira. Ah, que o destino não nos reserve jamais outra chance no mundo.”

A comida chocha que é servida não traz o tempero insuperável de sua mãe, que parece definhar na cama entre muitas dores, esperando á hora de sua partida.

Ontem a vi discutindo com seus dois irmãos, há muito falecidos. Hoje não parece estar para conversas. Fica me olhando, com uma altivez um tanto descorada, como se eu fosse um estranho. As poucas palavras escapam dos umbrais, na noite, sem resposta.
Falamos para nós mesmos, em confidência. E assim, afastados, nos compreendemos.”

TORNAR-SE ANDARILHO

Com o maior prazer eu faria – por que não? – uma excursão em companhia de absolutamente ninguém. É claro que para as montanhas, onde mais?”

Franz Kafka

Narrado em terceira pessoa, a narrativa apresenta-nos o protagonista: homem casado, pai de três filhos, funcionário público, morador em um apartamento.

Durante uma viagem, o protagonista para em um restaurante da serra e enquanto a família termina de fazer a refeição ele, caminha para a varanda, a fim de tomar uma brisa e observar a paisagem local.
De repente “(...) como um comboio alucinado dentro do seu peito de homem, tão fortemente ecoava. Então, olhou, através do vidro embaçado, a família que ainda não se levantara da mesa. Naquele instante, como num passe de mágica, ele não mais a reconhecia.”
Avaliou o filho perguntador, como se “o próprio ato de viver fosse explicável. Como se fosse possível a algum vivente visitar cada um dos cômodos de sua própria morte”; depois, reparou na filha mais velha, “que tanto se parecia com ele, que tanto a ele se agarrava para tentar compreender o que jamais teria resposta”, depois vislumbrou a imagem de sua avó e em sua filha caçula.
Em seguida, observou sua esposa: “Vulto que se apoiava nele para enfrentar os filhos, para respirar além dos limites do pequeno apartamento em que viviam. Para existir, ostentando a custo uma insuportável dignidade.”
Passou, então, a refletir sobre sua família. Ele fazia parte dela, mas não a escolhera, não a pedira e tão pouco a conhecia, como também, não optara ser o que era. Afastando o seu olhar da vidraça e mirando a paisagem, tomou o seu primeiro passo: a liberdade de escolha e partiu em direção a uma das margens da estrada, seguindo o seu caminho. Aquele que escolhera, deixando para traz o passado que não lhe pertencia. Um passado pré-estabelecido pelas normas de uma sociedade que ele se negava a corresponder. Livrou-se de seus pertences, agora inúteis para a sua nova vida e seguiu uma trilha, afundando-se na mata fechada.

Desceu sem pressa. Sim, agora ele deveria escolher. Esta era a sua mais íntima grandeza. Um pouco antes do primeiro desvio, lembrou-se também de afrouxar os sapatos e jogar fora os papéis que, nos bolsos, como num último esforço, ainda insistiam inutilmente em chamá-lo pelo nome.”

APENAS VOLTAR

L’attesa è lunga, il mio sogno di te non è finito.”

Eugenio Montale

Consumi trinta e três anos de minha vida na estrada, pernoitando aqui e ali, conhecendo todos os tipos de gente, todas as pousadas e pensões familiares das pequenas cidades.”


Outro conto narrado em primeira pessoa, o narrador-personagem através de um retrocesso rápido recorda-se dos sonhos de adolescência, sua maturidade tornando-se um homem responsável e trabalhador e, a sua longa trajetória de trinta e três anos, sendo um caixeiro-viajante.
O protagonista, embora, tivera uma vida difícil, sem paradas e no anonimato; sua motivação consistia em um único plano: regressar à sua terra natal; local onde nasceu, cresceu, estudou e nunca mais retornou.
Na verdade, ele já havia retornado algumas vezes à sua cidade, porém em caráter de férias e essas visitas esporádicas, aguçavam mais ainda seu plano de poder voltar definitivamente para lá.
Assim que se aposentou, concretizou seu tão esperado sonho.

Consegui alugar um sobrado não muito distante da rua em que nasci e cresci. Sobrado amplo, com boa varanda e, de quebra, com um quintal formidável. Decorridos alguns meses, já me encontrava inscrito em todos os carteados da região.”

Um dia voltando de um passeio foi surpreendido por uma forte chuva que o obrigou esconder-se sob a marquise de uma pequena loja de ferragens. Enquanto aguardava o temporal passar, pôs-se a observar a fachada da escola que estudou durante oito anos e que foi a responsável por sua formação de caráter. Notou um velho desenho de um livro aberto com algumas figuras estranhas e uma frase em latim, que nunca havia reparado. Começou a reparar ao seu redor e a cidade lhe parecia desconhecida.

Da chuva vi surgir uma cidade estranha, inimiga.”

Uma grande melancolia tomou conta de seu coração e ele percebeu o quanto estava enganado. Ali não era o seu lugar, mas, sim, um sonho que ele cultivou durante todos esses anos.

Não buscara aqueles espaços, mas o passado que em cada coisa se entranhara. Como se fosse possível compensar a perda desse passado com a proximidade de seus entulhos.”

Concluiu, assim, que “a aventura ainda não terminara. Que era preciso, embora velho, prosseguir. Escavar o limo. Tudo para que eu não passasse o resto de meus dias assim. Desamparado. Procurando.”

O FEL DOS FATOS

O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la.”

Murilo Mendes

ELA

Utilizando-se de um eu lírico feminino, em primeira pessoa, a narradora expõe suas dúvidas sobre um possível adultério ocorrido entre seu marido e sua amiga.

De início não acreditava, mas depois de cultivar várias provas, concluiu que era verdade.

Há sempre um rol de certezas que vamos cultivando, cultivando devagarinho, cozinhando em fogo brando, e que ganha força com as diversas leituras que o mundo vai unhando na alma da gente. Leitura de um gesto, de uma troca tonta de olhares, assim por acaso, na rua ou na igreja. Isso fui colhendo, metódica, com a dor de quem ajunta os cacos de seu vaso preferido. E que não prestará deveras depois de colado.”

A narradora de forma introspectiva e não linear, vai tecendo comentários que corriam pelas redondezas.

Contaram-me da tristeza da outra. Da sua mal parida viuvez. Acredito? Sim e não. Talvez doa mais esse abandono na concubina que na esposa. (...) Posso até desconfiar da tristeza da outra, isso bem que me engrandece, só não acredito inteiramente na existência do caso.”

Em seguida, passa a criticar a passividade do marido da adúltera perante as acusações e chega afirmar que um homem assim merecia uma boa ripada na moleira:

Como pode existir um homem assim, meu Deus? Sei de gente que chegou mesmo a interpelá-lo, com escárnio, acerca do assunto. E ele bem que se fez de desentendido, ostentando com orgulho o seu jeito de tonto.”

Passa, então, a refletir se ele não sofria como ela, a respeito da incerteza da traição.
Alguns comentavam que o marido traído agia dessa forma, pois temia a valentia do amante de sua esposa.

Com fama de brigador, meu marido é um sujeito por demais calado. Calado e sem muitos amigos. De certa forma, esse seu silêncio, que tanto me incomodava, foi crescendo com o tempo.”

Sentindo-se abandonada, a narradora foi tirar satisfações com o marido da obra. Este se comportou indiferente à situação. Respondeu-lhe com um sorriso vago, triste e com um gesto vago nos ombros, sem admitir ou negar qualquer suposição.
A narradora cansada de solidão e da frieza do seu marido, decide traí-lo.

Foi uma vez somente, e ninguém pode imaginar o quanto esse deslize me custou. (...) Isto aconteceu na primeira semana de dezembro. Na semana seguinte, numa manhã de sábado, meu marido saiu para pescar e não voltou mais.”

Sem nenhuma explicação, seu marido partiu sem bagagem, sem deixar pistas, bilhetes, nem despedidas.
O que mais a corrói é que ela nunca teve certeza da traição de seu marido, mas carregará para sempre em seu coração, a culpa por sua traição.

O que me ofende é pensar que, talvez, sob as inexplicáveis malhas do meu desamparo atual, esteja o conhecimento do que fiz. Estejam os olhos de meu marido, aqueles olhos que nunca perdoaram o que quer que seja, queimando feito brasa viva os lençóis da minha infidelidade.”

Passados algum tempo, os boatos surgem e uma vizinha vem contar-lhe que alguém tinha visto seu marido numa cidade próxima, pegando um ônibus.
A esperança reacende no coração da narradora que passa esperá-lo dormindo ao lado da porta da entrada.

Se ele errou com aquela comborça – e este erro tanto me justifica – sejamos, pois, mutuamente perdoados.”

ELE

O conto “Ele” é iniciado de forma abrupta. O narrador, através de comentários “maldosos”, fica sabendo do relacionamento adúltero de sua esposa.

Então sou eu o tonto. Admito. E que os argutos da cidade continuem o milagre da multiplicação. Da multiplicação do meu nome de tonto, por todos os becos e vielas e bares sujos deste bairro.”

Diziam tratar-se de um homem calado, seco de gestos e linguagem, e ostentando a fama de valentão, “todos se sentiam no direito de, sem muitos freios, cobrirem de esterco a minha honra.”
O marido traído seguiu sua esposa, falou-lhe sobre os boatos e ela negou tudo.

“(...) disse-me que faziam isso comigo porque eu não exigia o devido respeito. Porque os outros pensavam que eu fosse um frouxo, um borra-botas.”

Os boatos, no entanto, prosseguiram, e ele resolveu tomar uma providência mais severa. “Talvez um crime. Competia-me desagradá-los, pensei, e não lhes oferecer jamais o que buscavam. De mão beijada, jamais.”

Preparou um plano ardiloso: separou uma corda, um facão e os sacos de aniagem e, levou-os para debaixo de uma ponte desativada. Recolheu umas pedras que serviriam para esconder o material; vigiou o valentão e certificou-se que, aos sábados ele pescava sozinho e curvo na beira daquele rio. Num sábado de dezembro o seguiu.
Tentando aparentar naturalidade e para conseguir um álibi, o narrador fez compras, conversou com algumas pessoas, foi à igreja e depois de “concluída a encenação, parti sem demora para o local.”
Lá, avistou o pescador solitário e calado. Aproximou-se e deferiu o primeiro golpe: “(...) pegando-lhe em cheio na cabeça, parecia ter sido o bastante. Por segurança, desferi outros mais. Peguei então o material escondido sob a ponte. Num local protegido pelas folhagens e arbustos, tratei de retalhar bem o corpo e colocar as suas partes em sacos repletos de pedras. Feito o serviço, aquela densa fusão mineral de carne e osso, usei mais alguns sacos de aniagem para limpar as manchas de sangue. Foi um alívio ver sumir, na água barrenta e funda do melhor ponto do rio, o receio que me torturava. A minha terrível humilhação.”

O narrador trocou de roupa e retornou á sua rotina como nada tivesse acontecido. À noite, choveu forte, cooperando com a limpeza de alguns vestígios restantes.
No entanto, não consegue desvincular-se da imagem surpresa e amedrontada do morto. Aquele ato que o libertara para sempre dos rótulos adquiridos, transportava-o agora, para suas entranhas recônditas de sua infância.

Assustado e só, como sempre estivera em toda a vida. Se antes havia em mim muitas dúvidas acerca da infidelidade de minha mulher, depois do acontecido essas dúvidas não poderiam mais existir. Sumiram de vez naquelas águas turvas. Para justificar o trejeito infantil daquele rosto tomado de sangue e surpresa, subia do meu estômago uma certeza desesperada, última. Eu precisava odiá-lo, com todas as forças.”

O crime, assim, adquirira outra importância: ele provara ao mundo de que era capaz o “perfeito idiota”.
Por muito tempo, investigaram o sumiço desse indivíduo e sem encontrar nenhuma informação, foi taxado como desaparecido. Por muito tempo, diziam que a esposa do desaparecido esperava-o para recebê-lo de braços abertos.
Às vezes, alguém comentava que o vira em algum ônibus ou numa cidade próxima, sozinho ou acompanhado por alguma amante.

E ninguém suspeita que o tonto aqui está sorrindo. Falam ainda que minha mulher anda triste. Talvez ande. Certas tardes a vejo olhando lá para as bandas do rio e o meu coração se contraí. Tenho vontade de lhe dizer que o tal valentão ainda vai voltar, que nenhuma pescaria é para sempre. Afinal, não há mais nada a fazer. Só nos resta mesmo esperar que ele traga bons peixes.”

DE BAR EM BAR

“Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.”

Manuel Bandeira

O que pode fazer um homem solitário, numa noite de sexta-feira, sob um calor de trinta e cinco graus?”


O conto inicia-se com a reflexão de um narrador-personagem sentindo-se aprisionado em seu apartamento, quando a vida acontecia lá fora.
Os livros, o som e a televisão não correspondiam aos seus anseios e a alternativa era buscar na correria noturna, diversão e companhia que o tirassem do seu tédio.
Caminhando pelas ruas em busca de um rosto conhecido, escolhe um bar para relaxar e tomar uma cerveja. Com seu jeito tímido e tendo poucos amigos, a possibilidade de encontrar algum conhecido era limitada. Repara num canto do bar em um “sujeito de aparência estranha e aspecto triste, também sem companhia, estava plantado duas mesas adiante. De minuto em minuto, ele me espiava, tentando em vão disfarçar seu desconforto.”
Terminado a cerveja decide caminhar e por acaso, depara-se com o mesmo sujeito, trocam olhares e seguem. Ainda insistindo encontrar algum divertimento, encontra-se novamente com o sujeito e tem a sensação que não era por acaso, “ele iria me segurar pelo braço. Talvez proferisse algo. Nada ocorreu, no entanto.”
O narrador continua seu passeio, mas opta pela direção seu apartamento.
Se tudo permanecesse do mesmo jeito, sem possibilidade de sucesso à vista, eu estaria próximo de casa.”
Parou numa lanchonete, comeu um lanche e certificou-se que à noite, embora agitada, nada prometia a ele, decide voltar para o seu lar.
Já perto de sua casa, aguardando o sinal abrir, o estranho “se volta para mim: Você também, não é?”
As palavras não saem e com um gesto vago, balança a cabeça.

O sinal se abre e nós ainda nos olhamos, sem mais palavra.”

HOLOCAUSTO

Mas a vida muito tranquila é assim mesmo, uma chatice.”

Rubem Fonseca

Primeiro escolho os alunos da oitava série. Apenas um por sala. Não há ciência alguma nesse processo de seleção, somente uma obscura inclinação pessoal. Em seguida, começa o jogo. (...) Depois lanço meus veredictos: esse carece ser mais trabalhado, está verde demais para o holocausto, aquele ali me serve ou não me serve, etc.”

A narradora-personagem faz uma análise psicológica sobre seu comportamento diante de seu discurso de encerramento do ano letivo, no colégio em que leciona.
O primeiro passo foi buscar nos olhares de alguns alunos a cumplicidade para sua fala.
Em seguida, “provoca-os (...) o prazer que sinto ao humilhá-los, e que eles percebem em meus olhos, como um carinho extinto.”
A professora sempre foi escolhida para seus eventos escolares. “Nada mais natural. Falo apenas o que sinto. Quando disser, por exemplo, que toda educação deve ser posta a serviço de nossa felicidade – e não do mercado de trabalho ou da mera satisfação curricular -, buscarei no auditório de pais e alunos os meus escolhidos. Eles saberão melhor, na carne, a força do que estarei dizendo.”
Em seguida, virão os aplausos e a execução do hino nacional.

LIMIAR

O pai não se enganara, aquele era um momento único, ela cruzava um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos.”

Osman Lins

Neste conto, o narrador relata a trajetória de amadurecimento de seu filho percebida durante uma festa de aniversário infantil. O pai ao chegar à festa, depois de justificar a ausência da esposa e entrosar o filho entre as crianças, senta-se na companhia de seus amigos de trabalho.
Durante a festa, o narrador percebe a mudança de comportamento e de disposição de seu filho. Para não perdê-lo de vista, o pai preocupado, disfarça algumas idas ao banheiro ao jardim.

Ao voltar de uma dessas escapadelas, percebi que a sua alegria inicial se esvaíra de todo, sem nenhum motivo aparente.”

Em um momento, nota-o em uma fila para receber os saquinhos de surpresa, espécie de brindes da festa e pôs-se a observá-lo de longe.
Lembrou-se, então, da conversa da noite anterior: o filho havia questionado se teria que parar de brincar um dia, pois no colégio alguns garotos haviam ridicularizado-o por levar brinquedos no recreio.
Tranquilamente, o pai (narrador) explicou-lhe que esse dia chegaria naturalmente. Acreditando ter encerrado o assunto, o pai não percebera que o problema latejava dentro de seu filho. Mas, enquanto a fila dos brindes caminhava, o pai presenciou a saída de seu filho, com a desculpa de buscar um refrigerante, para não mais voltar ao seu lugar; sem antes, de soltar o elástico que prendia uma máscara de papel.

Doravante não precisaria mais dela. Uma outra, muito mais instigante, acabara de lhe ser confiada.”

TRINCA DOS TRAÍDOS

No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.”

Carlos Drummond de Andrade

Casado há trinta e cinco anos – e muito bem casado, como gostava de repetir para os filhos no almoço de todos os domingos. Quis o destino, no entanto, que outra mulher, trinta anos mais nova, fosse lhe retirando, dia após dia, a ênfase do jargão e do lugar-comum.”


O narrador através da técnica do “flashback” relata suas angústias pós-casamento e o que o levou a ter um relacionamento extraconjugal, após anos felizes que passou fielmente junto à sua esposa.

Agora, aos cinquenta e oito anos de idade: tinha uma amante!”

De início, o caso não passava de uma aventura até que ele se viu apaixonado e sentiu a necessidade de desabafar com alguém de confiança.

Decidiu então colocar o assunto em pratos limpos. Afinal de contas, não seria surpresa alguma. Sua esposa já devia imaginar o que sucedia. Apesar das aparências, desde muito o casamento se acabara.”

Ele estava mais alegre, mais vaidoso, mais jovial; com certeza, sua esposa teria notado essas mudanças.
Era a primeira vez que ele revelava-se totalmente, seus anseios, suas decepções e as torturas que levaram o seu casamento. E, a pessoa de maior confiança para esses assuntos era a amante, então, tomou coragem e desabafou.
Contou-lhe sobre o seu casamento: ela com apenas dezessete anos de idade e cheia de graça e vida; ele, um homem apaixonado e com bons propósitos. A vida parecia-lhe um mar de rosa até a primeira gravidez de sua esposa e o excesso de peso que ela adquiriu e nunca mais conseguiu perder.
Aquela jovem linda e sensual transformou-se numa senhora resignada. Quando faziam sexo, ele tinha que buscar em sua memória a menina de dezessete anos que conheceu e amou, pois àquela com quem estava casado, portava-se como uma morta.
Dessa forma, o relacionamento sexual tornou-se cada vez mais dificultoso e em pouco tempo, acabou-se de vez.
O narrador descortinando sua intimidade relata que se saciava sozinho como antes do casamento entre os azulejos frios do banheiro, e quando terminava, sobravam-lhe somente um vazio e um asco.
A amante trouxera-o novamente ao mundo, sentia-se vivo e, embora, tenha passado muito tempo feliz ao lado de sua esposa, sentia-se no dever de contar-lhe toda a verdade.

Foi através dela (a amante) – de seu modo sempre diverso de ser mulher e criança ao mesmo tempo – que ele acabou se libertando da fixação pelo passado de sua esposa. Através dela calcara novamente os pés no mundo.”

Em um quarto de motel, sentia-se aliviado de confiar-lhe esses segredos íntimos e, esperava dela a cumplicidade, o companheirismo e o apoio.

Chegou a juntar uma pequena série de reticências e pontos de interrogação. E viu a fala da amante recuar na noite que surgia. Ele estava só. O que ela lhe dissera aumentava mais e mais, a cada desesperada tentativa de compreensão, a sua orfandade.”

No entanto, a amante retruca afirmando tratar-se apenas de uma aventura, acrescenta que ele havia levado muito a sério. Ela apenas o via como um pai, seu equilíbrio e o companheiro para todas as horas e, concluiu que seria melhor terminarem “essa aventura” e tornarem-se bons amigos.

Por que tornara-se um pai quando tentara, com todas as forças, ser apenas um homem?
Então percebeu o engano. Ou os enganos. Percebeu que, na verdade, a amante nunca o viu do modo como ele realmente era, assim como, durante todos os anos em comum, ele também não chegou a conhecer de fato a mulher com quem se casara.”

Desolado e arrasado, retornou à sua casa, sentou-se em uma sala escura e quando acreditou estar sozinho no mundo, sentiu a aproximação de sua esposa que parecia entender toda a sua aflição e com o companheirismo que sempre demonstrou ter, ofereceu-lhe uma xícara de café.

Ele levantou a cabeça e voltou a se deparar com o erro. Compreendeu que estavam todos cegos, cegos e condenados, que seria muito difícil, para qualquer vivente, atravessar aquele oceano de esquecimentos e encontrar do lado oposto, o consolo de outras pessoas. Viu que não conseguira apenas trair sua mulher. Não: eram três os traídos. Antes de tudo, enganara a si mesmo. Poderia haver amor diante de tamanho equívoco?
Foi quando, esboçando afinal um leve sorriso, decidiu tomar o café bem forte.”

OITO DE OUROS

GENERAL
Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo.”

Machado de Assis

Um operário é premiado pela quinta vez consecutiva como funcionário modelo. A solenidade contou com um discurso caloroso do diretor-superintendente, entrega do troféu e da “fitinha em torno do pescoço, pedindo-lhe que, doravante, com o intuito de distingui-lo ainda mais, não deixasse de portar, assim bem reluzente em seu uniforme de torneiro mecânico, uma reprodução estilizada, em serigrafia, de todas as cinco medalhas conquistadas.”
A partir daí, passaram a chamá-lo por General. E, o pacato torneiro mecânico, sentia-se um General, como se o condecorado uniforme tivesse grudado em sua pele e tornara-o outra pessoa. Mesmo nos dias de folga, estando à paisana, “via seu reflexo e não se reconhecia. Contemplava mais e mais, e a cada instante o estranhamento crescia. Aos poucos, a imagem refletida ia formando, como num quebra-cabeça, outra pessoa.”
Para evitar a desintegração da sua identidade, decidiu não tirar mais o uniforme, somente dessa forma, sentiria um General.

O SACRIFÍCIO

“São os que matam.

Por encomenda
Ou acerto de contas.
Também educam
No seu carinho.

No seu carinho
Que não tocamos.
O lado quente
Da morte.”

Edimilson de Almeida Pereira


O narrador-personagem descreve o seu estado de embriaguez, enquanto pensa no sacrifício “da mulher que dorme a meu lado. Sem o saber, dorme a sua penúltima noite. Amanhã terá saído desta para melhor.”
Essa mulher trata-se de uma ex-prostituta, “a tirou da vida e que agora, sem perdão, irá lhe tirar a própria.”
O narrador confessa que a companheira é lindíssima, mas, talvez, por acreditar que seus dotes físicos já são suficientes para o erotismo, não desempenha relativamente bem a sua função de extremosa amante.
Quando a conheci, ele usava umas roupas extravagantes, dizia que estudava à noite e já era, garota de programa. Agora é modelo profissional e não mora mais com os pais. É claro que eu banco o apartamento e seguro boa parte das despesas, mas tudo na maior surdina, pois não posso ficar com o rabo preso.”
No dia seguinte, a mulher embarcará e quando retornar trará “o dinheiro prometido”. O narrador irá encontrá-la, almoçaram juntos e durante o caminho do apartamento, “os outros farão o resto por mim”.
Enquanto a observa, lembra-se da promessa novamente esquecida feita à sua filha: acordarem cedo para verem o amanhecer.
Levanta-se e não conseguindo segurar o seu vômito, corre para o banheiro e aceita o sacrifício.

UM VELHO

“Olhamos mais que entendemos.”

Sá de Miranda


Aparentemente tudo corria na normalidade, até que no “arco de uma tarde que deveria ser esquecida, sob a mesma chuva fina de cinquenta anos atrás – percebi a presença de um velho, encostado à porta principal da repartição”.

O fato repetiu-se diariamente por muito tempo: “por volta das três da tarde. E sempre sem nenhum motivo aparente. Amiúde fixava as retinas no balcão de atendimento e media devagar cada objeto, cada pasta, procurando ler ou encontrar alguma coisa perdida.”
Aquela figura estranha causava um mal-estar ao narrador, “um desconsolo, uma orfandade sem par e sem princípio.”
Decidiu que no dia seguinte o procuraria, conversaria com ele e tentaria extrair “dessa conversa algum motivo para o abandono que eu sentia.”
No entanto, o velho nunca mais apareceu, causando certo alívio ao narrador. Até que depois de mais de meio século, novamente deparou-se com o velho.

E esse inesperado encontro fará com que, doravante, eu nunca mais me olhe verdadeiramente no espelho.”

PROBATÓRIO

Chega sempre um instante em que já olhamos demais para uma paisagem, do mesmo modo que é preciso muito tempo para que a vejamos o bastante.”

Albert Camus

Hoje seria difícil descrever minha emoção, o que senti no dia em que fui chamado para assumir as funções de auxiliar de administração na empresa onde agora ocupo o cargo de supervisor de área. (...) O chefe do setor de pessoal levou-me até uma sala ampla, tomada de janelas muito altas. Ali, sem muita cerimônia (...) fez uma breve apresentação dos colegas e me encaminhou até a mesa de trabalho. De acordo com as suas orientações, eu deveria encadernar e numerar os processos, levando a bom termo uma tarefa imprescindível para o funcionamento dos demais setores.”

O narrador-personagem relata sua experiência em seu primeiro emprego. Ele desempenha as suas funções com competência, mas um fato o instigava: o modo como seus colegas de trabalho o tratavam.

Eles me observavam o tempo todo. Raramente me dirigiam a palavra. De uma forma um tanto infantil, também buscavam não dar mostras de que me seguiam por toda a parte.”

Tentando encontrar uma explicação para o tal prosseguimento e nada conseguindo, distanciou-se deles e continuou a executar a sua função com eficiência.

Passaram-se cerca de dois anos e, numa bela manhã, eis que vejo entrar na sala o chefe do setor de pessoal, trazendo a tiracolo um rapaz ainda muito assustado. Fez as apresentações de praxe – o mesmo discurso que embalou também o meu primeiro dia de trabalho na empresa – e arrastou o aprendiz até uma mesa contígua à minha.”

De início, o novo funcionário portava-se timidamente, até que foi adaptando-se e com certa naturalidade, tentou se integrar ao grupo.

Fiquei observando o novato. Via nele todo o meu desajuste de outrora. Então reparei que, de um modo coordenado, extraordinário até, eu tinha deixado de ser o centro das atenções. Os meus companheiros de jornada não olhavam mais para mim. Todos, inclusive eu mesmo, estávamos fixados no novo funcionário. (...) Pertencia a mim, a partir daquele dia, o feito de ser o mais novo integrante da empresa.”

WORKSHOP, OU PONTO DE FUGA

Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica – como andar de costas.”

Manoel de Barros

O narrador faz críticas severas sobre á ida a um workshop. A frieza, a artificialidade e a indiferença dos frequentadores.

É preciso passar ao largo de tudo isso, inclusive do que está sendo falado pelo consultor da corporação, na abertura do encontro, para se concentrar apenas, por exemplo, no ponto luminoso que escapa ao aparelho de reprodução de vídeo.”

Além do artificialismo do ambiente do workshop, os discursos são repetitivos e vazios.

O problema, aliás, é que a palestra é a mesma, sem tirar nem pôr, não mudou nadica em dez anos, sequer as piadinhas se alteraram, o que nos leva a acreditar que, se o mercado fosse sério, esse profissional da repetição já deveria estar na rua, devidamente desempregado.”

Cada um de nós deverá encontrar a maneira mais adequada de ser vendido. (...) Ser comparado á mercadoria, Deus meu, era crime.”

E num lance de memória, você recorda daquele chefe do departamento de contabilidade que demitia os funcionários e que um dia chegou a sua vez. Desempregado teve de transferir os filhos da escola particular para uma pública, cancelou os cursos extras, os planos de saúde etc.

Depois de lutar alguns anos contra as dificuldades financeiras, contra a depressão da mulher e o desconsolo das crianças, nosso Carrasco abandonou o comando da família e saltou da janela do apartamento.”





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