domingo, 14 de agosto de 2011

PRIMEIROS CANTOS (1846), GONÇALVES DIAS: O ABRASILEIRAMENTO DA LITERATURA BRASILEIRA

Embora a obra de Gonçalves Dias inclua teatro, historiografia e tentativa de romance, é como poeta que ele vai realizar a melhor e maior parte de seu trabalho. Já nos “Primeiros Cantos” estão presentes as linhas temáticas que marcam a produção gonçalvina: saudosismo, indianismo e lirismo amoroso. É nessa obra, também que a sensibilidade lírica do poeta, inteiramente sintonizada com a sensibilidade do público da época, encontra na liberdade de formas e no virtuosismo rítmico, a medida exata entre à expressão e a construção. Esse, o motivo do imediato e retumbante sucesso, que o crítico Antônio Cândido resume da seguinte maneira: “...o que era tema – saudade, melancolia, natureza, índio – tornou-se algo novo e fascinante, graças à superioridade da inspiração e dos recursos formais”.


I – AUTOR:

Gonçalves Dias (Antônio G. D.), poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823, e faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864.

Era filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira, mestiça. Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado em 1825 com outra mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no curso de latim, francês e filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838 Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando faleceu seu pai. Com a ajuda da madrasta pode viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da família tornou-se difícil em Caxias, por efeito da Balaiada, e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele prosseguiu nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. Em Coimbra, ligou-se ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo chamou de “medievalistas”. À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843 surge a “Canção do exílio”, um das mais conhecidas poesias da língua portuguesa.
Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1854, fazendo apenas uma rápida viagem ao norte em 1851. Em 46, havia composto o drama “Leonor de Mendonça”, que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 47 saíram os “Primeiros Cantos”, com as “Poesias Americanas”, que mereceram artigo encomiástico de Alexandre Herculano; no ano seguinte, publicou os “Segundos Cantos” e, para vingar-se dos seus gratuitos censores, conforme registram os historiadores, escreveu as “Sextilhas de frei Antão”, em que a intenção aparente de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um “ensaio filológico”, num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua portuguesa até então. Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto Alegre. Em 51, publicou os “Últimos Cantos”, encerrando a fase mais importante de sua poesia.
A melhor parte da lírica dos “Cantos” inspira-se ora da natureza, ora da religião, mas, sobretudo, de seu caráter e temperamento. Sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas. Foram elas atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a grande paixão do poeta ocorreu depois da publicação dos “Últimos Cantos”. Em 1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja mãe não concordou por motivos de sua origem bastarda e mestiça. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de conveniência, origem de grandes desventuras para o poeta, devidas ao gênio da esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida na primeira infância.
Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e pesquisa. Em 56, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 57, o livreiro-editor Brockhaus editou os “Cantos”, os primeiros quatro cantos de “Os Timbiras”, compostos dez anos antes, e o Dicionário da língua tupi. Voltou ao Brasil e, em 1861 e 62, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando estações de cura em várias cidades européias. Em 25 de outubro de 63, embarcou em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de “A noiva de Messina”, de Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains, Allevard e Ems. Em 10 de setembro de 1864, embarcou para o Brasil no Havre no navio Ville de Boulogne, que naufragou, no baixio de Atins, nas costas do Maranhão, tendo o poeta perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.
Todas as suas obras literárias, compreendendo os “Cantos”, as “Sextilhas”, a “Meditação” e as peças de teatro (“Patkul”, “Beatriz Cenci” e “Leonor de Mendonça”), foram escritas até 1854, de maneira que, seguindo Sílvio Romero, se tivesse desaparecido naquele ano, aos 31 anos, “teríamos o nosso Gonçalves Dias completo”.
O período final, em que dominam os pendores eruditos favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreendem o Dicionário da língua tupi, os relatórios científicos, as traduções do alemão, a epopéia “Os Timbiras”, cujos trechos iniciais, que são os melhores, datam do período anterior.

II – CARACTERÍSTICAS DO AUTOR:

Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática “americana”, isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal, marcando assim a nossa independência em relação a Portugal. Ao lado da natureza local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo, tomado como o protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o movimento do “Indianismo”, que conferiu caráter nacional à literatura brasileira.
Os indígenas, com suas lendas e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco, ofereceram-lhe um mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo.

III – OBRAS:

“Primeiros cantos”, poesia (1846); “Leonor de Mendonça”, teatro (1847); “Segundos cantos” e “Sextilhas de Frei Antão”, poesia (1848); “Últimos cantos” (1851); “Cantos”, poesia (1857); “Os Timbiras”, poesia (1857); “Dicionário da língua tupi” (1858); “Obras póstumas, poesia e teatro” (1868-69); “Obras poéticas”, org. de Manuel Bandeira (1944); “Poesias completas e prosa escolhida”, org. de Antonio Houaiss (1959); “Teatro completo” (1979).

IV – “PRIMEIROS CANTOS”:

A obra “Primeiros Cantos” foi recebida com entusiasmo pela crítica e fez grande sucesso junto ao público ledor de poesia. Alexandre Herculano renomado e recatado escritor romântico de Portugal e o imperador D. Pedro II registram rasgados elogios ao livro e tecem palavras de simpatia e incentivo ao poeta maranhense.

"Os primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Santa Cruz, que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um ilustre filho. O autor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escritos ainda pouco amestrado pela experiência: imperfeições de língua, de metrificação, de estilo. Que importa? O tempo apagará essas máculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas páginas deste formoso livro.”

Alexandre Herculano

Gonçalves Dias foi o primeiro poeta autenticamente brasileiro, na sensibilidade e na temática, e das mais altas vozes de nosso lirismo. Embora haja, em “Primeiros Cantos”, alguns poemas episódicos, em que existe uma narrativa, predomina no livro o gênero lírico – um lirismo fácil e espontâneo, perpassando das emoções do poeta. Ao contrário do lirismo racional dos clássicos nascido da inteligência, o de Gonçalves Dias brota do coração e expressa bem o sentimentalismo romântico.
Alguns dos poemas dos “Primeiros Cantos”, porventura os melhores, repunham em nossa poesia o índio nela primeiro introduzido por Basílio da Gama e Santa Rita Durão. No entanto, nos poemas desses poetas não entrava o índio senão como elemento da ação ou de episódios, sem lhes interessar mais do que o pediam o assunto ou as condições do gênero. Nos “Cantos” de Gonçalves Dias, ao contrário, é ele de fato a personagem principal, o herói e a ele vão claramente as simpatias do poeta, transformando-o em uma imagem poética, representativa das tradições brasileiras.
As notas predominantes de sua poesia são o nacionalismo e o indianismo. Sua obra poética apresenta três aspectos: o lírico, o indianista e o clássico.
A sua poesia lírica traduz um amor infeliz e insatisfeito. Sua produção dramática tem fundo histórico e emotividade. Enfim, dada a espontaneidade de seus versos e a sua inspiração natural, tornou-se um dos nossos maiores poetas.

V - ESTILO DA ÉPOCA:

Como se vê no “Prólogo aos Primeiros Cantos”, o próprio Gonçalves Dias, traça o perfil da sua poesia, que é bem a concepção romântica de poetar, na qual se destaca a liberdade formal, a imaginação criadora e valorização do indivíduo, de suas contradições e das emoções particulares e circunstanciais.

Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.
Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas – debaixo de céu diverso – e sob a influência de expressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez – no Doiro e no Tejo – sobre as vagas do Atlântico, e nas florestas virgens da América (...)
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as ideias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano – aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento – o coração com o entendimento – a ideia com a paixão – colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia grande e santa – a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço - ainda vão - para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.”

Rio de Janeiro, julho de 1846.

Como se pode ver, no “Prólogo” de Gonçalves Dias, não só se revela a sua postura em face do fazer poético como também nele sobressaem as principais características do ideário romântico:

• o culto e exaltação da natureza, vista quase sempre como reflexo de Deus;
• a tendência para a solidão, em contato com a natureza, longe da sociedade;
• o derramamento lírico, em que o poeta extravasa as emoções e sentimentos de forma livre e espontânea;
• a necessidade de perpassar a produção poética do sentimento cristão e religioso;
• a metrificação variada e livre, sem o rigor formalista da poesia clássica.

Em “Primeiros Cantos”, obra concebida inteiramente ao gosto do figurino romântico, além desses aspectos alistados, destaca-se ainda como característica do Romantismo:

• o nacionalismo expresso por meio da temática indianista e também do sentimento da pátria;
• a concepção amorosa a partir de sentimentos puros e castos e como paixão avassaladora na linha do “amor e morte”;
• o uso frequente de reticências e interjeições como recurso que expressa bem os estados da alma.

Como se vê, surgido na esteira do liberalismo da Revolução Francesa, o Romantismo faz uma verdade revolução na literatura rompendo com a concepção clássica de fazer poesia e libertando o coração da tirania do reinado da razão.

VI – RECURSOS POÉTICOS:

Na época, a concepção artística do Romantismo ainda não tinha evoluído no verdadeiro sentido da técnica. Entretanto, em Gonçalves Dias, nota-se uma consciência maior. Como vimos, os “Primeiros Cantos” vêm prefaciado pelo autor que se autodetermina a menosprezar "regras de mera convenção", a adotar "todos os ritmos da metrificação portuguesa", usando deles "como me pareceram quadrar com o que eu pretendia exprimir", de tal modo que compreende a Poesia como o casamento do "pensamento" com o "sentimento". Portanto, não se pode negar o alto grau de conscientização artística que existia em Gonçalves Dias.
Destacam-se, em “Primeiros Cantos”, alguns aspectos de métrica e linguagem que configuram bem o estilo de Gonçalves Dias:

1. “Menosprezando regras de mera convenção”, o poeta sempre procura ajustar a métrica, sem a obsessão de rimas ao assunto, numa sintonia perfeita entre forma e conteúdo. Na sua poesia, destaca-se a musicalidade, como se vê, por exemplo, no ritmo leve e saltitante de “Seus olhos”, que se associa bem à ideia de inocência e pureza:

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir.
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.”

Por outro lado, nos “hinos” à natureza, como se vê, por exemplo, em “A tarde” e “O Mar”, usa um verso mais lento caudaloso, o que confere a essas poesias um tom solene e grandioso que combina bem com o caráter reflexivo e o sentimento da divindade que os perpassa, na descrição dos movimentos da natureza magistralmente captados enquanto cores, sons, perfumes, a passagem para a ideia de Deus.

“Oh tarde, oh bela tarde, oh meus amores,
Mãe da meditação, meu doce encanto!
Os rogos da minha alma enfim ouviste,
E grato refrigério vens trazer-lhe
No teu remansear prenhe de enlevos!”



“Ó mar, o teu rugido é um eco incerto
Da criadora voz, de que surgiste:
Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas
As vagas compeliste.”



2. À primeira vista, destaca-se a feição acadêmica de sua linguagem, bem ao gosto lusitano, com construções tipicamente portuguesas, como a colação opossinclítica do pronome átono e inversões sintáticas que lembram os estilos clássicos:

“Enquanto a morte me não rouba a vida”.

“Da morte o passo glorioso afronta”.


3. Outro aspecto que chama a atenção é o uso de palavras de sabor arcaico, que ocorrem com alguma frequência: soidão (solidão); i (aí); al (algo); imigo (inimigo); pego (pélago), mi (mim), frauta (flauta), imo (íntimo), o que se explica, quase sempre, pela necessidade métrica.

“A corda do prazer que ainda inteira
Que virgem de emoção inda conservo.”

4. Com alguma frequência igualmente ocorre a síncope, que é um recurso métrico para reduzir a sílaba, e a ectlipse (fusão de com + a):

“Suspenderei minha harpa dalgum tronco
Em of'renda à fortuna; - ali sozinha,
Tangida pelo sopro só do vento,
Há de mistérios conversar co’a noite.”

5. Constante também, como expressivo recurso estilístico, é a repetição de palavras que reforça a ideia que se quer transmitir:

“Gentil, engraçado infante
Nos teus jogos inconstante,
Que tens tão belo semblante,
Que vives sempre a brincar,
- Dos teus brinquedos te esqueces
À noitinha, - e te entristeces...
Como a bonina, - e adormeces,
Adormeces a sonhar!”


6. Outro aspecto que se destaca na linguagem de Gonçalves Dias é o gosto por imagens expressas por meio de comparação, como nesta passagem de “Quadras da minha vida”:

“Minha alma é como a flor que pende murcha;
É qual profundo abismo; - embala estrelas
Brilham no azul dos céus, embalde a noite
Estende sobre a terra o negro manto:
Não pode a luz chegar ao fundo abismo,
Nem pode a noite enegrecer-lhe a face;
Não pode a luz à flor prestar maior brilho,
Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!”

7. O emprego frequente de epígrafes (citação no início da maioria dos poemas do livro) é outra marca de Gonçalves Dias, embora outros autores também façam uso desse modismo.
Conforme se pode ver, a epígrafe (expressa em francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, latim e também português), além de revelar a espantosa cultura do poeta e suas influências literárias está sempre relacionada com o tema dominante no poema, como introduz “Canção do Exílio”, expressa em alemão e traduzido assim por Manuel Bandeira:

“Conhecer o país onde florescem as laranjeiras?
Ardem na escura fronde os frutos de ouro...
Conhecê-lo? – Para lá quisera eu ir!”

VII - ESTRUTURA:

Os poemas de “Primeiros Cantos” estão reunidos em três partes: “Poesias Americanas”, “Poesias Diversas” e “Hinos”.
A primeira parte da obra, intitulada “Poesias Americanas”, abre-se com a “Canção do Exílio” e, além de outros poemas sem grande significado, reúne quatro cantos fundamentais para a compreensão do indianismo na literatura brasileira e, especialmente, na poesia de Gonçalves Dias:
“O Canto do Guerreiro”; “O Canto do Piaga”; “O Canto do Índio” e “Deprecação”.
As primeiras poesias indianistas têm um enredo muito simples, ritmos bem acentuados e imagens originais.
No “Canto do Guerreiro”, um índio canta orgulhoso, sua força, sua destreza e sua autoridade nas artes da caça, da pesca e da guerra.
No “Canto do Piaga”, o pajé da tribo relata a seus guerreiros a visão que tivera em sua caverna, identificando, profeticamente, os brancos a fantasmas que viriam destruir sua gente.
No “Canto do Índio”, um recurso novo: um prisioneiro canta a desventura de ter visto uma virgem loura, despida, a banhar-se, que desperta sua paixão e o faz aceitar a condição de escravo do branco em troca de seu amor.
Em “Deprecação”, os filhos de Tupã reclamam contra a vingança que esse deus lhes impingiu, deixando-os entregues à violência do branco.
O que se nota nesses poemas, e que está presente também no restante das “Poesias Americanas”, incluídas em “Últimos Cantos”, é que o poeta procura dar uma visão do índio integrado na tribo, nos costumes e, principalmente, adequado a um sentimento de honra tipicamente ocidental, cultuado pelos românticos. Se os europeus podiam encontrar na Idade Média as origens da nacionalidade, o mesmo não acontecia com os brasileiros. Provavelmente por essa razão, a volta ao passado, mesclada ao culto do “bom selvagem”, encontra na figura do indígena o símbolo exato e adequado para a realização da pesquisa lírica e heróica do passado.
O índio, reduzido aos padrões da cavalaria, acaba sendo um recurso estético e ideológico, parente muito próximo do medievismo coimbrão, que ele cultivou principalmente nas “Sextilhas”, embora sua recriação poética dê ideia da redescoberta de uma raça, que estava adormecida pela tradição e que foi revivida pelo poeta.
O idealismo, a etnografia fantasiada, as situações desenvolvidas como episódios da grande gesta heróica e trágica da civilização indígena brasileira, a qual sofre a degradação do branco conquistador e colonizador, têm na sua forma e na sua concepção reflexos da epopéia, da tragédia clássica e dos romances de gesta da Idade Média.

“Ah! Que eu não morra sem provar ao menos
Sequer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meu!”

(Gonçalves Dias)

“Na poesia indianista o poeta soube manejar com habilidade numerosos ritmos, vários tipos de versos e diversas formas de composição. Já no lirismo sentimental conseguiu não apenas descrever com eloquência os encantos da mulher amada, mas também particularizar um modo de ver a natureza em profundidade, tratar os dissabores da vida, dos sofrimentos e da morte, bem como traduzir o gosto e o sentimento da solidão. O aspecto novo deste lirismo não pode ser buscado nos temas, todos eles muito explorados pela tradição literária. O novo está em, ao manter a disciplina clássica do manejo e do domínio da linguagem e ao assimilar as influências dos românticos europeus, poetizar uma visão particular da realidade.
A natureza, presente nos poemas indianistas, na poesia de cunho reflexivo e também na produção lírica, é um exemplo de sensibilidade que difere o estilo gonçalvino do de outros poetas românticos menores. Registro do ambiente, ponto de partida para a reflexão, projeção de sentimentos, recurso imagético e, principalmente, retratação de um mundo visível que leva a imaginação a criar e a refletir a respeito de uma realidade oculta, inacessível aos sentidos, a natureza assume nos versos de Gonçalves Dias um tom poético raramente encontrado no Romantismo brasileiro.
(...) É preciso notar ainda que, modelada nas canções, baladas, hinos, elegias, cantos, sátiras, motes glosados e outras formas exploradas pelo poeta em toda sua obra, a linguagem gonçalvina consegue conferir aos temas românticos um tom bem distante do lamento choroso e exagerado dos poetas conhecidos como ultra-românticos. Comedido no uso de adjetivos, cuidadoso no uso de imagens, disciplinado na busca da expressão exata para a tradução de realidades exteriores e interiores, Gonçalves Dias coloca em xeque a ideia de que os românticos eram movidos unicamente pela inspiração. Seus textos revelam o aproveitamento da disciplina clássica, que ele não chegou a abandonar inteiramente, somada a uma concepção romântica do mundo; dois pólos perfeitamente combinados por um tratamento hábil e personificado da linguagem.
Se alguns leitores insistem em ver nesse maranhense apenas o idealizado de um paraíso cheio de palmeiras, amores frustrados e índios meio-irmãos de Tarzan, é porque não prestaram muita atenção à magia que atravessa o tempo e permanece instalada em alguns de seus poemas.”

Beth Brait, in “Literatura Comentada”

VIII - “POESIAS AMERICANAS”:

Em “Poesias Americanas”, o autor valoriza a terra e o índio locais.

“Canção do Exílio”

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,
Kennst du es wohl? - Dahin, dahin!
Möcht ich... ziehn.

Goethe


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.



Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.



Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;



Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;



Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra - Julho 1843.

“A Canção do Exílio” é o poema que abre o livro “Primeiros Cantos”, e o mais conhecido de nossa literatura. Há dezenas de outras canções do exílio; algumas são recriações da de Gonçalves Dias, outras são paródias satíricas, especialmente modernistas. Dotado de um ritmo envolvente e interiorizando-se fundo no imaginário popular brasileiro, o poema inaugurou um modo particular de representação da natureza tropical, contribuindo decisivamente para transformá-la numa espécie de metáfora nacional.
O poema pode ser visto como elemento essencial no processo de idealização da imagem do nosso país, de tal modo que Machado de Assis, ao discursar na inauguração do busto de Gonçalves Dias no Rio de Janeiro, em junho de 1901, não teve dúvidas ao afirmar que a “Canção está em todos nós”.
A epígrafe retirada do romance de formação, “Os anos de aprendizagem de Wilhem Meister, de Goethe, acomoda-se perfeitamente ao espírito de “Canção do Exílio”. Ao escolher o fragmento da “Balada de Mignon” e traduzido por Manuel Bandeira:

“Tu conheces a terra onde as limoeiras florescem? Laranjas douradas brilham no verde-escuro da folhagem? (...) Conheces bem? Nesse lugar eu desejava estar.”

Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo de voltar à Pátria. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo, no final do livro, observa-se a moça agonizando e o seu médico, vendo a sós com Wilhem, afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “ A natureza estranha dessa boa criança, de quem falamos agora, consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria (...) Predominam, assim, no poema gonçalvino, ou seja, a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal.”
Representante máximo do ufanismo brasileiro, o poema é composto por 24 versos distribuídos ao longo de suas cinco estrofes. Estas, por sua vez, são divididas em três quadras e duas sextilhas com cada verso possuindo sete sílabas poéticas, redondilhas maiores ou heptassílabo, metro ligado à tradição medieval-trovadoresca. Essa preferência talvez se explique pelo fato de que tanto a redondilha quanto a canção tenham as suas raízes na cultura popular e, enquanto, preceito romântico, havia por parte dos autores a preocupação generalizada com o resgate de formas e motivos populares, como elementos da nacionalidade, em oposição aos motivos clássicos.
Em relação ao aspecto rímico da “Canção do Exílio”, pode-se afirmar que este é construído de modo a realçar, através da sucessão obsessiva, a predominância da rima aguda (oxítona) em “a” (Sabiá, lá e cá). É curioso notar que existe uma visível articulação entre elas que provoca, também no nível rímico, uma valorização da terra natal em detrimento do exílio. Como facilmente se constata, as rimas agudas se reduzem a três e comutam de lugar de estrofe para estrofe: na 1ª e na 3ª, Sabiá e lá, na 4ª e na 5ª , as duas anteriores e o cá. Observa-se que duas das rimas – cá e lá – constituem um par antitético clássico e se opõem diretamente nas duas últimas estrofes. Entretanto, o terceiro elemento rímico – Sabiá que é algo particular à terra natal – provoca um desequilíbrio natural na tensão instalada entre as duas anteriores, acentuando sonoramente, no nível rímico, a predominância de elementos ligados à terra natal. Além disso, há nas duas últimas estrofes o aparecimento de uma rima muito sutil, e observada inicialmente por Manuel Bandeira, entre as palavras “primores” e “palmeiras”, com a primeira letra de cada sílaba coincidindo entre si.
A estrutura rítmica da “Canção do Exílio” apresenta, atrás da simplicidade do heptassílabo, alguns diálogos importantes.
Como se sabe, o ritmo clássico da redondilha maior é o ritmo alternante, ou seja, aquele em que os versos se apresentam com acentuações na 1ª, 3º, 5º e 7º sílabas.
Vejam-se estes dois exemplos:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá

Entretanto, no poema de Gonçalves Dias, cinco versos (3, 14, 21, 22 e 23) não tem um comportamento uniforme, ao que parece propositais, na acentuação de alguns versos e, consequentemente, produzindo modificações importantes no andamento melódico do poema e podem ser divididos em dois grupos distintos: o primeiro, formado pelos versos 3, 14 e 22, com acentuação recaindo na 2ª sílaba; e o segundo, formados pelos versos 21 e 23, com a acentuação recaindo na 4ª sílaba.
De acordo com Adélia B. de Menezes, a referência explícita do poeta à terra alheia suscita a construção de um ritmo diferente. Ou seja, ao se aludir diretamente ao exílio, e denotando com isso uma intencionalidade em si, o poeta provoca uma mudança significativa no ritmo da canção.
Inicialmente, a interpretação do poema será feita através da montagem de um esquema comparativo que é possível inferir a partir de características levantadas junto às duas primeiras estrofes e que estabelecem um confronto direto entre um cá menosprezado e um lá altamente valorizado.
Nas três estrofes seguintes, a “Canção” é marcada pela reiteração obsessiva dos termos exclusivos ao lá. A estes, associa-se a solidão, que é assimilada aqui como um meio através do qual o eu-lírico se apóia para reafirmar, a todo instante, a superioridade de sua terra em contraponto ao exílio. Essa reafirmação é embalada por um componente imprescindível da cisma romântica: a saudade, sentimento motriz que reveste o poema de uma dor nostálgica contida e, por isso, mais pungente.
Se, inicialmente, a preocupação era a de identificar e nomear os campos de atributos, agora, esta se desloca no sentido de se ater mais demoradamente na análise de cada um.
No campo de atributos exclusivos existem apenas dois elementos restritos ao lá: palmeira e sabiá. Tanto o primeiro com o segundo aparecem do ponto de vista numérico, quatro vezes no poema, confirmando a também mencionada reiteração obsessiva. Além da igualdade numérica, os dois termos se equivalem somente no plano físico e enquanto elementos exóticos e exclusivos à natureza do lá. Uma vez que o termo Sabiá não se restringe apenas à representação física da ave, ele a transcende. Grafado na “Canção do Exílio” em maiúscula, e por isso colocado, no contexto do poema, no mesmo plano de Deus, o Sabiá transita do espaço físico para o simbólico e vice-versa, de maneira a representar a ave em si, aproximando-se de palmeiras, ora a voz superior da natureza brasileira, imagem simbólica da individuação nacional.
O uso simbólico da figura do Sabiá, por parte de Gonçalves Dias, não era propriamente uma novidade na literatura brasileira. Mas foi com seu poema que a ave ganhou uma significação especial, assumindo, enquanto dado poético, uma posição semelhante à ocupada pelo rouxinol na literatura européia. Entretanto, no caso brasileiro, o sabiá tornou-se marca de brasilidade.
No campo dos atributos comuns instaura-se um esquema comparativo, marcado pela presença do “mais”, entre elementos comuns tanto ao cá quanto ao lá. No entanto, os atributos da terra natal do eu-lírico: estrelas, flores, bosques etc. são apresentados de forma diferenciada, justificada apenas por sua localização espacial. O simples fato de pertencerem ao “lá” lhes dá um caráter aurático que encontra a sua justa representação em primores. Além da própria significação etimológica de primores – o que ocupa o primeiro lugar. Partindo da perspectiva em que os atributos comuns se abrigam sob a sombra sintética de primores, chega-se à articulação derradeira, cujo ponto decisivo consiste no desvendamento da intensa relação que existe entre primores e palmeiras. Há, aí, uma correspondência velada que ofusca a completa idealidade do lá. No limite das significações, ocorre a fusão simbólica entre os dois termos, transformando, dessa feita, os atributos, sintetizados em primores, e que pareciam comuns ao “cá”, em atributos idealizados e exclusivos ao “lá”.
Configurando-se a intensidade que envolve a ligação entre primores e palmeiras, pode-se se reafirmar que, no limite, todos os atributos do lá são não somente exclusivos como também idealizados, remete a “Canção” e a sua celebração do Brasil ao mito do paraíso terrestre.
É importante ressaltar que apesar de poeticamente muito sugestivo (a palmeira simbolizando a imponência e o Sabiá, a graça), o verso é ecologicamente falso. Ocorre que o sabiá, que tem por habitat a palmeira (sabiapioca), não canta. Vale lembrar que os românticos não tinham compromisso com a verdade, mas com a imaginação, com a fantasia.
A imagem da natureza edênica ganha com o poema uma significação maior na medida em que o poeta lança mão da sua condição de exilado para melhor conhecer o país. O distanciamento da terra permite ao poeta se colocar num lugar privilegiado que facilita a escolha de parâmetros de comparação, já que este pode, para melhor representá-la, lançar de fora, um olhar idealizado sobre sua terra natal. É constante a atitude panteísta, de contemplação da natureza como manifestação de Deus. A natureza é também refúgio e confidente do poeta, nos momentos de saudade, solidão e desalento.
“Canção do exílio” ao também se apoiar em sentimentos universais como a dor do exílio, não somente se tornou um referencial paradigmático de louvor à brasilidade através da perpetuação da imagem da natureza edênica, mas, sobretudo, fundou por si uma tradição na literatura brasileira que, ainda hoje, encontra ecos.

Em sequência, encontram-se quatro poemas que destacam a temática indianista: “O canto do guerreiro”, em que se exaltam as qualidades do índio; “O canto do Piaga” e “Deprecação”, nos quais paira sobre as tribos a ameaça do invasor branco, que chegava, como agente de Anhangá (deus do mal), para dizimá-los em busca de riquezas; e “O canto do índio”, em que um guerreiro aprisionado se deixa cativar por uma virgem loura:

“O Canto do Guerreiro”


I



"Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estime a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros.
— Ouvi meu cantar.



II



Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há, como eu sou?



III



Quem guia nos ares
A flecha implumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada,
Onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meu cantar.



IV



Quem tanto imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como dou?
— Guerreiros, ouvi-me.
— Quem há, como eu sou?



V



Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
— Quem há mais valente,
— Mais destro do que eu?



VI



Se as matas estrujo
Co’ os sons do Boré.
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?



VII



Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar
São eles — guerreiros,
Que faço avançar.



VIII



E ao Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram
Mil homens são lá.



IX



E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré,
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?"

"O Canto do Guerreiro", primeiro poema indianista de “Primeiros Cantos”, é composto por nove estrofes, com métrica regular de cinco sílabas, redondilhas menores. A narração é conduzida pelo índio, cujos versos afirmam uma concepção de valor da condição indígena que irá distinguir o traço determinante da personalidade desses povos e se constituir em marca de toda a representação do índio na poesia de Gonçalves Dias: a dignidade da condição de homem livre, que só se desfaz com a destruição e a morte:
O índio se deixa enganar, mas não escravizar, resiste. Sua resposta à tentativa de escravização é a luta, ainda que esta lhe custe á destruição e a morte. A luta é condição maior, fator de dignidade e justificativa da existência da nação indígena. Portanto, a vida é uma epopéia constante, na qual só há lugar para os fortes, única condição de sobrevivência das nações indígenas. O uso da forma épica, adaptada às novas condições, revela a grande preocupação de Gonçalves Dias: não deixar que se percam no esquecimento as grandes tradições dos nossos índios, as raízes nativas da pátria. O objetivo central da epopéia é perpetuar na memória das gerações futuras a imagem do passado heróico nacional, no qual (como nos mostra Mikhail Bakhtin) estão os ancestrais, os pais, os fundadores, os primeiros, os melhores. E, isto só é possível, por meio da atualização daquelas imagens elevadas na memória do presente, e como tais imagens se construíram na vida-combate, na luta, impõe-se enaltecê-la, pois o combate só exalta os bravos, expandindo sua imagem e perpetuando-a na memória das gerações futuras.
Eis a estratégia do poeta: perpetuar na lembrança da nação, na voz do porvir, aqueles feitos que, elevados, têm qualidade épica, porque corresponde a continuidade do código de valores dos ancestrais e fundadores de uma nação.

“O canto do Piaga”



I


Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite — era a lua já morta —
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vi!
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro — ossos, carnes — tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

II

Porque dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Porque dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem – vergar-se a gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?!

Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!

III

Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.

Traz embira dos cimos pendente
– Brenha espessa de vário cipó –
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; e só!

Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando – lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... – o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade —
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupã!

Gonçalves Dias foi muito influenciado, assim como grande parte dos escritores românticos, pelas ideias de Montaigne e daqueles que as desenvolveram, como Rousseau, Chateaubriand (na França) e Fenimore Cooper, nos Estados Unidos.
“O canto do Piaga” exalta o índio heróico, virtuoso, morador de um paraíso que seria destruído pelos invasores europeus.
O protagonista do poema, o Piaga - que quer dizer pajé - é representado nesse poema como herói incompreendido, que prega resistência e luta contra os europeus invasores, já que pressente a dominação que virá. Na fala do Piaga o homem branco é o "monstro" que vem roubar terras, violar mulheres e profanar sua religião. Mas de nada adiantam suas previsões, nem o incitamento à luta.
O poema é composto por 80 versos divididos em 3 partes e 20 quartetos. Na intenção de fugir da tradição clássica, ele mistura versos octossílabos, decassílabos e, principalmente, os incomuns nonassílabos. Inicialmente, deixa uma ideia de que a sua rima será alternada, mas, logo na segunda estrofe, já manifesta o seu descompromisso com tal ordem e constrói, com liberdade, o ritmo e a musicalidade do poema.
Tal sonoridade atrai até o leitor menos interessado em versificação, contudo, não é ela o motivo principal do brilhantismo do texto, pois este está realmente é no “Canto do Piaga”, que traduz a visão épica do mundo, através do indianismo heróico, idealizado, fruto da imaginação do autor.
Há uma preocupação com seres sobrenaturais, fantasmas, seres capazes de arruinar a vida do índio, capazes, inclusive, de lhe tirar o bem maior, "a liberdade". Piaga, o pajé, o líder, conclama os seus guerreiros a ficarem alertas, pois ele prevê a aproximação do perigo. Na 4ª estrofe, percebe-se que o índio teme a cobra, que é traiçoeira e inimiga deles. A forma apresentada aos fantasmas é de uma cobra.
Em meio ao canto, percebe-se a pergunta do índio: "Esse monstro... - o que vem cá buscar?" ao que responde: "Vem matar nossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher!". Há de se notar, também, que todas essas desgraças só ocorrem quando “Manitôs já fugiram da Taba!”, ou seja, estão em perigo porque com os seus guardiões ausentes, a presença do mal (Anhangá) é facilitada, mal este, que por diversas vezes, já foi interpretada como a invasão dos portugueses.
Nesse caso, deve-se entender a sua poesia indianista como antevisão lírica e épica das nossas origens, revigorando as intenções nacionalistas do romantismo.

Em “Primeiros Cantos” encontram-se ainda, os poemas “Caxias”, homenagem à terra natal, e o drama amoroso “O soldado espanhol”, poema longo em sete partes, que tem seu assunto tirado dos romances de cavalaria: o cavaleiro despede-se da esposa, parte para a guerra e volta depois de muitos anos. Durante sua ausência, um fidalgo namora a esposa e, exatamente no dia do casamento, o guerreiro volta e assassina o amante e a mulher.

“Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,
E fora a tiritar, fria, medonha,
Marcha a vingança pressurosa e torva:
Traz na destra o punhal, no peito a raiva,
Nas faces palidez, nos olhos morte.”

Abordando um tema bem ao gosto romântico – amor e morte, o poema é bem o retrato da alma fragilizada do poeta, na sua busca frustrada do amor: o amor puro e casto como uma flor:

“Careço de ti, me anjo,
Careço do teu amor
Como da gota d’orvalho
Carece no prado a flor.”

II – “POESIAS DIVERSAS”:

“Abstenho-me de outras citações, que ocupariam demasiado espaço, não posso resistir à tentação de transcrever das “Poesias Diversas” uma das mais mimosas composições líricas que tenho lido na minha vida. (Aqui vinha transcrita a poesia “Seus Olhos”.) Se estas poucas linhas, escritas de abundância de coração, passarem, os mares, receba o autor dos “Primeiros Cantos” testemunho sincero de simpatia, que não costuma nem dirigir aos outros elogios encomendados nem pedi-los para si."


ALENCAR, José de, "Futuro Literário de Portugal e do Brasil" em Revista Universal Lisbonense, t.7, pág. 7 ano de 1847-1848.

No poema “Minha musa”, de linha programática, Gonçalves Dias dá o tom que predomina nesta segunda parte, já entrevisto em “O soldado espanhol”: lirismo amoroso e derramado, marcado pelo sentimentalismo lamuriante e lacrimoso, como se vê nestas estrofes:

“É triste a minha Musa, como é triste
O sincero verter d’amargo pranto
D’orfã singela
É triste como o som que a brisa espalha,
Que cicia nas folhas do arvoredo
Por noite bela.”



“Ela ama a solidão, ama o silêncio,
Ama o prado florido, a selva umbrosa
E da rola o carpir.
Ela ama a viração da tarde amena,
O sussurro das águas, os acentos
De profundo sentir.”

Embora esteja presente também a ideia de desventura amorosa, em “A leviana”; “Seus olhos”, “Inocência” e em outros, vazados num ritmo leve e suave, sobressai o amor idílico, puro e casto:

“Tu és vária e melindrosa
Qual formosa
Borboleta num jardim,
Que as flores todas afaga,
E divaga
Em devaneio sem fim.”



(“A leviana”)

“Hoje ainda és tu donzela
Pura e bela
Cheia de meigo pudor;
Amanhã menos ardente
De repente
Talvez sintas meu amor.”

(“Inocência”)

Não obstante, predomina, nesta parte, o desejo de amar, que não se concretiza, infelicidade, desengano, solidão, sempre entrelaçados com a ideia de morte, como se vê nas passagens abaixo:

“Podes ir, que é desfeito o nosso laço,
Podes ir, que o teu nome nos meus lábios
Nunca mais soará!
Sim, vai; - mas este amor que me atormenta
Que tão grato me foi, que me é tão duro,
Comigo morrerá!”

(“O desengano”)

“Amar-me! – Eu que sou?
Meus olhos enxergam, enquanto duvida
Minha alma sem crença, de força exaurida,
Já farta da vida,
Que amor não doirou.”

(“Minha vida e meus amores”)


“Meu Deus, foi bom assim! No imenso pego
Mais uma gota d’amargor que importa?
Que importa o fel na taça do absinto,
Ou uma dor de mais onde outras reinam?”



(“Tristeza”)

Entretanto, a presença da morte é mais marcante em “Epicédio”, “Visões”, “À morte prematura” e “Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra”, como se vê nas passagens abaixo:

“Seu rosto pálido e belo
Já não tem vida nem cor!
Sobre ele a morte descansa,
Envolta em baço palor.”

(“Epicédio”)

“E ela morreu no viço de seus anos!...
E a lajem fria e muda dos sepulcros
Se fechou sobre o ente esmorecido
Ao despontar de vida
Tão rica de esperanças e tão cheia
De formosura e graças!...”



(“À morte prematura”)

Embora apareçam, nos poemas, lampejos de felicidade e algum entusiasmo, prevalecem neles a ideia de que a vida é um “vale de lágrimas”, que culmina com a morte infalível, como se vê em “Sofrimento”, “O pirata” e outros:

“Meu Deus, Senhor meu Deus, o que há no mundo
Que não seja sofrer?
O homem nasce, e vive um só instante,
E sofre até morrer!”

(“Sofrimento”)

Em meio a tudo, está sempre presente o sentimento religioso, que impregna os poemas da presença de Deus. É o que se vê sobretudo em “O vate”, além de “O cometa”, “O oiro” e “A vila maldita, cidade de Deus”:

"E hoje...em nosso exílio erramos tristes,
Mimosa esp’rança ao infeliz legando,
Maldizendo a soberba, o crime, os vícios;
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao mísero raquítico;
Somos hoje Cristãos.”



(“O vate”)


“Então do meu Senhor me calam n’alma
D’amor ardente enlevos indizíveis;
Se tendo às gentes redizer seu nome,
Queimadoras palavras se atropelam
Nos meus lábios; - profética harmonia
Meu peito anseia, e em borbotões se expande.
Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes
Teus prodígios, teu poder imenso:
O pai ao filho o diz, um séc’lo a outro,
A terra ao céu, o tempo à eternidade!”



(“O oiro”)

Presente em muitos poemas, a natureza é a tônica em “Quadras da minha vida”, como se vê logo no início do poema:

“Houve tempo em que os meus olhos
Gostavam do sol brilhante,
E do negro véu da noite,
E da aurora cintilante.



Gostavam da branca nuvem
Em céu de azul espraiada.
Do terno gemer da fonte
Sobre pedras despenhada.



Gostavam das vivas cores
De bela flor vicejante,
E da voz imensa e forte
Do verde bosque ondeante.”

Como já se viu em “Soldado espanhol” e mesmo em “O trovador”, o romântico gosta de abordar temas que comovem verdadeiros apelos ao coração. Nesse sentido, estão “O desterro de um pobre velho” e “A um menino”, poemas em que sobressaem o mito da pureza infantil e o respeito ao idoso, aspectos que também estão presentes em “Quadras da minha vida”, como se vê nesta passagem:

“Houve tempo em que os meus olhos
Gostavam de lindo infante,
Com a candura e sorriso
Que adorna infantil semblante.



Gostavam do grave aspecto
De majestoso ancião,
Tendo nos lábios conselhos,
Tendo amor no coração.



Um representa a inocência,
Outro a verdade sem véu;
Ambos tão puros, tão graves,
Ambos tão perto do céu!



Infante e velho! Princípio e fim da vida! –
Um entra neste mundo, outro sai dele,
Gozando ambos da aurora; - um sobre a terra,
E o outro lá nos céus. – Ó Deus, que é grande,
Do pobre velho compensando as dores,
O chama para si; o Deus clemente
Sobre a inocência de contínuo vela.”

Ainda nessa linha de apelo ao coração, em “A mendiga”, o poeta aborda timidamente as diferenças sociais, tema que será frequente no Realismo, e o problema da escravidão, em “A escrava”, poema em que se contrapõe a vida livre no Congo distante à dura realidade do cativeiro:

“Do ríspido Senhor a voz irada,
Rábida soa,
Sem o pranto enxugar a triste escrava
Pávida voa.



Mas era em mora por cismar na terra,
Onde nascera,
Onde vivera tão ditosa, e onde
Morrer devera!



Sofreu tormentos, porque tinha um peito,
Qu’inda sentia;
Mísera escrava! No sofrer cruento,
Congo! dizia.”

Presença marcante nos poemas e responsável direto pelo lirismo amoroso do poeta, a mulher, de acordo com a concepção romântica, está sempre numa dimensão inatingível, constituindo uma “etérea visão”, que se confunde com os “anjos”, como se vê em “O delírio” e outros. É de se vê, a esse propósito, que a “impossibilidade da realização amorosa encontra no sonho um artifício para contrastar os aspectos físicos e idealizados do amor”:

“Á noite quando durmo, esclarecendo
As trevas do meu sono,
Uma etérea visão vem assentar-se
Junto ao meu leito aflito!
Anjo ou mulher? Não sei. – Ah! Se não fosse
Um qual véu transparente,
Como que a alma pura ali se pinta
Ao través do semblante,
Eu a crera mulher...- E tentas, louco,
Recordar o passado,
Transformando o prazer, que desfrutaste,
Em lentas agonias?!”

(“O delírio”)

III – “HINOS”:


Integram esta parte os poemas “O mar”, “A tarde”, “Ideia de Deus”, “O romper d’alva”, “O tempo”, “Te Deum” e “Adeus aos meus amigos do Maranhão”. Marcados por um ritmo que bem combina com o tom reflexivo que deles emana, sobressai nesses poemas, o tema da natureza, que se funde com a ideia de Deus, como se vê sobretudo em “O mar” e “O romper d’alva”, nos quais se destaca a visão panteísta, em que tudo evoca Deus:

“Por entre as ramas ocultas,
Docemente a gorjear,
Acordam trinando as aves,
Alegres, no seu trinar.

O arvoredo nessa língua
Que diz, porque assim sussurra?
Que diz o cantar das aves?
Que diz o mar que murmura?



- Dizem um nome sublime,
O nome do que é Senhor,
Um nome que os anjos dizem,
O nome do Criador.



Também eu, Senhor, direi
Teu nome – do coração.
E ajuntarei o meu hino
Ao hino da criação.”

(“O romper d’alva”)

Além desse aspecto, em “A tarde”, a natureza também sobressai como confidente, mãe, companheira de solidão, consolo e refrigério para a alma triste do poeta:

“Homem que sente dor folga contigo,
Homem que tem prazer folga de ver-te!
Contigo simpatizam, porque é bela,
Qu’és mãe de merencórios pensamentos,
Entre os céus e a terra êxtases doce,
Entre dor e prazer celeste arroubo.”


Evocados pelos próprios títulos, a divindade é uma presença marcante em “Ideia de Deus”, “Te Deum” e “O templo”:

“Oh! Como é grande o Senhor Deus, que rege
A máquina estrelada,
Que ao triste dá prazer; descanso e vida
Á mente atribulada!”

(“Ideia de Deus”)


“Estou só neste mudo santuário,
Eu só, com minha dor, com minhas penas!
E o pranto nos meus olhos represado,
Que nunca viu correr humana vista,
Livremente o derramo aos pés de Cristo,
Que também suspirou, gemeu sozinho,
Que também padeceu sem ter conforto,
Com eu padeço, e sofro, e gemo, e choro.”

(“O templo”)

“Senhor Deus Sabaó, três vezes santo,
Imenso é o teu poder, tua força imensa,
Teus prodígios sem conta; - e os céus e a terra
Teu ser e nome e glória preconizam.”

(“Te Deum”)

Redimido das agruras terrenas e em paz com Deus, o poeta, certo de que a morte chega para arrebatá-lo, despede-se dos amigos, fechando o livro de uma forma bem romântica:

“Meus Amigos, Adeus! Já no horizonte
O fulgor da manhã se empurpurece:
É puro e branco o céu, - as ondas mansas,
- Favorável a brisa; - irei de novo
Sorver o ar puríssimo das ondas,
E na vasta amplidão dos céus e mares
De vago imaginar embriagar-me.”

Como se sabe, entretanto, embora tenha morrido jovem, isso só vai acontecer muito tempo depois, em 1864.

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