terça-feira, 26 de julho de 2011

A ROSA DO POVO, CONSIDERAÇÃO DO POEMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.



Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.



Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
-Há mortos? Há mercados? Há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.



Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! Esperança do mar negro.



Essa viagem é mortal, e começá-la
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.



Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.



Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.



Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel...Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

O poema é metalinguístico. O eu lírico se define como “Poeta do finito e da matéria ...”
E, exige liberdade para as palavras (ruptura do formalismo anterior ao Modernismo).
O poema todo funciona como um caminho e parece conter um movimento contínuo que se assemelha à sua própria construção. Há também função lúdica no poema. A viagem pelo poema parece mortal, porque ele joga toda a sua vida nele, mas é a única que realiza o poeta.
A segunda estrofe retoma de maneira intertextual o poema “No meio do caminho” e também homenageia poetas que Drummond admira. São exaltadas as elegias de Vinícius e a poesia visionária de Murilo Mendes. Entre os poetas de cunho social destacam-se o chileno Pablo Neruda e o russo Maiakovski, de quem o eu lírico se despede. A referência a Apollinaire indica a vocação para a linguagem revolucionária e moderna de Drummond. A opção da poesia social pode ser percebida nos dois últimos versos.
A escolha da poesia como forma de expressão do "salto participante" demonstra a crença do poeta em sua eficácia, a despeito de se impor a necessidade, para que possa servir aos propósitos da nova empresa de se "reformar" o próprio conceito da poesia. Ou melhor, o poeta aventura-se a explorar novas possibilidades no campo da expressão poética. É a passagem da "contemplação" á "ação"; a procura deliberada do "êxito" pela "utilização" da "linguagem instrumento". Esse é o conflito que aflora e persiste como mola impulsionadora, no momento da participação da palavra poética:

Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Trata-se da consciência do risco, da firme determinação de empreender a "viagem" e ser fiel aos "problemas fundamentais do indivíduo e da coletividade", como afirma nos belos versos finais do poema e definem os objetivos do projeto de participação:

......................................Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.





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