sábado, 23 de julho de 2011

A ROSA DO POVO (1945) CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: INTRODUÇÃO E CARACTERÍSTICAS


I – INTRODUÇÃO:


"Rapazes, se querem que a literatura tenha algum préstimo no mundo de amanhã (o mundo melhor que, como todas as utopias, avança inexoravelmente), reformem o conceito de literatura. Já não é possível viver no clima das obras-primas fulgurantes e ... pobres, e legar ao futuro apenas esse saldo dos séculos. Reformem a própria capacidade de admirar e de imitar, inventem olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o espetáculo novo de que estão participando."

Esse prefácio, escrito em agosto de 1943, depois da batalha de Stalingrado e da queda de Mussolini e definido pelo autor como "exame da conduta literária diante da vida", vale como um verdadeiro manifesto da necessidade de participação do artista no "formidável período histórico em que lhe é dado viver": "Já não tenho medo de escravizar-me à vida", diz o poeta.
A coragem de se situar em face dos acontecimentos implica, portanto, renunciar à "obra-prima fulgurante" e reformar o "conceito de literatura".
“A Rosa do Povo” reúne 55 poemas escritos exatamente entre 1943 e 1945, o que parece ser bastante significativo para quem diz, nesse mesmo prefácio, que "a poesia é a linguagem de certos instantes, e sem dúvidas aos mais densos e importantes da existência".
Os poemas do livro são os seguintes:
1. Consideração do Poema
2. Procura da Poesia
3. A Flor e a Náusea
4. Carrego Comigo
5. O Medo
6. Anoitecer
7. Nosso Tempo
8. Passagem do Ano
9. Passagem da Noite
10. Uma Hora e mais Outra
11. Nos Áureos Tempos
12. Rola Mundo
13. Áporo
14. Ontem
15. Fragilidade
16. O Poeta Escolhe seu Túmulo
17. Vida Menor
18. Campo, Chinês e Sono
19. Episódio
20. Nova Canção do Exílio
21. Economia dos Mares Terrestres
22. Equívoco
23. Movimento da Espada
24. Assalto
25. Anúncio da Rosa
26. Edifício São Borja
27. O Mito
28. Resíduo
29. O Caso do Vestido
30. O Elefante
31. Morte do Leiteiro
32. Noite na Repartição
33. Morte no Avião
34. Desfile
35. Consolo na Praia
36. Retrato de Família
37. Como um Presente
38. Interpretação de Dezembro
39. Rua da Madrugada
40. Idade Madura
41. Versos à Boca da Noite
42. No País dos Andrades
43. Notícias
44. América
45. Cidade Prevista
46. Carta a Stalingrado
47. Telegrama de Moscou
48. Mas Viveremos
49. Visão 1944
50. Com o Russo em Berlim
51. Indicações
52. Onde Há Pouco Falamos
53. Os Últimos Dias
54. Mário de Andrade Desce aos Infernos
55. Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin

“A Rosa do Povo” é o livro mais longo de Drummond. É o primeiro fruto maduro de sua obra e a maior expressão do lirismo social drummondiano e modernista.

II – TEMÁTICA:

Os temas de “A Rosa do Povo” se entrelaçam, porém nunca se distanciam do realismo social participante.

O questionamento da própria poesia e do fazer poético encaminha-se para sua formulação mais densa: a "ars poética" de "Procura da Poesia", que define os contornos de toda sua obra posterior e baliza as direções da lírica moderna, que o poeta exerceu em seu sentido mais amplo.
Entre as diversas vertentes da obra, encontra-se o poeta de ação, a lírica social e o metalirismo, alternando a solidariedade da palavra poética para com o homem do povo, seu fechamento e a consciência da "crise da poesia".
Entre eles, encontram-se:
- O Choque Social, o engajamento "na praça dos convites": os poemas 5, 7, 25, 30, 31, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49 e 50, num total de 13 poemas.
- O Indivíduo, o "eu todo retorcido": os poemas 3, 6, 8, 9, 10, 12, 23, 28, 33, 40, 41, 51 e 53, num total de 13 poemas.
- Fechamento do discurso, levando em conta certas afinidades formais, o poema geralmente curto, anti-retórico, marcado por certa negatividade, e pela frequente tematização do tempo: os poemas 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22 e 26, num total de 11 poemas.
- Memória, reunindo o que, na demarcação do poeta, corresponde á terra natal ("Uma província: esta") e a família ("A família que me dei"): os poemas 11, 24, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 42 e 52, num total de 10 poemas.
- A Própria Poesia, "poesia contemplada", o questionamento da poesia, o metalirismo: os poemas 1, 2 e 4.
- Amigos, "cantar de amigos", a poesia de homenagem e reconhecimento: os poemas 54 e 55.
- Amor, "amar-amaro", o conhecimento amoroso: os poemas 27 e 29.
- Dramático, a cena poético-teatral, o "ato": o poema 32.

Nas várias vertentes do livro, a operação metalinguistica percorre toda obra contrastando a autonomia versus comunicação que atualiza e ilustra a oposição fundamental do signo poético, e inscreve o poeta na vanguarda mais permanente da modernidade. Num levantamento preliminar das áreas temáticas principais, e valendo-nos da demarcação que o próprio poeta fez de sua poesia, constatamos que, ainda que a lírica social permeie todo o livro, há grande variabilidade temática.

III – CARACTERÍSTICAS:

A leitura dos poemas de “A rosa do Povo” permite verificar a afirmação explícita da crença na possibilidade de atuação da palavra poética sobre a "vida".


"O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme."

(Nosso Tempo)

"Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavra."

(Mas Viveremos)


"Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim."

(Com o Russo em Berlim)

"Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos."

(A Flor e a Náusea)


"no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo."

(Passagem da Noite)


"Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs
na noite,"

(Anúncio da Rosa)


".............................................Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço."

(Versos à Boca da Noite)


"Posso, sem armas, revoltar-me?"

(A Flor e a Náusea)

"Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?"

(Nosso Tempo)


"E de que adianta a lâmpada?
E de que adianta a voz?"

(Passagem da Noite)


"Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la?
[Quantos fogos terá?"

(América)


"Como lutar, sem armas, penetrando com o russo em Berlim?"

(Com o Russo em Berlim)


O poeta de “A Rosa do Povo” não é exclusivamente o poeta engajado. O lirismo social e político não é uma etapa definitiva de sua criação: o "fracasso" o fascina, mesmo nos momentos em que se afirma a crença, ou em que se realiza a participação. Observe-se, por exemplo, o conflito que percorre estes versos:

"Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando."

(Onde Há Pouco Falávamos)


"Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número
[de casa,
e ganho."

(Idade Madura)

"As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,"

(Versos à Boca da Noite)

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