segunda-feira, 18 de julho de 2011

"O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS" (2006)


Emoção, humor e sensibilidade na trajetória de um garoto que vive seu rito de passagem cercado pela magia do futebol, descobrindo o valor da amizade, solidariedade, o sexo e a maior das lições: não se pode controlar cada lance da vida, como em uma solitária partida de futebol de botão”, Cao Hamburguer.


I – APRESENTAÇÃO:

Ficha Técnica:

Título Original: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2006
Estúdio: Gullane Filmes / Caos Produções Cinematográficas / Miravista / Globo Filmes
Distribuição: Buena Vista International
Direção: Cao Hamburger
Roteiro: Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert e Cao Hamburger, baseado em história original de Cláudio Galperin e Cao Hamburger
Produção: Caio Gullane, Cao Hamburger e Fabiano Gullane
Música: Beto Villares
Fotografia: Adriano Goldman
Direção de Arte: Cássio Amarante
Figurino: Cristina Camargo
Edição: Daniel Rezende

Elenco:

Michel Joelsas (Mauro)
Germano Haiut (Shlomo)
Daniela Piepszyk (Hanna)
Caio Blat (Ítalo)
Paulo Autran (Mótel)
Simone Spoladore (Bia)
Eduardo Moreira (Daniel)
Liliana Castro (Irene)

Premiações:



- Ganhou 3 prêmios no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Caio Blat e Germano Hault), Melhor Atriz Coadjuvante (Simone Spoladore), Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição - Ficção, Melhor Fotografia e Melhor Som.

- Ganhou o Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cinema Latino-Americano de Huelva.
- Ganhou o Troféu Redentor de Melhor Filme - Júri Popular, no Festival do Rio.
- Ganhou o Prêmio do Júri - Menção Honrosa e o Prêmio Petrobras Cultural de Difusão - Melhor Filme de Ficção, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
- Ganhou 4 troféus no prêmio da Academia Brasileira de Cinematografia, nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Som e Melhor Edição.
- Ganhou 2 prêmios no Prêmio ACIE de Cinema, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Ator (Michael Joelsas) e Melhor Fotografia.
- Ganhou 5 prêmios do Prêmio Fiesp/Sesi-SP do Cinema Paulista, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Germano Haiut), Melhor Atriz Coadjuvante (Daniela Piepszyk) e Melhor Direção de Arte. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Ator (Michel Josias), Melhor Ator Coadjuvante (Caio Blat), Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

Curiosidades:

O filme é o segundo longa-metragem de Cao Hamburger:
• A linguagem primorosa do diretor criou um filme capaz de sensibilizar adultos e crianças, e, informar a ambivalência vivida durante a chamada Era de Chumbo da Ditadura Militar. O contraste da vivacidade do menino Mauro com a pulsante violência repressora que inunda misteriosamente a vida do país torna o filme intenso, delicado e comovente;
• O roteiro demorou quatro anos para ser feito e passou por quatro pessoas: o próprio Cao, Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert, que são homenageados no filme com os papéis infantis dos amiguinhos de Mauro, no Bairro do Bom Retiro;
• Foi realizada uma pesquisa com mais de mil crianças, para a seleção dos intérpretes dos personagens pré-adolescentes de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”;
As filmagens duraram 8 semanas;
O orçamento de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” foi de R$ 3 milhões;
• O filme não é feito só de colagens. Muita coisa saiu da própria vida dos realizadores. Hamburguer viu o pai judeu e a mãe católica serem presos pela ditadura. E também atuou como goleiro no time da infância. Essas memórias afetivas respondem pelos melhores momentos do filme.
Estreou na mostra Première Brasil, no Festival do Rio 2006.

II – TÍTULO:

“O ano em que meus pais saíram de férias” (2006) não teria esse título se não fosse um humor de mercado. Convenceram o diretor Cao Hamburguer de que “Vida de Goleiro”, o nome original, afastaria o público feminino. A mudança faz sentido, mas o anterior era mais abrangente, mesmo porque a metáfora futebolística se faz muito presente.

III – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“O ano em que meus pais saíram de férias” dialoga com a história/memória de uma criança no período de vigência do Ato Institucional de nº. 5 – o AI-5 (1968/1978).
O Brasil sofria o auge do regime militar sob o governo do general Emilio Garrastazu Médici. Em junho, mesmo com a situação política conturbada pela qual o país passava a seleção de Pelé, Tostão e Rivelino conquistaram o tricampeonato do mundo de futebol no México. Enquanto isso, os pais do garoto Mauro “saíram de férias”.
Embora o diretor consiga restituir o cenário da época e construir um clima de tensão muito melhor que muitas produções que abordam o tema, a intenção do filme não é a de narrar os acontecimentos referentes ao período histórico cujos resquícios ainda se encontram presentes. Tanto a ditadura quanto a conquista do tri funcionam apenas como pano de fundo para o filme; um contexto histórico que cria relações com aquilo que de fato se deseja mostrar.
A produção do filme se esmerou na reconstituição visual de época. Alguns signos são apresentados ensejando “diálogos” com a memória. A narrativa chega a provocar nostalgia quanto às diversões da época. O diálogo pode ser descrito como pretendendo uma “reação responsiva” emocional, fundamental para conquistar a anuência do público.
Não faltaram as pichações de “Abaixo a ditadura!” tão frequentes na paisagem urbana daqueles anos, completamente ininteligível para os analfabetos políticos, como a maioria das crianças de dez anos.


Os diálogos aqui operam em dois sentidos: um relativo propriamente ao conhecimento histórico, outro voltados para aqueles que da mesma idade de Mauro, liam as pichações nas paredes e muros e não as entendiam. Mauro, ao se relacionar com Shlomo, ao dialogar com o mundo que se descortina diante de seus olhos de diversas maneiras, Mauro/Cao Hamburger também tece para o público um diálogo e uma reconciliação entre essas duas gerações.


IV – RESUMO DO ENREDO:

Mauro, interpretado pelo ator-mirim Michel Joelsas, tem 12 anos, adora futebol e jogo de botão. Vive no “país do futebol” às vésperas da Copa do Mundo de 1970. Como qualquer menino brasileiro, Mauro queria acompanhar aos jogos, torcer e vibrar ao lado de seus pais.


A vida confortável junto a sua família permitiu-o investir em suas brincadeiras e desafios no tabuleiro de botão. Mauro projetou seguranças e até a possibilidade de vitória. Entretanto, a vida estável de filho único, sofre grandes transformações: seus pais, Daniel e Miriam, de aproximadamente 30 anos, são dois militantes da esquerda e são forçados a “sair de férias” (eufemismo utilizado para exílio), devido às perseguições políticas da época.


Mauro, assim, como um goleiro solitário, vê-se obrigado a abandonar o seu mundo de aconchego familiar, de forma inesperada e sem motivo aparente, e é levado de Belo Horizonte para São Paulo para viver com o avô (Paulo Autran), um judeu morador do bairro do Bom Retiro. O bairro do Bom Retiro é famoso por ter abrigado imigrantes, tanto brasileiros, nordestinos vindos para o sudeste em meados da década de 60, quanto estrangeiros, destacando-se nesse último judeus e italianos.


Deixarem-no com a suposta certeza de que Mauro seria cuidado por seu avô.

Durante a viagem, seus olhos ávidos captam as novidades na estrada, os soldados, a cidade de São Paulo, o elevador que não sabe utilizar, a língua falada pelas vizinhas, o hebraico, a qual não compreende, entre outros.
O que os pais não esperavam é que o avô paterno falecesse no mesmo dia em que o menino chegou a São Paulo.


Mauro está prestes a experimentar uma dura aprendizagem de vida. Com a ausência de seus pais, Mauro entra em contato com um mundo totalmente diferenciado do seu habitual, onde a renúncia, a solidão e a incerteza passam a ser suas companheiras. E, como um goleiro, o menino deveria defender-se e conquistar dia a dia sua vitória pessoal.

Mauro, então, inicia sua travessia de descobertas e aceitações.


O menino é obrigado a viver com Shlomo (interpretado pelo ator amador pernambucano Germano Haiut), judeu ortodoxo e vizinho de seu avô que o abriga.

No entanto esse acolhimento não será fácil a principiar pelo conflito cultural e de gerações. Mauro, embora não seja filho de uma judia, seu pai e o avô são judeus, porém ele é considerado um gói (um não judeu) pela comunidade judaica.
Mauro está sujeito à solidariedade e a sobrevivência de Schlomo, a quem terá que confiar e ater-se. Porém, reluta em compartilhar e interagir (chega a urinar no vaso de plantas); passa os dias ao lado do telefone aguardando notícias de seus pais, que prometeram voltar a tempo do começo da Copa; não quer tomar banho nem alimentar-se. A tristeza, a depressão e a angústia devastavam seu peito e seus dias.
A sua “aceitação da nova vida” implicaria diretamente na consciência de seu abandono e, isso, Mauro jamais aceitaria.


Para ilustrar esse momento na vida do garoto, Cao recorreu a métafora do goleiro: assim como o jogador está fadado a uma condição solitária durante uma partida de futebol, Mauro também está sozinho em um ambiente diferente daquele o qual era acostumado em Minas. Ele não frequenta a escola nem tem companheiros para jogar futebol. Diante tantas ameaças, amedrontado Mauro até arrisca sua vida, ao tentar passar de uma sacada do prédio, a outra para poder atender ao telefone.

O menino Mauro, antes personagem secundária torna-se protagonista da sua história. À medida que espera seus pais, adapta-se a um universo estranho a ele, obrigando-o a conviver com pessoas e realidades diferentes da sua, alterando seu cotidiano.
A nova realidade solidária em que a personagem é inserida arquiteta um limite para aparelhar sua nova vida, no tempo e no espaço. Mauro necessitará desenvolver-se intelectualmente e emocionalmente para adequar-se aos novos elementos humanos e culturais.

 
Paralelo a essa crise existencial estabelecida, tem-se de pano de fundo o contexto político do ano de 1970. Assim, como o país enfrentava um clima de tensão, devido à pressão provocada pela ditadura misturada a expectativa da copa do mundo, o menino Mauro também passava por um momento de instabilidade, incompletude, aguardo e espera.

Aos poucos, Mauro, torna-se Mosha, seu novo apelido, e é aceito na comunidade na qual não fazem parte, apenas, judeus, mas italianos, gregos, negros e, esta pluralidade racial vai enriquecendo suas relações interpessoais.


Mauro, então, conquista autonomia emocional para superar o desespero de estar só no mundo e aprende com o que vive. Consegue parceiros para brincar e jogar futebol; repara na garota bonita do bairro; veste as luvas de couro do avô com curiosidade; vibra ao completar seu álbum de figurinhas; conhece as mulheres despidas (quando os meninos pagam à Hanna, espécie de par romântico de Mauro, a fim de ver mulheres se trocando pelo buraco da parede da loja, onde a mãe da menina trabalha) e tantas outras emoções, inclusive, pode sonhar em ser negro e voador, torcer pelo Brasil, conhecer seus antepassados e a sua origem.


Em outro momento, assistimos a comemoração solitária de Mauro de um gol, enquanto a câmera enfoca-o do lado de fora do apartamento, e com as janelas fechadas. No entanto, vemos Mauro gritar, mas o som é abafado.



Também somos surpreendidos com o início da transmissão do jogo entre Tchecoslováquia e Brasil. Ítalo, um jovem universitário interpretado por Caio Blat, proclama: "Se o Brasil perder, será bom - será uma vitória do comunismo!". Os amigos concordam e até tentam comemorar quando a Tchecoslováquia faz o primeiro gol da partida, mas soltam a voz de verdade, pulam e se emocionam nos gols do Brasil, o patriotismo falando mais alto que a ideologia política, pouco importando, na prática, se Médici aproveitara a transmissão para fazer propaganda da ditadura.

O final previsível não retira nenhum dos méritos alcançados durante o desenvolvimento do filme. Com o retorno da mãe, ecoa aos ouvidos a palavra “saudade”, remetendo a pensar na transformação de duas outras palavras experiências-emocionais observadas no filme, a falta e a ausência. Apesar de Mauro ter aprendido através do sofrimento, venceu essa etapa por meio do amadurecimento.
O Brasil é tricampeão, todos comemoram e é nessa época que sua mãe retorna para buscá-lo, seu pai, entretanto, não volta. Ao final do filme, Mauro conta que fora exilado, sem, porém, entender o real significado da palavra.

E, mesmo sem querer, nem entender direito, eu acabei virando uma coisa chamada exilado.” Mauro, personagem-mirim de ”O ano que meus pais saíram de férias”.

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

É importante ressaltar que em “O ano em que meus pais saíram de férias” o diretor criou uma obra lírica, psicanalítica, social e histórica. Para tanto, não recorreu às cenas de tortura para retratar o clima de insegurança da sociedade, embora recriasse com precisão absoluta a ambientação, o figurino e os diálogos daquele período. Assim, o momento em que os soldados perseguem estudantes dá o recado sem apelação.
Durante o desenvolvimento de Mauro, a ansiedade gerada pela promessa feita pelos pais de retornarem no início da copa segue paralelamente aos momentos de felicidade proporcionados pela copa do mundo e pela descoberta de novos amigos, do amor, da solidariedade e até mesmo da sexualidade. E o êxito é alcançado graças à forma que Cao utilizou para transmitir ao espectador o momento de transição.
Traçando um paralelo com a temática do filme e a história bíblica de Moisés, percebe-se que com a multiplicação das famílias descendentes dos doze filhos de Jacó, e a ascensão ao trono do Egito de um faraó que, desconhecendo a história de José e temeroso de que os “israelitas” ficassem mais fortes e numerosos que os egípcios, decidiu escravizá-los; como os hebreus continuaram a multiplicar-se, o faraó intimou as parteiras a matar os filhos homens, por ocasião do nascimento das crianças, poupando apenas as filhas mulheres; como a ordem não bastou, tomou uma terceira medida: todo menino que nascesse seria atirado ao Nilo, devendo ser poupadas as meninas. Nestas circunstâncias a mãe de Moisés o esconde por três meses, até que o coloca numa cesta de junco untada com betume e pez e o coloca no Nilo; a filha do faraó encontra a criança e este se torna parte da família do rei, ou seja, um príncipe. A figura de Moises é importantíssima para os judeus, pois ele lutou contra a escravidão de seu povo e sobre ele edifica a primeira ordem religiosa sob as tábuas da lei que Deus o entrega.
Diante desta narrativa bíblica, pode-se observar dois pontos relevantes ao filme: Mauro é ao mesmo tempo abandonado e salvo por seus pais, ou seja, seus pais se vêem obrigados a abandoná-lo diante da ameaça e da perseguição política. Outro ponto, é o quanto Mauro torna-se importante naquela comunidade, assim como Mosha é importante na história dos hebreus. Por Mauro são realizadas reuniões, almoços em revezamento, Scholmo, descobre-se acolhedor afetivo, vai até Belo Horizonte, para buscar explicações sobre o sumiço dos pais de Mauro e ajudá-lo. Uma grande movimentação e comoção são desencadeadas a partir do aparecimento de Mosha. Mauro revitaliza quem se solidarizou com ele, sua presença cria vínculos e relações novas. Fazendo uma analogia à história de Mosha-Moisés-Mauro, e, considerando assim a importância da história de Moisés para o judaísmo, pode-se também entender a importância do aparecimento de Mauro ali no Bom Retiro. Ele é transformador e se transforma nas relações que experimenta.

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