quinta-feira, 28 de julho de 2011

A FLOR E A NÁUSEA, ROSA DO POVO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.



Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.



Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.



Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erra, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.



Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de l9l8 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.



Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.



Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.



Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

O poema apresenta o tema do eu-retorcido. Nele o poeta funde o tempo existencial e o tempo social. O eu lírico insere-se nos erros do mundo e acaba sendo levado à náusea, que é reflexo de sua indignação, de sua necessidade de expelir o mundo circundante que o incomoda.
Esses versos remetem ao reflexo da época dos totalitarismos de esquerda e de direita, projeção dos anseios de superação dos traumas e horrores da Segunda Grande Guerra, animado pelo sentido de resistência à Ditadura Vargas, no plano interno.
“Flor e a Náusea”, dessa forma, sartreanamente, contrapõe a consciência político-social à dolorosa percepção do amesquinhamento do homem, da crise do “homus urbanus” na década de 1940.
Nota-se no poema um eu lírico mergulhado num mundo sufocante, em que tudo é igualado á mercadoria, tudo é tratado como matéria de consumo. Em meio a essa angústia, a existência corre o risco de se mostrar inútil, insignificante, o que justificaria a náusea, o mal-estar. Tudo se torna baixo, vil, marcado por "fezes, maus poemas, alucinações".
No entanto, em meio a essa clausura sócio-existencial, que pode ser representada pela imagem, na terceira estrofe, do muro, o poeta vislumbra uma saída. Não se trata de idealismo ou mesmo de alienação, o poeta já deu sinais claros no texto de que não é capaz disso. Ou seja, não está imaginando, fantasiando uma mudança, ela de fato está para ocorrer, tanto que já é vislumbrada na última estrofe, com o anúncio de nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico. É o nascimento da flor, empregado em sentido metafórico, conotativo, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o término da injustiça, no Nazifascismo, da guerra; enfim, marca o início de uma vida que se justifica plenamente, sem a náusea existencial.
Dois pontos ainda merecem ser observados no presente poema. O primeiro é o fato de que ele, além de ser o resumo das grandes temáticas da obra, acaba por explicar o seu título. Basta notar que, conforme dito no parágrafo anterior, a flor é a própria poesia que nasce contra a vontade do tempo de misérias e repressões; indica o desabrochar de uma nova realidade, tão esperada pelo poeta; além, de símbolo de esperança na poesia e no socialismo. A flor também é fruto da necessidade de resistência do homem diante do tempo sujo.
A expressão "do povo" pode estar ligada a uma tendência esquerdista, socialista, muito presente em vários momentos do livro e anunciadas pela crítica ao universo capitalista na primeira ("Melancolias, mercadorias espreitam-me.") e terceira estrofes ("Sob a pele das palavras há cifras e códigos."). O novo mundo, portanto, teria características socialistas. Esse sentido de solidariedade, do poeta que se propõe de “mãos dadas”, o desejo e a necessidade de comunicação, de fazer da poesia arma de combate e resistência, projetam-se na construção eloquente e indignada de diversos poemas, numa espécie de “condoreirismo” moderno, exorcizado da “demagogia” pela consciência crítica e artística de Drummond.

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