terça-feira, 7 de junho de 2011

“SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO OU DOS PEIXES”, PADRE ANTÔNIO VIEIRA


“Nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles”.


Pregado a 13 de junho de 1654 (dia de Santo Antônio), na cidade do Maranhão, na véspera da partida de Pe. Vieira para Lisboa.
O “sermão de Santo Antônio” é uma continuação ao sermão das “Tentações”.
Nesta época, Portugal tinha recuperado a Independência e passada atenção dispensada ao sermão das “Tentações”, os colonos logo esqueceram a ameaça do Fogo do Inferno, e voltaram a exigir a posse dos escravos, sem qualquer controle dos jesuítas, pelo que o padre Antônio Vieira decidiu deslocar-se a corte de Lisboa, para tentar conseguir do monarca o cumprimento do diploma real.
Antes, porém, achou por bem renovar a tentativa valendo-se de metáforas e alegorias para impressionar as “almas” de seus ouvintes, e obter uma legislação justa para os índios, razão de seu apostolado.
Com uma construção literária e argumentativa notável, o sermão louva algumas virtudes humanas e, principalmente, censura com severidade os vícios, utilizando-se dos peixes como personificação dos homens.
Trata-se de um sermão alegórico estruturado num exercício de raciocínio, que permitem aos ouvintes atingirem mais facilmente o objetivo da mensagem nas respostas à justificação do fato de a terra estar corrompida e na resposta ao que se há-de fazer ao sal que não salga e à terra que se não deixa salgar.
De forma persuasiva, o orador usa argumentos lógicos, sucessivas interrogações retóricas e a autoridade dos exemplos de Cristo, Santo Antônio, S. Basílio, Moisés, Aristóteles e de St. Ambrósio, todas referidas aos louvores dos peixes. Utiliza articuladores do discurso (assim, pois…), interrogações retóricas, anáforas, gradações crescentes, antíteses, etc.
Para atingir o emocional dos ouvintes, utiliza-se de interjeições e exclamações.
No fragmento em que relata a perseguição de Santo Antônio em Arimino, Pe. Vieira recorre a frases curtas, ritmo binário, anáforas, enumeração, resultando uma relação direta com a entoação. A frase interrogativa termina num tom mais alto, a declarativa num tom mais baixo, etc.
O pregador invocou Nossa Senhora porque era habitual fazê-lo e ainda porque o nome Maria quer dizer Senhora do mar; os ouvintes do sermão eram pescadores que A invocavam na faina da pesca.


“A primeira coisa que me desedifica de vós – peixes – é que vós comeis uns aos outros. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande e para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos que vós vos comeis no mar”.


O “Sermão de Santo Antônio ou dos Peixes” está organizado em seis capítulos, dividido em três partes.

1. EXÓRDIO:

"Vós sois o sal da terra" - "Santo Antônio foi sal da terra e foi sal do mar."

A introdução corresponde ao mote do sermão e constituí-se pelo capítulo I. Inicia-se com um Conceito Predicável: texto bíblico que serve de tema e que irá ser desenvolvido de acordo com a intenção e o objetivo do autor "Vos estis sal terrae".
Partindo de duas propriedades do sal, divide o sermão em duas partes: o sal conserva, o pregador louva as virtudes dos peixes; o sal preserva da corrupção, o pregador repreende os vícios dos peixes.
O pregador teoriza sobre a arte de pregar, propondo a primazia do conceito, aproveitando-se do dia de Santo Antônio e tomando como exemplo, a dificuldade do Santo em obter resultados em sua pregação, tendo sido, inclusive, perseguido e ameaçado de morte. No entanto, Santo Antônio não desistiu de sua missão e, mesmo perseguido, ter-se-á dirigido à praia e pregado o sermão aos peixes que o terão escutado atentamente, contrastando com os homens.

2. DESENVOLVIMENTO:

"(...) para que procedamos com alguma clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios."

O sermão é uma alegoria porque os peixes são metáfora dos homens, as suas virtudes são por contraste metáfora dos defeitos dos homens e os seus vícios são diretamente metáfora dos vícios dos homens. O pregador fala aos peixes, mas quem escuta, são os homens.
Trata-se da parte mais longa do sermão, os capítulos II, III, IV e V, e através de uma argumentação persuasiva, desenvolve o tema dentro das perspectivas que ele propõe.
No capítulo II, Pe. Vieira observa as qualidades dos peixes em caráter geral, alicerçando-se ao exemplo de Jonas que fugiu ao chamado de Deus, porém Deus está infinitamente determinado a fazê-lo obedecer. Preparou, pois, o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe. Dessa forma, o pregador louva os atributos e comportamentos positivos dos peixes frente ás características negativas dos homens.

• São obedientes (obediência), ouvem e não falam: "aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor"; "ouvem e não falam".

• Os peixes não foram castigados por Deus no dilúvio porque não tinham pecado, sendo, por isso, exemplo para os homens que pouco ouvem e falam muito e pouco respeito têm pela palavra de Deus.

• Foram os primeiros animais a serem criados: "vós fostes os primeiros que Deus criou";

• São os mais numerosos e os mais volumosos: "entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores";

• Não são domesticáveis: "só eles entre todos os animais não se domam nem domesticam". Evidencia-se que os animais que convivem com os homens foram castigados, estão domados e domesticados, sem liberdade.

Dando sequência a louvação aos peixes, Pe. Vieira, em seguida, utiliza-se de quatro peixes (Peixe de Tobias, Rémora, Torpedo e Quatro-Olhos) para dissertar sobre os seus atributos particulares, comparando-os aos homens.

PEIXE DE TOBIAS:


“(...) Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em ação de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que virtudes tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para sarar a cegueira, e o coração para lançar fora os demônios: Cordis ejus particulam, si super carbones ponas, fumus ejus extricat omne genus Daemoniorum: et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabantur (Tob. VI – 8). Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demônio chamado Asmodeu morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa o coração, fugiu dali o demônio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demônios de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão bom coração e tão proveitoso fel, quem o não louvará muito? Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo Antônio.”



O peixe possui umas entranhas e um coração que expulsam os demônios e simboliza o poder purificador da palavra de Deus, pois curou a cegueira do pai de Tobias.
Esse peixe é comparado a Santo Antônio que alumiava, curava as cegueiras dos ouvintes e lançava os demônios fora de casa.

RÊMORA:


"(...) se se pega ao leme de uma nau da índia (...) a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante."

"Oh se houvera uma rêmora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo!"
"(...) a virtude da rêmora, a qual, pegada ao leme da nau, é freio da nau e leme do leme”.


Peixe que quando se agarra e um navio tem força suficiente para conduzi-lo sozinha.

Remora, em latim, é demora, porque lhe atribuíram á faculdade de deter os barcos. O processo se inverteu em espanhol; rêmora, no sentido próprio, é o peixe e, no sentido figurado, o obstáculo. A rêmora é um peixe de cor acinzentada; sobre a cabeça e a nuca tem uma placa oval, cujas lâminas cartilaginosas lhe servem para prender-se aos demais corpos submarinos, formando com ela o vácuo.
Simboliza o poder da palavra do pregador, guia das almas, que domou a fúria das paixões humanas: soberba, vingança, presunção e sensualidade. As palavras de Santo Antônio representam as rêmoras dos ouvintes, enquanto estes ouviram; quando o não ouvem, são atingidos por muitos naufrágios (desgraças morais).


TORPEDO:



"Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a bóia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De maneira que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol, à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador."


Produz descargas elétricas para se defender, faz tremer o braço do pescador e não permite pescar. Os homens pescam muito e tremem pouco.

"Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer."

É importante ressaltar que o verbo pescar é também metáfora de guerra; crítica aos holandeses.

"… se tenho fé e uso da razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo".

Os peixes são o sustento dos membros de várias ordens religiosas. Há peixes para os ricos e peixes para os pobres. Esta distinção tem por finalidade criticar a exploração dos ricos sobre os pobres.
Simboliza o poder dos homens e os seus vícios, principalmente, a vingança. Relaciona-se aos 22 pescadores que tremeram ouvindo as palavras de S. Antônio e converteram-se.

QUATRO-OLHOS:



"E como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direitamente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes."


Tem dois pares de olhos, uns para cima e outros para baixo. Simboliza o dever dos cristãos em tirar os olhos da vaidade terrena, olhando para o céu sem esquecer o inferno.
Representa a vigilância e a providência divina.

Em seguida, Pe.Vieira parte para as repreensões aos peixes, primeiramente de caráter geral (Cap. IV) e depois de caráter particular (Cap. V).
No caráter geral, Padre AntônioVieira acusa os peixes de se comerem uns aos outros, recorrendo a um exemplo dos homens para explicar o que eles faziam. Assim, os homens praticam antropofagia social, ou seja, exploração uns dos outros.
O orador faz uma comparação entre a antropofagia ritual dos Tapuias (índios brasileiros) e a antropofagia social dos homens.
O mais grave de tudo é que são os grandes que comem os pequenos, ou seja, são precisos muitos pequenos para alimentar um grande. Acusa-os igualmente de cegueira, vaidade e de terem a maldade.
Estas repreensões são feitas com o objetivo de mudarem os homens, ou pelo menos fazê-los pensar, mesmo que não haja uma mudança rápida.
O orador expõe a repreensão e depois, comprova-a, como fez com a primeira repreensão: dá o exemplo dos peixes que caem tão facilmente no engodo da isca, passa em seguida para o exemplo dos homens que enganam facilmente os indígenas e para a facilidade com que estes se deixam enganar. A crítica à exploração dos negros é cerrada e implacável. Conclui, respondendo à interrogação que fez, afirmando que os peixes são muito cegos e ignorantes e apresenta, em contraste, o exemplo de Santo Antônio, que nunca se deixou enganar pela vaidade do mundo, trocou a riqueza pela simpleza, e assim, “pescou” muitos para salvação.

REPREENSÕES EM GERAL:

• "(...) é que vos comedes uns aos outros";

• "Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos";

• "Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."

De caráter particular, Pe. Antônio Vieira usa quatro exemplos de peixes que se referem a tipos comportamentais: o roncador que simboliza os arrogantes; o pegador, que simboliza os oportunistas; o voador, que simboliza os ambiciosos e o pior de todos os outros, o polvo, que simboliza o traidor e o hipócrita, que tem uma aparência de santo e manso e um ar inofensivo, mas na essência é traiçoeiro e maldoso, é hipócrita e faz-se de amigo dos outros e no fim “abraça-os”.
Neste capítulo são usados os exemplos de São Pedro, Santo Ambrósio, São Basílio e o Gigante Golias.

RONCADORES:


"É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?"


São peixes pequenos e facilmente pescados. Embora, simples, representam a soberba, o orgulho, arrogância e pouca firmeza.
São exemplos de roncadores: São Pedro quando renunciou a Deus; Golias, Caifás e Pilatos.
Santo Antônio tendo tanto saber e tanto poder, não se orgulhou disso, antes se calou. Não foi abatido, mas a sua voz ficou para sempre.

PEGADORES:

 
"Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram."


São peixes pequenos e pegam-se aos maiores (são frágeis e pegam-se aos poderosos). Vivem na dependência dos grandes e morrem juntamente com eles. Aprenderam a ser parasitas com os navegadores portugueses.
Exemplos de pegadores: Herodes e a sua corte (no sentido negativo); David e Adão e Eva.
Santo Antônio representa os exemplos positivos porque seu parasitismo é com Deus e tornou-se imortal.

VOADORES:

 
"Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? (...) Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes."


Os peixes voadores foram criados peixes, mas querem voar, tornarem aves (simbolizam a presunção, o capricho e a ambição). Os outros peixes morrem por causa da fome na fisga e no anzol; os voadores morrem nas velas, nas cordas e nas quilhas por causa da vaidade de voar aforismo (são pescados como peixes e caçados como aves e morrem queimados).
Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.
Exemplo de voadores: Simão e Ícaro.
Santo Antônio tinha suas asas: a sabedoria natural e a sabedoria sobrenatural, mas voou para baixo em direção à humildade. Não as usou por ambição; foi considerado leigo e sem ciência, mas tornou-se sábio para sempre.

POLVO:

 
"E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa (...) o dito polvo é o maior traidor do mar."


O polvo tem um capelo como um monge; tem raios como uma estrela; tem ausência de asas e espinha e é brando. No entanto, disfarçado por uma "aparência tão modesta", que traduz a aparente simplicidade e inocência do polvo, encobre uma terrível realidade e alegoriza a traição, pois ataca sempre de emboscada.
Exemplos de polvos: Judas no sentido negativo – a traição.
Judas apenas abraçou Cristo, outros o prenderam; o polvo abraça e prende. Judas atraiçoou Cristo à luz das lanternas; o polvo escurece-se, roubando a luz para que os outros peixes não vejam as suas cores. Assim, a traição de Judas é de grau inferior à do polvo.
Com a expressão "hipocrisia tão santa", o orador usa uma fina e penetrante ironia: o polvo apresenta um ar de santo, mas encobre uma cruel realidade. Tem a máscara (que é o que quer dizer em grego hipócrita), o fingimento de inofensivo.
O mimetismo é o que o polvo usa para enganar: faz-se da cor do local ou dos objetos onde se instala, para atacar os peixes desacautelados.
O orador refere á lenda de Proteu para contrapor o mito à realidade: Proteu metamorfoseava-se para se defender de quem o perseguia; o polvo, ao contrário, usa essa qualidade para atacar.
Os verbos que se referem ao polvo estão no presente do indicativo, traduzindo uma realidade permanente e imutável; a forma "vai passando" gerúndio perifrástico, acentua a forma despreocupada dos outros peixes que lentamente passam pelo local onde se encontra o traidor; os verbos que se referem a Judas estão no pretérito perfeito do indicativo porque referem ações do passado. Há ainda o imperativo "Vê", que traduz uma interpelação direta ao polvo, tornando o discurso mais vivo.
Santo Antônio foi o maior exemplo da candura, da sinceridade e verdade, onde nunca houve mentira; critica aos portugueses (fingimento e engano).

3. PERORAÇÃO:



"Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus peixes. E para que vades consolados do sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levítico."

Trata-se da conclusão do Sermão (capítulo VI) com a utilização de um desfecho forte, capaz de impressionar o auditório e levá-lo a pôr em prática os ensinamentos do pregador.
Pe. Vieira retoma aos pregadores de que falava no conceito predicável, servindo-se dele próprio como exemplo, alegando que não estava a cumprir a sua função.
Alega que os homens e os peixes, nunca vão chegar ao sacrifício final, uma vez que os peixes já vão mortos e os homens vão mortos de espírito.
O orador quer que os homens imitem os peixes, isto é, guardem respeito e obediência a Deus.
Padre Antônio Vieira diz que a irracionalidade, a inconsciência e o instinto dos peixes, são melhores do que a racionalidade, o livre arbítrio, a consciência, o entendimento e a vontade do homem.
Conclui-se assim, fazendo um apelo aos ouvintes e louvando-se a Deus, tornando esta última parte do sermão um pouco mais familiar, para que se estabeleça de novo a proximidade entre os ouvintes e o orador.
A escolha do hino “Benedicite” cumpre fielmente esse objetivo, encerrando o Sermão com um tom festivo, adequado à comemoração de Santo Antônio, cuja festa se celebrava.
A palavra Ámem significa "Assim seja", "que todos louvem a Deus".
O quiasmo realizado na colocação em ordem inversa das palavras: glória e graça sugerem a transposição dos peixes para os homens, já que os peixes não são capazes de nenhuma dessas virtudes, sejam-no os homens.
Sugere também uma mudança: a conversão (metanóia), porque só em graça os homens podem dar glória a Deus. Numa palavra, pretende que os homens se convertam.

Alguns recursos estilísticos de Pe. Antônio Vieira neste sermão:


1. Antíteses

"Tanto pescar e tão pouco tremer!"
"No mar, pescam as canas, na terra pescam as varas (...)"
"(...) deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima (...) e outros dois que direitamente olhassem para baixo (...)"
"A natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar (...)"
"(...) traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras."
"(...) Antônio (...) o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano."
"Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar!"

2. Comparações

"Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo Antônio."
"O que é a baleia entre os peixes, era o gigante Golias entre os homens."
"(...) com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura (...)"
"As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia (...)"
"(...) e o salteador, que está de emboscada (...) lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas?"
"Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!"

3. Paralelismos e anáforas

"Ou é porque o sal não salga, e os pregadores...;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes...
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores...;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes...
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores...;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes..."
"Deixa as praças, vai-se às praias;
deixa a terra, vai-se ao mar..."
"Quantos, correndo fortuna na Nau Soberba (...), se a língua de Antônio, como rêmora (...)
Quantos, embarcados na Nau Vingança (...), se a rêmora da língua de Antônio (...)
Quantos, navegando na Nau Cobiça (...), se a língua de Antônio (...)
Quantos, na Nau Sensualidade (...), se a rémora da língua de Antônio (...)"
"(...) com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura (...)"
"Se está nos limos, faz-se verde;
se está na areia, faz-se branco;
se está no lodo, faz-se pardo (...)"

4. Ironia

“Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não prego a vós, prego aos peixes."
"E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa (...) o dito polvo é o maior traidor do mar."

5. Metáforas

"Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rémora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (...) se vêem e choram na terra tantos naufrágios."
"(...) pois às águias, que são os linces do ar (...) e aos linces que são as águias da terra (...)"
"(...) onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes há tantos séculos?!"
" (...) vestir ou pintar as mesmas cores (...)"
"(...) e o polvo dos próprios braços faz as cordas."

6. Trocadilhos

"Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra."
"E porque nem aqui o deixavam os que o tinham deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal."
"(...) o peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua contra os que se não queriam lavar."

7. Gradações

“Nau Soberba, Nau Vingança, Nau Cobiça, Nau Sensualidade; "passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador."
O sentido é sempre uma intensificação para mais ou para menos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

• A antítese Céu/lnferno, que repete semanticamente a antítese bem/mal, está ligada quer à divisão do Sermão em duas partes, quer às duas finalidades globais do mesmo.

• A apóstrofe refere diretamente o destinatário da mensagem e do pregador, aproximando os dois pólos da comunicação: emissor e receptor.

• A interrogação retórica como meio de convencer os ouvintes.

• A personificação dos peixes associada à apóstrofe e às atitudes dos mesmos.

• A gradação crescente na enumeração dos animais que vivem próximos dos homens, mas presos.

• A comparação, "como peixes na água", tem o caráter de um provérbio que significa viver livremente.

O discurso deste sermão, como doutros, é semelhante ao ondular das águas do mar: revoltas e vivas, espraiam-se depois pela areia como que espreguiçando-se. Uma das características maravilhosas do discurso de Vieira é a mudança de ritmo, que prende facilmente os ouvintes;
A repetição da forma verbal "vedes", que deverá ser acompanhada de um gesto expressivo, serve para criar na mente dos ouvintes (e dos leitores) um forte visualismo do espetáculo descrito, deixando de indicar uma ação limitada para se transformar numa situação alargada.

Um comentário:

made in Sara disse...

muito boa a postagem