quarta-feira, 15 de junho de 2011

POESIA ÁRCADE NO BRASIL


“Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!”


Cecília Meireles

I – LOCALIZAÇÃO:

O marco inicial do Arcadismo no Brasil foi á publicação em 1768, de “Obras poéticas”, do escritor mineiro Cláudio Manuel da Costa.
Ocupando praticamente a segunda metade do século XVIII, o Arcadismo estenderá oficialmente até 1836, quando o escritor Gonçalves de Magalhães publicará a obra “Suspiros poéticos e saudades”, que dará início, no Brasil, ao Romantismo.
O Arcadismo no Brasil tem seu surgimento marcado por dois aspectos centrais. De um lado, o dualismo dos escritores brasileiros do século XVIII, que, ao mesmo tempo, seguiam os modelos culturais europeus e se interessavam pela natureza e pelos problemas específicos da colônia brasileira; de outro, a influência das ideias iluministas sobre nossos escritores e intelectuais, que acarretou o movimento da Inconfidência Mineira e suas trágicas implicações: prisão, morte, exílio, enforcamento.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

 
O Arcadismo brasileiro originou-se e concentrou-se principalmente em Vila Rico-MG. (hoje Ouro Preto), e seu aparecimento teve relação direta com grande crescimento urbano verificado nas cidades mineiras do século XVIII, cuja base econômica era a extração de ouro.

Se os diamantes e o ouro das Minas e as reformas do Marquês de Pombal financiaram o aburguesa mento da sociedade portuguesa, eles não deixaram de produzir também no Brasil os seus frutos. O controle da produção das minas exigiu da metrópole a criação de uma estrutura burocrática que permitiu certa civilização do ambiente rústico das Minas Gerais, no século XVIII: Vila Rica, atual Ouro Preto; Mariana; São João Del Rei e tantas outras cidades mineiras, de repente, viram-se tomadas não só por milhões de escravos e rudes garimpeiros, mas também por bacharéis que vinham para cá dar conta do serviço burocrático da Coroa. Esses bacharéis eram, normalmente, brasileiros ou filhos de portugueses que tinham negócios no Brasil.
O crescimento espantoso dessas cidades favorecia tanto a divulgação de jovens brasileiros que providos das camadas privilegiadas daquela sociedade, foram estudar em Coimbra, já que a Colônia não lhes oferecia cursos superiores, e, ao retornarem de Portugal, traziam consigo as ideias iluministas que faziam fermentar a vida cultural portuguesa à época das inovações políticas e culturais.
Essas ideias em Vila Rica levaram vários intelectuais e escritores a sonharem com Inconfidência do Brasil, principalmente após a repercussão da Independência dos EUA (1776). Chegados de Coimbra com ideias enciclopedistas não apenas engrossaram as fileiras dos revoltos contra erário régio, que confiscavam a maior parte do ouro extraído na Colônia, mais também divulgaram os sonhos de um país independente e contribuíram para a organização do grupo inconfidente. Na condição de grandes proprietários e intelectuais de elite, membros influentes na sociedade passaram a propagandear a conspiração, que chegou a repercutir no Rio de Janeiro.
Entre os mais importantes inconfidentes estavam: o tenente coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, José Álvaro Maciel, Padre Carlos Toledo e Melo, Padre José da Silva Rolim, Inácio de Alvarenga Peixoto (um dos principais intelectuais do grupo, poeta e músico), Cláudio Manuel da Costa (advogado, escritor e poeta), Tomás Antônio Gonzaga (poeta e escritor), Domingos Vidal Barbosa, José Resende da Costa, José Aires. João Dias da Mota, Luís Vaz de Toledo Piza, Domingos de Abreu Vieira, Francisco Antônio de Oliveira Lopes e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
No entanto, antes do dia marcado, um dos conspiradores, Joaquim Silvério dos Reis traiu o grupo, levando ao conhecimento do governador Luís da Cunha Menezes o levante.
Com a traição de Joaquim Silvério dos Reis, que devia vultosas somas ao governo português, a reação do governo foi imediata, a Devassa foi completa.
Mas a ideia de um país livre e independente de Portugal estava lançada.

Cláudio Manuel da Costa, 60 anos, segundo versão oficial, suicidou-se na prisão, nos porões da Casa dos Contos, em Ouro Preto, em 4 de julho de 1789, antes do julgamento. Segundo alguns, o poeta não teria revestido ao sentimento de culpa, uma vez que havia delatado, sob tortura, os participantes da conjuração. Com tudo, essa versão vem sendo contestada. Até hoje, em Ouro Preto, se fala que várias igrejas badalaram os sinos quando da morte do poeta. Por tradição, a igreja nunca toca os sinos a suicidas, o que pode ser indicio de assassinato e não suicídio.

Tomás Antônio e outros foram condenados ao exílio temporário ou perpétuo e todos perderam bens, cargos e foram condenados ao degredo ou à prisão.


Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro, permanecendo incomunicável numa masmorra escura por quase três anos. Durante o processo de investigação, denominado Devassa, foi ouvido quatro vezes e confrontado com seus denunciadores e co-réus. A princípio negou tudo, mas diante de outros depoimentos assumiu a responsabilidade do levante, inocentando os demais conspiradores.


No dia 20 de abril de 1792, foi comutada a pena de todos participantes, excluindo Tiradentes, enforcado no dia seguinte, campo da Lampadosa (hoje Praça Tiradentes), no Rio de Janeiro. Além de enforcado, Tiradentes foi decapitado e esquartejado, sua cabeça exposta em Vila Rica e os quatro quartos do corpo dependurados em postes ao longo do Caminho Novo, que ele tantas vezes percorreu. Seus bens foram confiscados, sua família, amaldiçoada por quatro gerações; sua memória declarada infame e o chão de sua casa foi salgado para que dele nada mais brotasse.


Mesmo após a Independência do Brasil, em 1822, Tiradentes não seria reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira. Somente em 1867 é que se ergueu em Ouro Preto um monumento em sua memória, por iniciativa do presidente da província Joaquim Saldanha Marinho. Mais tarde, no período republicano, o dia 21 de abril se tornou feriado nacional, e, pela lei 4.867, de 9 de dezembro de 1965, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira.



III – POETAS ÁRCADES:



1. CLÁUDIO MANUEL DA COSTA: POETA DE TRANSIÇÃO

 
Cláudio Manuel da Costa nasceu em Ribeirão do Carmo, atual Mariana no sitio da Vargem do Itacolomi, a 6 de julho de 1729, filho de pai português que se dedicava a mineração.

Após seus primeiros estudos com os jesuítas no Brasil, em 1749 vai para Coimbra estudar Direito. Por essa época tomou contato com as renovações da cultura portuguesa compreendida por Pombal e Verney, e absorve o clima das primeiras manifestações do Arcadismo.
Retorna ao Brasil em 1754 e monta banca de advogado em Vila Rica e Mariana entre 1754 e 1758. Por duas vezes foi Secretário do Governo da capitania em MG, nomeado pelo Conde Borbadela, em 1752. Posteriormente foi nomeado Juiz das Demarcações de sesmarias do termo de Vila Rica.
Em 1768 cercado pelo prestígio oficial e pela admiração de seus confrades foi o fundador da Arcádia Ultramarina.
Sua carreira de escritor teve início com a publicação de “Obras Poéticas”, em 1768.
Respeitado por sua cultura era um liberal, que se deixava influenciar pelos filósofos do iluminismo, pelas teorias econômicas inglesas. Era também adepto da política reformista do Marquês de Pombal.
Foi Cláudio o primeiro a escrever sobre a ciência de economia política que apresentara à Europa o célebre escocês, Adam Smith. Comentou Cláudio o “Tratado da Origem das Riquezas das Nações”, publicado em Edimburgo e escreveu, além disso, outras tantas obras que mereceram elogiosas criticas de toda parte.
Patrono da cadeira n° 2 da academia Brasileira de Letras, criada por Alberto de Oliveira, Cláudio é um dos poetas mais ilustres que produziu o solo americano.

1.2. OBRAS:

“OBRAS POÉTICAS” (1768) – Reúne a produção LÍRICA do poeta (sonetos, éclogas, epicédios, cantatas e outras modalidades).


“VILA RICA” – Poema ÉPICO clássico, derivação imitativa de “Os Lusíadas” de Camões, obedecendo à estrutura tradicional. A substância heróica e histórica é a descoberta das minas e a fundação de Vila Rica. O herói central é o governador Antônio de Albuquerque Coelho.

1.3. CARACTERÍSTICAS LÍRICAS:


A produção lírica de Cláudio Manoel da Costa faz-se, em parte, como um regresso aos modelos camonianos e, em parte, como um compromisso entre Barroco e Arcadismo, do que resulta tendências para o sublime e os desejos de um estilo simples e pastoril.

Sua poesia é sóbria, expressando reflexões morais das contradições da vida tão ao gosto dos poetas quinhentistas, percebendo-se neles uma marcante influência camoniana.
Conhecedor da técnica do verso, homem de boa biblioteca e extensa leitura, um intelectual, talvez até mentor de Tomás Antônio Gonzaga em assuntos intelectuais e jurídicos, e, sobretudo um grande sonetista.
Como árcade lírico, Cláudio Manuel da Costa adotou o pseudônimo de Glauceste Satúrnio e destacou o tema de desilusão amorosa por uma musa inspiradora, Nise. Ou, então, lastima-se por se encontrar num lugar de grande beleza natural, mas não estar acompanhado pela mulher amada.
Nise é uma mulher personagem fictícia, incorpórea, presente apenas pela situação nominal. Não se manifesta na relação amorosa, não é descrita fisicamente, nem dá qualquer mostra de corresponder alguém de verdade. Apenas representa o ideal da mulher amada inatingível, nítido traço de reaproveitamento do neoplatonismo renascentista.

Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta,
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,
Entre o horror de um relâmpago incendido?



Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,
O raio a cada instante despedido.



Ah! não temas o estrago, que ameaça
A tormenta fatal; que o Céu destina
Vejas mais feia, mais cruel desgraça:



Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Verás a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás então, o que é ruína.

O soneto transcrito mostra, ainda, fortes resíduos do Barroco Cultista. O sentimento do poeta é expresso por meio de imagens, que remetem o leitor ao paralelo entre a intensidade do amor e do sofrimento e a intensidade crescente da tempestade. Assim, o sentimento do poeta se diz por meio de metáforas e hipérboles. “O vento”, “o raio”, “a tormenta”, “a tempestade” que o poeta descreve são seus conflitos íntimos.
A profunda tensão que marca a poesia de Cláudio Manuel da Costa, e se manifesta quase sempre sob o tema da impossibilidade amorosa, é de fato consequência de um conflito mais amplo, em que se reflete o lugar ambíguo de onde fala o poeta.
O que se sente em Cláudio é um dilaceramento, real e não apenas poético. Colono nascido nas asperezas das terras mineiras, terra modesta e inculta, foi educado nas artes, letras e leis da douta e famosa Coimbra.
A saudade o mantém preso à sua pátria de cultura, mas as suas raízes continuam fincadas na pátria de nascença, chão de pedra, ferro e ouro. E, assim o poeta se sente desajustado na própria terra inculta, tão distante da Universidade onde se formou.
Solicitado pela temática arcádica, o poeta tenta em vão atualizar no contexto local seus rios cristalinos, as bucólicas choupanas de seus pastores, os prados verdejantes onde guardam seus rebanhos e cantam delicados amores, à sombra de álamos sombrios e frondosas faias.

Já rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando do sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.



Que alegre, que suave, que sonora,
Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora!



Só minha alma em fatal melancolia,
Por te não poder ver, Nise adorada,
Não sabe inda, que coisa é alegria;



E a suavidade do prazer trocada,
Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite mais lhe agrada.

No entanto, a face brutal e ávida dos garimpos excede e deforma as máscaras idealizadas de pastores e ninfas, sob as quais o mundo aristocrático europeu encena seu fim e assinala, sob a forma mítica da Arcádia, o surgimento de uma nova ideologia. Atribuindo a dificuldade em aplicar a retórica árcade ao ofuscamento dos bens simbólicos pela materialidade excessiva do ouro, o poeta se desconsola: “não são essas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos.”
Busca, então, outra solução: não sendo possível transplantar a paisagem arcádica para a aspereza das minas, alude ao Ribeirão do Carmo, rio que corta a região; às águas turvas e barrentas do pátrio rio; os vaqueiros, em lugar de pastores gregos; as montanhas e os vales e as constantes referencias às pedras, que sugerem o ambiente agreste e rústico de Minas Gerais, o estatuto de objeto literário, inventando-lhe uma origem mítica.

Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!



Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.



Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano;



Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.


Mas também essa tentativa se frustra: a apropriação de padrões estéticos europeus revela-se um roubo inútil, inoperante no espaço físico e mental da Colônia, e demonstra a inaptidão da retórica clássica para representar esteticamente uma natureza selvagem, não prevista nos códigos literários existentes. Então, passa a exaltar Lisboa, lamentando-se o destino ingrato que o afastou de Portugal.

Competir não pretendo
Contigo, ó cristalino
Tejo, que mansamente vais correndo:
Meu ingrato destino
Me nega a prateada majestade,
Que os muros banha da maior cidade.

Se, por um lado, protesta contra a ambição portuguesa, contra a exploração do colono, antecipando o sentimento de rebelião nativista, antecipando o sentimento de rebelião nativista.

A margem desse rio povoada
Vejo da portuguesa gente amada,
Toda entregue á solicita porfia
Com que o rico metal da terra fria
Vai buscar a ambição.



(...)



O vasto empório das douradas Minas
Por mim o falará: quanto mais finas
Se derramam as lágrimas no imposto
De uma capitação, clama o desgosto
De um país decadente.

Por outro lado, patenteia atitude inequivocamente colonialista.

Correi de leite e mel, ó Pátrios rios,
E abri dos seios o metal guardado;
Os borbotões de prata, e de ouro os fios
Saíam de Luso a enriquecer o estado.

1.4. CARACTERÍSTICAS ÉPICAS:


A impossibilidade de implantar o cenário da Arcádia nas Minas sem passado, onde o presente apenas começa a ser extraído da terra, abre à poesia de Cláudio Manuel uma dimensão iluminista, manifesta, sobretudo, no poema épico “Vila Rica”, inspirado nas européias clássicas, que narra a história da cidade desde sua fundação exaltando a atuação dos bandeirantes na descoberta das minas.


Segundo José Veríssimo, em “História da Literatura Brasileira”:

"O poema épico Vila Rica, que festeja a fundação da cidade, se nada acrescenta em termos qualitativos aos sonetos, diz do desejo do poeta de conhecer e expressar a realidade mineira do ciclo do ouro. Mas é um poema laudatório, conforme atesta o poeta no Prólogo e na Carta Dedicatória. (...) Subentende-se a defesa do déspota esclarecido e a identificação do poeta com a classe dirigente. Tal atitude, aqui apontada, será aquela que norteará as relações da intelectualidade brasileira com o poder oficial ao longo dos séculos."

Cláudio Manoel da Costa parece haver no poema uma constante preocupação com as normas da tradição clássica. Composto por 10 cantos, em versos decassílabos, apresenta as seguintes partes: Preposição, Inovação, dedicatória, narração e epílogo.

Canto I: Apresentação do tema e invocação às ninfas do Ribeirão do Carmo, dedicatória ao Conde de Bobadela. Figuras míticas: O Itamonte e o Gênio da Terra. In Medias Res: D. Rodrigo (aventureiro, ministro do rei, vítima na floresta) aparece em sonho a Albuquerque.

Canto II: Neágoa, mãe de Aurora. Albuquerque expõe seu plano a mando de D João V: fundar Vila Rica. Itacolumi, o monstro vigia o ouro.

Canto III: Borba Gato chega ao acampamento e narra como foi á morte de D. Rodrigo.
Argasso explica o motivo do aprisionamento de Aurora no acampamento dos portugueses.

Canto IV: Os homens cavando a terra à procura de ouro, casualmente encontram a sepultura de D. Rodrigo. Argasso aparece no acampamento e explica ser rival de Garcia pelo amor de Aurora. Garcia entrega a mãe Neágoa e a filha Aurora. Albuquerque crê que o gesto de Garcia trará os índios para o seu lado. Borba Gato guia todos às minas de ouro.

Canto V: Fala-se do templo do Interesse, e de como essa figura personifica pretende tentar impedir o sucesso de Albuquerque. Surge o Gênio da Terra, metamorfoseado em velho índio, diante de Albuquerque, numa gruta, revela seu nome, Filiponte. Filiponte narra á história da conquista das Minas Gerais e, inclusive, se vê nas paredes da gruta o retrato de Albuquerque ao lado do Ribeirão do Carmo.

Canto VI: Filiponte descreve a geografia de Minas. Recorda como Arzão achou primeiro as pepitas de ouro no rio Casca. Fala de como a descoberta do ouro criou uma guerra entre os exploradores.
Morte de Aurora e Argasso.

Canto VII: Uma ninfa de um rio encanta Garcia e leva-lhe para o fundo desaparecendo o personagem.
Albuquerque consegue evitar uma disputa de interesses entre paulistas e forasteiros, mostra-se como um pacificador. O Gênio da Terra fez aparecer figuras monstruosas nos troncos das árvores que assustam os revoltosos que juram prestar obediência a Albuquerque.

Canto VIII: Itamonte surge no fundo das águas a Garcia, conta-lhe dos sucessos de Albquerque. A ninfa conta a Garcia a história do Itamonte e os ciúmes de Apolo.

Canto IX: Eulina, a ninfa que levou Garcia, explica a Garcia o futuro das Minas Gerais e fala de seus governadores. Albuquerque encontra o sítio onde construíra Vila Rica. Narra-se a lenda de Blásimo. Albuquerque repreende os revoltosos: Manuel Nunes Viana e Frei Fco. de Menezes.

Canto X: Albuquerque convence o gigante Itamonte de suas virtudes. Descreve-se a construção da cidade de Vila Rica (igrejas, fontes, cadeia).

O poema de Cláudio tem um enredo que foge aos padrões clássicos exatamente por ter uma estrutura de rapsódia, onde três principais focos narrativos se cruzam. Primeiro, o drama de Garcia, em segundo, a missão pacificadora e organizadora de Albuquerque e o terceiro foco narrativo, a luta dos revoltosos. Esse cruzamento de focos narrativos é que compõe o labirinto do poema. Observa Hélio Lopes como a estrutura do poema parece confusa a uma leitura menos atenta do poema:

“A construção literária de Vila Rica desnorteia. Os cortes violentos dos episódios, justificados no desenrolar da ação, depois as retomadas do fio partido ocasionam natural perplexidade e causam no leitor a imagem de um texto caótico. Os acontecimentos caminham entre paradas súbitas e recuperam a linearidade sem aparente justificativa. Cria-se o desequilíbrio. A visível instabilidade do texto deixa, evidentemente, o leitor por sua vez jogado de um a outro ponto."

(LOPES, Hélio. Introdução ao Poema Vila Rica. p.162)

2. TOMÁS ANTONIO GONZAGA:

 
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Miragaia, freguesia da cidade portuguesa do Porto, em 11 de agosto de 1744. Era filho de mãe portuguesa e pai brasileiro. Órfão de mãe no primeiro ano de vida, mudou-se com o pai, magistrado brasileiro para Pernambuco em 1751, onde estudou no Colégio dos Jesuítas, em Recife. Com a expulsão da Companhia dos Jesuítas , em 1759, terminará seus estudos com aulas particulares.

Em 1761, voltou a Portugal para cursar Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se bacharel em Leis em 1768.
Desejoso de seguir carreira universitária, permanecerá mais nove anos em Portugal; escreverá a tese “Tratado de Direito Natural”, dedicado ao Marquês de Pombal, mas, com a queda deste, em 1777, logo trata de se mostrar de bem com a nova ordem e escreve um poema de congratulações à nova regente, Dona Maria I.
Exerceu o cargo de Juiz de Fora na cidade de Beja, em Portugal. Quando voltou ao Brasil, em 1782, foi nomeado Ouvidor dos Defuntos e Ausentes da comarca de Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, e terá oportunidade de reencontrar Inácio José de Alvarenga e muitos outros amigos de faculdade, além de rapidamente familiarizar-se com o grupo de homens instruídos e interessados em literatura. Torna-se amigo de Cláudio Manoel da Costa, a quem considera um mestre.
A vida passava em reuniões literária, um bom emprego, muito amigos. No entanto, em 1783, chega a Vila Rica, para governar a Capitania; o capitão-general Luís da Cunha Meneses. O novo governador revela-se um tirano, preocupado mais com seus próprios interesses do que com os problemas do povo da terra, além de contrariar em muitos pontos o ouvidor Tomás Antônio Gonzaga.
Os dois entrarão em conflito diversas vezes durante cinco anos (quando se muda o governador), o resultado das brigas será uma série de panfletos em verso escritos pelo poeta-ouvidor contra o governador, intitulados “Cartas Chilenas”, poema satírico em forma de epístolas, uma violenta crítica ao governo colonial.
Nessa época, além de seus dissabores nos negócios, Gonzaga, aos seus 40 anos, mantinha uma paixão secreta por uma adolescente de apenas dezesseis anos, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão. De família rica, a conquista da amada e o consentimento dos familiares no casamento exigirão do poeta muitos esforços e poemas.
Envolvido na Inconfidência Mineira, é acusado de conspiração e preso, em 23 de maio de 1789. Interrogado diversas vezes, negou sempre, e com muita habilidade, sua participação no movimento, mas não conseguiu escapar da incriminação.
Permaneceu em reclusão por três anos, na Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro tendo seus bens confiscados, durante os quais, teria escrito a maior parte das liras atribuídas a ele, pois não há registros de assinatura em qualquer uma de suas poesias. Em 1792, a sua pena, que seria a forca, foi comutada em dez anos de exílio em Moçambique, na África.
No mesmo ano é lançada em Lisboa a primeira parte de “Marília de Dirceu”, com 33 liras (nota-se que não houve participação, portanto, do poeta na edição desse conjunto de liras, e até hoje não se sabe quem teria feito, provavelmente irmãos de maçonaria). No país africano trabalha como advogado e hospeda-se em casa de abastado comerciante de escravos, vindo a se casar em 1793 com a filha dele, Juliana de Sousa Mascarenhas ("pessoa de muitos dotes e poucas letras"), com quem teve dois filhos.
Em 1799, é publicada a segunda parte de “Marília de Dirceu”, com mais 65 liras. No desterro, ocupou os cargos de procurador da Coroa e Fazenda, e o de juiz de Alfândega de Moçambique, cargo que exercia quando morreu.
Morrerá em 1810, rico, de bem com a Coroa portuguesa, esquecido do talento que o elevou a um dos mais importantes autores da nossa história literária.
É patrono da cadeira de número 37 da Academia Brasileira de Letras.

2.1. OBRAS:

Suas principais obras são:

LÍRICA:Liras de Marília de Dirceu” (coleção de poesias líricas, publicadas em três partes, em 1792, 1799 e 1812, hoje sabe-se que a terceira parte não foi escrita pelo poeta);

SATÍRICA:Cartas Chilenas” (impressas em conjunto em 1863);

JURÍDICA:Tratado de Direito Natural”.

2.2. CARACTERÍSTICAS LÍRICAS:


Tomás Antônio Gonzaga, ao lado de Basílio da Gama, foi o poeta mais equilibradamente neoclássico da nossa poesia.

O poeta alcançou sucesso imediato com a publicação de “Liras de Marília de Dirceu”, e é, até hoje, lembrado e celebrado por isso.
Escritas segundo os preceitos árcades, as “Liras” que compõem essa obra reconstituem a vida emotiva do Gonzaga, que aparece sob o pseudônimo de “Dirceu”, pela jovem Maria Joaquina Dorotéia de Seixas e que seria cantada com o pseudônimo de “Marília” em seus versos, apesar de ser muito discutível essa versão, tendo em vista as regras retórico-poéticas que prevaleciam no século XVIII, época em que o poema fora escrito.
O convívio com o Iluminismo põe em seu estilo a preocupação em atenuar as tensões e racionalizar os conflitos. Entretanto, Gonzaga infunde dois elementos não-convencionais à sua lírica:

A – A imitação direta da natureza de Minas, e não a natureza repoduzida do bucolismo greco-romano ou Renascentista;


I - Lira I


Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d'expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!



Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!



Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q'um rebanho, e mais q'um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

(...)

B – O lirismo como expressão própria, construído em torno da projeção artística de seu modo de ser e pensar, inspirado na estilização de sua alegria ou seu drama, decalcado no alicerce biográfico. Esta vertende subjetiva é mais visível na segunda parte das “Liras”, escrita no cárcere.

Lira XX

Se me viras com teus olhos
Nesta masmorra metido,
De mil ideias funestas,
E cuidados combatido,
Qual seria, ó minha Bela,
Qual seria o teu pesar?
À força da dor cedera,
E nem estaria vivo,
Se o menino Deus vendado,
Extremoso, e compassivo,
 Com o nome de Marília
Não me viesse animar.
Deixo a cama ao romper d'alva;
O meio-dia tem dado,
E o cabelo ainda flutua
Pelas costas desgrenhado.
Não tenho valor, não tenho,
Nem par de mim cuidar.
Diz-me Cupido: "E Marília
"Não estima este cabelo?
"Se o deixas perder de todo,
"Não se há de enfadar ao vê-lo?"
Suspiro, pego no pente,
Vou logo o cabelo atar.
Vem um tabuleiro entrando
De vários manjares cheio;
Põe-se na mesa a toalha,
E eu pensativo passeio:
De todo o comer esfria,
Sem nele poder tocar.
"Eu entendo que a matar-te,
"Diz amor, te tens proposto;
"Fazes bem: terá Marília
"Desgosto sobre desgosto."
Qual enfermo c'o remédio,
Me aflijo, mas vou jantar.
Chegam as horas, Marília,
Em que o Sol já se tem posto;
Vem-me à memória que nelas
Vi à janela teu rosto:
Reclino na mão a face,
E entro de novo a chorar.
Diz-me Cupido: "Já basta,
"Já basta, Dirceu, de pranto;
"Em obséquio de Marília
"Vai tecer teu doce canto."
Pendem as fontes dos olhos,
Mas em sempre vou cantar.
Vem o Forçado acender-me
A velha, suja candeia;
Fica, Marília, a masmorra
Inda mais triste, e mais feia.
Nem mais canto, nem mais posso
Uma só palavra dar.
Diz-me Cupido: "São horas
"De escrever-se o que está feito."
Do azeite, e da fumaça
Uma nova tinta ajeito;
Tomo o pau, que pena finge,
Vou as Liras copiar.
Sem que chegue o leve sono,
Canta o Galo a vez terceira;
Eu digo a Amor, que fico
Sem deitar-me a noite inteira;
Faço mimos, e promessas
Para ele me acompanhar.
Ele diz, que em dormir cuide,
Que hei de ver Marília em sonho,
Não respondo uma palavra,
A dura cama componho,
Apago a triste candeia,
E vou-me logo deitar.
Como pode a tais cuidados
Resistir, ó minha Bela,
Quem não tem de Amor a graça;
Se eu, que vivo à sombra dela,
Inda vivo desta sorte,
Sempre triste a suspirar?

O “páthos” romântico (melancolia, tédio, depressão) é, contudo, expresso num estilo clássico, contido pela harmonização dos elementos racionais e afetivos e, por um leve toque de sensualismo.
Segundo Alfredo Bosi, Gonzaga está acima de tudo preocupado em "achar a versão literária mais justa dos seus cuidados".

2.3. CARACTERÍSTICAS SATÍRICAS:

 
É uma obra satírica, constituindo poema truncado e inacabado (13 cartas das quais a 7ª e a 13ª em estado de fragmento), na qual um morador de Vila Rica ataca os desmandos morais e administrativos do Governador da Capitania de Minas, Luís da Cunha Menezes.

Onde se deveria ler Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila Rica, lê-se Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago. Os nomes aparecem quase sempre deformados: Menezes é Minésio. Há apelidos e topônimos inalterados, como: Macedo, a ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a igreja do Pilar.
O autor se dá o nome de Critilo e chama o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.
A matéria é toda referente à tirania e ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio, versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.
Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos decassílabos brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos, com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.
Para Critilo, o arbitrário Governador constituía, de certo modo, atentado ao equilíbrio natural da sociedade. Entretanto, não se nota nas “Cartas” nenhuma rebeldia contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta contra o colonizador; apenas se critica a má administração do Governdor Cunha Menezes. Seu significado político, todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica mais importante do século XVIII brasileiro e continua sendo o índice de uma época.
Sendo o poema anônimo e tendo permanecido inédito até 1845, houve dúvida quanto à sua autoria, até que o estudioso Rodrigues Lapa concluiu que o autor era mesmo Tomás Antônio Gonzaga, exceto por uma carta introdutória e alguns trechos que seriam de autoria de Cláudio Manoel da Costa.
As “Cartas” são um grande documento histórico da vida em Vila Rica naquela época, escritas em uma linguagem bastante agressiva, mas cujo objetivo maior, como o de toda sátira, não era simplesmente difamar os adversários de Gonzaga ou torná-los ridículos à opinião pública, mas sim expor os abusos de poder do Governador Meneses e os problemas da sociedade da época, com a intenção de moralizar minimamente a administração dos bens da Coroa portuguesa no Brasil e os hábitos da população, ou utilizando uma expressão adequada: “ridendo castigat mores” – rindo, castigam-se os costumes.

Carta 1ª

Em que se descreve a entrada que fez Fanfarrão em Chile.

Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.
Critilo, o teu Critilo é quem te chama;
Ergue a cabeça da engomada fronha
Acorda, se ouvir queres coisas raras.
"Que coisas, ( tu dirás ), que coisas podes
Contar que valham tanto, quanto vale
- Dormir a noite fria em mole cama,
Quando salta a saraiva nos telhados
E quando o sudoeste e outros ventos
Movem dos troncos os frondosos ramos?
É doce esse descanso, não te nego.
- Também, prezado amigo, também gosto
De estar amadornado, mal ouvindo
Das águas despenhadas brando estrondo,
E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,
Que então me pintam os ligeiros sonhos.
- Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;
Não falta tempo em que do sono gozes:
Então verás leões com pés de pato,
Verás voarem tigres e camelos,
Verás parirem homens e nadarem
- Os roliços penedos sobre as ondas.
Porém que têm que ver estes delírios
Co'os sucessos reais, que vou contar-te?
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama.
- Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na ideia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos
- Não és tu, Doroteu, aquele mesmo
Que pedes que te diga se e verdade
O que se conta dos barbados monos
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber se há grandes peixes,
- Que abraçando os navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrinzados panos?
Não queres que te informe dos costumes.
- Dos incultos gentios? Não perguntas
Se entre eles há nações, que os beiços furam?
E outras que matam, com piedade falsa,
Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas
- Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno chefe.
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, amigo, que podia
- Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!

3. MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA

Manuel Inácio da SILVA ALVARENGA nasceu em Vila Rica, capitania de Minas Gerais. Mestiço e pobre, filho bastardo do músico Inácio da Silva Alvarenga, transmitiu em sua arte poética um sentimento que o distinguiu dos demais árcades mineiros: uma obra poética que guarda uma variedade de gêneros admirável de odes encomiásticas a idílios, de composições bucólicas a poemas satíricos.
Com a ajuda de amigos, aos dezenove anos foi estudar Humanidades no Rio de Janeiro, e depois de dois anos ingressou na Universidade de Coimbra (1771).
Lá conheceu e fez amizades com intelectuais como Basílio da Gama e Alvarenga Peixoto. Filiou-se à Arcádia Ultramarina, com o nome de “Alcindo Palmireno” e publicou em 1774, o poema “O Desertor das Letras”, poema caracterizado pelo entusiástico apoio dado ao Marquês de Pombal pela civilização do ensino, revolucionária reforma educacional feita na Universidade portuguesa que destituiu os jesuítas das funções de administração e magistério até então exercidas.
Trata-se de um poema herói-cômico onde a personagem Gonçalo, estudante da instituição, decide abandoná-la por ver sua vida tranquila ameaçada pelas mudanças.

A composição seria a porta de entrada do estudante ultramarino para o rol de escritores e artistas protegidos pelo Marquês de Pombal. Ainda em Portugal, antes de retornar ao Brasil, Silva Alvarenga participou, com três composições, dos festejos de inauguração da estátua eqüestre de D. José I ocorridos na Praça do Comércio em junho de 1775.

Concluiu seu curso (1776), publicou “O templo de Nepturno” (1777), escrito em honra da aclamação de D. Maria I, e regressou ao Rio de Janeiro (1777). Começou a exercer a advocacia no Brasil e abriu um curso de Retórica e de Poética (1782) e foi nomeado professor régio por Luís de Vasconcelos e Sousa, vice-rei. Sob o governo do Marquês do Lavradio, protetor das ciências e das artes, tornou-se membro da Sociedade Científica do Rio de Janeiro. Ainda patrocinado por Vasconcelos e Sousa, abriu a Sociedade Literária do Rio de Janeiro (1786), que logo se transformou em clube de ideias democráticas. Acusado de cultuarem as ideias revolucionárias francesas e de subversão contra a Coroa portuguesa, por denúncia do frei Raimundo e do rábula José Bernardo da Silveira Frade, foi preso a mando do Conde de Resende, então vice-rei, que determinou o fechamento da Sociedade Literária do Rio de Janeiro e o encarceramento dos seus sócios.
Permaneceu no cárcere dois anos e oito meses, sujeito a rigorosa e humilhante devassa, confiada ao juiz Antônio Diniz da Cruz e Silva, que já servira na devassa da Inconfidência Mineira. Posto em liberdade (1797) por ordem de D. Maria I, ante a falta de provas concludentes para a sua condenação, publicou a primeira edição de “Glaura”: “Poemas eróticos”, na Oficina Nunesiana, Lisboa (1799). Voltou a ensinar e colaborou (1813), juntamente com o seu companheiro da Sociedade Literária do Rio de Janeiro, Mariano José Pereira da Fonseca, futuro marquês de Maricá, em O Patriota (1813-1814). Com a fundação de O Patriota, tornou-se um dos primeiros jornalistas brasileiros.
Composta por 1456 volumes, a biblioteca de Silva Alvarenga, segundo Borba de Moraes, foi uma das mais importantes do período colonial. Repousavam nas prateleiras do poeta desde compêndios de direito e textos eclesiásticos até romances franceses cuja leitura era controlada pela censura lusitana.
Com o falecimento do poeta em 1º de novembro de 1814, no Rio de Janeiro, o acervo passaria às mãos de “preta Joaquina”, sua “herdeira e testamenteira.”
No ano seguinte à sua morte, seus livros seriam adquiridos pela Real Biblioteca.

3.1. OBRAS:

Desertor das Letras”, 1774;
A gruta americana”, 1779;
Às artes”, 1788;
Glaura” (primeira edição), 1799;
Poemas eróticos”, 1801.

3.2. CARACTERÍSTICAS:

Silva Alvarenga não gozou do mesmo reconhecimento que tiveram seus colegas da chamada plêiade mineira aos quais seria ligado, como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Contudo, em seus poemas residem traços marcantes para a história literária colonial. Igualmente relevante foi sua atuação como homem de letras que procurou promover a circulação de saberes na colônia, observadas as condições específicas de atuação dentro do espaço luso-americano.
Com “Glaura”, torna-se o exemplo perfeito do estilo rococó em nossa literatura. Com seus rondós e madrigais, cultiva uma lírica de inspiração galante, envolvidos por intensa musicalidade.

 
O poeta apresenta uma “natureza decorativa, onde as pombas e borboletas se cruzam, o mar, o musgo, a areia, as flores e as matas constituem linda moldura carioca para os requintes arcádicos”, onde Alcindo Palmireno, pseudônimo pastoril de Silva Alvarenga, louva a pastora Glaura, que a princípio parece se esquivar desse canto amoroso. O sofrimento de Alcindo acabará sendo recompensado pela retribuição do afeto, porém Glaura morrerá em seguida, deixando o pastor imerso em depressão.

Segundo outros, a dicção sentimental revelaria traços pré-românticos, enquanto não cultua excessivamente as belezas postiças greco-romanas do repertório árcade.
O certo é que, apesar do encanto melodioso de alguns rondós, Silva Alvarenga é um poeta de superfície:

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a mangueira já florida
Nos convida a respirar.
Sobre a relva o sol doirado
Bebe as lágrimas da Aurora,
E suave os dons de Flora
Neste prado vê brotar.

*Rondó: composição poética com estribilho constante.
*Madrigal: composição poética galante e musical.

4. INÁCIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO:


Inácio José ALVARENGA PEIXOTO, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro, assim como na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde conheceu o poeta Basílio da Gama de quem se tornou um grande amigo.

Exerceu o cargo de Juiz de Fora da Vila de Sintra em Portugal, bem como a de Senador pela cidade mineira de São João Del-Rei. Também exerceu o cargo de Ouvidor da comarca de Rio das Mortes. Alvarenga, por esse tempo, se dedicou à agricultura e à mineração. O poeta tinha um caráter entusiasta e generoso, mas, ao mesmo tempo era ambicioso e perdulário. Com isso conquistou amigos, inimigos e muitas dívidas. Foi amigo dos poderosos da época e partilhava com os demais intelectuais de seu tempo ideias libertárias advindas do Iluminismo.
A imagem de mulher ideal construída sob os moldes do Iluminismo aliava a inteligência e a sensibilidade à beleza.
Em São João del-Rei, Alvarenga Peixoto encontra em Bárbara Eliodora os atributos correspondentes a esse perfil e se apaixona pela jovem de 20 anos, que passa a ter grande ascendência sobre o poeta. Por fim, pressionado pelas dívidas e pelos altos impostos, acabou se envolvendo na Inconfidência Mineira.
Denunciado como participante da trama foi deportado para Angola. Faleceu em 1793.

4.2. CARACTERÍSTICAS:


Alvarenga Peixoto possui pequena obra irregular e convencional, atrelada aos clichês árcades, ambientada na realidade mineira e caracterizada pelo sentimento nativista.

Fez poesia encomiástica e laudatória, enaltecendo o despotismo ilustrado do Marquês de Pombal e, por vezes, assumindo uma posição crítica diante da política colonialista portuguesa.
É considerado o poeta mais inexpressivo do século XVIII no Brasil, destacando-se, em sua produção lírica amorosa, a lira “Bárbara Heliodora”, sua esposa, e o soneto “Estela e Nize”.
Em seus poemas é fácil perceber uma postura crítica quanto à sociedade da época e atribui-se ao poeta o lema da bandeira da Inconfidência, extraída de um verso de Virgílio: “LIBERTAS, QUAE SERA TAMEN” (“Liberdade, ainda que tardia).
Sua diminuta obra foi recolhida por Rodrigues Lapa, porém a maior parte perdeu-se.

À D. BÁRBARA HELIODORA



Bárbara bela, do Norte estrela,
Que o meu destino sabes guiar,
De ti ausente triste somente
As horas passo a suspirar.



Por entre as penhas de incultas brenhas
Cansa-me a vista de te buscar;
Porém não vejo mais que o desejo,
Sem esperança de te encontrar.



Eu bem queria a noite e o dia
Sempre contigo poder passar;
Mas orgulhosa sorte invejosa,
Desta fortuna me quer privar.



Tu, entre os braços, ternos abraços
Da filha amada podes gozar;
Priva-me a estrela de ti e dela,
Busca dous modos De me matar!

(Poema dedicado à sua esposa, remetido do cárcere da Ilha das Cobras)

À MARIA IFIGÊNIA

Em 1786, quando completava sete anos.

Amada filha, é já chegado o dia,
Em que a luz da razão, qual tocha acesa,
Vem conduzir a simples natureza:
— É hoje que teu mundo principia.

A mão que te gerou, teus passos guia;
Despreza ofertas de uma vã beleza,
E sacrifica as honras e a riqueza
Às santas leis do Filho de Maria.



Estampa na tu' alma a Caridade,
Que amar a Deus, amar aos semelhantes,
São eternos preceitos de verdade;

Tudo o mais são ideias delirantes;
Procura ser feliz na Eternidade,
Que o mundo são brevíssimos instantes.

DE AÇUCENAS E ROSAS MISTURADAS

De açucenas e rosas misturadas
não se adornam as vossas faces belas,
nem as formosas tranças são daquelas
que dos raios do sol foram forjadas.



As meninas dos olhos delicadas,
verde, preto ou azul não brilha nelas;
mas o autor soberano das estrelas
nenhumas fez a elas comparadas.



Ah, Jônia, as açucenas e as rosas,
a cor dos olhos e as tranças d'oiro
podem fazer mil Ninfas melindrosas;



Porém quanto é caduco esse tesoiro:
vós, sobre a sorte toda das formosas,
inda ostentais na sábia frente o loiro!

4.3. BÁRBARA HELIODORA

Bárbara Heliodora, em gravura de Carlos Ayres, inspirado em traços históricos e figuras femininas das suas descendentes.


Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira nasceu em São João Del Rei, Minas Gerais, em 1759. Primeira poetisa brasileira, culta e revolucionária, Bárbara foi uma mulher que, em toda sua vida, agiu com coragem e fibra.
Aos 20 anos se apaixonou pelo poeta Alvarenga Peixoto. De seus amores nada convencionais nasceu uma filha, Maria Efigênia. Pode-se imaginar o escândalo que envolveu o fato, uma vez que não houve por parte do ouvidor nem do pai da noiva o mínimo empenho em legitimar a união, que só aconteceu dois anos após o nascimento da criança, provavelmente por interferência do bispo de Mariana.
A ligação entre os dois foi marcada pela harmonia e companheirismo. O casal teria, ainda, outros três filhos. Bárbara e Alvarenga Peixoto participaram da organização da Inconfidência do país.
Segundo Aureliano Leite, no livro "A Vida Heróica de Barbara Heliodora", a presença de Bárbara foi fundamental na vida de Alvarenga Peixoto: "...Ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalentou o seu sonho da Inconfidência do Brasil…quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Bárbara quem o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade fez com que a posteridade lhe desse tratamento de Harmonia da Inconfidência’’.
O casamento durou 10 anos, período da produção poética de Eliodora. Em 1789, época da Conjugação, Alvarenga Peixoto foi preso e arrastado de São João Del Rei ao Rio de Janeiro, sendo levado para a fortaleza da Ilhas das Cobras e, depois, ele seria mandado para África, onde morreria.
No cárcere, escreveu "Bárbara Bela", onde exaltava a dor da distância da mulher:

Bárbara Bela
Do norte estrela
Que o meu destino
Sabe guiar
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar
Pôr entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar
Porém não vejo
Mais te desejo,
Sem esperança
De te encontrar



Eu também queria
À noite e o dia
Contigo pode passar
Mas orgulhosa
Sorte invejosa,
D’esta fortuna
Me quer privar
Tu, entre os braços,
Temos abraços
Da filha amada
Pode gozar,
Priva-me da estrela
De ti e D’ela
Busca dou modos
De me matar!

Após a prisão de Alvarenga Peixoto, Barbara Eliodora não mais escreveu, teve a metade dos seus bens confiscados e passou a ser discriminada por toda a sociedade da época. Depois de viúva, passou a se dedicar à educação dos quatro filhos e à administração dos bens restantes. Em 1795 ela sofreu outra perda, Maria Ifigênia, em decorrência de uma queda de cavalo. Figura de expressão na Inconfidência Mineira, Bárbara foi muito tempo, retratada, em livros de história inclusive como demente louca, como que andava esfarrapada pelas ruas de São João Del Rei falando bobagens e loucuras. Neste século alguns escritores como Aureliano Leite, lutaram para resgatar a verdade de sua vida. Em "A Vida Heróica de Bárbara Eliodora", Leite afirmava que Bárbara viveu seus últimos vinte e tantos anos em perfeito juízo, nesse período cuidou dos negócios da família, foi admitida da ordem Terceira do Carmo, de São João Del Rei e morreu em São Gonçalo do Sapucaí, aos 60 anos, vitima de tuberculose: "A uma louca e indigente não se dedicaram exéquias dessa pompa".
Para Aureliano Leite, houve uma criação em torno da figura de Eliodora. Lendas que escondem dos brasileiros a verdade e que são desmentidas em palavras como a do escritor Uruguaio Rodrigues Fabregat (ver baixo), que qualifica Bárbara Eliodora de Mulher do Novo Mundo, colocando-a entre as mães da epopéia do Novo Mundo:

"…e esta outra, também de sua carne vem, grande e profética: que traz em seus lábios de Mulher, gladiadora ardente, clamores de despertar; que traz em suas mãos uma bandeira nova e alça sobre multidões estremecidas; que traz em sua mensagem um desejo de liberdade, um credo republicano que, com ele sobe até a cúpula de seu calvário e da história: que junto às minas de ouro das rapinas imperiais, fala com voz de brasileira, gente a proclamar direitos e conquistá-los; esta, de Vila Rica, em Minas Gerais companheira da inconfidência revolucionaria na saga heróica de VGRT e na morte mártir, esta mulher do novo mundo - oh, mãe epopéia do Novo Mundo!- cravada em seu madeiro de sacrifício com quatro escravos ardentes de Cruzeiro do Sul… Bárbara Eliodora!"

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da razão, qual tocha acesa,
vem conduzir a simples natureza:
- é hoje que o teu mundo principia.

A mão, que te gerou, teus passos guia;
despreza ofertas de uma vá beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do Filho de Maria.



Estampa na tua alma a Caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da Verdade.



Tudo o mais são ideias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.

Numa época em que poucas mulheres eram letradas, Bárbara Heliodora transmite valores humanos de grande sabedoria, ensina virtudes e recomenda atitudes prudentes e sensatas.

Nenhum comentário: