quinta-feira, 30 de junho de 2011

BARROCO MINEIRO: CRONOLOGIA E CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL


I – INTRODUÇÃO:


O Barroco, uma das formas de expressão artísticas mais visíveis, chega à América Latina, especialmente ao Brasil, com os missionários jesuítas, que trazem o novo estilo como instrumento de doutrinação cristã. Os primeiros templos surgem como uma transplantação cultural, que se utiliza de modelos arquitetônicos e de peças construtivas e decorativas trazidas diretamente de Portugal.
O Barroco desenvolveu-se no Brasil ao lado dos primeiros núcleos urbanos. As principais manifestações dessa arte foram ás construções religiosas levantadas em Salvador e Recife. Mas, o enriquecimento provocado pela mineração e a forte religiosidade dos povos das minas, favoreceram o desenvolvimento das artes em Minas Gerais.
A concentração de riqueza acentuou as diferenças regionais num território tão extenso, fazendo surgir manifestações artísticas distintas em cada porção. Todas, porém, ligadas a um barroco tardio, mas singular, que explodia no Brasil com mais de um século de atraso em relação à Europa.
A distância do litoral e as dificuldades de importação de materiais e técnicas construtivas como se fazia de hábito no litoral, vão dar ao Barroco de Minas Gerais um caráter peculiar, que possibilita a criação de uma arte diferenciada, marcada pelo regionalismo.
Forçados pelas circunstâncias a apresentarem soluções formais sem uma grande disponibilidade de modelos eruditos, e em sua maioria autodidatas, os escultores da escola mineira não se aglutinaram em torno de um único princípio estético, e sua produção se caracteriza pela diversidade e pelo ecletismo, ao contrário de outras escolas importantes como a da Bahia ou de Pernambuco, que eram bem mais informadas sobre a arte européia e produziam em série para um vasto mercado nacional.
Nesse contexto, surgem artistas que trabalham a partir das condições materiais da região, adaptando os ideais artísticos à sua vivência cotidiana.
Alguns traços têm sido apontados como típicos de Minas Gerais: a ausência de padrões essencialmente repetitivos ou acadêmicos, uma policromia menos carregada, mais uniforme e mais econômica que similares litorâneos, feições mais ingênuas e joviais e um tratamento dos trajes que nem sempre prima pela lógica, embora o dinamismo seja constante.
O termo usualmente se refere à arquitetura desse período, mas teve expressões importantes também na escultura e na pintura.
O termo Barroco Mineiro, porém, apesar de consagrado pelo uso, é uma formulação inexata, visto que boa parte da manifestação artística desse período em Minas Gerais aconteceu dentro da esfera do Rococó, que muitos estudiosos consideram não um simples estilo Barroco, mas uma escola independente.

II – DADOS CRONOLÓGICOS:

O marco inicial do Arcadismo no Brasil foi à publicação em 1768, de “Obras poéticas”, do escritor mineiro Cláudio Manuel da Costa.
Ocupando praticamente a segunda metade do século XVIII, o Arcadismo estenderá oficialmente até 1836, quando o escritor Gonçalves de Magalhães publicará a obra “Suspiros poéticos e saudades”, que dará início, no Brasil, ao Romantismo.
O Arcadismo no Brasil tem seu surgimento marcado por dois aspectos centrais: de um lado, o dualismo dos escritores brasileiros do século XVIII, que, ao mesmo tempo, seguiam os modelos culturais europeus e se interessavam pela natureza e pelos problemas específicos da colônia brasileira; de outro, a influência das ideias iluministas sobre nossos escritores e intelectuais, que acarretou o movimento da Inconfidência Mineira e suas trágicas implicações - prisão, morte, exílio, enforcamento.

III – CONTEXTO HISTÓRICO, SOCIAL E CULTURAL NO BRASIL:


Segundo Affonso Ávila,


"A experiência singular da Capitania das Minas Gerais constituiu, pelas peculiaridades do condicionamento econômico e do processo civilizador, um momento único da história cultural brasileira. E se o ouro e o diamante - ou melhor, se a indústria da mineração foi, no campo de economia, o fator material de cristalização e autonomia da cultura montanhesa, o atavismo barroco preparou-lhe o suporte espiritual, imprimindo à vida da sociedade mineradora os seus padrões ético-religiosos e impondo às manifestações criativas os seus valores e gostos estéticos. Sem essa unidade de conformação filosófica jamais seria possível a sedimentação de uma cultura tão autêntica em sua individualidade, fenômeno não de uma contingência histórico-regional, mas de uma polarização de virtualidades étnicas da gente colonizadora que aqui encontrariam condições excepcionais de expansão e afirmação".



O Arcadismo brasileiro originou-se e concentrou-se principalmente em Vila Rico-MG. (hoje Ouro Preto), verificado nas cidades mineiras do século XVIII, cuja base econômica era a extração de ouro.

Se os diamantes e o ouro das Minas e as reformas do Marquês de Pombal financiaram o aburguesamento da sociedade portuguesa, eles não deixaram de produzir também no Brasil os seus frutos. O controle da produção das minas exigiu da metrópole a criação de uma estrutura burocrática que permitiu certa civilização do ambiente rústico das Minas Gerais, no século XVIII: Vila Rica, atual Ouro Preto; Mariana; São João Del Rei e tantas outras cidades mineiras, de repente, viram-se tomadas não só por milhões de escravos e rudes garimpeiros, mas também por bacharéis que vinham para cá dar conta do serviço burocrático da Coroa. Esses bacharéis eram, normalmente, brasileiros ou filhos de portugueses que tinham negócios no Brasil.
O crescimento espantoso dessas cidades favorecia tanto a divulgação de jovens brasileiros que providos das camadas privilegiadas daquela sociedade, foram estudar em Coimbra, já que a Colônia não lhes oferecia cursos superiores, e, ao retornarem de Portugal, traziam consigo as ideias iluministas que faziam fermentar a vida cultural portuguesa à época das inovações políticas e culturais.
Essas ideias em Vila Rica levaram vários intelectuais e escritores a sonharem com Inconfidência do Brasil, principalmente após a repercussão da Independência dos EUA (1776). Chegados de Coimbra com ideias enciclopedistas não apenas engrossaram as fileiras dos revoltos contra erário régio, que confiscavam a maior parte do ouro extraído na Colônia, como, também divulgaram os sonhos de um país independente e contribuíram para a organização do grupo inconfidente. Na condição de grandes proprietários e intelectuais de elite, membros influentes na sociedade passaram a propagandear a conspiração, que chegou a repercutir no Rio de Janeiro.
Entre os mais importantes inconfidentes estavam: o tenente coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, José Álvaro Maciel, Padre Carlos Toledo e Melo, Padre José da Silva Rolim, Inácio de Alvarenga Peixoto (um dos principais intelectuais do grupo, poeta e músico), Cláudio Manuel da Costa (advogado, escritor e poeta), Tomás Antônio Gonzaga (poeta e escritor), Domingos Vidal Barbosa, José Resende da Costa, José Aires. João Dias da Mota, Luís Vaz de Toledo Piza, Domingos de Abreu Vieira, Francisco Antônio de Oliveira Lopes e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
No entanto, antes do dia marcado, um dos conspiradores, Joaquim Silvério dos Reis traiu o grupo, levando ao conhecimento do governador Luís da Cunha Menezes o levante. Com a traição o traidor, que devia vultosas somas ao governo português, a reação do governo foi imediata: a Devassa foi completa, mas a ideia de um país livre e independente de Portugal estava lançada.


Cláudio Manuel da Costa, 60 anos, segundo versão oficial, suicidou-se na prisão, nos porões da Casa dos Contos, em Ouro Preto, em 4 de julho de 1789, antes do julgamento. Segundo alguns, o poeta não teria revestido ao sentimento de culpa, uma vez que havia delatado, sob tortura, os participantes da conjuração. Com tudo, essa versão vem sendo contestada. Até hoje, em Ouro Preto, se fala que várias igrejas badalaram os sinos quando da morte do poeta. Por tradição, a igreja nunca toca os sinos a suicidas, o que pode ser indicio de assassinato e não suicídio.No dia 20 de abril de 1792, foi comutada a pena de todos participantes, excluindo Tiradentes, enforcado no dia seguinte, campo da Lampadosa (hoje Praça Tiradentes), no Rio de Janeiro. Além de enforcado, Tiradentes foi decapitado e esquartejado, sua cabeça exposta em Vila Rica e os quatro quartos do corpo dependurados em postes ao longo do Caminho Novo, que ele tantas vezes percorreu. Seus bens foram confiscados, sua família, amaldiçoada por quatro gerações; sua memória declarada infame e o chão de sua casa foi salgado para que dele nada mais brotasse.
Tomás Antônio e outros foram condenados ao exílio temporário ou perpétuo e todos perderam bens, cargos e foram condenados ao degredo ou à prisão.


Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro, permanecendo incomunicável numa masmorra escura por quase três anos. Durante o processo de investigação, denominado Devassa, foi ouvido quatro vezes e confrontado com seus denunciadores e co-réus. A princípio negou tudo, mas diante de outros depoimentos assumiu a responsabilidade do levante, inocentando os demais conspiradores.


Mesmo após a Independência do Brasil, em 1822, Tiradentes não seria reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira. Somente em 1867 é que se ergueu em Ouro Preto um monumento em sua memória, por iniciativa do presidente da província Joaquim Saldanha Marinho. Mais tarde, no período republicano, o dia 21 de abril se tornou feriado nacional, e, pela lei 4.867, de 9 de dezembro de 1965, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira.

 
Ainda que não se possa falar em uma Literatura Nacional, começa a haver no Arcadismo a integração orgânica entre a população da Colônia, os autores e suas obras. O nativismo e o ufanismo não se exaurem na descrição laudatória da fauna e da flora, ou dos aspectos exóticos e pitorescos; mas, há já um caráter reivindicatório exteriorizado, pelas rebeliões coloniais contra a metrópole portuguesa dando início a trajetória que levaria, mais tarde, à emancipação política e literária do Brasil.

O apogeu do ouro na região favoreceu um rápido crescimento urbano e, o uso da religião e da arte tornaram-se instrumentos de controle que visavam conter uma escandalosa relaxação de costumes.
A urgente necessidade de braços para as lavras levou para Minas a escravaria disponível no Norte do País, que, aliás, já estava conhecendo o declínio da produção açucareira e, por isso mesmo, prescindia de escravos.
Nos processos iniciais de fixação, as dificuldades materiais e a falta de recursos tolheram ou impediram uma imediata manifestação de cultura lusitana. Nas construções, no mobiliário, nos utensílios domésticos, nas ferramentas, nos vestuários e até mesmo nos mais rudimentares processos manufatureiros, como a cerâmica ou a tecelagem, os portugueses, voltados geralmente para os negócios, apelaram, a princípio, para as técnicas indígenas, mamelucas, mulatas ou negras, as únicas disponíveis na época.
Era o mulato que executava e criava obras de arte. E foi com o mulato, autenticamente brasileiro, que surgiu uma manifestação realmente nacional em termos culturais. Esse fato é explicado em função da relativa liberdade desse segmento na obtenção de serviços que não podem ser feitos nem pelos escravos, nem pelos brancos, que não realizavam trabalhos manuais.
A vida urbana de Vila Rica (elevada à categoria de cidade em 1714 e batizada Ouro Preto, em 1897) abriga uma população heterogênea, um intenso comércio e diversos tipos de artes: música, literatura (os integrantes da Arcádia), arquitetura, pintura e escultura.
Em nossas sociedades antigas, tanto do litoral como nas do interior, a religião era a grande preocupação. Em Minas do século XVIII, no entanto, foi proibida a fixação de ordens religiosas e respectivos conventos. Os padres mineiros eram todos seculares. O poder governamental impunha o terror policial, zelando pelo ouro do Rei e pela ordem. A imprensa era proibida, assim como as escolas, que na área litorânea eram conventuais e irradiavam alguma cultura. A indústria não existia só deixavam tecer algum pano rude para a tanga escrava; o resto vinha de fora, passando pelos "registros", onde toda a mercadoria era examinada.
A conformação urbana das vilas mineiras e a fé intimista, em que cada fiel se relaciona com seu santo protetor, viabilizam uma forma de expressão única, que se define como um gosto artístico e, mais do que isso, como um estilo de vida, um modo de ver, sentir e vivenciar a arte e a fé.
A instabilidade e a incerteza da exploração aluvionária incitavam a busca por algum tipo de assistência mútua. Cabia aos leigos a organização, a celebração dos ofícios, as práticas religiosas e o exercício solidário, características incentivadas para a sobrevivência do sistema colonial durante o período de ligeira emergência dos núcleos urbanos. Foi assim que a vida social mineira organizou-se de modo particular evidenciado pela primazia das IRMANDADES se consolidaram como formas de organização religiosa, civis e social distintas, a partir do critério racial, consolidadas mesmo antes do aparelhamento burocrático e militar da região. Toda a população mineira, sem exceção, filiou-se a essas confrarias.
As irmandades praticamente reduziam os padres á simples empregados e lutavam entre si: a dos brancos contra as pessoas de cor, estabelecendo "termos", que interditavam o ingresso de pretos, de mulatos e de brancos casados com gente preta ou parda; as dos pretos contra as dos mulatos, como Rosário e Mercês, rivais em Diamantina.
A rivalidade entre as diversas irmandades religiosas existentes incrementou a Arquitetura em Minas, com construção de templos suntuosos, inclusive às dos negros, que ostentam fachadas e interiores ricamente ornamentados (pinturas, entalhes e estatuária), conquistando destaque no campo artístico de suma importância no panorama da arte universal.
A música sacra encontrou nesses locais de culto, espaços para seu cultivo sistemático, e o teatro da mesma forma teve impulso tanto no gênero recitado como no musical, com a apresentação de óperas.
Essas associações de leigos foram as financiadoras do trabalho dos artífices, artistas e artesãos do período. A quantidade expressiva de construções religiosas e o mecenato leigo, dessa forma, devem ser compreendidos como aspectos indissociáveis do Barroco Mineiro.

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