segunda-feira, 13 de junho de 2011

ARCADISMO, SETECENTISMO OU NEOCLASSICISMO LITERÁRIO

Jean-Antoine Watteau, “Festas venezianas”.


“O verdadeiro é o natural, o natural é o racional. [...] A literatura seria, consequentemente, expressão racional da natureza, para assim manifestar a verdade, buscando á luz do espírito moderno uma íntima encarnação da mímesis aristotélica”.


I – LOCALIZAÇÃO:

Arcadismo, Neoclassicismo ou Setecentismo (anos 1700) são as denominações que recebe o movimento artístico do século XVIII.
Desenvolve-se uma reação contra o barroquismo dos seiscentos, expressa num amplo movimento de restauração classicizante, em que o espírito clássico ressurge sob a forma de neoclassicismo.
É o Século das Luzes, do Iluminismo, da Ilustração superando os conflitos espirituais da fé e religião da época anterior.
O Arcadismo se define na literatura ocidental pela influência do Classicismo francês (Neoclassicismo), que ao contrário dos principais países da Europa em que a estética clássica atingiu o seu apogeu no século XVI, na França o Classicismo atingiu o seu clímax no século XVIII. Como esta era um centro político, econômico e cultural do continente, a sua influência sobre os outros países será enorme e ocorrerá sobretudo pela divulgação das obras dos principais autores franceses por toda a Europa: as tragédias de Racine; as comédias de Molière; as fábulas de La Fontaine; a estética de Boileau, etc.
No final do séc. XVII fixou residência em Roma, a jovem ex-rainha Cristina da Suécia, que renunciara ao trono e ao luteranismo, convertendo-se ao catolicismo.
Mulher inteligente e culta, desde a Suécia habituara-se a cercar-se de sábios e artistas, para discussão e leitura de trabalhos literários. Em Roma, atraiu para essas reuniões a fina flor da inteligência local, formando um cenáculo intelectual que, após sua morte, se transformaria na Arcádia (1690).
Nasceu, assim, com regulamentos e programas, a nova academia, composta de 16 membros. Tinha o objetivo de reconduzir à fonte da natureza, à simplicidade de sentimento e de estilo, a poesia e, em geral, a literatura, que, na opinião dos seus componentes, estavam desviadas pelos “cattivo gusto”, herança do barroco.
O nome de Arcádia era dado na Grécia antiga à região do Peloponeso, morada do deus Pan, e onde a tradição imaginava residirem todos os pastores com seus míticos e plácidos costumes, em contato com a natureza, onde residiam a beleza, pureza e espiritualidade. Procuravam adoçar a dureza do viver mercê de uma disposição para o canto e a dança, as canções de amor e as pugnas poéticas, caracterizadas pela espontaneidade e simplicidade.

François Boucher, “A fonte do amor”


As reuniões eram realizadas em parques e jardins.
Em pouco tempo, as “Arcádias” alastrou-se pela Europa. É por isso que, ao contrário da França, tanto em Portugal como no Brasil esse período literário é conhecido por Arcadismo.
O movimento artístico em Portugal teve início em 1756, com a fundação da “Arcádia Lusitana” (1756-1774), ou “Ulissiponense” reunindo escritores de renome: Antônio Dinis da Cruz e Silva, Gomes de Carvalho, Manoel de Figueiredo, Cândido Lusitano, Domingos dos Reis Quita, Correia Garção, José Caetano de Mesquita. Houve, ainda, a “Nova Arcádia”, no final do século XVIII, de que foram membros Bocage e José Agostinho de Macedo e irá estender-se até 1825, dando início à estética romântica.

 
Os membros da “Nova Arcádia” chamavam-se “pastores”, cada um adotando um nome pastoril, grego ou latino, sendo o presidente eleito e designado “guardião geral”.

O marco inicial do movimento árcade no Brasil data de 1768, com a publicação de “Obras” de Cláudio Manoel da Costa.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

O jesuitismo contra-reformista perde a relevância, e, politicamente, os reis não mais se apóiam no poder eclesiástico e na teoria do Direito Divino dos Reis, mas nos princípios racionais do Despotismo Esclarecido, cujo fermento ideológico baseava-se nas teorias de Montesquieu e Voltaire. Por outro lado, a burguesia está em plena ascensão, depois de anos de trabalhos forçados, é o momento do emprego da energia a vapor na indústria têxtil.
Mas, com declínio da aristocracia e com ascensão da burguesia, sente-se a tendência para uma renovação do gosto literário e do credo estético, com o esgotamento da literatura cortês do barroco.
Mudanças generalizadas provinham da França e irradiavam por todo o continente, obrigando os reis a uma reforma administrativa, fazendo com que se descentralizassem os seus interesses e se preocupassem com a vida dos seus súditos.
A ciência proporcionará o desenvolvimento tecnológico e intelectual, substituindo o atraso cultural teocêntrico do Século das Trevas.
Personalidades importantes surgem: Newton na Física, Lavoisier na Química, Lineu e Bueton na Biologia, Locke e outros.
A nova estrutura social traduz-se em críticas à ordem social vigente, implícitas ou explícitas no Iluminismo, Rousseau, em “O Contrato Social” e “Emílio”, nega as desigualdades entre os homens, firmando as teorias do Homem Natural e do Bom Selvagem, com desdobramentos que se estendem até meados do século seguinte.
Montesquieu, com “O Espírito das leis”, fundamenta a noção de que a sociedade deve ser racionalmente reformada, propondo a divisão tripartida do poder: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Voltaire, com as “Cartas Filosóficas”, ataca, com sua proverbial ironia, as instituições do clero e da monarquia de direito divino. É um momento de transferência da liderança histórica da aristocracia para a classe média.

 
III – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL EM PORTUGAL:


Portugal vivia, no século XVII, um cenário de grande prosperidade, gerada pelo afluxo do ouro do Brasil e de reformas administrativas e educacionais pela assimilação dos ideais do Iluminismo.
Marquês de Pombal, ministro do reinado de D. José I (1750-1777), é, politicamente, um completo déspota esclarecido.
Expulsa os jesuítas do Brasil; reforma o currículo escolar, incluindo na grade as disciplinas: de teatro, música, dança e esporte; estimula a divulgação das ideias científicas da época e decreta a laicização do ensino (criação do ensino não religioso, estatal ou particular).

IV – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL NO BRASIL:

 
 
Ainda que não se possa falar em uma Literatura Nacional, começa a haver no Arcadismo a integração orgânica entre a população da Colônia, os autores e as obras; vale dizer, só a partir da segunda metade do século XVIII, há autores brasileiros em cujas obras, ocorrem a ressonância da vida da Colônia e seus anseios.

O nativismo e o ufanismo não se exaurem na descrição laudatória da fauna e da flora, ou dos aspectos exóticos e pitorescos; mas, há já um caráter reivindicatório exteriorizado, ao nível da sociedade brasileira, pelas rebeliões coloniais contra a metrópole portuguesa dando início a trajetória que levaria, mais tarde, à emancipação política e literária do Brasil.
A descoberta do ouro em Minas Gerais teve profundos reflexos na vida nacional. Dela decorreram:
1. O deslocamento do centro econômico da Colônia do Nordeste (Pernambuco e Bahia) para o Sul (Minas Gerais e Rio de Janeiro), este último escoadouro natural da produção aurífera mineira;
2. O surgimento de uma sociedade urbana, complexa, nas cidades mineiras, com maior mobilidade social;
3. O recrudescimento da fiscalização sobre a arrecadação dos tributos devidos a Portugal e o aumento da carga tributária, o que provocou reações, como a Rebelião de Vila Rica e a Inconfidência Mineira;
4. A estabilização de uma sociedade culta, constituída de funcionários da Coroa, magistrados, mineradores e comerciantes, que estudaram na Europa, assimilando os ideais iluministas;
5. O aparecimento de associações de homens cultos, as Academias e Arcádias, que transpunham para a Colônia os modismos artísticos e intelectuais da Europa.

V – CARACTERÍSTICAS ESTILÍSTICAS DO ARCADISMO:

 
“Casa no campo”

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza dos amigos do peito e nada mais.
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais.

Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No me jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
E o filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal.

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal
Pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais.

Zé Rodrix e Tavito, 1972.

1. A reação ao Barroco e a volta do Equilíbrio:
O movimento árcade veio iluminar as ideias obscuras do barroco, substituindo o medo, a insegurança e o pessimismo, por uma atitude otimista, de harmonia, equilíbrio e naturalidade; restabelecendo a poética antiga, a forma clássica, o “buono stile”, a “naturalezza del dire”, cantando o amor, a natureza, a vida simples e bucólica.

2. Racionalismo e Universalidade:
O progresso científico foi uma característica do século XVIII e com ele veio á crença nas infinitas possibilidades do intelecto humano alicerçado na razão. Intelectualismo e racionalismo serão, então, os guias do homem na busca da verdade que pode ser entendida por ciência. E o objetivo da ciência é compreender o mundo natural, é estabelecer regras universais e intemporais que existem na natureza.
Os aspectos subjetivos e dualísticos da existência são evitados. A arte ganha finalidade didática, objetiva, política, ideológica como expressão artística da burguesia veiculada aos ideais do iluminismo. O poeta árcade é um pintor de situações, não de emoções. Embora não seja a preocupação central da maioria dos poetas árcades, ideias de liberdade, justiça e igualdade social estão presentes em alguns textos da época.
Boileau em “Arte poética” defende a importância da razão sobre a emoção.

“Antes, pois, de escrever, aprendei a pensar.”

3. “Inutilia Truncat”:
Do ponto de vista formal, o tema era a célebre expressão latina “Inutilia Truncat”, cortar as inutilidades da escola anterior, desde a linguagem rebuscada, a ordem indireta e os excessos de figuras de linguagem, para uma simplicidade de estilo, ordem direta da frase, clareza, verso branco, fazendo com que a poesia, muitas vezes, se aproxime da prosa.

4. “Mímesis”:
Os clássicos, inspirados na teoria aristotélica da arte, propunham a ideia de que a fonte da poesia deveria ser a imitação direta, a cópia da natureza. Os poetas árcades, assim, deveriam buscar os ensinamentos dos antigos considerados o alicerce da perfeição, do belo, do bem e da verdade, e recriá-los. Deveria obedecer às convenções estabelecidas, retomar os motivos clássicos greco-romanos, respeitada sempre a verossimilhança. Dessa forma, o poeta árcade não é um criador, para ele, é mais relevante a cópia do modelo e esta atitude é o que se denomina Mímesis.
Na poesia árcade, as situações são artificiais; não é o próprio poeta quem fala de si e de seus reais sentimentos. No plano amoroso, por exemplo, quase sempre é um pastor que confessa seu amor por uma pastora e a convida para aproveitar a vida juntos à natureza. Isso ocorre devido ao convencionalismo amoroso, que impede a livre expressão dos sentimentos, levando o poeta a racionaliza, além de manter-se o distanciamento entre os amantes, que já se verificava na poesia clássica.
Por exemplo:

Camões

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.


Cláudio Manuel da Costa

Faz a imaginação de um bem amado,
Que nele se transforma o peito amante,
Daqui vem, que a minha alma delirante
Se não distingue já do meu cuidado.

5. Natureza bucólica e pastoril:


Riachos cristalinos, campinas verdejantes, alamedas floridas, campos agrestes, pastores e ovelhas constituem a moldura obrigatória de quase toda poesia árcade.

Essa natureza convencional é sempre o cenário que emoldura a vida serena dos pastores e de suas musas, os suaves idílios campestres e, às vezes, é testemunha impassível dos lamentos e desenganos do poeta. A felicidade e a beleza só são possíveis com o retorno à singeleza do campo. Esta postura pode-se explicar, de um lado, pela reabilitação da poesia bucólica de Ovídio, Horácio e Virgílio, modelos obrigatórios da época; por outro lado, o processo de concentração urbana e a saturação das cidades levam o poeta a buscar no campo a pureza e a felicidade perdidas.

Aquele adore as roupas de alto preço,
Um siga a ostentação, outro a vaidade;
Todos se enganam com igual excesso.

Eu não chamo a isto já felicidade:
Ao campo me recolho, e reconheço,
Que não há maior bem, que a soledade.

Cláudio Manoel da Costa

6. Herança greco-latina:


François Boucher, “Vênus consola o Amor”, 1751.


A necessidade de fugir da cidade (Fugere Urbem) e buscar na vida simples do campo (Bucolismo) a tranquilidade e o ideal de paz, rodeado de um cenário perfeito, maravilhoso e ameno (Locus Amoenus), valorizando a vida serena dos pastores (Pastoralismo) e de suas amadas, levam os poetas a refletirem sobre efemeridade de tudo, a fugacidade do tempo, impulsionando-os a aproveitar o dia (Carpe Diem), expressão da postura hedonista, voltada para o gozo dos prazeres.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde, já vêm frias,
E podem, enfim, mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças,
E ao semblante a graça!

Tal princípio era reforçado pelo pensamento do filósofo francês Jean Jacques Rousseau, segundo o qual a civilização corrompe os costumes dos homens, que nasce naturalmente bom. Porém, tratava-se de puro fingimento, pois essa perfeição de cenário era fruto de uma criação racional, moldada nos padrões da Antiguidade.
Outro traço presente advindo da poesia horaciana é a vida medíocre materialmente, mas rica em realizações espirituais, Aurea mediocritas (mediania ou equilíbrio de ouro), idealização de uma vida pobre e feliz no campo, em oposição à vida luxuosa e infeliz na cidade e, exaltação do herói simples, humilde, honrado.

Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, com as enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.

7. Pré-Romantismo:
O surgimento de poetas que não conseguindo se adaptar às rígidas normas da teoria árcade acabaram, na prática, por ser destacar da maioria da produção poética do período e recorreram ao individualismo, à sinceridade na expressão dos sentimentos. Esses poetas, presos ainda às fórmulas da estética do Arcadismo para expressar seus sentimentos, mas expressando-os de maneira bastante distante do ideal da escola, são classificados de pré-românticos, pois anteciparam muitas das características do Romantismo que dominaria todo o inicio do século XIX.

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