domingo, 15 de maio de 2011

ESPUMAS FLUTUANTES: O LIRISMO AMOROSO E A POESIA SOCIAL DE CASTRO ALVES


I – AUTOR:




Antônio Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847 na cidade de Curralinho (hoje Castro Alves), na Bahia. Em 1862 seguiu para o Recife para fazer o preparatório ao curso da Faculdade de Direito do Recife, onde ingressou em 1864. Participou ativamente do movimento acadêmico e foi militante de primeira hora da campanha abolicionista que começava a ser deflagrada na capital pernambucana. Tornou-se um dos líderes do movimento ao lado de outro grande nome da época, Tobias Barreto.
Por esse tempo, apaixonou-se pela atriz portuguesa Eugênia Câmara, com quem partiu para a Bahia em 1867. Para sua amada escreveu o drama “Gonzaga ou A Revolução de Minas”, representado no Teatro de S. João, em Salvador, alcançando grande sucesso, tanto o autor quanto a intérprete.
No ano seguinte, foi para o Rio de Janeiro, com carta de apresentação para José de Alencar, que o enalteceu publicamente, apresentando-o a seguir a Machado de Assis, o qual fez uma crítica extremamente elogiosa do poeta baiano. Em março desse ano, transferiu-se para São Paulo, onde pretendia continuar seus estudos de Direito, tendo ingressado no 3°. ano do curso. Tornou-se amigo, entre outros, de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Alguns meses depois de sua chegada a São Paulo, rompeu com Eugênia Câmara, o que lhe produziu imenso sofrimento. Em São Paulo escreveu “O Navio Negreiro” e “Vozes d’África”, dois de seus mais conhecidos poemas abolicionistas.
Certo dia, durante uma caçada, um tiro acidental feriu-lhe o pé. Agravado o ferimento, foi submetido a uma operação de amputação, no Rio de Janeiro. Com a saúde debilitada, acometido de tuberculose, voltou à Bahia em 1870, onde morreu, ao lado da família aos 24 anos de idade, quando compunha “Os Escravos”.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:


A obra “Espumas Flutuantes” está inserida na terceira fase do Romantismo brasileiro, também chamada de geração condoreira ou hugoana, da qual Castro Alves é considerado o melhor representante.
Nessa época, o Brasil passava por uma fase de intensas transformações, principalmente ligadas ao enfraquecimento do regime monárquico. Nas faculdades, as ideias liberais e republicanas eram propagadas, conduzindo os jovens a um clima de revolta e rebeldia. Os estudantes das faculdades de Direito, principalmente no Recife, inconformados com a demora da República e da Abolição, protestavam nas ruas, faziam comícios e realizavam atos públicos. Soldados a cavalo invadiam praças públicas, prendendo os revoltosos. Entre estes estava um estudante baiano, que já era conhecido nos meios estudantis do Recife por seus poemas inflamados: Castro Alves, que logo passou a ser conhecido como “Poeta dos Escravos”, tamanho era o ímpeto abolicionista de seus versos.
Foi nesse clima que surgiu a terceira fase romântica, influenciada pelos textos de Victor Hugo, poeta e escritor francês. Influência esta cantada pelo próprio poeta Castro Alves em “Espumas Flutuantes”:

“Irei contigo pelo ermo – lento, / Cismando, ao pôr do sol, n’um pensamento/ Do nosso velho Hugo./ - Mestre do mundo! Sol da eternidade!...Para ter por planeta a humanidade,/ Deus n’um cerro o fixou”, assim, esses versos deixam bem claros o objetivo central da poética condoreira: o sentimento humanitário.
A essas ideias reformistas, sociais e libertárias deu-se o nome de condoreirismo.


III – TÍTULO:


“Espumas Flutuantes”, 1870, foi á única obra que teve a edição revisada pelo autor, em sua breve vida. Dela o poeta retirou todas as poesias com temática abolicionista, das quais tencionava reunir em volume próprio, obra que viria ser publicada postumamente com o título de “Os Escravos”.

O volume contém 53 poemas lírico-amorosos e poemas de caráter épico-social; e, um drama cômico “Uma Página de Escola Realista”.
O título, à primeira vista, soa estranho, até certo ponto, ininteligível e sugere transitoriedade, como se o poeta estava consciente que seu fim estava próximo.
A explicação a tal questão é encontrada no “Prólogo” da obra.
Diz o poeta que quando voltava, em 1870, para a sua querida terra natal, já desenganado:

“Volvia agora silencioso e alquebrado...trazendo por única ambição - a esperança de repouso em minha pátria”.

Lembra-se então dos amigos que deixara nas “terras do sul”:

“E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...”

Assaltam-lhe o espírito muitas ideias, dentre elas, a brevidade da vida, a passagem pelo mundo sem deixar marcas. Neste momento, o jovem poeta observa o mar e conclui:

“Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!...Vós bem sabeis quanto sois efêmeros...- passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
E quando - comediantes do infinito - vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?
- Uma esteira de espumas... - flores perdidas na vasta indiferença do oceano. - Um punhado de versos...espumas flutuantes no dorso fero da vida!”

Neste fragmento encontra-se a ânsia do autor, que pretende superar a efemeridade de todas as coisas no mundo, através do fogo eterno da arte. Morre o poeta, sobrevive sua criação. Cala-se o homem, mas sua voz continua a se fazer ouvir pelos tempos afora nos versos que deixou.
Mais de um século depois de sua morte, suas “Espumas”, flutuando no eterno mar da vida, vêm dar à nossa praia, refrescando a areia incandescente, comprazendo-nos a alma.
Assim, como espumas que flutuam no dorso das ondas que vão dar à praia, Castro Alves queria que seus versos levassem “uma lembrança de mim às vossas plagas”.

IV – TEMA:

“Espumas Flutuantes” tem, sob o ponto de vista temático, duas coordenadas básicas: a poesia épico-social, inspirada em visão libertária, paradigmas do condoreirismo do poeta e a poesia lírico-amorosa.
O poema de abertura é chamado “Dedicatória” e representa uma espécie de ode ao livro, daí seu caráter metalinguístico:

Assim meu pobre livro, as asas larga
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno...
................................................................
Vai, pois, meu livro! E como louro, agreste
Traz-me no bico um ramo de .....cipreste.

De sua poesia social, “O livro e a América”, como ele mesmo relata, cheio do “fogo de todos os entusiasmos”, Castro Alves, típico representante da burguesia liberal progressista vê com euforia o “Novo Mundo” – América, “talhado para as grandezas, p’ra crescer, criar, subir” e antevê a necessidade do incentivo à leitura no Brasil (e de Castro Alves afirmou Fausto Cunha era dotado de "um sentido divinatório que lhe insuflava soluções difíceis de esperar no seu tempo"), o poeta traz uma bênção a todos que se dedicaram a este labor.

“O livro e a América”

Ao grêmio literário

 
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... co'os firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

A poesia social de Castro Alves é caracterizada pelo discurso retórico; uso exagerado de hipérboles e antíteses; acúmulo sucessivo de metáforas; movimento, com o objetivo de demonstrar concretamente o ritmo da luta da humanidade em busca da liberdade; e impressionante capacidade de comunicação. A poesia, portanto, perde terreno para a propaganda política. Pragmático, o poeta usa a poesia para levar o leitor à ação, para transformar e não só para deleitar. Esse comprometimento faz a poesia se aproximar do discurso, incorporando a ênfase oratória e a eloquência.
De teor metalinguístico, declamativo e pendor social, um de seus símbolos mais frequente é a imagem do condor dos Andes, pássaro que representa a liberdade da América.
O poeta "condoreiro" tem um papel messiânico e afinado com o seu momento histórico, para tanto, a poética deve se identificar profundamente com o ritmo da vida social e expressar o processo de busca da humanidade por liberdade.
Castro Alves defende o mundo moderno, o “trem de ferro”, rejeitando o paganismo, a violência e a tirania: “Filhos do séc’lo das luzes”, para as quais a grande arma é o saber – o livro que ilumina os homens, mostrando-lhes o caminho da verdade e da justiça.
Seus olhos estão voltados para a multidão, para as relações livres de trabalho, onde não havia mais lugar para a cultura ultrapassada e a escravidão - “caboclos nus”.
Nesse poema, o poeta exalta não apenas a Colombo, o descobridor do Novo Mundo; mas, também, a Guttenberg, o descobridor da cultura que segundo o poeta, criou o papel civilizador do progresso, da imprensa, do saber, à qual cabe construir o futuro e clama aos iluminados para iluminá-la.
Nesse poema, o autor exalta Cristóvão Colombo, navegador e explorador europeu, direcionado por Jeová (Deus no Antigo Testamento), responsável por liderar a frota que alcançou o continente americano em 12 de outubro de 1492, sob as ordens dos reis católicos de Espanha, no chamado descobrimento da América.
Deus ordena ao novo mundo que marche, mas como se perguntasse mais a si próprio do que ao Senhor, ele se questiona como deve marchar: como a Grécia, construindo muitos templos de mármores a muitos deuses; como Roma, guerreando e dominando, ou como a Alemanha, tiranicamente?
E em resposta, obtêm que no lugar de armas; o livro, que conquistará o mundo inteiro. Além de sugerir que pode ser significativa á coincidência da descoberta da América (Colombo) ter acontecido no mesmo século da invenção da imprensa (Guttenberg), aponta a América, “ninho entre os palmares” como a pátria da imprensa, o lar do livro.

“Ode ao dous de julho”

(Recitada no Teatro de São Paulo)

Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?! ...

Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão! ...

No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - corno águias eriçadas —
"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!
......................................................
......................................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu — liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do Sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avôs mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!. ..

(S. Paulo, junho de 1868)

O poeta, amante da liberdade, não podia deixar de exaltar a independência de sua terra, em 1822, na qual lutara o avô, a que dedica o belíssimo “Ode ao dous de julho”.
Como era de seu feitio, hiperboliza a luta contra os portugueses, descrevendo-a como uma “pugna imensa” que assombra o mundo:

“O mundo perguntava erguendo um grito:/Qual dos gigantes morto rolará?/...”Era o porvir - em frente do passado,/A Liberdade - em frente à Escravidão”.

Ode origina do grego odé e do latim õde (ou õda), e desde Homero, trata-se de um poema destinado a ser cantado. Os seus vários significados abarcavam também o canto de louvor , o canto fúnebre, canto religioso, canto mágico, canto de guerra ou hino e pressupunha o acompanhamento de instrumentos musicais. O sentido da palavra modificou-se, todavia, passando a significar uma poesia rimada de assunto elevado, normalmente escrita em forma dedicatória de acordo com um estilo e sentimentos nobres.
Os portugueses, mesmo após da Independência do Brasil, continuaram dominando o país. O confronto estava nas ruas, principalmente, do Nordeste, ocupado pelo governador militar português, Inácio José Madeira de Mello,o Madeira Podre, como os baianos o chamavam. Salvador estava cercada por tropas leais ao Reino e o exército brasileiro, pobre, desarmado e faminto, teve que se valer de mercenários, que lutavam por dinheiro e da população humilde e destreinada que lutava por amor e convicção.
Depois que as tropas de Madeira invadiram o Convento da Lapa, matando o Capelão e a Madre Abadessa Joana Angélica, os ânimos acirraram-se mais ainda e o cerco aos portugueses se intensificou. A luta espalhou-se pelo Recôncavo, rica região açucareira e fumageira, banhada pelo Rio Paraguassú, encabeçada por Cachoeira,”A Heróica”, elevada a capital oficiosa da Bahia; de lá, partia a resistência.
Castro Alves, em “Ode ao dous de julho”, ”o mundo perguntava, erguendo um grito, qual dos gigantes mortos, rolará?” Vindos do interior, pessoas simples, como os vaqueiros conhecidos como ”Encourados do Pedrão”, os sertanejos que formavam o batalhão do Príncipe, ou Batalhão dos Periquitos, por causa do verde amarelo das fardas, batalhão criado pelo avô do poeta Castro Alves, José Antonio da Silva Castro e que teve um papel preponderante na vitória baiana. Homens como Pedro Labatut, Almirante inglês Lord Cochrane, Barros Falcão concretizaram a Independência da Bahia expulsando os lusos que eram cerca de 60000 homens contra apenas 2500 brasileiros, mal armados e mal alimentados, mas, cheios de um fogo que não se apagava, um amor pela pátria nascente e o desejo de liberdade. Desse cadinho de raças surgiu a fantástica figura de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, mulher, analfabeta, filha de português, que alistou-se no exército vestida de homem e, com seu pequeno grupo aprisionou Trinta Diabos, um capitão de Madeira, temido por todos pela violência e maldade, numa refrega na Ilha de Itaparica.
Dessa forma, em “Ode ao dous de julho” é um canto entusiástico e patriótico àqueles que lutaram em 1822, para emancipar definitivamente o Brasil. Escrito em versos decassílabos, divididos em oitavas (estrofes de oito versos), emprega esquema de rimas ABBCDEEC. Nesse poema, encontra-se a força das imagens na poesia de Castro Alves, cuja índole oratória encontra nas metáforas a força maior de sua expressividade e traduzida num hino ao futuro, construído sob o signo da liberdade com o sol que desponta no céu, a anunciar um novo dia – um novo tempo.
Trata-se de uma poesia nacionalista, reveladora do estilo hiperbólico: observe-se o frequente emprego de imagens indicadoras de grandiosidade: imensa/vasta/largo/extenso/infinito/gigantes, etc
A luta se caracteriza pelo desenrolar de antíteses, que serem de alicerce para a 3ª estrofe: passado X porvir; liberdade X escravidão; águia X abutre etc.
Outra vertente de “Espumas Flutuantes” é o lirismo amoroso, cujo arco vai desde a ânsia de amar até a exaltação do amor carnal.
Às vezes, o eu lírico mostra-se como alma sonhadora, em que o amor existe, sobretudo, através de imagens que passam diante de seus olhos:

Meu coração desmaia pensativo,
(...)
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu...teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem...seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...

Esses versos não estão ainda muito distantes dos de Álvares de Azevedo: a mulher idealizada ora como casta e angelical (virgem), ora como a que lhe desperta a libido (seminua); enfim, trata-se de amor que fica só no plano da aspiração, do desejo febril sem a devida materialização.

Boa-noite, Maria! É tarde...é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!...E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Exaltação do amor carnal, distanciando-se dos primeiros românticos e prenunciando já o realismo. Nesses versos, há uma carga de sensualidade e erotismo.

III - ASPECTOS ESTILÍSCOS:

Deus, ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?

Observação: apóstrofes

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!...
Há dois mil anos...eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus!Senhor, meu Deus!!...

Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!...

Era o porvir - em frente do passado,
A Liberdade - em frente à Escravidão,
Era a luta das águias - e do abutre,
A revolta do pulso - contra os ferros,
O pugilato da razão - com os erros,
O duelo da treva - e do clarão!...

Observação: metáforas, imagens superlativas e símbolos condoreiros

Adeus! Ó choça do monte!...
Adeus! Palmeiras da fonte!
Adeus! Amores...adeus!...

Observação: anáforas

Tu que, da liberdade após a guerra.
Foste hasteado dos heróis na lança.

Observação: anástrofe (inversão menos violenta que o hipérbato, geralmente consistindo na troca de posição entre o termo regente e o termo regido).

Co’a mão vazia - viu a terra cheia.

Observação: antítese

Senhor Deus dos desgraçados!

Observação: apóstrofe

Silêncio, Musa...chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Observação: hipérbole

Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu

Observação: metáfora

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despertada a meio,
Para não zangá-la...sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Observação: prosopopéia, personificação ou animismo.

Ó flor!Tu és virgem das campinas!
Virgem! - tu és a flor da minha vida!...

Observação: quiasmo (cruzamento de palavras ou sintagmas paralelos, de modo que um termo do primeiro verso se repete no segundo, em posição contrária).

IV – ANÁLISE DE POEMAS:

“Hebréia”

Flos campi et lilium convallium.

(Cântico dos Cânticos)


 
Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!

Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!...

Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infinitas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

(...)

Sim, fora belo na revosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho

Depois nas águas de cheiroso banho
- Como Susana a estremecer de frio -
Fitar-se, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto...

(...)

Não vês?...Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

(...)

Na epígrafe do poema, “Flos campi et lilium convallium”, em latim, (“Flor dos campos e lírio do vale”) e no subtítulo “Cântico dos Cânticos”, o poeta traça um paralelo com o Antigo Testamento e a Salomão.
Esse poema foi originalmente escrito e dedicado às irmãs judias Mari, Simi e Ester Amzalak, vizinhas do poeta em Salvador. Nele o poeta recria liricamente o amor, traçando a trajetória mística do povo judeu.
O poema apresenta duas coordenadas: de um lado, o “exílio” do judeu que sonha com a pátria distante, tomado de imensa saudade; de outro, o eu lírico que sonha com o amor de sua amada, tudo se fundindo numa só paixão, como se evidencia na passagem: “Sim, fora belo na revosa alfombra”.
O poeta cita personagens bíblicos para ressaltar o platonismo amoroso e a fidelidade de Jacó à Raquel, mulher que se lhe afigura como ideal; Susana, mulher judia, célebre pela sua beleza e castidade e, localiza Cédron, corrente de água, muito famosa na Bíblia, que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras e deságua no Mar Morto.
O poeta transporta-se para o papel dos patriarcas do povo judeu e dá à sua amada o papel idealizado de suas esposas ou mulheres. A mulher amada é vista como guia do poeta, que se transfigura no final num pastor errante. O poema apresenta versos decassílabos divididos em quadras.

“O laço de fita”

 
Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita

(...)

Poema lírico-amoroso, brejeiro em que o eu se mostra “prisioneiro” dos encantos da formosa donzela, encantos que o poeta simboliza em um laço de fita. O laço de fita metaforiza na ordem material o que o encanto representa na ordem sentimental.


“Ahasverus e o Gênio”

Ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior


Sabes quem foi Ahasverus?... - o precito,
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda...
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadoura voz!

(...)

D’Ásia as florestas - lhe negaram sombra
A savana sem fim - negou-lhe alfombra.
O chão negou-lhe o pó!...
Tabas, serralhos, tendas e solares...
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.

(...)

Ahasverus alegoriza o povo judeu, condenado a errar longe de sua terra. Segundo reza a tradição, Jesus, quando caminhava vergado ao peso da cruz, desejou descansar um momento diante da porta do judeu Ahasverus, que brutalmente o repeliu. Para castigar, Cristo disse-lhe: “Serás errante sobre a terra até que eu venha” e logo o judeu se pôs em marcha sem nunca achar um lugar para repousar.
Castro Alves compara-se a Ahasverus, incapaz de adequar-se ao mundo estreito e medíocre que o cerca, e por esta razão, condenado a procurar, solitário, sem nunca achar.
Ahasverus, além de símbolo de luta eterna da humanidade em busca de redenção e justiça, é também símbolo do gênio, projeção dos dramas do eu sobre o mundo, refletindo as tendências messiânicas do romantismo.
A figura de Ahasverus representa aqui a imortalidade desejada pelo poeta, mas carregada de uma solidão terrível e amaldiçoada.

“Mocidade e Morte”

E perto avisto o porto
Imenso, nebuloso, e sempre noite
Chamado - Eternidade -
Laurindo


Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: — impossível!
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n'alma

E o eco ao longe me repete — avante! —
o futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após — um nome do universo n'alma,
Um nome escrito no Panteon da história.

(...)

Morrer — é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado — escutar dobres de sino,
— Voz da morte, que a morte lhe lamenta —
Ai! morrer — é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher — no visco
Da larva errante no sepulcro fundo.

(...)

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida — novo Tântalo —
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O 'stilete de Deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória — nada, por amor — a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria!...

Ao contrário do sonho da geração romântica anterior de encontrar-se prematuramente com a morte, principalmente na poesia de Álvares de Azevedo, encontra-se em Castro Alves, o desejo da vida, sempre representada na possibilidade do amor e da genialidade.
O poema combina versos decassílabos e hexassílabos, divididos em oitavas e sextilhas. O esquema de rimas não é fixo.
A luta contra á morte e o desejo da vida eterna são evidentes projeções pessoais do poeta que, tuberculoso e com uma perna amputada por causa da gangrena, via sua vida desfazer-se em plena juventude.

“O gondoleiro do amor”

BARCAROLA

DAMA-NEGRA


 
Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

(...)

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

(...)

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor...
Rosa!Canto!Sombra!Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

Poema lírico-amoroso, em versos redondilhos maiores divididos em quadras que sugere o balanço da gôndola.
Como o próprio subtítulo classificatório indica, é uma barcarola, ou seja, poema lírico de origem ou influência italiana que faz referência a caminhos por água. É interessante notar que o poeta recria a canção dos gondoleiros de Veneza, geralmente uma composição sentimental que fala de um amor que se espera alcançar, ou ainda exalta uma dama em razão de sua beleza.
A dama-negra, provavelmente, Eugênia Câmara é idealizada: “Tua voz é cavatina”, ária de uma ópera; “Dos palácios de Sorrento”, cidade da Itália, célebre pela beleza, situada no Golfo de Nápoles.

“O “adeus” de Teresa”

 
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos...E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite...entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu...Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus.”

Passaram tempos...séc’los de delírio
Prazeres divinais...gozos do Empíreo...
...Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - “Voltarei!...descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei...era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!...Ela me olhou branca...surpresa!
Foi á última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Poema amoroso, marcado por certo erotismo, construído em versos decassílabos. Nesse poema, o eu lírico canta o amor por Teresa, interrompido quando ele voltou para sua casa. Mesmo a promessa de que voltaria, não impediu a amada de casar-se com outro.
O poema pode ser dividido em dois momentos, marcados ambos pela despedida. No primeiro momento, o clima é de alegria e paixão, marcado no final, por um adeus provisório; no segundo, o clima é de tristeza e o adeus é definitivo.
O tema da mulher infiel ou do amor que não se mantém, talvez, por não ser verdadeiro é refletido nas antíteses cromáticas: no amor, ela cora; na traição, ela fica branca.


“Boa-Noite”


Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde...é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!...E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve...a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?...pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d’alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto...”

É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchando o roupão, a espádua nua -
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trecalar das flores
Fechemos sobre nós estas cortinas...
- São as asas do arcanjo dos amores.

(...)

Ai! Canta a cavatina do delírio.
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion!Marion!...É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!..

Como um negro e sombrio firmamento
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa-noite!-, formosa Consuelo!...

Poema marcado por intenso lirismo amoroso. Composto por dez quadras com decassílabos, atesta a relativa liberdade de forma existente no romantismo. Basta observar que a exigência de rima em todos os versos não é respeitada: o poeta rima 2°/4°, mas deixa sem rima o 1°/3º. Nele o poeta reconstrói a figura da mulher amada trazendo de volta personagens de importantes obras da literatura. Nota-se ainda a presença de forte erotismo tanto na construção do cenário amoroso quanto do vocabulário, prenunciando o que viria a acontecer na poesia parnasiana, notadamente em Olavo Bilac.
Ao sexualizar a mulher, Castro Alves, faz aflorar a sensualidade e o erotismo. Constata-se que o texto dialoga com a história erótica do ocidente, na figura de Marion, bem como, em um processo de intertextualidade com a literatura shakespeariana, na figura de Julieta. Ou seja, o poeta vai associando a sua amada/amante com outras amantes famosas, quer da história, quer da literatura, sugerindo que ela é tão maravilhosa e amada quanto ás mulheres mencionadas.


“É tarde”


É tarde! É muito tarde! O templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! Não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! É muito tarde!

Treda noite! E minh’alma era o sacrário,
A lâmpada do amor velava entanto,
Virgem flor enfeitava a borda virgem
Do vaso sacrossanto.

Quando ela veio - a negra feiticeira -
A libertina, lúgubre bacante,
Lascivo olhar, a trança desgrenhada,
A roupa gotejante

(...)

Ai! Não queiras os restos do banquete!
Não queirais esse leito conspurcado!
Sabes? Meu beijo te manchara os lábios
Num beijo profano.

(...)

Ciúme! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas a tormenta ulula
Um uivo de agonia!...

(...)

Mas não...!Somente as vagas do sepulcro
Hão de apagar o fofo que em mim arde...
Perdoa-me, Senhora!...Eu sei que morro...
É tarde! É muito tarde!...

O poeta desenvolve o tema romântico da paixão destruidora que, como “fogo-santo”, também chamado de fogo sagrado, chama votiva conservada sempre acesa nos templos de várias religiões, resseca e aniquila o coração. Associadas ao tema aparecem a “vestal”, mulher pura, casta, sacerdotisa de Vesta, deusa do fogo dos romanos e as ideias de gozo efêmero e ilusão amorosa.
Metaforicamente, o eu lírico descreve-se como um templo ermo e sem luz, para caracterizar o estado de destruição em que se encontra. Dessa maneira, opõe Mal X Bem, aquele representado pela “negra feiticeira – a libertina, lúgubre bacante” que o conduziu ao abismo; este, pela Vestal, visão do céu.
Castro Alves, nesse poema, apresenta o conflito entre o amor de perdição versus o amor de salvação, no entanto salvação tardia, pois o amante destruído há de encontrar a paz na morte.


“Quando eu morrer”


Quando eu morrer...não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro - o cemitério...
Que o povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos - errantes - por santelmo,
Tem por velame - os panos do sudário...
Por mastro - o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas - o mocho funerário

(...)

Oh! Perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá “Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito.”

Tal como no poema “Mocidade e Morte”, o poeta reafirma, nesse poema, seu imenso amor à vida em clara ruptura com o pessimismo e negativismo da geração precedente. A primeira estrofe é, de certo modo, uma “resposta” a “Lembrança de morrer”, de Álvares de Azevedo, onde se lê o seguinte:

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida
Sombras do vale, noites da montanha
Protegei o meu corpo abandonado.


“Adormecida”


Uma noite, eu me lembro...Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão...solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço de horizonte.
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados
Indiscretos entravam pela sala.
E de leve oscilando ao tom das auras.
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!...A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava ...a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe...a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P’ra não zangá-la...sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
“Virgem! tu és a flor da minha vida!...”

Nesse poema intensamente erótico, o eu lírico contrapõe a pureza da donzela em seu sono à simbologia erótico-masculina do galho que invade a janela para tocar na jovem. Sem dúvida, o galho representa falicamente o próprio poeta. É interessante notar que o ato sexual não se completa, já que a jovem permanece virgem, como pode comprovar o penúltimo verso do poema. Mais uma vez há o emprego dos decassílabos em quartetos.





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