sexta-feira, 22 de abril de 2011

QUINCAS BORBA E O HUMANITISMO DE MACHADO DE ASSIS


“O leitor que vir a obra apenas por seu recheio romanesco, quer dizer, o enredo ou o entrecho, sairá desiludido da leitura, pois a história contada é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que afinal não se consuma. Só teria curiosidade como coisa nova o fato de ser a não-realização do frequente e usual delito do romance realista, a que Machado de Assis, indiretamente, estava ligado. Mas, esse mesmo aspecto pode frustrar o leitor que apenas busque na leitura o contacto com a trama das personagens e não deseje algo mais, que o romance pode e deve dar. (...) Tudo isso é complexo e surpreendente: ao contrário de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado procurou escrever uma história que pudesse agradar por si própria e não por aspectos marginais. Tanto é assim que diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior. Parece que teve em mira escrever um romance para ser lido e não para ser analisado, daí os poucos ou raros desvios do núcleo da obra, toda ela girando em torno duma paixão que não se consuma em crime, como se fazia prever desde as primeiras páginas”. (Massaud Moisés).


I - INTRODUÇÃO:

 
A base cultural e histórica do Realismo é a ciência que dominou as atenções na Segunda metade do século XIX, chegando adentrar o século. Varreu o mundo uma onda de materialismo, como o positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin, o psicologismo de Wundt, o determinismo de Taine, que alastra pelo espírito humano como uma verdadeira paixão. Nasce daí o gosto pela análise, objetividade, observação, fidelidade, impassibilidade, impessoalidade, etc. Em suma, a literatura preocupa-se em captar a realidade como ela é formando-lhe um retrato fiel e preciso.

“Quincas Borba” é um livro que se encontra, cronologicamente, nessa época: o Realista no Brasil.
De um modo geral, ao subjetivismo romântico opõe-se o objetivismo realista, pois aqui o escritor procura evitar sempre as emoções subjetivas, conduzindo a obra de maneira direta e objetiva. Assim, raramente o escritor realista interfere nos dramas vividos por suas personagens. São meros expectadores que, frios e impessoais, analisam esses dramas. É claro que, muitas vezes, alguma coisa fica do artista, pois a criatura sempre revela algum traço do seu criador. Embora dificilmente se retrate na sua obra, podemos afirmar com Viana Moog que, “ferido no seu orgulho pelo mal que o aflige (epilepsia), Machado de Assis vinga-se derramando sobre a humanidade a bílis do seu humour”. Daí a sua visão niilista e pessimista da vida onde só vê “insanidade e imperfeições imanentes.” É de ver-se também o que escreve Afrânio Coutinho, desenvolvendo a natureza objetiva e impessoal do movimento realista: “O Realismo encara a vida objetivamente. Não há intromissão do autor, que deixa as personagens e os circunstantes atuar uns sobre os outros, na busca da solução. O autor não confunde seus sentimentos e pontos de vista com as emoções e motivos das personagens.” Embora não se aplique, cabalmente, esta característica na ficção de Machado de Assis, é possível entrever este espírito de precisão e de objetividade, de frieza e impessoalidade em “Quincas Borba”.

II - FOCO NARRATIVO:

“Quincas Borba” é o romance de Machado de Assis que mais se aproxima da tradição realista européia do século XIX.
Narrado em terceira pessoa e dividido em capítulos curtos, tão ao gosto de Machado, a trama está focada na transformação pessoal e social por que passa Rubião ao se mudar para a Corte, deixando para trás uma existência simples de interiorano e ingressando na roda viva da capital do Império: as amizades compradas, os comensais interesseiros e as aventuras amorosas. Mas, ao contrário dos romances europeus, em que as personagens alçam-se através de ações de cálculo e de obstinação, a escalada de Rubião resulta de um mero golpe do acaso, a herança que Quincas Borba lhe deixou, sob a condição de cuidar do cachorro também chamado Quincas Borba.

III - TEMPO:

A ação decorre na Segunda metade do século XIX, como se pode aprender das diversas referências a personalidades políticas e fatos históricos da época.
Não se pode dizer que o desenvolvimento do tempo é rigorosamente cronológico, havendo, às vezes, recuos que podem lembrar o tempo psicológico, como é o caso da história dos enforcados (cap. XLVII) a que Rubião “assiste” muito tempo depois.

“Vem comigo, leitor; vamos vê-lo; meses antes, à cabeceira do Quincas Borba”. (cap. III)

Como diz o próprio autor "o livro anda devagar" e "o meu estilo" é "como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param..." É mais ou menos assim que anda a narrativa de “Quincas Borba”.
Às vezes, há antecipação, posposição ou intercorrência de acontecimentos, pela necessidade de desenvolvimento da narrativa, que ora se prende a um personagem, ora se liga a outro.

IV - ESPAÇO:

 
A ação é circular: inicia e termina em Barbacena, sendo que todos os fatos intermediários ocorrem na Corte e o fim de Rubião é o mesmo de Quincas Borba. Apesar de ser especificado o local, este romance é ageográfico e atemporal e, apresenta temática universal. Há muitos “Palhas e Sofias” por este mundo, muitas “Barbacenas” – princípio e fim de tudo, e muitas “Cortes” que, com seus encantos, envolvem e destroem o ser humano, como Rubião e o Quincas Borba, cão e filósofo, esmagados pela loucura da humanidade.

Na Corte é retratada a vida de um grupo de burgueses. Todas as exigências de uma falsa sociedade são descritas. Machado de Assis disseca a alma humana numa visão assistemática da vida.

V - PERSONAGENS:

Na obra de Machado de Assis, o mais importante é o caráter das personagens. Eles não estão presos à trama da narrativa. Movimentam-se num ambiente mais de reflexões do que de ação.

Quincas Borba: filósofo doido, esquisito, “com frequente alteração de humor”, “ímpetos sem motivo”, “ternura sem proporção”, extravagante (cap. V), bom, alegre, lutava contra o pessimismo (cap. V) e desejava a sua continuidade através dos tempos como comprova a sua filosofia “borbista”, de natureza “humorística”, o Humanitismo. Depois que morreu, passou, por metempsicose, ao corpo do seu cão, como sugerem as dúvidas de Rubião ao longo da narrativa:

Olhou para o cão, enquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para ele, de tal jeito que parecia estar ali dentro o próprio e defunto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do filósofo, quando examinava negócios humanos...” (cap. XLIX).

Rubião: é indeciso, tem medo da opinião pública, volúvel, ambicioso (cap. I, X, XV), megalomaníaco, obsessivo, desequilibrado, tímido (cap. XXV), acomodado, ciumento, influenciável (cap. LXIX), conflituoso, ocioso, ingênuo.
A sua megalomania, que o levará à sandice, tem desenvolvimento sutil e velado ao longo da narrativa:

“A outra gente, que estava à porta e na calçada fez-lhe alas” (cap. LX); “Rubião teve aqui um impulso inexplicável, - dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si próprio” (cap. XCI); “Tinha os olhos úmidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, à porta, com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas e curvas. Ao entrar no coupé, ainda ouviu estas palavras, a meia voz: - Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim”. (cap. CI).

Depois a megalomania vai aumentando claramente, à medida que sua herança decresce: é a loucura que está chegando com Napoleão III e a imperatriz Eugênia. Enfim, à proporção que vai “enlouquecendo”, Rubião vai ficando cada vez mais “lúcido” – herdeiro da fortuna e do espírito do filósofo Quincas Borba, escapando, assim, à chacota e à sátira machadianas, a que são os únicos no livro, além do cão, que conseguem escapar.

Sofia: vaidosa, orgulhosa, dominadora, fria, cautelosa, ambiciosa, sedutora, caráter ambivalente, frívola, sensual e dissimulada, como revela o cap. LXIX.
Sofia é exibida publicamente pelo marido que se compraz em vê-la encantar os homens, ela usa todas as técnicas possíveis de sedução, sem jamais chegar ao adultério. Esta dubiedade leva Rubião literalmente à loucura. No entanto, o prazer de ser vista e admirada produz em Sofia uma necessidade real de ser amada fora do âmbito doméstico: “Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar.” E ela se apaixona por Carlos Maria, um galanteador fútil, e marca com ele um encontro erótico, a que o rapaz não comparece. Desta forma, contra a própria vontade, Sofia mantém-se fiel ao marido.

"Seu papel acaba por ser duplo, pois representa a luxúria elegante e, ao mesmo tempo, serve de campo de prova para todo o drama de Rubião”, ressalta Massaud Moisés.

Palha: ambicioso, egocêntrico, vaidoso (cap. XXXV), bajulador, interesseiro, parasita, desonesto, astuto, torpe.

 "Rotulado por um nome que já lhe traduz o caráter e a personalidade, também se atira ao dinheiro e à posição social como se estivesse no caminho certo".

Carlos Maria: vaidoso, altivo (cap. LXIX), vazio, galanteador: é a caricatura do conquistador, o próprio “Don Juan” de frases feitas e lugares-comuns. Um aspecto que lhe é bastante característico é o de divindade, que Machado ironiza a toda hora. Casou-se para ser "adorado" pela esposa.

Maria Benedita: tímida, pacata, sem iniciativa, passiva, resignada, influenciável, personalidade fraca. Seu casamento com Carlos Maria que, à primeira vista, significou o encontro da felicidade tão longamente sonhada, não passa de um ludíbrio, em virtude do pouco amor que Carlos Maria lhe dedicava.

Dr. Camacho: é caricatura do politiqueiro demagogo de frase feita e retórica excessiva; astuto e interesseiro.

Major Siqueira: mexeriqueiro, inicialmente, e depois despeitado como se revela no cap. CXXX.

D. Tonica: o desespero desta "solteirona quarentona" já começa pelo nome: D. Tonica. Revela-se invejosa, revoltada, infeliz e frustrada.

D. Fernanda: casamenteira e um tanto fidalga. No mais, uma boa senhora e esposa dedicada.

Teófilo: ambicioso, dinâmico e, às vezes, temperamental e minucioso, como no caso do "u" pelo "i" do cap. CXIX, em que um jornal torce todo o sentido da frase que escrevera: "Na dúvida, abstém-te, é o conselho do sábio. E puseram: Na dívida abstém-te... É insuportável!" comenta, quase chorando, o Teófilo que era forte candidato ao ministério.

Freitas: caricatura do parasita e dos glutões de jantares e de charutos alheios.

Cristiano Palha percebe a ingenuidade do interiorano e torna-se o primeiro de uma série de aproveitadores de sua fortuna. Sofia exerce papel decisivo nesta conspiração interesseira, mantendo um procedimento dúbio em relação ao mestre-escola, ora o atraindo, ora o repelindo. Mais tarde, outros parasitas sociais (como o Dr. Camacho, diretor de um jornal de oposição), tentarão usufruir do dinheiro de Rubião, enquanto lhe filam jantares e charutos.

VI - RESUMO DO ENREDO:

A narrativa inicia-se com uma reflexão do protagonista Rubião, que olhando para o mar em sua casa luxuosa de Botafogo, lembra-se de que “se a mana Piedade tivesse casado com Quincas Borba, seria uma esperança colateral, mas, ambos morreram e tudo está comigo...”
Logo se arrepende dos seus pensamentos e acrescenta que estão juntos no céu.
Seu criado era espanhol, embora quisesse contratar seus crioulos de Minas Gerais, mas Cristiano achava melhor ter criados brancos e o cozinheiro era francês.
Rubião observa sua casa: a bandeja de prata foi conselho de Cristiano e os quadros foram recomendados por Sofia.
Há um ano atrás era professor na cidade mineira de Barbacena, hoje com 41 anos, sentia que não era inteiramente feliz, mas a felicidade completa estava próxima.
Rubião recorda-se como conheceu o filósofo Quincas Borba.
Quincas Borba não tinha família. O seu último tio morrera e deixara uma herança fabulosa. Quando chegou á Barbacena enamorou-se de Piedade, irmã de Rubião, mas a moça não correspondeu seu afeto e logo morreu. Este romance foi á ligação de Rubião com Quincas Borba. Na época era professor e como o amigo filósofo estava doente, abandonou a escola para cuidar do enfermo.
Quincas Borba tinha um cão com o mesmo nome.
Desde que Humanitas é o princípio da vida e reside por toda a parte, existe também no cão e este pode receber um nome de gente”, caso Quincas Borba, o filósofo morresse antes, sobreviveria no nome de Quincas Borba, o cão.
Quincas Borba conta-lhe a morte da avó. Foi no Rio de Janeiro, defronte da Capela Imperial, em dia de festa. Ela atravessou a rua para sentar-se numa cadeira no Largo do Paço, uma besta assustou-se e a pisoteou. O dono da sege tinha fome...
Aí reside o princípio Humanitas: na morte da avó, não há morte, há vida, porque a supressão de uma delas é a condição de sobrevivência da outra.
Supõe um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente onde há batatas em abundância, mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas, não chega nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação.

“Ao vencido, ódio ou compaixão, ao vencedor, as batatas!”

Quando se ferve água as bolhas desfazem-se de contínuo, tudo fica na água – os indivíduos são bolhas transitórias.
Quando há peste e eliminam-se os organismos fracos, há observação e descoberta da droga curativa.
Rubião não aceita a Teoria do Humanitismo, defendendo a distribuição igualitária.
No dia seguinte, Quincas Borba comunica a Rubião sua decisão de ir ao Rio de Janeiro, cuidar de seus negócios. Sua doença estava avançada e ele não podia ausentar-se de sua casa. No entanto, a possibilidade de alteração do seu testamento, favorecendo Rubião, fez com que o mesmo não impedisse a viagem.
Rubião fica incumbido de cuidar da casa e do cão, o que resulta em zombarias da vizinhança.
Depois de sete semanas Quincas Borba envia uma carta dizendo que se sentia completo, pois descobrira ser Santo Agostinho.
Rubião desespera-se, pois se descobrissem que Quincas Borba não estava em sua plena consciência, a alteração do testamento seria invalidada.
O médico cobra notícias sobre Quincas Borba e Rubião não revela a carta.
No começo da semana seguinte Quincas Borba morre e os noticiários não fazem nenhuma alusão à sua demência.
Rubião, imediatamente entrega o Quincas Borba, cão à comadre Angélica.
Aberto o testamento, revela-se que Rubião era o herdeiro universal, perante uma única cláusula: ele ficaria responsável pelo bem estar do cão e quando morresse, daria uma sepultura decente em terreno próprio e futuramente, desenterraria seus ossos e os depositaria em uma caixa de madeira, no lugar mais honrado da casa.
Rubião assina a documentação e ao chegar a casa, lembra-se que tinha dado o cão. Já, estava descumprindo a cláusula. Dirige-se a casa da comadre Angélica, consegue resgatar o cão e sai a gritar:
“- Ao vencedor, as batatas!”
Mandou rezar uma missa, mas a ralé não foi e partiu de trem para o Rio de Janeiro.
Já na viagem a existência de Rubião começa a mudar. Na estação de Vassouras, conhece e se aproxima do casal Cristiano Palha e Sofia, gente da melhor sociedade do Rio de Janeiro. Falaram sobre gado, política, escravatura. Rubião comenta que gostaria de ir a Europa e fala do inventário.
Chegados à estação, despediram. Palha ofereceu sua casa em Santa Teresa e um advogado. Rubião optou por uma hospedaria, mas aceitou o advogado.
A amizade entre Rubião e a família Palha se fortificou. Seguiram vários almoços e jantares.
Rubião notou que Sofia era melhor na casa que no trem.
Segue a mudança de Rubião para Botafogo. Cristiano e Sofia o ajudaram a compor e decorar a casa.
Rubião vive a pensar nos olhos de Sofia. Acredita que ela o ama, afinal, ela aperta suas mãos com tanto agrado!
Dois amigos vieram almoçar. Tinham-lhe sido apresentados em um armazém: Carlos Maria, vinte e quatro anos que roia os bens da mãe e, Freitas, quarenta e seis anos que não tinha o que roer.
Rubião sentia-se melhor na companhia de Freitas: elogiava tudo, era vivo, alegre e adora flores.
Rubião convida Freitas para irem a Europa. Ele nega dizendo que é amigo livre.
Carlos Maria, por sua vez, era muito senhor de si.
Sofia manda-lhe uma cesta com frutas para o almoço e convida-o para jantar em sua casa.
Freitas e Carlos Maria estavam presentes e perceberam o desconcerto de Rubião.
Rubião beija o bilhete diversas vezes e acredita que sua finalização com “verdadeira amiga” era metafórica.
No jantar ele conhece o Major Siqueira e sua filha D. Tonica.
No entanto, Rubião só tem olhos para Sofia.
D. Tonica tenta atraí-lo, porém parecia que a alma de Sofia convidava a dele para viajarem juntos.
Sofia, então, convida D. Tonica e Rubião para passearem no jardim. D. Tonica alega que está com o pé dormente.
Já, em céu aberto, Rubião compara as estrelas com os olhos de Sofia.
Ela tenta livrar-se dos galanteios, mas ele a detém e pede para que ela não se esquecesse aqueles dez minutos sublimes e que, olhasse todas as noites para o Cruzeiro às 22:00 horas. Ele também o fitaria e os pensamentos de ambos iriam achar-se ali juntos, íntimos entre Deus e os homens. Em seguida, tenta beijar sua mão.
Sofia, para quem o flerte é apenas um direito natural de sua própria beleza, fica ofendida.
O Siqueira os surpreende em flagrante e eles inventam que contavam uma anedota do Pe. Mendes.

“- Olá! Estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Há muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gás... Deliciosa! Para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icaraí...
Era Siqueira, o terrível major. Rubião não sabia que dissesse; Sofia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se às de Barbacena, e, a propósito disso, referira uma anedota de um padre Mendes... Não era Mendes?
- Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou Rubião.
O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas, a cabeça do Rubião meio inclinada, o movimento rápido de ambos, quando ele entrou no jardim; e sai-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou para Sofia; viu-a risonha, tranquila, impenetrável. Nenhum medo, nenhum acanhamento; falava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relógio para ver as horas, levá-lo ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpá-lo com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...”

Nessa noite, D. Tonica não consegue dormir de tão revoltada que estava.
Rubião, por sua vez, ri. Depois, lembra-se de Cristiano e sente remorsos.
Na volta a casa, lembra-se de ter visto o enforcamento de um homem há muitos anos atrás. Fazia tempo que não ligava para o cão e teve medo que os dois Quincas fossem á mesma criatura.
Mais tarde, Sofia relata ao marido a declaração de amor do matuto mineiro. A primeira reação de Palha é de raiva. Em seguida, ele confessa à esposa a dívida significativa que contraíra com o novo amigo e de como desejava montar uma empresa com o mesmo. Portanto, esta amizade não podia acabar. Ainda que aborrecida, Sofia entende as razões do marido e reclama de dores na cabeça.
Um dia, passa um rapaz e corteja Sofia. Ela também olha para ele. Acha que o conhece e não sabe de onde. Era Carlos Maria que até cai para olhá-la.
Quinze dias depois, Rubião retorna a casa dos Palhas, conhece Camacho, proprietário de um jornal, “Atalaia” e discutem sobre política.

“Camacho era homem político. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a província natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal político, sem partido definido, mas como muitas ideias colhidas aqui e ali, e expostas em estilo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros frutos de Camacho fez um índice dos seus princípios e aspirações: - ordem pela liberdade, liberdade pela ordem; - a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si própria; - a vida dos princípios é necessidade moral das nações novas como das nações velhas; - dai-me boa política, dai-vos-ei boas finanças; (Barão Louis); - mergulhemos no Jordão constitucional; - daí passagem aos valentes, homens do poder; eles serão os vossos sustentáculos, etc, etc.”(cap. LVII).

A sua linguagem é pomposa e enriquecida com constante uso do vocabulário latino.

“Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos adversários. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas. Qui inde? Tais casos, - aliás, raros, - só podiam ser admitidos quando favorecessem os elementos bons, não aos maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. É interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à guerra intestina, isto é, à dilaceração da alma nacional... Mas, não, as idéias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si Alea jacta est.” (cap CX)

Rubião comunica que vai deixá-los, viajaria a Minas Gerais. Na verdade, estava arrependido pelo “adultério”.
Cristiano diz a Rubião que era estranho ele voltar á Minas sem receber a quitação de sua dívida. Ele responde que as contas se pagam quando podem.
Recebe a “Atalaia” e gosta do jornal. Quis assinar e descobre que o redator era o Dr. Camacho.
No caminho do escritório, Rubião salva uma criança, Deolindo que quase foi atropelado por uns cavalos e recebe muitos agradecimentos.
Chegando ao escritório com a mão machucada conta o episódio. Acaba ficando sócio do jornal.
No caminho encontra uma baronesa. Ele mesmo sendo rico sentia-se o mesmo antigo submisso professor de Barbacena.

“Na rua, encontrou Sofia com uma senhora idosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições destas; todo ele se foi pouco para Sofia. Falaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou diante, e olhou para trás; mas as três senhoras iam andando sem voltar á cabeça. Depois jantas, consigo:
- Irei lá hoje?
Reflexionou muito sem adiantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo esquisito; mas lembrava-se que sorriu, - pouco, mas sorriu. Pôs o caso à sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, olhando. Veio logo um tílburi da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Tereza. Mas aqui a consciência reagiu; queira os próprios termos da proposta: um carro. Tílburi não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama de carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma vitória. Daí a pouco vieram chegando da direita, muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.” (Cap. LXIII)

Rubião, no íntimo, tinha vontade de ir à casa de Sofia. Se o tílburi viesse da direita, com certeza, ele não ligaria ao fato de não ser um carro. Mas daí a pouco vieram muitas caleças da direita. É muito curioso o fato de serem caleças que voltavam de um enterro. Poderá ser a coincidência, mas a partir dessa decisão, começa o “enterro” de Rubião. É a destruição que caminha a passos largos ao seu encontro. É a vida que se acaba rapidamente.
À noite, na casa de Sofia, Rubião foi apresentado a D. Maria Augusta e sua filha, Maria Benedita, tia e sobrinha de Sofia que viviam na roça. Sofia achava que ela deveria aprender piano, francês para arrumar um bom marido. D. Maria Augusta temendo a solidão queria evitar isso.
Na saída encontrou Carlos Maria e ficou surpreso com a coincidência, mas, logo, imaginou que fosse por causa da fazendeira e sua filha.
Entretanto, ao escutar Carlos comentar que Cristiano tinha péssimo gosto com aquele retrato na sala, pois Sofia era mais bonita que a pintura, Rubião se esquivou, pois o retrato era muito parecido.
No dia seguinte, recebeu a “Atalaia” e leu a notícia da Rua da Ajuda e seu caso heróico salvando Deolindo.
Rubião comprou vários exemplares para enviar aos amigos de Barbacena,
Maria Benedita decidiu passar mais uns dias com a prima. Sofia levava-a para toda parte e ensinava-a valsar. Uma noite Maria Benedita contou quinze minutos que Sofia dançava com Carlos Maria.
Oito meses passados, Rubião já era sócio de Palha em uma casa de importação, negócio que ele não dominava.
Durante a dança Carlos diz a Sofia que pensa nela vendo o mar: “o mar batia com força, mas o coração dele não batia menos, com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por que e o seu coração sabia que batia por ela.”


“Carlos Maria saboreou de memória toda a conversação da noite, mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; e, posto que o benefício corrigisse o tédio, o rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da notícia que lhe deu de haver ido à praia do Flamengo, na outra note, não pôde suster o riso, porque não era verdade.” (Cap. LXXIV)


Dessa vez, Sofia não sentiu dor de cabeça e ficou olhando o mar e pensando nas palavras de Carlos.
Sofia tenciona casar Maria Benedita com Rubião.
Rubião encontra-se com o Major Siqueira e conversam sobre casamento. Rubião pensa nas palavras do Major e antes de cuidar da noiva, cuidou do casamento. Delirava e imaginava casando-se com Sofia.
Freitas fica doente. Rubião foi visitá-lo e deixou-lhe algum dinheiro para ajudar nos remédios.
A ideia do casamento não saía de sua mente e até pensou em D. Tonica. Depois, seus pensamentos voavam no dinheiro que deixou com a mãe de Freitas.

 
O cocheiro que o conduziu comentou que levou um moço que dizia ir à costureira e, logo, em seguida, viu uma mulher disfarçada entrando na casa. Rubião desconfiou que a mulher fosse Sofia.
Nesse tempo, a tia de Sofia morreu.
A cólera se alastrava e Sofia organizou uma comissão de senhoras, a “Alagoas” para angariar recursos. Rubião deu uma quantia grossa.
As mulheres costuravam e uma delas morava na Rua da Harmonia, a rua dos amantes.
Rubião seguiu-a, mas nada ficou confirmado.
Um criado de Sofia traz um bilhete a Rubião e deixa cair uma carta ao pé do canteiro. Era para Carlos Maria. Pensa em levar a carta para Sofia para ver sua reação.
Dr. Camacho propõe Rubião candidatar-se a deputado e quando ele vê um deputado, fica a observá-lo.
Freitas morre.
Na missa de sétimo dia da morte de Maria Augusta, Carlos Maria estava presente.
Rubião acusa Sofia de ter estragado sua vida e entrega-lhe a carta.
Ela pede para ele abri-la. Tratava-se de uma circular.
Rubião ausentou-se dois meses da casa dos Palhas. Mesmo assim, Sofia remeteu-lhe a subscrição para as “Alagoas”.
Cristiano, na época, administrava o dinheiro de Rubião.
Um dia sonhou com Benedita e Sofia e ele era Napoleão.
Não procurou mais Sofia, mas tinha contato com Cristiano. Num desses encontros, ficou sabendo que na próxima quarta-feira era o aniversário de Sofia. Pediu dinheiro a Cristiano e comprou um diamante.
Sofia esperava algum presente, mas depois dos acontecimentos não sabia se viria.
Carlos estava na festa, mas só se ocupava de Maria Benedita e das mulheres da comissão das Alagoas, talvez disfarçasse.
Sofia procura Rubião e chora. Reafirma sua inocência e segreda que Carlos e Maria Benedita estavam noivos. Foi através da Comissão que Benedita conheceu D. Fernanda e ficaram amigas. Carlos Maria era seu primo e ela ajeitou o casamento.
Três meses após o casamento, viajaram a Europa.

“A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia e ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse à epidemia das Alagoas, Talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher, - chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
- É minha, sim, seu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
- Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! - Chamava-se Chagas. - Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal aos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, - a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!"(cap. CXVII)


Graças à epidemia das Alagoas, a prima Sofia se vê no caminho do matrimônio. É como o ébrio que diante do incêndio pede licença para acender o charuto.
Sofia não foi despedir-se.
Na volta, Palha fala a Rubião que quer liquidar a sociedade. Tinha sido convidado para ser diretor de um banco, e ele, provavelmente ganharia as eleições, mas a amizade seria a mesma.
Rubião libera-o dos empréstimos:

“- Pagas o que deves, vê o que te fica”, “pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais.”

Na época, Palha já havia roubado todo o dinheiro de Rubião.
Rubião encontra-se com o Major e este reclama de ter sido mais convidado para as festas dos Palha, nem a filha dele para a Comissão das Alagoas e até chorou.
Nessa época, Rubião jantava ás seis horas e quando ele não aparecia, os convivas jantavam sozinhos.
Estes fumavam seus charutos e se serviam de tudo mais. Um dia repararam em dois bustos de mármores: eram dois Napoleões.
Rubião era sócio de uma Congregação Católica e de um Grêmio Protestante. Assinava jornais sem ler. Um dia, ao pagar o semestre de um jornal, ficou sabendo pelo cobrador que era do governo. Gritou, discutiu e depois, pagou.

“Aqui esta um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e não pagam”.

Rubião, Sofia e Cristiano combinaram de passear na Tijuca. Na hora, Cristiano não podia acompanhá-los. Rubião insiste ir sozinho com Sofia, que não aceita. Depois, imagina que se tivesse um caso fora do casamento, seria com Rubião que era discreto, amava-a e dava-lhe presentes.
Foram ambos e Sofia cai do cavalo.
Um dia, Rubião contrata um barbeiro, o Lucien e pede-lhe que o restitua ao tipo anterior e aponta para o busto de Napoleão III.


A partir desse dia, começa seu delírio e passa a reviver feitos de Napoleão.

Todos gostaram do novo visual, menos Camacho.
Rubião ora era Rubião originalmente, ora era Napoleão, imperador e, essa dupla personalidade equilibrava-se, mas nunca se misturavam.
Com o desenrolar dos capítulos, ou por ter herdado a insânia do filósofo ou por ter uma consciência demasiadamente estreita para compreender a complexidade do mundo em que agora vive, Rubião começa a ser tomado por delírios de grandeza. Somente nestes momentos é que consegue compreender a filosofia de Humanitas desenvolvida pelo finado Quincas Borba, filosofia que tinha no lema “ao vencedor, às batatas” sua grande síntese.
Rubião insiste em ver Sofia e perante sua recusa, ele invade seu coupé.
No momento, passava tudo na cabeça de Sofia: a vontade do beijo, a aversão aquele homem, contar ao marido, mas ele nada pedia e nada fazia.
De repente, ele descreve cenas e acontecimentos românticos entre os dois. Sofia imagina que sua intenção era que o cocheiro ouvisse e suspeitasse de uma aventura irreal.
Mas, quando ela chama-o por Rubião, ele retruca e diz: “Napoleão, não, chama-me Luís, teu Luís”, e continuou a dizer frases desconexas. Disse-lhe que daria um título de duquesa e pede para apear ali mesmo.
A partir desse dia, espalha-se pela região a mania de imperador de Rubião. Em seu delírio chegava a repetir filosofias de Quincas Borba que ele nunca havia entendido.
D. Fernanda e seu marido, Teófilo, alertam os Palhas para o encaminharem a um médico. Entretanto, a resposta do casal foi vaga e vazia. Diziam que Rubião era um gastador e que tinha sobrado pouco de sua fortuna.

“É uma grande amolação, redarguiu este (Palha). E perguntou que interesse tinha Dona Fernanda em tomar àquele negócio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação Ter de cuidar de novo do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Doutor Teófilo. Um aborrecimento de todos os diabos.” (cap. XLXIV)

D. Fernanda mostra a carta que recebera de Maria Benedita e Sofia age com desfeito. Quando pensava na felicidade de Benedita e Carlos Maria, entrava em depressão.
Sofia, certa vez, encontrou Rubião numa livraria e agiu como se não o conhecesse.
Dias depois, encontrou-o novamente na casa de D. Fernanda e cumprimentam-se familiarmente.
D. Fernanda insiste para Sofia procurar um médico e ela disse que apressaria o marido.
Palha alugou uma casa humilde e instalou Rubião, o cão e alguns trastes que sobraram. Nessa época, ele delirava, chamava os criados, amigos, mas ninguém vinha. Acaba-se o dinheiro, acabam-se as “amizades”.
D. Fernanda pediu ao Dr. Falcão para consultá-lo.
Durante o procedimento, ele relata o seu relacionamento com Sofia. Diz que queria nomeá-la duquesa, embora quisesse torná-la imperatriz.
D. Fernanda não aceita os comentários do Dr. Falcão, levando-o a pensar que ela teria um amor secreto por Rubião, até mesmo, por sua preocupação por alguém que não era de sua família.
Carlos e Benedita retornam ao Brasil e Sofia não vai recebê-los. Só regressaram porque Benedita estava grávida e queria ter o filho no Rio de Janeiro e Carlos Maria não concordava com a gravidez exposta ao público.
Rubião vai visitá-los e diz que irá incluí-lo em seu “novo ministério”. Enquanto isso, Teófilo candidatou-se no lugar de Rubião no ministério.
Rubião visita D. Fernanda, mas não foi atendido. Ela mandou dizer que estava doente, no entanto, quem estava doente era Teófilo por não ter conseguido preencher a vaga no ministério.
No dia seguinte, Teófilo recebe uma carta do Presidente para presidir um gabinete.
O criado de Rubião tornara-se Marquês Raimundo. Este contava que, às vezes, ele pedia para o cachorro cantar, falar com as paredes e dava-lhe dinheiro. Quando Rubião estava bem, visitava alguns amigos como o Major e o Dr. Camacho.
Em uma de suas visitas ao Dr. Camacho, foi tratado com indiferença e frieza.
Em outro dia, Rubião encontrou-se com o Major e ficou sabendo que eles haviam se mudado e que D. Tonica iria se casar com Rodrigues, viúvo, meia-idade, com dois filhos, um que estava no batalhão dos menores e outro, com doze anos, era tuberculoso. Sonhavam ter um filho que chamariam por Álvaro.
De repente, Rubião delira. Conta dos seus tempos de casado e de campanha. Promete uma condecoração ao pai e filho, fala de Eugênia, a imperatriz.
O Major empurra-o para a saída e Rodrigues que acabara de chegar mente a respeito do coche que o esperava.
Rubião segue falando sozinho. Na rua alguns moleques o insultam, dentre eles, estava Deolindo.
O pai de Deolindo reconheceu-o e sua mulher ficou chateada com o acontecido.
Rubião foi internado e não resistiu a nada.
D. Fernanda foi até a casa onde Rubião morava, brincou com o cão e acreditou que ele e Rubião eram as mesmas pessoas.
Nasce a filha de Benedita.
Na época, Cristiano já havia vendido tudo de Rubião e sobraram 3 contos e duzentos.
Morre o noivo de Tonica, três dias antes do casamento e inaugura-se o palacete dos Palhas. No baile Sofia ostenta o colar que ganhou de Rubião.
D. Fernanda recebe uma carta do diretor do hospital comunicando a fuga de Rubião.
Rubião tinha escrito ao Cristiano. Já estava consciente e pedia para tirá-lo de lá e emprestar-lhe 100 mil réis para presentear às pessoas que lhe tinham servido.
Palha promete tirá-lo em uma semana. Na saída em conversa com o diretor, foi aconselhado a deixá-lo por mais dois meses.
Rubião e o cão fogem e retornam então, para Barbacena.
Vagam pelas ruas sob forte temporal e, famintos.
Subindo a Rua Tiradentes grita: “Ao vencedor, as batatas!”


Angélica o reconhece e o recebe. Rubião conta os fatos e depois os delírios recomeçam. Mandam chamar o doutor.

E é no meio de um deles que, “poucos dias depois morreu... Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia que foi curta, pôs a coroa na cabeça, uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútilas brilhantes e outras pedras preciosas”. (cap. CC)
Três dias mais tarde, consumido pela tristeza causada pela ausência do dono, será a vez de Quincas Borba morrer.

 
“Acaba-se o mundo, chore quem quiser, ria, gargalhe a humanidade, que os astros do céu pouco estão ligando para os risos e lágrimas humanas. Ficarão sempre firmes e inabaláveis, longe das intempéries do planeta dos homens. Assistirão com a mesma indiferença e impassibilidade de sempre, "às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia". (cap. XLVI)


No último e curto capítulo, o narrador zomba sobre o título do livro, dizendo que ele tanto pode referir-se ao filósofo quanto ao cão. Convoca o leitor para o riso ou para a lágrima em função das mortes de Rubião e de Quincas Borba. E arremata, afirmando a absoluta indiferença da natureza a respeito da tragicomédia humana:

“O cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens”. (cap. CCI)

VII - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

- No Rio de Janeiro para onde partiu em busca das luzes da capital, o Rubião é vítima de duas terríveis atrações: a do amor, personificado em Sofia e a do poder, representado por Camacho, um jornalista inescrupuloso. Rubião não está preparado para a riqueza inesperada. Não tem percepção dos complexos mecanismos que regem os negócios na vida urbana e tampouco entende as sutilezas psicológicas que delimitam as relações pessoais na cidade. A sua progressiva loucura parece traduzir a estreiteza de sua consciência diante de um mundo que não compreende. É um protagonista passivo, incapaz de delimitar o seu próprio destino.

- Apesar da ingenuidade que define a sua alma, Rubião é capaz de passar por cima de certas objeções éticas, mostrando que o seu móvel também é o interesse. Associa-se, por exemplo, a Palha, apenas para ficar mais próximo de Sofia e poder amá-la sem que a opinião pública levantasse suspeita.

- Incontestavelmente, o grande mestre da análise introspectiva, entre nós, numa verdadeira dissecação da alma humana, é Machado de Assis. A grande característica da sua obra de segunda fase – onde se enquadra Quincas Borba – é a análise de caracteres. Aí, para usar as palavras de Massaud Moisés, Machado de Assis revela “grande preocupação pela análise de caracteres e de situações de sondar o interior das personagens e das situações dramáticas, psicológicas, sociais, cômicas, etc.”- o que determina no caso de Machado de Assis, o processo “câmera lenta” usado pelo escritor na condução de sua obra. Daí Ter maior importância para o escritor a análise, ficando em segundo plano a intriga ou enredo do romance. É o que ocorre em “Quincas Borba”, onde, igualmente, o leitor “não achará o seu romance usual.” A grande preocupação de Machado no romance é em sondar a alma humana, em analisar-lhe os porquês das marchas e contramarchas. Observe-se que, no caso do “Quincas Borba”, a técnica machadiana é de sempre narrar um fato para depois analisá-lo.

- "Não se pode dizer que Machado de Assis tenha sido o maior dos humoristas do nosso tempo. Mas, se o calendário ainda tem algum sentido e significação, força é reconhecer que não há outro mais expressivo, por isso que foi o autor de “Quincas Borba” o primeiro a compreender toda a sua extensão, ainda sem meio dos deslumbramentos do século, o fracasso do homem no seu afã de domínio sobre a natureza e os enigmas tenebrosos da existência."
Machado de Assis usa o humor como arma para lutar contra o pessimismo. Humor âmago, onde ri para não chorar.

- A “Teoria dos Humanitas” ou “Humanitimo” nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo a valorização resume na luta pela sobrevivência quem vence é o mais forte.

“- Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra”.

O homem é imperfeito e cheio de falsidades, onde um cão pode ser mais amigo e fiel do que ele.

“- Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda parte, existe também no cão, e este pode ser assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano...”
No entanto, Rubião ao tornar-se “herdeiro das batatas” (riqueza e posição social) não sabia que estas seriam o veículo de sua destruição e ele que até então não entendera a exposição do filósofo, agora, passa a compreendê-la.

- O pessimismo está presente em toda a obra. O romance é uma visão fria e impassível da vida, como ressalta o crítico Massaud Moisés, "o livro todo é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas "verdades" (...) A ironia atinge a todos e só se salvam (caso o consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais".

- Outros aspectos do estilo de Machado de Assis, ponderáveis em “Quincas Borba” são: o diálogo com o leitor; o gosto pelas citações, referências bíblicas, referências a capítulos anteriores e uma predileção muito grande por personagens bem estabelecidas, financeiramente, que agem com muita frequência, de forma maquinal e inconsciente.

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