segunda-feira, 18 de abril de 2011

NOITE NA TAVERNA E O ULTRARROMANTISMO DE ÁLVARES DE AZEVEDO


“Narrativa frenética é de fato esta que Satã desvenda a Macário como uma espécie de experiência-limite, marcada pelo incesto, a necrofilia, o fraticídio, o canibalismo, a traição, o assassínio – cuja função para os românticos era mostrar os abismos virtuais e as desarmonias da nossa natureza, assim como a fragilidade das convenções.”


Antônio Cândido, “A educação pela noite e outros ensaios”

I - INTRODUÇÃO:


“Noite na taverna”, de publicação postumamente em 1855, é uma coletânea de contos que apresenta características bastante particulares, uma vez que as personagens se reúnem para relatar acontecimentos macabros e satânicos vividos ou imaginários.

A obra traduz com exatidão o entusiasmo dos românticos pelo mal-do-século que dominou a segunda fase do Romantismo.
Segundo Antônio Cândido, Álvares de Azevedo, dilacerado pelas contradições da adolescência, “sofre (...) o fascínio do conhecimento e se atira aos livros com ardor; mas, ao mesmo tempo, é suspenso a cada passo pela obsessão de algo maior, a que não ousa entregar-se: a própria existência, que lhe escorrega entre os dedos inexpertos”.
Nele “o cansaço precoce de viver, o desejo anormal do fim, assaltam com frequência a imaginação, atraída pela sensualidade e ao mesmo tempo dela afastada pelo escrúpulo moral e pela imagem punitiva da mãe, conduzindo a uma idealização que acarreta como contrapeso, em muitas imaginações vivazes, a nostalgia do vício e da revolta”.
A influência dessa corrente transparece em cada momento nos contos dessa obra, traduzindo magnificamente a inquietação de Shelley, o pessimismo de Leopardi, o amargor irônico e o satanismo Byron, grande mestre do autor, e a melancolia de Musset.
Essas influências geram uma prosa marcada pelo devaneio e pela fantasia, tomadas aqui como fuga do real, deformação da realidade, dos valores da sociedade, pela embriaguez e pelo tabagismo, estado de torpor que aproxima as personagens e mecanismo de consubstanciação de seus desejos e anseios, bem como de alívio das dores trazidas pela memória.
Álvares de Azevedo em “Noite na taverna”, constrói um mosaico narrativo, fazendo com que as personagens circulem entre os vários contos, criando para alguns leitores e críticos a possibilidade de classificar o texto como novela, se tomado por um todo.
Rodeados de prostitutas, bebidas e fumos, cada um configura um conto, sendo que o primeiro conto “Uma noite do século”, além de expor o ambiente, também apresenta o perfil das personagens e o último conto, “Último beijo de amor”, reuni as personagens dos outros contos, dando unidade à obra.
Dessa forma a independência de cada texto, se tomados os narradores e os elementos narrativos separadamente, anula-se em função da unidade, quando surge um narrador em terceira pessoa que reúne as personagens na taverna.
O enredo do conto, assim, acaba por tornar-se fragmentado, pois decorrem de suas memórias, que, aliás, estão adormecidas em virtude do sonho e da embriaguez.

II - FOCO NARRATIVO:

A obra “Noite na Taverna” gera certo estranhamento pela multiplicidade narrativa, pela configuração complexa dos focos narrativos, pela ideologia romântica contida em cada conto, ou ainda pela aproximação entre o material narrativo e o poético.
O primeiro e o último conto estão em terceira pessoa do singular, um narrador exterior ao texto, enquanto que, nos outros contos, o protagonista acaba por se confundir e muda às vezes de foco narrativo.

III – TEMPO E ESPAÇO:

O tempo é psicológico e indeterminado, embora fique claro o comportamento dos jovens no século XIX. Existe um tempo da narrativa, momento em que os protagonistas “viveram” a ação no passado; e um tempo da narração, momento em que os protagonistas contam a ação vivida, o presente, quando todos estão reunidos na taverna.
O espaço principal da ação é na taverna, lugar marcado por um clima de embriaguez e penumbras. Toda essa atmosfera é criada a partir do noturno, trazendo de volta o culto da noite que predomina na literatura do Romantismo.
Em “Noite na taverna” ocorre, ainda, uma espécie de “educação pela noite” pelas conotações de mistério e de treva, para chegar a um discurso aproximativo ou mesmo dilacerado, como convém ao derrame sentimental unido à libertação das potências recalcadas do inconsciente. (Antônio Cândido)

IV – CARACTERÍSTICAS:

"É preferivel morrer por amor que viver sem ele".

“Noite na taverna” não se prende apenas a um gênero ou espécie literária, aproximando-se, simultaneamente, dos gêneros épico, lírico e dramático. O épico por relatar façanhas narrativas; o lírico pela carga emocional das falas dos protagonistas, do emprego de um poema num dos contos e da prosa poética que aparece dominar boa parte dos textos e, o dramático, na ação das personagens e em seus diálogos carregados de significação, o que pode ser confirmado, no início da obra onde Macário e Satã dialogam na primeira cena.
Satã conduz Macário a uma orgia, a fim de que “leia uma página da vida, cheia de sangue e de vinho.”
Macário, então, vê da janela de uma taverna “uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, uma lívidas, outras vermelhas...”
A obra reveste-se de um caráter perverso, noturno, satânico ou demoníaco da mentalidade byroniana, expressa através de crimes e de orgias imaginários, vividos como compensação da incompatibilidade entre o sonho e a realidade e, relatada por cinco personagens-narradores: Solfieri, Bertram, Johann, Gennaro e Claudius Hermann, os quais se caracterizam como homens ébrios e devassos, cultivadores dos vícios e das perdições humanas.
“Noite na taverna” apresenta sete partes, cada uma com uma epígrafe, e ainda uma epígrafe geral. A epígrafe geral refere-se à aparição do pai de Hamlet, da obra homônima de Shakespeare. As demais serão comentadas no final de cada conto.
A ação é lenta, entrecortada por digressões dos narradores, que preferem ressaltar a beleza de suas amadas, geralmente mulheres pálidas, a filosofar a prosseguirem suas histórias.
O amor visto como platônico, inatingível, parece restar somente o aspecto sexual. Justificam o mito de que Eros (amor) e Thanatos (morte) andam sempre juntos, como sombra invisível do outro, o que parece ocorrer em todos os contos.
Ao lado do pólo do mal que predomina em “Noite na taverna”, personificado em especial pelas imagens do libertino e da mulher perdida, a prostituta, aquele que é o seu oposto complementar: o pólo do bem, manifestado através da presença da figura da mulher-anjo, e da ideia do amor como regenerador de todos os vícios, enfim, dos mais preciosos sonhos amorosos e libertários dos nossos byronianos.
O erotismo é algo latente em tais protagonistas. Mal resolvidos em suas aventuras amorosas, encontram na sedução, ao estilo da personagem byroniana Don Juan, o conquistador sem escrúpulos, a materialização de seu herói sem caráter.
A fragilidade das convenções sociais e a natureza fatalmente má da pessoa humana constituem os elementos justificadores da postura sexualmente doentia e perversa dos ultrarromânticos, sugerida pela obra.
A polarização entre idealismo e niilismo que se encontra desde o prólogo da obra, em que as personagens discutem o vício e a pureza, o materialismo e o espiritualismo, a fé e o ateísmo, e, significativamente, o epicurismo: a defesa do prazer com valor supremo da existência.

V – RESUMO DO ENREDO:

CONTO I

“Uma noite do século”

Conto introdutório do livro. O autor localiza o leitor do ambiente que se encontra e apresenta as personagens que constituíram as narrativas dos próximos contos.
Johann pede silêncio, disserta sobre as mulheres que dormem ébrias e pálidas como defuntos. Bertram manda-o calar e fala sobre a beleza das canções de orgia e das noites passadas ao reflexo das taças. Johann acusa-o de louco e acrescenta que não é a lua que vai macilenta, mas sim, o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morre.
Exaltam o álcool; reclamam á taverneira que as garrafas estão vazias e comparam os lábios da garrafa com as das mulheres:


Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?”

Depois passam a brindar o fumo, concluindo que o fumo é a imagem do idealismo e, em seguida, brindam o fumo.
Solfieri passa a falar sobre a transmigração das almas (metempsicose), afirma que a alma era bela, mas podia se tornar lodo e podridão. Acrescenta que a alma não é como a lua, sempre moça, bela e nua. A vida é a reunião ao acaso das moléculas atraídas, o que era corpo de mulher podia se transformar em cipreste, ou em um verme em uma flor.
Archibald critica o materialismo de Solfieri e defende o espiritualismo. Para Solfieri o sonho mais lindo é a febre do libertino, a bebida, a sexualidade e a mulher seminua.
Archibald diz que Solfieri estava blasfemando e pergunta se sua descrença derrubou “todas as estátuas do seu templo, mesmo a de Deus?”
Ele responde que Deus só aparece na hora do medo, do desespero e não acredita nele não. Archibald pergunta-lhe se não acredita nem na Bíblia. Então, Johann responde que acredita somente em poesia, não em verdades religiosas e que o resto era tudo falso “mentiram como as miragens do deserto”.
Archibald diz que Johann está bêbado e desdenha do ateísmo e da ciência:
“(...) ela mente e embriaga como um beijo de mulher.”
Por fim concluem que a verdadeira filosofia de vida é o epicurismo (prazer).
Em seguida, brindam em homenagem a Pã, deus da natureza, correspondente a deus Baco, deus do vinho.
Archibald convida todos a contarem uma história medonha, macabra, iguais aos contos fantásticos como Hoffmann delirava ao clarão dourado do Johannisberg (vinho alemão).
Solfieri diz que começará. Mas que contará uma história de seu passado e não um conto.
Todos fazem silêncio.
A epígrafe do conto, de autoria de José Bonifácio, traduz uma ideia geral de transitoriedade de todas as coisas, mostrando que tudo é ilusão, tudo é provisório, devendo-se buscar o prazer na embriaguez.

OBSERVAÇÕES:

No primeiro conto “Uma noite do século”, as personagens são reunidas numa taverna entre copos de vinho e baforadas de cachimbo para contarem suas histórias. Os princípios de cada integrante do grupo são apresentados, bem como suas opiniões. É importante chamar a atenção para o posicionamento contrário entre as personagens no que se refere às ideias sobre o espiritualismo e ciência, mantendo, entretanto a mesma posição com relação ao vinho e ao tabagismo. Percebe-se que essa visão romântica do mal-do-século domina os presentes, preocupados constantemente com as garrafas vazias, pois só no álcool encontram a fuga ideal para seus temores e fantasmas, bem como a coragem para prosseguirem suas narrativas.
A grande preocupação dos presentes com a literatura e a filosofia pode ser tomada como intertextualidade, mantendo íntima ligação da presente obra com textos de autores famosos.
A epígrafe desse conto, de autoria de José Bonifácio, traduz uma ideia geral de transitoriedade de todas as coisas, mostrando que tudo é ilusão, tudo é provisório, devendo-se buscar o prazer na embriaguez.

CONTO II

“Solfieri”

Solfieri conta-nos uma aventura que teria “vivido” em Roma, cidade do fanatismo e da perdição (bem X mal).
Uma noite, ele passeava a sós por uma ponte, as luzes se apagaram e ele vê numa janela solitária e escura, uma sombra de mulher:
Era uma forma branca. A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas”.
A visão desaparece e ele ouve um canto triste, como o som dos ventos chorando à noite nos cemitérios, cantando o canto fúnebre das flores murchas da noite.
Não era uma voz melodiosa: havia naquele cantar como choro de frenesi, um como gemer de insânia – aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores murchas da morte”.
Depois que o canto cessou, a moça surgiu à porta, certificou-se que não tem ninguém e saiu.
Solfieri a seguiu. Andaram muito, até que a moça parou num campo com muitas cruzes, ajoelhou-se e parecia chorar.
Solfieri não se lembra da sequência dos acontecimentos, só que quando acordou, já tinha amanhecido e estava a sós no cemitério; mas, tem certeza que não foi sonho, tendo em vista que as plantas perto da cruz estar quebradas.
O protagonista teve febre em consequência daquela noite. Em seu delírio via a mulher pálida, ouvia seus soluços e um canto melancólico.
Nunca se esqueceu daquela mulher e daquele canto...
Depois de um ano regressou a Roma. Solfieri vivia incompleto, os beijos das mulheres não o saciavam e só pensava na visão de um ano atrás.
Uma noite, depois de uma orgia com a condessa Barbora, abandona-a em seu leito, e quando se deu por si, estava num lugar escuro, uma igreja. Dentro do templo observou as luzes de quatro velas que batiam num caixão entreaberto.


Abri-o e descobriu na morta a moça que vira à janela um ano atrás, o “Anjo do cemitério”.

Fechou as portas da igreja, despiu a moça, beijou-a e a possuiu (lembrou-se do caso de Maria Stuart, degolada e possuída, conforme conta Brantome).
Tal erotismo necrófilo, nos faz lembrar a posse da Bela Adormecida.
Depois de fazer amor com a moça morta, ela o abraça fortemente, abrindo os olhos.
Não era já a morte: era um desmaio. A moça sofria de catalepsia (estado mórbido caracterizado pelo enrijecimento dos membros, insensibilidade, palidez, diminuição de respiração e pulso).
A moça revivia aos poucos e ao acordar, torna-se a desmaiar.
Solfieri a enrolou numa capa tomou-a em seus braços e a raptou.
Na porta encontrou-se com um coveiro da igreja que ali dormira de bêbado.
Ao passar pela praça, deparou-se com a polícia que o questiona ser ladrão de cadáveres.
Ele prova que a moça estava somente desmaiada, beijando-a.
Ele corria temendo que a moça acordasse e assustada, gritasse, o que irá acontecer somente quando ele chega com ela em sua casa. Trancou-a em seu quarto. Os amigos libertinos chegando começaram a importuná-lo. Depois de meia hora, quando os amigos já bêbados não percebiam a sua ausência, volta ao quarto e encontra a moça em pé, rindo como se estivesse louca.
Dois dias e duas noites durou o seu delírio, morrendo após.
À noite, Solfieri procura um estatuário e pagou-lhe para fazer uma estátua da moça. Depois, ele mesmo cavou um túmulo debaixo de sua cama, enterrando-a. Antes se despediu, tomando-a nos braços, beijando-a e cobrindo-a com seu lençol.
Durante um ano dormiu sobre as lajes que a cobriam. Finalmente, recebeu sua encomenda (a estátua). Nisso Solfieri interrompe a sua narrativa para perguntar a Bertram se ele não se lembrava daquela forma de mulher branca que um dia ele vira pela cortina de seu quarto e que ele, Solfieri tinha na época respondido que era uma virgem que dormia. Bertram então quer saber o nome da moça.
Solfieri nega-se a contar, alegando que um nome não era tão importante perante a importância de tais acontecimentos. Quando Solfieri encheu novamente a taça e levantou-se, é detido por um companheiro que queria saber a veracidade da história. Solfieri afirma que é tão verdadeiro como o seu pai era um conde e bandido e a mãe, uma messalina (prostituta) das ruas. Abriu a camisa e viram-lhe no pescoço uma grinalda de flores murchas.
“- Vede-la? Murcha e seca como o crânio dela!”

OBSERVAÇÕES:

O conto revela uma relação macabra entre o protagonista e uma jovem supostamente morta, mas que estava apenas tomada de um sono cataléptico. Esse comportamento macabro, que poderia ser tomado como necrofilia, pois para o protagonista a moça estava morta, é continuado após a morte real da moça, enterrada sob as lajes debaixo da cama do protagonista, e pelo fato dele trazer ao pescoço as flores murchas da grinalda que a moça levava no caixão.
É importante ressaltar que nesse conto a figura da mulher dormindo revela um comportamento típico na obra de Álvares de Azevedo. Aqui se aliam o amor e o medo de amar. Diante desse temor, resultado típico da inexperiência amorosa, como observa Mário de Andrade sobre o autor, fica mais fácil possuir a mulher dormindo: “o medo de amor inventa a ideia de possuir a bela adormecida”. Cabe destacar que, enquanto, a mulher dorme, existe espaço para a fantasia, o sonho e a imaginação.
A epígrafe do conto, de autoria de Lord Byron, alude a um beijo apaixonado nos lábios de um corpo pálido e frio, o que ocorre no presente texto.

CONTO III

“Bertram”


A história de Bertram passa-se na Espanha.
Bertram cabelos ruivos, tez branca, conta o seu amor por uma espanhola que o levou a perdição. Afirma que por causa dessa moça é que caiu em orgias, bebedeiras, jogos e até em duelos com os três melhores amigos, matando-os, fazendo o sentir-se abandonado no mundo.
“Foi ela quem me queimou a fronte nas orgias, e desbotou-me os lábios no ardor dos vinhos e na moleza de seus beijos, quem de fez devassar pálido as longas noites de insônia nas mesas do jogo, e na doidice dos abraços convulsos com que ela me apertava contra o seio! Foi ela, vós o sabeis, quem fez-me num dia ter três duelos com meus três melhores amigos, abrir três túmulos àqueles que mais me amavam na vida...”
Solidão que podia ser comparada com o de uma mulher que mata o seu próprio filho ou como o do mouro, que matou Desdêmona (Otelo).
Bertram amou Ângela, uma espanhola de Cádiz. Quando estava decidido a casar-se com ela, foi chamado pelo pai para partir para a Dinamarca.
Na despedida choros e promessas para o futuro. Quando chegou á casa de seu pai, encontrou-o velho e doente. Ele agradeceu a Deus por ver o filho, chorou e morreu, dizendo Deus...
Bertram ficou fora por dois anos. Ao regressar, encontrou Ângela já casada e com um filho.
Mas o amor entre eles não tinha se acabado e tornam-se amantes.
“Muitos ardentes foram aquelas horas de amor e de lágrimas, de saudades e beijos, de sonhos e maldições, para nos esquecermos um do outro.”
Bertram e Ângela encontravam-se constantemente, até que um dia, foram descobertos.
“Mas um dia o marido soube de tudo: quis representar de Otelo com ela. Doido”.
Bertram esperou Ângela passar pelas cortinas brancas e foi chamado por ela.
Ângela estava deslaçada, o vestido solto e o cabelo desgrenhado. Quando ele pegou em suas mãos, sentiu-as úmidas.
O casal seguiu por uma escada escura, quando Bertram levou sua mão até seus lábios e sentiu um gosto de sangue. Sem nada entender perguntou a Ângela sobre aquele gosto de sangue e ela riu.
No momento em que Ângela foi buscar uma luz, Bertram encostou-se numa mesa e ao passar sua mão sobre ela, sente a mesma umidade e uma cabeça fria.
“Procurei, tateando, um lugar para assentar-me, toquei numa mesa. Mas ao passar-lhe a mão senti-a banhada de umidade: além senti uma cabeça fria como neve e molhada de um líquido espesso e meio coagulado. Era sangue...”
Ângela chegou com a luz e iluminou o marido degolado. Sobre o peito do marido, encontrava-se também o filho morto, onde os sangues se misturavam.
A amante confessou-lhe que fez isso por amor a Bertram, que agora ela só pertencia a ele e que deviam fugir para o futuro.
E assim se fez.
“Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem fim. Ângela vestira-se de homem: era um formoso mancebo assim. No demais ela era como todos os moços libertinos que nas mesas da orgia batiam com a taça na taça dela. Bebia já como uma inglesa, fumava como uma sultana, montava a cavalo como um árabe e atirava as armas como um espanhol”.
Um dia ela partiu, deixando em Bertram lembranças e vícios. Bertram tentou esquecê-la na bebida, nas orgias e nos jogos.
Uma noite, bêbado foi atropelado por uma carruagem e socorrido num palácio por um nobre velho viúvo que tinha uma filha donzela de dezoito anos.
A filha desse nobre se apaixonou por Bertram.
“Não era amor que sentia por ela - era uma fatalidade infernal”. “A pobre inocente amou-me”.
Bertram desonrou a moça e a raptou. Deixando o velho a sofrer sem nada poder fazer.
Depois, Bertram cansou-se da moça e jogando com um pirata chamado Siegfried, após de ter perdido a última jóia dela, vendeu-a a esse pirata.
Na primeira noite, a moça envenenou o pirata e se afogou.
Certo dia na Itália, saciado de vinho e mulheres, Bertram resolveu suicidar-se e atirou-se de um rochedo. Um marinheiro tentou salvá-lo, mas acabou morrendo, como Bertram veio saber mai tarde ao recobrar os sentidos.
“Enquanto os homens do mar choravam, Bertram ria de sua sina negra.”
Um navio que estava de partida, na época, comandado por um homem belo, convidou-o a fazer parte da tripulação de seu navio. Bertram aceitou, mas impôs que o ajudaria na hora da luta, enquanto que na hora da manobra, ele dormiria.


Bertram não quis falar de seu passado.

O comandante trazia consigo a sua mulher, uma santa:
“Criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecido esquecido entre as ondas...era uma santa”.
Todos os marinheiros a respeitavam, mas Bertram apaixonou-se por ela.
Às vezes, ela sorria triste.
“Um poeta a amaria de joelhos”.
Uma noite Bertram escreveu uns versos de pureza a ela ao contrário do amor que viveu com Ângela.
“Era a última folha da minha virgindade que lançava ao esquecimento”.
Justamente agora que ele imaginava que nunca mais amaria, pois os seus sentimentos estavam mortos como crianças afogadas em sangue ao nascer...
Ela também estava apaixonada por Bertram, e enquanto o comandante dormia, ela se entregava a Bertram.
Numa madrugada foram atacados por um navio pirata.
Houve muitas mortes.
“E nesse tempo, enquanto o comandante se batia como um bravo eu o desonrava como um covarde”.
Passados alguns dias, o navio encalhou num banco de areia. Os tripulantes acabaram numa jangada no meio do mar. Uma noite veio uma tempestade e restaram somente cinco pessoas (o comandante, Bertram, a moça e dois marinheiros).
“Quando a aurora veio, restávamos cinco: eu, a mulher do comandante, ele e dois marinheiros...”
Durantes muitos dias, só se alimentavam de bolachas.
Betram pergunta a Solfieri porque ele tinha se empalidecido e nesse momento há uma reflexão sobre o que é a vida, chegando á conclusão que a mocidade é só ilusões, depois envelhecemos e é só miséria e loucura.
Bertram é interrompido com a chegada de um velho no recinto. Interrogado pelos rapazes, o velho diz que foi soldado, já bebeu com Bocage, ajoelhou-se sobre o túmulo de Dante e já esteve na Grécia. Era um andarilho, libertino e vagabundo.
“Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta anos, sou um vagabundo sem pátria e sem crença aos quarenta anos...só trouxe duas lembranças – um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre – e uma agonia de poeta...Dela tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos”.
Tirou do bolso um embrulho, era um lenço vermelho e dentro tinha uma caveira. Os presentes ficaram espantados e um deles sugeriu que pudesse ser a cabeça de um poeta ou talvez de um louco.
O velho diz que o moço só errou em não pensar tratar-se de ambas as coisas e completa dizendo que Sêneca já dizia que a poesia era insânia (loucura).
O velho brindou à lembrança do poeta-louco Werner e saiu.
Bertram continuou a sua história: estavam os cincos famintos, com sede. Bertram filosofa sobre a grandiosidade do homem e conclui que tudo se apaga diante da fome e da sede.
“Isso tudo, senhores, para dizer-vos uma coisa muito simples...um fato velho e batido, uma prática do mar, uma lei do naufrágio – a antropofagia”.
Reflete sobre a criação do mundo, onde Deus fez tudo maravilhosamente e entregou ao homem para usufruir. Fala sobre o corpo humano, sua inteligência, da natureza, da beleza da mulher...depois completa dizendo que tudo isso é belo, mas tudo se apaga diante de dois fatos: a fome e a sede e que nos leva a uma prática do mar, a lei do naufrágio - Antropofagia.
Dois dias depois do naufrágio acabaram os alimentos. Restavam somente Bertram, a moça e o comandante e, o uso do mar manda a morte de um para a vida de todos. Tiraram a sorte para ver quem morreria para a sobrevivência dos outros e o comandante perdeu, tendo que morrer.
O comandante desesperado pediu para terem compaixão e implorou que esperassem por mais um dia, que Deus os ajudaria.
Bertram riu do desespero do homem “morrer hoje, amanhã, ou depois...tudo me era indiferente, mas hoje eu tinha fome e ri-me porque tinha fome”!
O comandante o lembrou que fora generoso com ele, que o acolhera, que o amara. Mas, quando ele percebeu que não conseguiria convencê-lo, tornou-se agressivo e partiu para a luta. Bertram o derrubou, pôs-lhe o pé na garganta, sufocando-o até morrer. Aquele cadáver foi o alimento de Bertram e da moça durante dois dias.
Bertram pede-nos que não fiquemos enjoados, pois teríamos feito o mesmo.
Quando as aves do mar chegaram para compartilhar os restos do cadáver, Bertram atirou o restante ao mar.
Ele e a moça ficaram mais dois dias sem ter o que comer e sem beber. Então, ela propôs morrerem juntos e ele acaba por concordar.
Antes disso, amaram-se em um gozo febril.
A mulher enlouqueceu e passou a delirar. Bebia as águas do mar dizendo que era vinho e dava gargalhadas.
“Ela tinha febre no cérebro...e meu estomago tinha fome”!
Apertou-a fortemente, sufocando-a.
“Aperteia-a nos meus braços, oprimi-lhe nos beiços a minha boca em fogo, apertei-a convulsivo, sufoquei-a. Ela era ainda tão bela!”
Sentiu uma vertigem, parecia que o mar ria dele, de repente uma onda roubou-lhe o cadáver, ele viu o defunto erguer-se na escuma das vagas, depois desaparecer.
Não sabe por quanto tempo passou inconsciente, quando acordou desse pesadelo, estava a bordo de um navio inglês Swallow, que o salvara.
Em seguida, grita á taverneira, chamando-a de bastarda de Satã, pois as garrafas estavam vazias.

OBSERVAÇÕES:

Neste conto a figura de Ângela foge do modelo romântico de mulher idealizada pelo autor em toda em toda a obra. Ela não é pálida nem frágil como as demais, pelo contrário, é morena; não se mostra passiva, mas ativa, tem poder de decisão, entrega-se a Bertram porque assim o desejo. Para ficar com ele, não hesita em assassinar o marido e cometer infanticídio. Além do mais, foge do modelo de mulher-anjo para representar um ser demoníaco e decaído, afinal bebe, fuma, veste-se e age como homem, apesar de seu nome indicar o oposto.
Esse comportamento masculino traduz certa ambigüidade à personagem, daí o amor anormal que despertaria no protagonista.
O conto apresenta provas do comportamento devasso e desabusado do protagonista que, aproveitando-se daquele que o salvou de um atropelamento, seduz-lhe a filha e foge com a moça. Tal comportamento é continuado ao vender a moça para um pirata, traduzindo a visão da mulher como objeto de posse. A atitude da moça é geradora de mais duas tragédias: assassina o comprador e suicida. Como se não bastasse, paga a acolhida do comandante em seu navio tornando-se amante de sua mulher. O final do conto não poderia ser mais macabro, aludindo à necessidade de sobrevivência, mata o comandante e pratica a antropofagia. Assim temos: adultério, homicídio, suicídio e antropofagia reunidos no mesmo conto.
Como ocorre no comportamento do protagonista, predomina na epígrafe do terceiro conto uma tendência individualista: “Mas porque eu deveria chorar pelos outros / Se ninguém suspira por mim?”

CONTO IV

GENNARO

Esta história se passa na Itália.
Gennaro diz que enquanto ouvia a história de Bertram, lembrou-se de uma de suas histórias - uma história que envolve duas mulheres e um velho.
Godofredo Walsh era um pintor, um gênio e ele, Gennaro, um aprendiz de pintura que fora morar na casa do mestre.
Nesta época, o mestre estava casado em segundas núpcias com Nauza, uma jovem bela de vinte anos, que servira de sua modelo. Godofredo tinha uma filha do primeiro casamento, Laura de quinze anos.
Gennaro era lindo, tinha dezoito anos, puro, melancólico como o Rafael se retratou no quadro da galeria Barbefini.
Gennaro apaixonou-se platonicamente por Nauza, esposa do pintor.
Laura era uma moça pálida, de cabelos castanhos e olhos azulados, parecia querê-lo como a um irmão.
“(...) Seus risos, seus beijos de criança de quinze anos eram só para mim. À noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha lâmpada, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces , nas trevas”.
Todas as noites antes de deitar-se, Gennaro despedia-se de Laura com um beijo nas faces. Uma manhã, quando o mestre tinha saído e Nauza ido à igreja, Laura aproveitou-se da ocasião, foi até o quarto de Gennaro e deitou-se ao seu lado. Excitado e atraído pela beleza da moça ainda inocente, possui-a e tornaram-se amantes.
“O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu, isso tudo...ao despertar dos sonhos alvos da madrugada , me enlouqueceu...”
A partir desse dias, todas as manhãs, Laura encaminhava-se ao quarto de Gennaro e lá se amavam.
Passaram três meses, até que um dia, Laura anunciou que estava grávida e implorou que ele se casasse com ela. Gennaro calou-se. Laura chorou muito e foi levada para o seu quarto por Gennaro.
Gennaro não sabia o que fazer, tinha medo de contar ao mestre o ocorrido e ele matá-lo, ou expulsá-lo de sua casa.
“Era uma luta terrível essa que se tratava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso”.
Além disso, existia Nauza e o seu amor por ela aumentava cada vez mais.
Laura calou-se. Tinha um sorriso frio e tornava-se cada dia mais pálida. A gravidez não aparecia e Laura ia morrendo aos poucos.
Godofredo tinha insônias, não pintava mais, arrancava os cabelos brancos vendo o estado de sua filha sem ter o que fazer.
Até que em uma noite, Gennaro foi chamado às pressas, Laura morria e queria falar com ele. No delírio de sua febre, ela murmurava o seu nome. Ao entrar em seu quarto, foi reconhecido pela doente. Laura apertou sua mão e com muitas dificuldades murmurou em seus ouvidos:
“- Gennaro, eu te perdôo tudo...Eras um infame...Morrerei...Fui louca...Morrerei...por tua causa...teu filho...o meu...vou vê-lo ainda...mas no céu...meu filho que matei...antes de nascer...”
Laura deu um último suspiro e morreu.
Passou um ano, o mestre parecia louco. Todas as noites, Godofredo se trancava no quarto que fora de Laura e lá passava a noite inteira em plena solidão, afogando-se em soluços.
“Depois tudo emudecia: o silêncio durava horas; o quarto escuro; e depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de bêbado que cambaleia”.
Uma noite Gennaro confessou o seu amor por Nauza. Inicialmente, Nauza o desprezou, mas quando o jovem ameaçou partir para longe, ela chorou e tornaram-se amantes.
À noite, enquanto Gennaro passava soluçando no leito da sua filha falecida, Gennaro e Nauza se amavam em seu leito conjugal.
Uma noite, o mestre veio até o leito de Nauza e levou Gennaro pelo braço, arrastando-o para o quarto que fora de Laura e atirou-o no chão.
Em seguida, ergueu um lençol que cobria um painel e mostra-lhe uma pintura: era Laura moribunda, que murmurava nos ouvidos de Gennaro toda a sua verdade.
“Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me e chorei lágrimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se erguia dentro os lençóis de seu leito e me acendia o remorso e no remorso me rasgava o peito”.
A partir dessa noite, o mestre começou a tratá-lo com indiferença e friamente.
Gennaro recorda-se que na noite em que contara a verdade ao mestre, vira através de um espelho uma roupa branca passar por perto, só devia ser Nauza que ouvira tudo.
O ritual de Godofredo se repetia diariamente. Gennaro certa noite, o seguiu e descobriu que Godofredo era sonâmbulo.
Uma noite, depois da ceia, o mestre tomou sua capa e lanterna e chamou Gennaro para acompanhá-lo. Rinha que sair da cidade e não queria ir só.
A noite estava escura e fria, mas pelo barulho das pedras soltas, percebia que estavam à beira de um despenhadeiro.
Caminharam juntos por muito tempo, até que o mestre pediu que Gennaro o esperasse ali. O velho bateu à porta de uma cabana e entrou. Quando a porta se fechou deu para ver uma mulher lívida e desgrenhada com um facho na mão.
O mestre retornou e disse a Gennaro que iria contar-lhe uma história.
Na realidade, a história que o mestre contou-lhe era a própria história de Gennaro e Laura.
Gennaro pediu-lhe perdão e o mestre perguntou se Gennaro teve piedade da virgem, desonrada e infanticida.
Godofredo diz que se existisse castigo pior que a morte, ele lhe daria, pede, então, para que Gennaro olhasse para o despenhadeiro, pois lá seria o seu túmulo seguro.
Gennaro tinha que escolher entre o suicídio ou o assassinato, não tinha outra saída, além do mestre ser mais forte que ele, também estava armado. Restava apenas ser atirado ou jogar-se no abismo.
Gennaro disse que estava pronto, depois veio uma vertigem e de repente não sentiu mais nada.


Quando acordou estava numa cabana de camponeses que o salvaram. Na queda Gennaro ficou preso nos ramos de uma azinheira enorme.

Já totalmente recuperado, resolveu procurar o mestre, quem sabe agora ele o perdoaria, pois viver com aquele remorso era impossível.
No caminho encontrou um punhal e reconheceu ser do mestre. Então, veio-lhe a ideia de vingança e não de humilhação.
Chegando à casa do mestre, encontrou-a fechada, chamou e ninguém veio atender. Então, ele arrombou uma das portas e entrou.
Ao abrir a porta do quarto de Nauza, sentiu um cheiro pestilento.
Nauza estava morta, com a face na mesa e os cabelos caídos. O mestre, também, morto numa poltrona coberto com um capote, entre eles, um copo onde se depositara um resíduo.
Com certeza, esse veneno fora vendido por aquela mulher da cabana. O mestre acreditando que Gennaro estivesse morto envenenou Nauza e a si mesmo.
“Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabeça...Era Nauza, mas Nauza cadáver, já desbotada pela podridão. Não era aquela estátua alvíssima de outrora, as faces macias e o colo de neve...era um corpo amarelo...Levantei uma ponta da capa do outro: o corpo caído de bruços com a cabeça para baixo; ressoou no pavimento o estalo do crânio...Era o velho! Morto também, roxo e apodrecido!...Eu o vi: da boca lhe corria uma escuma esverdeada”.


OBSERVAÇÕES:

Nesse conto, a falta de virtudes morais do protagonista leva-o a desonrar a filha de seu mestre de pintura, mesmo amando loucamente a jovem esposa de seu preceptor. Seu ato é consciente, apesar de sua pouca idade. Tinha também consciência, ao descobrir que a jovem estava grávida, de que deveria assumir a paternidade e honradamente casar-se com ela. Entretanto, sabia que, se o fizesse, perderia qualquer chance de seduzir a mulher do mestre. Assim, deixou que a jovem fosse levada ao desespero de cometer o aborto e deixar-se morrer de tristeza e dor. Acaba conseguindo realizar seu intento e seduz a mulher do mestre. Este, tomado pela loucura, acaba descobrindo tudo e tenta matá-lo. Julgando-o morto, envenena a esposa e comete suicídio.
A epígrafe trabalha com a ideia de matar ou morrer, que se configura no clímax do conto.

CONTO V



CLAUDIUS HERMANN


Hermann é chamado para contar também a sua história.
Johann ergueu sua cabeça da mesa e zombou de Hermann dizendo que ele estava a sonhar com algum soneto no estilo de Petrarca.
Claudius a delirar disse que nesta vida também desfolhou crenças e despiu suas roupas perfumadas para trajar a túnica de saturnal.
Bertram empolgou-se dizendo que Claudius está completamente bêbado e romântico.
A história de Claudius passou-se em Londres.
Ele era um jovem rico, amante de prazeres e jogatinas.
“O suor de três gerações, derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias...”
Durante uma corrida de cavalos, enquanto todos estavam apreensivos, passou uma mulher a cavalo e despertou a atenção de Claudius.

 
Era uma mulher de “beleza plástica e harmônica, linda nas suas cores puras e acetinadas, nos cabelos negros e a tez branca da fronte, o oval das faces coradas, o fogo de nácar”.

Os amigos riem, ironizando o romantismo de Claudius.
“Romantismo! Deves estar muito ébrio, Claudius, para que nos teus lábios secos de Lovelace e na tua insensibilidade de D. Juan venha á poesia ainda passar-te um beijo!”
Bertram gritou por poesia e Claudius definiu a poesia como sendo meio cento de palavras sonoras e homens pálidos...”O vôo das aves da manhã”.
O jovem retrucou o escárnio dos rapazes. Em seguida, o pessoal pede para ele deixar de falar coisas que ninguém entende e prosseguir em sua história.
Claudius retomou a narrativa.
Naquele dia, no turfe com uma aposta, Claudius conseguiu dobrar a sua fortuna, mas o que mais lhe marcou foi à imagem daquela bela mulher.
No dia seguinte, reencontrou-a no teatro. Ficou tão pasmado que não prestou sequer a atenção ao que representavam na época.
Essa mulher era a duquesa Eleonora. Em outro dia, reviu-a num baile e assim passaram seis meses de febre de amor.
Uma noite não bastando somente a admirá-la de longe, subornou um empregado do castelo da duquesa, tirou uma cópia de suas chaves e invadiu o castelo à noite.
A duquesa cansada do baile adormecera num divã.
“Parecia uma fada que dormia ao luar...”
Desesperado por seu amor, havia jurado a si próprio que naquela noite ele a possuiria.
“Quanto a esses prejuízos de honra e adultério, não rias dele – não que ele ria disso. Amava e queria: a sua vontade era como a folha de um punhal – ferir ou estalar”.
Na mesa encontrava-se um copo e um frasco de vinho espanhol. Chegou perto da moça, deu-lhe um beijo e semi-adormecida, ela murmurou “amor”.
Claudius pegou de um frasco de narcótico com afrodisíaco, despejou algumas gotas em seus lábios e ela caiu em um sono profundo. Então, Claudius, aproveitou-se da fragilidade de Eleonora e amou-a.
“Depois daquela mulher nada houvera mais para mim. Quem uma vez bebeu o suco das uvas purpurinas do paraíso mais nunca deve inebriar-s do néctar da terra...”
Um mês se passou e a cena repetiu-se.
Uma noite após outro baile, ele a esperou escondido em seu quarto com o narcótico preparado num copo junto à sua cabeceira. Eleonora entrou com o duque Maffio. Fizeram-se carícias e o duque tomou alguns goles do líquido. A esposa apaixonada tomou-lhe o copo das mãos e terminou de beber o restante.
Eleonora perguntou ao marido se ele voltaria naquela noite e ele, confirma que sim.
Claudius escondido a assistir a cena, riu, pois tinha certeza que o marido estaria em sono profundo.
Eleonora começou a despir-se deixando Claudius completamente enlouquecido, mas como o preparado era muito forte, ela deixou-se cair de sono.
Claudius pegou a duquesa e a raptou, levando-a para uma estalagem e velando o seu sono.
Quando a moça acordou ficou desesperada, perguntava se aquilo não era um sonho, onde estava e quem era o homem encostado em seu leito, além de estar envergonhada por estar quase nua na frente de um estranho.
Eleonora não entendia que estava acontecendo. Tinha dormido em seu palácio e acordou em um lugar estranho. Ela perguntava sobre o marido e chegou a acreditar que fosse até brincadeira dele para assustá-la.
Desesperada, ela ajoelhou-se, implorou, questionou, no entanto, Claudius só a escutou e nem sequer ouviu suas palavras, perdido como estava com sua beleza.
A duquesa cobriu os seios e correu até a janela para gritar por socorro. Claudius a impediu tapou sua boca e passou a lhe dar explicação.
Claudius confessou sobre seu amor louco por ela e de seu passado.
Eleonora respondeu:
“- Meu Deus! Meu Deus! Por que tanta infâmia, tanto lodo sobre mim? Ó minha madona! Por que maldissestes minha vida, por que deixaste cair na minha cabeça uma nódoa tão negra?
Claudius pediu-lhe perdão e jurou tornar-se seu escravo. Disse-lhe que deitará aos seus pés, protegê-la o tempo todo e se um dia ela pudesse amá-lo...
Ela perguntou se ele não tinha compaixão por ela, pediu-lhe de joelhos que a perdoasse caso ela tivesse lhe ofendido e acrescentou que ela não tinha culpa dos sonhos dele e de seus desejos por ela.
Vendo-se completamente perdida, ela, então pediu que ele a matasse. Claudius diz que ela estava sendo insensata por desejar a morte, que havia muita vida e muito amor por se amar ainda. Ela responde que é impossível amá-lo.
“Põe a mão no teu coração...bate...e bate com força como o feto nas entranhas de sua mãe. Há ali dentro muita vida ainda, muito amor por amar, muito fogo por viver! Oh! Se tu quisesses amar-me!”
Claudius tentou convencê-la que era tarde para voltar atrás. As pessoas teriam ódio dela, principalmente Maffio, pois seria considerada como uma mulher adúltera. Todos zombariam e se afastariam dela. Agora, se ela ficasse, teria um amante apaixonado.
Disse ser muito rico a ponto de adorná-la como uma rainha, viajariam e seriam felizes. Deixou-a á sós para pensar e retornou duas horas depois.
Ao voltar, encontrou Eleonora deitada com o rosto entre as mãos e ele pode ver um papel molhado por suas lágrimas. Reconheceu serem seus versos que escreveu pensando nela. Viu também sobre a mesa sua carteira revirada.
Nesse momento, Claudius tirou do bolso um papel amarrotado e atirou na mesa. Os versos foram lidos por Johann.

Não me odeies, mulher, se no passado
Nódoa sombria desbotou-me a vida,
- É que os lábios queimei no vício ardente
E de tudo descri com fronte erguida.

A máscara de Don Juan queimou-me o rosto
Na fria palidez do libertino:
Desbotou-me esse olhar...e os lábios frios
Ousam maldizer do meu destino.

Sim! Longas noites no fervor do jogo
Esperdicei febril e macilento
E votei o porvir ao Deus do acaso
E o amor profanei no esquecimento!



..................................



E então acordarei ao sol mais puro,
Cheirosa a fronte às auras da esperança!
Lavarei-me da fé nas águas d’ouro
De Madalena em lágrimas!...e ao anjo



Talvez que Deus me dê, curvado e mudo,
Nos eflúvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lábios dele!


Claudius perguntou a decisão de Eleonora. Ela ajoelhou-se, rezou, disse que iria com ele e, em seguida, desmaiou.
Claudius abaixou a cabeça na mesa e não conseguiu prosseguir a sua história. Archbald perguntou-lhe se ele estava bêbado ou morto. Levantou a cabeça e disse que estava com sono. Solfieri insistiu na continuação da história, mas Claudius estava sem condições. Disse, inclusive, que tinha esquecido tudo.
Arnold, o louro que acabara de acordar, pediu paciência que ele terminaria a história.
Disse que um dia Claudius entrou em casa e encontrou a cama ensopada de sangue e num canto escuro um homem abraçado a um cadáver.
O cadáver era Eleonora e o doido que estava quase que irreconhecível, mas, que Claudius o reconheceu, era Maffio.
“...o doido nem o pudéreis conhecer tanto a agonia o desfigurara! Era uma cabeça hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto, como a emanação luminosa dos pauis entre as trevas...”
Claudius soltou uma gargalhada e caiu no chão bêbado.
Arnold esticou a capa no chão e deitou-se sobre ela e roncou.

OBSERVAÇÕES:

O protagonista do conto é um jovem rico e devasso, entregou a sua juventude ao jogo e ao amor com prostitutas. De repente, é tomado de paixão por uma jovem duquesa casada e apaixonada pelo marido. Sabendo da impossibilidade de conquistá-la por meio convencionais, consegue obter de um criado ambicioso uma cópia da chave da duquesa e vai visitá-la enquanto ela dorme. Lançando mão de um sonífero, apesar da mulher estar dormindo, satisfaz seus desejos sexuais. Cabe ressaltar que o protagonista não vê qualquer mal em sua atitude, pois visa unicamente à satisfação de seus apetites sexuais. Não satisfeito, entretanto, com as incursões noturnas, termina por raptá-la e tenta aceitá-lo como amante. O final do conto é marcado pela tragédia: o marido assassina a esposa adúltera e fica abraçado ao cadáver, tomado pela loucura.
Encontram-se, nesse conto, os elementos amor e medo. Ele só atinge a realização de seus objetivos porque a mulher dorme profundamente.
O autor toma Shakespeare como referência, empregando uma epígrafe que alude à temática do êxtase.

CONTO VI



“JOHANN”


Johann reclama a sua vez de contar sua história. Foi em Paris, num bilhar, bêbado de kirsch (bebida destilada de cerveja) e curaçau (licor). Jogava contra um moço chamado Arthur.
Arthur era uma figura loira e mimosa como uma donzela.
Faltava só um ponto para Artur vencer; para Johann faltavam muitos.
Quando soltou a bola, o bilhar estremeceu, a bola desviou e ele perdeu o jogo. Não se sabe se o moço fez isso de propósito. Arthur olhou para Johann e sorriu com escárnio. Johann tomado de raiva deu uma bofetada em Arthur e, este revidou com um punhal, mas os amigos o detiveram.
Arthur jogou-lhe uma luva contra o rosto de Johann, “era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue”, então, estabeleceram um duelo.
Artur diz que escolheria as suas armas e que o lugar Johann saberia. O duelo seria realizado naquela hora e não teriam testemunhas.
Deram-lhe os braços e saíram. Os amigos pensaram que tinha havido uma reconciliação, somente um dos assistentes percebeu a gravidade do problema e tentou convencê-los a entrarem num acordo.
No entanto, eles deixaram bem claro que estavam firmes em suas decisões.
Arthur levou Johann até o seu hotel e disse que já que não teriam perdão, que seria um duelo de morte.
“- Senhor – disse ele – não há meio de paz entre nós: um bofetão e uma luva atirada às faces de um homem são como nódoas que só o sangue lava”.
Artur pediu-lhe para esperar alguns minutos, escreveu algumas linhas e entregou a Johann que se negou a ler.
“- Senhor, sois um homem de honra. Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma carta, entregareis tudo a...Depois dir-vos-ei a que...”
Em seguida, selou o lacre com um anel que trazia nos dedos e ao ver o anel, uma lágrima corou sua face, molhando o papel.
Pediu a Johann caso ele morresse, para ele pegar aquele anel e a carta que se encontrava em seu bolso e entregar...
Antes do duelo, decidiram tomar vinho do Reno e brindarem àquele que morreria. Arthur pede permissão para brindar alguém, mas que era segredo.
Depois, Artur apanhou duas pistolas e disse que uma delas estava carregada. Atirariam à queima-roupa.
Johann protestou dizendo que isso era assassinato, mas, depois acabou por concordar. Foram até um canto deserto da rua, Artur pede que Johann escolha a sua pistola sem tocá-la. Artur tem um pressentimento e pede para rezar por sua mãe. Vendo essa cena, Johann lembrou-se que também tinha mãe, e irmã e que, sempre as esquecia perdido como estava nesse mundo de orgias. Acrescentou que até então só havia amado mulheres perdidas.
Encostaram, finalmente, as pistolas nos peitos.
“As espoletas estalaram, um tiro só estrondou, ele caiu morto...”
Artur estava no chão.
Johann tirou-lhe o anel e encontrou em seu bolso dois bilhetes. Como estava escuro, teve de esperar chegar à cidade para lê-los. Um bilhete era para sua mãe e o outro que estava aberto, estava escrito:
“À uma hora da noite na rua de...número 60, primeiro andar; acharás a porta aberta. Tua G.”
Sem saber o que pensar e tomado de ideias imorais, dirigiu-se ao local. Estava escuro.
“Tinha no dedo o anel que trouxera do morto...Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão, subi. A porta fechou-se”.



Naquela noite, Johann amou a amante virgem de Artur e confessou ter sido uma noite deliciosa.

Ao sair, deparou-se com um vulto. A voz parecia-lhe conhecida. Dizia esperá-lo há muito tempo. O vulto acompanhou Johann e ele pode ver uma lâmina em sua mão. Lutaram no escuro.
O adversário perdeu o punhal. Johann conseguiu sufocar com o joelho a garganta do desconhecido que, antes de morrer, mordeu com violência sua mão.
Na saída Johann, tropeçou em uma lanterna, quis ver o rosto do homem que acabara de matar. Johann não acreditou no que vira, arrastou o cadáver até a calçada para ver melhor com a luz do lampião e reconheceu que o jovem morto era seu irmão.
Uma ideia martelava em sua mente, subiu correndo as escadas e encontrou a moça desmaiada de susto por causa da luta.
Desesperado Johann interrompeu sua narrativa para pedir mais conhaque, pois estava tremendo. Perguntaram o que ele tinha e Johann respondeu que ele descobriu que tinha amado a sua própria irmã

OBSERVAÇÕES:

A narrativa é marcada pelo clima boêmio que dominou o comportamento dos jovens do século passado, frequentadores assíduos de tavernas, cafés e bilhares. Misturavam-se nessa atitude típica de rebeldia contra a sociedade burguesa os comportamentos desregrados, tais como a jogatina, a sexualidade despudorada, o alcoolismo, a violência dos duelos, enfim uma vida marcada por valores repudiados pelas pessoas de bem.
O conto tem seu espaço inicial marcado em Paris, onde ocorre um duelo, um incesto e ainda um fratricídio. O que fica bem evidente, como nos demais contos, é o comportamento amoral, degradante e desprezível do protagonista. Johann, não satisfeito de matar num duelo por causa de um jogo de bilhar, ainda se aproveita de um pedido do antagonista (Artur), que confiando em sua dignidade, desvirginou a amante do rapaz (sua própria irmã) e, ainda não saciado em seu absoluto declínio moral, mata o irmão que surge para defender a honra da moça (no caso, seu próprio irmão). Assim se sucedem degradantes situações que ora chocam, ora assustam pelo absurdo das situações e coincidências.
Mário de Andrade considera que esse caso de incesto coincide com o comportamento do próprio Álvares de Azevedo, que sentiria profunda atração pela própria irmã como, aliás, boa parte da crítica costuma considerar, “de tudo ressaltando muito bem, e com violenta sensualidade, a esplendidez do ente irmã”.
Outro elemento importante é o caráter de Artur, cuja descrição aproxima-o da ambiguidade da personagem Ângela, claro que por oposição.
A epígrafe desse conto, de autoria de Alexandre Dumas, coloca a ideia da evasão, bem como a inadequação do indivíduo ao seu tempo e à impossibilidade de uma alegria presente. Assim, o indivíduo busca a dor através da memória, do passado.

CONTO VII



“ÚLTIMO BEIJO DE AMOR”

“A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos, nas trevas”.
Enquanto todos dormiam, a porta da taverna abriu-se e entrou uma mulher vestida de negro. Talvez tivesse sido bonita, hoje parecia mais um anjo perdido da loucura.
A mulher carregava uma lanterna na mão à procura de um rosto conhecido.
“Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo, alongou os lábios...Mas uma ideia a susteve. Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os beiços, o olhar tornou-se-lhe sombrio”.
Abaixou-se e colocou uma lâmina no chão. Em seguida, segurou-lhe na garganta.
Levantou, tremeu e, ao segurar a lanterna, ressoou na mão um ferro.
Suas mãos tremiam, atirou o punhal no chão e limpou suas mãos vermelhas de sangue nos cabelos de Johann. A mulher misteriosa encaminhou-se até Arnald, acordou-o e perguntou se ele não a reconhecia.
Arnold ficou surpreso, fazia cinco anos que não se viam.
“-Sim, já não sou bela como há cinco anos! É a verdade, meu louro amante! É que a flor da beleza é como todas as flores. Alentai-as ao orvalho da virgindade, ao vento da pureza, e serão belas...Revolvei-as no lodo...e, como os frutos que caem e mergulham nas águas do mar, cobrem-se de um invólucro impuro e salobre! Outrora era Giórgia – a virgem mas hoje é Giórgia – a prostituta!”
Arnold recordou-se daquela noite a cinco anos atrás; o jogo de bilhar; o duelo; o hospital onde acordou ensanguentado após o duelo com o homem do bilhar e a vida devassa que lhe restou.
Giórgia diz que veio se despedir. Queria um beijo de adeus, da separação, pois na terra o seu amor seria impuro, não via possibilidade de um amor entre uma prostituta e um libertino. Satã riria deles.
Arnold diz que teria sido melhor ter morrido devorado pelos cães na rua deserta a ser salvo. Que teria sido melhor morrer ébrio a vê-la e perdê-la novamente.
“Não pensaste que, após cinco anos, cinco anos de febre e de insônias, de esperar e desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para deixar-te?”
“- Compaixão, Arnold! É preciso que esse adeus seja longo como a vida. Vês, minha sina é negra: nas minhas lembranças há uma nódoa torpe...Hoje! É o leito venal...Amanhã! Só espero o leito do túmulo! Arnold! Arnold!”
“- Não me chames Arnold! Chama-me Artur, como dantes. Artur! Não ouves? Chama-me assim! Há tanto que não ouço me chamarem por este nome!...Eu era um louco! Quis afogar meus pensamentos e vaguei pelas cidades e pelas montanhas, deixando em toda a parte lágrimas...nas cavernas solitárias, nos campos silenciosos e nas mesas molhadas de vinho! Vem, Giórgia! Senta-te aqui, senta-te nos meus joelhos, bem conchegada a meu coração...tua cabeça no meu ombro! Vem! Um beijo! Quero sentir ainda uma vez o perfume que respirava outrora nos teus lábios. Respire-o eu e morra depois!...Cinco anos! Oh! Tanto tempo a esperar-te, a desejar uma hora no teu seio!...Depois...escuta...tenho tanto a dizer-te! Tantas lágrimas a derramar no teu colo! Vem! E dir-te-ei toda a minha história! Minhas ilusões de amante e as noites malditas da crápula e o tédio que me inspiravam aqueles beiços frios das vendidas que me beijavam! Vem! Contar-te-ei tudo isto, dir-te-ei como profanei minha alma e meu passado...e choraremos juntos...e nossas lágrimas nos lavarão como a chuva lava as folhas do lodo!
- Obrigada, Artur! Obrigada!
A mulher sufocava-se nas lágrimas, e o mancebo murmurava entre beijos palavras de amor.
- Escuta Artur, eu vinha só dizer-te adeus! Da borda do meu túmulo; e depois contente fecharia eu mesma a porta dele...Artur, eu vou morrer!
Ambos choravam.
- Agora vê – continuou ela. – Acompanha-me: vês aquele homem?
Arnold tomou a lanterna.
- Johann! Morto! Sangue de Deus! Quem o matou?
- Giórgia! Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um mancebo a quem esbofeteara numa casa de jogo. Giórgia – a prostituta! Vingou nele Giórgia – a virgem! Esse homem foi quem a desonrou! Desonrou-a...a ela que era sua irmã..."
Giórgia após revelar seu segredo disse que se continuasse viva, haveria uma lembrança em seu passado e que estava morrendo. Arnold diz não se importar com o sonho da morte. Preferia morrer juntos.


"A mulher recuava...recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos dela...Ela deu um grito e caiu-lhe das mãos. Era horrível de ver-se. O moço tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-o no peito e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo.

A lâmpada apagou-se”.


OBSERVAÇÕES:

A última parte do livro revela bem seu caráter nitidamente romântico. A irmã desvirginada no ato incestuoso do irmão Johann retorna para vingar-se, depois de tornar-se prostituta. Revela-se ainda que Arnold na verdade é Artur, o jovem que supostamente fora morto no duelo com Johann. Giórgia vinga-se tirando a vida do irmão e reencontra o antigo amante, terminando por morrer em seus braços. Arnold, vendo a amada, reencontrada depois de cinco anos em seus braços, mata-se, caindo sobre o seu corpo.
O título sugere bem o clima dessa última parte, pois é a despedida final dos amantes e ainda o encerramento da obra. É um beijo mortal e último, que se encerra com a morte dos protagonistas. Esse clima de desamor ou de amor impossível predomina, traduzindo com bastante clareza a visão do amor impossível ou do amor degradado que paira sobre os jovens escritores do romantismo.
Cabe também ressaltar que essa última parte sugere em seu clímax um desfecho de tragédia, aproximando o texto, que também emprega constantemente o diálogo, das peças dramáticas.
A epígrafe desse conto retoma, ainda uma vez, Shakespeare, traduzindo a ideia de amor e morte, que se configura no clímax do texto.

2 comentários:

Anônimo disse...

OOOTIMO RESUMO

Anônimo disse...

Parabéns! Está muito completo... me ajudou muito =)